O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 2 de 4 · parte 1/3

Páginas do PDF

O Legado da Caça-Vampiro

O gosto dela era tão delicioso quanto…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

O gosto dela era tão delicioso quanto ele im aginara, e ele queria provar m ais. Ele aprofundou o beij o deliberadam ente, testando-a... e ela não o desapontou. Ela abriu sua boca para ele, e ele sentiu o ím peto do desej o quando seus lábios e línguas se entrelaçaram . O brocado da capa de Vitória se am arrotou sob os dedos dele, e ele fechou os olhos quando ela acariciou seu m axilar.

 

Quando ele a soltou e se afastou um pouco, olhou para os olhos castanhos dela, inebriados e sem icerrados, e sentiu-se satisfeito. Ela trazia a estam pa de sua posse, no rosto e nos lábios inchados e m olhados; sem m encionar a fita desbotada em seu pulso.

 

Por Deus, ele ia se casar com aquela m ulher!

 

* * *

 

A liberdade de usar calças!

 

Vitória chegara aos vinte anos sem nunca ter experim entado um a liberdade com pleta de m ovim entos, a perda do m edo de tropeçar na própria saia e a pura indecência de ter as pernas expostas e definidas daquela m aneira tão im própria.

 

Sentia-se incrivelm ente escandalosa e poderosa ao subir na carruagem de aluguel de Barth sem outra aj uda além do que parecia ser um a pesada bengala com a ponta afiada. Verbena subiu atrás dela parecendo um garoto de olhos arregalados e cara de lua, agarrando um a grossa estaca num a das m ãos e um grande crucifixo de prata na outra.

 

Com am bas as m ãos ocupadas, seus m ovim entos para subir ao coche eram inúteis, até que Barth perdeu a paciência e a em purrou para dentro.

 

Aj eitando-se num assento de frente para Vitória, Verbena tentava arrum ar sua touca ainda segurando a estaca e a cruz. Um a trança cor de pêssego escapou, pouco fazendo para dar credibilidade ao seu disfarce.

— Por que eles têm m edo de prata? — perguntou ela assim que o veículo se pôs em m archa.

 

— Porque Judas Iscariotes traiu Cristo por trinta m oedas de prata

 

— replicou Vitória. Não estava nervosa, m as tinha os sentidos à flor da pele. Não contara à tia Eustácia o seu plano de visitar St. Giles naquela noite, com m edo de que ela proibisse, ou, pior ainda, m andasse Max ir j unto.

 

— E alho?

 

— Isso eu não sei, m as suspeito que sej a pelo odor. O olfato de um vam piro é m uito m ais apurado que o de um m ortal. Talvez sej a fortem ente desagradável para eles na sua condição de m ortos-vivos.

 

— A sinhora consegue reconhece um ? Quando a gente chega lá... a sinhora vai sabe se tem um antes dele nos m orde?

 

— Sem pre posso sentir quando há um por perto — explicou Vitória, percebendo que sua criada a estava crivando de perguntas para acalm ar seus nervos. — Na m aioria das vezes, posso distinguir quem é o vam piro, e estou cada vez m elhor nisso. Não se preocupe, Verbena. Não creio que eles atacarão sem ser provocados, especialm ente se os estam os procurando num lugar público.

 

Após um a discussão rápida e difícil com Barth, Vitória o convenceu não só a levá-las a St. Giles, a vizinhança m ais vil e perigosa de Londres, m as especificam ente a um lugar onde ele encontrara vam piros num a reunião m ais social do que predatória. Um a vez que Barth vira e até transportara vam piros m uitas vezes sem ser atacado, Vitória concluiu que ele devia saber onde eles se reuniam .

 

Foi só pelo fato de Vitória ser um a Venadora que Barth concordou em levá-las ao Cálice de Prata.

 

— Se tem alguém que pode se protege, é um Venadô — disse ele, aquiescendo, por fim , ao pedido.

Quando o cabriolé parou com um solavanco (se Barth não fosse prim o de Verbena, e, portanto de confiança, Vitória teria contratado um condutor com mais finesse), ela abriu a porta.

 

Já passava da m eia-noite, m as a rua estava tão m ovim entada quanto Drury Lane após um a peça de teatro. Os cheiros eram m uito piores, no entanto, e Vitória se perguntou com o é que os vam piros agüentavam . A parte de trás do seu pescoço estivera esfriando, m as quando pôs a m ão na cabeça sentiu com o se pontas de gelo espetassem sua nuca. Levantando a gola do seu paletó m asculino, com o se aquilo fosse aj udar, ela aj ustou seu chapéu para garantir que nenhum de seus reveladores cachos escapasse.

 

Em bora fosse um a noite nublada, a rua não estava escura graças a lam piões a gás pendentes à entrada de alguns estabelecim entos. Vitória usou sua bengala m ortal com o apoio ao descer do coche, foi até Barth e o instruiu a ficar ali, "não im porta o que aconteça".

 

— Onde é o Cálice de Prata? — perguntou ela, notando que era um nom e estranho para um lugar que atraía vam piros.

 

— Ali. — Barth apontou com um dedo trêm ulo, agarrando o crucifixo com a outra m ão.

 

Vitória virou-se para olhar, quando Verbena desceu tropegam ente do cabriolé e trom bou com ela ao aterrissar.

 

— Nada vej o além de um prédio queim ado.

 

— Ali, atrás dele.

 

Vitória se aproxim ou e entendeu o que ele queria dizer: um a entrada com duas portas, que m al se notava perto do edifício queim ado. Ao m over-se na direção dela, algo bateu em suas costas e quase a derrubou. Com a bengala erguida, virou-se e viu Verbena se encolhendo diante de três criaturas am eaçadoras. A boca da criada estava aberta num grito silencioso e Vitória teve que engolir sua própria reação autom ática e lem brar a si m esm a que ela não era indefesa. Era um a Venadora.

