O Legado da Caça-Vampiro
— Im agino que ele vá dorm…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Im agino que ele vá dorm ir m uito bem após um a noite dessas —
disse Max, docem ente. — Ou talvez você possa aj udá-lo. . com isto. —
Tirou do bolso um pequeno frasco. — Se estiver preocupada de que ele possa acordar e descobrir que a esposa não está lá.
Vitória apanhou no ar o frasco quando ele o j ogou para ela.
— O que é isso?
Mas ela j á sabia. Era um a droga. Max estava sugerindo que ela drogasse seu m arido.
— Cham a-se salvi. Proteção. Segurança. Muito útil.
— A não ser que você sej a pego m inistrando-o e forçado a beber. —
Vitória olhou para o frasquinho e depois para Eustácia, que estivera notavelm ente silenciosa durante o diálogo. Era quase com o se percebesse que sua intervenção seria inútil.
Ela conseguiria drogar Filipe?
Seria necessário?
Se ela não o fizesse, será que ele despertaria para descobrir que ela saíra? Se ela não estivesse na cam a dele, onde se acostum ara a dorm ir nas últim as duas sem anas, ele a procuraria no dorm itório dela?
O líquido era quase transparente, apenas um azul quase im perceptível tingia o fluido sem elhante a água. Ela teria que usá-lo. Para protegê-lo, ela precisaria não apenas m entir para ele.. m as tam bém drogá-
lo.
Pois ela não podia se arriscar a que ele acordasse e se colocasse em perigo novam ente.
Nunca m ais.
* * *
— Estou m e sentindo exausta — m urm urou Vitória no ouvido de Filipe enquanto ocupavam o cam arote que ele alugara, no teatro. —
Preferiria bem m ais estar na cam a... você não? — Ela colocou a ponta da língua no interior da orelha dele, provocando-o, depois se afastou e voltou sua atenção para o palco, com portada, em pertigada e com as m ãos educadam ente dobradas sobre o colo.
Filipe m exeu-se ao lado dela de um a m aneira que m ostrava estar ele tam bém pensando em outras coisas além da peça. . de que ela, por sinal, estava gostando m uito.
— Podem os sair no próxim o intervalo... ah! Que timing perfeito —
adicionou ele, enquanto os atores saíam do palco.
Vitória agarrou-se ao braço dele enquanto abriam cam inho entre o alvoroço das pessoas saindo de seus cam arotes para conversar e serem vistos.
Filipe a colocou na carruagem e entrou depois. Em vez de sentar-se na frente, acom odou-se ao lado dela e a trouxe m ais para perto, beij ando-a, ansioso.
— Minha querida, seu pescoço está tão frio! Você está bem ? -
perguntou ele, afastando-se.
— Não estou com frio, m as, ah, Filipe! Esqueci m inha nécessaire no cam arote, tenho certeza! E o broche da tia Eustácia está dentro. . você poderia correr lá e buscá-lo para m im ?
— Claro, m inha querida. Espere aqui. Não dem orarei nem um m inuto!
Ela torceu para que aquilo não fosse verdade, e esperou até vê-lo entrar correndo no teatro para tirar a estaca de um bolso escondido em sua anágua, e então saiu silenciosam ente da carruagem , para que o cocheiro não a ouvisse.
A entrada estava cheia de gente, m ais cavalariços e cocheiros de cabriolés do que espectadores. Vitória não tinha certeza de onde o vam piro estava, m as seguiu seu instinto e virou a esquina. A rua estava m ais escura lá, e não tão m ovim entada, m as quando se aproxim ou do terceiro cabriolé na fila, percebeu que viera ao lugar certo.
Um gem ido profundo e abafado veio de dentro, e, vendo que o cocheiro não estava lá, Vitória abriu a porta com força.
Era um a vam pira, e parecia ter acabado de se alim entar, ou pelo m enos com eçara. Estava vestindo um a capa preta e seu cabelo m arrom tinha um penteado bonito e com plicado, rem atado com j oias e laços. Na verdade, não fosse pelo sangue verm elho e brilhante escorrendo pelo canto de sua boca, e a coloração esquisita dos olhos, ela pareceria um a inocente senhorita da sociedade, com o a própria Vitória.
— Que bom que veio se j untar a nós — disse ela, cum prim entando a m arquesa. Rápida com o a luz, ela se j ogou para frente e a agarrou. Não foi necessário m uito esforço para puxar Vitória carruagem adentro, sobretudo porque Vitória não resistiu.
Mas um a vez que Vitória estava m etade dentro e m etade fora da carruagem , assum iu o controle e se esparram ou no assento em frente.
Foi quando a vam pira viu a estaca.
Ela recuou, apavorada, e seus olhos verm elhos se dilataram .
— Venadora!
— Prazer em conhecê-la — replicou Vitória, enquanto enfiava a estaca em seu peito.
Puff! Ela se esfacelou, e Vitória ficou sozinha com o hom em que ela presum iu ser o cocheiro, j ulgando pela roupa pouco elegante que vestia.
Ela virou o corpo dele para exam inar a m ordida e determ inar se ele estava vivo e podia ser salvo. A m ordida era profunda e o sangue verm elho brilhante ainda corria. Ela sentiu o outro lado do pescoço dele, tentando achar o pulso. . m as sua m ão voltou m olhada. A vam pira tam bém estivera lá.
Se tivessem saído do teatro m om entos antes, ela poderia ter sentido a vam pira em tem po de prevenir aquilo.
Agora não podia fazer nada pelo hom em . Ele j á estava m orto.
Quando Vitória abriu a porta do cabriolé, congelou, e então a fechou rapidam ente. Filipe estava parado na rua, cham ando por ela.
