O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 3 de 4 · parte 1/3

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O Legado da Caça-Vampiro

— Sua tia e seu prim o…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Sua tia e seu prim o não pareceram felizes com a novidade — disse Filipe, depois de terem dançado por algum tem po e j á em m eio a outros casais.

 

— Creio que você sim plesm ente os pegou de surpresa com a notícia.

 

Eles expressaram profunda em oção depois que você se retirou.

 

— Pensei que talvez quisessem com parecer hoj e à noite para celebrar conosco. Lam ento que não tenham aceitado o convite para se j untarem a nós aqui em St. Heaths Row.

 

— Tia Eustácia j á não freqüenta m ais a sociedade com o antes —

 

replicou Vitória. — Ela voltou da Itália há apenas quatro anos e não conhece m uita gente. E Max. . ele prefere não freqüentar eventos com o estes. Assim com o você.. até recentem ente.

 

— Não posso culpar seu prim o por isso; apesar de que se eu soubesse que encontraria você, teria evitado as casam enteiras m uito antes.

 

— Um a idéia adorável, Filipe, m as não posso concordar. Você sabe que tenho freqüentado m uito pouco a sociedade nos últim os dois anos, desde que estou enlutada pelo m eu avô e pelo m eu pai. Se você tivesse com eçado a procurar naquela época, eu teria perdido você antes de encontrá-lo.

 

— Nunca. Vitória, não teria havido ninguém para m im , a não ser você. — Ele suspirou, sorriu e continuou. — Acho que é hora de eu fazer outra confissão.

 

Com o da prim eira vez, ela arqueou um a sobrancelha.

 

— Outra?

 

— Outra. A últim a, Vitória, portanto aproveite. — Ele abaixou a cabeça e olhou para ela. — A razão pela qual m e coloquei à m ercê da sociedade este ano é porque eu sabia que você tinha saído do seu período de luto. Eu queria encontrar a m enina que conheci há tanto tem po e ver se ela havia se tornado a m ulher que prom etia ser. Isso aconteceu, e eu m e apaixonei por ela.

 

Quando ele a olhava daquele j eito, com os brilhantes olhos azuis tão firm es e decididos, ela sentia que nada existia de m ais seguro do que Filipe e sua presença. Era com o se o m undo dos vam piros, de Lilith, e do Livro de Antwartha não existisse num m undo em que ela e Filipe viviam .

 

Mas, é claro, isso não podia ser. Ela j á sabia que esses m ales existiam . Ela j á lutara contra eles, e fora bem -sucedida.

 

Em bora não pudesse ignorá-los, e nem ser hipnotizada para esquecê-los com o sua m ãe fora, Vitória sabia que conseguiria sobreviver a esse m undo dividido enquanto tivesse Filipe esperando-a do outro lado.

 

* * *

 

— Max, não m e recordo a últim a vez que o vi tão perturbado.

 

— Perturbado? Essa é um a palavra educada dem ais para descrever o que estou sentindo! — respondeu ele a Eustácia. Ele vinha rem oendo aquilo desde o dia anterior, quando Rockley anunciara alegrem ente a novidade em Grantworth House.

 

— Vitória não pode se casar. . e ainda por cim a com um m arquês! O

 

que ela tem na cabeça?

 

— Não discordo de você, Max, m as o fato é que não existe lei contra um Venador se casar, sej a com um m arquês ou não.

 

— Não há lei, m as há bom senso. Que ela aparentem ente não tem .

Eustácia não se m overa de sua cadeira, m as a despeito de suas palavras calm as e calculadas, Max leu a preocupação no seu rosto sem idade.

 

Ela podia não ralhar ou andar de um lado para outro com o ele, m as, conform e adm itira estava tão descontente quanto ele.

 

— Tem os o Livro de Antwartha — ele continuou. — E adm ito que ela desem penhou um papel bem m aior do que eu esperava em sua obtenção. . m as ela provavelm ente acredita que agora todas as am eaças acabaram , j á que tem os o Livro, e ela não precisa m ais brincar de ser Venadora.

 

Ele dava piparotes na estaca preta e polida que acabara de tirar de seu bolso oculto predileto.

 

— É exatam ente do que eu suspeitava quando ela foi cham ada; que acharia excitante e divertido por um tem po, e depois enj oaria — ele prosseguiu. — E depois ia querer voltar a seu m undinho de pretendentes recitando poesias, falbalás rosados e cartões de dança. É por essa razão que m ulheres não devem ser Venadoras. Com exceção de você, Eustácia, claro, j á que você é sem pre a exceção que prova a regra. — Fez um a pequena m esura, pois detectou o início de incêndio nos olhos de ônix dela.