 

— O que é que dois m oço tão distinto tão fazendo nesta parte da cidade? — perguntou um dos três hom ens. Algo dourado brilhava no seu sorriso que parecia decididam ente lascivo. Então algo prateado reluziu em sua m ão.

 

Eles cercaram as duas e chegaram perto o suficiente para que Vitória sentisse o cheiro de álcool e outros odores desagradáveis. Os três vestiam roupas escuras que pareciam estar, em bora não m uito lim pas, em condições razoáveis. Não eram vam piros; vam piros não precisavam de facas. Um a estaca poderia não detê-los, m as Vitória sabia que era m ais forte do que três hom ens m ortais. Mesm o assim a palm a de suas m ãos um edeceu as luvas. Ela não pensara em trazer arm as que não fossem para vam piros.

 

— Acho que ouvi o m oço dizê que eles tão procurando pelo Cálice de Prata — respondeu o outro hom em com o se Vitória e Verbena não fossem m ais que um a platéia sem interesse na conversa deles.

 

— Já encontram os — disse Vitória, engrossando a voz. — Vam os em bora agora. — Verbena trom bou nela novam ente e Vitória teve que resistir à vontade de trom bar nela de volta. Não precisava de um a criada pendurada nela e fazendo-a perder o equilíbrio caso ela precisasse se colocar em posição de luta.

 

— Ocês não pode entra sem um passe — disse o terceiro hom em .

 

Ele precisava se barbear havia pelo m enos três sem anas, e sua testa e bochechas pareciam encardidas e suadas à luz baixa. — Se ocês dois, uns m oço tão bonito, quisé vim conosco, nós aj uda ocês a consegui um .

 

— Por um preço, eu suponho — replicou Vitória. Verbena deu-lhe um a nova trom bada e ela quase se virou para gritar com ela, quando percebeu por que ela estava tão perto, ao sentir algo frio e pesado tocando sua m ão. Envolveu a coisa com os dedos. Um a pistola.

 

Vitória se m exeu e subitam ente tinha a arm a apontada para o suj eito m ais próxim o. Estava calm a, com a respiração estável, m as seus dedos trem iam .

 

— Não creio que pagarem os preço algum aos senhores esta noite.

 

Agora dispersem cavalheiros, antes que m eu dedo fique im paciente.

 

Em bora Eustácia nunca lhe tivesse ensinado a usar um a pistola em seu treinam ento, Vitória sabia com o usá-la. Tinha visto com o se fazia.

 

Apertaria o gatilho e a coisa cuspiria um a bala dando-lhe um coice na m ão.

 

Se ela de fato acertaria alguém era outro assunto, m as os três hom ens estavam tão perto que ela não estava preocupada.

 

Supondo, é claro, que Verbena tivesse carregado a arm a.

 

Os três aparentem ente acreditaram na am eaça, e em bora não tenham desaparecido, im ergiram nas som bras m ais escuras do prédio pequeno ao lado das ruínas queim adas acim a do Cálice de Prata.

 

Vitória colocou a pistola no bolso profundo de sua capa e, apertando a bengala, dirigiu-se às portas que a levariam , esperava ao Cálice de Prata.

 

As portas estavam fechadas, m as quando ela e Verbena puxaram um a cada um a, elas se abriram facilm ente e revelaram um a escada íngrem e que descia. Lá em baixo havia, m enos m al, algum a luz, porém tênue dem ais para ilum inar o cam inho delas.

 

Com o vam piros tinham excelente visão noturna, não devia ser difícil para eles enxergar num a escada tão escura e íngrem e que não se podia ver sequer dois degraus abaixo. A nuca de Vitória doía de tão gelada, e o calafrio estava com eçando a subir-lhe até a base do crânio. Passou os dedos sobre a nuca na esperança de dim inuir a frigidez, m as não fez diferença.

 

Com um últim o olhar para Verbena, com eçou a descer as escadas, grata m ais um a vez por não estar usando saias arrastantes.

 

À m edida que descia os vinte degraus, os sons vindos de baixo foram ficando m ais altos e discerníveis. Pessoas falando, rindo, gritando... o tilintar de canecas m etálicas batendo um as nas outras. . socos e batidas em m esas ou paredes... e um a m úsica m elancólica produzida por um piano perfeitam ente afinado.

 

Chegando ao fim , virou um a esquina e viu-se dentro do Cálice de Prata.

 

Em bora a experiência de Vitória com tabernas e bares não fosse vasta, j antara em duas durante suas viagens, e esta não parecia tão diferente das que conhecera no m undo m ortal.

 

Mesas enchiam o salão de paredes de pedra, perm anentem ente úm ido por estar abaixo da terra. Lâm padas pendiam do teto de vigas por m eio de cordas e correntes, e o chão estava coberto de suj eira acum ulada.

 

De um dos lados, à esquerda e virando a esquina da entrada, havia outra porta que provavelm ente levava a outro salão, em bora tam bém pudesse ser outra saída. Adj acente a essa porta havia um longo bar, detrás do qual duas m ulheres iam e vinham apressadas, enchendo canecas e batendo-as sobre o balcão.

 

Não, se não fosse pela sensação de congelam ento no pescoço, Vitória pensaria estar num a taberna com um , apenas um pouco m ais escura e úm ida do que estava acostum ada.

