O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 4 de 4 · parte 1/3

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O Legado da Caça-Vampiro

— Im agino que ele vá dorm…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Im agino que ele vá dorm ir m uito bem após um a noite dessas —

 

disse Max, docem ente. — Ou talvez você possa aj udá-lo. . com isto. —

 

Tirou do bolso um pequeno frasco. — Se estiver preocupada de que ele possa acordar e descobrir que a esposa não está lá.

 

Vitória apanhou no ar o frasco quando ele o j ogou para ela.

 

— O que é isso?

 

Mas ela j á sabia. Era um a droga. Max estava sugerindo que ela drogasse seu m arido.

 

— Cham a-se salvi. Proteção. Segurança. Muito útil.

 

— A não ser que você sej a pego m inistrando-o e forçado a beber. —

 

Vitória olhou para o frasquinho e depois para Eustácia, que estivera notavelm ente silenciosa durante o diálogo. Era quase com o se percebesse que sua intervenção seria inútil.

 

Ela conseguiria drogar Filipe?

 

Seria necessário?

 

Se ela não o fizesse, será que ele despertaria para descobrir que ela saíra? Se ela não estivesse na cam a dele, onde se acostum ara a dorm ir nas últim as duas sem anas, ele a procuraria no dorm itório dela?

 

O líquido era quase transparente, apenas um azul quase im perceptível tingia o fluido sem elhante a água. Ela teria que usá-lo. Para protegê-lo, ela precisaria não apenas m entir para ele.. m as tam bém drogá-

lo.

 

Pois ela não podia se arriscar a que ele acordasse e se colocasse em perigo novam ente.

 

Nunca m ais.

 

* * *

 

— Estou m e sentindo exausta — m urm urou Vitória no ouvido de Filipe enquanto ocupavam o cam arote que ele alugara, no teatro. —

 

Preferiria bem m ais estar na cam a... você não? — Ela colocou a ponta da língua no interior da orelha dele, provocando-o, depois se afastou e voltou sua atenção para o palco, com portada, em pertigada e com as m ãos educadam ente dobradas sobre o colo.

 

Filipe m exeu-se ao lado dela de um a m aneira que m ostrava estar ele tam bém pensando em outras coisas além da peça. . de que ela, por sinal, estava gostando m uito.

 

— Podem os sair no próxim o intervalo... ah! Que timing perfeito —

 

adicionou ele, enquanto os atores saíam do palco.

 

Vitória agarrou-se ao braço dele enquanto abriam cam inho entre o alvoroço das pessoas saindo de seus cam arotes para conversar e serem vistos.

 

Filipe a colocou na carruagem e entrou depois. Em vez de sentar-se na frente, acom odou-se ao lado dela e a trouxe m ais para perto, beij ando-a, ansioso.

 

— Minha querida, seu pescoço está tão frio! Você está bem ? -

perguntou ele, afastando-se.

 

— Não estou com frio, m as, ah, Filipe! Esqueci m inha nécessaire no cam arote, tenho certeza! E o broche da tia Eustácia está dentro. . você poderia correr lá e buscá-lo para m im ?

 

— Claro, m inha querida. Espere aqui. Não dem orarei nem um m inuto!

 

Ela torceu para que aquilo não fosse verdade, e esperou até vê-lo entrar correndo no teatro para tirar a estaca de um bolso escondido em sua anágua, e então saiu silenciosam ente da carruagem , para que o cocheiro não a ouvisse.

 

A entrada estava cheia de gente, m ais cavalariços e cocheiros de cabriolés do que espectadores. Vitória não tinha certeza de onde o vam piro estava, m as seguiu seu instinto e virou a esquina. A rua estava m ais escura lá, e não tão m ovim entada, m as quando se aproxim ou do terceiro cabriolé na fila, percebeu que viera ao lugar certo.

 

Um gem ido profundo e abafado veio de dentro, e, vendo que o cocheiro não estava lá, Vitória abriu a porta com força.

 

Era um a vam pira, e parecia ter acabado de se alim entar, ou pelo m enos com eçara. Estava vestindo um a capa preta e seu cabelo m arrom tinha um penteado bonito e com plicado, rem atado com j oias e laços. Na verdade, não fosse pelo sangue verm elho e brilhante escorrendo pelo canto de sua boca, e a coloração esquisita dos olhos, ela pareceria um a inocente senhorita da sociedade, com o a própria Vitória.

 

— Que bom que veio se j untar a nós — disse ela, cum prim entando a m arquesa. Rápida com o a luz, ela se j ogou para frente e a agarrou. Não foi necessário m uito esforço para puxar Vitória carruagem adentro, sobretudo porque Vitória não resistiu.

 

Mas um a vez que Vitória estava m etade dentro e m etade fora da carruagem , assum iu o controle e se esparram ou no assento em frente.

Foi quando a vam pira viu a estaca.

 

Ela recuou, apavorada, e seus olhos verm elhos se dilataram .

 

— Venadora!

 

— Prazer em conhecê-la — replicou Vitória, enquanto enfiava a estaca em seu peito.

 

Puff! Ela se esfacelou, e Vitória ficou sozinha com o hom em que ela presum iu ser o cocheiro, j ulgando pela roupa pouco elegante que vestia.

 

Ela virou o corpo dele para exam inar a m ordida e determ inar se ele estava vivo e podia ser salvo. A m ordida era profunda e o sangue verm elho brilhante ainda corria. Ela sentiu o outro lado do pescoço dele, tentando achar o pulso. . m as sua m ão voltou m olhada. A vam pira tam bém estivera lá.

 

Se tivessem saído do teatro m om entos antes, ela poderia ter sentido a vam pira em tem po de prevenir aquilo.

 

Agora não podia fazer nada pelo hom em . Ele j á estava m orto.

