O Legado da Caça-Vampiro
Para Steve, Holli e Tammy
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Com amor.
Não posso agradecer o suficiente a Marcy Posner por tom ar-m e sob seus cuidados e trabalhar com igo nos últim os dois anos. E um a palavra de agradecim ento a Claire Zion, por se arriscar com igo e com a história de Vitória, e por sem pre verbalizar m inhas idéias antes que eu m esm a o fizesse! Tina Brown tem sido form idável em tudo, desde responder perguntas sim ples de "novata", a dar apoio e m anter tudo fluindo tão suavem ente.
Minhas irm ãs da Wet Noodle Posse tam bém estão no topo da m inha lista de pessoas a agradecer. Nunca conheci um grupo de m ulheres tão solidárias, am orosas e talentosas.
Sem Holli e Tam m y eu teria ficado presa no prim eiro capitulo durante m eses. Obrigada por estarem ao m eu lado a cada sem ana, e por todo o seu apoio, orientação e por aquelas m alditas perguntas que vocês viviam fazendo! Muitos abraços agradecidos tam bém a Mam ãe, a Jennifer, Linda, Kelly, Diana, Wendy, Jana e Kate, por ficar ao m eu lado durante esta historia e inúm eras outras. Am o todas vocês!
Obrigada ao m eu m arido e filhos por agüentar todas as vezes que estou no com putador, ou perdida em pensam entos, tentando resolver algum problem a do enredo. E obrigada a Mary Kay - você sabe por que. Por fim , e principalm ente, agradeço ao m eu Criador, sem o qual nada disto seria possível!
Acho que existe um a escolha possível
Para nós em qualquer m om ento,
Enquanto vivem os. Mais sem
Sacrifício algum . Há um a escolha,
E o resto desaparece.
Muriel Rukey ser
Nossa história com eça
Os passos dele eram inaudíveis, m as Vitória o ouviu se m exer.
Ela se agarrou à casca do carvalho, apertando o corpo contra a árvore com o se esta pudesse protegê-la. Mas tudo que sentiu foi aspereza.
Não podia ficar ali.
Agachando-se e enrolando os dedos em volta de um a pesada vara, ela saiu da som bra segura da árvore e adentrou no luar prateado. O estalo agudo de um galho sob sua bota precipitou-a de volta para outra som bra próxim a...
Ela podia ouvi-lo respirar.
E sentir as reverberações* do coração dele.
Ele batia alto, firm e e forte, pulsando nos ouvidos dela e através do seu corpo com o se fosse o seu próprio.
Vitória avançou de novo, suas saias esvoaçando ao redor dos tornozelos enquanto ela fugia do som do seu perseguidor. Atravessou arbustos, esquivando-se de árvore em árvore e pulando por cim a de troncos caídos com o um a égua desgovernada.
As pisadas sólidas dele se aproxim avam cada vez m ais rápido enquanto ela corria.
Um galho arranhou o rosto dela. Moitas se em aranhavam nas suas saias.
Ela corria, corria e corria sob o luar branco, em punhando sua vara, e ele continuava atrás dela, o coração batendo de m odo tão constante quanto seu pesado tropel.*
Antes que percebesse, Vitória tropeçou em um pequeno desnível e caiu dentro de um riacho. Com a aj uda da vara aprum ou-se e tentou cam inhar com a água até as coxas, suas saias cada vez m ais pesadas puxando-a para baixo, até ela m al poder dar um passo à frente.
Um grito de raiva ressoou atrás dela enquanto ela cam baleava para o suave declive do outro lado do riacho.
À m edida que galgava para fora, ela se virou e o viu em pé, na m argem oposta. Não podia ver-lhe o rosto, m as os olhos cintilavam na escuridão, e seu corpo exalava fúria e frustração. Porém , ele não a seguiu.
Não cruzou a correnteza.
Vitória acordou sobressaltada, o coração tam borilando loucam ente dentro do seu peito.
Raios solares, não lunares, fulguravam através da j anela.
Um sonho. Havia sido um sonho.
Ela passou a m ão sobre o rosto úm ido pela transpiração e afastou os anéis de cabelo que haviam escapado da sua grossa trança.
O quinto sonho. Havia chegado a hora.
Sua cam a pairava bem acim a do soalho, e seus pés pousaram no tapete Aubusson quando ela saiu de baixo do edredom , necessitando desesperadam ente do penico. Sem se im portar com a falta de pudor, Vitória ergueu a cam isola m olhada de suor, descobrindo seu corpo e sentindo com alívio o ar fresco sobre a pele úm ida.
Cinco sonhos em m enos de um a quinzena. Era o sinal. Naquele dia m esm o ela iria ver a tia Eustácia.
Os vestígios do sonho se dissolveram , substituídos por um zum bido de expectativa e um tinido de apreensão. Vitória olhou-se no espelho alto e enevoado. O aviso havia chegado.
Hoj e ela saberia exatam ente o que aquele aviso prenunciava.
1
As duas estréias da Srta. Vitória Grantworth Vam piros.
Os Gardella eram caçadores de vam piros.
Vitória iria caçar vam piros.
— Vitória, querida, — a voz gentil de lady Melisande continha um levíssim o tom de censura. — pode com eçar a servir.
Vitória piscou e percebeu que sua m ãe estivera sentada com as m ãos perfeitam ente dobradas sobre o colo, enquanto suas duas convidadas aguardavam segurando taças de chá vazias.