 

Ninguém parecia ter reparado nela e em Verbena, e ela ficou aliviada por isso. Desej ando conhecer m elhor o estabelecim ento e seus fregueses, ela esperava perm anecer incógnita por m ais tem po. Esquadrinhou o salão, identificando aqueles que eram vam piros e os que não eram . Para sua surpresa, um a boa porção da clientela não era de m ortos-vivos bebedores de sangue; talvez a m etade, segundo seu cálculo. Era um bom presságio, porque Vitória j á estava se perguntando o que é que serviam para beber naquele estabelecim ento. Em bora j á tivesse provado m ais de um gole de brandy (a ocasião m ais notável foi após o funeral de seu pai), não estava nem um pouco interessada em com partilhar de qualquer coisa que vam piros pudessem beber.

Por fim ela viu um a pequena m esa, esprem ida num canto a pequena distância do piano. Agarrando os dedos frios de Verbena, cutucou-a para que a seguisse e com eçou a avançar até a m esa. Ao passarem pelo piano, ela reparou na pianista, que não havia parado de tocar desde que ela e Verbena tinham entrado. Um a vam pira, com um longo cabelo prateado e um rosto infeliz, alternadam ente voltada para as teclas ou olhando para o teto, com o se estivesse com pletam ente arrebatada pela m úsica. A m elodia era triste, nostálgica, e bonita de um a form a algo assustadora.

 

Quando se sentaram , Vitória escolheu um a cadeira de onde pudesse ver o resto do salão. Era um pouco decepcionante que tivessem entrado nesse bar e encontrado um a cadeira sem um a única olhada ou sinal de interesse por parte de alguém no aposento.

 

Isso respondeu um a pergunta que Vitória havia pensado em fazer à tia Eustácia: vam piros podiam sentir a presença de um Venador? A resposta, aparentem ente, era não.

 

Agora que estavam no Cálice de Prata, cercadas de vam piros que possivelm ente sabiam algo sobre o Livro de Antwartha, Vitória percebeu que nada planej ara além daquele ponto. Talvez nunca tivesse acreditado que chegaria àquela posição. Mas chegara, e agora precisava fazer algo antes que Verbena desm aiasse de m edo.

 

Pelo j eito não haviam chegado com pletam ente despercebidas, pois m al tinham sentado em suas cadeiras (era bem m ais fácil levantar a cauda de seus sobretudos quando se sentavam do que afastar gentilm ente as saias de um vestido) quando um a das serventes foi a cotoveladas para j unto delas.

 

— Vão querê o quê. — Decididam ente não era um a pergunta, e sim um a afirm ação entediada e im paciente. Vitória olhou para Verbena, sem saber o que responder. Com o deixara sua bolsa em casa, não tinha um a única m oeda com ela.

 

— Duas cervej a da casa — respondeu Verbena, esperta. Jogou duas m oedas na m esa grudenta com um sorriso orgulhoso no canto da boca.

Vitória olhou para ela. Era a segunda vez naquela noite que Verbena vinha socorrer a Venadora. Fora talvez um pouco precipitada quando decidira vir sozinha.

 

Mas agora que j á haviam lidado com as am enidades, Vitória podia decidir o próxim o passo. Ela provaria seu valor à tia Eustácia, ao carrancudo Max e a longilínea Way ren, que olhava para Max com olhos azuis tão grandes que fazia Vitória torcer os lábios. Era abom inável que ele passasse serm ões a Vitória sobre estar distraída na m issão dela.

 

No fim das contas Vitória não precisou decidir nenhum passo seguinte, porque assim que term inou de patrulhar o salão com os olhos, captou um m ovim ento em sua proxim idade e alguém se sentou à m esa com ela e Verbena.

 

A princípio ela pensou que era Max.

 

Mas não. Não era Max. Não, este cavalheiro definitivam ente não era Max.

 

— Boa noite, cavalheiros.

 

A voz doce, tem perada com um sotaque parisiense, pertencia a um charm oso gentil-hom em que im ediatam ente lhe pareceu um a m istura de ouro e bronze, por sua pele bronzeada, olhos cor de âm bar, cabelo castanho-claro, bem com o pelo colete cor de chocolate e calça bege claram ente confeccionados por um alfaiate de im enso talento.

 

Sentou-se ao lado de Vitória. Bem perto; ela se questionou se hom ens norm alm ente se sentavam tão perto uns dos outros em seus clubes privados. A perna dele tocou a dela por baixo da m esa e a sensação foi desconfortável. Mesm o assim ela não m exeu sua perna.

 

Ela se assegurou de que sua voz se igualava ao registro de tenor dele ao replicar:

 

— Boa noite.

Quando hom ens estavam sozinhos exigiam ser apresentados antes de conversar? Ou tinham a liberdade para conversar sem tais form alidades?

 

— Vocês parecem estar no Cálice de Prata pela prim eira vez. Não é sem pre que tem os o prazer de ver caras novas. Vieram por algum a razão específica?

 

Seria aquilo um alerta ou ele estava m eram ente tentando ser am igável? Vitória não sabia a form a apropriada para responder, então decidiu ser direta. Quanto antes soubesse se o bar seria útil para ela, antes poderia levar Verbena de volta a Grantworth House.

 

— Estam os procurando inform ações.

 

Naquele m om ento, a m oça reapareceu e bateu as duas canecas na frente delas. A cervej a espirrou pela m esa, m olhando o pulso do hom em e a borda de sua m anga.

 

— Maldição, Berfhy ! você não consegue ter um pouco de cuidado?

 

Isto é renda de Alençon!

 

— Ocê não devia usá um as roupa fina assim num lugar que nem este

 

— rosnou Berthy, e foi em bora resm ungando.

 

O hom em tirou um lenço e o passou sobre a renda na beira de seu punho.

 

— Se a desgraçada não fosse tão boa em seu trabalho, eu a j ogaria na rua.

 

Boa em seu trabalho? Jogá-la na rua?