 

Quando Vitória abriu a porta do cabriolé, congelou, e então a fechou rapidam ente. Filipe estava parado na rua, cham ando por ela.

 

Maldição dos infernos!

 

Ela espiou pela j anela, esperando que ele passasse para que ela pudesse sair de fininho e correr de volta para a carruagem deles.

 

Assim que ele passou pelo cabriolé, ela saiu e correu de volta.. m as assim que virou a esquina, deu-se conta de que estava deixando Filipe sozinho. , onde outro vam piro poderia facilm ente aparecer.

Sua nuca estava m orna, m as ainda assim ela parou na esquina, espiando em volta para protegê-lo.

 

Para seu alívio, ele voltou e ficou à vista, andando em passos largos com o se voltasse às pressas para procurar noutra direção. Ela chegou até a carruagem , onde Tom , o cocheiro, correu para ela, aliviado.

 

— Milady! Para onde a senhora foi?

 

Ela não respondeu, porque naquele m om ento Filipe virou a esquina e conseguiu vê-la.

 

— Vitória! Aonde você foi? E o que é isso no seu vestido? Isso é sangue? — Ele olhava para ela, estupefato.

 

— Vam os entrar na carruagem e eu lhe direi. — Já passava das onze, e se ela ia estar pronta para Max, precisavam ir logo.

 

Filipe aj udou-a a entrar na carruagem e Vitória se sentou, pensando rápido.

 

— Você achou m inha nécessaire?

 

— Não, não havia nada no cam arote. Vitória...

 

— Oh, m eu querido, aqui está! Estava debaixo da alm ofada o tem po todo! — disse ela, pegando sua pequena bolsa. — Desculpe-m e por tê-lo m andado nessa busca inútil.

 

— Sim , igual à sem ana passada, quando você pensou que tinha deixado seu xale naquela pousada em que j antam os.

 

— Não posso im aginar com o m e tornei tão desorientada! — disse Vitória, e por reconhecer que havia um lim ite para a paciência dele, bem com o para o tem po em que ele podia ser distraído, ela disse: — Eu não queria assustar você, Filipe, m as vi um a conhecida de m inha m ãe e corri para cum prim entá-la. Acom panhei-a e ao seu m arido até a carruagem , um a ou duas distante da nossa, e ela m e pediu para entrar e cum prim entar a filha deles, e quando entram os, a porta da carruagem bateu no nariz dele, que com eçou a sangrar horrivelm ente. Ele ficou tão constrangido por ter sangrado na m inha saia, que eu não pude sim plesm ente sair correndo..

 

então fiquei até m e certificar que ele não j á não se sentia tão m al. Lam ento tanto não ter dito a Tom que estava saindo!

 

— Bem , espero que você não saia de novo correndo por aí sem avisar ninguém . Prim eiro, porque não é seguro; há m uitos canalhas soltos por aí, esperando um a oportunidade de roubar pessoas descuidadas. . e segundo, você agora é um a m arquesa e não apenas tem um a posição a zelar, m as é m uito preciosa e vale um a grande quantidade de dinheiro para alguém nefasto, e m uito m ais para m im . Quero que você estej a segura.

 

— Claro, Filipe. Não farei um a coisa dessas de novo. — E estava sendo sincera. Da próxim a vez, ela planej aria m elhor.

 

Eles se abraçaram , com o fazem os recém -casados, pelo resto do cam inho para casa; Vitória planej ando com o daria o salvi a Filipe, e Filipe pensando em com o dar outra coisa a Vitória.

 

* * *

 

Era m eia-noite e quinze quando Vitória bateu levem ente no coche de Max.

 

A porta se abriu e ela entrou sem aj uda. Para sua surpresa, Max, acom odado no canto do assento, nada disse sobre o atraso.

 

Em vez disso, bateu no teto para que Briy ani seguisse, e a carruagem arrancou.

 

Vitória sentou-se silenciosam ente no assento oposto ao dele, tentando não pensar em com o tinha traído seu m arido.

 

Ela colocara o salvi, que Max garantira ser insípido e inodoro, no scotch de Filipe, e então o levara a ele depois que tinham feito am or.

 

Aninhada no grande colchão de plum as ao lado dele, Vitória fingiu dorm ir enquanto esperava que a droga fizesse efeito.

 

— Você usou o salvi? — a pergunta de Max a trouxe de volta ao presente.. m as não a distanciou da culpa.

 

— Sim . Não tinha outra opção para garantir a segurança dele, tinha?

 

Ele olhou para ela.

 

— Você teve um a opção, sim , Vitória.., e sabe que eu acho que você fez a opção errada.

 

A raiva borbulhou dentro dela, transbordando o sentim ento de culpa.

 

— E você sabe que sua opinião nada significa para m im .

 

— Um fato que m e fere profundam ente.

 

— Sabe o que eu acho?

 

Max inclinou a cabeça, e na luz baixa, ela pôde ver um a sobrancelha se erguendo.

 

— Tenho certeza de que você está prestes a m e dizer.

 

Ela continuou:

— Acho que você está com ciúm e. Pura e sim plesm ente com ciúm e, e é por isso que não tem nada agradável para dizer.

 

— Ciúm e?

 

— Sim , ciúm e do que eu tenho com Filipe! O que você não tem e nunca terá, porque você é frio e cruel! — As palavras saíram aos tropeços, quase com o se ela não soubesse o que estava dizendo; m as ela sabia, e sabia que queria feri-lo, assim com o ele a ferira esfregando sal em seu j á frágil coração. Seu culpado e frágil coração.

 

Ela tinha m edo de com o se sentia, o poder das em oções que se m isturavam dentro dela, porque tem ia, lá no fundo, que talvez Max estivesse certo no fim das contas.

 

Talvez ela tivesse com etido um erro.

 

Max sentou-se com o um a pedra pelo resto da viagem até o Parque Vauxhall.

