O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 3 de 4 · parte 2/3

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O Legado da Caça-Vampiro

— Sua tia e seu prim o…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Quando chegou ao topo das escadas, Filipe ouviu passos pesados atrás dele. Virou-se e viu um dos frequentadores do local, grande e pálido, subindo os degraus.

 

Passando pela porta, Filipe voltou à noite. Fechou a porta e se apressou. Mas o hom em chegou com m ais rapidez do que ele poderia im aginar. De repente, estava exatam ente atrás dele, e Filipe sentiu um bafej o quente em seu pescoço... m esm o que o pescoço estivesse coberto pela capa, e o hom em não o estivesse tocando.

Ele virou-se, puxou a pistola de seu bolso e a apontou a seu perseguidor. Estavam no m eio de um beco estreito, e não havia para onde correr a não ser de volta para as escadas do Cálice de Prata. . ou passando pelo hom em que bloqueava a entrada do beco.

 

— Afaste-se, ou eu atiro — alertou Filipe, com o dedo pressionando o gatilho. Sua m ira estava firm e e tinha os sentidos vivos e preparados, em bora um a onda de serena confiança se apossasse dele. Não queria ferir ninguém , m as faria o que fosse preciso para se proteger... e encontrar Vitória.

 

O hom em deu m ais um passo à frente e Filipe apertou o gatilho, m irando seu om bro. Deve ter m irado m al, o hom em continuou andando. A visão de Filipe se enevoou e ele sentiu um estranho aperto em seu peito, com o se seus pulm ões não fossem m ais seus.. com o se alguém os inflasse e desinflasse. Não podia desviar a visão, não podia fugir do hom em que vinha em sua direção.

 

Algo verm elho lam pej ava, m as Filipe não conseguia ver...se enrolava no canto de sua visão obscurecida. Filipe não via m ais; m irou cegam ente para frente, esperando atingir o peito do hom em e puxou o gatilho.

 

Os olhos de seu agressor queim avam com um a cor estranha... com o se fosse um vinho cintilante. Agarrou Filipe, que tentou se desvencilhar, m as o hom em tinha um a força inum ana; não conseguia sacudi-lo, não podia livrar-se nem um pouco de seu aperto. E então algo branco brilhou na luz fraca enquanto um a m ão se fechava sobre a cabeça de Filipe, virando-a para um lado.

 

Dentes brancos e afiados, descendo em direção ao seu pescoço.

 

* * *

 

— Por que você não disse a Max sobre a proteção no Livro de Antwartha? — perguntou Vitória. Estava no canto oposto a Sebastian, naquele m esm o gabinete que parecia um esconderij o, onde estivera da outra vez. Aquele que só tinha um a entrada.

Ele estava servindo dois cálices de um a bebida rosa-claro, e olhou para ela. O sofá no qual ela se sentara da outra vez, quando ele tocou seu vis bulla, dividia o espaço entre eles com o um a cerca baixa de pedra que m antinha as ovelhas em seus cam pos em Prewitt Shore. Vitória não estava segura de quem era a ovelha, naquele caso, e quem não era.

 

— Queria ver se você ia cum prir sua parte do trato — replicou Sebatian, andando em direção a ela. Vitória se m oveu para que o sofá ficasse entre eles, e estendeu o braço para pegar a bebida que ele oferecia.

 

Teve o cuidado de não perm itir que seus dedos se tocassem . — Se ele soubesse, seria porque você teria contado a ele.

 

— Eu cum pri m inha parte, m as ele podia ter m orrido por não saber.

 

— Mas não m orreu; pois não o tocou. Ele sabia.

 

— Só contei a ele para salvar sua vida. Ele não acreditou em m im .

 

— A vida dele tem tanto valor para você?

 

— Qualquer vida tem valor para m im . O que é isto? — Ela olhou para o cálice. O líquido despej ado adquiriu um a tonalidade de rubi no fundo do cálice com form ato de tulipa. Mas quando se espalhou, era rosa-claríssim o.

 

— Só um pouco de xerez. Prove, creio que será de seu agrado. —

 

Ele levantou seu cálice num brinde brincalhão e virou o conteúdo do cálice garganta abaixo. Quando voltou a olhar para ela, apontou o sofá. — Sente-se, Vitória.

 

— Não, obrigada. — Ela deixou o copo e se afastou m ais. Agora estava atrás do sofá e ele na frente.

— Você tem m edo de m im , Vitória?

 

— Do que teria m edo? Eu sou um a Venadora.

 

— De fato. Pensei a m esm a coisa. Aliás, talvez sej a eu quem devesse tom ar cuidado com você. — Olhou para ela e m anteve o olhar nela por um longo m om ento. — Talvez eu devesse. — Desviou o olhar e voltou à m esa para servir outro cálice de xerez.

 

Quando virou-se para ela novam ente, seu rosto estava sério, fechado. Ofereceu outro brinde irônico, m as em vez de beber o cálice inteiro, bebericou um pouco e sentou-se no sofá. Meio virado, aj eitou-se no canto para poder ver Vitória, que estava em pé, por trás da cerca protetora do recosto do sofá, com a m ão sobre ele.

 

— Por que você veio aqui esta noite? — perguntou ele.

 

— Você estava m e esperando. Fiquei um pouco surpresa.

 

— Eu lhe disse, na últim a vez em que você esteve aqui, que a veria de novo. Sabia que você voltaria. Mas estou curioso para saber por quê.

 

— Talvez para lhe agradecer a inform ação que nos aj udou a adquirir o Livro de Antwartha. Se não tivesse a obtido, Max e talvez eu m esm a tivéssem os m orrido naquela tentativa.

 

— Então você veio em sinal de gratidão? — Ele ficou sobre um j oelho, na alm ofada do sofá, e cobriu a m ão dela com seus dedos, apertando-a levem ente, em cim a do recosto. — Fico feliz de ouvir isso. E

 

particularm ente agradecido de que Eustácia tenha m andado você, em vez de Maxim iliano, para essa tarefa.

 

Vitória queria puxar sua m ão, m as resistiu ao im pulso.

— Tenho a im pressão de que você e Max não são os m elhores am igos.

 

— Por que será... — m urm urou Sebastian, m as soava com o se não desse a m ínim a. — Estou m ais interessado em descobrir com o você pretende expressar sua gratidão por m inha aj uda, do que naquilo que irrita Maxim iliano. — Com a m ão que estava desocupada, ele com eçou a baixar pelo cotovelo a longa luva dela. — Já falei o quanto você fica m ais bonita vestida de m ulher do que de hom em ?

 

Soltou a m ão que prendia sobre o recosto do sofá, m as não a Luva, e quando ela se afastou, a luva saiu, virando-se do avesso. Sua m ão e braço estavam nus.

