O Guardião

Dean R. Koontz · Capítulo 2 de 8

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O Guardião

Luz de Vela ao Vento

Um

 

LUZ DE VELA AO VENTO

 

1

Quando Laura Shane nasceu, uma tempestade açoitou a noite e durante muitos anos as pessoas lembravam a estranheza do tempo.

Quarta-feira, 12 de janeiro de 1955, um dia gélido, cinzento e sombrio. Ao cair da noite, espessos flocos de neve espiralavam do céu, e o povo de Denver preparou-se para a tempestade de neve vinda das montanhas Rochosas. Às dez horas da noite, o vento forte e gelado soprou do oeste, uivando nos vales, como um riso estridente descendo as encostas ásperas e cobertas de árvores. Os flocos de neve foram diminuindo até tornarem-se finos como grãos de areia, com o som abrasivo da areia, quando o vento os atirava contra as janelas do escritório coberto de livros do dr. Paul Markwell.

Markwell, recostado na cadeira atrás de sua mesa, tomava scotch para se aquecer. O frio persistente que o incomodava não era causado por uma corrente de ar, mas por uma frieza interna da mente e do coração.

Desde a morte do seu único filho, Lenny, há quatro anos, de paralisia infantil, Markwell havia começado a beber em excesso. Agora, mesmo estando de plantão para emergências, no County Medicai, apanhou a garrafa e serviu-se de mais Chivas Regai.

Em 1955, um ano de grandes avanços científicos, as crianças estavam tomando a vacina Salk, e logo chegaria o dia em que nenhuma ficaria paralisada nem morreria de poliomielite. Mas Lenny apanhou a doença em 1951, um ano antes de Salk testar sua vacina. Os músculos respiratórios do menino paralisaram-se também, e o caso complicou-se com broncopneumonia. Lenny jamais teve a menor chance.

Das montanhas do oeste vinha um som abafado que ecoava na noite de inverno, mas, a princípio, Markwell não deu grande importância ao ruído, tão absorto estava em sua dor amarga, que às vezes o fazia ignorar o que acontecia à sua volta.

A fotografia de Lenny estava sobre sua mesa. Mesmo depois de quatro anos o rosto sorridente do garoto ainda o atormentava. Devia ter guardado a fotografia, mas ali estava ela, porque a autoflagelação era o modo de compensar a culpa.

Nenhum colega de Markwell conhecia seu problema com a bebida. Nunca parecia embriagado. Os erros que havia cometido com alguns pacientes eram resultantes de complicações que podiam surgir naturalmente e nunca atribuídos por descuido de sua parte. Mas ele sabia que eram erros, e a perda da auto-estima o fazia beber mais.

O ruído repetiu-se. Dessa vez ele reconheceu o trovão, mas não deu grande importância.

O telefone tocou. Lento e quase insensível por causa da bebida, só atendeu no terceiro toque.

— Alô?

— Dr. Markwell? Henry Yamatta. — O residente do County MedicaL parecia nervoso. — Uma das nossas pacientes, Janet Shane, acaba de chegar com o marido. Está em trabalho de parto. Na verdade, a tempestade os atrasou, portanto o trabalho já estava bem adiantado quando chegou aqui.

Markwell continuou a tomar o scotch enquanto ouvia. Então, notando satisfeito que sua voz não estava arrastada, perguntou:

— Está ainda no primeiro estágio?

— Está, mas as dores são intensas e estranhamente demoradas para esta fase do processo. O muco vaginal está sanguinolento...

— Isso é previsível.

Yamatta disse, com impaciência:

— Não, não. Não é uma exposição normal.

Exposição, ou muco vaginal sanguinolento, eram sinais de que o parto estava iminente. Entretanto, Yamatta havia dito que já estava bem adiantado. Markwell cometera um erro, sugerindo que o residente referia-se a uma exposição normal.

Yamatta disse:

— Não é uma hemorragia, mas alguma coisa está errada. Inércia urinaria, obstrução da pelve, doença sistêmica...

— Eu teria notado qualquer anomalia fisiológica que constituís se perigo para a gravidez — disse Markwell secamente. Mas sabia que podia não ter notado... se estivesse bêbado. — O dr. Carlson está de serviço esta noite. Se alguma coisa acontecer antes da minha chegada, ele...

— Acabamos de receber quatro vítimas de acidente, duas seriamente feridas. Carlson está ocupado. Precisamos do senhor, dr. Mark well.

— Estou indo. Vinte minutos.

Markwell desligou, terminou o uísque e tirou uma pastilha de hortelã do bolso. Desde que começou a beber em excesso, levava sempre balas de hortelã com ele. Enquanto desembrulhava a bala e a punha na boca, deixou o escritório e atravessou o hall até o armário dos sobretudos.

Estava bêbado e ia fazer um parto e talvez cometer um grave erro, o que podia significar o fim da sua carreira, a destruição da sua reputação, mas não se importava. Na verdade, antecipava a catástrofe com uma perversa ansiedade.

Estava vestindo o sobretudo quando o estrondo do trovão atravessou a noite. A casa ecoou com o som.

Franziu a testa e olhou pela janela ao lado da porta. Neve fina e seca espiralou contra o vidro, parou no ar, enquanto o vento tomava fôlego, e espiralou outra vez. Uma ou duas vezes havia ouvido trovão durante uma tempestade de neve, mas sempre no começo, sempre suave e distante, nada tão ameaçador como aquilo que ouvia agora.

O relâmpago cortou o céu novamente. A neve que caía tremeluziu sinistramente na luz inconstante, e a janela transformou-se num espelho onde Markwell viu o próprio rosto abatido. O trovão que se seguiu foi o mais forte de todos.

Abriu a porta e espiou curioso a noite turbulenta. O vento forte atirava a neve para baixo do teto da varanda, e a espalhava na parede da frente da casa. Um manto de neve fresca, de uns quatro ou cinco centímetros, cobria o gramado e os galhos dos pinheiros voltados para o vento.

O fulgor intenso do relâmpago ofuscou Markwell. O trovão foi tão tremendo que parecia vir, não só do céu, mas do solo também, como se céu e terra estivessem se abrindo, anunciando o Armagedom. Duas flechas de luz brilhante longas e superpostas cortaram a escuridão. De todos os lados, silhuetas fantasmagóricas saltavam e se contorciam, pulsando. As sombras das cercas, balaústres, árvores, arbustos sem folhas e luzes da rua apareceram tão distorcidos pelo clarão repentino que o mundo de Markwell adquiriu características de surrealismo: a luz sinistra iluminava objetos comuns dando-lhes formas mutantes, alterando-os estranhamente.

Desorientado pelo céu em chamas, pelo trovão, o vento e as cortinas brancas e ondulantes da tempestade, Markwell bruscamente sentiu-se bêbado pela primeira vez naquela noite. Imaginou quanto havia de realidade no bizarro fenômeno e quanto de alucinação alcoólica. Caminhou cuidadosamente pela varanda escorregadia até os degraus que levavam ao caminho coberto de neve na frente da casa e, apoiado numa das colunas da varanda, olhou para cima, para o céu que parecia esfacelado.

Uma seqüência de relâmpagos fez com que o gramado e a rua parecessem saltar várias vezes como a cena em câmara lenta num projetor enguiçado. Toda cor da noite foi queimada deixando apenas o branco ofuscante do relâmpago, o céu sem estrelas, a neve cintilante, sombras trêmulas de profundo negror.

Enquanto olhava com medo e reverência para o estranho espetáculo no céu, outra fenda denteada abriu-se, violenta. A extremidade do raio quente à procura da terra tocou um poste de ferro da rua a vinte metros de distância e Markwell gritou de medo. No momento do contato, a noite tornou-se incandescente e as placas de vidro que protegiam a lâmpada explodiram. O trovão vibrou nos dentes de Markwell; o chão da varanda agitou-se. O ar frio cheirava agora a ozônio e ferro quente.

Silêncio, quietude e escuridão voltaram. Markwell tinha engolido a bala de hortelã. Vizinhos atônitos apareceram nas varandas em toda a rua. Ou talvez tivessem assistido ao tumulto, e ele só os percebesse agora quando voltava a calma relativa de uma tempestade de neve normal. Alguns caminharam pesadamente na neve até o poste atingido, para verificar as avarias. A parte superior parecia completamente derretida. Comentavam em voz alta e dirigiram-se a Markwell, mas ele não respondeu. A terrível exibição não havia dissipado os efeitos da bebida. Com medo de que os vizinhos percebessem que estava bêbado, voltou a entrar na casa.

Além disso, não tinha tempo para conversar sobre o tempo. Precisava atender uma mulher grávida, ajudá-la a dar à luz.

Procurando controlar-se, apanhou um cachecol de lã do armário, enrolou no pescoço, com as pontas cruzadas no peito. Suas mãos tremiam, e os dedos estavam um pouco rígidos, mas conseguiu abotoar o sobretudo. Lutando contra o aturdimento, calçou as galochas.

Markwell estava certo de que aqueles relâmpagos absurdos tinham um significado especial para ele. Um sinal, uma premonição. Tolice. O uísque o confundia. Mas a sensação persistiu quando foi até a garagem, abriu a porta e tirou o carro, as correntes nos pneus mastigando suavemente a neve.

Quando pôs o carro em ponto morto para descer e fechar a garagem, alguém bateu com força no vidro da janela. Sobressaltado, Markwell viu um homem inclinado ao lado do carro, olhando para ele.

O estranho tinha uns 35 anos. Seus traços eram firmes e regulares. Mesmo visto através do vidro meio embaçado, era um homem de boa aparência. Vestia uma jaqueta de marinheiro com a gola levantada. No ar gelado sua respiração transformava-se em vapor, que saía das narinas, e, quando falou, as palavras saíram envoltas em flocos pálidos.

— Dr. Markwell.

Markwell abriu o vidro do carro.

— Sim?

— Dr. Paul Markwell?

— Sim, sim. Eu já disse. Mas não estou atendendo aqui esta noite e estou saindo para ver uma paciente no hospital.

O estranho tinha olhos muito azuis que lembraram a Markwell um céu claro de inverno refletido no gelo fino de um lago recentemente congelado. Eram impressionantes, belos, mas Markwell compreendeu imediatamente que eram os olhos de um homem perigoso.

Antes que o médico tivesse tempo de dar marcha à ré na direção de onde ele esperava que estivesse a rua, o homem de jaqueta enfiou um revólver pela janela.

— Não faça nenhuma bobagem.

Quando o cano da arma encostou na carne tenra sob seu queixo, Markwell compreendeu com alguma surpresa que não queria morrer. Há tempos acalentava a idéia de que estava pronto para a morte. Agora, porém, em vez de ficar satisfeito com sua vontade de viver, sentiu-se dominado pela culpa. Abraçar a vida era como trair o filho com o qual podia se juntar somente pela morte.

— Apague as luzes do carro, doutor. Ótimo. Agora, desligue o motor.

Markwell tirou a chave da ignição.

