O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 3 de 8 · parte 1/2

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O Guardião

Laura Shane, dos 12 aos 17 anos,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

Dois

 

A CHAMA PERMANENTE

 

1

Laura Shane, dos 12 aos 17 anos, foi como uma planta levada pelo vento nos desertos da Califórnia, parando para descansar aqui e ali brevemente, outra vez arrancada e carregada, logo que o vento se erguia.

Não tinha parentes e não podia ficar com os melhores amigos do seu pai, os Lance. Tom tinha 62 anos e Cora 57. Estavam casados há 15 anos e não tinham filhos. A perspectiva de criar uma menina os apavorava.

Laura compreendia, e não os culpava. Em agosto, quando deixou a casa dos Lance na companhia de uma mulher da Agência para o Bem-Estar das Crianças de Orange County, Laura beijou Cora e Tom e garantiu a eles que ia ficar bem. Afastando-se no carro da assistente social, acenou alegremente, esperando que eles se sentissem absolvidos.

Absolvidos. A palavra era uma aquisição recente. Absolvido: livre das conseqüências dos próprios atos; libertar ou liberar de algum dever, obrigação ou responsabilidade. Gostaria de se absolver da obrigação de seguir seu caminho no mundo sem a orientação de um pai amoroso, absolver-se da responsabilidade de viver e levar adiante sua lembrança.

Da casa dos Lance foi levada para um abrigo infantil — O Lar Mcllroy —, uma velha e dilapidada mansão vitoriana de 27 quartos, construída por um magnata nos dias da glória agricultura de Orange County. Mais tarde foi convertida em internato para abrigar as crianças órfãs, provisoriamente, entre uma família adotiva e outra.

Era uma instituição diferente de todas sobre as quais Laura havia lido nas histórias. Para começar, não tinha freiras bondosas com hábitos negros flutuantes.

E havia Willy Sheener.

Laura o viu logo que chegou, quando a sra. Bowmaine mostrava o quarto que ela ia compartilhar com as gêmeas Ackerson e uma menina chamada Tammy. Sheener estava varrendo o hall de azulejo com uma vassoura tipo feiticeira.

Ele era forte, magro, pálido, sardento, tinha mais ou menos trinta anos, cabelos vermelhos e olhos verdes. Sorria e assobiava baixinho enquanto trabalhava. — Como vai a senhora esta manhã, sra. Bowmaine?

— Otimamente, Willy. — Era evidente que ela gostava de Sheener. — Esta é Laura Shane, nova aqui. Laura, este é o sr. Sheener.

Sheener olhou para Laura com uma intensidade arrepiante. Quando conseguiu falar, sua voz estava arrastada:

— Hã... seja bem-vinda a Mcllroy.

Acompanhando a assistente social, Laura olhou para trás, para Sheener. Ele levou a mão à virilha e lentamente começou a se acariciar.

Laura não olhou mais para o homem.

Mais tarde, quando estava desfazendo as malas, procurando fazer com que sua parte do quarto no terceiro andar parecesse o mais possível com sua casa, voltou-se e viu Sheener na porta. Laura estava sozinha pois as outras crianças brincavam no pátio ou na sala de jogos. O sorriso dele não era o mesmo com que tinha cumprimentado a sra. Bowmaine. Era frio e predatório. A luz de uma das duas pequenas janelas refletia-se nos seus olhos, fazendo-os parecer prateados e não verdes, como os olhos opacos de um morto.

Laura tentou falar, mas não conseguiu. Recuou até encostar na parede ao lado da cama.

O homem ficou com os braços ao longo do corpo, imóvel, os punhos fechados.

O Lar Mcllroy não tinha ar-condicionado. As janelas estavam abertas, mas o quarto extremamente quente. Porém, Laura só começou a transpirar depois de ver Willy Sheener. Agora, sua camiseta estava molhada.

Lá fora as crianças gritavam e riam. Estavam tão perto mas pareciam tão distantes.

A respiração áspera e ofegante de Sheener parecia cada vez mais alta, aos poucos abafando as vozes das crianças.

Durante um longo tempo nenhum dos dois se moveu nem falou. Então, bruscamente ele deu meia-volta e foi embora.

Com as pernas bambas, inundada de suor, Laura sentou na beirada da cama. O colchão velho afundou e as molas estalaram sob ela.

Enquanto seu coração voltava ao normal, observou o quarto com uma sensação de desespero. Nos quatro cantos havia camas estreitas de ferro com colchas gastas de chenilha e travesseiros encaroçados. Cada uma tinha uma mesa-de-cabeceira com tampo de fórmica e uma lâmpada de metal. A cômoda arranhada tinha oito gavetas, duas para calo ocupante do quarto. Havia também dois armários e a metade de um deles lhe pertencia. As cortinas eram antigas e desbotadas e pendiam flácidas e sujas das armações enferrujadas. A casa toda era embolorada e sinistra; pairava no ar um cheiro desagradável; e Willy Sheener vagava pelos corredores e pelos quartos como um espírito maligno à espera da lua cheia para os jogos sangrentos que ela inspirava.

Naquela noite, depois do jantar, as gêmeas Ackerson convidaram Laura para sentar no tapete do quarto, com a porta fechada, e trocar segredos.

A outra menina — uma loura estranha, quieta e frágil, chamada Tammy — não se interessou pela brincadeira. Encostada nos travesseiros, lia um livro, roendo as unhas continuamente, como um ratinho.

Laura gostou imediatamente de Thelma e Ruth Ackerson. Tinham feito 12 anos recentemente e eram apenas alguns meses mais moças do que Laura. Eram bastante sensatas para a idade. Ficaram órfãs aos nove anos e há quase três estavam no abrigo. Era difícil encontrar pais adotivos para crianças naquela idade, especialmente quando se tratava de gêmeas que insistiam em ficar juntas.

Eram idênticas e nada bonitas: cabelos castanhos sem brilho, olhos míopes da mesma cor, rostos largos, queixos redondos, bocas largas. O que faltava em beleza abundava em inteligência, boa disposição e bom gênio.

Ruth estava de pijama azul com rolotê verde nos punhos e na gola e chinelos azuis, o cabelo penteado com um rabo-de-cavalo. O pijama deTelma era cor de cereja e os chinelos amarelos peludos, cada um com dois botões fingindo olhos, o cabelo solto.

O calor insuportável havia melhorado com o cair da noite. Estavam a menos de vinte quilômetros do Pacífico e as brisas do mar refrescavam o ar. Agora, com as janelas abertas, o vento suave agitava as cortinas e circulava pelo quarto.

