O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 4 de 8 · parte 1/3

Páginas do PDF

O Guardião

Uma Luz nas Trevas

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Três

 

UMA LUZ NAS TREVAS

 

1

No dia 12 de janeiro de 1977, quando completou 22 anos, Laura Shane recebeu um sapo pelo correio. A caixa onde estava o animal não linha endereço do remetente e nenhum bilhete ou carta. Ela a abriu sobre a mesa ao lado da janela da sala de estar do seu apartamento, e a luz clara do sol daquele inverno pouco rigoroso cintilou na encantadora estatueta. O sapo de cerâmica tinha cinco centímetros de altura e estava sobre uma folha de lírio aquático. Usava cartola e segurava uma bengala.

Duas semanas antes, a revista literária do campus havia publicado "Epopéia anfíbia", um conto de Laura sobre uma menina cujo pai inventava histórias de um sapo imaginário, Sir Tommy da Inglaterra. Só Laura sabia o quanto havia de real naquele trabalho de ficção, mas evidentemente alguém adivinhara, porque o sapo sorridente de cartola estava acondicionado com extremo cuidado, enrolado em algodão e amarrado com uma fita vermelha, depois enrolado em papel de seda dentro da caixa branca simples, num ninho de bolas de algodão, e essa caixa estava num ninho de papel picado, dentro de outra, maior. Ninguém teria tanto trabalho para proteger uma estatueta de cinco dólares a não ser que o remetente soubesse do seu profundo envolvimento emocional com a "Epopéia anfíbia".

Para pagar o aluguel, Laura compartilhava o apartamento fora do campus com duas estudantes, Meg Falcone e Julie Ishimina, e a princípio pensou que o sapo fosse presente de uma delas. Mas era pouco provável, pois Laura não tinha intimidade com as jovens. As três estavam sempre ocupadas com os estudos e com os próprios interesses e moravam juntas apenas desde setembro do ano anterior. Afirmaram que nada sabiam sobre o presente e pareciam sinceras.

Imaginou se o dr. Matlin, o consultor da revista da universidade, teria mandado a estatueta. Desde seu segundo ano na faculdade, quando fez o curso de redação criativa do dr. Matlin, ele a encorajava a usar seu talento e aperfeiçoar sua técnica de escritora. O dr. Matlin gostou muito do seu pequeno conto, portanto, talvez tivesse mandado o sapo para dizer "muito bem". Mas, por que a falta de endereço do remetente e nenhuma nota, nenhum cartão? Por que o segredo? Não, isso não combinava com o dr. Matlin.

Laura tinha alguns amigos na universidade, mas nenhum muito íntimo, porque não tinha muito tempo para fazer e manter grandes amizades. Entre o estudo, o trabalho e o tempo que passava escrevendo, usava todas as horas do dia não destinadas ao sono e à alimentação. Não podia imaginar quem teria tanto trabalho para mandar o sapo anonimamente. Um mistério.

No dia seguinte, sua primeira aula era às oito horas e a última às duas da tarde. Laura voltou para seu Chevrolet de nove anos de uso, no estacionamento do campus, às quinze para as quatro, abriu a porta, entrou no carro — e viu outro sapo sobre o painel.

Tinha cinco centímetros de altura e quatro de comprimento. Também de cerâmica verde-esmeralda, estava reclinado, a cabeça apoiada numa das mãos e sorria sonhadoramente.

Laura tinha certeza de ter trancado a porta do carro e realmente a encontrara trancada. O enigmático doador de sapos dera-se ao trabalho de abrir o Chevrolet sem ter a chave — um celulóide ou arame enfiado por cima do vidro até a maçaneta interna — para deixar o sapo de modo espetacular.

Em casa, Laura pôs o sapo reclinado ao lado do outro de cartola e bengala, em sua mesa-de-cabeceira. Até a hora de dormir ficou lendo na cama. Uma vez ou outra sua atenção fugia do livro para as figurinhas de cerâmica.

Na manhã seguinte, quando saiu do apartamento, encontrou uma caixinha no lado de fora da porta. Dentro dela havia outro sapo meticulosamente acondicionado. Era de peltre e estava sentado num tronco da árvore, tocando um banjo. O mistério ficava mais profundo.

Durante o verão Laura trabalhava em horário integral como garçonete no Hamburger Hamlet, em Costa Mesa, mas durante as aulas tinha tanto trabalho na universidade que só podia trabalhar três noites por semana. O Hamlet era uma lanchonete de boa qualidade, servia boa comida a preço moderado, num ambiente relativamente elegante — vigas de madeira no teto, muitos lambris nas paredes, grandes poltronas confortáveis — e os fregueses pareciam sempre mais satisfeitos do que nos outros lugares em que já havia trabalhado.

Mesmo que a atmosfera fosse vulgar e os fregueses grosseiros, Laura não teria abandonado o emprego. Precisava do dinheiro. Há quatro anos, quando completou 18 anos, soube que seu pai tinha feito um seguro formado pelos bens liquidados depois de sua morte, e esse seguro não podia ser usado pelo Estado para pagar sua estadia no Mcllroy e em Caswell. Com 18 anos tinha direito a fazer uso do dinheiro e o gastava para viver e para as despesas com os estudos. Seu pai não era rico; deixara somente 12 mil dólares, mesmo depois de seis anos de juros acumulados, o que mal dava para quatro anos de aluguel, comida, roupas e anuidade na universidade, portanto dependia do ordenado de garçonete para compensar a diferença.

