O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 3 de 4 · parte 3/3

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O Legado da Caça-Vampiro

— Sua tia e seu prim o…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Suas m ãos estavam úm idas, seu coração batendo m ais rápido do que o norm al. Ela nunca havia lutado com um Im perial. E nem enfrentado três Guardiões sozinha.

 

— Venadora! Mostre-se!

 

Ela não era nenhum a covarde, m as sabia que as probabilidades eram todas contra si.

 

Um a das j anelas foi quebrada, espirrando vidro sobre o casaco de lã preto de Sebastian estirado sobre o assento. Ele bufou, indignado, e o pegou, j ogando os cacos de vidro no chão. Ainda assim , não disse nada a Vitória.

 

O rosto lascivo de um vam piro assom ou na j anela arrebentada, e ele enfiou a m ão para dentro, tentando achar o trinco. Vitória reagiu, enfiando a estaca e m ilagrosam ente acertando- o no peito. Puff, um Guardião j á era.

 

Mas ela não podia ficar lá dentro para sem pre. Eles não iriam em bora e Sebastian não parecia estar oferecendo aj uda algum a.

 

Vitória se inclinou para fora da j anela quebrada e disse:

 

— Quem cham ou por um a Venadora?

 

— Eu cham ei. — O vam piro Im perial aproxim ou-se da carruagem .

 

Era um a m ulher de cabelo ensebado e seus olhos tinham a cor verm elho-violeta de seu status. Ela em punhava um a espada com o as que Max enfrentara e usava calças bem j ustas, que perm itiam m ais liberdade de m ovim ento do que as que Vitória usava.

 

— O que você quer?

 

— Vim para levá-la à m inha senhora. Ela desej a conhecer a m ais nova Venadora.

 

Vitória retrocedeu quando um dos Guardiões arrem eteu contra a carruagem , na vã tentativa de agarrá-la e puxá-la para fora.

 

— Por favor, diga a Lilith que lam ento, m as só recebo visitas às terças e quartas, das duas às três e m eia da tarde. Infelizm ente, não servim os a bebida favorita dela.

 

Ela estendeu o braço para fora e agarrou o vam piro que acabara de atacá-la. Fechou os dedos sobre o paletó dele, tentando puxá-lo para dentro do coche. Se ela pudesse apenas. . pegar. . todos. . um por um .

 

Ele se soltou da m ão dela e caiu no chão, m as de repente, o que parecia ser um a batalha em patada teve um a reviravolta para o pior. Os três vam piros que sobravam avançaram para a carruagem com o se voassem e se chocaram contra ela com toda a sua força.

 

Um dos lados da carruagem subiu e ficou no ar por um m om ento, e então caiu sobre o seu outro lado.

 

Vitória e Sebastian aterrissaram um em cim a do outro sobre as j anelas opostas, e no furor, um braço m agro e pálido entrou pelo que agora era o topo da carruagem e fora apenas um a j anela quebrada, procurando a m açaneta desaj eitadam ente.

 

Vitória ficou em pé, escalando os assentos verticais. Ignorou a dor em sua cabeça e pisou em Sebastian, que perm anecia estendido no chão.

 

A porta se abriu antes que Vitória pudesse evitar, m as ela estava preparada com sua estaca e a enfiou no peito que vinha pela entrada. Com um grunhido de triunfo, ela enterrou a estaca no corpo, e o sangue j orrou.

 

Então ela percebeu, quando o corpo foi j ogado longe, que um dos vam piros tinha usado o m otorista de Sebastian com o um escudo hum ano.

 

Mas esse foi seu últim o pensam ento, porque subitam ente tudo ficou escuro e se fechou quando algo pesado foi j ogado sobre ela. Vitória se debatia, m as o que quer que a estivesse prendendo com aquele tecido pesado sobre ela, era forte e im óvel.

 

Ela não conseguia respirar, não conseguia encher seus pulm ões de oxigênio que não estivesse carregado de fiapos, poeira, ranço, ou apertado.. m uito apertado... ela lutou contra aquele aperto e tentou respirar... e finalm ente perdeu a batalha.

 

O negrum e virou realidade.

 

19

O m arquês intervém

 

Algum a coisa a puxou, abafando-a até a sem iconsciência. Era m uito dificil... ela não conseguia abrir os olhos.

 

— Vitória!

 

Lá estava de novo. Aquela voz sibilante, incom odando-a.

 

Então, de repente, ela acordou. Lem brou-se dos Guardiões e da Im perial. Sebastian e seu coche.

 

Mas m esm o com os olhos abertos, ela não via nada. Negrum e. A voz estava m ais próxim a, m as ela não sabia quem era. . estava baixa dem ais.

 

Ela fez sua boca se m exer:

 

—Aqui.

 

Algo a estava cobrindo, enrolado nela de form a que não podia se m over e m al podia respirar. Não surpreende que não quisera acordar... era difícil dem ais tentar respirar por baixo deste tecido pesado. Mas ela precisava.

 

Movim entos furtivos diziam -lhe que alguém estava vindo em sua direção. E então m ãos se m overam , puxando os nós, desam arrando laços, e, por fim , arrancando o pesado tecido de lã de seu rosto.

 

Vitória nunca sentira algo tão m aravilhoso quanto aquelas respiradas profundas e lim pas de ar. . em bora viessem carregadas de fedor de peixe podre. Mas ela não estava reclam ando.

— Max! Com o é que você chegou aqui? — perguntou ela, erguendo-se e procurando as estacas. Pareciam estar em um arm azém , e a j ulgar pelo barulho sossegado de ondas em baixo, para não m encionar os odores, era perto das docas.

 

— Eles voltarão atrás de você a qualquer m om ento, vam os! — disse ele, agarrando o braço dela. — O sol vai nascer em m enos de um a hora, portanto eles se apressarão.

 

Ele a conduziu para fora do aposento e ela o seguiu, soltando-se de sua m ão e tentando descobrir com o ele a encontrara. Ela não devia ter ficado inconsciente por m uito tem po se o sol ainda não tinha nascido.

 

Um a vez lá fora, Vitória respirou ainda m ais fundo o ar im pregnado com o arom a de algas m arinhas e sal. Muito m elhor!

 

Um cabriolé aguardava na esquina do arm azém , e Vitória reconheceu que era o de Barth. Ela olhou para Max, m as ele j á estava respondendo:

 

— Quando você não apareceu no lugar com binado, Barth m e procurou. O resto eu soube por Sebastian. Entre.

