O Homem Mais Rico da Babilônia

George S. Clason · Capítulo 14 de 28

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O Homem Mais Rico da Babilônia

As cinco leis de ouro

"A ação os conduzirá ao encontro do sucesso que vocês tanto desejam."

“Os homens de ação são favorecidos pela deusa da boa sorte”

As cinco leis de ouro

— UM SACO cheio de ouro ou uma tabuinha de argila gravada com palavras sábias; se vocês tivessem que decidir-se por um ou por outra, qual escolheriam?

À bruxuleante luz de uma fogueira feita com arbustos do deserto, o rosto queimado de sol dos ouvintes brilhou com interesse.

— O ouro, o ouro — disseram a uma só voz os 27 ali reunidos. O velho Kalabab sorriu astuciosamente.

— Atenção — atalhou ele, levantando o braço. — Ouçam os cães selvagens ferindo a noite. Eles uivam e ganem porque estão mortos de fome. Mas dêem-lhe de comer, e o que fazem? Começam a brigar e a andar empertigados. E continuam brigando e andando empertigados, sem dispensarem um único pensamento ao dia seguinte, que certamente virá.

"O mesmo acontece com os filhos dos homens. Pecam-lhes que escolham entre o ouro e a sabedoria — e o que fazem por sua vez? Ignoram a sabedoria e devoram o ouro. No dia seguinte tornam-se uns bebês chorões porque não têm mais ouro.

"O ouro está reservado àqueles que conhecem suas leis e permanecem fiéis a elas."

Kalabab escondeu as pernas magras sob a túnica branca, porque tinha começado a soprar o frio vento da noite.

— Uma vez que vocês me serviram lealmente durante nossa longa jornada, cuidaram de meus camelos, cruzaram penosamente, mas sem queixas, a areia quente do deserto e enfrentaram bravamente os ladrões que tentaram despojar-me de minhas mercadorias, contar-lhes-ei esta noite a história das cinco leis de ouro, uma história diferente de qualquer outra que já tenham ouvido antes.

"Ouçam com profunda atenção minhas palavras, pois, se conseguirem assimilá-las apropriadamente, terão condições de reunir no futuro uma grande fortuna."

Para causar efeito, fez uma pausa. Sobre um dossel azul, as estrelas brilhavam no céu claro como cristal da Babilónia. Atrás, o grupo prendia

firmemente suas desbotadas tendas ao chão contra as possíveis tempestades de areia. Mais para o lado, achavam-se os grandes fardos de mercadoria caprichosamente empilhados e cobertos por peles. Próximo dali, o rebanho de camelos espojava-se na areia, alguns ruminando, satisfeitos, enquanto outros dormiam, enchendo o ar com seus roncos.

— Você nos contou muito boas histórias, Kalabab — disse o chefe dos enfardadores. — Confiamos em que sua sabedoria nos guie até o dia seguinte, quando então teremos concluído nossos serviços contigo.

— Falei-lhes de minhas aventuras em terras estranhas e distantes, mas esta noite quero tecer comentários sobre a sabedoria de Arkad, um homem venturoso e tarimbado.

— Ouvimos falar muito dele — confessou o chefe dos enfardadores —, pois foi o homem mais rico que já viveu na Babilónia.

— Sim, ele foi realmente o mais rico, e isso porque sabia, como nenhum outro homem antes dele, como ganhar dinheiro. Esta noite falarei sobre os seus grandes conhecimentos, de acordo com as informações que Nomasir, seu filho, me comunicou há muitos anos em Nínive, quando eu não passava de um garoto.

"Meu patrão e eu mesmo ficamos uma vez até tarde da noite no palácio de Nomasir. Eu tinha ajudado meu patrão a carregar grandes fardos de tapetes caríssimos para serem examinados por Nomasir, até que sua escolha das cores o deixasse satisfeito. Por fim, ele se mostrou bastante simpático e ordenou que nos sentássemos com ele para saborear um vinho delicioso, de requintado buquê, que aqueceu meu estômago tão desacostumado dessas bebidas finas.

"Foi nessa noite que o anfitrião nos contou a história da grande sabedoria de Arkad, seu pai, em termos que tentarei reproduzir diante de vocês da melhor maneira possível.

"É costume na Babilônia, como sabem, que os filhos de pais ricos vivam na casa paterna esperança de herdarem seus bens. Arkad não aprovava tal costume. Por isso, quando Nomasir atingiu a maioridade, mandou chamar o jovem e dirigiu-lhe estas palavras:

" 'Meu filho, é meu desejo que você herde todos os meus bens. Entretanto, primeiro deve provar que é capaz de administrá-los adequadamente. Por isso, quero que saia pelo mundo e mostre sua competência para ganhar dinheiro e tornar-se um homem respeitado entre nossa gente.

" 'Para você começar bem, lhe darei duas coisas que eu mesmo não tive quando iniciei, como um pobre rapaz, a construção de minha fortuna.

" 'Primeiro, passo-lhe às mãos este saco com moedas de ouro. Se usá-lo com

discernimento, ele constituirá a base de seu futuro sucesso.

" 'Segundo, deixo sob sua custódia esta tabuinha de argila onde estão gravadas as cinco leis de ouro. Se conseguir transportar o espírito delas para os seus próprios atos, elas lhe trarão competência e segurança.

" 'Daqui a dez anos, volte à casa de seu pai e dê-lhe conta de tudo o que fez.

Se eu achar que se mostrou valoroso e me apresentar provas disso, eu o farei herdeiro de todos os meus bens. Por outro lado, comunicarei tudo isso aos sacerdotes, para que eles possam trocar por minha alma a generosa consideração dos deuses.'