— O verão aqui é uma chatice — disse Ruth, quando sentaram no chão. — Não podemos sair da propriedade e o espaço não é suficiente.. E no verão todas as pessoas caridosas estão ocupadas com as férias e viagens para pensar em nós.

— Mas o Natal é ótimo — retrucou Thelma.

— Novembro e dezembro são formidáveis — acrescentou Ruth.

— É isso — disse Thelma. — As festas são boas porque as pes soas caridosas começam a se sentir culpadas por terem tanto, quando nós temos tão pouco e porque usamos casacos de papel, sapatos de papelão e comemos a sopa do ano passado. Então mandam cestos de guloseimas, nos levam para fazer compras e ao cinema, mas nunca para ver bons filmes.

— Ora, de alguns eu gosto — disse Ruth.

— O tipo de filmes onde ninguém nunca é exterminado. E nunca um bom namoro. Nunca nos levam para ver um filme onde o cara põe a mão no seio da garota. Filmes para famílias. Chatos, chatos, chatos.

— Tem de perdoar minha irmã — Ruth disse para Laura. — Ela pensa que está na idade trêmula da puberdade...

— Eu estou na idade trêmula da puberdade! Sinto meu vigor em crescimento — declarou Thelma, levantando o braço magro acima da cabeça.

— A falta de orientação dos pais — disse Ruth — está fazendo efeito agora. Thelma não se adaptou ao fato de ser órfã.

— Tem de perdoar minha irmã — pediu Thelma. — Ela resolveu pular a puberdade e passar diretamente da infância para a senilidade.

— O que me dizem de Willy Sheener? — Laura perguntou.

As meninas trocaram um olhar significativo e falaram com per feita sincronização, sem perda de um segundo entre as duas opiniões.

— Oh, um homem perturbado — disse Ruth.

— Ele é um lixo — opinou Thelma.

— Precisa de terapia — declarou Ruth.

— Não, o que precisa é de uma boa pancada na cabeça com um taco de beisebol, uma só não, 12 ou mais e depois ficar preso pelo resto da vida — disse Thelma.

Laura contou a atitude de Sheener na porta do quarto.

— Ele não disse nada? — perguntou Ruth. — É sinistro. Geral mente ele diz "você é uma garota muito bonita", ou...

— ... oferece balas — completou Thelma com uma careta. — Pode imaginar! Balas! Que vulgar! É como se tivesse aprendido a ser um ordinário lendo aquelas circulares da polícia para orientar crianças contra os pervertidos.

— Nada de balas — disse Laura estremecendo ao lembrar os olhos prateados de Sheener e sua respiração ofegante e áspera.

Thelma inclinou-se para a frente e disse em voz muito baixa:

— Parece que o Enguia Branca perdeu a fala, ficou quente de mais para pensar nas coisas que costuma dizer.

— Enguia Branca?

— Sheener — disse Ruth — ou apenas Enguia.

— Pálido e escorregadio como é — acrescentou Thelma —, o apelido é perfeito. Aposto que o Enguia tem uma queda especial por você.

-Quero dizer, garota, você é bacana.

— Nada disso — respondeu Laura.

— Está brincando? — perguntou Ruth. — Esse cabelo castanho, esses olhos imensos.

Laura corou e começou a protestar mas Thelma disse:

— Escute, Shane, O Duo Deslumbrante... Ruth e moi... não suporta falsa modéstia e nem gabolice. Somos do tipo direto. Conhecemos nossas forças e nos orgulhamos delas. Deus sabe que nenhuma de nós duas vai ser Miss América, mas somos inteligentes, muito inteligentes e não negamos isso. E você é maravilhosa, portanto, pare de se fazer de tímida.

— Minha irmã às vezes é direta demais e muito explícita — disse Ruth, desculpando-se.

— E minha irmã — debochou Thelma — está ensaiando para o papel de Melanie em ...E o vento levou. — Com sotaque sulino carregado e exagerada bondade na voz, continuou: — Oh, Scarlett não quer lazer mal a ninguém. Scarlett é uma moça adorável, de verdade. Rhett tem um coração tão bom também, e até os ianques são adoráveis, mesmo os que saquearam Tara, queimaram nossas plantações e fizeram botas com a pele das nossas crianças.

Laura começou a rir antes de Thelma terminar.

— Portanto, deixe esse ato de mocinha modesta, Shane! Você é linda.

— Certo, certo. Sei que sou... bonitinha.

— Garota, quando o Enguia Branca te viu, deu um curto-circuito na cabeça dele.

— Isso mesmo — disse Ruth —, você o deixou tonto. Por isso ele nem conseguiu lembrar de oferecer as balas que sempre leva nos bolsos.

— Balas! — exclamou Thelma. — Saquinhos de caramelos, biscoitos!

— Laura, tenha muito cuidado — avisou Ruth. — Ele é um homem doente...

— Ele é uma lagartixa! — protestou Thelma. — Um rato de esgoto!

Do outro lado do quarto, Tammy disse com voz suave:

— Ele não é tão mau assim.

A menina loura era tão quieta, tão magra e sem graça, sempre uma sombra no cenário de fundo, que Laura havia esquecido dela. Tammy deixou o livro que lia e sentou na cama dobrando as pernas contra o peito, e segurando-as com os braços. Tinha dez anos, dois a menos do que suas companheiras de quarto e era pequena para a idade. Com a camisola branca e meias, Tammy era mais uma aparição do que uma pessoa real.

— Ele nunca machucaria ninguém — disse hesitante, como se o fato de dar sua opinião sobre Sheener, sobre qualquer pessoa ou qualquer coisa, fosse como andar numa corda sem a rede protetora por baixo.

— Ele machucaria qualquer um se tivesse oportunidade — disse Ruth.

— Ele é só... — Tammy mordeu os lábios. — Ele é... muito só.

— Não, meu bem — disse Thelma —, ele não é muito só. Está tão apaixonado por ele mesmo, que jamais fica sozinho.

Tammy desviou os olhos, levantou, calçou o chinelo e murmurou:

— Está quase na hora de dormir.

Tirou seus objetos de toalete da mesa-de-cabeceira e saiu do quarto fechando a porta, dirigindo-se para um dos banheiros no fim do corredor.

— Ela aceita as balas — explicou Ruth.

Uma onda gelada de repulsa Invadiu Laura.

— Oh, não.

— Sim, ela aceita — disse Thelma. — Não porque quer as balas.

Ela é... confusa. Precisa do tipo de aprovação que o Enguia pode dar.

— Mas, por quê? — perguntou Laura.