— Claro m am ãe. Peço desculpas por sonhar acordada —
acrescentou, erguendo o bule de m arfim . Era o favorito de sua m ãe, trazido da Itália pela sua avó ao casar-se com Herbert, lorde de Prewitt Shore, e ostentava im agens de catedrais rom anas.
Felizm ente as duas convidadas eram as m elhores am igas de lady Melly e não se ofenderam com a falta de atenção de Vitória.
Três sem anas antes, sua m aior preocupação havia sido qual vestido usar para um evento noturno, ou o m edo de que — Deus nos livre! — o cartão de dança dela não fosse preenchido.
Ou se ela encontraria um m arido adequado durante seu baile de estréia na sociedade.
Mas agora... com o diabos ela esconderia um a estaca de m adeira em sua pessoa? Não dava para sim plesm ente enfiá-la na luva, ou no espartilho!
— Não se preocupe querida Melly. É natural que ela estej a um pouco distraída, com sua estréia a m enos de duas sem anas. — Lady Petronilha Fenworth sorriu afavelm ente para Vitória ao em punhar sua taça fum egante. Das três m atronas, era a de tem peram ento m ais doce, que com binava com seu rosto angelical e constituição delicada. Fazia lem brar um a boneca de porcelana. — Depois de esperar quase dois anos, de luto, ela deve estar ansiosa para ser finalm ente apresentada à sociedade!
— Está m esm o — redargüiu a m ãe de Vitória, a célebre beldade do trio. — Tenho grandes esperanças para ela. Em bora sej a dois anos m ais velha que a m aioria das outras, ela é, com certeza, bonita o suficiente para cham ar a atenção de um m arquês. . talvez até de um duque! — Olhou com afeto para a filha m ais velha, que colocara o bule de volta e agora tentava parecer interessada na conversa em andam ento.
Lady Winifred, outra velha am iga de Melisande, inclinou-se para frente, a fim de selecionar um biscoito com seus dedos roliços. Seus olhos faiscavam de entusiasm o.
— Minha cunhada falou que este ano Rockley vai finalm ente procurar um a esposa!
— Rockley ! — As duas outras senhoras repetiram o nom e em uníssono, quase gritando, com o se elas fossem as dam as casadouras em vez de Vitória, em bora estivessem casadas havia pelo m enos um quarto de século (com exceção de Melisande, que enviuvara um ano antes).
— Vitória, ouviu o que Winifred disse? — sua m ãe repetiu agarrando a m ão dela. — O m arquês de Rockley está à procura de um a noiva! Precisam os assegurar-nos de que ele sej a convidado à sua estréia na vida social. Winnie, sua cunhada vai com parecer?
— Vou fazer com que com pareça. . e que insista para que o m arido dela traga Rockley. Nada m e agradaria m ais do que ver nossa querida Vitória roubar o coração (e a bolsa) do indefinível m arquês de Rockley. —
Winifred, que ficara viúva um a década antes e não tinha filhos, havia adotado Vitória com o filha. Entre Petronilha, Winifred, e, é claro, Melisande, Vitória tinha virtualm ente três m ães preocupando-se com seus prospectos m atrim oniais.
Ela estava m ais preocupada em saber se o pequeno crucifixo que pendia no seu pescoço seria suficiente para deter um vam piro salaz.
Segundo tia Eustácia, seria; m as enquanto Vitória não se visse cara a cara com um a das criaturas, não se sentiria plenam ente convencida. Na verdade, essa se tornara a sua m aior preocupação nos últim os dias: quando ela veria seu prim eiro vam piro?
Um deles sim plesm ente apareceria na casa dela em um a noite? Ou ela receberia algum tipo de advertência?
Um a rápida batida seca na porta da sala de visitas desviou a atenção das dam as da discussão a respeito do físico e da renda de Rockley.
— Sim , Jim m ons? — perguntou Melisande, quando o m ordom o adentrou no aposento.
— Tenho em m ãos um a solicitação para que a Srta. Vitória vá à casa de lady Eustácia Gardella. A carruagem de Sua Senhoria aguarda a j ovem senhorita, se ela concordar em visitar sua tia.
Vitória depôs sua xícara com um tinido intenso. Mais treinam ento.
E um a oportunidade de fazer m ais perguntas à sua tia.
— Mãe — disse ela levantando-se m ais abruptam ente do que pretendera. A últim a coisa que ela queria ouvir era um serm ão a respeito dos m ovim entos delicados e graciosos pertinentes a um a dam a. Sobretudo desde que o assistente de tia Eustácia, um hom em cham ado Kritanu, passara as últim as duas sem anas ensinando-a a se m over com rapidez e precisão. E com o desferir em um hom em o pontapé perfeito. Com o pegar um atacante de surpresa esquivando-se e saltando do m odo m enos delicado e gracioso possível. Sua m ãe cairia m orta se visse o m odo com o Vitória aprendera a golpear com seus braços, pernas, e até com a cabeça.
—Vou ao encontro de tia Eustácia, se m e der licença.
Melly ergueu o olhar para ela; sua face arredondada era um a versão m enos fina e m enos elegante da de Vitória.
— Você tem andado m uito apegada à sua tia nas últim as sem anas, querida. Tenho certeza de que a sua com panhia deve dar grande prazer à velha dam a. Espero que ela não se sinta negligenciada quando a tem porada com eçar e você estiver dançando em bailes ou indo ao teatro todas as noites.