 

Ele entrou depois dela e o cabriolé arrancou com um a entusiástica guinada: Barth estava tão pronto para encerrar as atividades daquela noite quanto Vitória.

 

— Eles estavam m e levando para ver Lilith — disse Vitória. — Por que m e deixaram lá? Por que não m e levaram diretam ente a ela?

 

— Só posso im aginar, Vitória, j á que não estava lá e não tenho, infelizm ente, acesso aos planos deles.., m as suponho que tenha sido porque eles não estavam certos do paradeiro dela ou se ela estaria disponível para... hã. . receber você.

 

Ela se recostou em seu assento, grata por não ter sido colocada cara a cara com a Rainha dos Vam piros estando inconsciente e em brulhada num pesado tecido negro. Ela se encontraria com Lilith algum dia, m as Vitória realm ente esperava que isso ocorresse nos seus term os e não nos de Lilith.

 

* * *

 

A últim a coisa que Vitória queria era com parecer à com em oração dos cinquenta anos do duque de Mullington. Mas ela não tinha escolha.

 

Sua m ãe estava com m uita disposição, pois se dera conta de que se passara, de fato, um a sem ana desde que o m arquês de Rockley visitara sua noiva. Vitória vinha evitando o assunto e se escondendo em seu quarto, tentando descobrir exatam ente o que dizer a ela, m as aquilo tinha apenas j ogado m ais com bustível no fogo da preocupação de sua m ãe. Por nada neste m undo Melly perm itiria que o noivado fosse desfeito. Rockley era um partido bom dem ais para deixar escapar. Ele pedira a m ão de Vitória, e sua m ãe agora faria tudo para que ele a levasse.

 

Portanto, em um a pegaj osa noite de j unho, lady Melly conduziu a filha até a carruagem dos Grantworth e olhou com im paciência o cavalariço aj udá-la a subir. Ela entrou em seguida e se acom odou no assento da frente.

 

— Sua criada fez um ótim o trabalho preparando seu cabelo para esta noite, Vitória — com entou ela. — Em bora ela pareça um tanto obcecada com essas varetas no seu penteado. Por que ela não usa plum as ou contas em vez desses obj etos chineses?

 

— Os daquela noite eram pintados com desenhos em espiral, rosa e verde, criação da própria Verbena, da qual a em pregada m uito se orgulhava.

 

— Ela gosta de experim entar estilos diferentes — replicou Vitória, esperando evitar um longo serm ão. - Eu acho que ele está bastante original.

 

Felizm ente, Melly pareceu aceitar o com entário, e voltou sua atenção a m exer no próprio vestido, no leque e na nécessaire, puxando de suas profundezas o grosso convite branco e o lendo m ais um a vez, m urm urando para si m esm a que era um feito extraordinário o duque Mullington ter chegado aos cinquenta anos, com todos os seus pecados e vícios.

 

Sua filha absteve-se de m encionar que os pecados dele, por m aiores que fossem , não eram nada com parados aos de outros da alta sociedade de Londres.

 

O vestido de Vitória era de seda verde, um pouco pesado para um a noite tão quente, m as m oda era m oda. Seda tinha aparência de ser cara, e, segundo lady Melly, a noiva de Rockley tinha de estar vestida apropriadam ente. Pois ela era, ainda, a noiva do m arquês, e Melly se certificaria de que ela parecesse um a. Pequenos botões de rosa, brancos e rosados, adornados com folhas verde-escuro, floresciam no laço que lhe contornava o corpete, nas m angas e nas pregas enfeitadas na parte de baixo de sua saia. Agora, no coche, Vitória segurava um xale rosa de crochê, dobrado em seu colo, e um a nécessaire rosa que com binava. Suas luvas eram verde-escuras.

 

Vitória sabia que estava bonita; se pelo m enos sentisse isso. Nada podia fazer além de escutar sua m ãe tagarelando sobre com o deveria agir se visse Filipe -não, ela precisava pensar nele com o Rockley de novo —

 

no baile; com o deveria ser recatada, educada e um pouco m isteriosa para recapturar sua atenção, se ela estivesse m esm o dim inuindo.

 

Claro que lady Melly não com preendera o que Vitória vinha tentando lhe explicar: o interesse dele não tinha dim inuído, e sim evaporado. Puff!

 

A viagem até a residência dos Mullington pareceu ao m esm o tem po interm inável e m uito curta. Vitória estava exausta pela sem ana de correrias noturnas, e os acontecim entos daquela m adrugada no coche de Sebastian e nas m ãos dos Im periais e dos Guardiões a haviam deixado um tanto desligada.

 

De fato, em bora ela tivesse pavor do que aconteceria quando ficasse cara a cara com Rockley, estava tam bém aliviada por ser j ogada naquilo que prom etia ser um a noite de norm alidade. Onde ela poderia com er e beber, dançar e flertar, fofocar e conversar com gente que não tinha olhos verm elhos e presas com pridas.

E nem feições douradas angelicais e beij os m uito indecentes.

 

Verbena a havia enfeitado com estacas, é claro, e havia a chance de algum vam piro ou vam pira aparecer no baile.. m as não era provável, porque Muiligan House fora anteriorm ente um a abadia e ostentava relíquias e sím bolos religiosos por toda parte, inclusive no portão de entrada. Isso, j untam ente ao que Sebastian lhe dissera sobre os vam piros se am ontoando no Cálice devido à caçada agressiva de Vitória, assegurou-a de que seria um a noite sem incidentes. Mas em todo caso estava preparada.

 

Sebastian. Vitória sentia-se alternadam ente doente, confusa e desconfortavelm ente quente quando pensava nele, e no que ocorrera. Ele tinha beij ado seu seio! E ela tinha deixado. . aliás, tinha gostado. Gostado m uito, m uito m esm o.

 

Só de lem brar, um j ato de calor a fez lem brar quão perigoso, quente e excitante fora ter aqueles lábios úm idos se esfregando em sua pele íntim a; com o ela lutara, m esm o enquanto acontecia, com o certo e o errado daquilo; e quão pouco dificil fora corresponder ao beij o dele.

 

Teria ele realm ente a entregado nas m ãos daqueles vam piros?

 

Ela não podia acreditar que ele faria aquilo.., porém , tudo acontecera tão rapidam ente. E a coisa que m ais a incom odava, ou, as coisas, m elhor dizendo, eram , prim eiro, que ele não negou. E segundo, que ele pareceu saber que eles haviam chegado pouco antes da carruagem parar; no instante em que Vitória sentiu o frio revelador na nuca e sentiu que eles estavam em perigo.