— Quem é você?

— Isso não é importante.

— É, para mim. O que você quer? O que vai fazer comigo?

— Coopere e não vai sofrer nada. Mas se tentar fugir, eu estouro seus miolos, depois esvazio a arma no seu corpo morto, só para garantir. — A voz era suave, agradável mesmo, mas decidida. — Dê-me as chaves.

Markwell passou as chaves pela janela do carro.

— Agora, saia daí.

Aos poucos sentindo que ficava sóbrio, Markwell saiu do carro. O vento cortante fustigou seu rosto. Apertou os olhos para evitar que a neve fina entrasse neles.

— Antes de fechar a porta, feche a janela. — O

estranho aproximou-se muito dele, anulando qualquer possibilidade de fuga. — Muito bem, ótimo. Agora, doutor, vamos até a garagem.

— Isso é loucura. O que...

— Ande.

O homem ficou ao lado de Markwell, segurando-o pelo braço esquerdo. Se alguém os visse de uma das casas vizinhas, a escuridão da noite e a neve que caía não deixariam que percebessem a arma.

Na garagem, seguindo as instruções do estranho, Markwell fechou a porta. As dobradiças frias e sem óleo chiaram com um ruído raspante.

— Se você quer dinheiro...

— Cale a boca e entre na casa.

— Escute, uma paciente está em trabalho de parto na cidade...

— Se não calar a boca, vou usar o cabo desta arma para arreben tar todos os seus dentes, e não vai mais poder falar.

Markwell acreditou. Dois metros de altura, cerca de noventa quilos, o homem era do tamanho de Markwell, mas era presença intimidadora. O cabelo louro estava molhado de neve derretida, e com as gotículas escorrendo pela testa e têmporas parecia não ser humano, uma estátua de gelo num parque de diversões, no inverno. Markwell não tinha dúvida de que num confronto físico o estranho de jaqueta de marinheiro podia derrotar facilmente seus adversários, especialmente um médico de meia-idade, bêbado e fora de forma.

Bob Shane começou a sentir uma sensação de claustrofobia na sala de espera da maternidade. O teto era baixo, de azulejo acústico, paredes verdes e uma única janela emoldurada pelo gelo fino. O ar estava quente demais. As seis cadeiras e duas mesas de centro eram demais para o pequeno espaço. Teve vontade de empurrar as portas, sair para o corredor, correr para a outra extremidade do hospital, atravessar o saguão e sair para a noite fria, onde não havia cheiro de anti-sépticos nem de doença.

Mas ficou na sala de espera, perto de Janet, para o caso de ela precisar de sua companhia. Algo estava errado. Todo parto é doloroso, mas não aquelas contrações demoradas, agonizantes e brutais que Janet estava suportando há tanto tempo. Os médicos não queriam admitir que haviam surgido graves complicações, mas evidentemente estavam preocupados.

Bob descobriu a origem da sua claustrofobia. Não era o medo de que as paredes se fechassem sobre ele. O que começava a se fechar à sua volta era a morte, talvez da sua mulher, talvez da criança ainda não nascida — ou de ambas.

As portas abriram-se para dentro e o dr. Yamatta entrou na sala.

Bob levantou-se, bateu com a perna na mesa de centro, espalhando revistas pelo chão.

— Como está ela, doutor?

— Na mesma. — Yamatta era baixo, magro, com rosto bondoso e olhos grandes e tristes. — O dr. Markwell logo estará aqui.

— Não está esperando a chegada dele para fazer o que é preciso?

— Não, é claro que não. Ela está sendo bem cuidada. Só achei que ficaria mais tranqüilo sabendo que seu médico está a caminho.

— Oh, bem, sim... obrigado. Escute doutor, posso vê-la?

— Ainda não — disse Yamatta.

— Quando?

— Quando... ela estiver sofrendo menos.

— O que quer dizer com isso? Quando ela vai sofrer menos? Quando vai se livrar disso? — Imediatamente arrependeu-se. — Eu... desculpe, doutor. É só que... estou com medo.

— Eu sei. Eu sei.

Uma porta interna ligava a garagem de Markwell ao resto da casa. Atravessaram a cozinha e seguiram pelo corredor, acendendo as luzes no caminho. A neve derretida das suas botas fazia poças no chão.

O homem com a arma examinou a sala de jantar, a sala de estar, o escritório, o consultório, a sala de espera dos pacientes e então disse:

— Lá em cima.

No quarto de Markwell o estranho acendeu uma das lâmpadas. Afastou da penteadeira uma cadeira com assento bordado e colocou-a no meio do quarto.

— Doutor, por favor, tire as luvas, o sobretudo e o cachecol.

Markwell obedeceu, deixando cair no chão as peças que ia tiran do, e, por ordem do homem, sentou na cadeira.

Deixando o revólver na cômoda, o estranho tirou uma corda grossa do bolso. De dentro do sobretudo tirou uma faca curta com lâmina larga, guardada numa bainha presa ao seu cinto. Cortou a corda em pedaços, evidentemente para amarrar Markwell na cadeira.

O médico olhou para o revólver sobre a cômoda, calculando a possibilidade de alcançá-lo antes que o homem o impedisse. Então, seus olhos encontraram os do assaltante e percebeu que o plano era tão evidente para ele quanto o de uma criança.

O homem louro sorriu como se estivesse dizendo vá em frente, apanhe a arma.

Paul Markwell queria viver. Deixou que o intruso atasse seus pés e suas mãos na cadeira.

Os nós eram firmes mas não dolorosos, uma estranha preocupação do homem com sua vítima.

— Não quero amordaçá-lo. Você está bêbado, e com um pano na boca pode vomitar e morrer sufocado. Portanto, vou confiar em você até certo ponto. Mas se gritar por socorro eu o mato. Entendido?

— Sim.

Quando falava mais do que algumas palavras o homem tinha um sotaque, muito vago e leve, que Markwell não conseguia definir. Cortava o fim de algumas palavras e ocasionalmente sua voz tinha um som gutural apenas perceptível.

O estranho sentou na beirada da cama e pôs a mão sobre o telefone.

— Qual é o número do hospital?

Markwell piscou os olhos.

— Por quê?

— Diabo, perguntei o número. Se não me disser, prefiro fazê-lo falar à custa de pancada a procurar na lista.

Markwell deu o número.

— Quem está de plantão esta noite?

— Dr. Carlson. Herb Carlson.

— Ele é bom?

— O que quer dizer?

— É um médico melhor do que você... ou um bêbado também?

— Não sou bêbado. Eu tenho...

— Você é irresponsável, um farrapo alcoólatra cheio de autopiedade e sabe disso. Responda a minha pergunta, doutor. Posso confiar em Carlson?

Markwell sentiu a náusea, apenas em parte causada pela bebida; era também por reconhecer que o intruso dizia a verdade.

— É, Herb Carlson é bom. Um ótimo médico.

— Quem é a enfermeira-chefe esta noite?

Markwell pensou um momento.

— Ella Hanlow, acho. Não tenho certeza. Se não for Ella, é Virginia Keene.

O estranho telefonou para o hospital e disse que estava falando em nome do dr. Markwell. Pediu para chamar Ella Hanlow.

Uma lufada de vento açoitou a casa, sacudindo uma janela, assobiando nos beirais, e Markwell lembrou da tempestade. Olhando a neve que caía lá fora, sentiu a outra lufada de desorientação. Uma noite tão estranha — o relâmpago, o intruso inexplicável — de repente tudo parecia irreal. Forçou as cordas que o prendiam à cadeira, certo de que eram fragmentos de um sonho alcoólico e que se dissolveriam como teia de aranha, mas não se dissolveram, e o esforço o deixou novamente atordoado.

No telefone, o estranho disse:

— Enfermeira Hanlow? O dr. Markwell não pode ir ao hospital esta noite. Uma das suas pacientes, Janet Shane, está tendo um parto difícil. Hummmm? Sim, é claro. Ele quer que o dr. Carlson se encarregue do caso. Não, não, não vai ser possível. Não, não por causa do tempo. Ele está bêbado. Isso mesmo. Seria perigoso para a paciente. Não... está tão bêbado que não adianta falar com ele ao telefone. Desculpe. Ele tem bebido um bocado ultimamente, tem procurado esconder, mas esta noite está pior do que nunca. Hummmm? Sou um vizinho. Certo. Obrigado, enfermeira Hanlow. Até logo.

Markwell ficou furioso e ao mesmo tempo aliviado com a revelação do seu segredo.

— Seu cretino, você me arruinou.

— Não, doutor, você se arruinou. O ódio que sente por você mesmo está destruindo sua carreira. E afastou sua mulher. O casamento não ia bem, é certo, mas podia ser salvo se Lenny tivesse vivido, e até mesmo depois da morte dele, se você não tivesse se afastado de todos completamente.

Markwell ficou atônito.

— Como você sabe o que se passava entre Anna e eu? E como sabe sobre Lenny? Nunca o vi antes. Como pode saber tanto a meu respeito?

Ignorando as perguntas, o homem ajeitou dois travesseiros contra a cabeceira da cama. Pôs as botas molhadas sobre a coberta e deitou-se.

— Não importa o que você sente, a morte do seu filho não foi culpa sua. Você é só um médico, não faz milagres. Mas perder Anna foi sua culpa. E o que você se tornou... um perigo para seus pacientes... é também sua culpa.

Markwell começou a objetar, depois com um suspiro deixou a cabeça pender para a frente até o queixo encostar no peito.

— Sabe qual é o seu problema, doutor?

— Suponho que possa me dizer.

— Seu problema é que nunca teve de lutar por coisa alguma, jamais conheceu a adversidade. Seu pai estava bem de vida e você tinha tudo o que queria, estudou nas melhores escolas. Teve sucesso com sua profissão, mas nunca precisou de dinheiro. Assim, quando Lenny teve paralisia, você não sabia como enfrentar a adversidade, não tinha prática. Não foi vacinado, portanto, estava sem nenhuma resistência, e sofreu um sério caso de desespero.

Markwell levantou a cabeça, piscou os olhos até clarear sua visão e disse:

— Não entendo isto.

— Com todo esse sofrimento, você aprendeu alguma coisa, Markwell, e se ficar sóbrio o tempo suficiente para pensar com clareza, pode reencontrar o caminho. Ainda tem uma chance de se redimir.

— Talvez eu não queira me redimir.

— Pode ser verdade. Acho que tem medo de morrer, mas não sei se tem coragem suficiente para continuar vivendo.

O hálito do médico era azedo, com cheiro de hortelâ e uísque. Sentia a boca seca e a língua inchada. Precisava de um drinque.

Num esforço vago testou as cordas que o prendiam. Finalmente, enjoado com o tom choroso da própria voz, mas incapaz de recuperar a dignidade, disse:

— O que você quer de mim?

— Quero evitar que vá ao hospital esta noite. Quero ter certeza de que não vai fazer o parto de Janet Shane. Hoje você é um açougueiro, um assassino em potencial e tem de ser detido, desta vez.