Dançando em bailes, indo ao teatro, espreitando vam piros.
Sem dúvida algum a, Vitória seria um a debutante extraordi-nariam ente ocupada.
***
Na noite de sua estréia — a qual, prim eiro por causa da m orte de seu avô, depois devido à m orte do seu pai, fora adiada para dois anos depois que ela com pletara dezessete — Vitória sentou-se à sua penteadeira, um a perfeita senhorita da cabeça aos pés.
Seu cabelo negro ébano, m assa revolta de cachos, fora repuxado atrás da cabeça e m uito bem preso, a fim de que nenhum a m echa saísse do lugar por m ais que sua dona se entregasse a danças, m esuras ou correrias.
Pérolas de cor rosa bem pálida haviam sido entrelaçadas em seus cachos, e gem as negras reluziam quando ela virava a cabeça, enquanto as pérolas cintilavam na m esm a tonalidade que seu vestido. Pedras preciosas pendiam de suas orelhas e um colar rosado de pérolas e quartzos cingia-lhe o pescoço. No peito levava pendurado não um broche de cam afeu, e sim um pequeno crucifixo de prata.
O vestido de Vitória apresentava o m ais suave tom de rosa e derram ava-se em pregas diáfanas do seu peito até a ponta dos sapatos. A saia flutuava, quase esvoaçava, e por baixo dela havia m ais duas cam adas de cor m arfim translúcido. O decote quadrado e profundo deixava à m ostra um a boa quantidade de pele m uito clara, desde o colar à ponta dos seios. E suas luvas, com pridas e de um branco virginal, ultrapassavam os cotovelos, quase tocando as pequenas m angas bufantes.
De fato, Vitória parecia à debutante recatada e ingênua que era. .
exceto pela sólida estaca de m adeira na sua m ão.
Tinha a circunferência de dois dedos e o com prim ento do seu antebraço. Um a extrem idade era bem polida e a outra term inava talhada num a ponta afiadíssim a. Grossa dem ais para entrelaçar no seu penteado, grande dem ais para caber na bolsinha que pendia no seu pulso.
— Debaixo das saias, querida. Enfie na liga debaixo de suas saias —
disse-lhe calm am ente tia Eustácia. O rosto dela era m arcado pela idade, m as irradiava beleza e inteligência, com o se cada centelha de felicidade dos seus oitenta e poucos anos cintilasse ao m esm o tem po. Ela usava o cabelo ainda preto preso atrás da cabeça num a intrincada m assa de caracóis entrem eados de pérolas, laços brancos e gem as negras. Era um penteado m ais apropriado para um a garota da idade de Vitória do que para um a anciã, m as ele ficava bem na tia Eustácia, da m esm a form a que o vestido de tafetá verm elho-sangue com gola alta.
— Por que você pensa que eu lhe dei essa liga? Depressa, sua m ãe pode voltar a qualquer m om ento!
— Debaixo das saias?
— Você precisa ser capaz de agarrá-la com rapidez e facilidade, Vitória. Ficará bem escondida, e com a prática, você aprenderá facilm ente a sacá-la e em punhá-la quando necessário. Vam os rápido!
Tia Eustácia não esperou que ela agisse; ergueu as saias de Vitória, descobrindo a liga com fivela de m arfim atada logo abaixo do j oelho e observou a sobrinha acom odar a estaca entre a liga e a pele.
Mal term inaram , a porta abriu-se e lady Melisande entrou seguida por suas duas am igas risonhas.
— Está na hora, Vitória! Venha, venha!
— Você está linda! Absolutam ente deslum brante! — Petronilha aprovou, espiando a si m esm a no espelho, por trás de Vitória, e aj eitando um cacho seu.
— Rockley está lá em baixo — crocitou Winifred, tocando o cotovelo de Vitória ao estender a m ão para um dente de alho branco que j azia entre j óias, vidros de perfum e e pentes ornam entados. — O que é isto? — perguntou, aprum ando-se para aproxim á-lo ao seu pincenê a fim de confirm ar que se tratava m esm o de um alho.
Olhando para Eustácia através do espelho, Vitória forçou um sorriso e inclinou-se de m odo conspiratório em direção a Winifred e Petronilha.
— Tia Eustácia trouxe para m im — disse ela em voz baixa. —
Segundo ela, vai m e proteger contra vam piros. —Deliberadam ente ela baixou um a pálpebra num vagaroso piscar e, olhando sobre o om bro para parecer que não queria que a tia- avó escutasse, tom ou o alho de Winifred.
— Vou deixá-lo aqui.
Petronilha e Winifred assentiram de cabeça, esbugalhando os olhos para não rir, e lançaram olhares divertidos para tia Eustácia. Vitória foi a única a ver a idosa dam a piscar de volta para ela.
— Mal posso esperar para apresentar você a Rockley ! — Lady Winnie m urm urou enquanto saíam do quarto. — Ele j á dançou com lady Gwendoly n Starcasset m ais de um a vez na sem ana passada, m as ainda não conheceu a nossa linda debutante! Não seria dem ais se você o roubasse para si, bem debaixo do nariz dela?
No alto da longa e curvada escadaria, Vitória deteve-se, fora do cam po de visão da festa lá em baixo. Um sucesso com o aquele era o sonho de toda m ãe de filha casadoura; as ladies Melisande, Petronilha e Winifred deviam estar em êxtase com o núm ero de pessoas que abarrotavam o lar Grantworth. Apesar de Melly ser a m ãe de Vitória, as outras duas insistiam em patrociná-la tam bém ; e com o Winifred era a duquesa Farnham , sua reputação pôs um ponto final no assunto.