 

— Vitória, desça das nuvens! Já chegam os e você ainda não arrum ou seu xale!

 

Ah, sim , o xale. Ela tinha que arrum ar o seu xale.

 

Vitória endireitou-se com o pôde na carruagem , erguendo a cabeça de form a que seu cabelo quase varreu o teto. Colocou o xale ao redor dos om bros e deixou-o deslizar até os cotovelos. A carruagem cam baleou ao entrar na fila dos veículos que esperavam para descarregar os convidados, fazendo Vitória inclinar-se para o lado. Ela reaj ustou seu xale e aguardou, com os pés esparram ados de form a pouco elegante para obter estabilidade.

 

— Sente-se, Vitória! — disse sua m ãe com im paciência.

 

— Vou ficar em pé. Já estam os quase no início da fila. — Ela de repente ficou agitada dem ais para se sentar e esperar passivam ente. Seu estôm ago deu um nó. Ela sabia que Rockley estaria lá naquela noite. Ele podia ter evitado suas outras obrigações sociais na últim a sem ana, m as estaria lá com certeza, Os Mullington eram seus prim os distantes.

 

Por fim ela saiu da carruagem tépida para o ar livre e úm ido. O sol quase se pusera, irradiando do horizonte um fulgor rosado, m as o azul-cinza da noite j á havia colorido os telhados e paredes de pedra à distância.

 

Candeeiros e lâm padas em itiam calorosos brilhos am arelos pelo corredor de tij olos que levava à entrada da casa, aberta aos convidados.

 

Ao serem anunciadas, Vitória passou os olhos pela aglom eração de convidados ao pé da escada do vestíbulo. Não viu Filipe, graças a Deus.

 

Talvez ainda não tivesse chegado. Ou não viesse.

 

Gwendoly n Starcasset estava lá, e cum prim entou Vitória com o se fossem am igas de longa data. Talvez fossem ; Vitória não pensara a respeito recentem ente, m as ela e Gwendoly n haviam entretido conversas agradáveis em eventos passados.

 

— Com o é bom vê-la, Vitória! — disse a pequena loira. — Tenho sentido falta de escolher com você entre os solteiros m ais vantaj osos. Mas agora que você conseguiu fisgar o m elhor partido de todos, não precisa m ais se preocupar com isso!

 

— Verdade. — Foram três sílabas dificeis de pronunciar, m as Vitória conseguiu. Por que Filipe não postara o anúncio no Tim es? Por que causar a ela essa agonia de esperar até o sapato cair? Assim que caísse, ela cairia no ostracism o. E então poderia parar de fazer essas aparições em bailes, saraus e se concentrar em caçar vam piros.

 

Afinal de contas, aquele era o seu destino. Por isso havia aberto m ão de Filipe.

 

— Meu irm ão George ficou sum am ente desapontado quando soube que Rockley tinha pedido a sua m ão. Ele ficou m uito encantado com você no baile dos Steerings.

 

— E quais são as suas perspectivas? — perguntou Vitória, evitando olhar na direção da entrada principal. Ela não queria ver Rockley de m odo algum . Ele certam ente iria ignorá-la, e ela ficaria m ortificada. Para não m encionar lady Melly.

 

Ó Deus, por que ela não se em penhara em fazer sua m ãe entender o que havia acontecido?

 

Gwendoly n falava sem parar sobre os três hom ens disponíveis que tinham dem onstrado interesse nela, até que um deles a cham ou para dançar. Vitória teria tentado sair de fininho para o côm odo que estava sendo usado com o salão das dam as, m as não teve chance. Sir Everett Cam pington se aproxim ou e, fazendo um a elegante m esura, pediu a ela que se j untasse a ele na quadrilha.

 

Contente por ter algo que fazer além de olhar para a entrada principal, Vitória aceitou e de fato se viu desfrutando o anim ado m ovim ento da quadrilha. Ela e sir Everett davam passos j untos, depois separados, e então m archavam entre um a fila de outros casais. Vitória girou, rodopiou, fez a reverência, deu a volta, e percebeu, após um instante, que estava sorrindo.

 

Houve apenas um m om ento na dança em que ela perdeu a noção: foi quando ela e sir Everett fizeram um giro entusiasm ado, com os cotovelos enlaçados. Vitória esqueceu que era m uito m ais forte que ele e j ogou seu parceiro de dança longe com a potência do seu m ovim ento.

Ele voltou e eles se deram os braços novam ente, desta vez lado a lado, e ela olhou para cim a e riu de puro prazer; então executaram um a volta que a deixou de frente para o grupo de pessoas na beira da pista. E

 

ela passou rodopiando por Filipe.

 

Vitória nem tropeçou. Não soube ao certo com o conseguira, porém ficou m ais agradecida que nunca. Quando a dança term inou, sir Everett perguntou-lhe:

 

— Vam os encontrar o Rockley ? Tenho certeza de que ele vai querer a próxim a dança.

 

— Hum , na verdade eu queria algo para beber — replicou Vitória de m odo casual, olhando firm em ente para a direção contrária àquela em que vira Filipe. — Não sei ao certo nem se Rockley j á chegou.

 

Sir Everett inclinou a cabeça em aquiescência, e se sabia que ela m entia, era cavalheiro dem ais para corrigi-la.

 

— É claro, srta. Grantworth. Vam os buscar o ponche.

 

Vitória deu um j eito de se m anter bem ocupada nos trinta m inutos seguintes. Ela dançou com três outros cavalheiros, incluindo o irm ão de Gwendoly n, tão bonito e loiro quanto sua irm ã. Bebeu pelo m enos seis taças de ponche, felizm ente, pois com todo o esforço de dança num a noite tão quente, ela estava sedenta. E por causa dessas seis taças de ponche, ela foi obrigada a visitar o toalete duas vezes.

 

Mas chegou a hora em que não pôde m ais evitar ―o confrontoǁ.

 

No m om ento em que ela se virava para entrar na pista de dança com lorde Waverley, um a voz calm a a deteve.

 

— Waverley, acredito que esta dança sej a m inha.

Ela se virou, sua garganta subitam ente chiando quando tentou engolir.

 

— Rockley. — Ela tentou soar feliz, m as falhou m iseravelm ente.

 

Deus, ele estava.. bonito, derrotado, irritado, cansado.., fam iliar.

 

Confortável. Suas pálpebras podiam estar um pouco m ais pesadas, o azul nos olhos um pouco m ais frio, a boca um pouco m ais fina. Mas ainda era Filipe. E estava com o braço estendido para ela segurar.