Markwell passou a língua nos lábios secos.

— Ainda não sei quem é você.

— E nunca saberá, doutor. Nunca saberá.

Bob Shane nunca sentira tanto medo. Continha as lágrimas, pois acreditava que se demonstrasse abertamente o medo tentaria o destino, provocando a morte de Janet e do bebê.

Inclinou-se para a frente na cadeira da sala de espera e rezou em silêncio: Senhor, Janet podia ter escolhido uma pessoa melhor do que eu. Ela é tão bonita e eu sou feio como um trapo velho. Não passo de um dono de armazém e minha loja na esquina nem está dando lucro, mas ela me ama. Senhor, ela é boa, honesta, humilde... não merece morrer. Talvez o Senhor queira levá-la porque é suficientemente boa para o céu. Mas eu ainda não sou, e preciso dela para me ajudar a ser melhor.

Uma das portas da sala foi aberta.

Bob ergueu a cabeça.

Os dois médicos, Carlson e Yamatta, entraram, com seus aventais verdes.

Bob ficou assustado e levantou lentamente da cadeira.

Os olhos de Yamatta estavam mais tristes do que nunca.

O dr. Carlson era alto e forte e com um porte digno, mesmo com a roupa folgada de cirurgião.

— Sr. Shane... sinto muito. Eu sinto muito, mas sua mulher morreu de parto.

Bob ficou imóvel, como se a notícia terrível tivesse transformado seu corpo em pedra. Ouviu apenas parte do que Carlson dizia:

— ... grande obstrução uterina... uma dessas mulheres que não podem ter filhos. Não devia ter engravidado. Eu sinto muito... muito mesmo... tudo que foi possível... hemorragia maciça... mas o bebê...

A palavra bebê desfez a paralisia de Bob. Deu um passo hesitante na direção de Carlson.

— O que disse sobre o bebê?

— É uma menina — disse Carlson. — Uma menina forte e saudável.

Bob pensou que tudo estava perdido. Agora, olhou para Carlson, com a esperança de que uma parte de Janet não tivesse morrido e de que não ia ficar completamente só no mundo.

— É mesmo? Uma menina.

— Sim — disse Carlson. — Um bebê excepcionalmente bonito.

Nasceu com fartos cabelos castanho-escuros.

Bob olhou para Yamatta e disse:

— Meu bebê está vivo.

— Está — afirmou Yamatta. Seu sorriso comovido foi breve. — E deve agradecer ao dr. Carlson. A sra. Shane não tinha nenhuma chance. Em mãos menos experientes, o bebê teria morrido também.

Bob voltou-se para Carlson, incrédulo ainda.

— O bebê está vivo e devemos agradecer isso, não é mesmo?

Os médicos ficaram em silêncio, embaraçados. Então Yamatta pôs a mão no ombro de Shane, sentindo talvez que o contato serviria de consolo.

Embora Shane fosse dez centímetros mais alto e vinte quilos mais pesado do que o pequeno médico, ele inclinou-se para Yamatta. Dominado pela dor, Bob chorou e Yamatta o abraçou.

O estranho ficou mais uma hora com Markwell, mas não falou, nem para responder às perguntas do médico. Deitado na cama, olhava para o teto, tão absorto nos próprios pensamentos que quase não se movia.

Quando Markwell ficou sóbrio, uma terrível dor de cabeça começou a atormentá-lo. Como sempre, a ressaca era motivo para autopiedade maior do que a que o levara a beber.

Finalmente, o intruso consultou o relógio de pulso.

— Onze e meia. Vou agora. — Saiu da cama, aproximou-se da cadeira e tirou a faca de dentro do sobretudo.

Markwell ficou tenso.

— Vou serrar um pouco as cordas, doutor. Se fizer um esforço durante meia hora poderá se libertar. O tempo que preciso para sair daqui.

Quando o homem começou a serrar as cordas, atrás da cadeira, a todo momento Markwell esperava sentir a faca entre suas costelas.

Mas em menos de um minuto o estranho terminou o serviço e foi até a porta do quarto.

— Tem uma chance para se redimir, doutor. Acho que é fraco demais para isso, mas espero estar enganado.

Então ele saiu.

Markwell lutou durante dez minutos para se libertar, ouvindo alguns ruídos ocasionais no andar térreo. Evidentemente o intruso procurava alguma coisa valiosa para roubar. Com todo seu ar misterioso, talvez não passasse de um ladrão com um estranho método de ação.

Finalmente Markwell libertou-se completamente. Era meia-noite e vinte e cinco. Seus pulsos estavam feridos e sangravam.

Embora há meia hora não ouvisse nenhum barulho, apanhou o revólver da gaveta e desceu a escada cautelosamente. Foi até o consultório, na ala profissional da casa, esperando dar por falta de medicamentos; nenhum dos dois armários altos, com porta de vidro, haviam sido tocados.

Correu para a sala de trabalho, certo de que o cofre fora arrombado. Mas encontrou-o intato.

Intrigado, voltou-se para sair e viu então garrafas vazias de uísque, gim, tequila e vodca na pia do bar. O intruso havia se demorado apenas para localizar as bebidas e esvaziar as garrafas.

Um bilhete estava pregado no espelho do bar, uma mensagem em letras maiúsculas e claras:

SE NÃO DEIXAR DE BEBER, SE NÃO APRENDER A ACEITAR A MORTE DE LENNY, VAI PÔR UMA ARMA NA BOCA E EXPLODIR OS MIOLOS DENTRO DE UM ANO. NÃO É UMA PREDIÇÃO, É UM FATO.

Segurando o bilhete e a arma, Markwell olhou a sala vazia, como se o estranho ainda estivesse presente, invisível, um fantasma que podia aparecer e desaparecer à vontade.

— Quem é você? — perguntou. — Quem é você?

Só o vento na janela respondeu e seu gemido sombrio não fazia sentido.

Às onze horas da manhã seguinte, depois de providenciar o funeral de Janet, Bob Shane voltou ao hospital para ver a filha. Vestiu o avental de algodão, pôs o gorro e a máscara, lavou as mãos, sob a supervisão da enfermeira e entrou no berçário, onde gentilmente tirou Laura do berço.

Havia mais nove recém-nascidos no berçário. Todos bonitinhos, de um modo ou de outro, mas Bob sabia que não estava sendo parcial no seu julgamento. Laura Jean era a mais bonita. Embora a tradição exija que anjos tenham olhos azuis e cabelos louros e os de Laura fossem castanhos, parecia sem dúvida um anjo. Não chorou durante os dez minutos que ele a teve nos braços; piscou os olhos, entrecerrou-os, girou-os de um lado para o outro, bocejou. Parecia também pensativa, como se soubesse que não tinha mãe e estava sozinha, com o pai, num mundo frio e difícil.

Uma das paredes era uma grande janela, pela qual os parentes podiam ver os bebês. Cinco pessoas estavam ali. Quatro delas sorriam, apontavam e faziam caretas para os bebês.

A quinta pessoa, um homem louro, com jaqueta de marinheiro, estava parado com as mãos nos bolsos. Não sorria, não apontava, não fazia caretas. Olhava fixamente para Laura.

Depois de alguns minutos, vendo que o homem não desviava os olhos, Bob ficou preocupado. Era um homem de boa aparência, bonito mesmo, mas com uma expressão séria, algo que não podia ser definido, que fez Bob pensar que o homem havia visto e feito coisas terríveis.

Pensou nas terríveis histórias de seqüestros, dos jornais, de bebês vendidos no mercado negro. Procurou convencer-se de que estava ficando paranóico, imaginando perigos inexistentes porque, tendo perdido Janet, temia agora perder a filha também. Porém, quanto mais o homem louro observava Laura, mais crescia a preocupação de Bob.

Percebendo essa preocupação, o homem louro ergueu os olhos. Eram olhos extremamente brilhantes e intensos. O medo de Bob cresceu. Apertou mais a filha contra o peito, como se o estranho pudesse quebrar o vidro do berçário e apossar-se dela. Pensou em chamar uma das enfermeiras e sugerir que falasse com o homem, procurasse saber algo sobre ele.

Então, o estranho sorriu. O sorriso largo, caloroso e genuíno transformou seu rosto. Não parecia sinistro agora, mas amistoso. Piscou um olho para Bob e moveu os lábios para dizer, através do vidro: "Linda." “

Bob sentiu desaparecer a tensão, lembrou que seu sorriso não podia ser visto, por causa da máscara, e agradeceu com um gesto da cabeça.

O estranho olhou para Laura mais uma vez, piscou novamente para Bob e afastou-se da janela.

Mais tarde, depois que Bob foi para casa, um homem alto com roupas escuras, aproximou-se da janela do berçário. Seu nome era Kokoschka. Observou os bebês; então desviou a vista e observou o próprio reflexo no vidro. Tinha o rosto largo, plano, com traços marcados e lábios tão finos e secos que pareciam feitos de osso. Uma cicatriz de duelo, de cinco centímetros, marcava sua face esquerda. Os olhos escuros eram rasos no rosto, como duas esferas de cerâmica pintadas, como os de um tubarão cruzando as sombrias rotas no fundo do mar. Notou com agrado o contraste do próprio rosto com os rostinhos dos bebês do outro lado do vidro; sorriu, uma expressão rara no seu rosto, mas o sorriso não tinha calor e o fazia parecer mais ameaçador.

Outra vez olhou para além do próprio reflexo. Não foi difícil encontrar Laura Shane entre os bebês enrolados nas mantas, pois os sobrenomes estavam escritos em cada berço.

Por que tanto interesse em você, Laura?, pensou ele. Por que sua vida é tão importante? Por que tanto dispêndio de energia para garantir sua vinda ao mundo sã e salva? Devo matá-la agora e anular o plano do traidor?

Ele seria capaz de matá-la sem nenhum remorso. Já matara crianças antes, embora nenhuma tão nova quanto Laura. Nenhum crime era terrível, se ajudasse a causa à qual devotava sua vida.

O bebê dormia. Uma vez ou outra movia os lábios e o rostinho se contraía, talvez sonhando com o útero, sentindo saudades.

Finalmente ele resolveu não matá-la. Não ainda.

— Posso eliminar você mais tarde, pequenina — murmurou ele —, quando souber que papel você representa nos planos do traidor. Então posso matá-la.

Kokoschka afastou-se da janela. Sabia que durante mais de oito anos não veria mais a menina.

 

2

Raramente chove na primavera, no verão e no outono, no sul da Califórnia. A verdadeira estação das chuvas geralmente começa em dezembro e termina em março. Mas naquele sábado, 2 de abril de 1963, o céu estava encoberto e era alto o índice de umidade no ar. Abrindo a porta do seu pequeno armazém em Santa Ana, Bob Shane calculou que havia possibilidade de uma última pancada de chuva da estação.

Os fícus no quintal da casa, no outro lado da rua, e a tamareira da esquina estavam imóveis no ar parado e pareciam curvados ao peso da tempestade iminente.