Vitória ficou sozinha, aguardando ser anunciada, nervosa e na expectativa. Aquela noite seria a da sua estréia na sociedade. . E tam bém sua estréia com o a nova caça-vam piros da antiga fam ília Gardella. Não apenas ela tinha de encantar os solteiros belos e ricos, m as tam bém precisava dar um j eito de achar e enfiar a estaca no seu prim eiro vam piro.
Aqui. No m eio da sua apresentação à sociedade.
— Anunciando.. Senhorita Vitória Anastácia Gardella Belíssim a Grantworth.
Vitória com eçou a descer os degraus, devagar e m aj estosam ente, a m ão enluvada deslizando pelo corrim ão de m adeira polida. Descia sem pressa, percorrendo a m ultidão de caras viradas para cim a, procurando por algum a conhecida.. e por um a que não pertencia àquele lugar. Tia Eustácia havia assegurado que com o parte do Legado, com o um a Venadora, Vitória possuía um sentido inato para detectar a presença de um vam piro em form a hum ana norm al.
Aproxim ando-se do fim da escada, ela sentiu. Era algo frio na sua nuca, um a brisa, um calafrio... em bora nada se m ovesse no ar. Incapaz de controlar sua reação, ela voltou-se rapidam ente para olhar por cim a do om bro esquerdo, para trás da escadaria, observada por um enxam e de convidados.
Chegando ao pé da escada, sua m ãe tom ou-a pelo braço e a fez voltar-se para apresentá-la a um distinto grupo de hom ens e m ulheres. A form idável lady Jersey, o duque e a duquesa de Sliverton, o conde e lady de Wenthwren, e m uitos outros cuj os nom es lhe eram fam iliares. Vitória fez j us à sua orgulhosa m ãe: m esurou, sorriu e perm itiu que sua m ão fosse erguida e beij ada, enquanto dividia sua atenção entre esses assuntos e o am biente ao seu redor.
O vestíbulo de Grantworth House era vasto. Quatro portas de três folhas, da altura do teto, haviam sido escancaradas para o salão de baile.
Lâm padas e velas cintilavam em cada canto, em cada superfície, em cada candeeiro. As colunas do aposento estavam rodeadas de árvores sem folhas, pintadas de branco com guirlandas cintilantes penduradas nelas.
Um a orquestra de seis instrum entos estava instalada num canto do salão, quase oculta por um punhado de árvores brancas; e um a com prida m esa decorada com vasos de rosas brancas continha ponche e outros refrescos para os convivas. Além da extensão da reluzente pista de dança de pinho, três portas francesas abriam -se para um terraço. A brisa de fim de m aio infiltrava-se pelo salão, e traria consigo o estonteante arom a de lilases e forsítias se o ar não estivesse j á im pregnado de perfum es franceses e águas florais.
— Sentiu? — Atrás de Vitória, tia Eustácia sussurrara em seu ouvido depois de afastá-la de Melly.
— Senti. Mas com o poderei. .
— Você encontrará um m odo de encurralar a criatura. Você é Escolhida, m inha cara. É Escolhida porque tem as habilidades. Só precisa utilizá-las.
Os olhos de Eustácia cintilaram com o as pedras preciosas entrelaçadas nos cabelos de Vitória, carregados de intensidade e segurança, fazendo Vitória sentir o peso desse olhar. Aquela noite era sua prim eira prova. Se passasse, sua tia lhe revelaria tudo.
Se não passasse..
Procurou não pensar nisso. Ela conseguiria. Passara as quatro últim as sem anas aprendendo com o se m ovim entar e com o golpear um vam piro. Estava tão preparada quanto era possível estar.
— Boa noite, Srta. Grantworth — falou um a m oça graciosa m ais ou m enos da sua idade. — Sou lady Gwendoly n Starcasset, e venho desej ando conhecê-la. Quero parabenizá-la pela estréia encantadora. As árvores brancas com guirlandas prateadas foram um toque de extrem o bom gosto.
Gwendoly n era m enor e m ais delicada que Vitória, com cabelos cor de m el e olhos cor de âm bar. Seus om bros e costas eram salpicados de sardas, m as as do busto estavam disfarçadas por um a leve cam ada de pó de arroz. Ao sorrir, um a encantadora covinha despontou à direita de sua boca.
— Boa noite, lady Gwendoly n. Obrigada pelo cum prim ento, m as não m ereço crédito pela decoração. Foi obra de m inha m ãe. Ela fica m uito m ais à vontade com esse tipo de coisa do que eu.
Com o Vitória ficara de luto por dois anos — após a m orte do seu avô e, logo depois, do seu pai, quando então a fam ília Grantworth passara um bom tem po no cam po, na sua propriedade em Prewitt Shore — ela conhecia m uito poucas donzelas da sua idade. É claro que essa escassez de am izades tam bém se devia ao fato de que Vitória preferia passar o tem po cavalgando sua égua no cam po ou no Parque Regents, ou lendo livros, em vez de ficar fazendo visitas e fofocando sobre xícaras de chá. Mesm o assim , ficou contente por ter a oportunidade de conversar com um a garota da m esm a idade que ela. Voltando a sentir o calafrio na nuca, Vitória varreu com os olhos o aposento abarrotado. Onde estaria ele?