 

Ela deu um passo atrás, fora do alcance dele. Sebastian não era o tipo de hom em que pularia um sofá atrás dela.

 

Mas ele não estava olhando para ela; ele estava segurando a luva branca abandonada em suas m ãos, m exendo com os dedos por toda sua extensão, com o se acariciasse o braço dela. Então a dobrou gentilm ente em um a das m ãos e olhou para ela.

 

— Onde está seu anel?

 

No com eço ela achou que ele estava falando de seu vis bulla, o anel em seu um bigo.. m as aí percebeu que ele olhava para a m ão dela. Sua m ão esquerda.

 

— Não tenho. . ainda. Você sabia que eu estava lá, na biblioteca de Redfield Manor?

 

— É lógico. Tam bém vi o m om ento em que você pulou da j anela; Maxim iliano estava ocupado dem ais m atando vam piros para perceber.

 

Mas eu vi o m ovim ento das cortinas e sabia que você tinha saído. Pelo que soube você m atou sete vam piros aquela noite.

 

— Oito. E Max m atou três Im periais sozinho.

— Bravo, Max! — Sebastian se levantou e ela deu m ais um passo para trás. — Vitória, você está m e irritando, eu não vou pular em cim a de você e violentá-la. — Realm ente, ele parecia irritado, expressão incom um em um rosto que norm alm ente tendia a galantear e encantar.

 

Ele colocou a luva no bolso e andou rudem ente até a m esa onde servira as bebidas. Virando o rosto para ela, ele se recostou, cruzou os braços e cruzou a perna sobre o tornozelo. Estava todo dourado e bronzeado, e parecia perigoso. Seu cabelo era preto no topo, m as am arelado e loiro nas pontas, e sua boca estava em um a linha reta, o lábio superior som breando o inferior com um a coloração caram elada.

 

Houve silêncio por um longo m om ento. Vitória esperava que ele fosse exigir algum tipo de recom pensa pela inform ação que os levou a conseguir o Livro de Antwartha, m as não. Seu j eito instigante e sedutor havia evaporado e agora ele parecia sim plesm ente insatisfeito.

 

— Estou certa de que posso sair em segurança — disse Vitória, por fim . — Tenho certeza de que Max j á conseguiu tirar Filipe daqui. — Ela olhou para ele esperando um a resposta.

 

Mas em vez disso, ele enfiou a m ão no bolso e tirou a luva, oferecendo-a a ela.

 

Estava dobrada em sua m ão aberta, m as quando ela tentou pegar, ele fechou a m ão dela. E puxou.

 

Talvez fosse a surpresa pelo m ovim ento súbito, talvez fosse curiosidade. Talvez ela j á estivesse cansada de lutar contra isso. Mas Vitória se perm itiu seguir em frente até estar tão próxim a a Sebastian quanto estivera no corredor.

 

Transferindo a m ão dela para a sua outra m ão, com o se não estivesse disposto a deixá-la escapar, ele pôs a luva de volta em seu bolso e a olhou. O hum or em anava de seus olhos dourados.

— Isto foi m ais fácil do que eu esperava.

 

— Sebastian. .

 

Ele virou a m ão nua dela para cim a, baixou o rosto... e encostou os lábios no m eio do pulso dela. Eram m acios, m as firm es, ligeiram ente úm idos e leves com o plum as. Ela quase sentia cócegas. Eles então se m overam , se abriram , traçando a textura das veias e tendões nesta área recatada. Ele m ordiscou a beirada estreita do pulso, m ordeu gentilm ente a base de seu dedão.

 

Vitória não conseguia puxar seu braço de volta. Não, não era verdade.., ela conseguia, sabia que podia livrar-se do aperto dele com facilidade. , m as não podia forçar seus m úsculos a se m overem . Com os olhos fechados, estendeu sua outra m ão cegam ente e a colocou aberta contra seu sólido, quente e resfolegante peito.

 

— Sem pre quis experim entar um a Venadora — m urm urou Sebastian, olhando para ela. Seus lábios j á não eram m ais finos e rudes; nunca m ais pareceriam finos e rudes para ela, depois disso. Depois de senti-los.

 

Ele ainda sentia os dedos dela, entrelaçados aos dele, e levou o dedão ao topo da m ão dela, olhando-a.

 

E então am bos ouviram ; e assim que ela conseguiu registrar o barulho em sua m ente, a porta se abriu com força. Na entrada estava Max, inclinando-se pesadam ente contra a porta.

 

— Rockley foi atacado — disse ele, e caiu por terra.

 

17

 

O dorm itório da Srta. Grantworth vê m uita m ovim entação

 

Os trinta m inutos seguintes foram um a confusão de atividade. Max, em bora confuso e fraco, estava coerente o suficiente para explicar que conseguira interrom per um vam piro no m eio de um ataque a Filipe.

 

— Ele foi m ordido? — perguntou Vitória, enlaçando um dos braços pesados dele sobre seus om bros, para que ele se apoiasse nela. Ela o estava levando para a carruagem dele, que não tinha identificação; um a tarefa que teria sido bem m ais difícil se ela não usasse um vis bulla.

 

— Não... cheguei a tem po. Meti a estaca no desgraçado.

 

Vitória supôs que ele se referisse ao vam piro, e não a Filipe, em bora não tivesse certeza.

 

Max salvara Filipe, carregara-o para o cabriolé de Barth, e dera-lhe instruções específicas sobre com o levá-lo para casa e o que fazer quando chegasse lá. Ele não estava ferido, m as confuso e quase inconsciente pela briga subsequente.

 

— Do que ele vai lem brar? — perguntou Vitória, aj udando Max a entrar na carruagem .

 

— Nada. Usei o. . pingente.

 

Ela o em purrou em seu assento e saiu da carruagem para se despedir de Sebastian que, em bora não tivesse aj udado m uito para tirar Max dali, tam pouco havia atrapalhado o esforço dela. Ele veio j unto, m ostrou-lhe outra saída por trás, e aj udou a trazer a carruagem de Max.

 

— Obrigada — disse ela, apesar de não saber ao certo o que estava agradecendo.

 

— Até nosso próxim o encontro — disse ele, sim plesm ente. Ele não fez qualquer m enção de lhe devolver a luva, e ela não pediu. Vitória virou-se e entrou no veículo. Sebastian fechou a porta atrás dela.

A carruagem deu um a sacudidela ao com eçar a andar e Vitória se inclinou para o lado, em seu assento, de frente para Max.

 

Ele estava desm oronado no canto, um a m assa enrugada de negro e cinza. Quando as lâm padas da rua ilum inaram o interior, ela viu que ele estava com os olhos fechados.