 

Quando chegaram , ele deu instruções ao cocheiro, pagou os quatro xelins para que ele e Vitória entrassem no parque e, com a m ais ínfim a das olhadas de relance nela, pôs-se a cam inhar pelo sinuoso cam inho.

 

Lâm padas laranj as, azuis, am arelas e verm elhas ilum inavam os j ardins, deitando círculos coloridos pela trilha de pedra e sobre os quiosques que ofereciam fatias de presunto, biscoitos e ponche. Em bora nunca tivesse estado naquele parque antes, ela sabia que havia alcovas escondidas e grutas m isteriosas por ali, o lugar perfeito para um encontro, ou para um ataque vam piresco. Pessoas passeavam por lá, casais, grupos de j ovens com algum adulto responsável por eles, bandos de rapazes procurando aventura. A queim a de fogos havia term inado trinta m inutos antes, e os frequentadores estavam com eçando a voltar para suas carruagens.

 

Não dem orou m uito para que a nuca de Vitória gelasse. Havia no m ínim o dez vam piros nos arredores, foi seu palpite. Ela havia colocado calças e um a cam isa m asculina, precisando da liberdade de m ovim ento.

Max ia na frente, e no m om ento em que Vitória achou que sua nuca j á estaria branca com o gelo, eles deram com um grupo de quatro m ortos-vivos brincando com sete rapazes.

 

Talvez tanto Vitória quanto Max tivessem um a quantidade igual de raiva para descarregar, porque a batalha foi curta e praticam ente aconteceu só de um lado... os quatro vam piros foram em palados antes m esm o que suas vítim as pudessem correr para tentar escapar.

 

Já que apenas algum as presas tinham sido arreganhadas, e os sete rapazes estavam bêbados, Max não viu necessidade de lim par-lhes a m em ória com hipnotism o. Em vez disso, urgiu Vitória a segui-lo por um cam inho m ais escuro.

 

Enquanto contornavam um arbusto alto e espesso, três vam piros pularam sobre eles. Um deles estava carregando um a faca, e antes que pudesse reagir, Vitória sentiu um a dor quente e aguda no braço esquerdo.

 

Com um grito de fúria, ela ergueu o braço direito e enterrou a estaca no peito dele. Ouviu os dois suaves estalos quando Max despachou os outros, virou-se e continuou percorrendo a trilha sem dizer um a palavra.

 

Seu braço queim ava e ao tocá-lo ela percebeu que a m anga da j aqueta estava úm ida. A única coisa boa daquela ferida é que o cheiro de sangue atrairia outros vam piros, tornando bem m ais fácil para ela e para Max term inarem o seu trabalho e voltarem para a carruagem .

 

E Vitória de volta para a cam a com seu m arido, que dorm ia pacificam ente e sem sonhos, graças à sua inescrupulosa esposa.

 

A raiva consigo m esm a aj udou a im pulsionar seu braço de ataque, durante os dois outros curtos incidentes; ela e Max foram eficientes e silenciosos enquanto liquidavam o m agote de vam piros que se atrevera a invadir o Parque Vauxhall num a noite em que eles dois patrulhavam .

 

No cam inho de volta para a carruagem de Max, Vitória segurou seu braço ferido, que latej ava e ardia, irradiando dor até o om bro. Cam inhava atrás de Max, que não se dava o trabalho de dim inuir seus passos largos em consideração aos passos curtos dela.

 

Só depois que j á estavam dentro da carruagem , cada um no seu canto, ele a viu segurando o braço. Ele bateu no teto e assim que a carruagem arrancou, ele perguntou:

 

— Qual é o problem a com o seu braço? — Antes que ela pudesse responder, ele cheirou o ar, estendeu o braço e afastou a m ão dela. — Você está sangrando por cim a da j aqueta!

 

— Funcionou m uito bem para atrair os vam piros. Term inam os bem antes do que eu pensei.

 

— Tire essa j aqueta. Você está sangrando toda, e provavelm ente no m eu assento tam bém .

 

Vitória olhou feio para ele, m as tirou a j aqueta. Doeu com o o inferno quando ela puxou a apertada m anga sobre o braço, e quando se abaixou para puxar o outro lado. A m anga branca de sua cam isa estava escura com o sangue do om bro até o cotovelo. Max deu um a olhada sob a luz baixa e praguej ou.

 

— Maldição, Vitória! Por que você não disse algum a coisa? Com o isso aconteceu?

 

— Um daqueles três que pularam das árvores tinha um a faca e m e pegou de surpresa.

 

Max continuou praguej ando baixo enquanto vasculhava um a pequena gaveta em baixo de seu assento. Recostou-se de volta segurando um rolo de pano branco, um pequeno j arro e um a faca.

 

Com m ovim entos rápidos e irritados, ele passou a lâm ina pela m anga, cortando do om bro até o punho e arrancando o pedaço para desnudar-lhe o braço.

— Não se m exa. — Ele enxugou o sangue com um pouco do tecido e, apertando-o, disse: — Mantenha isto aqui por um m inuto. Está com eçando a dim inuir.

 

Ela segurou o pano ali enquanto ele abria o j arro. O cheiro de alecrim e algum a outra coisa que ela não pôde identificar im pregnou a carruagem , e quando Max puxou o pano, ela perm itiu que sua m ão desocupada caísse sobre seu colo.

 

— Segure isto — disse ele, j ogando o j arro na m ão aberta dela. Ele em bebeu o pano rudem ente no j arro e aplicou um pouco do unguento frio e grosso sobre o corte, depois am arrou tiras de pano não m uito gentilm ente ao redor do braço de Vitória. Ela sentiu seus dedos com eçarem a form igar quando a circulação foi bloqueada, m as não disse nada.