— Então agora pode se j untar a nós, as dem ais donzelas casadouras, e desfilar em bailes e afins, à procura de um m arido. Vitória parou de percorrer o aposento com o olhar, surpresa com a franqueza de sua nova conhecida.
— Eu m e sinto m esm o com o um cavalo de raça exibido por toda parte. Não pensei que outras debutantes com partilhassem dessa opinião.
Conseguir um m arido é um a tarefa tão im portante, ou ao m enos é o que m inha m ãe diz.
— A m inha tam bém . Não é que eu não queira m e casar e ter filhos; é apenas a form a com o som os inspecionadas. Apesar de que há m uitos cavalheiros pelos quais eu não m e im portaria nem um pouco de ser inspecionada. — As covinhas de Gwendoly n apareceram . — Rockley, por exem plo. Ou Gadlock, ou I Tutpenney, apesar desse nom e infeliz.
— TUTPENNEY?
— Acredite, a aparência dele é bem m elhor que o nom e. —
Gwendoly n suspirou e acrescentou: — E eu tinha grandes expectativas de dançar com o visconde Quentworth antes da tragédia.
— Tragédia?
— Você não soube? — Gwendoly n agarrou-lhe o braço enluvado e Vitória espantou-se ao ver que os olhos dela haviam se esgazeado de preocupação. — Ele foi encontrado m orto na rua perto de sua casa. Parece ter sido atacado por algum anim al que quase lhe separou a cabeça do pescoço. Mas havia m arcas estranhas no seu peito, que não podiam ter sido feitas por um anim al!
Vitória tinha toda a sua atenção voltada para Gwendoly n agora.
— Que tipo de m arcas? E com o você sabe disso? Com certeza sua m ãe ou seu pai não lhe contariam tal coisa!
— Não, claro que não. Mas m eus irm ãos não são exatam ente discretos em suas conversas depois de algum as doses de brandy, e eu costum o ouvir tudo que falam . É a única form a que tenho de saber algo interessante. — Ela olhou Vitória sob suas pálpebras cor de areia para detectar a reação dela.
— Se eu tivesse irm ãos provavelm ente faria o m esm o — falou Vitória, para alívio de sua interlocutora. — Com o não tenho, preciso contar com m inha tia Eustácia, que todos acham que não bate bem , m as que é realm ente m uito... esclarecedora. Que tipo de m arcas?
— Ah, sim . . as m arcas eram três X no seu peito. E não creio que ele tenha sido a prim eira vítim a com esse tipo de m arcas.
Gwendoly n provavelm ente teria prosseguido, m as foi interrom pida.
— Vitória, — soou um a voz estridente carregada de excitação m al disfarçada — posso lhe apresentar alguém ?
— Com a sua licença, Srta. Grantworth — disse Gwendoly n —, a duquesa Farnham está vindo buscá-la, e lorde Tutpenney encontra-se ali, parecendo m uito solitário. Divirta-se durante o resto da sua estréia.
Vitória voltou-se para ver lady Winifred com um sorriso de expectativa no seu rosto redondo e perfurado por covinhas.
— Apresento m inha cunhada, lady Mardem ere, o m arido dela, visconde Mardem ere. . e seu prim o, lorde Filipe de Lacy, m arquês de Rockley.
De repente, o persistente calafrio na sua nuca am ainou. Vitória sentiu um calor súbito percorrer sua pele, das bochechas ao pescoço e ao peito. Ela evitou olhar para baixo a fim de conferir se sua pele havia ficado num tom m ais escuro que o seu vestido.
— É um prazer, Srta. Grantworth — ia dizendo lady Mardem ere. —
Que bela recepção para a sua estréia! Sua m ãe deve estar tão contente!
— Está sim — respondeu Vitória antes de se virar para fazer um a m esura ao visconde Mardem ere. — Eu m esm a m al tive a chance de conhecer todo m undo.
Ela estava agora erguendo os olhos para os olhos fundos e sem icerrados do m arquês de Rockley.
Lady Gwendoly n não havia exagerado. "Bem apessoado" m al com eçava a descrever o hom em em pé diante dela, erguendo a m ão enluvada dela aos seus lábios. Era m ais alto que qualquer outro hom em presente, seu farto cabelo castanho soltando reflexos dourados quando ele inclinou a cabeça para beij ar as costas da m ão dela.
— Se ainda não cum prim entou a todos, posso ter a esperança de que haj a um a dança sobrando no seu cartão? — A voz dele com binava com sua aparência: clara, tranqüila, suave; m as a expressão dos olhos destoava desse conj unto. Tinha algo que a fez sentir um calor. . e tam bém a sensação de que j á o conhecia de algum lugar.
— Claro que sim , m as é um a das últim as. Após a ceia, se o senhor pretender ficar até tarde. — Ela o olhou por debaixo de seus cílios. Não sabia de onde havia tirado tanta ousadia, m as isso não pareceu desanim ar o m arquês.
— Mal saberei com que ocupar-m e até então, — respondeu ele com um a expressão significativa — m as esperarei.
Então ela sentiu o calafrio na nuca de novo. E o peso de alguém observando. .
Retirando a m ão da de Rockley, voltou-se abruptam ente para olhar, varrendo a m ultidão com o olhar e detendo-o num pequeno grupo do outro lado do salão.