 

Vitória não sabia qual afirm ação a surpreendera m ais; porém optou por se concentrar na últim a.

— O senhor é dono deste lugar?

 

— Sou, em bora nem sem pre tenha orgulho de adm iti-lo. Entre outros estabelecim entos, perm ita que acrescente. Sebastian Vioget, às suas ordens.

 

Ele estendeu a m ão, sua atenção tão fortem ente concentrada nela, que Vitória quase esqueceu de retribuir o cum prim ento.

 

— Victor Grant... son. Victor Grantson — repetiu ela com m aior fluência. Os dedos dele fecharam -se sobre os dela, engolindo-os num aperto que durou m ais tem po do que ela achou necessário. Ou talvez fosse apenas o incôm odo de saber que sua m ão delgada, em bora em balada em luvas negras, devia ser bem m ais frágil que a m aioria das m ãos que ele apertava.

 

— E que tipo de inform ação vocês poderiam estar procurando..

 

aqui? — Sua atenção não dim inuiu em intensidade; Vitória sentiu com o se ele estivesse olhando fundo em sua m ente. A única coisa que a im pedia de ficar apreensiva era saber que ele não era um vam piro.

 

Ele certam ente não era um vam piro. . contudo, aquilo não explicava a estranha atração que exercia nela. Não era diferente da sensação que ela tivera logo antes que o vam piro Guardião m ergulhasse as presas no seu pescoço.

 

Vitória resistiu ao ím peto de sacudir a cabeça, m as ela se afastou um pouco de Sebastian Vioget sob o pretexto de pegar sua caneca de cervej a.

 

Deveria sim plesm ente dizer a ele o que estava procurando?

 

Por que não? Audácia nas palavras e ações era a m arca de um Venador de sucesso, em bora sentar-se e planej ar fosse bom às vezes, ela supôs.

 

— Estou procurando o Livro de Antwartha. Aparentem ente a audácia foi a escolha certa.

— E por que pensou encontrar inform ações sobre tal coisa aqui?

 

Um livro velho pode ser encontrado na Hatchard ou Mason. O senhor veio ao lugar errado. — Ele se inclinou para ela, tão perto que, ela pôde ver as m anchas escuras em seus olhos dourados, e tão próxim o, que ela podia sentir algum tipo de energia pesada no ar entre am bos.

 

— Eu não disse que era um livro velho — replicou Vitória —, em bora pareça que, a despeito da sua adm oestação, eu vim , de fato, ao lugar certo.

 

Ele então deu um a risada baixa, surda e auto depreciativa.

 

— De fato. Na verdade, talvez eu possa aj udá-lo em sua busca.. m as antes, posso dar um a sugestão?

 

Ela assentiu com a cabeça, ciente que o lam pej o de hum or em seus olhos estava agora concentrado nela.

 

— Vestir calças que não servem e um chapéu nada faz para disfarçar o seu sexo; na verdade, cham a a atenção para ele. Vocês não enganaram ninguém .

 

8

 

Um visitante inesperado atrapalha os planos da Srta. Grantworth

 

— Talvez não fosse m inha intenção enganar alguém — replicou Vitória. — Talvez eu tenha chegado à conclusão de que calças são m uito m ais confortáveis que saias.

 

Ele riu novam ente, e sua perna roçou a dela por baixo da m esa. Era quente e pesada e Vitória se afastou. Ele olhou para ela, percebendo, e sorriu; m as, felizm ente, não com entou.

 

— Agora que j á discorrem os sobre a m inha opção de vestuário —

disse ela, sentindo-se m ais confiante agora que não precisava m anter o desconfortável disfarce de hom em — o senhor vai m e dizer quem pode m e aj udar a achar o Livro de Antwartha?

 

— Se a senhorita fizer a gentileza de m anter sua voz num tom m ais... m oderado.. talvez eu possa aj udar. Não, com o j á vi que isso não será possível, tem os que ir para outro lugar onde poderem os conversar m ais à vontade.

 

A idéia de ir para qualquer lugar com esse hom em deixava Vitória desconfortável. . de um j eito tépido, im próprio. Talvez só porque Filipe a beij ara naquele dia, ela ficava reparando no m odo com o a boca de Sebastian Vioget se m exia, e seu form ato. E quão próxim a estava da sua.

 

Naquele instante, alguém virou a esquina no fim daquela m esm a escada que ela e Verbena tinham descido, e parou em pé, a pouca distância da m esa delas. Em bora ele não as estivesse encarando, ela reconheceu sua figura alta e escura. Provavelm ente porque no fundo ela havia esperado vê-la, de qualquer j eito.

 

Max.

 

Vitória rapidam ente virou-se para esconder o rosto.

 

— Já tem um lugar em m ente? — perguntou.

 

— Dêem -m e licença por um m om ento — disse ele, levantando-se abruptam ente. — Se tiverem a gentileza de atravessar aquela porta, vou j untar-m e a vocês em um instante. — Ele cham ou a atenção dela para um a porta estreita que Vitória não notara antes; era bastante escura para o observador casual, j á que estava esprem ida na esquina de um a alcova. —

 

Está destrancada.

 

Vitória observou Sebastian m over-se ágil e rapidam ente, m as sem aparentar pressa, em direção a Max. Tinha um a sensação de desconforto no estôm ago, m as seguiu no rum o que traçara, na esperança de dar o fora antes que Max a visse. Se Sebastian estava certo, e seu disfarce era tão flagrantem ente falso que qualquer um podia perceber, seus planos seriam arruinados se Max sim plesm ente olhasse na direção dela.

 

Alguém puxou sua m anga enquanto ela pensava, e Vitória se virou.

 

Ela tinha esquecido com pletam ente de Verbena! Com o podia ter escapado tão facilm ente de sua m ente, sentada ali a seu lado?