 

Ela segurou com sua m ão enluvada de verde. Afastaram -se de Waverley sem m ais um a palavra, a ele ou entre eles.

 

Era um a valsa. Claro.

 

Ele a girou talvez m uito rapidam ente, m uito abruptam ente, para a posição de valsa, no centro do salão, com o se quisesse ter certeza de que todos os veriam . E com eçaram a dançar.

 

Vitória m anteve sua atenção concentrada no om bro dele; tinha m edo de olhá-lo nos olhos. A ironia da situação não deixou de diverti-la, em algum lugar lá no fundo de si m esm a, onde ela não conseguia rir: ela não tinha qualquer receio de encarar dois, três, até seis vam piros m ortíferos.., m as não tinha coragem de olhar nos olhos do hom em que ela am ava.

 

Depois de duas rodadas com pletas na pista de dança, ele disse:

 

— Seria bom você olhar para m im , Vitória. Talvez até sorrir um pouco. As pessoas vão com eçar a falar.

 

Ela concordou, erguendo o olhar para ele, m as não conseguiu sorrir.

 

— Você está m uito bonita esta noite — disse ele, m antendo o olhar m esm o enquanto realizava um a m anobra perfeita em torno de um casal que estava em descom passo com o ritm o da m úsica. —Não surpreende que não lhe tenham faltado parceiros de dança.

 

Um dois três; um dois três... Nada havia entre eles exceto a contagem dos passos e a sensação de assuntos inacabados.

 

— Pensei que você m e ignoraria. Por que m e convidou para dançar?

 

Ele ergueu as sobrancelhas e as pálpebras.

 

— Aos olhos da sociedade você ainda é m inha noiva, Vitória. Eu não deixaria você valsar com outro.

 

— Então por que não colocam os um fim no que a sociedade pensa, Filipe? Não há sentido em prolongar isso. Você ficará livre para cortej ar quem quiser e eu estarei livre para fazer o que quiser.

 

A pergunta sem resposta ficou suspensa entre eles até a dança term inar. Filipe soltou-lhe a m ão e m oveu o braço que tinha estado ao redor de sua cintura para que ela segurasse o cotovelo dele de novo, depois a conduziu para fora do salão.

 

— Que tal um pouco de ar fresco? Você parece um pouco corada.

 

Ela estava corada e que horror! — transpirando por toda aquela atividade.

 

— Sim , seria ótim o. — Ela tirou seu leque, abriu-o e com eçou a abaná-lo, na esperança de secar a leve um idade do seu busto.

 

Eles pararam perto da beira da pista de dança para pegar dois pequenos copos de chá gelado, ou o que fora chá gelado antes que o calor o transform asse em chá m orno. Bebericando bebida adocicada, Vitória perm itiu que Filipe a acom panhasse através das entradas sem portas de onde pendiam clem atites para m anter as m oscas fora e deixar entrar o ar fresco. Ele afastou os filam entos folhosos e floridos, e ela saiu para o ar livre.

 

Em vez de parar no terraço onde rosas e gardênias em vasos agregavam arom a e cor à noite, Filipe a conduziu além do terraço de tij olos para um dos quatro cam inhos em que ele se dividia.

 

Quando os passos vigorosos dele dim inuíram e ele perm aneceu silencioso, Vitória não conseguiu m ais se conter:

 

—Por que você não postou o anúncio no Tim es?

 

— Eu tenho m e perguntado a m esm a coisa sobre você.

 

— Obrigada. É m uito gentil da sua parte m e poupar dessa vergonha. Mas não m e im porto.

 

Eles haviam se distanciado bastante da festa, e Vitória estava prestes a falar de novo, quando eles fizeram um a curva pelo cam inho de cascalho e chegaram a um a árvore. Havia um banco de pedra sob a arcada e m ais clem atites e rosas a rodeá-lo.

 

Vitória pensou que Filipe, ao soltar-lhe o braço, queria que ela se sentasse, m as quando ela se inclinou para o banco, ele a puxou de volta.

 

Para os braços dele.

 

Ele a beij ou... ah, ele a beij ou. Ela reconheceu a m esm a em oção que sentira vendo-o novam ente: fam iliaridade, conforto, e algo novo.., necessidade. Isso lhe disse tudo que ela precisava saber.

 

Depois de um longo intervalo, no qual os dedos dela desenredaram os cabelos agrupados na nuca dele, e o ventre dele com prim iu o dela, Filipe deu um passo atrás e fitou-a.

 

— Senti sua falta. Eu pretendia ficar afastado e deixar você fazer o que quisesse hoj e à noite, j á que não tem os m ais com prom isso algum , m as no fim , não consegui. E não foi por causa do que a sociedade pensa. Foi por causa do que eu queria.

Vitória piscou rapidam ente.

 

— Tam bém senti sua falta, Filipe. Eu procurava nos j ornais todos os dias, certa de que o anúncio ia aparecer. E nunca apareceu.

 

— Pensei que você é que ia anunciar.

 

— Mas não anunciei. Filipe, você disse.. — Ela se afastou e ele rem oveu as m ãos da base das costas dela. — Nada m udou. Não posso lhe dizer o que você desej a saber.

 

— Tenho pensado. Tenho pensado m uito, no m eu clube, cavalgando no parque ao am anhecer, no m eu estúdio. — Sorriu um sorriso torto. —

 

Em todos os lugares onde eu tinha certeza de que não cruzaria com você.

 

Ela sorriu de volta. Vinha fazendo a m esm a coisa. , em todos os lugares onde sabia que não cruzaria com ele, com o as ruas de St. Giles depois da m eia-noite. Os intestinos de Londres.

 

— Você m encionou o destino, O seu destino. Disse que ele era indelével, im utável. Mas Vitória, eu não acredito que o destino sej a um a coisa fixa. Algum as escolhas o acom panham .

 

— Por exem plo, eu estava destinado a am ar você; sei que é verdade, pois nunca esqueci você desde aquele verão. Eu nem sequer pensei em procurar um a esposa até esta tem porada... e você ficou enlutada durante dois anos depois do m om ento em que deveria ter se apresentado à sociedade. Com o se estivesse esperando por m im , e pela hora certa. Ou com o se eu estivesse esperando você ficar. . pronta.

 

— Meu destino é am ar você. Mas eu tenho um a escolha sobre com o posso realizar este destino. Posso am á-la e ficar com você, ou posso am á-la de longe. Depois de hoj e, ficou claro para m im que não posso am ar você de longe. Que preciso am ar você comigo.