 

Por fim , quando estavam se aproxim ando de St. Heath’s Row, Max colocou o pano não utilizado e o j arro de volta na gaveta e acom odou-se em seu assento.

 

— É m elhor com eçar a pensar num a boa história, Vitória, porque você vai passar por m aus bocados tentando explicar isso ao seu m arido.

 

22

 

Incidente em Bridge & Stokes

 

Filipe j á encontrou sua esposa sentada para o café da m anhã quando desceu as escadas, na m anhã seguinte à ida deles ao teatro. Sentia-se tonto e vagaroso, em bora tivesse dorm ido até m ais tarde que o norm al, depois de um a satisfatória rodada de sexo.

 

— Bom dia, m inha querida — disse ele, respirando o arom a do toucinho defum ado crocante e dos ovos à copa. Estavam sozinhos na sala de j antar; ele se inclinou, beij ou o pescoço dela e disse calm am ente: —

Fiquei m uito desapontado ao não encontrar você na m inha cam a. Por que se levantou tão cedo?

 

— Acordei cedo e não quis perturbá-lo — replicou ela. Mas os círculos escuros em baixo de seus olhos contavam um a história diferente.

 

— Devo ter dorm ido com o um a pedra para não ouvi-la levantar —

 

com entou ele, enchendo o seu prato e se perguntando por que a expressão dela parecia tão reservada. — Não consigo lem brar nem de m e m exer após deitar m inha cabeça no travesseiro; aliás, acho que acordei exatam ente na m esm a posição em que m e deitei. Isso não costum a acontecer com igo.

 

Deve ser culpa sua. — Disse isso levem ente, brincalhão, m as Vitória não pareceu achar graça.

 

Ela tom ou um gole de chá e pareceu ter dificuldade em engolir um pedacinho de torrada. Filipe sacudiu a cabeça; ele ainda se sentia grogue.

 

Talvez sua piadinha não tivesse sido tão engraçada quanto ele pensava.

 

— Está com frio? — perguntou ele, tentando outra abordagem . —

 

Eu estou com calor, e você está usando um a m anta.

 

— Sim , estou com um pouco de frio. — replicou Vitória. Mas suas bochechas estavam rosadas e, se ele não se enganava, havia um pequeno brilho em sua testa.

 

— Você não está se sentindo bem ? — ele perguntou.

 

— Não, na verdade não estou lá essas coisas.

Um pensam ento ocorreu a Filipe; um pensam ento m aravilhoso. Mas era cedo dem ais... havia só duas sem anas. Mas ele falou, m esm o assim :

 

— Talvez. . será possível que você estej a carregando o m eu herdeiro? Sei que faz apenas algum as sem anas, m as. .

 

Vitória olhou para ele de seu lugar, o rosto pálido e os olhos castanhos arregalados, em choque.

 

— N-não... acho que é cedo dem ais Filipe.

 

Ele sorriu.

 

— Então terem os que nos esforçar m ais.

 

— Não estou m e sentindo bem — disse Vitória, levantando-se abruptam ente. — Acho que vou m e deitar um pouco. Você vai a seu clube, hoj e?

 

— Tenho alguns negócios para tratar. . m as se você não está se sentindo bem , Vitória, eu ficarei por perto.

 

— Não. Não, Filipe, eu vou ficar bem . Só preciso de algum descanso.

 

Não dorm i tão bem quanto você ontem à noite.

 

Ele a viu sair apressadam ente da sala, e notou algo m uito estranho.

 

Ao cruzar a porta, ela esbarrou o braço esquerdo na beirada. A m aneira com o o apertou e arquej ou deu a ele a im pressão de algo bem m aior que a dor de um a sim ples batidinha. Algo m ais estava errado.

 

* * *

Santo Deus! Um bebê! Filipe queria um bebê!

 

Vitória tom bou na cam a do seu aposento privado, esquecendo-se e caindo sobre o lado esquerdo, depois virando-se quando a dor queim ou-lhe o braço.

 

Ela não podia ter um bebê. Não podia continuar drogando seu m arido todas as noites que tivesse que sair escondida para patrulhar. . Não podia continuar ―esquecendoǁ coisas e m andando-o de volta para buscá-las.

 

Não podia continuar inventando histórias ridículas sobre narizes que sangravam para explicar o sangue em sua saia. Não podia continuar tirando seu vis bulla cada vez que faziam am or.

 

Com o ia fazer isso?

 

Ela podia lhe dizer a verdade.. m as se fizesse isso, ele sim plesm ente a seguiria. Colocar-se-ia em perigo de novo.

 

Ou pior: ele pensaria que ela estava louca.

 

A porta se abriu e Vitória ergueu-se de um salto, m as não era Filipe.

 

— Ora, ora, milady, qual que é o pobrem a? — Era Verbena. Com o cabelo laranj a m exendo-se a cada m ovim ento, ela se aproxim ou da cam a e se sentou ao lado da patroa. — É o seu braço doendo de novo?

 

— Não, depois que você o lim pou ontem à noite, ele quase não doeu m ais, a não ser quando esbarrei na porta. É o m arquês.

 

Verbena assentiu com a cabeça.

 

— Ah, sim , tô vendo. Eu vi que a sinhora tem que tirar seu vis bulla à noite. Ele não entende, e a sinhora não pode contá pra ele. O que é que a sinhora fez para ele dorm ir tão bem ? Franks m e contô que não conseguiu acordá ele hoj e de m anhã!

 

Vitória balançou a cabeça. Ninguém m ais deveria saber daquilo.

 

— É m elhor eu não falar disso. Mas o m arquês quer um herdeiro.

 

— Claro que ele quê. Mas a sinhora não pode ficá por aí lutando com vam piro se tivê grávida de um bebê! A sinhora vai tê que fazê de tudo pra isso não acontecê.

 

— Eu não posso negar isso a ele!