 

A resposta ficou clara quando ela se virou e viu que, durante sua conversa com Sebastian, a criada havia aproxim ado sua cadeira de outra m esa próxim a e parecia estar conversando am istosam ente com três outras pessoas, incluindo a pianista vam pírica.

 

— Não é o seu prim o Max que tá conversando com o sinhô Vioget?

 

— perguntou Verbena. Seu hálito cheirava à cervej a que ela pedira, e o brilho em seus olhos m ostrava que ela estivera se divertindo horrores.

 

— Sim , é ele, em bora não sej a realm ente m eu prim o. Preciso ir em bora antes que ele m e reconheça. Você deve se despedir de seus am igos e vir com igo. — Vitória levantou-se, segurando sua bengala-estaca, e enveredou rapidam ente pela porta que Sebastian apontara. Verbena foi atrás.

 

No m om ento em que curvava os dedos na beirada áspera da porta para fechá-la, Vitória parou e olhou para trás. Sebastian e Max continuavam conversando no m esm o lugar onde Max se havia postado desde que entrara no salão.

 

A conversa deles consistia em j atos curtos de falas que se alternavam entre um e outro, com pouca anim ação ou expressividade por parte de am bos. Max era o m ais alto dos dois. Não pareciam estar na ofensiva, m as tam pouco dem onstravam qualquer sim patia para com o outro.

 

Quando os dois se separaram com acenos rápidos e sem apertos de m ão, ela sum iu atrás da porta. Fechando-a, virou-se e olhou, pela prim eira vez, o lugar aonde Sebastian as havia m andado.

Verbena estava em pé recostada a um a parede de tij olos cinza, ainda segurando sua caneca de cervej a. Ou seria a caneca de Vitória? Estava cheia e parecia não ter sido tocada.

 

Estavam num corredor cuj o teto de tij olos era curvado e com castiçais a cada quinze passos m ais ou m enos. Antes que Vitória pudesse explorar m ais um pouco, a porta se abriu novam ente e Sebastian entrou.

 

— Sua am iga pode esperar lá fora — disse ele, olhando para Verbena. — Ela estará bem com Am élie e Claude.

 

Vitória teria recusado, m as Verbena j á estava indo em direção à porta.

 

— Eu acho m elhor, mila. . m ilorde — a criada corrigiu depressa. —

 

Am élie é a pianista e ela j á j antou hoj e, então não tô com m edo dela.

 

— Nenhum m al lhe ocorrerá se ela estiver com Am élie — repetiu Sebastian. — E o que estou prestes a lhe dizer é só para os seus ouvidos de Venadora.

 

Vitória sobressaltou-se, m as logo se acalm ou. Teria Max visto Vitória e dito a Sebastian quem ela era?

 

— Vô ficá segura feito um tatu — disse-lhe Verbena com um sorriso radiante, e Vitória, a contragosto, assentiu com a cabeça.

 

Verbena quase bateu a porta ao sair, em seu entusiasm o por voltar para seus novos am igos, e Vitória viu-se de repente a sós com Sebastian Vioget.

 

Ele estendeu a m ão para ela sem dar-lhe tem po de recuar; ela sentiu, então, o topo de sua cabeça ficar m ais frio e m ais leve quando ele puxou o seu chapéu.

 

— Estou querendo fazer isso desde que a vi — disse ele, deixando o chapéu cair. — Agora, só falta. . — Ele esticou de novo a m ão, e desta vez ela se m exeu no m om ento em que os dedos dele tocavam um dos gram pos na parte de trás de sua cabeça. Ela não foi suficientem ente rápida, pois ao afastar-se o gram po ficou na m ão dele, puxando-lhe o cabelo.

 

Sebastian estalou a língua.

 

— Sou daqueles que acham um a vergonha as m ulheres terem que esconder a beleza de seus cabelos.

 

Vitória sentiu a pistola e tirou-a de seu bolso. Não a apontou para ele, apenas queria que ele a visse.

 

— Acho isso lindo, m as não estou nem um pouco interessada nos seus com entários sobre m inha roupa ou m eu penteado. Se não pode m e aj udar com a m inha busca, encontrarei alguém que possa.

 

Sebastian riu e soltou o gram po. Vitória sentiu a m assa pesada de cabelos deslizando por suas costas e teve que resistir à necessidade de aj eitá-lo no lugar.

 

— Você faz j us a seu Legado, m inha querida. Agora, antes de continuarm os, gostaria de saber o seu nom e verdadeiro.

 

Ela não viu m al nenhum em dizer.

 

— Vitória. E quero saber o que o faz pensar que eu sou um a Venadora.

 

— Sei m uito sobre um a porção de coisas. Incluindo o fato de que você. . ah, sim , é verdade m esm o.

 

Ele estendeu de novo a m ão, e antes que ela pudesse im pedi- lo, ele puxou para trás o colarinho alto e engom ado de sua cam isa m asculina. Ele estava sem luvas e Vitória sentiu a tepidez do toque dele no seu pescoço descoberto.

 

Vitória deu um passo calculado para trás. Não reagiria do m odo que seu corpo desej ava: rapidam ente, aos arrancos, em pânico. Ela não o deixaria perceber o quanto ele a afetava tocando-a daquele j eito despreocupado.

 

Ela era um a Venadora, e era m ais forte que ele. Quem quer que ele fosse.

 

— Você vai m e aj udar ou devo ir em bora?

 

— E arriscar que o seu sócio lá fora a reconheça? Sem o chapéu você parece um a m oça delicada usando as roupas do irm ão. É ridículo, e um a afronta à sua beleza. Pelo m enos a aba escondia um pouco dessa pele im pecável e a linha do m axilar. — Ele ofereceu-lhe o braço, virando-se para o corredor que se estendia à frente deles. — Tenho certeza de que você não está disposta a correr esse risco. Por que será, eu m e pergunto que você não queria que ele a visse?