Ruth e Thelma trocaram olhares, como se estivessem debatendo um assunto e chegando a uma decisão em um ou dois segundos, sem nenhuma palavra. Com um suspiro, Ruth explicou:

— Bem, você compreende, Tammy precisa desse tipo de aprovação porque... o pai a ensinou a precisar dela.

Laura ficou chocada.

— O próprio pai?

— Nem todas as crianças em Mcllroy são órfãs — disse Thelma.

— Algumas estão aqui porque os pais cometeram crimes e estão na prisão. Outras sofreram abusos por parte dos pais, físicos ou... sexuais.

O ar que entrava pela janela provavelmente havia esfriado um pouco desde o começo da conversa, mas para Laura era como se de repente um vento misterioso de outono tivesse saltado os meses do ano, infiltrando-se na noite de verão.

— Mas Tammy na verdade não gosta disso? — Laura quis saber.

— Acho que não — disse Ruth. — Mas ela é...

— ... compelida — terminou Thelma. — Não pode evitar. É uma deformação.

Ficaram caladas, pensando no impensável e finalmente Laura disse:

— Estranho... e tão triste. Não podemos acabar com isso? Não 50 podemos contar para a sra. Bowmaine ou outra assistente social o que Sheener faz?

— Não ia adiantar — respondeu Thelma. — O Enguia vai negar tudo e Tammy também e não temos nenhuma prova.

— Mas se ela não for a única, talvez uma das outras...

Ruth balançou a cabeça.

— Quase todas já foram para lares provisórios ou voltaram para casa. As duas ou três que ainda estão aqui... bem, são como Tammy ou morrem de medo do Enguia, não teriam coragem de acusá-lo.

— Além disso — disse Thelma —, os adultos não querem saber, não querem tratar desse assunto. Má publicidade para a casa. E vão parecer idiotas por terem permitido que isso acontecesse bem debaixo do seu nariz sem que tivessem percebido. Além do mais, quem acredita em crianças? — Thelma imitou a sra. Bowmaine com tanta perfeição que Laura reconheceu imediatamente a voz da assistente social.

Oh, minha querida, elas são horríveis, umas criaturinhas extremamente mentirosas. Barulhentas, briguentas, uns animaizinhos incômodos, capazes de destruir a ótima reputação do sr. Sheener só para se divertir. Se ao menos pudessem ser drogadas, dependuradas em cabido na parede e alimentadas endovenosamente, o sistema seria muito mais eficiente, minha cara, e muito melhor para elas também.

— Então o Enguia estaria livre — disse Ruth —, ia voltar ao trabalho e encontrar meios de nos fazer pagar pela denúncia. Já aconteceu antes com outro pervertido que trabalhava aqui, um cara que chamávamos de Fogel, a Doninha. Pobre Denny Jenkins...

— Denny denunciou Fogel, a Doninha; contou para a sra. Bowmaine que ele havia abusado dele e de mais dois garotos. Fogel foi suspenso. Mas os outros dois garotos não confirmaram a história de Denny. Tinham medo da Doninha... mas tinham também aquela necessidade doentia da sua aprovação. Quando Bowmaine e os outros interrogaram Denny...

— Eles praticamente o atacaram com perguntas capciosas, tentando confundir o garoto. Ele ficou confuso, caiu em contradição e eles disseram que estava inventando tudo — completou Ruth, furiosa.

— E a Doninha voltou ao trabalho — disse Thelma.

— Ele não teve pressa — continuou Ruth — e então descobriu meios para atormentar a vida de Denny. Perseguiu o garoto incessantemente até que um dia... Denny começou a gritar e não parou mais.

O medico teve de dar uma injeção nele e depois o levaram embora.

Emocionalmente perturbado, disseram — Ruth estava quase chorando. — Nunca mais o vimos.

Thelma pôs a mão no ombro da irmã e disse para Laura:

— Ruth gostava de Denny. Ele era um bom menino. Pequeno, tímido, um doce... não teve nenhuma chance. Por isso precisamos ser duros com o Enguia Branca. Não podemos deixar que perceba que temos medo. Se ele tentar alguma coisa, grite. E dê um pontapé no meio das pernas dele.

Tammy voltou do banheiro. Sem olhar para as outras meninas, tirou o chinelo e deitou-se sob as cobertas.

Embora chocada com a idéia de Tammy com Sheener, Laura olhou para a frágil garota loura com mais simpatia do que repulsa. Nada podia ser mais patético do que a menina tão pequena, solitária e derrotada, na cama estreita e afundada no meio.

Naquela noite Laura sonhou com Sheener. O homem tinha cabeça humana mas o corpo de uma enguia branca e sempre que Laura corria, ele escorregava para ela, passando por debaixo das portas fechadas e de outros obstáculos.

2

Revoltado com o que acabava de ver, Stefan voltou do laboratório do instituto para seu escritório no terceiro andar. Sentou à mesa com a cabeça nas mãos, tremendo de horror, fúria e medo.

O miserável de cabelos vermelhos, Willy Sheener, ia violentar Laura várias vezes, espancá-la quase até a morte, deixando-a tão traumatizada que a menina jamais voltaria ao normal. Não era uma possibilidade; ia acontecer, se Stefan não evitasse. Ele havia visto o triste resultado: o rosto machucado de Laura, a boca cortada. Os olhos eram impressionantes, sem expressão, semimortos, olhos de uma criança incapaz de sentir alegria ou de ter alguma esperança.

A chuva fria batia nas janelas do escritório e o som vazio parecia ecoar dentro dele, como se as coisas terríveis que havia visto tivessem incinerado seu corpo, deixando apenas uma concha vazia.

Ele havia salvo Laura do viciado no armazém do pai, mas ali estava outro pedófilo. Uma das coisas que Stefan havia aprendido no instituto era que mudar o destino nem sempre é fácil. Era uma luta contra a tentativa de manter o padrão do que estava determinado. Talvez o fato de ser violentada e psicologicamente destruída fosse uma parte tão imutável da vida de Laura que ele não seria capaz de evitar que acontecesse, mais cedo ou mais tarde. Talvez não pudesse salvá-la de Willy Sheener, ou, se conseguisse, outro igual a ele entraria na vida da menina. Mas tinha de tentar.

Aqueles olhos semimortos, privados para sempre de alegria...

3

Setenta e seis crianças estavam abrigadas no Lar Mcllroy, todas com 12 anos ou menos; quando completavam 13 anos, eram transferidas para Caswell Hall, em Anaheim. Como o refeitório com as paredes urradas de carvalho comportava apenas quarenta, as refeições eram servidas em dois turnos. Laura estava no segundo turno, com as gêmeas Ackerson.