— Vitória? — Ela captou vagam ente a surpresa na voz de lady Winifred, ecoada por Rockley.
— Srta. Grantworth? Está tudo bem ?
Lá! Ele estava lá! Debaixo do arco da escadaria por onde Vitória descera fracam ente ilum inados pelos castiçais, cerca de doze nobres, com os rostos inclinados uns para os outros, conversavam , riam , gesticulavam .
Então ela o viu. Ele a observava, m esm o enquanto se inclinava para falar com a loira m iúda do seu lado. Alto e trigueiro, exalava poder com um m ero m ovim ento de cabeça ao sorrir para sua acom panhante. Ela sorria de volta, visivelm ente encantada com a atenção dele, e pôs a m ão sobre o antebraço do hom em , totalm ente indefesa e sem noção do perigo que corria.
Exatam ente com o Vitória teria estado.
— Sim , sim — ela disse m ecanicam ente, em tom j ovial, voltando de novo sua atenção para Rockley e para lady Winifred. — Por um instante pensei ter visto m inha m ãe acenando para m im . — Era um a desculpa esfarrapada, m as seria aceita.
— Por favor, desculpe-m e por m inha distração, lorde Rockley —
disse ela sorrindo para ele, percebendo de repente que ele segurava a m ão dela outra vez. — Foi um grande prazer conhecê-lo. Aguardarei com grande expectativa nossa dança m ais tarde.
Ele sorriu encantadoram ente para ela e curvou de leve a cabeça.
— Esperarei por esse prazer com grande im paciência.
Nesse instante, Vitória sentiu m ais do que viu o m oreno alto e sua acom panhante saindo de sua posição sob a escada. Sua nuca estava fria, e seus dedos com eçaram a form igar. Os dois cam inharam rum o às portas que conduziam ao terraço, a loira m agrinha erguendo os olhos para ele com um sorriso doce e entusiasm ado. Se eles saíssem ...
Vitória com eçou a cruzar o aposento, costurando rapidam ente em m eio à m ultidão, desviando-se das pessoas que queriam falar com ela.
— Com licença — disse ela quando um a m atrona de aparência particularm ente espalhafatosa tentou bloquear seu cam inho. — Preciso alcançar m inha... m inha tia antes que ela se recolha.
Com o ele era m ais alto que o resto dos convidados, Vitória pôde acom panhar os m ovim entos dele enquanto o casal se dirigia às portas francesas. Decerto planej avam sair para tom ar um pouco de ar.
Vitória escapuliu para o terraço, torcendo para que sua m ãe não tivesse notado a linha reta que ela fizera através do salão de baile. Seria difícil explicar por que ela abandonaria sua própria estréia para vagar pelo terraço.
E seria ainda pior para aquela loirinha se Vitória não interviesse.
Apressando-se sem fazer barulho com os pés, m anteve-se nas som bras da casa barulhenta e bem -ilum inada ao correr pelo terraço de tij olos. Escutando o burburinho de vozes, parou perto de um a estátua de Afrodite, perscrutando ao redor da base de pedra fria para ver se localizava o hom em e a m ulher que ele escolhera para ser sua vítim a. Vitória precisava se apressar, pois ele não perderia tem po, por m edo de ser descoberto.
Então ela se lem brou, e m eteu a m ão por baixo das saias de seda esvoaçante para sacar a estaca presa por sua liga. Em punhando-a do m odo que Eustácia lhe ensinara, Vitória abandonou a som bra protetora da estátua e seguiu rapidam ente pela trilha principal, com os ouvidos atentos.
Aí ela escutou um m urm úrio gutural seguido de um a risada rouca.
Virando à direita, avançou silenciosam ente na direção deles e por fim atingiu o fim da trilha. O casal encontrava-se sob o dossel form ado por um ram o carregado de lilases. A loira erguia o olhar para o hom em , cheia de inocência e deleite; ele sorria para ela. Em bora não fosse dirigido a ela, Vitória sentiu a força da atração daquele sorriso. Ela apertou os dedos ao redor da estaca e se aproxim ou.
Estava perto o suficiente para ver o subir e descer do peito da m ulher, e a curva incisiva do pôm ulo elevado do seu alvo. Ele tinha a aparência de um aristocrata arrogante, alto e m oreno, com seu rosto atraente e queixo quadrado.
Com o seria a sensação de cravar a estaca no peito dele? Precisaria enfiar com força, através das roupas e dos ossos? Quanta força teria de usar? Se o coração era o ponto fraco dele, seria desprotegido e fácil de penetrar?
Ela segurou o crucifixo, rezando para obter forças. Só teria um a chance.
Ela não podia esperar m ais. Ele estava alisando os braços descobertos dela, e ela estava sorrindo para ele, inclinando-se para o seu corpo. Parecia que iam se beij ar; m as Vitória sabia que não. A qualquer m om ento o rosto dele m udaria... seus olhos se tornariam verm elhos e seus caninos cresceriam , prontos para perfurar a pele branca e lisa da m ulher.
Agora! Ela precisava agir!
Em punhando a estaca, Vitória saltou das som bras, o braço bem acim a dos om bros, fazendo m ira no peito largo do vam piro. Bem no instante em que ela se m exeu, quando estava pronta para cravar a estaca no alvo, a boca da m ulher se abriu com um a cintilação branca.