 

Vitória não tom ou o braço dele, m as foi com ele. A passagem era larga o suficiente para que andassem lado a lado sem esbarrarem um no outro, e ela ficou grata por isso. Enquanto andava, a m assa instável do seu cabelo balançava ao ritm o de cada passo.

 

— Você o conhece? — perguntou ela, evitando dizer o nom e dele.

 

— Maxim iliano? Claro que conheço. Ele vem aqui de vez em quando, e eu j á lhe disse que pode patrulhar o local com a condição de não causar tum ultos nem caçar m inha clientela. Assim com o j á proibi m eus outros clientes de caçar suas presas no m eu estabelecim ento. Viu?

 

Vivem os todos em harm onia.

 

Cam inharam pelo corredor. Vitória em punhava sua bengala - estaca com um a das m ãos e a pistola com a outra. Sentia-se confiante e preparada para qualquer am eaça que pudesse surgir.

 

— Por aqui, m inha querida — disse ele, parando em frente a um a porta no fim do corredor. Havia outra porta diante dessa. Am bas pareciam idênticas.

Vitória apertou a estaca ao cruzar a soleira para dentro de um quarto bem m obiliado, que parecia um escritório. Prateleiras de livros alinhavam -se num a parede; em outra, um a escrivaninha. Num dos lados havia um sofá e duas cadeiras ao redor de um a m esa baixa, próxim os à lareira. O assoalho de m adeira estava coberto por um tapete. O único elem ento desconcertante sobre aquele quarto é que ele não tinha j anelas. E

 

apenas um a saída.

 

— Vej o que aprovou o m eu gabinete — disse Sebastian. — Por favor, sente-se.

 

— Por que m e trouxe aqui? O Livro de Antwartha certam ente não se encontra nessa estante.

 

— Não, claro que não. Mas é m uito im portante que nossa conversa não sej a ouvida por outros. Porque. . — ele ergueu a m ão para deter a reação furiosa dela — eu sei exatam ente onde está o Livro de Antwartha.

 

E com o consegui-lo.

 

Vitória fechou a boca e sentou-se. Descansou a bengala a seu lado e a pistola próxim a a ela, na alm ofada.

 

— Muito bem . — Ele sorriu e sentou-se ao lado dela no sofá. —

 

Agora vej am os, se eu lhe der essa inform ação, o que você m e dará em troca?

 

Ela sentiu sua pele form igar.

 

— O que teria valor para você?

 

— Duas coisas. Duas coisas m uito sim ples, Vitória Gardella. Ah, sim , eu sei exatam ente quem você é. — Sebastian sorria e olhava para ela com seus olhos alaranj ados de tigre. — O prim eiro requerim ento é.. você não pode dizer a ninguém onde obteve essa inform ação. Não pode contar ao seu sócio Max; não pode contar à sua tia. Se contar, eu saberei. E você vai se dar m al se o fizer. Entenda ninguém m ais aqui no bar sabe quem você é.

 

Ninguém saberia que nos encontram os. Ninguém saberia com o você conseguiu essa inform ação a m enos que você a divulgasse.

 

— Eu prom eto — assentiu Vitória.

 

— E eu devo confiar em você?

 

— Da m esm a form a que eu confiei em você quando disse que m inha criada estaria segura. E da m esm a form a que confiei em você vindo até aqui.

 

Ele riu novam ente, com sua risada sabichona.

 

— Oh, sim , com o um a Venadora você está correndo um trem endo risco com igo! — Suas palavras eram zom beteiras, m as algo nelas dizia a Vitória que não eram tão levianas quanto pareciam . — Mas você estava certa ao confiar em m im com relação à segurança da sua criada. Ela realm ente não está em perigo. Com o lhe disse, não perm ito caça no m eu estabelecim ento.

 

— Qual é o segundo requerim ento? — O form igam ento em sua pele se intensificou em antecipação à resposta.

 

— Quero ver o seu vis bulla.

 

A garganta de Vitória secou. Não era o que ela esperava. Era m uito, m uito pior.

 

— Um beij o não seria suficiente? — perguntou ela com ousadia, um a névoa averm elhada obnubilando o canto de sua vista. Afinal, ela j á tinha beij ado um hom em naquele dia. Não conseguia im aginar... ter que desabotoar sua cam isa de hom em e m ostrar-lhe o torso!

— Você está m e oferecendo um favor adicional? Se está, aceito com prazer. Além do m eu requerim ento original, é claro.

 

— Não além ; m as em vez.

 

— É tentador, pois nunca beij ei um a Venadora. . m as não. Quero ver o seu vis bulla. — A expressão de seu rosto m ostrava que ele sequer considerara a alternativa. — E então lhe direi tudo o que você precisa saber.

 

— Com o saberei que m e dirá a verdade?

 

— Você vai ter que confiar em m im .

 

Foi à vez de Vitória rir.

 

— E por que eu deveria confiar em você num assunto dessa natureza? E por que você iria querer m e aj udar?

 

— Quanto a aj udar você.. lógico que tenho as m inhas razões, e partilhá-las não é parte do nosso acordo. Não é problem a seu por que quero aj udar um a Venadora. E se a inform ação for errada (e posso assegurar que não é), o que você terá perdido sim plesm ente m e m ostrando o seu vis bulla?

 

A voz dele caiu para um grave perturbador no fim , quase um sussurro.

 

— Ou.. — Sua voz estava m ais forte agora, m ais firm e — eu posso sim plesm ente dar a Maxim iliano a inform ação. Tenho certeza de que ele apreciaria m uito.