Na noite de domingo, 16 de janeiro, estava trabalhando no Hamlet quando o dono da casa conduziu um casal idoso a uma das mesas servidas por Laura. Pediram duas Michelobs enquanto estudavam o cardápio. Alguns minutos mais tarde, quando Laura voltou com a cerveja, viu um sapo de cerâmica sobre a mesa. Quase deixou cair a bandeja. Olhou para o homem, para a mulher, e viu que sorriam para ela, mas não diziam nada. Laura perguntou:

— Vocês mandaram aqueles sapos para mim? Mas eu nem os conheço... conheço?

— Oh, você tem outros deste? — perguntou o homem.

— Este é o quarto. Não trouxeram para mim, trouxeram? Mas não estava aqui há poucos minutos. Quem o deixou na mesa?

O homem piscou um olho para a mulher e ela disse para Laura:

— Você tem um admirador secreto, querida.

— Quem?

— Um rapaz sentado naquela mesa — disse o homem apontando para as mesas servidas pela garçonete Amy Heppleman. A mesa estava vazia; o ajudante acabava de tirar os pratos usados. — Logo que você foi apanhar nossas cervejas, ele veio até aqui e perguntou se podia deixar isto para você.

Era um sapo de Natal, vestido de Papai Noel, sem barba e com um saco de brinquedos nos ombros.

— Não sabe quem é ele? — perguntou a mulher.

— Não. Como ele é?

— Alto — disse o homem. — Muito alto e moreno. Cabelos castanhos.

— Olhos também castanhos — completou a mulher. — Com voz suave.

Segurando o sapo e olhando para ele, Laura disse:

— Há alguma coisa estranha nisto tudo... uma coisa que me assusta.

— Assusta? — disse a mulher. — Mas é só um moço caído por você, querida.

— Será mesmo? — perguntou Laura.

Procurou Amy no balcão das saladas e pediu uma descrição mais detalhada do homem.

— Ele comeu uma omelete de cogumelos, torrada de pão integral e tomou uma Coca — disse Amy, enchendo uma vasilha com salada verde, que tirava com uma pinça de aço inoxidável. — Você não o viu ali sentado?

— Não notei.

— Um cara alto. De jeans. Camisa xadrez azul. Cabelo bem curto, mas bonitinho, se você gosta do tipo. Não falou muito. Parecia um pouco tímido.

— Pagou com cartão de crédito?

— Não. Dinheiro.

— Droga — resmungou Laura.

Levou o sapo Papai Noel para casa e o colocou ao lado dos outros dois.

Na manhã seguinte, segunda-feira, quando saiu do apartamento encontrou outra caixa branca no degrau da entrada. Abriu-a com relutância. Continha um sapo de vidro.

À tarde, quando Laura voltou da universidade, Julie Ishimina estava sentada à mesa da cozinha, lendo o jornal e tomando café.

— Você ganhou outro - - disse ela, apontando para uma caixa que estava na bancada da cozinha. — Veio pelo correio.

Laura rasgou o papel que embrulhava caprichosamente a caixa. Eram dois sapos — um saleiro e um porta-pimenta.

Laura pôs os dois ao lado dos outros em sua mesa-de-cabeceira e ficou sentada na cama durante muito tempo, observando a coleção, com a testa franzida.

Às cinco horas daquela tarde, Laura telefonou para Thelma Ackerson em Los Angeles e contou sobre os presentes.

Thelma, sem nenhum seguro para sustentá-la, nem tinha pensado na universidade, mas como disse, não era nenhuma tragédia, porque não estava interessada em instrução. Assim que terminou o ginásio foi diretamente para Los Angeles, com intenção de ingressar no teatro como comediante.

Quase todas as noites, das seis da tarde às duas da manhã, percorria os clubes de comédia — o Improv, o Comedy Store, e todos os outros do mesmo tipo — procurando um papel não remunerado de cinco minutos no palco, fazendo contatos (ou esperando fazer), competindo com uma multidão de jovens comediantes na corrida para a descoberta.

Durante o dia trabalhava para pagar o aluguel, passando de um emprego para outro, alguns bastante estranhos. Entre outras coisas, tinha usado uma fantasia de galinha para cantar e servir mesas num sinistro restaurante de pizza e fora substituta numa passeata de protesto dos membros da Cooperativa dos Escritores do Oeste, que eram obrigados pelo sindicato a comparecer à passeata, mas preferiam pagar alguém para carregar os cartazes e assinar seus nomes na lista do sindicato.

Embora estivessem a noventa minutos de distância, Laura e Thelma só se encontravam duas ou três vezes por ano, geralmente para um longo almoço ou jantar, porque tinham pouco tempo livre. Mas por maior que fosse o intervalo entre as visitas, sentiam-se sempre à vontade uma com a outra e compartilhavam os pensamentos e as experiências mais íntimas.

— O elo Mcllroy-Caswell — disse Thelma certa vez — é mais forte do que o elo entre irmãos, mais forte do que o compromisso com a Máfia, mais forte do que o elo entre Fred Flintstone e Barney Rubble, e estes dois são unidos.