Atônita, Vitória conseguiu virar-se na hora H, rodopiando na direção da pequena loira, cuj os olhos verm elhos e caninos alongados brilhavam am eaçadoram ente. Foi tão rápido que a vam pira não teve chance de se recuperar da surpresa. Em pregando a força de sua súbita m udança de direção, Vitória cravou a estaca no peito da m ulher.
A estaca perfurou a pele dela com horrível facilidade. Ela sentiu um a pequena resistência, um pequeno estalo, e então a m adeira deslizou para dentro. Foi com o apunhalar um a tigela de areia.
A vam pira congelou, sua boca abriu-se de choque e dor, os olhos estavam enorm es e de um verm elho cintilante. E então, de repente, com um pequeno " puf” a m ulher se desintegrou e, reduzida a pó, desapareceu.
Sim ples assim .
Vitória ficou em pé, ofegante, de olhar fixo no local onde estivera a vil criatura.
Ela conseguira.
Havia m atado um vam piro.
Seus j oelhos vacilavam e sua respiração trem ia. Ela olhou para sua estaca para ver se estava suj a de sangue.
Estava lim pa.
— Você ia m e cravar com um a estaca, não ia? — sobreveio um a voz fria.
Vitória ergueu a cabeça e viu que o hom em a encarava com um a expressão pouquíssim o am igável.
— Eu. . — O que é que se diz a um a pessoa que a gente acabou de salvar de ser m ordida por um vam piro?
— Você pensou que eu fosse um vam piro!
Vitória absteve-se de observar que fora um erro perdoável; com seu cabelo preto reluzente e cara afilada ele de fato parecia perigoso e sinistro.
— Não lhe faria m al ser um pouco m ais afável com quem acabou de salvar a sua vida. — ela respondeu tensa.
A risada dele foi sardônica.
— Seria um dia e tanto... o dia em que eu precisasse de um a garota para salvar m inha vida.. De um vam piro, ainda por cim a! — Ele riu m ais alto.
Naquele m om ento Vitória notou que ele segurava algo na m ão.
Seria... um a estaca?
— Quem é você? — perguntou ela.
— Maxim iliano Pesaro, m estre m atador de vam piros.
2
Um com prom isso penetrante é estabelecido
— Foi um a m era precaução, m inha querida — disse Eustácia enquanto repousava suas rangentes articulações e doloridos m úsculos sobre sua cadeira favorita. Favorita m esm o, graças ao assento bem acolchoado e braços fartam ente alm ofadados, e tam bém por causa da m esinha redonda ao lado, onde ela m antinha seus óculos, seu crucifixo e um a polida estaca branca de espinheiro.
Velhos hábitos são difíceis de largar.
Kritanu estava testando Vitória no kalari, o elegantem ente cortinado salão de baile da residência dos Gardella, transform ado em sala de treinam ento. Alguns de seus cachos negros haviam se desprendido assim com o os de Eustácia quando ela própria havia treinado para suas atividades de caça. . Hum , décadas atrás. Vitória usava saias durante essas sessões de treinam ento, j á que, segundo os ditam es da sociedade, essa seria com m ais freqüência sua indum entária. Eustácia sabia que calças com pridas tornavam m uito m ais fácil rodar e chutar, m as isso viria m ais tarde, quando ela com eçasse a aprender a arte m arcial chinesa do qinggong, na qual ela praticam ente deslizaria pelo ar, com o se voasse.
A pele de porcelana de Vitória estava rosa - escuro, sua testa e nuca ensopadas de suor, m as a expressão assassina de seu rosto dizia um m onte.
Eustácia não podia culpá-la por estar indignada. Maxim iliano escolhera a pior form a possível de avisá-la da sua presença; m as ele era assim m esm o.
Tudo era preto ou branco para Max, ao passo que a m aioria das pessoas, incluindo Eustácia, era capaz de detectar diferentes m atizes de cinza.
Reconhecer tons pastel tornava a vida m ais tolerável.
Vitória m ostrara-se m uito prom issora na sua educação e treinam ento, ou kalaripayattu, com Kritanu no m ês anterior ao seu baile de estréia; m as com o nunca enfrentara um vam piro de verdade, Eustácia havia achado por bem ter planos de em ergência na noite anterior, quando sobreviera a prova. Essas precauções acabaram sendo desnecessárias, e talvez tivessem até m esm o confundido as coisas no baile. Mas Eustácia faria tudo de novo se pudesse: o orgulho de um a nova Venadora era um preço baixo a pagar pela segurança de seus convidados.
Kritanu observava com seus olhos agudos e escuros enquanto Vitória se colocava em posição de ataque e partia para a ação, rodopiando, chutando e chicoteando com o pé um a pilha de alm ofadas perto da cadeira de Eustácia. As alm ofadas saíram voando e Vitória parou de rodopiar, com as m ãos nos quadris, bem em frente à cadeira.
—Tia Eustácia, eu quase enfiei um a estaca nele! Em bora ele bem que m erecesse!
— Já passou, Vitória. Você precisa aprender a seguir em frente, a colocar de lado sua raiva e sua frustração se pretende ser um a Venadora adm irável. Concentração e força, pensam ento rápido e coragem : você possui todas essas características, m as precisa refiná-las, aprender a utilizá-las.
Com o Venadora Escolhida, da linhagem dos Gardella, Vitória nascera com as habilidades inatas de luta que precisaria para ser um a form idável caça-vam piro. A agilidade, a força e a rapidez j á eram inerentes a ela; o propósito de Kritanu treiná-la em várias form as de arte m arcial era aperfeiçoar essas habilidades, trazê-las à tona e ensiná-la a usá-las. E o vis bulla que ela estava prestes a receber lhe traria ainda m ais proteção e força.