Na fila, entre Thelma e Ruth, na sua primeira manhã na casa, Laura viu que Willy Sheener era um dos quatro empregados que serviam a comida. Estava encarregado do leite e servia pãezinhos doces com unia pinça de cozinha.

Enquanto Laura seguia lentamente na fila, o Enguia passava mais tempo olhando para ela do que para as crianças que servia.

— Não deixe que ele a intimide — murmurou Thelma.

Laura tentou encontrar os olhos de Sheener, enfrentando-o corajosamente. Mas era sempre a primeira a desviar os olhos.

Quando chegou na frente dele, o homem disse:

— Bom dia, Laura — colocando na bandeja dela um pãozinho especial, que havia reservado para a menina. Era duas vezes maior do que os outros, com maior número de cerejas e cobertura de creme.

Na quinta-feira, o terceiro dia de Laura no Lar Mcllroy, foi convocada para uma sessão de "como estamos nos ajustando", com a sra. Bowmaine, no escritório do primeiro andar. Etta Bowmaine era uma mulher forte com uma coleção de vestidos estampados que não a embelezavam. Falava com chavões e lugares-comuns, naquele tom de insinceridade melosa tão bem imitada por Thelma, e fez uma porção de perguntas para as quais na verdade não queria respostas sinceras. Laura mentiu, dizendo que estava muito feliz no Lar Mcllroy e as mentiras agradaram extremamente a sra. Bowmaine.

Voltando para seu quarto no terceiro andar, encontrou o Enguia na escada da ala norte. Quando chegou ao segundo andar, ela o viu no lance seguinte da escada, limpando o corrimão de madeira. Uma garrafa de lustra-móveis estava aberta no degrau ao lado dele.

Laura parou com o coração disparado, pois sabia que ele estava à sua espera. O homem devia saber que fora chamada ao escritório da sra. Bowmaine e imaginou que usaria a escada mais próxima para o quarto.

Não havia mais ninguém por perto. A qualquer instante podia aparecer uma criança ou um funcionário da casa, mas no momento estavam sozinhos.

O primeiro impulso de Laura foi voltar e usar a escada da ala sul, mas lembrou o que Thelma havia dito sobre não se intimidar e que aquele tipo de pessoa só abusava dos fracos. Laura pensou que a melhor coisa seria passar por ele sem uma palavra, mas seus pés pareciam pregados no degrau; não conseguia se mexer.

Olhando para ela, lá de cima, o Enguia sorriu. Era um sorriso horrível. Sua pele era muito branca e os lábios não tinham cor, mas os dentes tortos eram amarelos com manchas marrons, como a casca de uma banana madura. Sob o cabelo despenteado cor de cobre, o rosto era o de um palhaço — não o tipo de palhaço que se vê no circo mas o que a gente encontra numa Noite das Bruxas, o tipo que leva uma serra elétrica e não uma garrafa de refrigerante.

— Você é uma garota bonita, Laura.

Laura tentou mandá-lo para o inferno, mas não conseguia dizer uma palavra.

— Gostaria de ser seu amigo — disse ele.

Finalmente ela encontrou forças para continuar subindo na direção dele.

O sorriso do homem ficou mais largo, talvez por pensar que ela correspondia à oferta de amizade. Enfiou a mão no bolso da calça caqui e tirou dois biscoitos com creme.

Laura lembrou a descrição feita por Thelma dos truques estúpidos e sem imaginação do Enguia e de repente o homem não lhe pareceu tão assustador. Oferecendo biscoitos, com aquele sorriso malicioso, Sheener era uma figura ridícula, uma caricatura do mal e Laura teria dado risada se não soubesse o que ele havia feito a Tammy e a outras meninas. Embora sem conseguir achar divertido, a aparência e o modo do homem deram-lhe coragem para passar por ele rapidamente.

Quando Sheener compreendeu que ela não ia aceitar os biscoitos, nem responder à oferta de amizade, pôs a mão no ombro da menina para fazê-la parar.

Laura, furiosa, segurou a mão de Willy e a afastou.

— Nunca toque em mim, seu lagartixa.

Laura subiu rapidamente a escada, lutando contra a vontade de correr. Se corresse, ele ia saber que estava com medo ainda. O homem não devia ver nenhuma fraqueza na sua atitude, pois isso o encorajaria a continuar o assédio.

Quando faltavam dois degraus para o próximo patamar, Laura imaginou que tinha vencido, impressionando-o com sua força. Então ouviu um ruído inconfundível de um zíper que se abria. Atrás dela, em voz murmurada, ele disse:

— Olhe, Laura, veja isto. Veja o que tenho para você. — Havia um tom demente e odioso em sua voz. — Olhe, olhe o que está na minha mão agora, Laura.

Ela não olhou para trás.

Laura chegou ao patamar e começou a subir o outro lance de escada, pensando: "Não há motivo para correr; não se atreva a correr, não corra, não corra.”

Lá embaixo, o Enguia disse:

— Olhe o grande doce que tenho na minha mão agora, Laura.

É muito maior do que aqueles outros.

No terceiro andar, Laura correu diretamente para o banheiro onde esfregou as mãos vigorosamente. Sentia-se suja depois de ter tocado a mão de Willy para tirá-la do seu ombro.

Mais tarde, quando ela e as gêmeas sentaram no chão do quarto para a reunião habitual, Thelma riu às gargalhadas quando Laura contou o modo com que Willy a convidou a "olhar para o grande doce que tinha na mão". Ela disse:

— Ele é gozado, não é? Onde será que arranja essas frases? Por acaso a editora Doubleday publica o Livro dos convites clássicos dos pervertidos, ou coisa assim?

— O caso — retrucou Ruth com ar preocupado — é que ele não se calou quando Laura o enfrentou. Acho que não vai desistir dela como desiste das outras que o enfrentam.

Naquela noite, Laura teve dificuldade para dormir. Pensou no seu guardião especial, imaginando se ele ia aparecer miraculosamente como antes e livrá-la de Willy Sheener. De algum modo, tinha a impressão de não poder contar com ele dessa vez.

Durante os dez dias seguintes, os últimos de agosto, o Enguia perseguiu Laura com a regularidade da lua seguindo a terra. Quando ela ia com as gêmeas jogar cartas ou monopólio na sala de jogos, Sheener logo aparecia na sala e começava a lavar os vidros das janelas, polir os móveis ou consertava os suportes das cortinas, mas na verdade sua atenção estava sempre fixa em Laura. Se as meninas refugiavam-se num canto do pátio, atrás da casa, para conversar ou brincar de alguma coisa, Sheener aparecia no pátio, descobrindo alguma planta que precisava ser podada ou fertilizada. E embora o terceiro andar fosse só para meninas, era aberto ao pessoal masculino que trabalhava na casa das dez da manhã às quatro da tarde nos dias de semana, portanto Laura não podia fugir para o quarto durante esse tempo.