Ao lado da caixa registradora o rádio estava ligado com pouco volume. Os Beach Boys cantavam seu novo sucesso Surfin' U.S.A. Considerando o tempo, a canção era tão apropriada quanto White Christmas em julho.

Bob consultou o relógio: 3:15.

Às três e meia estaria chovendo, pensou ele, e chovendo muito.

A parte da manhã fora boa para os negócios, mas à tarde o movimento diminuiu. Naquele momento não havia nenhum freguês.

O armazém, dirigido pela família, começava a sentir a competição das cadeias de mercado como o 7-Eleven. Bob pretendia fazer da sua loja uma casa de frios variados, alimentos mais frescos, mas estava adiando essa medida porque significava muito mais trabalho.

Se a tempestade iminente fosse violenta, pouco venderia no resto daquela tarde. Talvez fechasse mais cedo, para levar Laura ao cinema.

Voltando-se para dentro do armazém, ele disse:

—Acho melhor apanhar o barco, meu bem.

Laura estava absorta no trabalho, ajoelhada ao lado da caixa registradora. Bob havia tirado quatro caixas de sopa enlatada do depósito e Laura agora encarregava-se da arrumação. Tinha só oito anos, mas era uma menina responsável e gostava de ajudar o pai no armazém. Depois de marcar o preço certo em cada lata, colocava-as nas prateleiras, lembrando-se de girar a mercadoria, colocando as latas novas atrás das mais antigas.

Ela ergueu a cabeça com relutância.

— Barco? Que barco?

— Lá em cima, no apartamento. O barco, no armário. Pelo jeito do céu acho que vamos precisar dele para sair mais tarde.

— Seu bobo — disse ela. — Não temos nenhum barco no armário.

Bob foi para trás do balcão.

— Um belo barquinho azul.

— É mesmo? Em qual armário?

Bob começou a dependurar pacotes de Slim Jims no mostruário de metal, ao lado dos pacotes de biscoitos.

— No armário da biblioteca, é claro.

— Não temos biblioteca.

— Não? Ora, está bem, agora que você mencionou, lembrei que o barco não está na biblioteca. Está no armário do quarto do sapo.

Laura riu.

— Que sapo?

— Ora, não vai me dizer que não sabe nada sobre o sapo?

Com um largo sorriso, Laura balançou a cabeça.

— A partir de hoje estamos alugando um quarto para um refina do e importante sapo inglês; um sapo cavalheiro, que está aqui a servi ço da rainha.

O relâmpago cintilou e o trovão estourou no céu de abril. No rádio, a estática juntou-se ao Ritmo da chuva, cantado pelos Cascades.

Laura não deu atenção à tempestade. Não tinha medo de muitas coisas que assustavam as outras crianças. Tinha tanta autoconfiança e tanto controle que às vezes parecia uma mulher idosa fingindo ser criança.

— Por que a rainha ia querer que um sapo tratasse dos seus negócios?

— Sapos são ótimos comerciantes — disse ele, abrindo um dos pacotes de Slim Jims e mordendo um pedaço. Desde a morte de Janet e de sua mudança para a Califórnia e a nova vida, Bob engordara 25 quilos. Nunca fora um homem bonito. Agora, com 38 anos, era um homem gordo, que dificilmente atrairia a atenção das mulheres. Também não era um grande sucesso na vida; ninguém fica rico com um pequeno armazém de esquina. Mas Bob não se importava. Tinha Laura, era um bom pai e ela o amava de todo coração, como ele também a amava, portanto o que o resto do mundo pensava dele não tinha importância.

— Sim, sapos são grandes negociantes. E a família deste sapo serve à rainha há centenas de anos. Na verdade, ele foi armado cavaleiro.

Sir Thomas Sapo.

O relâmpago cortou o céu, mais claro do que antes. O trovão foi também mais forte.

Terminando de arrumar as prateleiras, Laura levantou-se, limpando as mãos no avental que usava sobre a camiseta e a calça jeans. Era uma bela menina; com os cabelos castanhos e olhos grandes da mesma cor, lembrava muito a mãe.

— E quanto o Sir Sapo paga de aluguel?

— Seis pence por semana.

— Está no quarto perto do meu?

— Está. No quarto do armário onde está o barco.

Laura riu outra vez.

— Bom, espero que ele não ronque.

— Ele disse o mesmo de você.

Um Buick velho e enferrujado parou na frente do armazém e, quando o motorista abriu a porta do carro, um terceiro relâmpago abriu uma brecha no céu cada vez mais escuro. O dia estava envolto numa luz difusa que parecia escorrer pelas ruas, espalhando-se como lava sobre o Buick estacionado e os carros que passavam. O trovão sacudiu o prédio, como se o céu tempestuoso estivesse refletido na terra, precipitando um terremoto.

— Puxa! — exclamou Laura, aproximando-se da janela sem demonstrar medo.

Ainda não chovia, mas o vento do oeste soprava forte, levando folhas e lixo na sua corrida.

O homem que desceu do decrépito Buick azul olhava atônito para o céu.

Relâmpagos seguidos cortavam o céu cheio de nuvens, fragmentavam o ar, refletindo-se incandescentes nas janelas e nos cromados dos automóveis, seguidos de trovões que castigavam o dia com seus punhos.

Os relâmpagos impressionaram Bob e ele disse para Laura:

— Querida, afaste-se da janela. — A menina correu então até o pai atrás do balcão, e abraçou-o, mais para confortá-lo, do que por medo.

O homem do Buick correu para dentro do armazém. Olhando para o céu violento, disse:

—Viu aquilo, homem? Puxa vida!

O trovão afastou-se. Voltou o silêncio.

Começou a chover; grossos pingos açoitaram, primeiro as janelas sem muita força, e veio depois a cortina espessa e cegante que encobriu o mundo lá fora, além do pequeno armazém.

O homem sorriu.

— Belo espetáculo, não é mesmo?

Bob ia responder, mas depois de ver o rosto do homem ficou calado, sentindo a proximidade do perigo, como um animal da floresta sente o predador. O homem usava botas de cano médio, jeans sujas e uma jaqueta manchada sobre a camiseta branca. O cabelo despenteado pelo vento era oleoso e a barba por fazer emprestava um tom azulado ao rosto. Os olhos eram congestionados e vermelhos. Um viciado. Aproximando-se do balcão, tirou um revólver de dentro da jaqueta, o que não surpreendeu Bob.

— Me dá o que você tem aí na caixa, seu cretino.

— Certo.

— Trate de andar depressa.

— Tudo bem, vá com calma.

O homem umedeceu com a língua os lábios pálidos e rachados.

— Não comece a fazer cera comigo, seu cretino.

— Tudo bem, tudo bem. Vai ter o que quer — disse Bob, tentando se colocar na frente de Laura.

— Deixe a garota onde eu possa ver! Quero ver ela. Agora, já, tire ela de trás de você!

— Certo, não esquenta.

O homem estava tenso e rígido como o esgar de um morto e seu corpo vibrava visivelmente.

— Onde eu possa ver. E não toque em nada, só na caixa registra dora, não pegue nenhuma arma, senão estouro os seus miolos.

— Não tenho arma — garantiu Bob.

Olhou para as janelas, para a chuva, esperando que nenhum freguês entrasse naquele momento. O homem parecia tão instável que podia atirar em quem entrasse de repente.

Laura tentou outra vez esconder-se atrás do pai, mas o homem disse:

— Ei! Não se mexa!

— Ela tem só oito anos — comentou Bob.

— É urna cadela. São todas umas cadelas ordinárias, pequenas ou grandes. — A voz estridente era entrecortada. O homem parecia mais assustado ,do que Bob, o que era apavorante.

Embora atento ao homem e ao revólver, Bob quase insanamente ouvia Skeeter Davis no rádio, cantando O fim do mundo, o que parecia sinistramente profético. Com a superstição compreensível num homem que enfrenta uma arma, desejou ardentemente que a canção terminasse antes de, com sua magia, precipitar o fim do seu mundo e o de Laura.

— Aqui está o dinheiro todo. Pode levar.

O homem guardou o dinheiro no bolso da jaqueta e disse:

— Você tem um quarto de depósito nos fundos?

— Por quê?

O assaltante jogou no chão parte da mercadoria que estava sobre o balcão. Aproximou mais a arma de Bob.

— Seu cretino, você tem um depósito, eu sei. Vamos para lá.

Bob sentiu a boca seca.

— Olhe, pegue o dinheiro e vá embora. Já tem o que quer. Vá embora. Por favor.

Com um largo sorriso, mais confiante, agora que estava com o dinheiro e encorajado pelo medo evidente de Bob, mas trêmulo ainda, o homem disse:

— Não tenha medo, não vou matar ninguém. Sou um amante, não um assassino. Só quero um pouquinho daquela cadelinha, depois vou embora.

Bob lamentou então não ter uma arma. Laura agarrava-se a ele, confiando na sua ajuda e não podia fazer nada para salvá-la. A caminho do depósito, podia tentar tirar a arma do assaltante. Estava gordo demais, fora de forma. Sem movimentos rápidos com certeza levaria um tiro e o imundo filho da mãe levaria Laura para o quarto dos fundos, para fazer o que quisesse com ela.

— Mexa-se — disse o homem. — Agora!

Ouviram um tiro, Laura gritou e Bob a puxou para ele, protegendo-a, mas o alvo foi o assaltante. A bala atingiu sua têmpora esquerda e ele caiu pesadamente sobre a mercadoria espalhada no chão, morto instantaneamente, sem tempo para apertar o gatilho da arma que empunhava.

Atordoado, Bob olhou para a direita e viu um homem alto e louro com uma arma na mão. Evidentemente havia entrado pela porta de serviço, nos fundos, atravessando silenciosamente o quarto de depósito. Atirou no assaltante sem nenhum aviso. Olhava para o homem morto com expressão fria, indiferente, como um matador experiente.

— Graças a Deus — disse Bob. — Um policial.

— Não sou da polícia.

Vestia calça esporte cinzenta, camisa branca e paletó cinza-escuro sob o qual era visível o coldre a tiracolo.

Bob, confuso, imaginou se não seria outro assaltante, pronto para continuar o que o primeiro havia interrompido tão violentamente.

O estranho ergueu os olhos azuis, intensos e diretos. Bob teve certeza de já tê-lo visto antes, mas não lembrava quando nem onde.

O estranho olhou para Laura.

— Você está bem, querida?

— Estou — disse ela, sempre agarrada ao pai.

Um cheiro pungente de urina vinha do corpo, no chão.

O estranho atravessou o armazém, passando sobre o corpo, e trancou a porta da frente. Abaixou a persiana interna. Olhou preocupado pura as vitrines pelas quais a chuva escorria, distorcendo a tarde tempestuosa lá fora.

— Não podemos cobrir aquelas vitrines. Vamos torcer para que ninguém olhe para dentro.

— O que vai fazer conosco? — perguntou Bob.