Vitória esquivou-se e rodopiou para receber o ataque de Kritanu por trás, m urm urando algo com o "É a ele que eu gostaria de refinar", m as claro que Eustácia não perm itiria conversas desse tipo.
Em vez disso, ela se perm itiu o prazer de ver seu am ante e com panheiro im pulsionar-se em ação suave e m ortífera, desviando-se da defesa de Vitória e j ogando-a no chão. Kritanu, um calcutaense m agro e m usculoso com quase setenta anos, era um adversário tem ível, m esm o na sua idade. Ele usava um am uleto diferente dos vis bullae dados aos Venadores, que lhe dava força adicional; m as ainda era rápido e forte m esm o sem aquilo.
Cerca de cinqüenta anos atrás ele fora m andado para treinar Eustácia em kalaripayattu, a arte m arcial indiana favorita dos Venadores que lutavam contra vam piros de forças sobre-hum anas, e o chinês
qinggong. Tornara-se com panheiro dela desde então. O fato de tam bém partilhar a cam a com ela era m antido em segredo, em bora Eustácia sentisse que Max suspeitava da profundidade do relacionam ento deles. O
sobrinho de Kritanu, Briy ani, era assistente de Max havia três anos, e os três hom ens passavam m uito tem po treinando j untos.
Eustácia olhou para Vitória, que se levantava. Tinha o cabelo espalhado pelos om bros, m as trazia determ inação em seu rosto.
— Kritanu, acho que ela j á treinou o suficiente por hoj e. Obrigada.
Ele curvou-se levem ente, os olhos negros gentis e cálidos.
— Com sua licença, então.
Eustácia virou-se para a sobrinha.
— Ponha seu orgulho de lado por um m om ento, Vitória querida.
Max estava ali com o um apoio a você e um a segurança caso algum a coisa desse errado. Você se saiu m uito bem , m esm o depois que ele se revelou a você. Você será um a ótim a Venadora, caríssima — disse ela. — E j untas conseguirem os dar um fim em Lilith, a Escura.
A m enção da grande inim iga de Eustácia tirou a tensão dos olhos de Vitória e sua irritação pareceu evaporar.
— A senhora prom eteu m e falar m ais de Lilith, a Escura, depois que eu executasse m eu prim eiro vam piro. E sobre m eu vis bulla.
— Sem dúvida; e vam os com eçar isso assim que você tiver a chance de se recom por. Por que você não.. ah, ele j á está aqui. Agora, Vitória... —
disse Eustácia com um olhar de alerta enquanto Maxim iliano entrava no quarto com ar de im paciência. Ela não o esperava tão cedo; e certam ente não ia querer que ele chegasse enquanto Vitória estivesse com aspecto tão desleixado. Ela teria que falar com Charley, o cozinheiro e antigo m ordom o quando Kritanu tinha outros com prom issos, sobre isso novam ente. Mas receava que seria um a batalha perdida, pois Charley não concebia negar qualquer coisa a Maxim iliano; inclusive a liberdade de entrar em qualquer parte da casa sem ser anunciado.
— Signora — disse ele, apertando gentilm ente sua m ão, levando-a ao rosto e colocando-a de volta em seu colo. A doçura do idiom a de sua terra natal ainda tem perava suas palavras e o som era adorável para Eustácia. Ela tinha saudades de Veneza. — Peço desculpas por m inha m aldita pontualidade. — Virou- se para Vitória e Eustácia observou, fascinada, com o suas feições aristocráticas se congelavam num sorriso debochado. — E Srta. Grantworth, nossa protegida. Boa noite.
Aparentem ente eu interrom pi algum treinam ento.
— Boa noite — respondeu Vitória, dura. Não se deu o trabalho de estender a m ão, e Max não pareceu notar ou ligar. — Com o devem os nos dirigir ao... Mestre m atador de vam piros? Milorde? Sua Graça? Vossa Maj estade estaca?
Eustácia interveio antes que ele pudesse responder:
— Max, por favor, sente-se. Vitória estava prestes a trocar de roupa.
Vitória vá em frente. Daqui a pouco Charley virá com o chá, ou brandy, se você preferir.
— Brandy? Por m ais que quisesse , a signora sabe que não bebo quando estou indo para um a caçada.
Eustácia esperou Vitória sair e perguntou:
— Algum a notícia?
Ele cruzou suas longas pernas e recostou-se no assento que escolheu no sofá próxim o à cadeira favorita dela.
— Lilith está aqui, atrás de algo cham ado Livro de Anwarth. Ela aparentem ente o localizou em algum lugar na Inglaterra. Londres, para ser m ais exato. Ela se m udou com seu séquito inteiro para cá.
Livro de Anwarth — repetiu Eustácia. Um arrepio percorreu a base de sua espinha curvada. — Eu sabia que havia um a razão para ela trazer todo seu cortej o até aqui. Só isso j á m e assusta, Max. Que ela se desloque e deixe a segurança de seu refúgio nas m ontanhas. . Nunca ouvi falar desse livro, m as m andarei cham ar Way ren. Se Lilith está atrás dele, não pode ser bom para nós. Ela m andará Guardiões para isso, tenho certeza. Talvez até os Im periais.