 

— Nem precisa! Tem outras m aneira de num tê bebê, milady. Sua tia deve sabê com o é que os Venadô faz pra m ódi num tê bebê. — Verbena balançou a cabeça sabiam ente. — Eu m esm a cunheço uns truque, m ilady.

 

Se a sua tia num pudé aj udá a sinhora, eu aj udo.

 

Vitória concordou, sentindo-se um pouco aliviada, m as ao m esm o tem po com o se estivesse se afundando ainda m ais num lam açal de m entiras e dissim ulação.

 

Talvez tia Eustácia tivesse algum as palavras de sabedoria.

 

* * *

 

Para alívio de Vitória, o sem pre presente Max não estava na casa de tia Eustácia quando ela chegou, m ais tarde, naquela m anhã. Kritanu serviu-lhes um a refeição leve e então desapareceu discretam ente quando ficou óbvio que Vitória não estava lá para praticar kalaripayattu.

 

— Com o está seu braço? — perguntou Eustácia. Aparentem ente, Max estivera lá.

 

— Está bem .

 

— Vai sarar bem rápido; o unguento de Max é m ilagroso e você carrega a proteção do seu vis bulla.

 

Vitória com eu um pedaço de queij o, pensando em com o dizer à tia que não estava segura de que poderia seguir em frente. Que ela precisava m udar algo em relação a ser um a Venadora.

 

— Tia Eustácia, eu preciso do seu conselho. Não sei o que fazer.

 

— É bem m ais difícil do que você pensou que seria, não é cara?

 

— Filipe quer um herdeiro, e eu não posso dar-lhe salvi todas as noites!

 

A anciã assentiu com a cabeça, o cabelo negro brilhando com o a noite.

 

— Você está num a situação m uito difícil, Vitória. Quanto ao bebê, bem , isso se previne com facilidade. Estou surpresa de que você não tenha perguntado sobre isso antes.

 

Ela nem respondeu. Sua tia estava certa.

 

— Vou lhe dar um tônico. Se você o beber regularm ente, não engravidará. Vitória...

 

O m odo com o ela disse fez com que Vitória a fitasse.

 

— Lilith não esqueceu que você e Max pegaram o Livro de Antwartha. Sei que ele está escondido em segurança em St. Heath’s Row, m as Lilith não vai descansar enquanto não se apossar do livro. Pode parecer que nos últim os dois m eses, atividade dos m ortos-vivos dim inuiu.

Pode parecer que você não é necessária; que Max e eu podem os lidar com quaisquer am eaças que apareçam . Mas não se iluda. Você é um a Venadora e foi m arcada com o tal para sem pre. Nunca se esqueça que você im pingiu a Lilith um a grande derrota, pois ela não esquecerá. E não descansará enquanto não tiver se vingado.

 

* * *

 

A m oda noturna não tinha a tendência de esconder os ferim entos no braço de alguém , por isso Vitória viu-se em um dilem a naquela noite.

 

Verbena a aj udou a colocar o par de luvas m ais longo que ela possuía, luvas cor de m elão que se estendiam até depois do cotovelo, m as ainda deixavam um a boa parte da pele à m ostra, graças às m angas finas e bufantes que m al lhe cobriam os om bros.

 

— A sinhora vai tê que ficá com o xale nos braço o tem po todo —

 

riu Verbena. O curativo fora rem ovido; e, com o dissera Eustácia, o corte j á desinchara e com eçava a cicatrizar. Mas o longo talho verm elho ainda era bastante visível, de m odo que Vitória em balou seu braço esquerdo com o xale duas vezes, deixando o resto atravessar suavem ente a sua coluna e descansar sobre seu braço direito. — Num tire o xale do braço de j eito m aneira!

 

Filipe m andara dizer que estaria no seu clube à noite e não poderia com parecer ao j antar dançante ao qual se esperava que Vitórj a desse o ar de sua graça. Ela considerou não ir, m as sentiu que seria m elhor com parecer pelo m enos por um pouco de tem po, para agradar à sua m ãe, e voltar para casa antes da m eia-noite.

 

Foi, portanto, com grande surpresa que, ao deixar a pista depois de um a dança típica do cam po, ela viu Max cruzando o salão na direção dela.

Vitória pediu licença ao seu parceiro de dança, o filho m ais m oço de um conde, e foi ao encontro dele.

 

— Sei que você não veio aqui para confraternizar com a nata da sociedade — disse ela à guisa de saudação.

 

— Os esbirros de Liith entraram em ação. Haverá outro ataque em grupo esta noite — disse ele, olhando em volta. — Não desej o estragar sua noite, m as você provavelm ente salvaria algum as vidas se m e acom panhasse. Você tem com o fugir daqui?

 

— Sim , claro. – Ela j á estava se dirigindo à entrada principal da casa.

 

— Não estou vendo o m arquês. Você não precisa lhe dizer que está saindo?

 

— Ele não está aqui esta noite.

 

Max acom panhava facilm ente os passos dela enquanto galgava o lance de escadas.

 

— Onde ele está?

 

— No clube dele.

 

— Qual clube é?

 

— Bridge & Stokes, eu acho, em bora não entenda por que isso im porta a v.. o que foi?

 

Ele agarrara o braço dela, quase a levantando perto do topo da escada. O m ordom o olhou-os com curiosidade, m as ela o ignorou porque quando Max a fez virar-se e encará-lo, a expressão do rosto dele fez o estôm ago dela afundar.

 

— O ataque de hoj e será em um clube privado de cavalheiros.

Max não precisou dizer m ais nada: ela j á estava esbarrando no m ordom o perplexo e abrindo cam inho em m eio às pessoas que estavam chegando.

 

Ele a alcançou do lado de fora, onde ela tentava distinguir a carruagem de Rockley na longa fila de veículos ao redor do cam inho circular. Não havia tem po para esperar pelo criado para ir buscá-la.