 

Ele tom ou as m ãos dela, levantou-as, com luvas e tudo, para beij á-

 

las, olhando-a por cim a delas enquanto o fazia.

 

— Filipe..

 

Ele levou-lhe as m ãos contra os lábios dela.

 

— Vitória. Qualquer que sej a o seu destino, você tem um a escolha.

 

Você pode decidir com o lidar com ele, abraçá-lo ou com batê-lo; com partilhá-lo ou escondê-lo.

 

— Filipe, eu j uro a você. , j uro que essa coisa entre nós não é algo que eu possa m udar e sobre a qual eu possa lhe falar. Mas. . — Foi a sua vez de pressionar os dedos enluvados sobre a boca dele para im pedi-lo de responder. — Mas se você ainda m e quiser, posso prom eter que farei a escolha de equilibrar aquela parte de m inha vida com a vida que construirem os j untos. Essa é a parte do m eu legado que posso controlar.

 

Fechando seus dedos em torno do pulso dela, ele afastou a m ão enluvada de sua boca.

 

— Então, j á que não há e nunca haverá qualquer outra para m im a não ser você, Vitória, terem os que deixar nossos destinos viverem j untos.

 

E a beij ou.

 

20

 

Maxim iliano é obrigado a servir

— Recebi isto hoj e. — Max j ogou um grosso envelope cor m arfim sobre a m esa de chá de Eustácia. Ele escorregou na beira do carvalho altam ente polido e derrubou a estaca dela. — Não posso acreditar que ela levará adiante esta loucura!

 

Eustácia sabia o que era; ela recebera seu convite para o casam ento de Vitória um a sem ana antes. Ela trocou olhares com Kritanu, que estava trabalhando no acabam ento das peças de m adeira de um a nova arm a que ele havia criado.

 

— Não sabia que você estava na lista de convidados.

 

Ele bufou.

 

— Ela m e pediu para com parecer a fim de assegurar que, com o ela diz, ―nada inadequado ocorraǁ. Ela quer que eu vigie os vam piros enquanto ela se casa!

 

Eustácia cam uflou sua risada com um a tossida.

 

— Bem , ela certam ente não vai poder fazer isso sozinha, não é? E eu não estou em posição de aj udar, com m inha artrite. De qualquer form a, o resto da fam ília pensa que eu sou louca. Eles m e m andariam para o hospício de Bedlam se m e vissem espreitando por aí com um a estaca! Max, Max. . Tenho m inhas reservas em relação à escolha dela, m as não posso ficar em seu cam inho. Ela m erece a chance de tentar se é tão im portante para ela.

 

Max dirigiu-se ao aparador e serviu-se de um copo de uísque.

 

— É ridículo! Você poderia proibi-la, Eustácia.

 

— E enfrentar a ira de m inha sobrinha Melly ? Prefiro enfrentar Lilith em pessoa! — A piada foi fraca, e ela sabia disso. Mas Kritanu, abençoado sej a, deu um a risadinha e voltou ao que estava fazendo, não antes que ela visse a solidariedade em seus olhos da cor do azeviche.

 

Tinha sido tão m ais sim ples quando eram apenas os dois. Lutando, estudando, am ando.

 

— Max, por favor! Ela conseguiu nos aj udar a localizar e roubar o Livro de Antwartha; ela vem caçando e executando vam piros regularm ente, m esm o enquanto m antém seus deveres sociais. E tem sido de grande aj uda para nós ter acesso a alguns desses eventos, onde ela pode se locom over livrem ente, encontrar e m atar quaisquer vam piros que tenham conseguido penetrar nessa cam ada da sociedade. Fazer isso não é um a coisa tão fácil para m im ou para você, que som os da Itália, e é algo que vínham os precisando há m uito tem po. Com o m arquesa de Rockley ela terá ainda m ais acesso a esses locais. E talvez até tenha a chance de fazer isso na Corte.

 

— Sim , e quando ela for m arquesa de Rockley terá um m arido que vai querer segui-la quando ela sair em sua patrulha, com o ele fez há duas sem anas. Ou que sim plesm ente não perm itirá que ela vá, e com o é seu m arido, poderá m antê-la em casa nas noites que talvez precisem os dela.

 

Ou exigir sua presença em m ais e m ais desses bailes ridículos, ou noites no clube Alm ack, ou fins de sem ana em Bath.. Nós estam os em um negócio de vida e m orte aqui, e m e preocupa o fato de que ela estará m enos disponível para aj udar quando precisarm os dela. — Com o sem pre, quando ele ficava nervoso com algum a coisa, seu inglês ficava m ais carregado com o sotaque da terra natal de am bos.

 

— Você nunca foi do tipo que gosta de trabalhar com alguém , Max, então por que está tão preocupado com isso agora?

 

— Lilith se fortalece m ais a cada m ês e nós precisam os trabalhar j untos. Todos nós. E o que acontecerá, Eustácia, quando Vitória gerar um herdeiro para o m arquês de Rockley ? Ela não poderá sair caçando vam piros naquela condição!

 

Porca l’oca! Max estava certo. Eustácia tam bém se preocupava com essa questão, m as vinha tentando bancar a advogada do diabo com ele porque não queria que o antagonism o entre ele e Vitória aum entasse.

Contudo, ela não podia discordar com aqueles argum entos dele, e, de fato, passara algum as noites insones preocupando-se com eles.

 

Sob todos os aspectos, aquilo não podia dar certo. Ela não podia acreditar que daria, nunca dera, que ela soubesse. Entretanto, Eustácia tinha aprendido a não viver de certezas. Só porque nunca tinha acontecido não significava que não poderia acontecer.

 

Hora de m udar o assunto.

 

— E o m arquês? Presum o que ele tenha se recuperado de sua experiência no Cálice de Prata e não estej a percorrendo Londres, tentando caçar vam piros.

 

Max fez um a careta, presum ivelm ente em reação ao grande gole de uísque que entornou.

 

— Ele m e visitou no dia seguinte ao incidente. Não lhe contei isso?

 

— Não, não contou.

 

— Ele queria saber por que eu coloquei salvi em sua bebida. Ele estava um tanto.. agitado. Quase saím os no braço os dois. Ele parecia estar sob a im pressão de que eu tinha levado Vitória para o Cálice de Prata, e que eu é que a influenciei a fazer isso. Ele estava tagarelando sobre destino. . e pelo que pude com preender, ele tinha acabado de vir da casa dela. Ele m e deixou com a im pressão de que iam cancelar o casam ento. Por isso fiquei tão surpreso ao receber aquilo.