"Assim, Nomasir partiu em busca de seu próprio caminho, pegando o saco de ouro, a tabuinha de argila cuidadosamente envolta em tecido de seda, seu escravo e os animais de carga e de montaria.

"Os dez anos se passaram, e Nomasir, como tinha sido combinado, retornou à casa do pai, tendo este providenciado uma grande festa em sua homenagem e para a qual convidara grande número de amigos e parentes. Terminadas as comemorações, pai e mãe acomodaram-se em seus ricos assentos num dos lados do grande salão, e Nomasir apresentou-se diante deles para prestar contas de sua viagem, como tinha prometido ao pai.

"Era noite. O aposento estava impregnado com a fumaça dos pavios dos candeeiros, que produziam uma fraca iluminação. Escravos em túnicas brancas abanavam ritmicamente o úmido ar com longas folhas de palmeira. Uma pomposa dignidade dava colorido à cena. A esposa de Nomasir e seus dois filhos ainda pequenos, com amigos e outros membros da família, estavam sentados sobre tapetes atrás dele, ouvindo avidamente.

" 'Meu pai', começou a dizer Nomasir, cheio de respeito, 'inclino-me diante de sua sabedoria. Há dez anos, quando me achava às portas da maioridade, o senhor incentivou-me a partir e a tornar-me um homem entre os homens, em vez de permanecer nesta cidade como um vassalo de sua fortuna.

" 'E me deu um saco com moedas de ouro. E me concedeu liberalmente as atenções de sua sabedoria. Quanto ao ouro, ai de mim!, devo admitir que não o usei com perícia. Ele fugiu de minhas inexperientes mãos como a lebre selvagem foge, na primeira oportunidade, do jovem que a caça.'

"O pai sorriu indulgentemente.

" 'Continue, meu filho, sua história me interessa em todos os seus detalhes.'

" 'Decidi ir para Nínive, uma próspera cidade, acreditando que ali encontraria oportunidades. Juntei-me a uma caravana e fiz entre seus membros numerosos amigos. Ali também se achavam dois homens bem-falantes que

tinham um belíssimo cavalo branco, rápido como o vento.

" 'Enquanto viajávamos, eles me disseram que havia em Nínive um homem riquíssimo, dono de um cavalo tão veloz que nunca tinha sido derrotado. Por sinal, não acreditava que pudesse existir cavalo mais corredor que o dele. Por isso estava disposto a apostar qualquer soma, por mais alta que fosse, em como seu cavalo venceria qualquer outro em toda a Babilónia. Comparado ao deles, zombavam meus amigos, o animal do niniviano não passava de um pangaré que podia ser batido com facilidade.

" 'Propuseram-me então, como se estivessem me fazendo um grande favor, participar com eles da aposta. Fiquei logo entusiasmado com o plano.

" 'Nosso cavalo levou uma surra vergonhosa, e acabei perdendo grande parte do ouro.' O pai não pôde deixar de rir. 'Mais tarde descobri que se tratava de um plano fraudulento desses crápulas e que eles constantemente viajavam com caravanas, procurando sempre novas vítimas. Creio que todos aqui já perceberam que o homem em Nínive era um associado deles, que dividia entre os três os lucros da aposta. Esse astucioso golpe me deu minha primeira lição, incitando-me a ter mais cuidado daí para a frente.

" 'Logo aprenderia outra, igualmente amarga. Na caravana havia um outro jovem com quem estreitei laços de amizade. Ele era filho de pais ricos, como eu, viajando a Nínive a fim de encontrar uma posição conveniente. Não muito depois de nossa chegada, me contou que um comerciante tinha morrido, deixando uma loja repleta de ricas mercadorias e uma clientela de primeira qualidade que podiam ser adquiridas por um preço insignificante. Dizendo que seríamos sócios em partes iguais, mas que antes precisava voltar à Babilónia para investir seu dinheiro, convenceu-me a comprar a loja apenas com a minha parte, acrescentando que a dele seria usada mais tarde para levar adiante o empreendimento.

" 'Ele adiou quanto pôde sua viagem à Babilónia, provando nesse meio tempo ser um comprador burro e um gastador insensato. Por fim mandei-o embora, mas o negócio já se deteriorara, a loja repleta de mercadorias que ninguém queria comprar e eu sem dinheiro para adquirir outras. Passei o que restava a um israelita por um preço desprezível.

" 'A isso se seguiram, meu pai, dias bastante amargos. Procurei emprego e não encontrei, pois não tinha profissão nem treinamento que me capacitassem a ganhar o meu dinheiro. Vendi meus cavalos. Vendi meu escravo. Vendi grande parte de minhas roupas para que pudesse comer e ter um lugar para dormir,

mas a escassez tornava-se a cada dia mais assustadora.

" 'Nesses dias amargos, porém, lembrei-me da confiança que o senhor tinha depositado em mim. O senhor insistiu comigo para que me tornasse um homem, e eu estava disposto a não desapontá-lo.' A mãe escondeu o rosto e chorou baixinho.

" 'Foi então que me veio à memória a tabuinha que o senhor me dera e onde tinha gravado as cinco leis de ouro. Li com extremo cuidado suas sábias palavras e percebi que, se ao menos tivesse buscado primeiro a sabedoria, meu ouro não teria ido embora. Decorei cada uma das leis e determinei que, se ainda uma próxima vez a deusa da boa fortuna sorrisse para mim, eu me deixaria guiar pela sabedoria dos mais velhos em vez de confiar na inexperiência da juventude.