Agora, depois de ouvir a história de Laura, Thelma disse:

— Qual é o seu problema, Shane? Para mim parece que um cara tímido e alto está apaixonado por você. Muitas mulheres adoram isso.

— Mas será que é isso? Um entusiasmo inocente?

— O que mais?

— Não sei. Mas é que... me assusta.

— Assusta? Esses sapos são umas coisinhas bonitas, não são? Nenhum tem uma cara ameaçadora, certo? Nenhum está brandindo uma faca ensangüentada. Ou uma pequena serra elétrica de cerâmica?

— Não.

— Ele não mandou nenhum sapo decapitado, mandou?

— Não, mas...

— Shane, estes últimos anos foram calmos, embora sua vida tenha sido agitada antes. É normal você pensar que esse cara seja o ir mão de Charles Manson. Mas tenho quase certeza de que é exatamente o que parece... um cara que a admira de longe, talvez um pouco tímido, com uma boa porção de romantismo. Como vai sua vida sexual?

— Não tenho nenhuma — disse Laura.

— Por que não? Você não é virgem. Teve aquele cara no ano passado...

— Bem, você sabe que não deu certo.

— Ninguém mais desde então?

— Não. O que você está pensando... que sou promíscua?

— Puxa vida! Garota, dois amantes em 22 anos não é promiscuidade, nem pela definição do papa. Relaxe um pouco. Deixe de se preocupar tanto. Flutue com a corrente para ver onde ela te leva. Este agora pode ser seu príncipe encantado.

— Bem... talvez eu faça isso. Acho que tem razão.

— Mas, Shane?

— O que é?

— Só para dar sorte, acho melhor andar com uma Magnum .357.

— Muito engraçada.

— Ser engraçada é a minha profissão.

Nos três dias seguintes Laura recebeu mais três sapos e no dia 22 de manhã, segunda-feira, continuava confusa, zangada e assustada.

Sem dúvida nenhum admirador seria tão persistente numa brincadeira. Cada sapo recebido parecia um ato de desprezo e não de homenagem. Havia uma sugestão obsessiva naquela inexorabilidade.

Laura passou grande parte da noite de sexta-feira sentada ao lado da grande janela da sala, no escuro. Através das cortinas meio abertas, ela via a varanda coberta do prédio de apartamentos e a área na frente da sua porta. Se ele viesse durante a noite, pretendia surpreendê-lo. Às três e meia da manhã ninguém tinha aparecido, e ela cochilou. Quando acordou não viu nenhuma caixa no degrau de entrada.

Depois do banho e o rápido café da manhã, Laura desceu para os fundos do prédio onde guardava o carro na vaga coberta. Pretendia ir à biblioteca fazer um trabalho de pesquisa e o dia estava bom para ficar dentro de casa. O céu cinzento de inverno anunciava tempestade como um mau presságio — uma sensação que se intensificou quando Laura encontrou outra caixa no painel do seu Chevrolet trancado. Sentiu vontade de gritar de frustração.

Sentada no carro, abriu a caixa. As outras estatuetas eram de pouco valor, não mais de dez ou 15 dólares, algumas talvez de três dólares, mas esta última era uma bela miniatura em porcelana que devia custar uns cinqüenta dólares no mínimo. Mas Laura estava mais interessada na caixa do que na estatueta. Não era simples como as outras, mas trazia o nome de uma loja de presentes — Collectibles — na galeria da South Coast Plaza.

Laura foi diretamente para o centro comercial e chegou 15 minutos antes da loja abrir. Esperou num banco do passeio e foi a primeira a entrar quando as portas se abriram.

— Sim, trabalhamos com essa mercadoria — disse a dona da loja, uma mulher pequena de cabelos grisalhos chamada Eugenia Farvor, depois de ouvir a explicação sucinta de Laura e de examinar a 92 estatueta de porcelana. — E, na verdade, eu mesma vendi esta, ontem, para o jovem.

— Sabe o nome dele?

— Sinto muito, não sei.

— Como é ele?

— Lembro bem dele por causa do tamanho. Muito alto. Quase dois metros, calculo. Ombros muito largos. Muito bem vestido. Um terno cinzento risca de giz, gravata com listras azuis e cinzentas. Admirei mesmo o terno, e ele disse que não era fácil encontrar roupa do seu tamanho.

— Pagou em dinheiro?

— Ummmm... não, acho que usou um cartão de crédito.

— Será que a senhora tem ainda o comprovante?

— Tenho sim, geralmente levamos um ou dois dias para organizar os comprovantes para depósito.

A sra. Farvor conduziu Laura pelas vitrines repletas de objetos de porcelana Lalique e cristal Waterford, pratos Wedgwood, estatuetas Hummel e outras mercadorias caras, até o escritório nos fundos da loja. Então, aparentemente hesitou em revelar a identidade do freguês.

— Se as intenções dele são inocentes, se for apenas um admira dor, e devo dizer, não me pareceu nada assustador; ao contrário, um homem muito agradável, então vou estragar tudo. Com certeza tem um plano para se revelar a você.