 

Eustácia não conseguia pensar em nada para dizer. Ela m eram ente arqueou as sobrancelhas, esperando que ele continuasse. Quando ele não continuou, e em vez disso sentou-se olhando feio para o ofensivo convite, ela o instigou:

 

— O que você disse a ele? Sobre o salvi?

 

— Disse-lhe a verdade, que foi para sua proteção. Que ele tinha entrado em um ninho de víboras que j am ais poderia com preender, e que a única form a de tirá-lo de lá com segurança era drogando-o. Infelizm ente, não funcionou com o eu planej ei.

 

E o fato de ele ter sido feito de bobo por um não-Venador era provavelm ente a m aior razão para aquilo estar entalado em sua garganta.

 

— Se ele a seguir novam ente, pode com prom eter seriam ente o nosso trabalho.

 

Verdade. Grande verdade.

 

— Vitória terá que encontrar um a m aneira de lidar com isso, Max.

 

Acredito que ela será capaz de fazê-lo.

 

Ela rezava para que Vitória fosse capaz de fazê-lo.

 

* * *

 

— Tinha que chover j usto hoj e! — resm ungou Melly a Winnie enquanto observava sua linda filha trocar votos com o m aior partido de Londres. — Um a quinzena ensolarada, e hoj e o céu tinha que ficar nublado! — Apesar de sua irritação, ela deu um a olhada satisfeita por cim a do om bro, feliz da vida com as expressões em algum as das outras m ães que não tinham obtido tanto sucesso em seus esforços casam enteiros. Esse dia era realm ente um triunfo!

 

De fato, um a chuva suave de verão estava caindo neste, que era o dia do casam ento do m arquês de Rockley. O céu estava encoberto por nuvens cinza-pérola, e a chuva constante trazia ao ar um cheiro de turfa e flores de verão, Os num erosos convidados estavam agrupados fora da capela debaixo de tendas erigidas às pressas, e vários pares de óculos se em baçavam ou se orvalhavam . O lornhão de Melly estava um edecido, m as por lágrim as de alegria.., não pela chuva.

— A garoa não os está incom odando — sussurrou Winnie de volta.

 

— Nunca tinha visto Vitória tão linda, tão feliz. — Ela esfregava os olhos, e então fungava com o um touro no seu lenço de renda.

 

Em St. Heath’s Row, Melly havia aj udado sua filha a vestir um a anágua de seda cor de lim ão, com um a saia branca de gaze rendada por cim a. A renda era bordada com pérolas e laços de cetim , conferindo ao todo um suave brilho reluzente. Madam e LeClaire havia se superado!

 

A criada de Vitória prendera apenas os cachos superiores no topo da cabeça, deixando o resto do cabelo solto, em form a de cascata pelas costas e sobre os om bros. Melly tinha proibido a utilização daquelas varetas ridículas em seu penteado de noiva, portanto m ais pérolas e tam bém diam antes brancos haviam sido entrelaçados nas tranças de seu coque. E

 

m ais algum as cercavam o topo de sua m assa de cachos, segurando-os com o se fosse um a coroa.

 

Mom entos após o térm ino da últim a pancada de chuva, Vitória percorrera a nave da pequena capela de pedra de St. Heath’s Row, carregando um buquê de lírios do vale e rosas am arelas. Hera inglesa, am arrada nos caules, fazia um a trilha a seus pés.

 

O m arquês estava resplandecente em seu paletó cinza e culotes pretos. As botas brilhavam com o azeviche e seu colete era cor de vinho com estam pas pretas e cinzentas. Seu lenço, de m esm a cor que o colete, tinha o nó apertadíssim o e se destacava com o um a m ancha de sangue sobre a cam isa im aculadam ente branca.

 

O grosso cabelo castanho de Rockley estava penteado para trás e não se atrevia a sair do lugar m esm o quando ele inclinava a cabeça para olhar sua noiva. As longas costeletas que em olduravam a beirada de suas bochechas tinham sido aparadas e pareciam planas e m acias sobre a pele.

Seus olhos, sem icerrados com o sem pre, fitavam com grande em oção a lum inosa noiva a seu lado enquanto dizia seus votos com clareza e para que todos escutassem .

 

À m edida que sua voz suave trom beteava sua prom essa de am ar Vitória até que a m orte os separasse, Melly não resistiu e deu um a olhada em lady Seedham -Jones, cuj as três filhas solteiras — todas haviam debutado nos últim os quatro anos — estavam sentadas perto dela. A dam a em questão tinha o rosto parecido a um a am eixa seca.

 

Foi então que ela notou o cavalheiro italiano que parecia conhecer m uito bem sua tia Eustácia. Maxim iliano de não-sei- quê; com o ele não tinha título de nobreza, Melly não se incom odara em aprender seu sobrenom e.

 

— O que aquele tal de Maxim iliano tem na m ão?

 

Winnie se virou para olhar o hom em alto de cabelos negros e rosto arrogante. Estava sentado na últim a fila da capela, com expressão de enfado, e enquanto Melly observava, ele tirou algum a coisa, um a vara longa e pontuda, da m anga de seu paletó. Ele a levantou, testou seu peso e a colocou de volta dentro do punho branco e engom ado. Mais de um a vez.

 

— Que coisa estranhíssim a! — m urm urou Winnie, dedilhando o crucifixo que levava suspenso ao pescoço. — Parece um a estaca dessas usadas para em palar um ...

 

— Não fale! — sibilou Melly. — Nem m esm o respire essas suas ideias bobas no casam ento da m inha filha!

 

— Mas Melly, você sabe que. .

 

— Chhh! Eles vão ser declarados m arido e m ulher!

 

Winnie obedeceu e fechou a boca, m as voltou-se de novo para ver o cavalheiro italiano na últim a fila. Melly fingiu não reparar, m as m anteve um olho cauteloso no hom em pelo resto do casam ento.

Entretanto, ele perm aneceu distante da celebração e não saiu de lá um a única vez. Portanto, o m ais provável é que a im aginação de Winnie lhe pregara um a peça de novo.

 

Mulher tola.

 

* * *

 

Vitória nunca tinha visto o peito nu de um hom em adulto, m as ela achou extrem am ente cativante quando, m ais tarde, no dia de seu casam ento, na privacidade do dorm itório dele, seu m arido tirou a cam isa.