Porém, pior do que a constante perseguição era o crescente, evidente e assustador interesse doentio do homem por Laura, a necessidade revelada pelo olhar cada vez mais intenso e pelo cheiro ácido de .suor que emanava dele, quando ficava alguns minutos na mesma sala que ela.

Laura, Ruth e Thelma tentavam se convencer de que o fato de o homem não ter agido ainda era prova de que a ameaça diminuía, de que ele reconhecia que Laura não era uma presa possível. Mas no íntimo sabiam que estavam apenas tentando matar o dragão com uma esperança. Numa tarde de sábado, no fim de agosto, porém, tiveram de enfrentar toda a extensão real do perigo quando entraram no quarto e encontraram Tammy destruindo os livros de Laura num acesso de ciúme doentio.

Os cinqüenta livros em brochura — os favoritos de Laura escolhidos no apartamento sobre o armazém — estavam embaixo da cama dela. Tammy os havia levado para o centro do quarto e, na sua fúria, já destruíra dois terços da coleção.

Laura ficou chocada demais para agir, mas Ruth e Thelma seguraram Tammy e a afastaram dos livros.

Aquela destruição mortificou Laura profundamente pois, além de se tratar dos seus livros favoritos, comprados por seu pai, um elo entre a menina e Bob, eram um dos seus poucos pertences. O pouco que possuía, Laura compreendeu, era como uma defesa contra as piores crueldades da vida.

Tammy perdeu o interesse pelos livros, agora que o verdadeiro objeto da sua ira estava presente.

— Eu te odeio! Eu te odeio! — O rosto pálido e magro parecia vivo pela primeira vez, desde que Laura a conhecia, corado e distorcido pela emoção. As olheiras escuras não tinham desaparecido, mas não a faziam agora parecer fraca ou derrotada, e sim selvagem, violenta.

— Eu odeio você, Laura, odeio você!

— Tammy, meu bem — disse Thelma, lutando para conter a menina —, Laura nunca fez nada para você.

Ofegante, mas deixando de lutar para se livrar de Ruth e Thelma, Tammy gritou para Laura:

— Ele só fala em você, não se interessa mais por mim, só por você, não pára de falar em você, por que você teve de vir para cá? Eu te odeio!

Não precisaram perguntar a quem ela se referia. O Enguia.

— Ele não me quer mais. Ninguém me quer agora, ele só me usa para se aproximar de você. Laura, Laura, Laura. Quer que eu a atraia para um lugar onde esteja seguro, mas não vou fazer isso, não vou fazer isso! Porque quando ele tiver você eu não terei ninguém. Ninguém.

O rosto da menina estava extremamente vermelho. Pior do que a raiva era o desespero que a torturava.

Laura correu para fora do quarto, pelo corredor, na direção do lavatório. Atordoada, com nojo e medo, ajoelhou nos ladrilhos quebrados ao lado de um dos vasos e vomitou. Depois foi até um dos lavatórios, enxaguou a boca várias vezes e lavou o rosto com água fria.

Quando ergueu os olhos para o espelho as lágrimas chegaram finalmente.

Não chorava pela própria solidão, nem de medo, chorava por Tammy. O mundo era um lugar incrivelmente cruel onde a vida de uma garota de dez anos podia ser desvalorizada a ponto de só ter como aprovação as palavras de um homem demente que abusava dela, sua única possessão, a única da qual podia se orgulhar, o aspecto sexual imaturo do próprio corpo magro de pré-adolescente.

Laura compreendeu que a situação de Tammy era infinitamente pior que a sua. Mesmo sem seus livros, tinha boas lembranças de um pai amoroso, bom e delicado, que Tammy não tinha. Se tirassem dela as poucas coisas que possuía, Laura podia manter sua mente intata, mas Tammy estava psicologicamente perturbada, talvez sem possibilidade de recuperação.

 

4

Sheener morava em um bangalô numa rua tranqüila de Santa Ana. Era um daqueles bairros criados depois da Segunda Guerra: casas pequenas e limpas com interessantes detalhes arquitetônicos. Naquele verão de 1967, os vários tipos de fícus haviam chegado à maturidade, estendendo seus ramos protetores sobre as casas; a de Sheener era também rodeada de azaléias, eugênias e hibiscos vermelhos.

Quase à meia-noite Stefan abriu a porta dos fundos da casa com um cartão de plástico e entrou. Enquanto examinava o bangalô, ia acendendo as luzes, sem se preocupar em fechar as cortinas.

A cozinha estava imaculadamente limpa. Os balcões de fórmica azul brilhavam. As peças cromadas, a torneira da pia e as armações de metal das cadeiras cintilavam, sem a menor marca de mãos humanas.

Ele abriu a geladeira, sem saber o que ia encontrar. Talvez alguma indicação do comportamento anormal de Sheener; uma antiga vítima, assassinada e congelada para conservar a lembrança da paixão doentia? Nada tão dramático. Entretanto, era óbvia a mania do homem por limpeza: toda a comida estava guardada em vasilhas de plástico.

A única coisa diferente no conteúdo da geladeira e dos armários era a quantidade de doces: sorvete, biscoitos, bolos, balas, tortas, rosquinhas, até biscoitos de cachorro. Havia também grande variedade de alimentos modernos, como espaguete com molho, latas de sopas de vegetais com macarrão em forma dos personagens de quadrinhos. A despensa de Sheener parecia ter sido arrumada por uma criança, sem a supervisão de um adulto.

 

5

O confronto provocado pelos livros rasgados foi o bastante para esgotar as forças de Tammy. Não disse nada mais sobre Sheener e parecia não sentir nenhuma animosidade contra Laura. Cada dia mais ensimesmada, não olhava diretamente para ninguém e andava sempre de cabeça baixa; sua voz ficou mais suave.

Laura não sabia ao certo o que era mais enervante — a ameaça diária do Enguia ou ver a personalidade já tão fraca de Tammy diminuir aos poucos, chegando a um estado quase de catatonia. Mas na quinta-feira, 31 de agosto, esses dois fatores sinistros foram eliminados dos ombros de Laura quando ficou sabendo que seria transferida para um lar adotivo em Costa Mesa no dia seguinte, sexta-feira.