Laura tentou convencer a mulher e conquistar sua simpatia. Não se lembrava de ter falado com tanta eloqüência e sentimento, antes; geralmente não era muito boa para expressar o que sentia; fazia isso melhor escrevendo. Lágrimas autênticas reforçaram sua insistência, surpreendendo-a mais do que a Eugenia Farvor.

No comprovante do cartão de crédito ela obteve o nome do homem — Daniel Packard — e o número do seu telefone. Saiu da loja e foi a uma cabine telefônica onde consultou a lista. Havia dois Daniel Packard, e o do número que havia obtido morava na Newport Avenue, em Tustin.

Quando voltou ao estacionamento do centro comercial uma garoa gelada começou a cair. Laura levantou a gola do casaco, mas estava sem chapéu e sem guarda-chuva. Chegou ao carro com o cabelo molhado e tremendo de frio. Sentiu frio durante todo o caminho de Costa Mesa a North Tustin.

Calculou que provavelmente ele estaria em casa. Se era estudante, não tinha aula no sábado. Se trabalhasse no horário normal, das nove às cinco, provavelmente não estaria também no escritório. E o tempo não estava bom para os passeios habituais de fim de semana dos californianos amantes do ar livre.

O endereço era um complexo de prédios tipo espanhol de dois andares, oito ao todo, no meio de um jardim. Por alguns minutos, Laura foi rapidamente de um prédio ao outro, pelas passagens sinuosas sob palmeiras, de cujas folhas a chuva pingava, e outras árvores, procurando o apartamento que queria. Quando o encontrou — no primeiro andar, no canto de um dos prédios, o mais distante da rua — estava com a cabeça completamente molhada. Sentia um frio incrível. O desconforto diminuía o medo e aguçava a zanga, portanto, tocou a campainha sem hesitar.

Evidentemente o homem não tinha olhado pelo visor da porta, porque quando viu Laura ficou paralisado de espanto. Era uns cinco anos mais velho do que ela, muito alto, um metro e noventa, mais ou menos 120 quilos no mínimo, só de músculos. Estava com calça jeans e uma camiseta azul pálido suja de graxa e de outra substância oleosa; os braços fortes pareciam formidáveis. A barba por fazer desenhava uma sombra escura no rosto sujo também de graxa e as mãos estavam negras.

Laura recuou, ficando fora do alcance dele e disse simplesmente:

— Por quê?

— Porque... — Ele passou o peso do corpo de um pé para o outro, parecendo grande demais para a porta. — Porque...

— Estou esperando.

Passou uma das mãos sujas de graxa no cabelo curto sem se preocupar com o que estava fazendo. Desviou os olhos, olhando para o pátio castigado pela chuva:

— Como... como descobriu?

— Isso não é importante. O que importa é que não o conheço, nunca o vi antes, mas tenho um zoológico de sapos que você mandou para mim. Você chega no meio da noite e deixa as caixas nos degraus de entrada, arromba meu carro para deixá-las no painel, e isso está acontecendo há semanas, portanto, não acha que está na hora de me dizer do que se trata?

Sem olhar para ela, o homem corou e disse:

— Bem, é claro, mas eu não... não estava... não achei que estava na hora.

— Estava na hora há mais de uma semana!

— Ummmmmm.

Olhando para as mãos sujas de graxa, ele disse em voz baixa:

— Bem, você compreende...

— Sim?

— Eu te amo.

Laura olhou incrédula para ele. Finalmente seus olhos se encontraram. Ela disse:

— Você me ama? Mas nem me conhece. Como pode amar uma pessoa que não conhece?

Ele desviou os olhos, passou a mão suja outra vez pelo cabelo e deu de ombros:

— Não sei, mas aconteceu, e eu... bem... ummmm, sinto que, você compreende, sinto que tenho de passar o resto da minha vida com você.

Com a água fria da chuva escorrendo do cabelo pelo pescoço e pelas costas, tendo perdido seu dia na biblioteca — como podia se concentrar depois daquela cena maluca? — e desapontada porque seu admirador era um idiota sujo, suado e inarticulado, Laura disse:

— Escute, sr. Packard, não quero que me mande mais sapos.

— Mas, você compreende, eu quero mandar.

— Mas eu não quero receber. E amanhã vou devolver pelo correio os que mandou. Não, hoje. Vou devolver hoje.

Outra vez seus olhos se encontraram, ele piscou surpreso e disse:

— Pensei que gostasse de sapos.

Cada vez mais furiosa, Laura disse:

— Eu gosto de sapos. Adoro sapos. Acho que são as coisas mais engraçadinhas da criação. Neste momento chego a querer ser um sapo, mas não quero os seus sapos. Compreendeu?

— Ummmmm.

— Não me perturbe, Packard. Talvez algumas mulheres gostem do seu romantismo pesado e sinistro e do seu charme de macho suado, mas não sou uma delas e sei me proteger, não pense que não sei. Sou muito mais corajosa do que pareço e já lidei com gente pior do que você.

Laura deu meia-volta e saiu da varanda para a chuva, voltou para o carro e para Irvine. Tremeu durante todo o caminho, não só por estar molhada e com frio, mas porque estava furiosa. A ousadia do homem!

No apartamento Laura tirou a roupa molhada, vestiu um roupão acolchoado e fez café para aquecer.