 

— Ele não lhe m ostraria seu vis bulla — respondeu Vitória, subitam ente dando-se conta de que Max tinha um . Com o o dela.

 

Pendurado no um bigo.

— Não quero ver o dele.

 

Vitória sentiu o coração esm urrando o seu peito. Era apenas o recato que a im pedia de m ostrar a ele. Apenas o recato. E se m ostrasse, poderia voltar para a tia Eustácia e Max com inform ações valiosas. . ou talvez até o próprio livro.

 

Sebastian a observava de um a posição relaxada no canto do sofá; m as ela sentiu a tensão enquanto ele aguardava um a resposta. E

 

subitam ente, com o que cedendo sob a intensa contem plação dele, a gravidade derrotou o trabalho de Verbena e o seu cabelo volum oso deslizou solto, sobre os om bros. Ele riu com satisfação.

 

— Exatam ente com o eu o im aginei.

 

— Diga-m e algo e eu decidirei se a inform ação vale um beij o.. ou a visão do m eu vis bulla. — Sua própria voz soava rouca.

 

— Lilith sabe onde o Livro está. Ela m andará seus Guardiões am anhã à noite quando a lua estiver alta. Ou você os im pede, ou Lilith terá êxito e a posse do Livro. Então, vai j ogar esse j ogo ou não vai?

 

Vitória se apoiou levem ente contra o braço do sofá, virou seu torso para Sebastian enquanto seus pés perm aneciam firm es no chão. A pistola era um a protuberância desconfortável por baixo de sua coxa, m as ela não se im portava: preferia saber exatam ente onde ela estava. Tirou as luvas.

 

Afastou o paletó da cam isa branca que estava abotoada do pescoço quase até os j oelhos.

 

Seus dedos estavam no botão do m eio de sua barriga e ela parou para encarar Sebastian. Ele não se m exeu e continuou silencioso, observando-a. Seu peito subia e descia por baixo do paletó cor de café e da cam isa clara.

Os dedos de Vitória m oviam -se habilm ente enquanto ela abria o botão do m eio, depois o de cim a e o de baixo. Ela não conseguiu olhar para ele enquanto abria a cam isa e sentia a corrente de ar frio sobre sua pele subitam ente descoberta.

 

A prata sagrada cintilava contra o branco de sua pele, aninhada no vão escuro de seu um bigo. Ela ouvia Sebastian, que respirava lentam ente.

 

Ele se m oveu, cuidadosam ente, e em bora Vitória quisesse, não conseguia soltar a cam isa que m antinha aberta, não conseguia fechá-la. Ele estendeu o braço para ela pela terceira vez naquela noite, e em bora Vitória encolhesse e afundasse seu estôm ago, os dedos dele encontraram a cruz de prata e a acariciaram . . depois deslizaram para tocar seu um bigo, alisando-o circularm ente.

 

Quente, pesado, intenso. . a palm a dele cobriu a sua pele.

 

A névoa averm elhada no canto de sua vista tornara-se escura e ela m al podia respirar.

 

9

 

A Srta. Grantworth fica com um frio terrível num m om ento dos m ais inconvenientes

 

Quando Vitória abriu os olhos, Sebastian ainda olhava para a m ão dele sobre o estôm ago dela. Piscando, tentando clarear a m ente, percebeu que ele nem notara que ela.. o quê? Desm aiara?

 

Só um instante havia se passado, ela tinha certeza, desde que tudo ficara escuro. Um segundo. Um a anom alia.

 

Mas o que quer que tivesse causado isso — fossem suas próprias sensibilidades ou outra fraqueza — ela não queria dar chance para que se repetisse. Pegou a m ão de Sebastian pelo pulso e a rem oveu da abertura de sua cam isa. Ele então a olhou, nos olhos a cor de um chá forte; todos os vestígios da cor dourada haviam sum ido.

 

— Você queria olhar, não falou nada sobre tocar! — Se ela não estivesse tão cautelosa, teria sentido j úbilo por sua voz ter saído tão forte e resoluta, com a ponta de zom baria que Max em pregava sem pre.

 

Ele curvou a cabeça em gentil reconhecim ento e retrocedeu.

 

— Ficaria grata, agora que j á cedi m ais do que a m inha parte nesse acordo, se m e dissesse o que desej o saber.

 

— É o que farei, Vitória. — Ele j untou as m ãos sobre o peito, relaxando de volta à sua posição no canto oposto do sofá; parecia organizar os pensam entos.

 

Aquilo era ótim o para Vitória, pois ela não estava certa de que conseguiria ouvir ou lem brar qualquer coisa que ele dissesse por cim a da ventania em seus ouvidos e do batim ento de seu coração.

 

Por fim ele falou; e quando o fez, foi conciso e direto ao ponto, com o se ele tam bém se sentisse desconfortável na presença dela.

 

— No m om ento o Livro pertence a um hom em que recentem ente retornou de viagem da índia. Enquanto esteve lá, com prou um velho castelo, e o livro estava incluído na biblioteca do im óvel. Um a proteção foi posta nele há séculos, e o livro não pode ser aberto até que essa proteção sej a quebrada. Tam pouco pode ser rem ovido da posse de seu dono por um m ortal.

 

— Mas um m orto-vivo poderia roubá-lo?

 

— Exatam ente. Você precisa, portanto, esperar que Lilith m ande seus asseclas para roubarem o livro, e só então você deve aprisioná-los: depois de terem roubado o livro. Se você m esm a tentar roubar o livro, m orrerá assim que tocá-lo.

 

Vitória olhou para ele, pensativa.

— Mas então devo acreditar que um a vez que um vam piro rouba o livro de seu dono, é seguro para um m ortal tocá-lo?