 

— Vitória não deu qualquer indicação de acreditar que a am eaça acabou, Max; você precisa adm itir que está sendo inj usto. Ela realm ente salvou sua vida no processo de adquirir o Livro de Antwartha; e em bora tivesse sido preferível que os dois parassem de sabotar um ao outro e trabalhassem j untos, vocês acabaram trabalhando j untos e com fulgurante sucesso.

 

— É exatam ente o que quero dizer, Eustácia. Justo no m om ento em que ela está com eçando a m ostrar a habilidade de um a Venadora realm ente dotada (e, sim , adm ito que ela tem o potencial de ser tão boa quanto você ou eu), ela resolve entrar num casam ento, no qual terá que dar satisfação o tem po todo ao m arquês, e terá m aiores restrições e parâm etros na sua vida. Para não falar da distração de estar apaixonada. Já reparou com o pessoas apaixonadas olham um as para as outras? E para ninguém m ais, e nada ao redor delas? Não podem os correr o risco de quase fracassar com o há duas noites.

— Você disse a m esm a coisa para Vitória ontem , quando ela, ou m elhor, o m arquês, contou-nos que eles iam se casar — Eustácia o fez lem brar com um a calm a que ele não entendia — Mas Max — disse ela levantando a voz pela prim eira vez e pisando sobre os argum entos dele —, não posso e não vou ordenar a ela que não se case. É decisão dela e devo deixá-la decidir. Em bora eu tenha as m esm as preocupações que você, sei que preciso deixá-la livre para fazer o que quiser. Tem os essa liberdade com o Venadores, e ela não é a prim eira Venadora a am ar e a querer se casar. Alguns de nós am am , m as não se casam — acrescentou ela, olhando de relance a porta pela qual Kritanu entraria a qualquer m om ento.

 

— E a verdade, Max, é que talvez ela tenha sucesso onde não esperam os que tenha. Talvez Vitória precise do equilíbrio entre luz e escuridão; o com um e o horrendo incom um . Talvez isso a torne m ais forte, m ais hábil.. assim com o a sua própria tristeza e raiva alim enta a sua força.

 

— Não posso concordar com você, Eustácia. A vida de um Venador é com o a de um padre: som os cham ados e som os solitários. E assim devem os perm anecer para cum prir nosso destino.

 

— E eu, Max? Não cum pri m eu destino porque não estou sozinha?

 

— perguntou ela gentilm ente, com o se de repente entendesse o que estava por trás da indignação dele.

 

Max reconhecia um a pergunta sem resposta quando ouvia um a, e rapidam ente m udou de assunto.

 

— Vitória reconheceu Sebastian Vioget. Com o ela sabe quem ele é?

 

Eustácia ergueu um a sobrancelha.

 

— Isso é interessante. Meu palpite é que ela soube quem é Sebastian Vioget no m esm o lugar e ao m esm o tem po em que descobriu sobre o livro e sua proteção. E m e preocupa que ele estivesse lá em Redfield Manor.

— A m im preocupa que ele tivesse m e deixado pegar o livro —

 

replicou Max com sarcasm o. — Ele estava quase salivando a idéia.

 

— É um a pena que você não consiga form ar um a aliança com ele.

 

Poderia ser benéfico para nós. Talvez sej a algo que Vitória deva considerar. — Antes que Max pudesse responder, Eustácia tocou em outro assunto desagradável: — Com o está o seu pescoço?

 

Ele evitou tocar na velha m ordida. De fato vinha doendo no últim o dia, latej ando com constantes pontadas.

 

— Não vi necessidade de m encionar que tem doído; não seria surpresa para você, considerando os eventos dos últim os dias.

 

— Não, m as eu poderia lhe dar m ais bálsam o — replicou Eustácia, gentil, com o se falasse com um a criancinha. — Não é necessário que você suporte essa dor.

 

— Não é nada. — Talvez tivesse dito algo m ais, m as naquele m om ento Kritanu abriu a porta do corredor e Way ren deslizou para dentro.

 

— Parabéns, Eustácia e Maxim iliano! — A bibliotecária loira estava radiante. Suas longas m angas m edievais se arrastavam no chão quando ela relaxava os braços, m as agora que os tinha levantado de alegria, os punhos flutuantes em brulharam Eustácia e depois Max, quando Way ren abraçou um de cada vez. — Vocês conseguiram o livro! E tão rápido!

 

Sim , tivem os m uita sorte — respondeu Max quando ela se afastou.

 

— E sua m ordida? — perguntou Way ren, dando-lhe a m esm a olhada avaliadora de Eustácia.

 

— Está ardendo — ele adm itiu de novo.

A porta se abriu novam ente e Kritanu introduziu a segunda visita, Vitória, é claro. Max olhou e falou:

 

— E aí está ela. E.. sozinha? Não trouxe sua cara-m etade, Vitória?

 

— Ah, não, Filipe m andou suas desculpas. Ele está ocupado dem ais tentando decidir qual será o nó de sua gravata no casam ento — replicou ela com doçura.