Acabava de tomar o primeiro gole de café quando o telefone tocou. Atendeu na cozinha. Era Packard.

Falando rapidamente, ofegante, ele disse:

— Por favor, não desligue, você tem razão, sou muito burro com essas coisas, um idiota, mas me dê um minuto para explicar, eu estava consertando a lavadora de pratos quando você chegou, por isso estava tão sujo, cheio de graxa e suado, tive de tirar a máquina de baixo da pia, o senhorio teria mandado consertar mas a burocracia leva mais de uma semana e eu sou bom nessas coisas, posso consertar qualquer coisa, estava chovendo, não tinha nada para fazer, então pensei que eu mesmo poderia consertar, nunca podia imaginar que você ia aparecer. Meu nome é Daniel Packard, mas você já sabe, tenho 28 anos, estive no Exército até 1973, me formei na Universidade da Califórnia, em Irvine, em comércio, há três anos, trabalho como corretor agora, mas estou fazendo alguns cursos noturnos na universidade, foi assim que li sua história sobre o sapo, na revista literária do campus, achei formidável, adorei, uma grande história, de verdade, então fui à biblioteca e procurei nos números atrasados tudo que você já escreveu.

E li tudo, e quase tudo era bom, muito bom. Não tudo, mas quase.

Eu me apaixonei por você então, pela pessoa que eu conhecia daquelas histórias, porque suas histórias são tão bonitas e tão reais. Uma noite eu estava na biblioteca lendo uma das suas histórias — eles não em prestam os números atrasados da revista, estão todos presos e encadernados e a gente tem de ler na biblioteca... e uma bibliotecária passou por mim, viu o que eu estava lendo e perguntou se eu gostava, eu disse que sim e ela falou: "Bem, a autora está bem ali, se quer dizer a ela que gosta do que escreve", e lá estava você a três mesas da minha com uma pilha de livros, fazendo pesquisa, de testa franzida, tomando notas, e você estava linda. Sabe, tinha certeza de que você era linda interiormente pôr causa das suas histórias que são lindas, o sentimento nelas é uma beleza, mas nunca me ocorreu que podia ser linda também por fora, e não consegui me aproximar porque sempre fui tímido e desajeitado com mulheres bonitas, talvez porque minha mãe era bonita mas fria e distante, e agora acho que todas as mulheres bonitas vão me rejeitar também... um pouco de análise de amador... mas sem dúvida teria sido mais fácil para mim se você fosse feia, ou pelo menos não tão bonita. Por causa da sua história, pensei em usar os sapos, imaginei aquela brincadeira de admirador secreto para amaciar você, e pretendia me revelar depois do terceiro ou quarto sapo, é verdade, mas continuei a adiar porque não queria ser rejeitado, eu acho, e sabia que a coisa estava ficando maluca, sapo e mais sapo e mais sapo, mas não podia parar nem esquecer você. É isso. Nunca tive intenção de magoar você, nem assustar, será que me perdoa? Espero que perdoe.

Finalmente ele parou, exausto.

—Bem — disse Laura.

— Então, vai sair comigo? — perguntou ele.

Surpresa com a própria resposta, Laura respondeu:

— Vou.

— Jantar e cinema?

— Está bem.

— Esta noite? Eu te apanho às seis?

— Tudo bem.

Laura desligou e ficou por alguns momentos olhando para o telefone. Finalmente, disse em voz alta:

—Shane, está biruta? — E depois: — Mas ele disse que minhas histórias são tão bonitas e tão reais.

Foi para o quarto e examinou a coleção de sapos.

— Num momento ele é silencioso e inarticulado, no outro fala pelos cotovelos. Pode ser um assassino psicopata, Shane. — Depois de algum tempo disse: — É, pode ser, mas é também um grande crítico literário.

Como Packard havia sugerido jantar e cinema, Laura vestiu uma saia cinzenta, blusa branca e suéter marrom, mas ele apareceu com um terno azul-escuro, camisa branca com punhos de abotoadura, gravata azul de seda com prendedor de corrente, lenço de seda no bolso superior do paletó e sapatos pretos de ponta perfurada, muito brilhantes como se fosse à abertura da temporada na ópera. Levava um guarda-chuva e a conduziu até o carro com uma das mãos sob o braço direito de Laura, num gesto tão solene e cuidadoso como se ela fosse se dissolver se atingida por uma gota de chuva, ou desmanchar-se em pedaços se escorregasse no chão molhado.

Considerando a diferença nos trajes e a diferença de tamanho entre os dois — com 25 anos Laura tinha trinta centímetros menos do que ele; com 57 quilos e meio, menos da metade do peso dele —, ela sentiu-se quase como se estivesse saindo com seu pai ou com um irmão mais velho. Laura não era do tipo miúdo, mas de braço com ele e sob o guarda-chuva, sentia-se definitivamente minúscula.

No carro ele ficou calado outra vez, com o pretexto de dar toda atenção ao carro, com aquele tempo. Foram a um pequeno restaurante italiano em Costa Mesa, onde Laura havia feito boas refeições no passado. Sentaram e receberam os cardápios, mas antes mesmo da garçonete perguntar se queriam beber alguma coisa, Daniel disse:

— Isto não serve. Está tudo errado, vamos procurar outro lugar.