 

— Isso m esm o.

 

— E.. com o um vam piro poderá roubá-lo desse hom em se não pode atravessar o um bral de um a casa sem ser convidado? — O ceticism o em balava sua voz.

 

Sebastian assentiu levem ente, percebendo o cinism o dela.

 

— Isso é o que vai acontecer daqui a duas noites. O dono da casa vai partir para suas viagens, e a pessoa que ficará lá em sua ausência vai convidar os m ortos-vivos a entrar na casa.

 

— Essa pessoa que os convidará a entrar. . está ciente de que eles são vam piros? E qual é o propósito da visita deles? Essa pessoa será prej udicada?

 

Sebastian deu de om bros, indiferente.

 

— Essa é toda a inform ação de que você precisa Vitória. Pode agir com base nela ou não.

 

— E se você estiver m entindo para m im , ou enganado em suas inform ações, eu sofrerei as conseqüências.

 

Sebastian inclinou-se para ela, os olhos com o fendas negras.

 

— Vitória, eu pretendo que esta sej a apenas a prim eira de m uitas vezes em que nos encontrarem os. Por isso eu lhe asseguro que não estou m entindo. E quando se trata de assuntos com o esse, eu nunca m e engano.

* * *

 

Vitória e Verbena não chegaram até que o sol j á estivesse despontando sobre o leste de Londres. Cansada, em polgada e descom pensada pelos eventos da noite, Vitória não disse nada no cam inho para casa; em vez disso pensou no seu próxim o passo.

 

Sebastian lhe dera o endereço do hom em que possuía o Livro de Antwartha. Ele tam bém reiterou que os vam piros o roubariam na noite seguinte porque o dono estaria fora. Se essa inform ação estava correta, Vitória tinha visitado o Cálice de Prata na hora exata. Talvez fosse por isso que Max tam bém estivera lá.

 

Deveria ela contar para tia Eustácia, e, por tabela, inform ar Max, para que am bos pudessem trabalhar j untos na obtenção do Livro? Ou deveria m entir e esperar sozinha pelos agentes de Lilith, caso a inform ação dada por Sebastian fosse falsa?

 

Em Grantworth House, Barth, bocej ando, parou o cabriolé na esquina; Vitória e Verbena desceram e andaram o resto do cam inho.

 

Apressando-se pela entrada dos em pregados, Vitória seguiu Verbena pela parte de trás, propositalm ente destrancada, e conseguiu esgueirar-se até o seu quarto sem ser vista por nenhum dos em pregados. Lady Melly dorm iria até depois do m eio-dia e, até onde sabia, Vitória voltara para a casa depois de um j antar, com dor de cabeça.

 

Verbena aj udou-a a se desvestir e Vitória caiu cheia de gratidão no seu colchão de penas. Quando com eçava a ser em balada pelo sono ela se lem brou: naquela noite veria Filipe no baile dos Madagascar. Talvez houvesse um a oportunidade para que ele a beij asse de novo.

 

Ela sorriu no travesseiro.

 

* * *

— Por que — m urm urou Filipe enquanto trazia Vitória para o seu lado — tenho sem pre que abrir cam inho entre um a m ultidão de j anotas para poder dançar com você?

 

Com o pulso acom odado entre o braço e o corpo dele, ela perm itiu que seu quadril roçasse com o do m arquês enquanto cam inhavam .

 

— Eles não estavam lá só para falar com igo — redargüiu ela, erguendo o rosto e sorrindo para ele. — Gwendoly n Starcasset tam bém tem m uitos adm iradores.

 

— Pode ser, m as a m aioria deles babava sobre a sua m ão, não a dela.

 

— O senhor é m uito gentil — ela respondeu com um sorriso recatado.

 

Ele apertou o braço dela contra ele.

 

— Não sou de form a algum a gentil — replicou Filipe. — Na verdade, não tenho um pingo de gentileza com relação a esses alm ofadinhas.

 

— E o que m e diz das senhoras e senhoritas que suspiram pelos seus encantos e polpuda carteira?

 

— Pretendo em breve desiludir todas elas. Gostaria de algo para beber, Vitória?

 

Ela só conseguiu assentir de cabeça e tentar não encará-lo. Desiludir todas elas em breve? Será que aquilo significava o que ela im aginava? Sua pele ficou ruborizada e quente, e ela agradeceu a Deus pelo copo de ponche onde pôde enfiar o rosto.

 

No dia anterior ele a beij ara no parque, e a despeito de sua perturbadora experiência no Cálice de Prata, Vitória havia acordado tarde recordando o gosto de seus lábios. Im aginando se naquela noite tentaria de novo.

Um a dam a bem com portada não devia pensar em beij ar um hom em com quem não fosse casada, ou pelo m enos noiva. Mas desde que recebera seu vis bulla, Vitória se afastara m uito de ser um m odelo de bom com portam ento. Matando vam piros. Vestindo calças. Andando à noite nas ruas.

 

Mostrando seu um bigo para estranhos.

 

O que pensaria Filipe se visse o seu vis bulla?

 

Seu rosto estava m ais quente do que nunca, e Filipe devia ter percebido, pois perguntou:

 

— Você está bem , Vitória? Vam os sair para você tom ar um pouco de ar?

 

— Sim , eu gostaria disso.

 

Do lado de fora das grandes portas francesas do salão de baile, Vitória e Filipe detiveram -se no terraço. Dois outros casais, num a balaustrada, olhavam lá em baixo as trilhas que se entrelaçavam e os agrupam entos de sebe que form avam o j ardim dos Madagascar. Um lance de degraus descendentes conduzia do centro do terraço de pedra até a vegetação.

Continuar: parte 2 de 3