Maldição dos infernos!
Ela espiou pela j anela, esperando que ele passasse para que ela pudesse sair de fininho e correr de volta para a carruagem deles.
Assim que ele passou pelo cabriolé, ela saiu e correu de volta.. m as assim que virou a esquina, deu-se conta de que estava deixando Filipe sozinho. , onde outro vam piro poderia facilm ente aparecer.
Sua nuca estava m orna, m as ainda assim ela parou na esquina, espiando em volta para protegê-lo.
Para seu alívio, ele voltou e ficou à vista, andando em passos largos com o se voltasse às pressas para procurar noutra direção. Ela chegou até a carruagem , onde Tom , o cocheiro, correu para ela, aliviado.
— Milady! Para onde a senhora foi?
Ela não respondeu, porque naquele m om ento Filipe virou a esquina e conseguiu vê-la.
— Vitória! Aonde você foi? E o que é isso no seu vestido? Isso é sangue? — Ele olhava para ela, estupefato.
— Vam os entrar na carruagem e eu lhe direi. — Já passava das onze, e se ela ia estar pronta para Max, precisavam ir logo.
Filipe aj udou-a a entrar na carruagem e Vitória se sentou, pensando rápido.
— Você achou m inha nécessaire?
— Não, não havia nada no cam arote. Vitória...
— Oh, m eu querido, aqui está! Estava debaixo da alm ofada o tem po todo! — disse ela, pegando sua pequena bolsa. — Desculpe-m e por tê-lo m andado nessa busca inútil.
— Sim , igual à sem ana passada, quando você pensou que tinha deixado seu xale naquela pousada em que j antam os.
— Não posso im aginar com o m e tornei tão desorientada! — disse Vitória, e por reconhecer que havia um lim ite para a paciência dele, bem com o para o tem po em que ele podia ser distraído, ela disse: — Eu não queria assustar você, Filipe, m as vi um a conhecida de m inha m ãe e corri para cum prim entá-la. Acom panhei-a e ao seu m arido até a carruagem , um a ou duas distante da nossa, e ela m e pediu para entrar e cum prim entar a filha deles, e quando entram os, a porta da carruagem bateu no nariz dele, que com eçou a sangrar horrivelm ente. Ele ficou tão constrangido por ter sangrado na m inha saia, que eu não pude sim plesm ente sair correndo..
então fiquei até m e certificar que ele não j á não se sentia tão m al. Lam ento tanto não ter dito a Tom que estava saindo!
— Bem , espero que você não saia de novo correndo por aí sem avisar ninguém . Prim eiro, porque não é seguro; há m uitos canalhas soltos por aí, esperando um a oportunidade de roubar pessoas descuidadas. . e segundo, você agora é um a m arquesa e não apenas tem um a posição a zelar, m as é m uito preciosa e vale um a grande quantidade de dinheiro para alguém nefasto, e m uito m ais para m im . Quero que você estej a segura.
— Claro, Filipe. Não farei um a coisa dessas de novo. — E estava sendo sincera. Da próxim a vez, ela planej aria m elhor.
Eles se abraçaram , com o fazem os recém -casados, pelo resto do cam inho para casa; Vitória planej ando com o daria o salvi a Filipe, e Filipe pensando em com o dar outra coisa a Vitória.
* * *
Era m eia-noite e quinze quando Vitória bateu levem ente no coche de Max.
A porta se abriu e ela entrou sem aj uda. Para sua surpresa, Max, acom odado no canto do assento, nada disse sobre o atraso.
Em vez disso, bateu no teto para que Briy ani seguisse, e a carruagem arrancou.
Vitória sentou-se silenciosam ente no assento oposto ao dele, tentando não pensar em com o tinha traído seu m arido.
Ela colocara o salvi, que Max garantira ser insípido e inodoro, no scotch de Filipe, e então o levara a ele depois que tinham feito am or.
Aninhada no grande colchão de plum as ao lado dele, Vitória fingiu dorm ir enquanto esperava que a droga fizesse efeito.
— Você usou o salvi? — a pergunta de Max a trouxe de volta ao presente.. m as não a distanciou da culpa.
— Sim . Não tinha outra opção para garantir a segurança dele, tinha?
Ele olhou para ela.
— Você teve um a opção, sim , Vitória.., e sabe que eu acho que você fez a opção errada.
A raiva borbulhou dentro dela, transbordando o sentim ento de culpa.
— E você sabe que sua opinião nada significa para m im .
— Um fato que m e fere profundam ente.
— Sabe o que eu acho?
Max inclinou a cabeça, e na luz baixa, ela pôde ver um a sobrancelha se erguendo.
— Tenho certeza de que você está prestes a m e dizer.
Ela continuou:
— Acho que você está com ciúm e. Pura e sim plesm ente com ciúm e, e é por isso que não tem nada agradável para dizer.
— Ciúm e?
— Sim , ciúm e do que eu tenho com Filipe! O que você não tem e nunca terá, porque você é frio e cruel! — As palavras saíram aos tropeços, quase com o se ela não soubesse o que estava dizendo; m as ela sabia, e sabia que queria feri-lo, assim com o ele a ferira esfregando sal em seu j á frágil coração. Seu culpado e frágil coração.
Ela tinha m edo de com o se sentia, o poder das em oções que se m isturavam dentro dela, porque tem ia, lá no fundo, que talvez Max estivesse certo no fim das contas.
Talvez ela tivesse com etido um erro.
Max sentou-se com o um a pedra pelo resto da viagem até o Parque Vauxhall.
