O Homem Mais Rico da Babilônia
Tabuinha III
Tabuinha II
Terceiro, o plano deve garantir que meus ganhos tenham condição de saldar todas as minhas dívidas.
Por isso, na ocasião da lua cheia, dois décimos de tudo que eu tiver ganhado serão divididos honrada e razoavelmente entre aqueles que confiaram em mim e a quem pedi emprestado. Assim, em seu devido tempo, todas as minhas dívidas estarão certamente liquidadas.
Como um lembrete, mandei gravar nesta argila o nome de todos os cidadãos a quem pedi emprestado e a honesta soma de meus débitos.
Fahru, o tecelão, 2 de prata, 6 de cobre.
Sinjar, o fazedor de assentos, l de prata.
Ahmar, meu amigo, 3 de prata, l de cobre.
Zankar, meu amigo, 4 de prata, 7 de cobre.
Askamir, meu amigo, l de prata, 3 de cobre.
Harinsir, o ourives, 6 de prata, 2 de cobre.
Diarbeker, o amigo de meu pai, 4 de prata, l de cobre.
Alkahad, meu senhorio, 14 de prata.
Mathon, o emprestador de dinheiro, 9 de prata.
Birejik, o fazendeiro, l de prata, 7 de cobre.
(A tabuinha está danificada a partir daqui. Não deu para decifrar.)
Tabuinha III
Devo a esses credores um total de 119 moedas de prata e 141 moedas de cobre.
Preso a tais compromissos e não vendo como pagar, em minha loucura permiti que minha esposa voltasse para o pai, enquanto eu mesmo deixava minha cidade natal, somente para encontrar desgraça e ver-me degradantemente vendido como escravo.
Agora que Mathon me mostra como posso saldar minhas dívidas a partir de pequenas somas tiradas de meus próprios ganhos, percebo com clareza a grande extensão de minha loucura ao fugir das conseqüências provocadas por minhas extravagâncias.
Por isso visitei meus credores e expliquei-lhes que não tinha outros recursos para pagar-lhes senão minha capacidade para ganhar dinheiro e que eu tencionava destinar dois décimos de tudo que ganhasse para a amortização das dívidas, honesta e periodicamente. Não poderia desembolsar mais do que isso. Se fossem pacientes, com o tempo todas as minhas obrigações estariam integralmente resolvidas.
Ahmar, que eu julgava ser o meu melhor amigo, injuriou-me amargamente, e me retirei sentindo-me realmente humilhado. Birejik rogou que eu lhe pagasse primeiro, porque estava precisando de ajuda. Alkahad, meu senhorio, revelou-se um sujeito desagradável e garantiu que me poria em maus lençóis se eu não resolvesse logo a situação com ele.
Os demais tiveram a boa vontade de aceitar minha proposta. Por isso estava mais determinado como nunca a resolver tudo aquilo, convencido de que é mais fácil acertar as dívidas do que evitá-las. Ainda que não tivesse podido satisfazer integralmente as necessidades e os caprichos de alguns poucos credores, negociei imparcialmente com todos.
Tabuinha IV
Outra lua cheia. Trabalhei arduamente, com a cabeça em paz. Minha boa esposa tem me apoiado na intenção de pagar a meus credores. Devido a nossa sábia determinação, ganhei durante a última lua, comprando camelos de bom fôlego e boas pernas para Nebatur, a soma de 19 moedas de prata.
Dividi-a de acordo com meu plano. Separei um décimo para guardar, dividi sete décimos com a esposa para o nosso sustento. Dois décimos, uniformemente divididos em moedas de cobre, foram destinados a meus credores.
Não estive com Ahmar, mas deixei a parte dele com sua esposa. Birejik ficou tão satisfeito que quis beijar minha mão. Só o velho Alkahad continuava rabugento e disse que eu devia pagar mais rápido. Repliquei-lhe que eu só teria condições de pagar mais rápido se deixasse de me preocupar com o sustento da casa e de minha esposa. Todos os demais me agradeceram e elogiaram meus esforços.
Por isso, ao final de uma lua, meu endividamento foi reduzido a quase quatro moedas de prata, e já tenho quase duas moedas de prata guardadas que ninguém pode reivindicar. Meu coração se acha mais leve, coisa que há muito não experimentava.
De novo o plenilúnio. Trabalhei duro, mas com pouco sucesso. Vendi apenas alguns camelos. Meus ganhos não foram além de 11 moedas de prata. Entretanto, minha boa esposa e eu continuamos fechados com o plano, ainda que não tenhamos comprado roupa alguma, limitando-nos, inclusive, a uma alimentação frugal.
Ainda dessa vez separei para guardar um décimo das 11 moedas e sete décimos para as despesas. Fiquei surpreso quando Ahmar louvou meu pagamento, ainda que pequeno. Bijerik comportou-se do mesmo modo. Alkahad encolerizou-se, mas, quando viu que podia ficar sem sua parcela se não a aceitasse, concordou comigo. Os demais, como sempre, não fizeram quaisquer restrições. Mais uma vez a lua cheia toma conta do céu, e me sinto extremamente feliz.