 

Teria sido m ordido? Ela nem tinha lem brado de perguntar...

 

estivera tão preocupada com Filipe desde o anúncio calam itoso de Max.

 

Vitória levantou-se cuidadosam ente, m ovendo-se para o lado dele, na carruagem , e quase caiu em seu colo quando dobraram um a esquina inesperada.

 

Ela estava quase tocando sua gola quando ele abriu os olhos.

 

— O que você está fazendo? — perguntou ele, sentando-se direito.

 

— Eu pensei que você tivesse sido m ordido.

 

— Sente-se — disparou ele, carrancudo. — Não levo um a m ordida há... anos.

 

— Então por que você carrega água benta salgada? E por que essa m ordida parece recente?

 

— Porque assim , quando estou com alguém que foi m ordido, posso despej ar na m ordida da pessoa. — Ele parecia subitam ente m ais alerta.

 

— O que aconteceu com você, então, se não foi m ordido?

 

Ele respirou fundo, cruzando os braços.

 

— Fui drogado. Pelo seu m arquês.

Vitória alçou as sobrancelhas.

 

— Verdade? Então um sim ples m arquês consegue pegar você de j eito, quando um vam piro horrendo não consegue? E você adm ite isso?

 

Max abriu a boca com o se fosse falar, m as aparentem ente m udou de ideia. Virou-se para a j anela, seu perifi refulgindo cada vez que um a lâm pada da rua ilum inava o interior da carruagem . Ela olhou o altivo declive de seu nariz, a linha decidida de sua boca, a desregrada bagunça do seu cabelo negro. Parecia abatido.

 

— O que aconteceu, Max?

 

— Fiz o que você pediu, Vitória. Não precisam os falar m ais sobre o assunto. — Não desviou o olhar da j anela. — O seu m arquês está a salvo e não sofrerá efeitos adversos. E terá pouquíssim a lem brança do que aconteceu, porque cuidei disso tam bém . Ele estava tentando atirar em um vam piro com um a pistola. — O escárnio se apossou de sua voz. E então:

 

— Onde está a sua luva?

 

Vitória olhou para baixo; seus dois braços estavam ocultos sob a capa, o nu e o vestido.

 

— Eu. . Sebastian a levou.

 

Max virou-se e olhou para ela.

 

— E o que m ais ele levou?

 

O coração de Vitória bateu m ais rápido. Ela sacudiu a cabeça.

 

— Ele esperava um pagam ento por sua inform ação; o que m ais ele levou?

Liberdades. Liberdades que seu próprio noivo não tom ara. E, de um a certa form a, ele levara m ais um pedaço de sua inocência. Mostrara a ela exatam ente por que m ulheres usam luvas. O tem po todo.

 

— Vitória!

 

— Nada. Ele levou m inha luva, e não levou m ais nada. Sou um a Venadora, Max. Ele não é páreo para m im .

 

Pode ter sido um a risada, o que brotou de seus lábios; Vitória não teve certeza. Mas ele nada disse, apenas virou-se e voltou a olhar pela j anela.

 

Cavalgaram em silêncio por um tem po, até que ela falou:

 

— Obrigada pelo que você fez esta noite.

 

Isso tirou a atenção dele do cenário que passava. Ele olhou para ela, som brio e furioso, de seu canto naquele espaço estreito.

 

— Rockley não fazia ideia em que se m eteu hoj e. Essa é exatam ente a razão pela qual você não pode se casar, Vitória! Os seus dois m undos sim plesm ente não podem se cruzar com o aconteceu hoj e! Continuar nesse cam inho só vai causar m ais destruição.

 

E com isso, virou-se m ais um a vez para a j anela e não disse m ais nada.

 

* * *

 

Vitória não dorm iu bem naquela noite. Seus sonhos estavam repletos de um a tem pestade de im agens que se fundiam . Filipe e Sebastian, tia Eustácia e Max, com palavras e vozes correndo j untas: Sempre quis experimentar uma Venadora. . Você não pode se casar. . É algo pelo qual eu pagaria muito para ver.. Ele sabe que você anda pelas ruas, à noite?. . O que mais ele levou?

 

Ela acordou com o sol entrando por sua j anela, com pletam ente diferente da escuridão de seu entrechoque de lem branças. Eram quase onze horas. Madam e LeClaire chegaria dentro de duas horas para a prova do vestido.

 

A prova de seu vestido de noiva.

 

Vitória passou a m ão nos olhos. Será que Max estava certo? Se ela desposasse Filipe, estaria atraindo m ais destruição?

 

O vazio arranhou seu estôm ago, e não era por não ter com ido nada.

 

Com o ela podia não se casar com Filipe? O charm oso, engraçado e bonito Filipe? O hom em que a fazia rir, que brincava com ela, que a aj udava a enxergar o hum or na sociedade em que ela era forçada a viver? Que lhe trouxera flores depois que ela lhe dera um a bronca. O hom em que fazia a coisa certa, o que se esperava. Um hom em que ela podia entender.

 

Ele a seguira, na noite anterior. Seguira-a até um covil de vam piros, ignorando sua própria segurança; e sem a com preensão do m undo em que estava entrando. Se ela se casasse com ele, seria capaz de m anter seu segredo? Teria que fazer isso? Se ele soubesse que ela era um a Venadora, portanto m ais segura que qualquer um na Terra, ele entenderia?

 

Ele fizera suas confissões. . eram inofensivas. Será que ela devia a ele o m esm o?

 

As palavras de Sebastian a assom bravam . Ele sabe que você anda pelas ruas, à noite? Que você deve se misturar com aqueles do lado negro para descobrir seus segredos? Que você mata cada vez que levanta sua arma? Que você tem umaforça que ele não possuirá jamais?

 

Com o ele poderia entender? Ela própria levara m eses para entender, e ela tinha sido cham ada.

Ele era tão bom , tão correto. Com o poderia ser casado com um a m ulher que com batia o m al? Que era violenta.., que m atava? Ele não poderia nunca aceitar isso num a esposa, nem deveria.

 

Ele não podia entender o m undo dela. Tia Eustácia, Max e Kritanu...

 

até Verbena e Barth... eles entendiam . Todos eles eram parte daquele m undo, daquela vida.

 

Filipe não era e nunca poderia ser.

 

Ela respirou fundo, sabendo o que ia fazer.

 

Um nó pesado instalou-se no seu estôm ago quando com eçou a considerar a vida sem Filipe. Um a vida que consistia em espreitar por ruas escuras, bares subterrâneos, e na necessidade de caçar e m atar. Seria o fim das danças e dos risos, sem esperança algum a de ter alguém para am ar, alguém para cuidar dela.