Quando chegaram , ele deu instruções ao cocheiro, pagou os quatro xelins para que ele e Vitória entrassem no parque e, com a m ais ínfim a das olhadas de relance nela, pôs-se a cam inhar pelo sinuoso cam inho.
Lâm padas laranj as, azuis, am arelas e verm elhas ilum inavam os j ardins, deitando círculos coloridos pela trilha de pedra e sobre os quiosques que ofereciam fatias de presunto, biscoitos e ponche. Em bora nunca tivesse estado naquele parque antes, ela sabia que havia alcovas escondidas e grutas m isteriosas por ali, o lugar perfeito para um encontro, ou para um ataque vam piresco. Pessoas passeavam por lá, casais, grupos de j ovens com algum adulto responsável por eles, bandos de rapazes procurando aventura. A queim a de fogos havia term inado trinta m inutos antes, e os frequentadores estavam com eçando a voltar para suas carruagens.
Não dem orou m uito para que a nuca de Vitória gelasse. Havia no m ínim o dez vam piros nos arredores, foi seu palpite. Ela havia colocado calças e um a cam isa m asculina, precisando da liberdade de m ovim ento.
Max ia na frente, e no m om ento em que Vitória achou que sua nuca j á estaria branca com o gelo, eles deram com um grupo de quatro m ortos-vivos brincando com sete rapazes.
Talvez tanto Vitória quanto Max tivessem um a quantidade igual de raiva para descarregar, porque a batalha foi curta e praticam ente aconteceu só de um lado... os quatro vam piros foram em palados antes m esm o que suas vítim as pudessem correr para tentar escapar.
Já que apenas algum as presas tinham sido arreganhadas, e os sete rapazes estavam bêbados, Max não viu necessidade de lim par-lhes a m em ória com hipnotism o. Em vez disso, urgiu Vitória a segui-lo por um cam inho m ais escuro.
Enquanto contornavam um arbusto alto e espesso, três vam piros pularam sobre eles. Um deles estava carregando um a faca, e antes que pudesse reagir, Vitória sentiu um a dor quente e aguda no braço esquerdo.
Com um grito de fúria, ela ergueu o braço direito e enterrou a estaca no peito dele. Ouviu os dois suaves estalos quando Max despachou os outros, virou-se e continuou percorrendo a trilha sem dizer um a palavra.
Seu braço queim ava e ao tocá-lo ela percebeu que a m anga da j aqueta estava úm ida. A única coisa boa daquela ferida é que o cheiro de sangue atrairia outros vam piros, tornando bem m ais fácil para ela e para Max term inarem o seu trabalho e voltarem para a carruagem .
E Vitória de volta para a cam a com seu m arido, que dorm ia pacificam ente e sem sonhos, graças à sua inescrupulosa esposa.
A raiva consigo m esm a aj udou a im pulsionar seu braço de ataque, durante os dois outros curtos incidentes; ela e Max foram eficientes e silenciosos enquanto liquidavam o m agote de vam piros que se atrevera a invadir o Parque Vauxhall num a noite em que eles dois patrulhavam .
No cam inho de volta para a carruagem de Max, Vitória segurou seu braço ferido, que latej ava e ardia, irradiando dor até o om bro. Cam inhava atrás de Max, que não se dava o trabalho de dim inuir seus passos largos em consideração aos passos curtos dela.
Só depois que j á estavam dentro da carruagem , cada um no seu canto, ele a viu segurando o braço. Ele bateu no teto e assim que a carruagem arrancou, ele perguntou:
— Qual é o problem a com o seu braço? — Antes que ela pudesse responder, ele cheirou o ar, estendeu o braço e afastou a m ão dela. — Você está sangrando por cim a da j aqueta!
— Funcionou m uito bem para atrair os vam piros. Term inam os bem antes do que eu pensei.
— Tire essa j aqueta. Você está sangrando toda, e provavelm ente no m eu assento tam bém .
Vitória olhou feio para ele, m as tirou a j aqueta. Doeu com o o inferno quando ela puxou a apertada m anga sobre o braço, e quando se abaixou para puxar o outro lado. A m anga branca de sua cam isa estava escura com o sangue do om bro até o cotovelo. Max deu um a olhada sob a luz baixa e praguej ou.
— Maldição, Vitória! Por que você não disse algum a coisa? Com o isso aconteceu?
— Um daqueles três que pularam das árvores tinha um a faca e m e pegou de surpresa.
Max continuou praguej ando baixo enquanto vasculhava um a pequena gaveta em baixo de seu assento. Recostou-se de volta segurando um rolo de pano branco, um pequeno j arro e um a faca.
Com m ovim entos rápidos e irritados, ele passou a lâm ina pela m anga, cortando do om bro até o punho e arrancando o pedaço para desnudar-lhe o braço.
— Não se m exa. — Ele enxugou o sangue com um pouco do tecido e, apertando-o, disse: — Mantenha isto aqui por um m inuto. Está com eçando a dim inuir.
Ela segurou o pano ali enquanto ele abria o j arro. O cheiro de alecrim e algum a outra coisa que ela não pôde identificar im pregnou a carruagem , e quando Max puxou o pano, ela perm itiu que sua m ão desocupada caísse sobre seu colo.
— Segure isto — disse ele, j ogando o j arro na m ão aberta dela. Ele em bebeu o pano rudem ente no j arro e aplicou um pouco do unguento frio e grosso sobre o corte, depois am arrou tiras de pano não m uito gentilm ente ao redor do braço de Vitória. Ela sentiu seus dedos com eçarem a form igar quando a circulação foi bloqueada, m as não disse nada.