 

Max teve que m order o lábio para disfarçar sua agradável surpresa pela réplica im ediata. Não podia negar que ela era rápida.

 

Ao sentar-se em sua cadeira favorita, do lado da côm oda onde Kritanu m antinha o brandy, Max olhou afavelm ente para Eustácia, que lhe dirigira um olhar nada satisfeito por seu com entário sarcástico.

 

— Sua cara-m etade? — perguntou Way ren, acom odando-se ao lado de Max, porém falando com Vitória.

 

— Max está falando do m eu noivo, o m arquês de Rockley. Ele, Max, parece estar sob a im pressão de que quando fizer o voto m atrim onial esquecerei o voto que fiz ao Legado Gardella.

 

Vitória, cuj o penteado estava de um j eito que Max nunca vira antes, deu um beij o na bochecha da tia e outro em Kritanu, antes de escolher um a cadeira diretam ente oposta a Max. Em vez de todo em pilhado sobre a cabeça, com cada cacho negro preso em seu lugar e entrem eado de j óias e laços, ele caía num a trança sim ples que descia pelo vestido. Ela precisou rem over a trança do cam inho ou teria se sentado sobre ela.

 

Max reparou que ela carregava um a bolsa de couro, e enquanto se aj eitava na cadeira, colocou-a sobre o colo.

 

— Esse é o livro? — perguntou ele, desej ando conduzir a discussão para algo m ais im portante que o casam ento im inente.

— É. — Vitória tirou-o da bolsa e segurou-o por um m om ento antes de entregá-lo a Eustácia. — O que devem os fazer com ele agora que o tem os? Há algo nele que possa nos aj udar?

 

Way ren observava o couro desgastado do livro com a m esm a avidez que o velho cão de Max vigiava a m esa à espera que viesse ao chão um osso ou outra sobra. Ela soou quase sem fôlego ao dizer:

 

— Terei de estudá-lo para saber ao certo... m as m e arrisco a dizer que deve haver pouco no livro que prom ova um a vida de luz. É o livro do filho m aligno de Kali, e com o tal, tem apenas receitas para prom over o m al. Mesm o assim , saber o valor que tem para Lilith pode nos aj udar a entender seu próxim o passo.

 

— Sem dúvida — concordou Eustácia. — Tê-lo, sim plesm ente, em nossa posse é a m aior das vantagens. E, por sinal, tenho pensado m uito sobre onde devem os esconder o livro até decidirm os o que fazer com ele.

 

— A senhora não vai m antê-lo aqui, tia Eustácia? — perguntou Vitória, com a surpresa ilum inando seu rosto.

 

Max pouco fez para disfarçar sua fungada de descontentam ento.

 

— A casa de Eustácia ou a m inha seriam os prim eiros lugares onde Lilith viria procurá-lo. Ou a sua. — Ele não se decepcionou. Um a cara de esclarecim ento m udou a face dela. Ah, talvez ela até entendesse a severidade da situação. Que o j ogo não term inara ainda... nem term inaria até que Lilith fosse aniquilada. — Ela sabe quem frustrou o plano dela, e só posso im aginar a fúria dela conosco. — Sim , ele im aginava m uito bem a fúria de Lilith. Melhor, aliás, do que desej ava.

 

— Onde quer que o guardem , ele tem que ser m antido fora da luz direta do sol, especialm ente ao ser transportado — disse Way ren. — Ou vai esfarelar e virar pó. É um livro m aligno, portanto vicej a na escuridão...

 

e se desintegra na luz. E antes que o levem , eu gostaria de reverter a proteção dele, para nos dar segurança adicional.

 

— Reverter a proteção? — perguntou Vitória. — Você pode fazer isso?

 

— É parte do encantam ento de Way ren — interpôs Max. — Sem trocadilho.

 

Way ren riu de brincadeira e ele relaxou parcialm ente quando Vitória estreitou os olhos com o se não estivesse certa em que acreditar.

 

Ele sentia um prazer perverso em m anter-se um passo à frente dela.

 

— Eu gostaria de destruir o livro — acrescentou Way ren —, assim não precisaríam os nos preocupar com a possibilidade de Lilith encontrá-lo e recuperá-lo, m as antes quero investigar m ais um pouco para ter certeza de que não haverá efeitos adversos se o fizerm os. Ou se há qualquer coisa no livro que possa ser vantaj oso para nós. Assim , se houver um lugar onde ele possa ser m antido em segurança por um pouco m ais de tem po...

 

— Cheguei à conclusão — interrom peu Eustácia, resoluta — de que o m elhor lugar para escondê-lo é um a igrej a, ou algum outro lugar sagrado. Ela não poderá ir até lá se ele for suficientem ente protegido, e não poderá m andar seus sequazes.