 

— Tem certeza de que quer vir? E se Rockley reconhecer você?

 

— Eu vou.

 

— Então entre aí. — Ele escancarou a porta de um a carruagem negra, um a que ela conhecia m uito bem , e deu a m ão para que ela subisse.

 

Vitória aj eitou-se em seu assento, e m al tinha se acom odado quando o coche arrancou. Suas longas saias estavam em aranhadas entre as quatro pernas deles, e seu xale tinha escorregado, m ostrando o corte no braço nu.

 

— Tom e. — Max j ogou-lhe um grande em brulho de pano, e quando ela o abriu, encontrou um a cam isa, calças, um paletó e um a longa tira de pano. — Verbena m e deu quando fui procurar você.

 

Vitória olhou para o em brulho e de volta para Max.

 

— Você não pode lutar com um vestido de baile, Vitória, e não precisa fingir recato com igo. Não tenho qualquer interesse em ver você tirando a roupa num a carruagem , ao contrário do seu am igo Sebastian, que provavelm ente lhe ofereceria aj uda. — Com isso, ele recostou a cabeça no topo de seu assento e fechou os olhos. Quando percebeu que ela não se m exia, disparou: — Ande logo com isso!

 

Não era fácil tirar aquele vestido; Vitória se debateu e conseguiu soltar os ganchos de cobre que prendiam seu corpete por trás. Quando ela puxou o vestido por cim a da cabeça, o tecido form ou um a nuvem de gaze por todo o interior da carruagem , roçando o rosto estoico de Max; m as ele não se m exeu e nem deu qualquer indicação de que havia notado.

 

Sem o vestido, Vitória traj ava apenas um a cam isa leve de m ulher e espartilho. Era im possível desabotoá-lo sem aj uda, então ela colocou a cam isa m asculina sobre a apertada roupa de baixo e com eçou a abotoá-la desaj eitadam ente.

 

Eles não fechavam sobre seu generoso busto, erguido e esprem ido com o estava. Vitória deve ter feito um ruído de frustração, pois Max disse:

 

— Precisa de aj uda? Lam ento tanto não ter pensando em trazer sua criada.

 

— Só um m inuto. — Ela teria que tirar o espartilho e am arrar os seios para poder fechar a cam isa. Por um m om ento ela considerou ficar de vestido.. m as seria ridículo. Não só ela não seria capaz de lutar, com o se destacaria inaceitavelm ente no clube. Isso se conseguisse entrar.

 

Ela se virou no assento, m ostrando o m áxim o possível de suas costas para Max.

 

— Você poderia... eu não posso desabotoar... m eu espartilho.

 

Houve um a pausa, e então ela o ouviu se m exendo atrás dela. Ele levantou a parte de trás da cam isa m asculina e ela resistiu ao ím peto de puxar os dois lados da cam isa na frente. Se o fizesse ele não poderia pôr as m ãos por baixo e desabotoar o espartilho.

 

Suas m ãos foram rápidas e im pessoais, e ele conseguiu m ovê-las por debaixo da cam isa e afrouxar os laços do espartilho, do topo até a base. Ela ficou esperando sentir os dedos dele — estariam quentes ou frios? —

 

tocarem sua pele, m as não tocaram .

 

Vitória sentiu a vestim enta se abrindo assim que cada laço era afrouxado, e ela o segurou no peito enquanto ele caía pelas costas. Ao term inar, Max não prolongou a coisa. Ela o sentiu se afastando, e ouviu quando ele se acom odou em seu assento, sem dizer um a palavra.

 

Vitória se envolveu com a tira de roupa que Verbena inteligentem ente providenciara, constrangida e apressada, perm itindo que a cam isa escorregasse quase com pletam ente pelos om bros enquanto o fazia. Seu braço ferido doía com o ângulo estranho, m as ela não pretendia m ais pedir qualquer aj uda a Max.

 

—Você j á está acabando? Estou ficando com torcicolo.

 

— Quase. — Os botões se confundiam sob seus dedos por causa da pressa, m as ela conseguiu abotoá-los. Colocou as calças, e sacudiu-se para dentro do paletó.

 

— Há sapatos no chão — disse Max, ainda sem se m exer.

 

Finalm ente ela term inou.

 

— Estou pronta. Obrigada.

 

Max abriu os olhos.

 

— Você tem que fazer algum a coisa com o seu cabelo.

 

Vitória tirou as presilhas das intricadas m adeixas e cachos que Verbena dem orara um a hora preparando, e sabia que sua única opção era soltá-los e j ogá-los para trás.

 

— Você tem algum a coisa com que eu possa prendê-los? —

 

perguntou ela, usando os dedos para segurá-los em um rabo que descesse de sua nuca.

Max, que parecia preparado para qualquer eventualidade, tirou um a corda fina de couro debaixo do m esm o assento onde arm azenava o unguento, e, m andando que ela se virasse, aj udou-a a prendê-lo e trançá-lo.

 

Seus dedos se encontraram e os dedos frios dele tocaram a nuca de Vitória enquanto ele a aj udava a enfiar a longa trança dentro da parte de trás da cam isa.

 

Quando term inaram , a carruagem parou.

 

— Chegam os — disse Max, enfiando um chapéu na cabeça dela. —

 

Se Rockley vir você, a brincadeira acabou. Do contrário... você pode passar por hom em .

 

Caía por terra a opinião de Sebastian de que ela era incapaz de ocultar o seu sexo quando vestia roupas de hom em .

 

Max j ogou três estacas para ela, e enquanto ela as enfiava em seu paletó, viu-o colocar um a arm a no bolso e um pequeno punhal na bota. E

 

então o seguiu para fora da carruagem .