Entretanto, sentia deixar as gêmeas Ackerson. Embora as conhecesse há pouco tempo, a amizade formada em circunstâncias extremas solidifica-se com maior rapidez e parece mais duradoura do que outras, feitas em situações diferentes.

Naquela noite, quando as três estavam sentadas no chão do quarto, Thelma disse:

— Shane, se ficar com uma família boa, um lar feliz, procure se acomodar e aproveite. Se for um bom lugar, esqueça de nós, faça novos amigos, continue sua vida. Mas as lendárias irmãs Ackerson.. Ruth e moi... já passamos por essa experiência três vezes, todas péssimas, portanto, deve saber que se for parar com uma família podre, não precisa ficar.

Ruth acrescentou:

— É só chorar bastante e fazer com que todo mundo saiba que está infeliz. Se não puder chorar, finja.

— Fique emburrada — aconselhou Thelma. — Faça tudo errado. Quebre um prato acidentalmente. Procure incomodar os outros.

Laura ficou surpresa:

— Vocês fizeram tudo isso para voltar para Mcllroy?

— Isso e mais ainda — disse Ruth.

— Mas não se sentiam mal, quebrando as coisas dos outros?

— Foi mais difícil para Ruth do que para mim — respondeu Thelma. — Eu tenho muita maldade em mim, mas Ruth é a reencarnação de uma freira obscura e boazinha do século XIV cujo nome ainda não sabemos.

No primeiro dia Laura descobriu que não queria ficar com a família Teagel, mas tentou, por achar que devia ser melhor do que voltar ao Mcllroy.

A vida real era apenas uma enevoada tela de fundo para Flora Teagel, que só se interessava por palavras cruzadas. Passava os dias e parte das noites à mesa da sua cozinha amarela, enrolada num cardigã, fizesse frio ou calor, debruçada sobre os livros de palavras cruzadas, um depois do outro, com uma dedicação espantosa e idiota.

Geralmente só falava com Laura para dar a lista do que a menina devia fazer ou para pedir ajuda com alguma palavra mais complicada. Quando Laura estava lavando os pratos, ela às vezes dizia, por exemplo:

— Qual é a palavra de sete letras para gato?

A resposta de Laura era sempre a mesma:

— Não sei.

— Não sei, não sei, não sei — dizia a sra. Teagel. — Você não sabe nada, menina. Não está prestando atenção às aulas na escola? Não se preocupa com a linguagem, com as palavras?

Laura era fascinada por palavras. Para ela, eram coisas belas, cada uma um pó ou uma poção mágica que podia ser combinada com outras para criar encantamentos de grande força. Mas para Flora Teagel, palavras eram fichas de um jogo, usadas para encher os quadrados vazios das palavras cruzadas, grupos incômodos que a frustravam.

O marido de Flora, Mike, era motorista de caminhão, atarracado c com cara de bebê. Quando estava em casa, à noite, passava o tempo todo lendo o National Enquirer e publicações semelhantes, absorvendo fatos duvidosos de reportagens sobre contatos estranhos e adoração do demônio pelas estrelas do cinema. Seu gosto pelo que chamava de 'notícias exóticas' seria inofensivo se ele fosse tão desligado quanto a mulher, mas geralmente surpreendia Laura, quando ela estava fazendo o serviço de casa ou nos raros momentos em que tinha tempo para os deveres da escola e insistia em ler em voz alta para ela os artigos mais bizarros.

Laura achava aquelas histórias idiotas, sem objetivo, sem lógica, mas não podia dizer isso a ele. Descobriu que Teagel não ficava zangado se dissesse que os jornais que lia eram um lixo. O homem olhava para ela com ar de pena e depois, com uma paciência irritante, um ar de quem sabe tudo, começava a explicar o funcionamento do mundo. Por extenso. Repetidamente.

— Laura, você tem muito para aprender. Os figurões que mandam nas coisas em Washington, sabem tudo sobre alienígenas e os segredos da Atlântida...

Embora fossem completamente diferentes, Flora e Mike compartilhavam a mesma crença: o objetivo de abrigar uma criança órfã era ter empregada de graça. Laura devia limpar, lavar, passar e cozinhar.

Hazel, filha única deles, era dois anos mais velha do que Laura e extremamente mimada. Jamais cozinhava, lavava pratos, roupa ou limpava a casa. Com 14 anos mantinha as unhas das mãos e dos pés impecavelmente tratadas e pintadas. Se fossem deduzidas da sua idade as horas que passava na frente do espelho, Hazel teria cinco anos.

— No dia de lavar roupa — explicou para Laura logo no primeiro dia — você passa minhas roupas primeiro. E tenha sempre cuidado de guardar tudo no guarda-roupa de acordo com as cores.

Já li este livro, já vi este filme, pensou Laura. Puxa vida, me deram o papel principal na Gata Borralheira.

— Eu vou ser uma grande estrela de cinema ou modelo — disse Hazel. — Portanto, meu rosto, minhas mãos e meu corpo são o meu futuro. Precisam ser protegidos.

Quando a sra. Ince, a assistente social esquelética com cara de coelho, encarregada do caso de Laura, fizesse sua visita à casa dos Teagel na manhã de sábado, 16 de setembro, Laura pretendia pedir para voltar ao Lar Mcllroy. A ameaça representada por Willy Sheener parecia um problema menor do que a vida com os Teagel.

A sra. Ince chegou na data marcada e encontrou Flora lavando os pratos pela primeira vez em duas semanas. Laura estava sentada à mesa da cozinha, aparentemente resolvendo palavras cruzadas, colocadas em suas mãos quando a campainha tocou.

Na entrevista particular com Laura, no seu quarto, a sra. Ince recusou-se a acreditar no que a menina contou sobre o trabalho pesado que tinha de fazer.

— Mas, minha querida, o sr. e a sra. Teagel são pais adotivos exemplares. Você não parece esgotada de tanto trabalhar. Até engordou um pouco.

— Eu não os acusei de me fazer passar fome — disse Laura. — Mas nunca tenho tempo para os deveres da escola. Todas as noites vou me deitar exausta...

— Além disso — interrompeu a sra. Ince — os pais adotivos não só recebem as crianças como também as criam, o que significa que ensinam boas maneiras e comportamento, bons valores e hábitos de trabalho.

A sra. Ince não podia ajudá-la.

Laura recorreu ao plano das irmãs Ackerson para se livrar da família indesejável. Começou a fazer mal a limpeza da casa. Quando acabava de lavar, os pratos estavam manchados e sujos. Ela fazia rugas nas roupas de Hazel.