 

— Se a senhora não tiver um lugar em m ente, eu tenho um a sugestão — falou Vitória. — Há um a pequena capela na área de St. Heaths Row, a propriedade de Rockley — acrescentou ela, olhando fixam ente para Max. — Eu poderia esconder o livro lá, e m e assegurar de que haverá m uitas relíquias e im agens sacras para m antê-los afastados, m esm o que eles descubram que o livro está lá. Estou prestes a m e fam iliarizar bastante com a capela, incluindo sua decoração, porque é lá que vam os nos casar.

 

O m odo com o os lábios dela se curvaram num sorriso de deboche fez subir a pressão sangüínea de Max. Porém , ele não dem onstrou; apenas pegou sua estaca preta e bateu-a contra a palm a da m ão. Era hora de ir em bora.

 

Ele se levantou.

— Bem , j á que resolvem os isso, devo partir. Lilith j á deve ter m andado gente a fim de reunir vítim as para sua alim entação, e pretendo colocá-la num a dieta rigorosa.

 

Ele esperava que Vitória pulasse e insistisse em ir com ele, e j á tinha um a resposta rigidam ente educada para disparar contra ela... m as ela não o fez. Apenas encarou-o com seus lum inosos olhos castanho-claros no rosto delicado e branco que não devia pertencer a um a m ulher que m atara oito vam piros na noite anterior.

 

— Cuide-se, Max — disse ela, surpreendendo-o novam ente naquela noite.

 

— Cuidarei. — E partiu contente por sair noite afora para fazer o que nascera para fazer. Ao m enos não teria distrações.

 

* * *

 

Vitória queria fazer outra visita ao Cálice de Prata, m as isso era m ais fácil dizer do que fazer.

 

Havia seis dias que ela obtivera o Livro de Antwartha, e desde então vinha equilibrando os requisitos de ser a futura m arquesa de Rockley, seus deveres para com a m ãe, que vinha tirando proveito de seu novo status ao m áxim o, e as reuniões com tia Eustácia, Kritanu, a longilínea Way ren e, é claro, Max.

 

Conform e prom etera, ela escondeu o livro em baixo do altar na capela de St. Heath's Row, onde ficava a extensa propriedade de Rockley, nos lim ites da cidade. Way ren recebeu perm issão para visitar a capela a qualquer hora a fim de estudá-lo em segurança; a Filipe foi dito que ela era um a parenta distante de Vitória que queria rezar um a novena em seu nom e pela felicidade do casam ento, e desej ava passar algum tem po na capela. Ele estava ocupado dem ais para sequer se im portar.

Max não era tão fácil de ludibriar. Ele tentou por diversas vezes trazer de novo à tona que ela m encionara o nom e de Sebastian durante o episódio de Redfield Manor, m as Vitória m antinha-se teim osam ente calada. Estava furiosa consigo m esm a pela gafe, m as enquanto continuasse se esquivando do interrogatório de Max, o estrago seria m ínim o. Na verdade, ela sentia prazer em ver a irritação no rosto de Max cada vez que docem ente evitava responder às indagações dele.

 

Foi quando tia Eustácia com eçou a fazer perguntas que Vitória teve m aior dificuldade.

 

— Max m e contou que você conheceu Sebastian Vioget —

 

com entou a tia, um a tarde em que Vitória dera um j eito de escapar de Grantworth House antes que Melly a arrastasse para m ais um chá. Não é que ela não gostasse de com partilhar biscoitos e fofocas com seus pares, m as fizera isso tantas vezes na últim a sem ana, que ficava doente só de pensar em m ais doce de lim ão e crem e de Devonshire espalhados em biscoitos e pães. Sem falar que seus espartilhos estavam ficando desconfortavelm ente apertados.

 

E com o ela caberia num vestido de noiva se continuasse com endo cinco ou seis rodadas de chá durante suas visitas diárias?

 

— O que faz Max pensar que eu o conheço? — retorquiu Vitória, inocentem ente.

 

Eustácia lançou-lhe um olhar indulgente, com o dizendo que perm itiria aquele j oguinho de detalhes inúteis.

 

— Você o reconheceu na casa de Rudolph Caulheld, então Max j ulgou que você o conhecia.

 

— Eu o reconheci, m as não quer dizer que eu o conhecia. O que a senhora acha que ele estava fazendo lá?

 

Sua tia bateu as m ãos no colo e olhou diretam ente para Vitória.

— Eu pensei que talvez você tivesse que responder isso. — O olhar indulgente havia se dissipado.

 

— Eu realm ente não sei por que ele estava lá. Fiquei tão surpresa quanto Max deve ter ficado. A m enos que Max o esperasse.. ?