 

O fino pano engom ado veio ao chão e Filipe pisou sobre ele, dirigindo-se à m ão estendida dela. Ela queria sentir a pele m acia que estivera oculta sob a cam isa. Quem poderia im aginar que um cavalheiro tão correto teria aqueles m úsculos firm es e dourados cobertos por pelos negros! Mas era m acio e interessante ao toque, e a j ulgar pela sua respiração, ele não se im portava com os dedos curiosos dela.

 

De form a algum a.

 

Vitória ainda estava traj ando a cam isola que Verbena a aj udara a vestir depois que todos os convidados haviam deixado St. Heath’s Row.

 

Sons distantes de pratos e criados dando ordens uns aos outros durante o trabalho da lim peza chegaram a seus ouvidos, lá em cim a, na suíte que pertencia a seu m arido, m as a atenção de Vitória estava concentrada em outra coisa. Em particular, nas m ãos de seu m arido, que estavam laboriosam ente abrindo os pequenos botões que Verbena abotoara uns quinze m inutos antes.

 

Ela prendeu a respiração quando o frágil tecido de algodão, enfeitado com um a abundância de laços e cetim que ela tinha certeza de que o m arido sequer notara, caiu no chão, desnudando seus om bros e grande parte de seu busto.

Enquanto Filipe, o hom em que ela am ava, a carregava para a cam a que iam dividir, ocorreu a ela que ele não era o prim eiro hom em a ver seus seios nus; m as esse pensam ento saiu rapidam ente de sua cabeça quando ele substituiu a carícia das m ãos pela dos lábios.

 

Era um a sensação deliciosa, e Vitória ficou gratificada de que o prazeroso form igam ento entre suas pernas se tornasse m ais intenso e úm ido sob os cuidados do seu m arido. E de que ela estava sentindo a pele quente dele por baixo de suas m ãos e unhas, acariciando os pelos dispersos que cresciam em tantos lugares incom uns: em seus braços m usculosos, pelo seu am plo peito, e ao longo de um a linha com prida que desaparecia em suas calças.

 

Ele havia parado de beij ar-lhe os seios e voltou a beij ar sua boca, depois ao redor da área m ais sensível de seu pescoço, onde a m ordida do vam piro j á tinha desaparecido. Pela prim eira vez na m em ória dela o cabelo dele saíra do lugar e caía pelos lados, tocando as costeletas e o entorno de seu m axilar.

 

Filipe recuou, afastou-se e abaixou os culotes. Com um a olhada de soslaio, com o se quisesse checar a reação dela ao volum e que se revelou, ele dem orou um pouco m ais para baixar a ceroula, e então ficou olhando para ela. Vitória sentiu-se por inteiro quente e trêm ula quando viu a parte dele que m ais obviam ente a desej ava.

 

Ele voltou para a cam a, onde ela se apoiara sobre o cotovelo para observá-lo se despir. Esparram ando-se ao seu lado, sua nudez contornando a extensão da cam isola dela, ele passou a m ão por seu corpo, de sua garganta passando entre os seios e então descendo pelo profundo V na área de sua cam isola que ele im pacientem ente deixara abotoada. Mas não por m uito tem po.

 

Seus dedos habilm ente retiraram os botões de seus círculos com m aestria, enquanto ele se inclinava para beij á-la. E então, enquanto suas m ãos acariciavam a pele recém -desnuda, ele parou.

 

— O que. .? — Ele se sentou e puxou os lados da cam isola, expondo a m acia redondez do estôm ago e o cintilar da prata que havia lá. — O que é isso?

É claro. Ela j á sabia que ele perguntaria sobre aquilo. Ele não reconheceria um vis bulla com o Verbena ou Sebastian. Mas ela não havia esperado que a expressão no rosto dele fosse de tanto. . desprazer.

 

Ela j á sabia com o explicar.

 

— É um a tradição da fam ília Gardella — respondeu Vitória, estendendo a m ão para a redondez firm e do om bro dele para puxá-lo de volta para ela.

 

Ele resistiu, e em bora ela fosse forte o suficiente para trazê-lo, ela o soltou.

 

— Por quê?

 

— Acredita-se que isto oferece um tipo de proteçao. É um a tradição fam iliar que tia Eustácia pediu que eu seguisse.

 

— É. . incom um . Isso dói? — Ele Estendeu um dedo para tocar na cruz de prata.

 

— Não. Não dói nada. — Ela deu um peteleco na cruz e na argolinha para dem onstrar.

 

— Não estou certo de que gosto, ou de que sej a apropriado.

 

Vitória fitou-o por um m om ento, e então disse a si m esm a que aquela era sua noite de núpcias e não queria que fosse arruinada.

 

— Posso tirá-la por hoj e, se faz você se sentir m elhor.

 

— Sentir m elhor? Não sei se concordo com a sua escolha de palavras.. m as, sim , Vitória, acho que prefiro olhar apenas para o seu lindo corpo sem quaisquer adornos.

 

— Então eu j á volto. — Ela não tinha a m enor intenção de rem over seu vis bulla e deixá-lo no m eio do quarto, para se perder. Vestindo um roupão que havia tirado ao entrar no quarto, ela correu para o seu quarto contíguo. Na luz baixa, desentortou o anel de prata e o rem oveu do um bigo. Assim que o colocou sobre sua penteadeira, teve que se sentar por um m om ento. A ausência do am uleto deixou-a tonta e suando frio, e ela percebeu que precisava descansar a cabeça na m esa por um m om ento.

 

Poderia colocar seu vis bulla de volta pela m anhã. E talvez Filipe se acostum asse com ele.

 

Ela voltou para a porta que com unicava os dois quartos, e teve um sobressalto. . pois ele estava ali, em pé, seu m arido, em toda sua bela nudez. Cabelos escuros, olhos pesados, escuros... m em bros definidos sob a luz fraca da vela na penteadeira. Ela ficou sem fôlego por um instante, sentindo-se tonta de novo... e desta vez não foi por ter retirado seu vis bulla.

 

— Venha cá, m inha querida — disse Filipe, estendendo os braços para ela. Seus om bros se flexionavam facilm ente à luz bruxuleante. –

 

Espero não ter estragado o m om ento. — Ele sorriu de um j eito que a fez lem brar incom odam ente de Sebastian: um pouco m alvado, cheio de prom essas. Contudo, havia um a ternura em seus olhos. Algo que ela nunca vira nos olhos dourados de Sebastian.

 

E por que ela o estava com parando com Sebastian? Seu m arido, na noite de núpcias? Talvez fosse norm al com parar e contrastar quando se era confrontado com algo desconhecido. . e excitante.