Por causa da destruição de parte da sua coleção de livros, Laura havia adquirido um profundo respeito pela propriedade e não podia quebrar pratos ou outra coisa qualquer dos Teagel, mas substituiu essa parte do plano por pouco-caso e falta de respeito. Certa vez, Flora perguntou qual seria a palavra de seis letras que significava 'uma espécie de boi', e Laura disse: "Teagel." Quando Mike começou a contar unia história de discos voadores, que tinha lido no Enquirer, Laura interrompeu para contar a história de homens mutantes subterrâneos que viviam secretamente no supermercado local. Sugeriu a Hazel que sua grande entrada no mundo teatral devia ser como substituta de Ernest Borgnine.

— Você é igualzinha a ele, Hazel. Eles na certa vão te dar o papel!

Esse atrevimento provocou uma sova. Mike, com suas mãos grandes e calosas, não precisava de nenhum outro instrumento. Deu palmadas no lugar certo, mas Laura negou a ele o prazer das suas lágrimas. Observando da porta da cozinha, Flora disse:

— Mike, chega. Não deixe marcas.

Ele parou com relutância, quando a mulher segurou sua mão.

Naquela noite Laura teve dificuldade para dormir. Pela primeira vez fizera uso do seu amor pelas palavras, do poder da linguagem, para um efeito desejado, e as reações dos Teagel eram prova de que sabia como usar esse poder. Mais excitante ainda era a idéia, nova demais para ser completamente compreendida, de que podia não só defender-se com palavras, como também abrir caminho no mundo por meio delas, talvez até mesmo como escritora do tipo de livros de que tanto gostava. Com o pai falara em ser médica, bailarina, veterinária, mas era apenas conversa. Nenhum desses sonhos a entusiasmava tanto quanto a perspectiva de ser escritora.

Na manhã seguinte, quando desceu para a cozinha e encontrou os três Teagel tomando café, Laura disse:

— Ei, Mike, acabo de descobrir um polvo inteligente de Marte que mora no vaso do banheiro.

— O que foi que você disse? — perguntou Mike.

Laura sorriu e respondeu:

— Notícias exóticas.

6

 

Dois dias depois Laura voltou ao Mcllroy.

A sala de estar e a sala íntima de Willy Sheener pareciam pertencer a um homem comum. Stefan não sabia ao certo o que esperava encontrar. Evidência de loucura, talvez, mas não aquela ordem impecável. Um dos quartos estava vazio e o outro era sem dúvida estranho. A única cama era um colchão estreito no chão. A roupa de cama era de criança, com desenhos coloridos de coelhinhos. A mesa-de-cabeceira e a penteadeira eram feitas para criança, pintadas de azul, com desenhos de animais nos lados e nas gavetas: girafas, coelhos, esquilos. Sheener tinha uma coleção de Livrinhos Dourados e outros livros infantis, animais empalhados e brinquedos para crianças de seis ou sete anos.

A princípio Stefan pensou que o quarto era usado para seduzir as crianças da vizinhança, acreditando que Sheener era suficientemente instável para procurar suas vítimas perto de onde morava, onde o risco era maior. Mas não havia outra cama na casa, e o armário e as gavetas da cômoda estavam cheios de roupas de homem adulto. Nas paredes viu várias fotografias emolduradas do mesmo garoto de cabelo vermelho, quando era bebê, com sete ou oito anos e o rosto era sem dúvida o de Sheener. Pouco a pouco Stefan compreendeu que a decoração somente beneficiava o próprio Sheener. Era ali que o homem dormia. Evidentemente, quando ia para a cama, voltava para o mundo da sua infância, encontrando naquela regressão sinistra a paz desesperadamente desejada.

De pé no meio daquele quarto estranho, Stefan sentiu tristeza e repulsa. Aparentemente, Sheener molestava crianças não apenas pelo prazer sexual, mas para absorver a infância de suas vítimas, para voltar a ser criança. Através da perversão, mergulhava, não tanto na imoralidade doentia, mas na inocência perdida. Era patético e desprezível, não preparado para os desafios da vida adulta, no entanto, mesmo assim perigoso. .

Stefan estremeceu.

7

A cama de Laura no quarto das gêmeas estava ocupada por outra garota. Laura ficou num quarto pequeno com duas camas, na ala norte do terceiro andar, perto da escada. Sua companheira era Eloise Fischer, de nove anos, com rabo-de-cavalo, sardas e um rosto sério demais para a idade.

— Quando crescer vou ser contadora — disse para Laura. — Gosto muito de números e consigo o mesmo resultado sempre, nas contas.

Não existem surpresas com números; não são como as pessoas.

Os pais de Eloise cumpriam pena por tráfico de drogas e ela estava no Mcllroy esperando a decisão do tribunal sobre sua custódia.

Logo que acabou de desfazer as malas, Laura foi ao quarto das gêmeas. Entrou de repente, exclamando:

— Mim está livre! Mim está livre!

Tammy e a outra garota olharam para ela sem compreender, mas Ruth e Thelma correram para abraçá-la. Era como estar voltando para casa, para uma família de verdade.

—- A família adotiva não gostou de você? — perguntou Ruth.

— Ah, ah! — exclamou Thelma. — Você usou o plano Ackerson!

— Não, eu assassinei todos eles enquanto dormiam.

— Isso também funciona — concordou Thelma.

A garota nova, Rebecca Bogner, tinha uns 11 anos. Evidentemente se dava bem com as gêmeas. Ouvindo Laura e as meninas Ackersn, ela dizia sempre "vocês são esquisitas" e "esquisitas demais" "puxa, que gente esquisita", com um ar de superioridade e com tanto desprezo que envenenava o ambiente com a eficiência de uma bomba nuclear.

Laura e as gêmeas foram para um canto do pátio onde podiam compartilhar as novidades das últimas cinco semanas sem os comentários desdenhosos de Rebecca. Estavam no começo de outubro e os dias oram quentes ainda, só esfriando um pouco depois das cinco. Estavam agasalhadas e sentaram nos galhos mais baixos da selva de brinquedo, abandonada àquela hora, porque as crianças mais novas estavam tomando banho, preparando-se para o jantar.

Estavam apenas há cinco minutos no pátio quando Willy Sheener apareceu com um podador elétrico. Começou a trabalhar numa cerca viva a uns dez metros das meninas, mas sua atenção estava toda em Laura.

No jantar, ele estava no seu posto, servindo leite e pedaços de torta de cereja. Guardou o maior pedaço para Laura.

Na segunda-feira Laura entrou para a escola onde as outras meninas já estudavam há quatro semanas. Ruth e Thelma assistiam duas aulas com ela, o que facilitava seu entrosamento, mas Laura lembrou que a principal condição da vida de uma órfã é a instabilidade.