 

Sua tia a observou por um m om ento, com o se avaliasse a veracidade de sua afirm ação, e pareceu tom ar um a decisão, obviam ente a favor de Vitória, j á que disse:

 

— Sebastian Vioget é m uito poderoso e seria um aliado valioso para nossa causa. Se pudéssem os confiar nele. — Tia Eustácia a olhava de form a tão perscrutadora, que ela sentiu seu rosto esquentar. Sentia com o se a tia estivesse esperando que ela dissesse algo, m as Vitória não sabia o quê. . e sabia que qualquer coisa que dissesse seria desaconselhável.

 

Mas Vitória, ao m enos, não tinha razão para não confiar em Sebastian. A inform ação que ele lhe dera fora correta, até onde ela sabia.

 

Tam bém não significava que ela confiava nele. Ela sim plesm ente não

 

duvidava dele. A tal questão dos detalhes.

 

— Por que a senhora não confia nele? Ele não é um vam piro.

 

Eustácia deitou-lhe um olhar tão afiado quanto à espada usada por Max para decapitar os Im periais.

 

— Não, ele não é um vam piro. Mas o sim ples fato de que ele estava na casa de Rudolph Caulfield, no m eio da transferência do Livro de Antwartha, deu a m im e a Max razão para questionar o envolvim ento dele.

 

Vitória, o que você sabe sobre Sebastian Vioget? Você interagiu com ele de algum a form a?

Vitória abriu a boca para falar, e então a fechou. Sebastian a havia alertado sobre divulgar a fonte de sua inform ação. . m as com o ela poderia esconder essa inform ação de tia Eustácia? Especialm ente após um a pergunta tão direta?

 

Ela lutou, sabendo que sua tia a observava, e que sua dem ora em responder j á dera a Eustácia a inform ação que ela procurava. Então ela tom ou a decisão.

 

— Eu visitei o Cálice de Prata para tentar obter inform ações sobre o Livro de Antwartha, e o conheci naquela ocasião. Ele deixou claro que eu não devia contar a ninguém que havíam os conversado então eu não contei.

 

Tia Eustácia assentiu com a cabeça um a vez. Para o alívio de Vitória, ela não pediu m ais detalhes. Em vez disso, com entou:

 

— Se tiver a oportunidade de encontrá-lo novam ente, não seria ruim se você tentasse estabelecer com ele algum tipo de cooperação. Poderia ser bom para nós.

 

Com isso, Vitória soube que não podia m ais adiar sua visita ao Cálice de Prata.

 

Ela iria naquela noite.

 

15

 

A Srta. Grantworth adquire um a dor de cabeça Chegar ao Cálice de Prata não seria tão fácil quanto ela im aginara.

 

Ela tinha esquecido que seu noivo ia levá-la ao teatro naquela noite.

 

E ela bem que andava ansiosa para ver a últim a m ontagem de A Megera Domada, de Shakespeare.

 

Dizia para si m esm a que a estranha sensação de estôm ago revolto não tinha nada a ver com o fato de que veria Sebastian novam ente... era porque esperava que Filipe não lhe fizesse perguntas quando ela reclam asse de dor de cabeça im ediatam ente depois do fim da peça.

 

Assim podia ver a perform ance e voltar logo para casa, em vez de ir m ais tarde a um baile depois do teatro ou passear pelos j ardins de Covent.

 

A cortina subia às sete e m eia e a peça norm alm ente term inava às onze.

 

Se Barth estivesse lá com sua carruagem à m eia-noite, daria à Vitória bastante tem po para visitar o Cálice de Prata e voltar para casa a tem po de dorm ir várias horas antes de provar seu vestido de noiva.

 

Perfeito.

 

E funcionou direitinho. Não havia vam piros no Teatro Drury Lane, e nem o m ais tênue calafrio deslizou pela nuca de Vitória durante a viagem de ida e volta. Com efeito, havia um a escassez de vam piros desde as lutas em Redfield Manor, e Vitória com eçou a se perguntar se ela e Max tinham acabado com grande parte do exército de Lilith. Talvez a Rainha Vam pira estivesse escondida lam bendo suas feridas, ou, m elhor ainda, talvez tivesse deixado o país.

 

— Tem certeza de que não há nada que eu possa fazer por você? —

 

perguntou Filipe enquanto a conduzia pela entrada da residência dos Grantworth. Ele estava claram ente desapontado de ter que encurtar a noite, m as encarou a situação com graça e preocupação, com o ela sabia que ele o faria.

 

— Obrigada, querido, m as um pouco de descanso e o chá de hortelã de Verbena é tudo o que preciso. Estarei nova em folha am anhã — disse ela. — E é m elhor que eu estej a, porque a m adam e LeClaire virá para a prova do vestido.

 

Jim m ons abriu a porta para eles e Filipe a seguiu até a soleira.

 

— Pois isso, m inha am ada, é algo pelo qual eu pagaria m uito para ver. — Seu sorriso, cálido e curvo, dizia que ele sabia que era um a questão de tem po até que satisfizesse esse desej o.