 

Talvez isso explicasse Max: seu com portam ento, sua propensão à cólera e seu sarcasm o cortante. Ele era tão só. Vitória acreditara que era por opção. Talvez estivesse errada.

 

Talvez ela tam pouco tivesse opção.

 

Um a violenta batida de porta vinda lá de baixo, e o barulho de fortes passos subindo apressadam ente as escadas, fizeram -na virar-se para a porta do seu quarto.

 

Gritos; pareciam ser de Jim m ons e até de Verbena, e de repente a porta dela se abriu com força, batendo na parede.

 

Filipe.

 

— Vitória! — Ele apareceu lá, tão alto e selvagem , sua capa revoando sobre ele, o cabelo caindo sobre a fronte. — Você está aqui, e a salvo!

Ela estava tão perplexa, que não conseguia se m exer nem para fechar a boca; Verbena, Jim m ons e Maisie, a governanta, estavam à porta, todos falando ao m esm o tem po, explicando com o acontecera de Filipe ter subido até ali.

 

—Mande-os em bora — disse ele cam inhando em direção a ela, que perm anecia na cam a, com os lençóis puxados sobre sua cam isola. — Sou seu noivo, vam os nos casar em duas sem anas... m ande-os em bora!

 

Ela nunca o vira assim , o equilibrado e correto Filipe, agitado daquela m aneira.

 

— Podem ir. Vão. — Ela acenou para Jim m ons e Verbena. Então, surpreendentem ente, considerando a situação, ela teve um pensam ento lógico. — Mam ãe j á se levantou?

 

— Agora vai — replicou Verbena.

 

— Mantenha-a longe daqui, então. Diga a ela o que quiser, m as m antenha-a longe daqui até que o m arquês se vá.

 

— Mas não é apropriado... — com eçou Maisie.

 

—Vão. Por favor. Tudo ficará bem se ninguém falar sobre isto.

 

Só depois que eles saíram Vitória se perm itiu olhar para Filipe. O nó em seu estôm ago apertou-se. Ela havia pensado que teria m ais tem po para decidir o que fazer. . com o responder a Filipe. Com o dizer que não poderia se casar com ele.

 

Mas sua decisão j á estava tom ada. E era a certa.

 

— Vitória, Vitória... — Ele ficou perto da cam a, os braços para trás, com o se tentasse im pedir a si próprio de tentar tocá-la. — Sinto m uito, m as eu não podia esperar. Eu precisava ter certeza de que você estava aqui, em segurança.

— Filipe.. — ela sacudiu a cabeça, fechou os olhos por um m om ento. O que poderia dizer? — Filipe, eu estou bem . Você está m e vendo, estou bem . Só tive aquela dor de cabeça.

 

De onde viera aquilo? Ela não planej ara continuar com a farsa.

 

Ele olhava para ela de cim a, debruçado sobre ela, os olhos azuis agudos, m as ainda selvagens.

 

— Vitória...

 

— Filipe, sente-se. Aqui. — Ela alisou a colcha francesa com a m ão, abrindo espaço para ele ao lado do seu quadril.

 

— Não sei se devo. — Ele olhou para ela e ela viu algo em seu olhar que ainda não vira antes. — Não sei se é apropriado.

 

Vitória riu; não conseguiu evitar.

 

— Filipe, não sej a absurdo. . você j á está aqui no m eu dorm itório.

 

Em três sem anas, eu estarei no seu. — Os olhos de am bos se encontraram e a boca dela secou. Tinha realm ente dito aquilo? Aquela m entira?

 

Ele se sentou, seu sólido peso na beira da cam a fazendo-a pender em direção a ele. Através de cam adas de cobertores, a perna dele tocou a dela.

 

— Em três sem anas. Não sei se posso esperar tanto tem po. — Ele estendeu o braço, tocou-lhe o cabelo solto e acariciou- lhe a face antes de recolher o braço de volta. — Mas preciso saber, onde você foi ontem à noite? Vitória? Você está m etida em algum tipo de problem a?

 

— Eu não estava m e sentindo bem — disse ela. Por que continuava m entindo? Ela precisava deixá-lo ir.

— Vitória, eu am o você e você será a m inha esposa, m as um a coisa que não posso tolerar é desonestidade. — Ele estava zangado; um a em oção que ela nunca vira nele antes. Zangado de verdade, e ainda por cim a com urna preocupação desesperada. Mas não assustadora. Não, essa era um a zanga com a qual ela podia lidar. — O que você estava fazendo em St.

 

Giles ontem à noite? Diga-m e a verdade.

 

Então as lágrim as dela brotaram . Tudo o que ela vinha represando nas últim as sem anas, m eses até, desde que tivera aqueles sonhos. Desde que soubera de seu Cham ado.

 

Soluços incontroláveis, trem edeiras — as consequências do m edo que ela subm ergira tão fundo enquanto lutava por sua vida — tudo aquilo transbordou de dentro dela sobre o om bro de Filipe, pois ele a abraçara, os lençóis caindo enquanto ele a enlaçava com os braços.

 

— Vitória, Vitória — ele m urm urou, passando a m ão pela cabeça dela, descendo pelos cabelos ondulados que caíam sobre as costas. — Meu Deus, Vitória, qual o problem a? Eu o resolverei, basta m e dizer. Darei um j eito. Eu tenho recursos; usarei todos, se for preciso.

 

Quando ela se afastou de seu paletó encharcado, ele tinha um lenço pronto para enxugar-lhe o rosto e o nariz. Com o um a criança. Ela se sentiu com o um a criança de quem ele tom ava conta. Pela prim eira vez em m eses teve a sensação de não precisar estar encarregada, nem de ter o controle.

 

Nem de ser a forte.

 

Nunca am ara Filipe tanto quanto naquele m om ento.

 

— Obrigada — disse-lhe, soluçando pela últim a vez.

 

Ele largou o lenço e a agarrou pelos om bros.

— O que está havendo? Conte-m e. Não aguento ver você assim .

 

— Não posso. — Ela respirou fundo. — Não posso lhe dizer, Filipe, m as j uro que não é nada que você possa m udar. Mesm o que você tivesse todo o dinheiro do m undo e reinasse sobre esta terra, não poderia m udar isso.

 

Ele a olhou fixam ente por um longo m om ento, seus olhos dardej ando de um lado para outro com o se tentasse obter um a visão m elhor do olhar dela. O olhos dele estavam inj etados.

 

— Você tem que m e dizer.

 

— Não posso.

 

— Ontem à noite fui atrás de você. Sei que era você, apesar da história que o seu prim o m e contou. No com eço tive m edo que você fosse encontrar um am ante, e a segui... porque eu tinha que saber. Tinha que saber se você tinha dado seu coração a outro. Se fosse o caso, pensei naquele m om ento, se eu tivesse a com provação, m esm o assim eu iria querer m e casar com você. Eu encontraria um j eito de tirá-lo da sua cabeça.