— Eu? Nada. Não sou como aquele infeliz. Não quero nada de vocês. Fechei a porta para resolvermos o que você vai dizer à polícia.

Precisamos combinar tudo, antes que alguém entre e veja o corpo.

— Por que preciso inventar uma história?

Abaixando-se perto do corpo, o estranho retirou da jaqueta um molho de chaves e o dinheiro de Bob. Disse então:

— Tudo bem, você vai dizer que eram dois assaltantes. Este aqui queria Laura, mas o outro não gostou da idéia de violentar uma garotinha, só queria ir embora. Então discutiram, enfureceram-se, o outro matou este miserável e foi embora com o dinheiro. É capaz de fazer com que acreditem nisso?

Bob mal podia acreditar que ele e Laura iam ser poupados. Segurava ainda a filha contra o corpo.

— Eu... não entendo. Você não estava com ele. Não vai ter problemas por matar um assaltante... afinal, ele ia nos matar. Por que não contamos a verdade?

O homem aproximou-se de Bob e devolveu o dinheiro.

— E qual é a verdade?

— Bem... você chegou por acaso e viu o que estava acontecendo...

— Não cheguei por acaso, Bob. Tenho vigiado você e Laura — guardando o revólver no coldre, sob o paletó, olhou para Laura, que o observava espantada. O homem sorriu e murmurou: — Anjo da guarda.

Mas Bob não acreditava em anjos da guarda:

— Nos vigiando? De onde, por quanto tempo? Por quê?

Com um tom de urgência na voz e um sotaque vago e indefinido, que Bob notou pela primeira vez, ele disse:

— Não posso responder. — Olhou rapidamente para as vitrines lavadas pela chuva. — E não posso ser interrogado pela polícia. Por- tanto, deve contar a história que inventei.

— De onde eu o conheço? — perguntou Bob.

— Não me conhece.

— Mas tenho certeza de tê-lo visto antes.

— Não viu. Não precisa saber. Agora, pelo amor de Deus, esconda esse dinheiro e deixe a caixa vazia; vai parecer estranho se o segundo homem saísse sem o que vieram buscar. Vou deixar o Buick em algum lugar longe daqui, assim pode dar uma descrição do carro. Se quiser, dê também minha descrição. Não tem importância.

O trovão estourou barulhento lá fora, mas longo e distante, não mais com a fúria do começo da tempestade.

O ar úmido ficou mais pesado quando ó cheiro ácido do sangue misturou-se com o de urina.

Nauseado, apoiando-se no balcão mas sem largar Laura, Bob disse:

— Por que não posso simplesmente contar como você interrompeu o assalto, matou o cara e, para fugir à publicidade, foi embora?

O estranho ergueu a voz impaciente:

— Um homem armado entra por acaso no meio de um assalto e resolve bancar o herói? Os tiras não vão acreditar numa história tola como essa.

— Foi o que aconteceu...

— Mas não vão acreditar! Olhe, vão pensar que foi você quem matou o homem. Como você não tem arma, pelo menos não uma ar ma registrada, vão pensar em porte ilegal e que desfez-se dela depois de atirar neste cara, inventou uma história maluca sobre um justiceiro do tipo Zorro, que chegou de repente e salvou sua pele.

— Sou um comerciante respeitável, com boa reputação. Uma tristeza estranha, uma sombra quase sinistra, surgiu nos olhos do estranho.

— Bob, você é um bom homem... mas um tanto ingênuo, às vezes.

— O que você...

O estranho ergueu a mão interrompendo-o.

— Em certas situações, a reputação de um homem pode não va ler coisa alguma. Existe muita gente boa e compassiva capaz de dar o benefício da dúvida, mas existem alguns, uma minoria venenosa, sempre ávidos para ver a desgraça e a ruína dos outros. — Sua voz era agora um murmúrio e embora olhasse para Bob parecia ver outros lugares, outras pessoas. — A inveja, Bob. A inveja os devora. Se você tivesse dinheiro, eles o invejariam por isso. Mas como não tem, eles invejam sua filha tão boa, inteligente e amorosa. Eles o invejam por ser feliz. Por não invejá-los. Uma das grandes desgraças da humanidade é que algumas pessoas não se sentem felizes com o que têm, mas precisam ver a desgraça dos outros.

Bob não podia refutar a acusação de ingenuidade e sabia que o homem tinha razão. Estremeceu.

Depois de um momento de silêncio, a expressão sombria do estranho deu lugar à urgência, outra vez.

— E quando os tiras resolverem que você está mentindo sobre o justiceiro que o salvou, vão começar a imaginar que talvez o viciado não estivesse aqui para roubar, que talvez você o conhecesse, que tinha alguma coisa contra ele, ou até mesmo que planejou tudo para matá-lo, fazendo com que parecesse um assalto. É assim que os tiras pensam, Bob. Mesmo que não consigam provar sua culpa, vão tentar com tanto afinco que sua vida vai ser um inferno. Quer sujeitar Laura a tudo isso?

— Não.

— Então faça as coisas ao meu modo.

Bob fez um gesto afirmativo.

— Está certo. A seu modo. Mas quem é você?

— Isso não importa. Além do mais, não temos tempo. — Aproximou-se de Laura, atrás do balcão. — Entendeu o que eu disse ao seu pai? Se a polícia perguntar a você o que aconteceu...

— Você estava com aquele homem — disse ela, apontando na direção do corpo.

— Certo.

— Você era amigo dele, mas então começaram a discutir por minha causa, só que não sei por quê, pois não fiz nada de errado...

— Não importa por quê, meu bem — disse o estranho.

Laura balançou a cabeça afirmativamente.

— E então, você atirou nele e fugiu com todo o dinheiro no seu carro e fiquei muito assustada.

O homem olhou para Bob.

— Oito anos, certo?

— Ela é uma menina inteligente.

— Mesmo assim, será melhor que os policiais não a interroguem muito.

— Não vou deixar.

— Se me fizerem muitas perguntas, começo a chorar e chorar até desistirem.

O estranho sorriu. Olhou para Laura com tanto carinho que Bob ficou preocupado. Não era a expressão do pervertido que queria levá-la para o quarto dos fundos; era terno e afetuoso. Tocou de leve o rosto dela. Lágrimas apareceram nos seus olhos. O homem piscou rapidamente.

— Bob, guarde o dinheiro. Lembre-se, eu fugi com ele.

Bob percebeu que estava com o maço de notas ainda na mão. Enfiou no bolso da calça, disfarçando o volume com o avental.

O homem destrancou a porta e levantou a persiana.

— Tome conta dela, Bob. Ela é especial.

Então saiu rapidamente para a chuva, deixando a porta aberta e entrou no Buick. Os pneus cantaram quando ele partiu.

O rádio estava ligado, mas só agora Bob o ouviu, desde O fim do mundo, antes do estranho atirar no viciado. Agora, Shelley Fabares estava cantando Johnny Angel.

De repente, ouviu a chuva outra vez, não apenas como uma música de fundo tamborilada e sibilante, mas real agora, batendo furiosamente nas vidraças e no telhado do apartamento sobre o armazém. Embora o vento entrasse pela porta aberta, o cheiro de sangue e urina parecia mais forte e urgente, como se, só agora saindo do transe de terror, Bob compreendesse o quanto sua preciosa Laura estivera perto da morte. Tomou-a nos braços, levantando-a do chão num abraço apertado, repetindo o nome da filha, acariciando seus cabelos. Encostou o rosto no pescoço dela, sentindo a frescura doce da pele jovem, o pulso da artéria, agradecendo a Deus por ela estar viva.

— Eu te amo, Laura.

— Eu também te amo, papai. Amo você por causa de Sir Thomas Sapo e por mais uma porção de coisas. Mas agora temos de chamar a polícia.

— Sim, é claro — disse ele, soltando o abraço com relutância.

Os olhos de Bob estavam cheios de lágrimas. No seu nervosismo não sabia sequer onde estava o telefone.

Laura tirou o fone do gancho e o deu para o pai.

— Eu posso telefonar, papai. O número está aqui no telefone.

Quer que eu chame a polícia?

— Não. Eu chamo, meu bem.

Piscando os olhos para esconder as lágrimas, Bob segurou o fone e sentou na banqueta ao lado da caixa registradora.

Laura pôs a mão no braço do pai, como se entendesse que ele precisava de encorajamento.

Janet era uma mulher emocionalmente forte, mas a força e o autocontrole de Laura eram excepcionais para sua idade. Bob Shane não sabia de quem os havia herdado. Talvez o fato de não ter mãe desse a ela mais autoconfiança.

— Papai? — disse Laura, batendo no telefone com a ponta do dedo. — A polícia, lembra?

— Sim, sim — disse Bob, controlando a náusea provocada pelo cheiro de morte que envolvia o armazém. Ligou para o número de emergência da polícia.

Kokoschka sentado no carro no outro lado da rua, na frente do armazém de Bob, passou os dedos pela cicatriz do rosto, com ar pensativo.

Não chovia mais. A polícia já havia partido. O asfalto escuro, apesar das luzes da rua e dos luminosos, parecia absorver toda a luz.

Kokoschka chegara ao mesmo tempo que Stefan, o homem louro, o traidor de olhos azuis. Ouviu o tiro e viu Stefan fugir no carro do homem morto. Quando a polícia chegou, juntou-se aos curiosos para se informar sobre o que havia acontecido.

Evidentemente percebeu o absurdo da história de Bob Shane, afirmando que Stefan era um dos assaltantes. Stefan era o guardião voluntário de Bob e Laura e sem dúvida mentira para ocultar sua verdadeira identidade.

Mais uma vez Laura fora salva.

Mas por quê?

Kokoschka tentou imaginar o papel da menina nos planos do trai-dor, mas não tinha idéia. Sabia que de nada adiantaria interrogar a garota, pois era pequena demais para saber alguma coisa. O motivo daquela proteção era um mistério, tanto para ela quanto para Kokoschka. Estava certo de que Bob não sabia de nada. Obviamente, Stefan estava interessado na menina, não no pai, portanto, este não precisava saber quem era Stefan, nem quais as suas intenções.

Finalmente, Kokoschka foi até o restaurante a alguns quarteirões do armazém, jantou e voltou, quando a noite já ia adiantada. Estacionou o carro numa rua transversal sob os galhos frondosos de uma palmeira. O armazém estava às escuras, mas havia luz nas janelas do apartamento no segundo andar.

Tirou o revólver do bolso da capa de chuva. Era um Colt-Agent 48 de cano curto, compacto, mas potente. Kokoschka gostava de armas bem desenhadas e bem-feitas e especialmente da sensação daquele revólver em sua mão: era a própria Morte sob uma capa de aço.

Kokoschka podia cortar os fios telefônicos dos Shane, arrombar a porta, matar a menina e o pai e fugir antes que a polícia aparecesse, alertada pelos tiros. Tinha talento e afinidade para aquele tipo de trabalho.