 

Olhando em volta para se assegurar de que estavam a sós, Filipe a tom ou pelos om bros e sob a leve pressão de seus dedos, ela se aproxim ou dele. Seus seios tocaram os botões do paletó dele, as dobras de sua saia se m isturaram à calça dele e um pé deslizou por entre os dele.

 

Outro m ovim ento condutor de seus dedos, e ela chegou m ais perto e teve que respirar, porque eles estavam perto... tocando.. o quadril, a coxa, o pé. E então, a boca. Quente, escorregadia, m acia, ele a beij ou.

 

Se ela realm ente estivesse com dor de cabeça, Vitória tinha certeza de que ela teria voado, assim com o todos os seus outros pensam entos.

 

— Eu sei que você não está se sentindo tão bem — m urm urou ele próxim o aos lábios dela quando pausaram , com a testa grudada, um a na outra — m as eu não consegui resistir. — Seu nariz esbarrou no dela quando se abaixou para beij á-la de novo.

 

Quando ele finalm ente a afastou dele, com o m esm o cuidado com que a aproxim ara, Vitória abriu seus olhos. Teve que piscar para poder ver direito, e estava deliciosam ente satisfeita de ver que os olhos dele, norm alm ente sem icerrados, estavam ainda m ais fechados. Ele parecia querer voltar para os braços dela com a m esm a facilidade e conforto com que deitava em um colchão de penas. Só que m ais m orno. Mais convidativo.

 

— Boa noite, Filipe — ouviu-se dizer, enquanto ele se afastava, ainda segurando sua m ão. Sua palm a, seus dedos, e então a ponta deles, passaram pela m ão dele enquanto a soltava. A porta estava atrás dele.

 

Ainda olhando para ela com aqueles olhos sem icerrados, sinceros e determ inados, ele virou a m açaneta e saiu na noite.

 

— Bão, se isso num é um beij o de am or verdadeiro, num sei o que é.

 

Vitória rodopiou e viu Verbena no pé da escada (Meu Deus, ela nem ouviu que ela se aproxim ava!) com um a expressão decididam ente reflexiva em seu rosto.

 

— O am or não é necessário para um casam ento bem planej ado —

 

disse Vitória, firm em ente — m as certam ente não m achuca. Então, Barth está aqui?

 

— Ele tava na esquina esperando o m arquês ir em bora — respondeu Verbena. — Tem certeza que eu num posso ir com a sinhora, hoj e?

 

— Não, eu lhe agradeço, Verbena, m as vou sozinha. Barth m e deixará lá com segurança e estarei em casa antes do am anhecer. Você tem que ficar aqui, caso m inha m ãe pergunte por m im . Ela estava preocupada quando eu saí do teatro, porque disse-lhe que não estava m e sentindo bem .

 

Agora é m elhor eu ir andando se pretendo dorm ir pelo m enos um pouco esta noite.

 

— O Barth vai esperá a sinhora trocá de roupa.

 

— Não, eu levarei m inha capa verm elho-escura. O capuz m e aj udará a esconder o rosto. — Na eventualidade de Max tam bém estar no Cálice de Prata.

 

Quando Vitória desceu da carruagem de Barth, quarenta m inutos depois, o Big Ben acabava de m arcar a m eia-noite. Debaixo da pesada capa, Vitória trazia a pistola, que lem brou de levar aquela noite, j á que não haveria nenhum a Verbena para salvá-la. Tam bém levava três estacas em diversos locais do corpo, sua nécessaire, que continha um frasco de água benta salgada, e um grande crucifixo dentro de seu corpete, relativam ente alto. O últim o foi insistência de Verbena, pois se não podia ir, faria tudo para que sua patroa estivesse bem protegida.

 

Bem protegida dos vam piros ela estaria. E arm ada com um a pistola, estaria a salvo de outros predadores.

Mas por algum a razão, quando pensava em Sebastian Vioget, não estava totalm ente certa de quão segura estaria.

 

O Cálice de Prata desta vez tinha m ais m esas vazias do que da últim a vez que Vitória estivera lá; com o havia um a m esa aquela vez e três agora, não achou que aquilo fosse indicação de que os negócios iam m al.

 

Por baixo do capuz e dos cachos que a protegiam , Vitória se arrepiou de frio com o se um vento do Ártico tivesse batido nela. No pé da escadaria íngrem e ela parou para dar um a olhada em volta, procurando alguém que conhecesse.

 

Am élie, a pianista de cabelo platinado que se sentara com Verbena da últim a vez, estava em seu lugar, à esquerda. Continuava com o m esm o olhar m elancólico que Vitória recordava de antes, e tocava a m esm a m úsica triste e lenta. Max não estava lá, e nem Sebastian, pelo que ela podia ver.