Por fim , quando estavam se aproxim ando de St. Heath’s Row, Max colocou o pano não utilizado e o j arro de volta na gaveta e acom odou-se em seu assento.
— É m elhor com eçar a pensar num a boa história, Vitória, porque você vai passar por m aus bocados tentando explicar isso ao seu m arido.
22
Incidente em Bridge & Stokes
Filipe j á encontrou sua esposa sentada para o café da m anhã quando desceu as escadas, na m anhã seguinte à ida deles ao teatro. Sentia-se tonto e vagaroso, em bora tivesse dorm ido até m ais tarde que o norm al, depois de um a satisfatória rodada de sexo.
— Bom dia, m inha querida — disse ele, respirando o arom a do toucinho defum ado crocante e dos ovos à copa. Estavam sozinhos na sala de j antar; ele se inclinou, beij ou o pescoço dela e disse calm am ente: —
Fiquei m uito desapontado ao não encontrar você na m inha cam a. Por que se levantou tão cedo?
— Acordei cedo e não quis perturbá-lo — replicou ela. Mas os círculos escuros em baixo de seus olhos contavam um a história diferente.
— Devo ter dorm ido com o um a pedra para não ouvi-la levantar —
com entou ele, enchendo o seu prato e se perguntando por que a expressão dela parecia tão reservada. — Não consigo lem brar nem de m e m exer após deitar m inha cabeça no travesseiro; aliás, acho que acordei exatam ente na m esm a posição em que m e deitei. Isso não costum a acontecer com igo.
Deve ser culpa sua. — Disse isso levem ente, brincalhão, m as Vitória não pareceu achar graça.
Ela tom ou um gole de chá e pareceu ter dificuldade em engolir um pedacinho de torrada. Filipe sacudiu a cabeça; ele ainda se sentia grogue.
Talvez sua piadinha não tivesse sido tão engraçada quanto ele pensava.
— Está com frio? — perguntou ele, tentando outra abordagem . —
Eu estou com calor, e você está usando um a m anta.
— Sim , estou com um pouco de frio. — replicou Vitória. Mas suas bochechas estavam rosadas e, se ele não se enganava, havia um pequeno brilho em sua testa.
— Você não está se sentindo bem ? — ele perguntou.
— Não, na verdade não estou lá essas coisas.
Um pensam ento ocorreu a Filipe; um pensam ento m aravilhoso. Mas era cedo dem ais... havia só duas sem anas. Mas ele falou, m esm o assim :
— Talvez. . será possível que você estej a carregando o m eu herdeiro? Sei que faz apenas algum as sem anas, m as. .
Vitória olhou para ele de seu lugar, o rosto pálido e os olhos castanhos arregalados, em choque.
— N-não... acho que é cedo dem ais Filipe.
Ele sorriu.
— Então terem os que nos esforçar m ais.
— Não estou m e sentindo bem — disse Vitória, levantando-se abruptam ente. — Acho que vou m e deitar um pouco. Você vai a seu clube, hoj e?
— Tenho alguns negócios para tratar. . m as se você não está se sentindo bem , Vitória, eu ficarei por perto.
— Não. Não, Filipe, eu vou ficar bem . Só preciso de algum descanso.
Não dorm i tão bem quanto você ontem à noite.
Ele a viu sair apressadam ente da sala, e notou algo m uito estranho.
Ao cruzar a porta, ela esbarrou o braço esquerdo na beirada. A m aneira com o o apertou e arquej ou deu a ele a im pressão de algo bem m aior que a dor de um a sim ples batidinha. Algo m ais estava errado.
* * *
Santo Deus! Um bebê! Filipe queria um bebê!
Vitória tom bou na cam a do seu aposento privado, esquecendo-se e caindo sobre o lado esquerdo, depois virando-se quando a dor queim ou-lhe o braço.
Ela não podia ter um bebê. Não podia continuar drogando seu m arido todas as noites que tivesse que sair escondida para patrulhar. . Não podia continuar ―esquecendoǁ coisas e m andando-o de volta para buscá-las.
Não podia continuar inventando histórias ridículas sobre narizes que sangravam para explicar o sangue em sua saia. Não podia continuar tirando seu vis bulla cada vez que faziam am or.
Com o ia fazer isso?
Ela podia lhe dizer a verdade.. m as se fizesse isso, ele sim plesm ente a seguiria. Colocar-se-ia em perigo de novo.
Ou pior: ele pensaria que ela estava louca.
A porta se abriu e Vitória ergueu-se de um salto, m as não era Filipe.
— Ora, ora, milady, qual que é o pobrem a? — Era Verbena. Com o cabelo laranj a m exendo-se a cada m ovim ento, ela se aproxim ou da cam a e se sentou ao lado da patroa. — É o seu braço doendo de novo?
— Não, depois que você o lim pou ontem à noite, ele quase não doeu m ais, a não ser quando esbarrei na porta. É o m arquês.
Verbena assentiu com a cabeça.
— Ah, sim , tô vendo. Eu vi que a sinhora tem que tirar seu vis bulla à noite. Ele não entende, e a sinhora não pode contá pra ele. O que é que a sinhora fez para ele dorm ir tão bem ? Franks m e contô que não conseguiu acordá ele hoj e de m anhã!
Vitória balançou a cabeça. Ninguém m ais deveria saber daquilo.
— É m elhor eu não falar disso. Mas o m arquês quer um herdeiro.
— Claro que ele quê. Mas a sinhora não pode ficá por aí lutando com vam piro se tivê grávida de um bebê! A sinhora vai tê que fazê de tudo pra isso não acontecê.
— Eu não posso negar isso a ele!