Mas se os matasse sem saber por quê, sem saber o papel que desempenhavam nos planos de Stefan, podia descobrir mais tarde que a eliminação dos dois fora um erro. Precisava saber a intenção de Stefan, antes de agir.

Relutantemente guardou o revólver no bolso.

 

3

No ar parado da noite, a chuva caía perpendicular sobre a cidade, com gotas enormes e pesadas. Tamborilava barulhenta no telhado e no pára-brisa do pequeno carro negro.

À uma hora da manhã daquela terça-feira, no fim de março, as ruas varridas pela chuva, alagadas em alguns cruzamentos, estavam desertas, a não ser por alguns veículos militares. Stefan seguiu por um caminho indireto até o instituto, para evitar os postos de controle, mas temia encontrar alguma patrulha móvel de reconhecimento. Seus papéis estavam em ordem e tinha licença especial da segurança, que o isentava do toque de recolher. Mesmo assim, preferia não se submeter à inspeção da polícia militar. Não podia arriscar uma revista no carro, pois a mala no banco de trás continha fio de cobre, detonadores e explosivos plásticos, para cujo transporte não tinha ordem legal.

Porque sua respiração embaçava o pára-brisa, porque a chuva obscurecia sinistramente a cidade escura, porque os limpadores de pára-brisa estavam gastos e porque os faróis encobertos iluminavam um campo limitado de visão, quase não viu a rua estreita calçada de pedras, que levava aos fundos do instituto. Freou e virou a direção rapidamente. O carro entrou na rua estremecendo e cantando os pneus, derrapando levemente sobre as pedras.

Estacionou no escuro, perto da entrada dos fundos, saiu do carro e apanhou a mala do banco traseiro. O instituto ficava num prédio velho de quatro andares com janelas fechadas com tábuas. O prédio parecia ameaçador, embora não sugerisse a idéia de segredos importantes, capazes de mudar o mundo. A porta de metal tinha dobradiças invisíveis e era pintada de preto. Stefan apertou o botão, ouviu a campainha lá dentro e esperou nervosamente que alguém atendesse.

Estava com botas de borracha e uma jaqueta de couro com a gola levantada, mas sem chapéu nem guarda-chuva. A chuva gelada grudava seus cabelos na cabeça e escorria por dentro da camisa.

Tremendo de frio, olhou pela janelinha, ao lado da porta. Tinha dez centímetros de largura, trinta de altura e o vidro era opaco por fora, espelhado do lado de dentro.

Stefan ouviu pacientemente a chuva batendo no teto do carro, nas poças d'água da rua, entrando barulhenta nos bueiros. Com um chiado frio, castigava as folhas das árvores na calçada.

Uma luz foi acesa acima da porta. A lâmpada, dentro de um cone de metal, lançou sua luz amarelada e forte diretamente sobre Stefan.

Ele sorriu para a janela de observação, para o guarda que não podia ver.

A luz foi apagada, as fechaduras e trancas abertas e a porta abriu 32 pura dentro. Stefan conhecia o guarda, Viktor, um homem forte, de mais ou menos cinqüenta anos, cabelos grisalhos curtos e óculos com aros de aço. Tinha um gênio mais agradável do que aparentava e na verdade preocupava-se com o bem-estar dos amigos e conhecidos.

— Senhor, o que está fazendo a esta hora, com esta chuva?

— Não podia dormir.

— Tempo horrível. Entre, entre! Vai apanhar um resfriado, na certa.

— Fiquei preocupado com um trabalho que não terminei e achei que seria melhor vir até aqui e acabar logo.

— Vai morrer antes do tempo de tanto trabalhar, senhor. Pode estar certo.

Stefan entrou na sala de espera e enquanto o guarda trancava a porta tentou lembrar alguma particularidade da vida de Viktor.

— Por sua aparência acho que sua mulher ainda faz aquelas tortas maravilhosas de que você me falou.

Viktor riu baixinho e bateu na barriga.

— Juro que ela foi contratada pelo diabo para me fazer pecar, especialmente para me conduzir ao pecado da gula. O que é isso, senhor? Uma mala? Vai se mudar para cá?

Enxugando o rosto com uma das mãos, Stefan disse:

— Material de pesquisa. Levei para casa há algumas semanas para trabalhar à noite.

— O senhor não tem vida particular?

— De quinze em quinze dias, tenho vinte minutos, às quintas- feiras.

Viktor estalou a língua desaprovadoramente. Aproximou-se da mesa que ocupava um terço do espaço da saleta, apanhou o telefone e falou com o outro guarda da noite, que ficava na saleta da frente do prédio. Quando alguém entrava depois do expediente, o guarda sempre avisava o companheiro, em parte para evitar alarmes falsos que podiam provocar a morte acidental de um visitante inocente.

Com a água da roupa pingando na passadeira usada, Stefan foi até a porta interna, apanhando um molho de chaves no bolso. Como a outra porta, era de aço com dobradiças embutidas. Só podia ser aberta com duas chaves usadas ao mesmo tempo — uma do funcionário autorizado, a outra do guarda em serviço. O trabalho realizado no instituto era tão extraordinário e secreto que nem o guarda da noite tinha acesso aos laboratórios e salas de arquivos.

Viktor desligou o telefone.

— Quanto tempo vai demorar, senhor?

— Umas duas horas. Alguém está trabalhando esta noite?

— Não. O senhor é o único mártir. E ninguém gosta muito de mártires, senhor. Vai se matar de tanto trabalhar, pode estar certo, e para quê? Quem se importa?

— Eliot disse: "Santos e mártires reinam do túmulo.”

— Eliot? É um poeta ou coisa assim?

— T. S. Eliot, sim, um poeta.

— Santos e mártires reinam do túmulo'? Não sei nada sobre esse cara. Não me parece um poeta aprovado. Parece subversivo.

Viktor riu com gosto, aparentemente divertindo-se com a idéia ridícula de que o amigo tão dedicado pudesse ser um traidor. Juntos abriram a porta interna.

Stefan arrastou a mala com explosivos para o corredor do prédio e acendeu as luzes.

— Se vai fazer um hábito desse trabalho no meio da noite — disse Viktor —, posso trazer uma das tortas da minha mulher para lhe dar energia.

— Obrigado, Viktor, mas espero não fazer disto um hábito.

O guarda fechou a porta de aço. A fechadura trancou automaticamente.

Sozinho no corredor, Stefan pensou, não pela primeira vez, que tinha sorte por ter aquela aparência: louro, com traços fortes, olhos azuis. Sua aparência em parte explicava o fato de poder entrar no instituto levando explosivos sem ser revistado. Nada era escuro nele, dissimulado ou suspeito; era o homem ideal, de sorriso angélico, e sua devoção ao país jamais seria questionada por homens como Viktor, homens cuja obediência cega ao Estado e cujo patriotismo sentimental os impediam de pensar claramente sobre muitas coisas. Uma porção de coisas.

Tomou o elevador para o terceiro andar e foi diretamente ao seu escritório, onde acendeu uma lâmpada de mesa. Depois de tirar as botas de borracha e a jaqueta de couro, tirou uma pasta do arquivo e arrumou seu conteúdo sobre a mesa, para dar a impressão de que estava trabalhando. Se por acaso outro funcionário resolvesse aparecer no meio da noite, não devia suspeitar de nada.

Levando a mala e uma lanterna que tirou do bolso da jaqueta, subiu a escada até o sótão. A luz da lanterna viu as vigas enormes com um ou outro prego visível. O assoalho era de madeira, mas o sótão não era usado como depósito e estava vazio, com uma camada fina de poeira e teias de aranha. O espaço sob o telhado inclinado permitia que ficasse de pé no centro mas não nas outras partes do sótão.

Tão perto do telhado, o barulho da chuva era forte e constante como uma esquadra de bombardeiros passando sobre o prédio. A imagem foi talvez provocada pelo fato de Stefan pensar que esse seria sem dúvida o destino daquela cidade.

Abriu a mala. Trabalhando com a rapidez e eficiência de um técnico de demolição, colocou os explosivos nos lugares determinados e ajustou a carga a fim de que a explosão se desse para baixo e para dentro. A finalidade não era apenas explodir o telhado, mas pulverizar os andares do meio do prédio, fazendo com que as pesadas vigas caísssem sobre o resto, aumentando a destruição. Colocou os explosivos entre as vigas e nos cantos da longa sala e alguns sob as tábuas do assoalho.

Lá fora, a tempestade amainou por algum tempo. Porém, logo a seguir, o trovão rompeu pela noite e a chuva recomeçou, mais forte do que antes. O vento chegou também dessa vez, assobiando na rua e gemendo sob os beirais; sua voz estranha e profunda parecia ameaçar e lamentar a cidade.

Gelado, ali no sótão sem aquecimento, Stefan trabalhou com mãos cada vez mais trêmulas. Embora estivesse tremendo de frio, o suor brotava de todos os seus poros.

Colocou um detonador em cada carga e estendeu os fios até o canto norte do sótão. Trançou-os, formando um único fio e o enfiou pelo tubo de ventilação que ia até o porão.

As cargas e o fio não seriam notados se alguém abrisse a porta para um exame rápido do sótão. Mas, apenas um exame mais acurado, ou se o espaço fosse usado para depósito, sem dúvida seriam descobertos.

Era essencial que ninguém entrasse no sótão nas próximas 24 horas. Não era pedir muito, considerando que ele fora o único visitante ido lugar nos últimos meses.

Na noite seguinte voltaria com outra mala para colocar cargas de explosivo no porão. O único meio de garantir a completa destruição do prédio era fazê-lo explodir de cima para baixo e de baixo para cima. Só assim reduziria tudo o que ele continha a lascas, poeira e restos inúteis. Depois da explosão e do incêndio, não sobraria nada para prosseguir a perigosa pesquisa que estava sendo feita.

A grande quantidade de explosivos, mesmo colocada cuidadosamente, causaria danos às estruturas que ladeavam o edifício e Stefan temia que pessoas inocentes viessem a morrer. Mas isso não podia ser evitado. Não ousava usar menor quantidade de explosivos porque se não fossem destruídos todos os arquivos, todas as cópias, o projeto poderia ser reiniciado rapidamente. Era um projeto que precisava ser destruído agora, pois a esperança de toda a humanidade dependia disso. Se pessoas inocentes fossem sacrificadas, ele teria de viver com essa culpa.

Terminou o trabalho no sótão alguns minutos depois das três horas.

Voltou ao escritório no terceiro andar e ficou algum tempo sentado à mesa. Não queria sair antes que seu cabelo molhado de suor estivesse seco e pudesse parar de tremer, pois Viktor podia notar.

Fechou os olhos e viu mentalmente a imagem de Laura. Sempre conseguia se acalmar pensando nela. O mero fato de Laura existir dava-lhe paz e coragem.

4

 

Os amigos de Bob Shane não queriam que Laura assistisse ao enterro do pai. Achavam que uma menina de 12 anos devia ser poupada desse sofrimento. Mas ela insistiu e, como queria com tanto ardor despedir-se do pai, ninguém conseguiu impedir.