 

— Mas quando o seu cabriolé... m eu Deus, Vitória, você não sabe o quanto é perigoso você usar um cabriolé?.. parou em St. Giles, não soube m ais o que pensar. Você não encontraria um am ante lá, não im porta quem ele fosse. Vi você sair do cabriolé e entrar em um dos lugares de aparência m ais perigosa que j á vi. Eu não teria ido lá se não soubesse que devo protegê-la. Tive que usar m inha pistola para convencer alguns suj eitos da rua a m e deixar passar.

 

— O seu prim o salvou a m inha vida. Não estou certo do que aconteceu; está tudo confuso na m inha m ente. Sei apenas que saí para procurar você e acordei na m inha casa. Com o cheguei lá não faço ideia.

 

Sonhei com olhos verm elhos. .

 

— Você vê, m inha querida, eu não entendo o que aconteceu ontem à noite, m as não vim aqui com acusações ou noções pré-concebidas. Não há nada que você m e diga que vá m udar o que sinto por você. Por favor!

 

Ela podia dar-lhe algo; talvez o aj udasse a entender.

 

— Você acredita em destino?

 

Ele assentiu com a cabeça, um a ponta de alívio tangível em seu rosto.

 

— É claro. Foi o destino que nos uniu, anos atrás.

 

— O destino não se m uda. É indelével, escrito sobre pedra. Poder, dinheiro e recursos não podem m udá-lo, Filipe. Você não pode alterá-lo. E

 

é por isso que não posso lhe dizer, não im porta o quanto você im plore, o que eu estava fazendo em St. Giles ontem à noite. Porque esse é m eu destino. — Um destino que ele não podia aceitar, um a esposa que m atava, um m undo de perversidade e escuridão. Filipe estava dem asiadam ente na luz. . ela não podia destruir o seu m undo.

 

— Vitória!

 

Ela estava sacudindo a cabeça.

 

— Eu am o você, Filipe. Mas não posso.

 

Ele pareceu golpeado.

 

— Vitória, de todo o coração, peço a você que, por favor, m e diga.

 

Não ficarei furioso, não im porta o que sej a. Mas não posso ter isto entre nós se vam os nos casar.

 

Agora. As m ãos dela congelaram por baixo do calor dos cobertores, ela respirou fundo e fechou os olhos. Não olharia para ele ao dizer isso:

 

— Então talvez não devêssem os nos casar.

 

Ele estava im óvel, tão im óvel. Até sua respiração parou; ela não ouvia nada na escuridão de seus olhos fechados, além de vozes distantes, lá em baixo. E as batidas rápidas, dolorosas, de seu coração.

 

— Vitória. — A angústia na voz dele abriu-lhe os olhos. Filipe não estava olhando para ela, e sim pela j anela, para a luz do sol derram ando-se sobre um a m ansarda ali perto. Um gaio azul, com seu guincho desagradável, revoluteou e pousou no galho de um a árvore vizinha.

 

— Desculpe, Filipe.

 

Ele se ergueu abruptam ente, afastando-se da cam a e cam inhando até a porta. Ela o observou com os olhos m arej ados, e ele parou na soleira.

 

— Se você m udar de ideia... — disse ele para a porta.

 

— Não posso. — Ela forçou as palavras de sua garganta. Queria cham á-lo de volta.

 

Filipe não olhou para trás; atravessou a porta e fechou-a gentilm ente atrás de si.

 

Vitória não entendeu. Ela teria batido com força.

 

18

 

Interlúdio num a carruagem

Vitória m andou um bilhete para Madam e LeClaire cancelando a prova devido a um a ―indisposiçãoǁ A notícia seria logo espalhada, sabia ela, de que o noivado com o m arquês de Rockley tinha sido desfeito. Estaria no j ornal dentro de dias, nas colunas sociais ou nos anúncios, dependendo de quem recebesse a notícia prim eiro.

 

Ela não teve ânim o de contar para sua m ãe. Ainda não. Talvez em um dia ou dois, quando a ferida não estivesse m ais em carne viva. Lady Melly estava tão feliz por estar trazendo um m arquês para a fam ília, que Vitória não teve coragem de contar que havia cancelado tudo.

 

Verbena estalava a língua vendo-lhe os olhos verm elhos, m as nada disse além de:

 

— Lam ento m uito, m ilady. Num é a m esm a coisa, m as eu m e senti m uito m al quando perdi o m eu Jassie pra outra m ulher. Pelo m enos a sinhora sabe que não foi por causa disso.

 

Se a intenção era fazê-la sentir-se m elhor, falhou m iseravelm ente.

 

Vitória apenas pediu que Verbena saísse do quarto e ficou olhando pela j anela, observando o barulhento gaio azul visitando a árvore.

 

Ela deixou de com parecer a um j antar naquela noite; em vez disso, assim que sua m ãe saiu para trocar fofocas e piadas com outras dam as da sociedade, Vitória escapuliu da casa pela porta dos fundos. Estava com seu vestido de saia dividida, feito especialm ente para caçar vam piros.

 

Naquela noite, rastreou e enfiou a estaca em cinco m ortos-vivos. Na noite seguinte, m ais três.

 

Na terceira noite, encontrou apenas um . Foi um a sensação deliciosa quando ela cravou a estaca no peito do vam piro.

 

Mas não era suficiente, então ela percorreu as ruas perto do j ardim de Covent e se deixou abordar por diversos crim inosos m ortais. Depois de m ostrar-lhes sua pistola e a destreza com que chutava e socava, Vitória botou-os para correr na escuridão e sentiu-se um pouco m ais satisfeita.

 

Ela não retornou a Grantworth House até o am anhecer. Então caiu em sua cam a e dorm iu um sono agitado.

 

Quando tia Eustácia m andou-lhe um a convocação, no quarto dia após a entrada de Filipe no quarto de dorm ir de Vitória, ela considerou ignorá-la. Não via necessidade em se encontrar com sua tia ou Max, que certam ente estaria lá. Estava fazendo seu trabalho caçando e m atando os m ortos-vivos; eles haviam conseguido o Livro de Antwartha, que ela escondera na capela de St. Heath’s Row antes que Rockley e ela cancelassem tudo.

 

Para que sua tia queria um encontro?

 

Sua decisão foi tom ada quando lady Melly botou a cabeça para dentro do quarto.

 

— Estou indo para o chá na casa de Winnie; ela e Petronilha gostariam que você tam bém viesse para que discutíssem os a disposição das cadeiras do casam ento. Não vej o Rockley há alguns dias, tam bém . Vitória, ele está doente?