 

Ela foi para os braços dele, feliz de que ele tivesse vindo a ela e se desculpado. Ela sentiu o calor do corpo dele, longo e consistente, contra o dela, e a pressão da ereção dele contra seu quadril. Seu roupão solto envolveu-os, e ela o fez deslizar de seus om bros. Caiu sobre o tapete, j untando-se aos tornozelos de am bos, enquanto seus seios nus apertavam -se contra o peito dele.

 

Filipe beij ou-a no lado do pescoço, onde sua pele era m ais sensível, e onde o m ero toque de seus lábios fazia seus dedos dobrarem e seus seios se enrij ecerem . A boca dele não parou de prová-la enquanto ele a levava para a cam a e a depunha sobre ela — a cam a dela, não a dele.

 

— Tão linda, m inha querida — disse ele, apoiando-se num cotovelo, acim a dela. O corpo dele j ogava um a som bra sobre m etade do dela, e ela observava com interesse e fascínio Filipe passar o dedo gentilm ente entre seus seios, ao longo da linha irregular entre escuridão e luz. O

 

form igam ento que com eçara na barriga de Vitória, e então entre suas pernas, intensificou-se quase dolorosam ente quando ele colocou o m am ilo dela na boca.

 

Enquanto chupava e m ordiscava, a sensação aum entava ou dim inuía ao ritm o de sua boca e o deslizar de sua língua. A respiração dele ficou m ais profunda, quente e úm ida sobre a pele dela, e quando ele passeou os dedos entre as pernas dela, Vitória não soube se deveria j untar os j oelhos. .

 

ou afastá-los.

 

— Deixe-m e, Vitória, m inha m ulher — sussurrou ele contra o pescoço dela, passando a boca pelo seu m axilar enquanto se posicionava sobre ela. — Serei gentil.. e depois de um m om ento, você sentirá só prazer.

 

Ela deixou. Deixou-o e abriu suas pernas de m aneira licenciosa, que a teria horrorizado se tivesse pensando a respeito. . m as não pensou.

 

Sim plesm ente deixou. Deixou que os dedos dele tocassem e deslizassem , penetrassem e procurassem , até que ela não sabia m ais o que estava acontecendo. . apenas que era um prazer além de qualquer coisa que ela tivesse im aginado.

 

E então... a dor. A dor aguda e rápida enquanto ele m ovia seus quadris entre os dela, e então, com o ele prom etera, só prazer.

 

Só prazer, fácil, crescente, com pleto.

 

21

A m arquesa se revela um a excelente contadora de histórias

 

Vitória sentiu-se m elhor ao recolocar o vis bulla no dia seguinte.

 

Foram necessários alguns encaixes e puxões para que a argola de prata voltasse ao lugar, m as ela conseguiu com um a aj udinha de Verbena e term inou de se vestir.

 

Estava agradavelm ente dolorida pelas atividades da noite anterior, e encantada com seu novo estado civil. No café da m anhã, ela e Filipe com eram arenques defum ados, ovos, salsichas e biscoitos, com pota e crem e de Devonshire. E em barcaram no seu coche de viagem , que j á havia sido carregado com as bagagens, e partiram para a lua de m el de duas sem anas.

 

Quando voltaram , ela tinha as bochechas rosadas e não estava m ais dolorida.

 

Na m anhã seguinte à sua volta, Filipe partiu de St. Heath’s Row cedo para cuidar de alguns negócios na cidade com seu advogado e banqueiro. Vitória cuidou diligentem ente, não sem algum a relutância, da sua correspondência, m as foi salva de um a tarde inteira de tédio por um a carta de tia Eustácia, convidando-a para o chá.

 

— Você está linda, m inha querida m arquesa — disse a velha tia quando Kritanu introduziu Vitória na sala de estar. — Descansada e feliz.

 

Vitória inclinou-se para beij ar o rosto excepcionalm ente m acio e pouco enrugado da anciã.

 

— Estou m esm o, tia. Mas tam bém estou bastante ansiosa por retom ar m inhas tarefas.

 

— Estam os felizes de ouvir isso — falou arrastadam ente Max, do outro lado da sala.

— Max. Não cheguei a lhe agradecer por ter concordado em com parecer ao casam ento — replicou Vitória. Ela j á esperava que ele estivesse presente e, com o parte de sua nova posição, decidira não perm itir m ais que ele a irritasse. Sua felicidade tornava m uito m ais fácil ter pena dele por seus hum ores som brios e pelo que só podia ser um a grande solidão.

 

Ele fez um a m esura.

 

— Fiquei feliz em poder aj udar.

 

Talvez ele tam bém tivesse decidido ser m enos com bativo.

 

— E com o foi a lua de m el? — continuou Max, ficando em pé até que Vitória tom asse assento. — Espero que o m arquês estej a bem e não tenha dado sinais de que pretende visitar de novo o Cálice de Prata.

 

Talvez não.

 

— Não falam os daquela noite desde que ela ocorreu — disse Vitória, m antendo a voz neutra.

 

— Vitória, eu sei que este é seu prim eiro dia após sua lua de m el, m as achei necessário contatá-la — interpôs Eustácia. — Soubem os hoj e de m anhã que um grupo de vam piros planej a um a espécie de ataque no Parque Vauxhll. Apesar da excelência de Max, acham os que deveria haver dois Venadores para im pedir-lhes o êxito.

 

Vitória sentiu a excitação da luta pulsar j unto com o coração, m as então se lem brou:

 

— Eu m e com prom eti a ir ao teatro com Filipe hoj e à noite. Mas. . a que horas eu teria que estar pronta?

 

— Meia-noite, é claro — disse Max, do canto da sala. — Tenho certeza de que você pode inventar alguma razão para voltar à sua casa m ais cedo. Tendo acabado de voltar de sua lua de m el.

 

Vitória não perm itiu que o rubor esquentasse suas bochechas.

 

— De fato, você tem razão. Não será difícil atrair m eu m arido de volta para casa m ais cedo. Evidentem ente, ficarei ocupada por algum tem po...

 

Max assentiu com a cabeça, os olhos escuros e frios.

 

— É claro. Acha possível aj ustar sua agenda para que eu possa buscá-la à m eia-noite? A fim de que não m uitas pessoas sej am m ortas antes de chegarm os?

 

— Não precisa m e buscar — lem brou Vitória, perguntando- se para onde fora sua determ inação. — Posso encontrar você lá.

 

— Vou buscá-la. Você nunca m e encontrará em Vauxhall.

 

— Terei que achar um m eio de sair de casa sem que Filipe saiba.