 

Puxando o capuz de sua capa, Vitória saiu das som bras, perto da escada e andou até um a m esa. Berthy, a garçonete rude, lem brou dela, em bora ela estivesse vestida de hom em na últim a vez. Aparentem ente Sebastian estava correto sobre o disfarce não ter escondido seu sexo. Ela passou respingando com as duas m ãos cheias de canecas e deu-lhe um a cotovelada que resultou num esguicho em sua capa.

 

— Ele falou pra você ir pros quartos dos fundos.

 

Vitória não desperdiçou energia tentando descobrir com o é que Sebastian sabia que ela tinha chegado; talvez tivesse dito à Berthy para lhe dar essas instruções não im porta quando viesse. Dirigiu-se à parede de tij olos onde ficava a porta, m as aí m udou de ideia e escolheu um a m esa vazia com três cadeiras.

 

No cam inho de volta ao bar, Berthy parou na m esa de Vitória o tem po exato para perguntar:

 

— Vai querê o quê.

 

— Sidra — replicou Vitória, para as Costas de Berthy ; m as ela assentiu com a cabeça, portanto tinha escutado.

 

Deixando que sua atenção vagasse pelo salão, Vitória se divertiu identificando quais fregueses eram m ortos-vivos e quais eram m ortais.

 

Para sua surpresa, o placar era equilibrado; e havia até m esas onde os dois tipos se m isturavam . Por que um m ortal interagiria voluntariam ente com um m orto-vivo é algo que ela não com preendia. Era com o se a m osca sentasse para tom ar chá com a aranha: propenso a ser perigoso e bagunçado.

 

Quando Berthy voltou, com as m ãos cheias de novo, Vitória a viu j ogar duas canecas em um a m esa com vam piros. Algo opaco dem ais para ser vinho tinto espirrou para os lados e na m esa. Vitória sentiu os pelos de seu braço se eriçando, e desviou o olhar enquanto um dos vam piros bebia avidam ente.

 

Colocando a sidra diante de Vitória, Berthy lhe deu o que parecia ser um sorriso e se inclinou sobre ela para dizer:

 

— Fazendo ele vir até você, né? É assim que faz. — E foi em bora.

 

Escondendo o sorriso com a caneca m etálica, Vitória tom ou um gole da bebida ferm entada. Nada m al. Ela lem brou de trazer dinheiro esta vez, e puxou algum as m oedas que deixou na m esa para Berthy.

 

Naquele m om ento, vestido de preto, é claro, Max apareceu na curva das escadas. Assim com o Vitória fizera, ele deu um a olhada no salão, e, reconhecendo o inevitável, ela levantou o braço para cham ar-lhe a atenção.

 

Ele não pareceu surpreso em vê-la, aliás, a rapidez com que ele andou até a pequena m esa entregou o fato de que estava procurando por ela. Eustácia deve ter-lhe contado.

 

— Boa noite, Max — disse Vitória, enquanto ele se sentava na cadeira a seu lado. — Quer que eu peça a Berthy para trazer a você um a cervej a? Ou prefere o que eles estão bebendo? — Ela apontou os vam piros que estavam próxim os. — Parece um pouco grosso para ser chianti.

Ele se inclinou em direção a ela, com os cotovelos na m esa, próxim os aos dela, seus olhos varej ando a sala m esm o enquanto falava.

 

— Não acredito que você veio aqui sozinha, Vitória.

 

— Sou um a Venadora, Max, assim com o você.

 

— Eu não sei o que Eustácia colocou na sua cabeça, m as Sebastian Vioget...

 

— . . está satisfeitíssim o de recebê-lo em seu estabelecim ento.

 

A intensidade de Max evaporou. Vitória literalm ente sentiu-a esvaindo-se dele; ele estava perto o suficiente para que ela sentisse os m úsculos retesados dele se relaxando. Ele respirou fundo, calm am ente.

 

— Vioget. Que timing im pecável, com o sem pre.

 

Vitória olhou para Max. Seu corpo relaxado, alto e esguio, na cadeira a seu lado; no rosto a expressão de que seu m elhor am igo tinha sim plesm ente aparecido e m encionado que o sol estava brilhando. Seu sorriso m ostrava até dentes brancos e covinhas ao lado da boca... m as ela detectou o nervosism o naquele sorriso inócuo.

 

— E quem é sua adorável acom panhante? — Sebastian sentou na terceira cadeira, à esquerda de Vitória. Os três sentados form avam um V, com Vitória no vértice, de frente para o salão.

 

Antes que Max pudesse responder, ela tinha que salvar a situação.

 

— Devo estar em vantagem , então, senhor Vioget. Eu sou Vitória Grantworth, e devo confessar que estou ciente de que o senhor é o dono deste estabelecim ento. Eu o vi na últim a vez que estive aqui. — Nada disso, estritam ente falando, era m entira.