 

Vitória m al tivera a chance de se perguntar com o é que Max pretendia ter acesso a um clube privado de cavalheiros que exibia a pequena e discreta placa ―Bridge & Stokesǁ quando ele abordou o porteiro.

 

— Convidados do m arquês de Rockley — disse-lhe, friam ente.

 

Vitória subiu os degraus para ficar ao lado dele. Seu pescoço ainda estava quente.

 

O porteiro perm itiu que eles entrassem no vestíbulo do estreito edifício, efetivam ente passando-os para o m ordom o.

— Posso aj udá-los?

 

— Som os convidados do m arquês de Rockley — repetiu Max. —

 

Maxim iliano Pesaro e acom panhante.

 

Vitória quis chutar Max. O que diabos ele estava fazendo? Se Filipe a visse.. Mas quando o m ordom o se virou, ostensivam ente para cham ar Filipe, Max a em purrou de m aneira nada delicada em direção à espiral de escadas que subia da entrada para um balcão no andar de cim a.

 

— Vou tirar Rockley daqui; suba lá e vej a o que consegue encontrar

 

- disse-lhe em voz baixa.

 

Ela subiu as escadas correndo, e estava sum indo de vista quando ouviu o m ordom o voltar. As vozes lá em baixo eram confusas, m as então ela escutou o tom de voz de Max elevando-se o suficiente para que ela o ouvisse dizer: ―Ele está lá em cim a? Então vou subir e encontrá-lo eu m esm o, obrigadoǁ

 

Vitória chegara ao topo da escada e então ficou paralisada. Ouviu Max subindo em seu encalço, repetindo ao m ordom o que localizaria o m arquês sozinho.

 

E assim que Max chegou ao topo, encarando-a, duas coisas aconteceram . Um a das portas no corredor que dava para o balcão se abriu e Filipe apareceu... e Vitória sentiu com o se colocassem gelo em sua nuca.

 

Ela olhou para Max e os dois se m overam ao m esm o tem po: Vitória virou-se e saiu pelo corredor na direção oposta enquanto Max rodopiava para encarar Rockley, que parou quando o reconheceu. Estava com outro hom em , que parecia aborrecido.

 

— Pesaro? Não sabia que você era um m em bro aqui. —Não havia cordialidade na sua voz ou em seu rosto; ele claram ente não acreditava que Max devia estar ali.

 

— Não sou. Vim a pedido de Vitória. Ela m e disse para pedir a você que volte para casa.

 

Vitória, distante dali e escondida atrás de um a porta aberta, quase engasgou com a audácia dele.

 

Foi gratificante, de certa form a, ouvir o pânico de seu m arido ao replicar:

 

— Ela está doente? Está ferida?

 

— Creio que vai ficar bem , m as ela desej a vê-lo com a m aior urgência.

 

Teria dado certo. Deveria ter dado certo, para tirar Filipe do clube antes que os vam piros atacassem , m as eles chegaram um pouco tarde dem ais.

 

Vitória sentiu o gelo aum entar em sua nuca de m aneira tão repentina que se enrij eceu pela surpresa. Ainda escondida na soleira da porta, ela puxou um a das estacas de seu bolso no m om ento em que o acom panhante do seu m arido abriu a boca.

 

Ela viu o brilho das presas brancas, e o lam pej o súbito de verm elho nos olhos dele. Felizm ente, o som que ela fez cham ou a atenção de Filipe para ela, e deu a Max a oportunidade de enfiar sua própria estaca no vam piro atrás dele.

 

Filipe, que olhava inquisitivam ente para Vitória, passos em direção a ela e não pareceu ouvir o puf .

 

— Eu conheço você? — perguntou, incerto.

 

Vitória, cuidando para m anter sua cabeça escondida baixo do chapéu, sentiu a presença de outro vam piro.

— Rockley, saia daqui! — disse Max, irritado. — Vá para casa ver Vitória. Ela está esperando por você!

 

Por sorte, ele desviou a atenção de Filipe, e então um grito e um a altercação vindos de baixo com pletaram a distração.

 

— Mas que diabos? — Filipe virou-se e com eçou a descer a escada, com Max em seu encalço, m al tocando os degraus.

 

Vitória observou os dois hom ens descendo e sabia que Max garantiria a segurança de Filipe. Isso deixava o segundo andar sob sua responsabilidade.

 

Ela se apressou pelo corredor, escancarando portas em busca dos três vam piros que sentia estarem por perto. Ela encontrou um , que com eçava a seduzir sua pretendida vítim a com um j ogo de cartas, e quando entrou na sala, ele m al teve a chance de m ostrar seu j ogo antes de ser em palado.

 

Os sons de lutas e gritos vindos de baixo a fizeram se apressar ainda m ais. Max estava em grande desvantagem , se a sensação em sua nuca fosse precisa, e era sem pre. Ela precisava encontrar m ais dois naquele andar e então podia descer para aj udar.

 

Eles a encontraram antes, vindo pelo corredor, roçando om bros. E

 

pareceram reconhecê-la.

 

— Lá está ela! — grunhiu um deles e de repente estava do lado dela, agarrando seu braço. Vitória se agachou e j ogou-se contra as pernas dele, derrubando-o no chão no m om ento em que o outro se acercava.

 

Usando toda a força de suas pernas, Vitória arrem essou o segundo vam piro sobre o prim eiro, e levantou-se de um salto. Com um a estaca em cada m ão, ela as rodopiou e cravou, um a, duas, em seus peitos.

 

Ela correu até as escadas e parou para dar um a olhada no tum ulto lá em baixo. Max estava no centro da sala usando um atiçador de brasas para m anter a distância o que pareciam ser dois Guardiões e um Im perial. Três outros vam piros esperavam por sua vez, im possibilitados de se aproxim ar e participar da briga. Gotas escuras de sangue voavam a cada m ovim ento de Max; ele obviam ente estava ferido em algum lugar.