Surpresa, Laura perguntou:

— Mas por quê? Está ótimo. A comida é muito boa.

— Não, de verdade, está tudo errado. Não tem atmosfera, nem estilo, não quero que pense que... — e agora estava falando rapidamente, como no telefone, corando também — hã, bem, não serve, não é próprio para nosso primeiro encontro, quero que seja especial — levantou da cadeira — hã, acho que conheço o lugar certo, desculpe, moça — disse para a jovem garçonete atônita. — Espero que não a tenhamos incomodado — puxou a cadeira de Laura, ajudou-a a se levantar. — Conheço o lugar certo, você vai gostar, nunca comi lá mas ouvi dizer que é muito bom, excelente. — Alguns fregueses olhavam para eles, por isso Laura resolveu não protestar. — É perto, uns dois quarteirões daqui.

Voltaram para o carro dele, e depois de dois quarteirões estacionaram na frente de um restaurante de aparência despretensiosa, num shopping.

A essa altura Laura já o conhecia bastante para saber que o senso de cortesia de Packard exigia que esperasse até ele abrir a porta do carro, mas quando foi aberta, viu que Daniel estava com os pés numa poça d'água.

— Oh, seus sapatos! — ela disse.

— Vão secar. Tome, segure o guarda-chuva que eu a carrego.

Completamente atônita, Laura deixou que ele a tirasse do carro e carregasse para a calçada como se não pesasse mais que um travesseiro de penas. Depois, sem guarda-chuva, Daniel voltou chapinhando para o carro e fechou a porta.

O restaurante francês tinha menos atmosfera do que o italiano. Foram conduzidos a uma mesa de canto, perto da cozinha, e os sapatos de Daniel chiaram durante toda a travessia da sala.

— Você vai pegar pneumonia — disse Laura, quando sentaram e pediram dois Dry Sacks com gelo.

— Não tem perigo. Sou imune a doenças. Nunca fico doente. Uma vez, em Nam, durante a ação, separei-me da minha unidade e quando finalmente descobri o caminho de volta, estava encharcado, mas nem sequer espirrei.

Enquanto tomavam os aperitivos, consultavam o cardápio e faziam os pedidos. Daniel parecia menos tenso, e provou que era um conversador coerente, agradável, até mesmo divertido. Mas quando serviram as entradas, salmão com molho de endro para ela, escalopes com massa para ele, ficou evidente que a comida era terrível, embora os preços fossem duas vezes mais altos que os do restaurante italiano e, um prato depois do outro, enquanto crescia o embaraço de Daniel, sua habilidade para manter a conversa caiu drasticamente. Laura disse que tudo estava delicioso, esforçando-se para não deixar nada no prato, mas não adiantou; Daniel não se deixou enganar.

O serviço da cozinha e das mesas era lento demais. Quando Daniel pagou a conta e a levou de volta ao carro — carregando-a sobre a poça d'água outra vez, como se Laura fosse uma menina — estavam com meia hora de atraso para o cinema.

— Tudo bem — disse ela — podemos entrar no meio e ficar para a outra sessão.

— Não, não. É horrível ver um filme assim. Estraga tudo. Eu que ria que esta noite fosse perfeita.

— Descanse — sugeriu Laura. — Estou me divertindo.

Olhou para ela com ar incrédulo. Laura sorriu, ele sorriu também, mas tristemente.

— Se não quer ir ao cinema agora, está bem. Onde resolver ir es tá bem para mim.

Ele fez um gesto afirmativo, ligou o motor e só depois de alguns quilômetros Laura percebeu que estavam indo para sua casa.

Enquanto andavam do carro até a porta do prédio, ele desculpou-se pela noite fracassada, e Laura repetidamente afirmou que nem por um momento ficara desapontada. No apartamento, assim que ela pôs a chave na fechadura, Daniel deu meia-volta e desceu a escada, sem pedir um beijo de despedida e sem dar tempo a ela de convidá-lo para entrar.

Laura olhou para baixo e o viu descendo, e então uma lufada de vento virou o guarda-chuva de Daniel do avesso. Ele lutou para desvirar, quase perdendo o equilíbrio. Quando chegou na calçada, finalmente conseguiu — e o vento imediatamente virou de novo o guarda-chuva. Furioso, ele o atirou sobre uns arbustos e olhou para cima, para Laura. A essa altura, estava encharcado da cabeça aos pés e à luz fraca da rua Laura viu que o terno estava perdido. Daniel era um homem grande, com a força de dois touros, mas facilmente vencido por pequenas coisas — poças d'água, uma lufada de vento — e havia algo de engraçado nisso. Laura sabia que não era direito rir dele,. que não ousava rir, mas não resistiu.

— Você é bonita demais, Laura Shane! — gritou ele da calçada — Que Deus me ajude, você é bonita demais. — Então, desapareceu na noite.

Achando que não era direito rir, mas rindo assim mesmo, Laura entrou no apartamento e vestiu o pijama. Eram apenas vinte para as nove.

Daniel era completamente maluco ou o homem mais adorável que ela havia conhecido desde seu pai.

Às nove e meia o telefone tocou — Será que você vai sair de novo comigo algum dia? — disse Daniel.

— Pensei que nunca ia telefonar.