 

Aparentem ente sua m ãe não vira as orlas verm elhas nos olhos de sua própria filha, nem os círculos negros abaixo destes.

 

— Que eu saiba, não. Ele tem estado m uito ocupado. E, infelizm ente, prom eti à tia Eustácia que iria visitá-la hoj e. Faz quase um a sem ana.

 

Ela realm ente precisava contar à sua m ãe.

 

Cada dia que não contava, corria o risco de a notícia aparecer nos j ornais antes que soubesse. Não era j usto com lady Melly que ela fosse m antida às cegas. As dam as da sociedade fariam um carnaval à custa dela se isso acontecesse.

— Mam ãe, tenho que lhe contar um a coisa. Rockley e eu tivem os um a discussão. Nós. . — Sua voz descarrilhou quando viu a expressão de choque no rosto de lady Melly.

 

— Bem , certam ente você pode consertar isso, Vitória! Não pode arruinar seu futuro por causa de um a discussãozinha à toa!

 

Um a discussãozinha à toa.

 

— Queria que a senhora soubesse, caso escute rum ores -

 

acrescentou ela, inutilm ente. Que droga! Ela conseguia abater três vam piros sozinha; por que não conseguia dizer a verdade à sua m ãe?

 

— Bem , espero que você fale com ele no baile dos Mullingtons na sem ana que vem e conserte as coisas! Sem desculpas, Vitória. É o quinquagésim o aniversário do duque; todo m undo estará lá, incluindo você.

 

Ela assentiu com a cabeça. Não tinha escolha; e Filipe provavelm ente nem estaria lá. Ele odiava esses eventos. E se houvesse um indicio de boato de que ele estava disponível novam ente.. Ele seria cercado antes de dar três passos salão adentro.

 

— Bem , verei você hoj e à noite. Sairem os às sete e m eia. Estej a pronta. E passe algum a coisa sobre essas olheiras, Vitória. Você parece horrivelm ente exausta.

 

No fim , ela acabou não indo à casa de tia Eustácia. Mandou um a m ensagem , depois que a m ãe saiu, dizendo que j á tinha com prom issos m arcados para aquele dia.

 

E passou o resto da tarde em seu quarto.

 

Naquela noite, não teve alternativa senão com parecer a um sarau com lady Melly. O único fator positivo era que iriam em bora cedo, o que lhe perm itiria escapulir de casa m ais tarde e fazer o que passara a cham ar de patrulham ento em busca de vam piros.

 

O sarau foi tão entediante quanto o outro a que com parecera na residência dos Straithwaite; talvez ainda m ais, j á que desta vez Rockley não com pareceu.

 

Nem , infelizm ente, os vam piros.

 

* * *

 

Passava da m eia-noite quando Grantworth House adorm eceu e Vitória saiu de fininho pela porta dos fundos.

 

Barth, seu confiável m eio de transporte, esperava na esquina, e, com o de hábito, sim plesm ente acenou com a cabeça quando ela entrou no cabriolé. Ele j á conhecia seu dever e conduzia o coche a um a parte perigosa da cidade. Cada noite variava; Vitória não se im portava. Sabia que Barth conhecia os m elhores lugares aonde levá-la.

 

As ruas de paralelepípedos estavam úm idas pela chuva fraca de verão, e brilhavam com o dentes cinzentos ao luar. Vitória desceu do cabriolé e disse a Barth para vir buscá-la em duas horas.

 

Quando ele foi em bora, ela cam inhou pelo centro da rua vazia e ficou por ali, olhando em volta, desafiando qualquer perigo a abordá-la.

 

Tudo estava silencioso. Cinza, preto e silencioso.

 

Ela preferia esta área da cidade — onde quer que fosse; não se im portava e não precisava saber — porque as lâm padas da rua ou haviam queim ado até se apagar ou não tinham sido acesas naquela noite. Era um território fértil para vam piros... ou outros bandidos que m ereciam um a lição. Ela não tinha preferência.

Depois da prim eira noite sozinha patrulhando, vestida com roupas de hom em , Vitória decidira usar sua saia dividida em incursões posteriores. Vestida de m ulher, ela atraía m ais atenção daqueles que escolhiam suas presas entre os m ais fracos.

 

Mas naquela noite, parecia que as ruas estavam isentas de perigo para hom ens ou m ulheres.

 

Ela andou pela rua, ousada e rápida, observando qualquer coisa que se m ovesse nas som bras. Atenta a qualquer friozinho na nuca.

 

Nada.

 

Nada até que ela dobrou um a esquina no terceiro quarteirão e reparou num a m udança de m ovim ento em um beco. E sua nuca esfriou.

 

Com os lábios se esticando num sorriso vil, Vitória foi em direção ao m ovim ento nas som bras. Tinha sua estaca na m ão, escondida sob a capa, e andava sem qualquer preocupação. Passou o beco, seus m ovim entos quase gritando inocência e tentação.

 

Esperou que ele ou ela aparecesse e a atacasse, m as quando nada aconteceu depois de m eio quarteirão, ela parou e olhou para trás. Não havia ninguém ali; o frio em sua nuca tinha arrefecido.

 

Assim que se virou para voltar pelo beco, um a carruagem preta, grande e elegante, despontou na esquina. Vitória olhou; não era com um ver um coche tão caro nesta parte da cidade.

 

A carruagem parou na rua diante dela. Seus dois cavalos pretos reviravam os olhos, o único branco puro naquela noite cinzenta, e batiam os cascos. O condutor perm aneceu im óvel e não olhou para Vitória.

 

A porta se abriu.

— Vitória.

 

Era Sebastian, e estava acenando para ela; só sua m ão enluvada era visível, m as ela reconheceu a voz, o m odo com o ele dizia seu nom e.

 

Ela se dirigiu para a carruagem , chegou à porta e olhou dentro dela.

 

Sebastian estava sentado sozinho, inclinando-se de seu assento o suficiente para estender-lhe a m ão, oferecendo aj uda para que ela entrasse.

 

— Venha. Não encontrará ninguém para caçar esta noite, m inha adorável Venadora.

 

— E por que não? — Ela se postou em frente à porta, com as m ãos na cintura, súbita e inexplicavelm ente irritada.

 

— Venha dar um passeio com igo. Desfrutarem os da lua cheia e eu lhe contarei tudo.

 

— A m enos que aí dentro haj a um vam piro disposto a m orrer, prefiro cam inhar, obrigada. — Virou-se e saiu andando.

 

Ele se m oveu tão rapidam ente, que ela não teve tem po de reagir.

 

Saiu da carruagem e agarrou-a pela cintura, arrastando-a de volta para o veículo no que parecia ser um m ovim ento instantâneo. Ela tropeçou num a pedra que m arcava a beira da estrada, caindo na direção da carruagem .