Aquela quinta-feira, 24 de julho de 1967, foi o pior dia de sua vida, mais triste do que a terça-feira anterior, o dia da morte do pai. Parte do choque tinha se dissipado e Laura não mais sentia como se estivesse anestesiada; suas emoções estavam mais perto da superfície e eram controladas com maior facilidade. Começava a compreender a imensidão daquela perda.

Escolheu um vestido azul-escuro, porque não tinha nenhum preto. Calçou sapatos pretos e meias azul-escuras. Achou que as meias curtas a faziam parecer muito infantil, frívola. Mas como jamais usou meias compridas, não julgou conveniente usar pela primeira vez naquela ocasião. Esperava que o pai estivesse olhando lá do céu, durante a cerimônia e queria que a visse como sempre a vira antes. Se a visse com meias compridas, uma criança procurando parecer adulta, podia ficar embaraçado por ela.

Na casa funerária sentou-se na primeira fila entre Cora Lance, dona de um salão de beleza, a um quarteirão do armazém de Shane, e Anita Passadopolis, que havia trabalhado com Bob nas obras de caridade da igreja presbiteriana de Santo André. Ambas tinham mais de cinqüenta anos, eram mulheres do tipo maternal e procuravam dar a Laura uma sensação de segurança, observando-a preocupadas.

Não precisavam se preocupar. Laura não ia chorar, não ia ficar histérica, não ia arrancar os cabelos. Ela compreendia a morte. Todos tinham de morrer. Pessoas, cães, gatos, passarinhos, flores, todos morriam. Até as árvores antigas morriam, cedo ou tarde, embora vivessem trinta vezes mais do que as pessoas, o que não parecia justo. Por outro lado, viver milhares de anos, como as árvores, devia ser mais aborrecido do que viver apenas 42 como um ser humano feliz. Seu pai tinha 42 anos quando seu coração falhou — um ataque repentino — o que era pouca idade para morrer. Mas assim era o mundo, e de nada adiantava chorar. Laura orgulhava-se da própria sensatez.

Além disso, a morte não significava o fim da pessoa. Na verdade, era apenas o começo. Outra vida melhor vinha então. Sabia que era verdade porque seu pai lhe havia dito, e seu pai nunca mentia. Ele era o homem mais sincero, o melhor, o mais carinhoso.

Quando o sacerdote aproximou-se do lado esquerdo do caixão, para dar início à cerimônia, Cora Lance abraçou Laura.

— Você está bem, querida?

— Estou. Estou bem — respondeu ela, sem olhar para Cora. Não ousava olhar para ninguém, por isso começou a observar com interes-se as coisas inanimadas.

Era a primeira vez que entrava numa casa funerária e não gostou. O tapete cor de vinho era ridiculamente espesso. As cortinas e as cadeiras eram também cor de vinho, com um fino acabamento dourado, e as lâmpadas tinham cúpulas cor de vinho, de modo que todas as salas pareciam ter sido decoradas por alguém que tinha mania por aquela cor. Que a usava como fetiche.

Fetiche era uma palavra nova para ela e Laura a usava demais, como fazia com todas as palavras novas, mas nesse caso estava certa.

No mês anterior, quando pela primeira vez ouviu a palavra 'seqüestrar', com o sentido de 'isolar, pôr de lado', Laura começou a usá-la com freqüência, até o pai inventar variações absurdas para o termo: "Ei, como vai minha pequena seqüestradora esta manhã?", dizia ele, ou então, "batatas fritas têm muita saída agora, por isso vamos colocá-las na primeira fila, perto da caixa, porque no canto elas ficam um tanto seqüestradas". Ele gostava de fazê-la rir, como quando contava as histórias de Sir Tommy Sapo, um anfíbio britânico que ele havia inventado quando Laura tinha oito anos e cuja biografia cômica ele aperfeiçoava a cada dia. De certo modo, seu pai era mais criança do que ela, e Laura o amava por isso.

O lábio inferior da menina tremeu. Ela o mordeu. Com força. Se chorasse estaria duvidando do que o pai sempre dizia sobre a outra vida, a vida melhor. Chorar seria confirmar sua morte, para sempre, para toda a eternidade, finito.

Laura queria estar seqüestrada no seu quarto sobre o armazém, na cama, a cabeça coberta. A idéia era tão tentadora que imaginou o quanto seria fácil para ela fazer do seqüestro um fetiche.

Da casa funerária foram para o cemitério.

Não havia lajes. Os túmulos eram marcados por placas de bronze sobre bases de mármore enterradas no solo. O gramado verde, com imensos loureiros indianos e pequenas magnólias, parecia um parque, 37 um lugar para brincar, correr e rir — se não fosse pelo túmulo aberto sobre o qual estava suspenso o caixão de Bob Shane.

Na noite anterior Laura havia acordado duas vezes com o som do trovão distante e, semi-adormecida, julgou ver a luz do relâmpago na janela, mas se tempestades haviam passado na escuridão da noite, não havia agora nenhum sinal delas. O dia estava azul, sem nuvens.

Laura ficou entre Cora e Anita, que a tocavam com palavras carinhosas de consolo, mas nada do que diziam a consolava. O frio úmido cada vez mais se apossava dela a cada palavra da prece final, até ter a impressão de estar despida no inverno ártico e não à sombra de uma árvore naquele dia quente, naquela manhã de julho de ar parado.

Foi ativado o suporte do caixão. O corpo de Bob Shane desceu para a terra.

Incapaz de olhar a descida lenta do caixão, quase sem poder respirar, Laura voltou-se, livrou-se das mãos carinhosas das duas mulheres e deu alguns passos pelo cemitério. Estava fria como o mármore; precisava sair da sombra. Parou assim que sentiu o calor do sol morno na sua pele, mas que não fez passar os arrepios.

Laura olhou para a colina longa e suave durante um minuto mais ou menos antes de avistar o homem, de pé, na outra extremidade do cemitério, na sombra de uma moita de loureiros. Ele estava com calça esporte clara e camisa branca que parecia levemente luminosa, como um fantasma que houvesse trocado sua ronda noturna pela luz do sol. O homem a observava e às outras pessoas presentes. Daquela distância, Laura não podia ver o rosto dele, mas percebeu que era alto, forte e louro — e estranhamente familiar.

O homem a intrigou, Laura não sabia por quê. Como que levada por um impulso, desceu a colina, passando entre os túmulos. Quanto mais se aproximava do homem louro, mais acentuava-se a impressão de que o conhecia. A princípio ele não reagiu à aproximação dela, mas Laura tinha certeza de que a observava atentamente; sentia o peso do seu olhar.

Cora e Anita a chamaram, mas Laura as ignorou. Tomada por uma excitação inexplicável, Laura apressou o passo, agora a uns três metros do estranho.

O homem recuou para a sombra das árvores.

Temendo que ele se fosse antes que pudesse ver seu rosto — sem saber por que isso era importante — Laura correu. As solas dos sapatos novos estavam escorregadias e por várias vezes quase caiu. Viu a relva amassada no lugar em que o homem tinha estado, portanto não era um fantasma.

Laura viu um movimento fugidio entre as árvores, o branco espectral da camisa dele. Correu naquela direção. Sob os loureiros pouca relva crescia por falta da luz do sol. Mas raízes expostas e sombras traiçoeiras surgiam por toda a parte. Laura tropeçou, agarrou o tronco de uma árvore, recuperou o equilíbrio e ergueu os olhos — para que o homem tinha desaparecido.

Os galhos entrelaçados das poucas árvores do pequeno bosque deixavam passar finas faixas douradas de luz, como se o tecido do céu estivesse se desfiando sobre a terra. Laura correu, entrecerrando os olhos na sombra. Várias vezes teve a impressão de avistar o homem, mas era sempre um movimento ilusório, efeito de luz ou de sua imagição. Quando soprou uma brisa, teve certeza de ouvir passos furtivos sobre as folhas caídas, mas quando correu para o som, não conseguiu descobrir de onde vinha.

Depois de alguns minutos, Laura saiu do bosque para uma estrada que servia outra parte do imenso cemitério. Havia carros estacionados, cintilando ao sol e a uns cem metros viu um grupo de pessoas ao lado de um túmulo.

Laura parou ao lado do caminho, ofegante, perguntando a si mesmo para onde o homem teria ido e por que tivera aquele impulso de correr atrás dele.

O sol escaldante, a parada da brisa leve e a volta ao silêncio completo do cemitério, tudo isso a perturbou. O sol parecia passar por ela como se seu corpo fosse transparente e Laura sentia-se leve, quase sem peso e um tanto atordoada. Era como se estivesse num sonho, flutuando nobre uma paisagem irreal.

Vou desmaiar, pensou.

Apoiou a mão no pára-lama dianteiro de um carro e cerrou os dentes com força, lutando para não perder a consciência.

Laura tinha apenas 12 anos mas nem sempre agia como uma criança, e jamais sentia-se como criança — até aquele momento, no cemitério, quando de repente sentiu-se muito nova, fraca e desamparada.

Um Ford bege aproximou-se lentamente, diminuindo mais a marcha, quando passou por ela. O homem de camisa branca o dirigia.

Assim que o viu, Laura compreendeu por que ele parecia familiar. Há quatro anos. O assalto. Seu anjo da guarda. Laura tinha apenas oito anos mas jamais esqueceria aquele rosto.

O homem passou por ela muito devagar, observando-a atentamente. Estavam muito próximos um do outro.

Na janela do carro cada detalhe do rosto bonito aparecia tão claro quanto naquela noite terrível no armazém. Os mesmos olhos azuis brilhantes e penetrantes. Quando encontraram os dela, Laura estremeceu.

O homem não disse nada, não sorriu, mas observou-a atentamente, como se quisesse fixar cada detalhe do seu rosto. Olhava para Laura como quem olha para uma jarra com água depois de atravessar o deserto. Seu silêncio e os olhos fixos assustaram a menina, mas ao mesmo tempo comunicavam uma inexplicável sensação de segurança. O carro continuou lentamente. Laura gritou:

— Espere!

Correu para o Ford. O estranho acelerou e afastou-se, deixando-a ali sozinha no sol, e então uma voz de homem disse atrás dela:

— Laura?

Ela voltou-se, mas a princípio não o viu. O homem disse seu nome outra vez, baixinho, e Laura então o viu, a uns três metros, no começo do pequeno bosque, de pé na sombra de um loureiro indiano. Estava com calça preta, camisa da mesma cor e parecia deslocado naquele dia cheio de sol.

Curiosa, intrigada, imaginando se aquele homem tinha algo a ver com seu anjo da guarda, Laura caminhou para ele. Chegou a dois passos do estranho, antes de perceber que a desarmonia entre ele e o dia claro não era motivada apenas pela roupa; a escuridão do inverno era parte integrante da sua pessoa; era como se o frio viesse de dentro dele, como se fosse uma criatura das regiões polares ou das cavernas, nas montanhas cobertas de neve.