 

Não havia outros hom ens à vista. Presum ivelm ente, os m em bros do clube haviam se retirado.. ou j aziam inconscientes em algum lugar dos fundos. Filipe não estava em lugar nenhum .

 

Vitória saltou a balaustrada e aterrissou, conform e planej ara, em cim a de dois vam piros. Eles se esparram aram no chão antes que ela tivesse a oportunidade de em palar um deles; então, com um a cam balhota, ela rolou e se levantou. O barulho de m etal no chão atraiu sua atenção, e ela viu que a espada do Im perial havia caído quando Max enterrou-lhe a estaca.

 

Ela agarrou-a do chão e, girando-a para trás e para os lados, decapitou um Guardião com um a única investida. Ele se pulverizou e ela se virou para Max, que m antinha com facilidade os três outros vam piros a distância. Quando Vitória foi na direção deles, um dos três a viu e saiu correndo pela porta da frente. O deixou escapar, pois assim poderia checar as salas dos fundos para se assegurar de que não havia outros vam piros..

 

ou vítim as. Sua nuca j á esquentara e ela não esperava encontrar qualquer outro m orto-vivo.

 

Ela encontrou quatro cavalheiros que obviam ente estavam j ogando faraó antes de perderem a batalha para um vam piro ou dois.

 

Vitória não tinha visto os resultados de m uitos ataques vam píricos; na sua lim itada experiência, ela frequentem ente im pedira que eles acontecessem . Mesm o o cocheiro do cabriolê, duas noites antes, fora m ordido, m as não destruído e m utilado com o tinham sido estes quatro hom ens.

 

Seu estôm ago em brulhou enquanto ela cam inhava pelo salão de j ogo. Havia sangue por toda parte, em pesteando o aposento com seu fedor brutal. Cam isas e paletós em retalhos; peitos e pescoços rasgados e abertos com o se um cão raivoso houvesse atacado os hom ens com dentes e garras.

 

A ferida escancarada de um hom em ainda exibia o azul acinzentado e retorcido das veias e m úsculos de seu pescoço aberto.

 

Vam piros haviam se alim entado neles, m as tam bém os haviam destruído.

 

— ―Não há fúria no inferno...ǁ

 

Vitória se virou. Max parecia exausto, e seu rosto m oreno estava tão pálido quanto sua pele olivácea perm itia. Três m anchas escuras coloriam seu paletó negro. Tinha um a estaca na m ão.

 

— Presum o que a m ulher de que você fala é Lilith — replicou ela, orgulhosa por sua voz estar firm e.

 

— Cham á-la de m ulher é um pouco de exagero, m as sim , eu diria que esta é a m ensagem dela para nós.

 

— Pegam os todos os vam piros com exceção daquele que saiu correndo. Haverá vítim as que ainda podem ser salvas?

 

Max sacudiu a cabeça.

 

— Filipe?

 

— Ele j á foi. Mandei-o para casa em m inha carruagem , que nenhum vam piro se atreverá a atacar. Briy ani sabe o que fazer. Ele vai dirigir por algum as horas antes de levá-lo de volta a St. Heath’s Row. Disse a ele que desse a Filipe um pouco de salvi; você chegará em casa antes do seu m arido, então pode contar a ele a história que quiser. — Sua voz soava fatigada.

 

— Max, você parece que vai cair.

— Já estive pior. Vam os sair daqui antes que os policiais cheguem .

 

Não quero ter que lim par a m ente deles tam bém , hoj e.

 

Os dois saíram j untos na noite estrelada, sem luar. Era um a noite tranquila, m orna e as ruas estavam praticam ente vazias. Nada indicava que um a chacina acabava de ocorrer naquele edifício estreito, de tij olos, atrás deles.

 

23

 

A verdade vem à luz

 

Max não deixou Vitória cuidar de suas feridas. Ele rosnou para ela quando ela tentou tirar-lhe a j aqueta para vê-las, então ela desistiu e se acom odou no assento puído do cabriolé que eles foram obrigados a alugar para levá-los a suas casas.

 

O horizonte com eçava naquele m om ento a se colorir de um tênue cinza-am arelado da aurora im inente. Vitória respirou aliviada. Não teria m ais que lidar com vam piros até a noite seguinte.

 

Agora só teria que lidar com seu m arido.

 

Apesar de estar cada vez m ais acinzentado e respirando com difilculdade, Max insistiu que o cabriolé deixasse Vitória em St. Heath’s Row antes de levá-lo para casa. Nem sequer considerou entrar na casa dela para cuidar de seus ferim entos, quaisquer que fossem . Assim , quando ela apeou do cabriolé, disse ao condutor para onde levá-lo — não para a casa dele, m as para a de Eustácia — e ainda lhe deu um xelim extra para assegurar que ele acom panharia Max até deixá-lo aos cuidados da sua tia.

 

Som ente ao subir os degraus da entrada de St. Heath’s Row Vitória percebeu que ainda estava vestida de hom em , e o que restara do seu vestido ainda estava na carruagem de Max. Não pareceria tão estranho para Lettender, o m ordom o, que ela chegasse em casa com o sol nascendo, em um cabriolé alugado... m as chegar vestida com o estava certam ente seria m otivo para com entários e olhares curiosos.

Contudo, ela era um a m arquesa, e em bora o austero m ordom o pudesse olhá-la de viés, decerto não ousaria fazer perguntas.

 

A grande questão com a qual Vitória precisava se preocupar naquele m om ento era se Filipe chegara lá prim eiro. Ela bateu na porta, sabendo que a criadagem j á estava em pé; quiçá Lettender ainda estivesse roncando em seu quarto dos fundos. Um dos vice-m ordom os abriu a porta e, pelo olhar de tédio em seu rosto, Vitória soube que chegara em casa antes de Filipe.

Continuar: parte 2 de 3