— Nem precisa! Tem outras m aneira de num tê bebê, milady. Sua tia deve sabê com o é que os Venadô faz pra m ódi num tê bebê. — Verbena balançou a cabeça sabiam ente. — Eu m esm a cunheço uns truque, m ilady.
Se a sua tia num pudé aj udá a sinhora, eu aj udo.
Vitória concordou, sentindo-se um pouco aliviada, m as ao m esm o tem po com o se estivesse se afundando ainda m ais num lam açal de m entiras e dissim ulação.
Talvez tia Eustácia tivesse algum as palavras de sabedoria.
* * *
Para alívio de Vitória, o sem pre presente Max não estava na casa de tia Eustácia quando ela chegou, m ais tarde, naquela m anhã. Kritanu serviu-lhes um a refeição leve e então desapareceu discretam ente quando ficou óbvio que Vitória não estava lá para praticar kalaripayattu.
— Com o está seu braço? — perguntou Eustácia. Aparentem ente, Max estivera lá.
— Está bem .
— Vai sarar bem rápido; o unguento de Max é m ilagroso e você carrega a proteção do seu vis bulla.
Vitória com eu um pedaço de queij o, pensando em com o dizer à tia que não estava segura de que poderia seguir em frente. Que ela precisava m udar algo em relação a ser um a Venadora.
— Tia Eustácia, eu preciso do seu conselho. Não sei o que fazer.
— É bem m ais difícil do que você pensou que seria, não é cara?
— Filipe quer um herdeiro, e eu não posso dar-lhe salvi todas as noites!
A anciã assentiu com a cabeça, o cabelo negro brilhando com o a noite.
— Você está num a situação m uito difícil, Vitória. Quanto ao bebê, bem , isso se previne com facilidade. Estou surpresa de que você não tenha perguntado sobre isso antes.
Ela nem respondeu. Sua tia estava certa.
— Vou lhe dar um tônico. Se você o beber regularm ente, não engravidará. Vitória...
O m odo com o ela disse fez com que Vitória a fitasse.
— Lilith não esqueceu que você e Max pegaram o Livro de Antwartha. Sei que ele está escondido em segurança em St. Heath’s Row, m as Lilith não vai descansar enquanto não se apossar do livro. Pode parecer que nos últim os dois m eses, atividade dos m ortos-vivos dim inuiu.
Pode parecer que você não é necessária; que Max e eu podem os lidar com quaisquer am eaças que apareçam . Mas não se iluda. Você é um a Venadora e foi m arcada com o tal para sem pre. Nunca se esqueça que você im pingiu a Lilith um a grande derrota, pois ela não esquecerá. E não descansará enquanto não tiver se vingado.
* * *
A m oda noturna não tinha a tendência de esconder os ferim entos no braço de alguém , por isso Vitória viu-se em um dilem a naquela noite.
Verbena a aj udou a colocar o par de luvas m ais longo que ela possuía, luvas cor de m elão que se estendiam até depois do cotovelo, m as ainda deixavam um a boa parte da pele à m ostra, graças às m angas finas e bufantes que m al lhe cobriam os om bros.
— A sinhora vai tê que ficá com o xale nos braço o tem po todo —
riu Verbena. O curativo fora rem ovido; e, com o dissera Eustácia, o corte j á desinchara e com eçava a cicatrizar. Mas o longo talho verm elho ainda era bastante visível, de m odo que Vitória em balou seu braço esquerdo com o xale duas vezes, deixando o resto atravessar suavem ente a sua coluna e descansar sobre seu braço direito. — Num tire o xale do braço de j eito m aneira!
Filipe m andara dizer que estaria no seu clube à noite e não poderia com parecer ao j antar dançante ao qual se esperava que Vitórj a desse o ar de sua graça. Ela considerou não ir, m as sentiu que seria m elhor com parecer pelo m enos por um pouco de tem po, para agradar à sua m ãe, e voltar para casa antes da m eia-noite.
Foi, portanto, com grande surpresa que, ao deixar a pista depois de um a dança típica do cam po, ela viu Max cruzando o salão na direção dela.
Vitória pediu licença ao seu parceiro de dança, o filho m ais m oço de um conde, e foi ao encontro dele.
— Sei que você não veio aqui para confraternizar com a nata da sociedade — disse ela à guisa de saudação.
— Os esbirros de Liith entraram em ação. Haverá outro ataque em grupo esta noite — disse ele, olhando em volta. — Não desej o estragar sua noite, m as você provavelm ente salvaria algum as vidas se m e acom panhasse. Você tem com o fugir daqui?
— Sim , claro. – Ela j á estava se dirigindo à entrada principal da casa.
— Não estou vendo o m arquês. Você não precisa lhe dizer que está saindo?
— Ele não está aqui esta noite.
Max acom panhava facilm ente os passos dela enquanto galgava o lance de escadas.
— Onde ele está?
— No clube dele.
— Qual clube é?
— Bridge & Stokes, eu acho, em bora não entenda por que isso im porta a v.. o que foi?
Ele agarrara o braço dela, quase a levantando perto do topo da escada. O m ordom o olhou-os com curiosidade, m as ela o ignorou porque quando Max a fez virar-se e encará-lo, a expressão do rosto dele fez o estôm ago dela afundar.
— O ataque de hoj e será em um clube privado de cavalheiros.
Max não precisou dizer m ais nada: ela j á estava esbarrando no m ordom o perplexo e abrindo cam inho em m eio às pessoas que estavam chegando.
Ele a alcançou do lado de fora, onde ela tentava distinguir a carruagem de Rockley na longa fila de veículos ao redor do cam inho circular. Não havia tem po para esperar pelo criado para ir buscá-la.