— Vai sair comigo?

— É claro.

— Jantar e cinema?

— Parece ótimo.

— Não vamos voltar àquele horrível restaurante francês. Sinto muito, sinto mesmo.

— Não me importa aonde vamos — disse Laura —, mas quando estivermos sentados no restaurante, prometa que vamos ficar lá.

— Sou teimoso com certas coisas. E como já disse... me atrapalho todo com mulheres bonitas.

Sua mãe.

— Isso mesmo. Me rejeitou. Rejeitou meu pai. Nunca senti nenhum calor da parte dela. Ela nos abandonou quando eu tinha 11 anos.

— Deve ter sido doloroso.

— Você é mais bonita do que ela, e me faz morrer de medo.

— É muito lisonjeiro.

— Bem, desculpe, mas a intenção foi elogiar. O caso é que, bonita como você é, não é nem a metade tão bonita quanto o que escreve e isso me assusta mais ainda. Porque o que um gênio como você pode achar num cara como eu — exceto talvez comicidade?

— Só uma pergunta, Daniel.

— Danny.

— Só uma pergunta, Danny. Que tipo de corretor da bolsa você é? É bom?

— Primeira classe — respondeu com orgulho tão sincero que Laura teve certeza de que dizia a verdade. — Meus clientes confiam em mim, e tenho uma boa carteira que há três anos vem tendo um desempenho melhor que o do mercado geral. Como analista de ações, corretor e conselheiro de investimento, jamais dei ao vento a oportunidade de virar do avesso meu guarda-chuva.

2

Na tarde seguinte à colocação dos explosivos no porão do instituto, Stefan fez o que esperava que fosse sua penúltima viagem pela Estrada do Relâmpago. Era uma jornada ilícita ao dia 10 de janeiro de 1988, que não constava do programa oficial e conduzida sem conhecimento dos seus colegas.

A neve caía suavemente nas montanhas de San Bernardino quando ele chegou, mas Stefan estava prevenido, com botas de borracha, luvas de couro e japona forrada, da Marinha. Abrigou-se sob um bosque denso de pinheiros, para esperar que passassem os relâmpagos.

Verificou o relógio de pulso à luz bruxuleante do céu e admirou-se por ser tão tarde. Tinha menos de quarenta minutos para chegar até Laura, antes que a matassem. Se chegasse tarde demais, não haveria uma segunda chance.

Com os últimos clarões brancos cortando o céu encoberto, o trovão ecoando ainda no ar dos picos distantes e das cordilheiras, Stefan saiu do abrigo das árvores e desceu por um campo inclinado onde a neve acumulada em tempestades anteriores chegava até os joelhos. Havia uma camada de gelo sobre a neve, que ele quebrava com cada passo, caminhando pesadamente como se estivesse dentro d'água. Caiu duas vezes e a neve entrou pela parte superior das suas botas, e o vento selvagem o castigou como se fosse consciente e quisesse destruí-lo. Quando chegou ao fim do campo e subiu pela neve empilhada até a estrada estadual de duas pistas que levava a Arrowhead e, na outra direção, para Big Bear, sua roupa estava coberta de neve gelada, os pés quase congelados e tinha perdido mais de cinco minutos.

A estrada recentemente limpa da neve estava livre, a não ser por tênues serpentes brancas de gelo que deslizavam sobre o asfalto, levadas pelo vento. Mas o ritmo da tempestade começava a aumentar. Os flocos eram muito menores e caíam duas vezes mais rápidos do que há alguns minutos. Logo a estrada se tornaria perigosa.

Viu uma placa ao lado da estrada — LAGO ARROWHEAD 1,5 QUILÔMETRO — e ficou chocado ao perceber que estava mais longe de Lau-ra do que pensava.

Entrecerrando os olhos contra o vento, voltado para o norte, viu o tremular da luz elétrica na tarde sombria e cinzenta: um prédio de um andar e carros estacionados a uns dez metros, à direita. Caminhou imediatamente naquela direção, com a cabeça abaixada para se proteger dos dentes gelados do vento.

Precisava encontrar um carro. Laura tinha menos de meia hora de vida e estava a vinte quilômetros de distância.

 

3

Cinco meses depois daquele primeiro encontro, no sábado, 16 de julho de 1977, seis semanas depois de sua formatura na UCI, Laura casou com Danny Packard no civil, perante um juiz. Os únicos convidados, que serviram de testemunhas, foram o pai de Danny, Sam Packard e Thelma Ackerson.

Sam era um homem bonito de cabelos prateados, com mais ou menos l,60m de altura, e parecia um anão perto do filho. Durante a breve cerimônia ele chorou e Daniel, virando várias vezes, perguntava: "Está tudo bem, papai?" Sam fazia que sim com a cabeça, assoa-va o nariz e mandava continuar a cerimônia, mas logo depois estava chorando outra vez e Danny perguntando se ele estava bem, e Sam assoava o nariz, como se estivesse imitando o chamado de amor dos gansos. O juiz disse:

— Meu filho, as lágrimas de seu pai são de alegria, portanto, se pudermos continuar... tenho mais três casamentos para realizar.

Mesmo que o pai do noivo não estivesse tremendamente emocionado, e mesmo que o noivo não fosse um gigante com coração de cordeiro, aquele casamento teria sido memorável por causa de Thelma.