 

Suas m ãos se apoiando na parede im pediram -na de aterrissar na lam a.

 

— Então você quer briga, não é? — disse Sebastian em seu ouvido, enquanto plantava suas m ãos nas dela. — É o que estão dizendo nas ruas.

 

É o grande tem a lá no Cálice.

Ela sacudiu seus braços, largando-se dele, e se virou. Ele estava lá m esm o, tão perto que ela podia contar os seus cílios, e sentir o cheiro de cravo-da-índia em seu hálito.

 

—Você não é páreo para m im ! — sibilou ela, sem entender de onde vinha aquela raiva toda; só sabia que precisava de um a válvula de escape.

 

— Prove.

 

Ela se m oveu, m as ele era rápido e pegou seus pulsos, um em cada m ão, e puxou-os para baixo, deixando-os estirados, ao longo dos quadris.

 

Vitória se debateu, m as antes que pudesse se livrar do aperto dele, ele fincou o pé ao lado dela e a puxou para o lado. Ela perdeu o equilíbrio, ele a levantou e a enfiou na carruagem .

 

Sebastian j á estava dentro, enquanto ela ainda se recom punha, e trancou a porta. Ele bateu um a longa bengala no teto para que o condutor partisse assim que Vitória se levantou do chão.

 

— Sente-se, m inha querida — disse ele, olhando para ela em pé, com o se tivesse acabado de pedir um chá. — Se você quiser brigar, eu brigo. Você parece estar precisando de algum tipo de. . alívio. Ou.. pode sentar-se em segurança aqui.

 

Vitória se sentou. Estava resfolegando, e um pouco abalada pela facilidade com que ele a dom inara. Bem , não a dom inara, exatam ente: ele a pegara desprevenida, m as ela não fora dom inada. De m odo algum .

 

— O que você quer?

 

— Essa, m inha querida, é um a pergunta perigosa de se fazer. Tem certeza de que quer m inha resposta?

Ela o analisou, o m odo com o os olhos dele cintilavam , a curva de um m eio-sorriso nos lábios. E decidiu que não estava pronta para um a resposta. Então fez um a pergunta diferente:

 

— O que quis dizer quando falou que eu não encontraria ninguém para caçar hoj e?

 

— Quis dizer que os m ortos-vivos andam aparecendo pouco nas ruas ultim am ente, graças à cam panha que você tem m ovido contra eles.

 

Eles têm gasto seu tem po no Cálice, enchendo os m eus bolsos. — Ele sorriu largam ente. — Então achei que encontraria você andando pelas ruas, frustrada com a falta de atividade.

 

— Cam panha? Caçar e m atar vam piros é o que Venadores fazem .

 

Não é diferente do que Max vem fazendo há anos.

 

— Maxim iliano é conhecido por suas habilidades frias e calculistas, é verdade, m as aparentem ente a técnica particular usada por você nos últim os dias tem botado os m ortos-vivos para correr. Talvez tenha algo a ver com o fato de você ainda estar de posse do Livro de Antwartha e levar essa vantagem sobre Lilith; não tenho certeza. Só sei que os vam piros têm estado m ais dispostos a beber sangue em barrilado do que sangue fresco nas últim as noites.

 

— Então você veio m e levar ao Cálice, para eu poder caçar lá?

 

Um olhar de terror lim pou o charm e do rosto dele.

 

— De m odo algum ! — E ao reparar no sorriso m ínim o que ela se perm itira, ele riu. — Touché, m inha querida.

 

— Por que você quer proteger os vam piros? — perguntou ela, sentindo-se um pouco m enos nervosa. Um pouco m ais relaxada.

— Eu não protej o vam piros.

 

— Oferecendo-lhes um lugar seguro para se reunirem , é evidente que você protege.

 

— Talvez eu considere benéfico ter um lugar aonde eles virão para relaxar. Talvez ter esse local público onde suas línguas se soltarão e as inform ações fluirão sej a valioso para m im , assim com o para outros. E há, é claro, dinheiro para se ganhar.Tanto dos m ortos-vivos quanto daqueles que sim plesm ente desej am interagir com eles.

 

Ela ergueu um a sobrancelha.

 

— Algum as pessoas acham prazeroso perm itir que um vam piro beba do sangue deles.

 

— Prazeroso?

 

— Você j á foi m ordida por um vam piro, Vitória. Você sabe qual foi a sensação, logo antes dele enterrar os dentes no seu pescoço. E com o, depois que ele os enterrou, você só queria se deixar levar e perm itir que ele a possuísse.

 

Ele a olhava de um j eito que ela m al conseguia respirar. Mas conseguiu replicar:

 

— Com o você sabe que fui m ordida por um vam piro?

 

De repente Sebastian estava no assento ao lado dela, e a bengala dele caiu no chão. Em purrou sua perna para a coxa dela ao virar-se para se inclinar sobre ela. Tirando sua luva, tocou a gola da capa de Vitória e afastou-a. O ar fresco passou por sua pele.

 

— Porque vi isto aqui. Na prim eira vez que nos encontram os.

 

Ele traçou seu dedo pelo pescoço dela, seguindo o tendão que levava ao pequeno desnível na base da garganta. Ele afundou o polegar lá, sentindo o m acio e elástico recuo enquanto o resto de sua m ão se espalm ava pelo lado não cicatrizado do pescoço.

 

Ela não podia se m exer. Mal podia respirar à m edida que sua pulsação vibrava no V da m ão dele, fazendo a pressão do aperto aum entar e afrouxar no ritm o de seus batim entos.

 

— Lem bra-se disto? — m urm urou ele, fazendo com que a cabeça dela descansasse em sua m ão, deixando a parte m arcada de seu pescoço descoberta. Aberta e vulnerável enquanto ele se debruçava sobre ela.

 

Ela fechou os olhos e sentiu: lábios, língua, dentes; m ordidas, lam bidas, tocando levem ente sua pele sensível, de m odo persuasivo e convincente. Ela queria se retorcer, para suspirar, para se apertar m ais contra ele.

 

A capa dela se afrouxou e caiu, descobrindo-lhe os om bros até o topo do corpete baixo. O peso dele a pressionava ainda m ais agora, e suas m ãos quentes, um a nua e a outra enluvada, acariciavam os om bros dela. O couro da luva se m ovia com o carne pegaj osa contra sua pele, as costuras e botões eram ásperos onde a tocavam .

 

A boca de Vitória ainda estava livre; ela deu um longo suspiro; talvez tenha dito o nom e dele, ela não tinha certeza. Ele levantou os braços dela por cim a da cabeça, em purrando seus pulsos para o canto da carruagem onde ela estava. Isto trouxe o rosto dele para m ais perto do dela; seu hálito de cravo era quente em seu queixo, seus dedos se enrolavam nos cabelos dela no topo da cabeça.