— Tem certeza de que quer vir? E se Rockley reconhecer você?
— Eu vou.
— Então entre aí. — Ele escancarou a porta de um a carruagem negra, um a que ela conhecia m uito bem , e deu a m ão para que ela subisse.
Vitória aj eitou-se em seu assento, e m al tinha se acom odado quando o coche arrancou. Suas longas saias estavam em aranhadas entre as quatro pernas deles, e seu xale tinha escorregado, m ostrando o corte no braço nu.
— Tom e. — Max j ogou-lhe um grande em brulho de pano, e quando ela o abriu, encontrou um a cam isa, calças, um paletó e um a longa tira de pano. — Verbena m e deu quando fui procurar você.
Vitória olhou para o em brulho e de volta para Max.
— Você não pode lutar com um vestido de baile, Vitória, e não precisa fingir recato com igo. Não tenho qualquer interesse em ver você tirando a roupa num a carruagem , ao contrário do seu am igo Sebastian, que provavelm ente lhe ofereceria aj uda. — Com isso, ele recostou a cabeça no topo de seu assento e fechou os olhos. Quando percebeu que ela não se m exia, disparou: — Ande logo com isso!
Não era fácil tirar aquele vestido; Vitória se debateu e conseguiu soltar os ganchos de cobre que prendiam seu corpete por trás. Quando ela puxou o vestido por cim a da cabeça, o tecido form ou um a nuvem de gaze por todo o interior da carruagem , roçando o rosto estoico de Max; m as ele não se m exeu e nem deu qualquer indicação de que havia notado.
Sem o vestido, Vitória traj ava apenas um a cam isa leve de m ulher e espartilho. Era im possível desabotoá-lo sem aj uda, então ela colocou a cam isa m asculina sobre a apertada roupa de baixo e com eçou a abotoá-la desaj eitadam ente.
Eles não fechavam sobre seu generoso busto, erguido e esprem ido com o estava. Vitória deve ter feito um ruído de frustração, pois Max disse:
— Precisa de aj uda? Lam ento tanto não ter pensando em trazer sua criada.
— Só um m inuto. — Ela teria que tirar o espartilho e am arrar os seios para poder fechar a cam isa. Por um m om ento ela considerou ficar de vestido.. m as seria ridículo. Não só ela não seria capaz de lutar, com o se destacaria inaceitavelm ente no clube. Isso se conseguisse entrar.
Ela se virou no assento, m ostrando o m áxim o possível de suas costas para Max.
— Você poderia... eu não posso desabotoar... m eu espartilho.
Houve um a pausa, e então ela o ouviu se m exendo atrás dela. Ele levantou a parte de trás da cam isa m asculina e ela resistiu ao ím peto de puxar os dois lados da cam isa na frente. Se o fizesse ele não poderia pôr as m ãos por baixo e desabotoar o espartilho.
Suas m ãos foram rápidas e im pessoais, e ele conseguiu m ovê-las por debaixo da cam isa e afrouxar os laços do espartilho, do topo até a base. Ela ficou esperando sentir os dedos dele — estariam quentes ou frios? —
tocarem sua pele, m as não tocaram .
Vitória sentiu a vestim enta se abrindo assim que cada laço era afrouxado, e ela o segurou no peito enquanto ele caía pelas costas. Ao term inar, Max não prolongou a coisa. Ela o sentiu se afastando, e ouviu quando ele se acom odou em seu assento, sem dizer um a palavra.
Vitória se envolveu com a tira de roupa que Verbena inteligentem ente providenciara, constrangida e apressada, perm itindo que a cam isa escorregasse quase com pletam ente pelos om bros enquanto o fazia. Seu braço ferido doía com o ângulo estranho, m as ela não pretendia m ais pedir qualquer aj uda a Max.
—Você j á está acabando? Estou ficando com torcicolo.
— Quase. — Os botões se confundiam sob seus dedos por causa da pressa, m as ela conseguiu abotoá-los. Colocou as calças, e sacudiu-se para dentro do paletó.
— Há sapatos no chão — disse Max, ainda sem se m exer.
Finalm ente ela term inou.
— Estou pronta. Obrigada.
Max abriu os olhos.
— Você tem que fazer algum a coisa com o seu cabelo.
Vitória tirou as presilhas das intricadas m adeixas e cachos que Verbena dem orara um a hora preparando, e sabia que sua única opção era soltá-los e j ogá-los para trás.
— Você tem algum a coisa com que eu possa prendê-los? —
perguntou ela, usando os dedos para segurá-los em um rabo que descesse de sua nuca.
Max, que parecia preparado para qualquer eventualidade, tirou um a corda fina de couro debaixo do m esm o assento onde arm azenava o unguento, e, m andando que ela se virasse, aj udou-a a prendê-lo e trançá-lo.
Seus dedos se encontraram e os dedos frios dele tocaram a nuca de Vitória enquanto ele a aj udava a enfiar a longa trança dentro da parte de trás da cam isa.
Quando term inaram , a carruagem parou.
— Chegam os — disse Max, enfiando um chapéu na cabeça dela. —
Se Rockley vir você, a brincadeira acabou. Do contrário... você pode passar por hom em .
Caía por terra a opinião de Sebastian de que ela era incapaz de ocultar o seu sexo quando vestia roupas de hom em .
Max j ogou três estacas para ela, e enquanto ela as enfiava em seu paletó, viu-o colocar um a arm a no bolso e um pequeno punhal na bota. E
então o seguiu para fora da carruagem .
Vitória m al tivera a chance de se perguntar com o é que Max pretendia ter acesso a um clube privado de cavalheiros que exibia a pequena e discreta placa ―Bridge & Stokesǁ quando ele abordou o porteiro.