Terça-feira à tarde, quando Laura voltou da escola, a sra. Bowmaine a fez parar no corredor.

— Laura, posso falar com você no meu escritório?

A sra. Bowmaine estava com um vestido estampado em tons de púrpura, que fazia um contraste gritante com as cortinas e o papel de parede do escritório, em tons rosa e pêssego. Laura sentou numa cadeira cor-de-rosa. A sra. Bowmaine ficou de pé ao lado da mesa, com intenção de falar rapidamente com Laura. Era uma mulher sempre em movimento, apressada.

— Eloise Fischer nos deixou hoje — disse ela.

— Quem ganhou a custódia? — perguntou Laura. — Ela gosta da avó.

— Foi a avó — confirmou a sra. Bowmaine.

Ótimo para Eloise. Laura esperava que a futura contadora de trancinhas e sardas encontrasse algo mais em que confiar além dos números.

— Agora, você está sem companheira de quarto — disse a sra.

Bowmaine rapidamente — e não temos nenhuma cama vaga, portanto não podemos instalar você com...

— Posso fazer uma sugestão?

A sra. Bowmaine franziu as sobrancelhas com impaciência e consultou o relógio de pulso. Laura disse:

— Ruth e Thelma são minhas melhores amigas e suas companheiras de quarto são Tammy Hinsen e Rebecca Bogner. Mas acho que Tammy e Rebecca não se dão muito bem com Ruth e Thelma, assim..- —

Queremos que vocês aprendam a conviver com pessoas diferentes.

Ficar sempre com garotas de quem gosta e já conhece não ajuda a construir seu caráter. Seja como for, o caso é que só posso providenciar isso amanhã. Estou muito ocupada hoje. Portanto quero saber se posso confiar em você deixando-a sozinha esta noite no seu quarto.

— Confiar em mim? — perguntou Laura, confusa.

— Diga a verdade, menina. Posso confiar em você, deixando-a sozinha por uma noite?

Laura não sabia qual o problema que a assistente social previa deixando uma menina dormir sozinha num quarto da instituição. Talvez pensasse que Laura ia se entrincheirar no quarto e seria preciso chamar a polícia para arrombar a porta, usar gás lacrimogênio e arrastá-la lá de dentro acorrentada.

Laura sentiu-se tão insultada quanto confusa.

— É claro, está tudo bem. Não sou criança. Vou ficar muito bem.

— Está certo... está certo. Vai dormir sozinha esta noite, mas amanhã faremos outros planos.

Laura saiu do escritório colorido para os corredores tristonhos e enquanto subia para o terceiro andar pensou de repente: o Enguia Branca! Sheener ia saber que estava sozinha. Ele sabia de tudo que acontecia no Mcllroy, e tinha as chaves, portanto podia voltar à noite. O quarto de Laura ficava perto da escada da ala norte, assim ele podia passar diretamente da escada para dentro e dominá-la em segundos. Podia desacordá-la com uma pancada na cabeça ou usar alguma droga e enfiá-la num saco. Podia trancar sua vítima num porão e ninguém ia saber o que tinha acontecido com ela.

No segundo andar, Laura deu meia-volta e desceu a escada de dois em dois degraus, voltando para o escritório da sra. Bowmaine, mas quando chegou no hall de entrada quase se chocou com o Enguia. O homem carregava uma vassoura de pano e um carrinho com torcedor e o balde cheio de água que cheirava a pinho.

Sheener abriu um largo sorriso. Talvez fosse imaginação, mas Laura ficou certa de que já sabia que ela ia dormir sozinha naquela noite.

Devia ter passado por ele, continuando para o escritório da sra. Bowmaine e pedir uma mudança de acomodação para a noite. Não podia acusar Sheener, do contrário acabaria como Denny Jenkins — desacreditada pelo pessoal da casa, atormentada pelo perseguidor — mas podia ter encontrado uma desculpa plausível para o pedido.

Laura pensou também em derrubar Sheener com um empurrão, jogando-o dentro do balde, dizendo que ela era mais corajosa do que ele, avisando para que não se metesse com ela. Mas Sheener era diferente dos Teagel. Mike, Flora e Hazel eram mesquinhos e ignorantes, mas relativamente sãos. O Enguia era insano e nunca se podia saber como ia reagir a um ataque daquele tipo.

Vendo a menina hesitar, Sheener alargou o sorriso, mostrando os dentes amarelos.

Seu rosto ficou levemente corado e Laura compreendeu que aquilo significava desejo; ficou nauseada.

Afastou-se dele, sem correr, até subir a escada e sair do campo de visão do homem. Então, voou para o quarto das gêmeas.

— Você dorme aqui esta noite — disse Ruth.

— É claro — confirmou Thelma. — Fica no seu quarto até ter minar a verificação da noite e depois vem para cá.

Do canto onde fazia o dever de matemática, Rebecca Bogner disse:

— Temos só quatro camas.

— Eu durmo no chão — disse Laura.

— É contra o regulamento — observou Rebecca.

Thelma brandiu o punho fechado para ela.

— Está certo, tudo bem — concordou Rebecca. — Eu não disse que não queria que ela ficasse. Só lembrei que é contra o regulamento.

Laura esperava que Tammy fizesse alguma objeção, mas a menina, deitada sobre as cobertas, olhando para o teto, parecia absorta nos próprios pensamentos e desinteressada nos planos das outras.

No refeitório com lambris de carvalho, tentando comer o jantar impossível de costeletas de porco, purê gelatinoso de batatas e vagem dura como couro — e sob o olhar atento do Enguia —, Thelma disse:

— Quanto à pergunta de Bowmaine, se podia confiar em você...ela tem medo que você tente o suicídio.

Laura não podia acreditar.

— Já aconteceu aqui — disse Ruth com tristeza. — Por isso eles amontoam pelo menos duas de nós, mesmo nos quartos muito peque nos. Ficar sozinha por muito tempo... é uma das coisas que parece pro vocar esse impulso.

— Não deixam Ruth e eu dormir num dos quartos menores por que, como somos gêmeas idênticas, acham que somos, na verdade, uma única pessoa. Acreditam que, assim que estivermos sozinhas, vamos nos enforcar.

— Isso é ridículo — disse Laura.

— É claro — concordou Thelma. — Enforcamento não é bastante dramático. As espantosas irmãs Ackerson, Ruth e moi, têm uma queda para o drama. Certamente íamos preferir o haraquiri, com facas rouba das da cozinha, ou podíamos conseguir uma serra elétrica manual...

Continuar: parte 2 de 2