 

Vitória fechou os olhos. Ela podia se desviar; podia desvencilhar-se de sua pressão, sentar-se direito e em purrá-lo para o seu lado da carruagem pelas liberdades que estava tom ando.. m as era tão delicioso, tão tem erário, tão certo, para o m odo com o ela estava se sentindo.

 

Filipe, o querido Filipe, a fizera sentir quente, líquida e m aleável quando a beij ava. . m as agora ele se fora, e a boca de Sebastian no seu pescoço evocava um outro tipo de reação. . m ais aguda... m ais profunda e indecente, e a deixava fam inta por m ais daquilo que ele estava oferecendo.

Ou levando.

 

— Tão fácil — ele sussurrou em seu ouvido. — Você anseia por paixão, Vitória. O seu m arquês é tão frio assim ?

 

Ela estava entorpecida dem ais para sentir a irritação que o com entário dele deveria ter despertado.

 

— O m eu m arquês não é m ais m eu m arquês — replicou ela com um a voz que não era sua.

 

— É m esm o? — Sebastian se afastou com tanta rapidez, que ela abriu os olhos. — Bom , se esse é assim , não sentirei um pingo de culpa por este incidente.

 

Apesar do fato de que seus pulm ões pareciam cheios dem ais para respirar novam ente, Vitória replicou:

 

— Duvido que culpa sej a um a em oção que acom eta você, independentem ente das circunstâncias.

 

Ele riu, deu-lhe um breve beij o nos lábios pela prim eira vez, e disse:

 

— Bem , é preciso ao m enos parecer que se faz um esforço. — E

 

então, com o se percebesse quão deliciosa era a boca de Vitória, ele a beij ou novam ente. Duros e ásperos eram seus beij os, e Vitória, com o que liberta de algum tipo de restrição, beij ou-o de volta.

 

Era com pletam ente diferente de Filipe. No fundo isso a entristecia, porque a paixão deles fora verdadeira; sem a brutalidade subj acente daquela que partilhava com Sebastian.

 

Quando ele se m exeu, soltando-lhe os pulsos e perm itindo que as m ãos dela procurassem seus cabelos, ela se virou para não escorregar do assento e seu pé pisou, sem equilíbrio, na bengala. Sebastian fez pressão com seu peso sobre ela, para colocá-la de volta no assento, e grudou seus quadris nos dela. Um a espécie de queim ação, um form igam ento entre suas pernas a surpreendeu e ela o agarrou m ais próxim o, querendo m ais, sentindo a rigidez dele através da roupa.

 

Sebastian m oveu-se novam ente, e de repente Vitória sentiu um j ato de ar fresco sobre seus seios. Ela arfou pela surpresa e seu prim eiro instinto foi se debater, m as quando ele riu sobre sua pele e fechou seus lábios sobre um dos m am ilos, ela se recostou contra o assento.

 

Céus!. . Ela não tinha ideia!

 

Ele m ordiscava e chupava e ela o puxava m ais perto, e m esm o quando as m ãos dele com eçaram a alisar im pacientem ente a sua saia dividida, j ogando cada um a das m etades para cim a dos quadris, ela não o afastou. Havia liberdade em saber que ela poderia fazê-lo, a qualquer m om ento.

 

E naquele m om ento, ela perm itiria o que quer que isso fosse. Ela precisava.

 

Sebastian sabia que ela precisava.

 

Quando as m ãos dele deslizaram até o topo de suas coxas, ela as apertou tanto quanto pôde, m as um a das pernas dele estava presa entre elas. Ele riu novam ente, roçando a parte inferior do seio e olhou para ela com os olhos dourados brilhando, sem ioculto pela fronte saliente e as pontas dos cabelos caindo sobre sua testa no ritm o do m ovim ento da carruagem .

 

— Você ainda é inocente, m inha querida?

 

— De algum as form as — replicou ela com m ais honestidade do que deveria ter sido capaz naquele instante.

 

Ele recolheu as m ãos da saia e as m oveu para a cintura, puxando-lhe a cinta e deixando sua calcinha de algodão visível às lâm padas da rua e ao luar. Ele deu um suspiro suave e baixo quando encontrou o que queria.

Encurvou as duas m ãos em torno do pequeno inchaço de seu um bigo e j untou-as até que seus dedos tocassem o vis bulla.

 

— Ahh.. — disse ele num a voz derretida. E baixou seu rosto até a prata m orna.

 

O leve toque de seus lábios sobre sua pele fez com que ela quisesse se contorcer, e pressionar-se contra sua boca ainda m ais.

 

Mas então, com o um a ducha de água gelada, ela percebeu que sua nuca estava fria. Vitória paralisou-se, ouvindo a si m esm a. Sim , estava fria.

 

Sebastian parou com o se tam bém tivesse notado algo no ar, no m om ento em que a carruagem parou com um solavanco.

 

— Vam piros — disse Vitória, em purrando-o e baixando sua saia.

 

Puxou seu corpete de volta para cim a dos seios e sentiu o gelo na parte de trás do pescoço com um a intensidade incom um . Checando para se certificar de que suas estacas não haviam saído do lugar durante este últim o intervalo com Sebastian, ela se levantou, sacudiu as saias e agarrou a m açaneta da porta.

 

Havia um silêncio desconfortável.

 

Sebastian estendeu o braço no m om ento em que ela girava a m açaneta. Seus dedos se fecharam em seu pulso.

 

— Tenha cuidado, Vitória.

 

Ela olhou para ele.

 

— Sou um a Venadora. — E abriu a porta.

Em pé, na rua cinzenta, havia um Im perial e três vam piros Guardiões. Cercaram o lado da carruagem onde estava a porta. Ela entendeu. Não era um ataque casual: eles a estavam esperando.

 

Um pensam ento odioso porém nada surpreendente lhe ocorreu. Ela se virou para Sebastian, fechou a porta e a trancou.

 

— Você m e trouxe até eles?

 

A expressão dele era ilegível.

 

— Por que eu salvaria a sua vida contando-lhe sobre o Livro de Antwartha, e depois faria um a coisa dessas?

 

Um a forte pancada contra a porta da carruagem fez com que o veículo oscilasse e voltasse para o lugar. Vitória pegou a bengala no chão da carruagem e, encostando a ponta m etálica na beira do assento, enfiou o pé nela. O m etal se quebrou, deixando um a ponta afiada e letal, transform ando-a num a estaca que poderia ser usada para com bater um a espada com o as que os Im periais portavam .

Continuar: parte 3 de 3