— Convidados do m arquês de Rockley — disse-lhe, friam ente.
Vitória subiu os degraus para ficar ao lado dele. Seu pescoço ainda estava quente.
O porteiro perm itiu que eles entrassem no vestíbulo do estreito edifício, efetivam ente passando-os para o m ordom o.
— Posso aj udá-los?
— Som os convidados do m arquês de Rockley — repetiu Max. —
Maxim iliano Pesaro e acom panhante.
Vitória quis chutar Max. O que diabos ele estava fazendo? Se Filipe a visse.. Mas quando o m ordom o se virou, ostensivam ente para cham ar Filipe, Max a em purrou de m aneira nada delicada em direção à espiral de escadas que subia da entrada para um balcão no andar de cim a.
— Vou tirar Rockley daqui; suba lá e vej a o que consegue encontrar
- disse-lhe em voz baixa.
Ela subiu as escadas correndo, e estava sum indo de vista quando ouviu o m ordom o voltar. As vozes lá em baixo eram confusas, m as então ela escutou o tom de voz de Max elevando-se o suficiente para que ela o ouvisse dizer: ―Ele está lá em cim a? Então vou subir e encontrá-lo eu m esm o, obrigadoǁ
Vitória chegara ao topo da escada e então ficou paralisada. Ouviu Max subindo em seu encalço, repetindo ao m ordom o que localizaria o m arquês sozinho.
E assim que Max chegou ao topo, encarando-a, duas coisas aconteceram . Um a das portas no corredor que dava para o balcão se abriu e Filipe apareceu... e Vitória sentiu com o se colocassem gelo em sua nuca.
Ela olhou para Max e os dois se m overam ao m esm o tem po: Vitória virou-se e saiu pelo corredor na direção oposta enquanto Max rodopiava para encarar Rockley, que parou quando o reconheceu. Estava com outro hom em , que parecia aborrecido.
— Pesaro? Não sabia que você era um m em bro aqui. —Não havia cordialidade na sua voz ou em seu rosto; ele claram ente não acreditava que Max devia estar ali.
— Não sou. Vim a pedido de Vitória. Ela m e disse para pedir a você que volte para casa.
Vitória, distante dali e escondida atrás de um a porta aberta, quase engasgou com a audácia dele.
Foi gratificante, de certa form a, ouvir o pânico de seu m arido ao replicar:
— Ela está doente? Está ferida?
— Creio que vai ficar bem , m as ela desej a vê-lo com a m aior urgência.
Teria dado certo. Deveria ter dado certo, para tirar Filipe do clube antes que os vam piros atacassem , m as eles chegaram um pouco tarde dem ais.
Vitória sentiu o gelo aum entar em sua nuca de m aneira tão repentina que se enrij eceu pela surpresa. Ainda escondida na soleira da porta, ela puxou um a das estacas de seu bolso no m om ento em que o acom panhante do seu m arido abriu a boca.
Ela viu o brilho das presas brancas, e o lam pej o súbito de verm elho nos olhos dele. Felizm ente, o som que ela fez cham ou a atenção de Filipe para ela, e deu a Max a oportunidade de enfiar sua própria estaca no vam piro atrás dele.
Filipe, que olhava inquisitivam ente para Vitória, passos em direção a ela e não pareceu ouvir o puf .
— Eu conheço você? — perguntou, incerto.
Vitória, cuidando para m anter sua cabeça escondida baixo do chapéu, sentiu a presença de outro vam piro.
— Rockley, saia daqui! — disse Max, irritado. — Vá para casa ver Vitória. Ela está esperando por você!
Por sorte, ele desviou a atenção de Filipe, e então um grito e um a altercação vindos de baixo com pletaram a distração.
— Mas que diabos? — Filipe virou-se e com eçou a descer a escada, com Max em seu encalço, m al tocando os degraus.
Vitória observou os dois hom ens descendo e sabia que Max garantiria a segurança de Filipe. Isso deixava o segundo andar sob sua responsabilidade.
Ela se apressou pelo corredor, escancarando portas em busca dos três vam piros que sentia estarem por perto. Ela encontrou um , que com eçava a seduzir sua pretendida vítim a com um j ogo de cartas, e quando entrou na sala, ele m al teve a chance de m ostrar seu j ogo antes de ser em palado.
Os sons de lutas e gritos vindos de baixo a fizeram se apressar ainda m ais. Max estava em grande desvantagem , se a sensação em sua nuca fosse precisa, e era sem pre. Ela precisava encontrar m ais dois naquele andar e então podia descer para aj udar.
Eles a encontraram antes, vindo pelo corredor, roçando om bros. E
pareceram reconhecê-la.
— Lá está ela! — grunhiu um deles e de repente estava do lado dela, agarrando seu braço. Vitória se agachou e j ogou-se contra as pernas dele, derrubando-o no chão no m om ento em que o outro se acercava.
Usando toda a força de suas pernas, Vitória arrem essou o segundo vam piro sobre o prim eiro, e levantou-se de um salto. Com um a estaca em cada m ão, ela as rodopiou e cravou, um a, duas, em seus peitos.
Ela correu até as escadas e parou para dar um a olhada no tum ulto lá em baixo. Max estava no centro da sala usando um atiçador de brasas para m anter a distância o que pareciam ser dois Guardiões e um Im perial. Três outros vam piros esperavam por sua vez, im possibilitados de se aproxim ar e participar da briga. Gotas escuras de sangue voavam a cada m ovim ento de Max; ele obviam ente estava ferido em algum lugar.