Laura parou a menos de um metro dele.

O homem não disse palavra, mas olhou para ela atentamente com uma expressão intrigada.

Laura viu a cicatriz no lado esquerdo do rosto do estranho.

— Por que você? — perguntou o homem das regiões geladas, dando um passo para a frente com o braço estendido.

Laura recuou, trêmula, assustada demais para gritar. Do meio das árvores, Cora Lance chamou:

— Laura? Você está bem, Laura?

O estranho, ouvindo a voz tão próxima, deu meia-volta e desapareceu rapidamente entre as árvores, como se não fosse real mas apenas um pedaço da escuridão que tivesse criado vida de repente.

Cinco dias após o funeral, na terça-feira, 29 de julho, Laura estava de volta ao seu quarto sobre o armazém, pela primeira vez em uma semana. Fazia as malas e despedia-se do que fora seu lar desde que se conhecia por gente.

Parou para descansar, sentada na cama desfeita, procurando lembrar o quanto fora feliz e tranqüila naquele quarto, até pouco tempo. Uma centena de livros em brochura, a maioria histórias de cães e cavalos, estavam na estante, num dos cantos. Cinqüenta miniaturas de cães e gatos — em vidro, bronze, porcelana, cerâmica — enchiam as estantes acima da cabeceira da cama.

Laura não possuía nenhum animal verdadeiro, pois o código de saúde não permitia que fossem criados num apartamento sobre um armazém. Esperava algum dia ter um cão. Talvez um cavalo. Mais importante ainda, queria ser veterinária para curar animais feridos e doentes.

Seu pai dizia que ela podia ser o que quisesse: veterinária, advogada, estrela de cinema, qualquer coisa. "Pode ser pastora de alces, se quiser, ou bailarina com pernas de pau. Nada pode impedi-la.”

Laura sorriu, lembrando como o pai havia imitado uma bailarina com pernas de pau. Mas lembrou também que ele se fora e foi invadida por um imenso vazio.

Tirou as roupas do armário, dobrou cuidadosamente e guardou nas duas grandes malas. Tinha também uma mala-cabine, onde arrumou os livros favoritos, alguns jogos, um ursinho de pelúcia.

Cora e Tom Lane inventariavam o resto do pequeno apartamento e a loja no térreo. Laura ia ficar com eles, embora não estivesse decidido se era um arranjo provisório ou permanente.

Preocupada com a incerteza do futuro, Laura voltou a fazer as malas. Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e ficou imóvel olhando para as botas minúsculas, o pequeno guarda-chuva e o cachecol de dez centímetros que seu pai havia comprado, para provar a existência de Sir Tommy Sapo no quarto que ele alugava.

Um amigo de Bob que trabalhava com couro havia feito as botas largas nas pontas para acomodar os pés do sapo. O guarda-chuva era de uma loja de miniaturas e o cachecol ele mesmo havia feito, com grande trabalho, colocando franja nas pontas. Quando Laura fez nove anos, ao voltar da escola, encontrou as botas e o guarda-chuva perto da porta e o cachecol dependurado no porta-casacos do hall. "Shhh", murmurou seu pai dramaticamente. "Sir Tommy acaba de chegar de uma árdua viagem ao Equador a serviço da rainha — ela tem uma mina de diamantes lá, você sabe — e ele está exausto. Tenho certeza de que vai dormir durante dias. Porém, pediu-me que transmitisse seus votos de feliz aniversário e deixou um presente lá atrás, no quintal.”

O presente era uma bicicleta Schwinn.

Agora, olhando para aqueles três objetos na gaveta, Laura compreendeu que seu pai não havia morrido sozinho. Tinham partido Sir Tommy Sapo, todos os personagens criados por ele e as fantasias tolas mas maravilhosas com que o pai a distraía. As botas largas nas pontas, o guarda-chuva e o pequeno cachecol pareciam suaves e patéticos;

Laura quase podia acreditar que Sir Tommy fora real e que agora estava num mundo melhor. Deixou escapar um soluço doloroso. Atirou-se na cama, escondeu o rosto no travesseiro, abafando os soluços e pela primeira vez, desde a morte do pai, deixou que a dor a dominasse.

Não queria viver sem ele, mas precisava não só viver, como prosperar, porque cada dia de sua vida seria um testamento para ele. Jovem como era, compreendia que vivendo bem, sendo uma boa pessoa, teria seu pai vivo através dela.

Mas ia ser difícil enfrentar o futuro com otimismo e sentir-se feliz. Sabia agora que a vida era assustadoramente sujeita a tragédias e a mudanças, azul e quente num momento, fria e tempestuosa no outro, e nunca se sabe quando o relâmpago vai atingir alguém que amamos. Nada dura para sempre. A vida é uma vela acesa ao vento. Uma dura lição para tão pouca idade, uma lição que a fez sentir-se velha, muito velha, uma anciã.

Quando cessou a torrente de lágrimas, Laura retomou o controle, pois não queria que os Lane soubessem que estivera chorando. Se o mundo era duro, cruel e imprevisível, não parecia prudente demonstrar fraqueza.

Embrulhou cuidadosamente as botas, o guarda-chuva e o cachecol em uma toalha de papel e os guardou na mala-cabine.

Depois de esvaziar as estantes, foi até sua mesa de trabalho e encontrou no mata-borrão uma mensagem escrita com letra clara, elegante, quase como se fosse datilografada.

Querida Laura,

Algumas coisas têm de acontecer e ninguém pode evitar. Nem mesmo seu anjo da guarda especial. Deve sentir-se satisfeita por saber que seu pai a amava de todo coração, com um amor que poucas pessoas têm a felicidade de receber. Embora você pense que jamais voltará a ser feliz, está enganada. A felicidade vai chegar para você. Não é uma promessa vazia. É um fato.

Não tinha assinatura, mas Laura sabia de quem era: do homem que estava no cemitério, que a havia observado de dentro do carro, que há alguns anos havia impedido que ela e o pai fossem mortos. Ninguém mais se intitulava seu guardião especial. Laura estremeceu, não de medo, mas por causa da estranheza e do mistério que a enchia de curiosidade e espanto.

Foi rapidamente até a janela e abriu a cortina leve do centro, esperando vê-lo na rua, mas não havia ninguém.

O homem de roupa escura também não estava lá, mas Laura não esperava vê-lo. Estava quase convencida de que ele nada tinha a ver com seu guardião, que estava no cemitério por outros motivos. Ele sabia seu nome... mas talvez tivesse ouvido quando Cora a chamou antes, do topo da pequena colina. Laura podia afastá-lo de sua mente porque não desejava que fizesse parte de sua vida, ao passo que desejava ardentemente um guardião especial.

Leu o bilhete de novo.

Embora não soubesse quem era o homem louro, nem por que se interessava por ela, Laura sentiu-se segura com aquele bilhete. Nem sempre é necessário compreender, desde que se possa acreditar.

 

5

Na noite seguinte, depois de ter colocado os explosivos no sótão do instituto, Stefan voltou com a mesma mala, dizendo que estava com insônia outra vez. Antecipando a visita depois da meia-noite, Viktor levara metade de uma torta feita por sua mulher. Stefan comeu alguns pedaços da torta enquanto colocava os explosivos. O porão enorme era dividido em duas partes, e, ao contrário do sotão, era usado diariamente pelos empregados. Precisava esconder as cargas com muito cuidado.

A primeira câmara continha arquivos de pesquisas e duas longas mesas de carvalho. Os arquivos tinham dois metros de altura e estavam encostados nas paredes. Stefan colocou os explosivos na parte superior , empurrando-os um pouco para trás, contra a parede, onde nem o funcionário mais alto podia ver.

Estendeu os fios entre os arquivos, abrindo um orifício na parede que separava uma sala da outra, para continuar a linha de detonação. Abriu o buraco num lugar pouco visível e só se percebiam alguns centímetros de fio de cada lado da divisória.

A segunda sala era usada para depósito de material de laboratório e de escritório, além das gaiolas dos animais — vários hamsters, alguns ratos brancos, dois cães, um macaco muito agitado numa jaula grande, com três barras internas para o animal se balançar — que haviam participado das experiências de laboratório e sobrevivido a elas.

Embora não tivessem mais nenhuma utilidade, eram mantidos vivos para observação, caso apresentassem problemas médicos imprevistos, a longo prazo, relacionados com as experiências.

Stefan colocou as cargas atrás das pilhas de material e estendeu os fios até o túnel de ventilação, no qual havia colocado os fios do sótão e enquanto trabalhava percebia a atenção dos animais, como se soubessem que tinham menos de 24 horas de vida. Stefan foi assaltado por um sentimento de culpa, a culpa que não havia sentido quando pensou na possibilidade das vítimas humanas, nos homens que trabalhavam no ins-tituto, talvez porque os animais eram inocentes e os homens não.

Às quatro horas da manhã, terminou o trabalho no porão e no escritório, no terceiro andar. Antes de sair foi até o laboratório principal no andar térreo e observou o portão por alguns minutos.

O portão.

As dezenas de painéis, medidores e gráficos no maquinário de apoio do portão cintilavam suavemente com seu colorido alaranjado, amarelo ou verde, pois a força nunca era desligada. Era uma peça cilíndrica, com três metros e meio de comprimento e dois metros de diâmetro, quase invisível na luz fraca; a parte externa de aço inoxidável refletia a luz das máquinas que ocupavam três paredes da sala.

Stefan havia usado várias vezes o portão, mas ainda admirava seu funcionamento — não apenas por ser uma magnífica descoberta científica, mas por seu potencial maléfico ilimitado. Não era o portão do inferno, mas nas mãos dos homens errados podia vir a ser. E sem dúvida estava nas mãos das pessoas erradas.

Depois de agradecer a Viktor o presente da torta, dizendo que tinha comido toda — embora, na verdade, tivesse dado boa parte para os animais —, Stefan voltou ao seu apartamento.

Pela segunda noite consecutiva a tempestade chegou violenta. A chuva vinha com o vento forte de noroeste. A água espumava na entrada dos bueiros, cantava nos telhados, enchia as ruas e como a cidade estava quase toda às escuras, as poças d'água pareciam lagos de óleo. Apenas alguns militares estavam fora de casa e todos com capas de chuva negras e brilhantes que os faziam parecer criaturas de um romance gótico de Bram Stoker.

Stefan foi diretamente para casa, sem nenhum esforço para evitar os postos de controle da polícia. Seus papéis estavam em ordem; sua isenção do toque de recolher em dia e não transportava agora explosivos ilegais.

No apartamento, ajustou o despertador do grande relógio de cabeceira e adormeceu quase imediatamente. Precisava muito de descanso porque na tarde seguinte ia haver duas jornadas árduas e muita morte. Se não estivesse completamente alerta, podia se encontrar na extremidade errada de uma bala.

Sonhou com Laura, o que para ele era um bom presságio.