Seu cabelo tinha um corte estranho, arrepiado na frente num pompom pintado de roxo. Em pleno verão — e ainda por cima num casamento — usara sapatos de salto alto, calça justa negra e uma blusa também negra, rasgada — rasgada de propósito, é claro, cuidadosamente — presa na cintura por um pedaço de corrente de aço. Usava maquiagem exagerada nos olhos, roxa também, batom muito vermelho e um brinco que parecia um anzol.

Depois da cerimônia, enquanto Danny conversava com o pai, Thelma levou Laura para um canto do saguão e explicou sua aparência:

— Chama-se punk. Punk, a última moda na Grã-Bretanha. Ninguém está usando ainda por aqui. Na verdade quase ninguém está usando também na Inglaterra, mas dentro de poucos anos, todo o mundo vai se vestir assim. É formidável para o meu ato. Pareço esquisita, e as pessoas começam a rir logo que entro no palco. É bom também para mim. Quero dizer, vamos dizer a verdade, Shane, eu não estou pro riamente desabrochando com a idade. Droga, se feiúra fosse doença e tivesse uma caridade organizada, eu seria a modelo do pôster. Mas as duas coisas formidáveis com o estilo punk são: primeiro, a gente se esconde sob a maquiagem e o cabelo, e ninguém pode ver o quanto somos feios — e segundo, que diabo, a gente tem mesmo de parecer esquisita. Meu Deus, Shane, Danny é um cara grande mesmo. Você me falou tanto dele no telefone, mas nunca me disse que era tão imenso. Vestido com um traje de Godzilla, solto em Nova York, podem fazer com ele um daqueles filmes sem precisar cenários em miniatura.

Então, você o ama, certo?

— Eu o adoro — disse Laura. — É tão delicado... talvez por causa da violência que viu e na qual tomou parte no Vietnã, ou talvez por que sempre foi assim. Ele é um doce, Thelma, e atencioso, e acha que sou uma das melhores escritoras que já leu.

— E quando ele começou a te mandar sapos, você pensou que era um psicopata.

— Uma pequena falha de julgamento.

Dois policiais uniformizados passaram por elas, conduzindo um jovem de barba com algemas. O prisioneiro olhou Thelma de alto a baixo quando passou e disse:

— Ei, mama, vamos dar uma voltinha!

— Ah, o charme Ackerson — disse Thelma para Laura. — Você consegue um cara que é um misto de deus grego, ursinho de pelúcia e Bennett Cerf, e eu consigo propostas indecorosas do lixo da sociedade. Mas pensando bem, nem isso eu consigo, portanto, talvez minha hora não tenha chegado ainda.

— Você se subestima, Thelma. Sempre fez isso. Algum cara muito especial vai descobrir o tesouro que você é...

— Charles Manson quando for libertado sob condicional.

— Não. Algum dia vai ser tão feliz quanto estou agora. Eu sei.

É o destino, Thelma.

— Nossa, Shane, você virou uma otimista fanática! E o relâmpago? Todas aquelas conversas sérias, sentadas no chão do quarto em Caswell... lembra? Concluímos que a vida não passa de uma comédia absurda, uma vez ou outra interrompida por relâmpagos ou tragédia, para dar equilíbrio, para que o pastelão pareça mais engraçado.

— Talvez o raio tenha atingido minha vida pela última vez — disse Laura.

Thelma olhou para ela atentamente.

— Puxa! Eu te conheço, Shane, e tenho certeza de que sabe o grande risco emocional que está correndo, só por desejar tanta felicidade.

Espero que esteja certa, garota, e aposto que está. E que não vai haver mais relâmpagos para você.

— Obrigada, Thelma.

— E acho que seu Danny é um amor, uma jóia. Mas vou dizer uma coisa que deve valer muito mais que minha opinião: Ruth também teria gostado dele; Ruthie o teria achado perfeito.

Abraçaram-se e por um momento eram meninas outra vez, desafiadoras mas vulneráveis, repletas de confiança, coragem e de terror do destino que havia moldado suas adolescências compartilhadas.

No dia 24 de julho, domingo, quando voltaram da lua-de-mel de uma semana em Santa Barbara, foram fazer compras e depois prepararam o jantar — salada, pão fermentado, almôndegas e espaguete — no apartamento em Tustin. Laura havia mudado para o apartamento dele poucos dias antes do casamento. Haviam planejado ficar ali por dois anos, talvez três. (Falavam do futuro com tanta freqüência e tão detalhadamente que agora viam as duas palavras — O Plano — com letras maiúsculas, como se estivessem se referindo a um manual cósmico criado com seu casamento, no qual podiam confiar para um quadro exato dos seus destinos como marido e mulher.) Assim, depois de dois anos, talvez três, poderiam dar entrada numa casa sem usar a carteira particular de ações que Danny estava formando e então mudariam dali. Jantaram na pequena mesa na alcova da cozinha, de onde avistavam as palmeiras reais no pátio, à luz dourada do fim de tarde e conversaram sobre a parte principal do Plano, que consistia em Danny arcar com as despesas, enquanto Laura ficava em casa para escrever seu primeiro livro.

Continuar: parte 2 de 3