Não havia outros hom ens à vista. Presum ivelm ente, os m em bros do clube haviam se retirado.. ou j aziam inconscientes em algum lugar dos fundos. Filipe não estava em lugar nenhum .
Vitória saltou a balaustrada e aterrissou, conform e planej ara, em cim a de dois vam piros. Eles se esparram aram no chão antes que ela tivesse a oportunidade de em palar um deles; então, com um a cam balhota, ela rolou e se levantou. O barulho de m etal no chão atraiu sua atenção, e ela viu que a espada do Im perial havia caído quando Max enterrou-lhe a estaca.
Ela agarrou-a do chão e, girando-a para trás e para os lados, decapitou um Guardião com um a única investida. Ele se pulverizou e ela se virou para Max, que m antinha com facilidade os três outros vam piros a distância. Quando Vitória foi na direção deles, um dos três a viu e saiu correndo pela porta da frente. O deixou escapar, pois assim poderia checar as salas dos fundos para se assegurar de que não havia outros vam piros..
ou vítim as. Sua nuca j á esquentara e ela não esperava encontrar qualquer outro m orto-vivo.
Ela encontrou quatro cavalheiros que obviam ente estavam j ogando faraó antes de perderem a batalha para um vam piro ou dois.
Vitória não tinha visto os resultados de m uitos ataques vam píricos; na sua lim itada experiência, ela frequentem ente im pedira que eles acontecessem . Mesm o o cocheiro do cabriolê, duas noites antes, fora m ordido, m as não destruído e m utilado com o tinham sido estes quatro hom ens.
Seu estôm ago em brulhou enquanto ela cam inhava pelo salão de j ogo. Havia sangue por toda parte, em pesteando o aposento com seu fedor brutal. Cam isas e paletós em retalhos; peitos e pescoços rasgados e abertos com o se um cão raivoso houvesse atacado os hom ens com dentes e garras.
A ferida escancarada de um hom em ainda exibia o azul acinzentado e retorcido das veias e m úsculos de seu pescoço aberto.
Vam piros haviam se alim entado neles, m as tam bém os haviam destruído.
— ―Não há fúria no inferno...ǁ
Vitória se virou. Max parecia exausto, e seu rosto m oreno estava tão pálido quanto sua pele olivácea perm itia. Três m anchas escuras coloriam seu paletó negro. Tinha um a estaca na m ão.
— Presum o que a m ulher de que você fala é Lilith — replicou ela, orgulhosa por sua voz estar firm e.
— Cham á-la de m ulher é um pouco de exagero, m as sim , eu diria que esta é a m ensagem dela para nós.
— Pegam os todos os vam piros com exceção daquele que saiu correndo. Haverá vítim as que ainda podem ser salvas?
Max sacudiu a cabeça.
— Filipe?
— Ele j á foi. Mandei-o para casa em m inha carruagem , que nenhum vam piro se atreverá a atacar. Briy ani sabe o que fazer. Ele vai dirigir por algum as horas antes de levá-lo de volta a St. Heath’s Row. Disse a ele que desse a Filipe um pouco de salvi; você chegará em casa antes do seu m arido, então pode contar a ele a história que quiser. — Sua voz soava fatigada.
— Max, você parece que vai cair.
— Já estive pior. Vam os sair daqui antes que os policiais cheguem .
Não quero ter que lim par a m ente deles tam bém , hoj e.
Os dois saíram j untos na noite estrelada, sem luar. Era um a noite tranquila, m orna e as ruas estavam praticam ente vazias. Nada indicava que um a chacina acabava de ocorrer naquele edifício estreito, de tij olos, atrás deles.
23
A verdade vem à luz
Max não deixou Vitória cuidar de suas feridas. Ele rosnou para ela quando ela tentou tirar-lhe a j aqueta para vê-las, então ela desistiu e se acom odou no assento puído do cabriolé que eles foram obrigados a alugar para levá-los a suas casas.
O horizonte com eçava naquele m om ento a se colorir de um tênue cinza-am arelado da aurora im inente. Vitória respirou aliviada. Não teria m ais que lidar com vam piros até a noite seguinte.
Agora só teria que lidar com seu m arido.
Apesar de estar cada vez m ais acinzentado e respirando com difilculdade, Max insistiu que o cabriolé deixasse Vitória em St. Heath’s Row antes de levá-lo para casa. Nem sequer considerou entrar na casa dela para cuidar de seus ferim entos, quaisquer que fossem . Assim , quando ela apeou do cabriolé, disse ao condutor para onde levá-lo — não para a casa dele, m as para a de Eustácia — e ainda lhe deu um xelim extra para assegurar que ele acom panharia Max até deixá-lo aos cuidados da sua tia.
Som ente ao subir os degraus da entrada de St. Heath’s Row Vitória percebeu que ainda estava vestida de hom em , e o que restara do seu vestido ainda estava na carruagem de Max. Não pareceria tão estranho para Lettender, o m ordom o, que ela chegasse em casa com o sol nascendo, em um cabriolé alugado... m as chegar vestida com o estava certam ente seria m otivo para com entários e olhares curiosos.
Contudo, ela era um a m arquesa, e em bora o austero m ordom o pudesse olhá-la de viés, decerto não ousaria fazer perguntas.
A grande questão com a qual Vitória precisava se preocupar naquele m om ento era se Filipe chegara lá prim eiro. Ela bateu na porta, sabendo que a criadagem j á estava em pé; quiçá Lettender ainda estivesse roncando em seu quarto dos fundos. Um dos vice-m ordom os abriu a porta e, pelo olhar de tédio em seu rosto, Vitória soube que chegara em casa antes de Filipe.