Com a aprovação cintilando em seus olhos, Sebastian estendeu o braço e tom ou-lhe a m ão enluvada.

 

— Muito prazer em conhecê-la, srta. Grantworth. — Levou a m ão dela aos lábios e beij ou-a, observando-a com seus olhos dourados. Trouxe à m em ória a últim a vez que ela visitara o Cálice de Prata, vestida de hom em , e eles apertaram as m ãos; a m ão dela, fina, e a dele, com sua palm a larga.

 

Ela teve então um a lem brança súbita daquela m esm a m ão bronzeada, os dedos espalm ados, esfregando a pele m orna de seu um bigo de m arfim . Seu estôm ago se encolheu involutariam ente, com o se ele estivesse tentando tocá-lo de novo, e seus olhos se encontraram enquanto ele soltou os dedos dela.

 

— Que tal um pouco daquele uísque que você guarda nos fundos? —

 

disse Max, com a voz ainda calm a e suave. Mas Vitória podia senti-lo analisando-a, com o se tentasse ler na entrelinhas das palavras educadas que trocara com Vioget. Sua m aneira serena apenas ressaltava o poder que ela sabia estar oculto. A questão era se Sebastian estava ciente disso.

 

Sebastian fez um sinal para Berthy, e de algum a form a ela j á sabia o que ele queria, porque m om entos depois ela j ogou a garrafa de uísque com dois pequenos copos. Desta vez não m anchou os punhos de renda.

 

— Então, você recuperou o Livro de Antwartha — disse Sebastian, depois de bebericar. A luz do castiçal na parede brilhava nas pontas de seu cabelo encaracolado, dando a ele um a curiosa aparência angelical. — Devo parabenizá-lo. Houve um m om ento lá, Pesaro, em que você podia não tê-lo conseguido.

 

O braço de Max roçou no de Vitória enquanto ele próprio dava um saudável gole no líquido dourado. Colocou o copo na m esa com um cuidado deliberado, ele encarou Max de perto. Entretanto, suas palavras soaram despreocupadas.

 

— Você sabia que o livro tinha um a proteção? Que um m ortal não podia roubá-lo de seu verdadeiro dono?

A resposta de Sebastian foi igualm ente fria.

 

— Ouvi qualquer coisa dessa natureza. — Os dois se olharam fixam ente, nenhum deles disposto a ceder.

 

— Muito gentil da sua parte ter m encionado.

 

De repente a atenção de Vitória foi cham ada por um a m ovim entação próxim a à entrada. Ela olhou de relance e seu coração quase saiu pela boca.

 

Não

 

Não! Im possível! Ainda olhando para a entrada, ela m al conseguia dizer as palavras.

 

— É Filipe! Rockley ! Ele está aqui! — Vitória agarrou cegam ente o pulso de Max. — Meu Deus, ele está aqui!

 

Max estivera concentrado em Vioget; virou-se e olhou Vitória, e em seguida a entrada, para onde ela ainda olhava, em choque. Ela sentiu suas unhas enterrando-se em sua pele.

 

O m arquês estava em pé bem no pé da escada. Parecia estar segurando um a pistola. E atraiu a atenção de m ais de um dos fregueses do Cálice de Prata.

 

Com o podia ser? Ela tinha que tirá-lo dali.., m as não podia deixar que ele a visse! Vitória agarrou o capuz, m eteu-o na cabeça e encolheu-se na som bra, percebendo que teria que pedir aj uda a Max. Seus dedos estavam gelados. Ela se sentia doente. Com o é que ele chegara lá? Com o podia ser?

 

— Alguém que você conhece? — perguntou Sebastian suavem ente com seu sotaque francês. Ele os observava de perto, com o se sentisse sua desconexão com os dois. — Espero que ele não estej a pensando em causar problem as.

 

— O noivo da srta. Grantworth — Vitória ouviu vagam ente a resposta de Max, enquanto seu cérebro procurava desordenadam ente um a solução. — Ela deve ir em bora antes que ele a vej a.

 

Graças a Deus que ele entendeu. E estava certo. Ela tinha que ir em bora antes que ele a visse! O choque com eçou a dim inuir, dando lugar à concentração e determ inação.

 

Sebastian olhou surpreso para Vitória.

 

— Saindo por aí escondida sem o seu noivo? Tsc, tsc, m inha querida srta. Grantworth. — Levantando seus olhos, cruzou-os com os de Max. —

 

Vou levá-la por um a outra saída, para que ela não sej a vista. —

 

Aparentem ente, Sebastian tam bém entendeu.

 

Max parecia pronto para discutir, m as Vitória pegou seu braço de novo, olhando-o por baixo de seu capuz.

 

— Max, você deve cuidar dele. Por favor. Certifique-se de que ele sairá daqui e voltará para casa, em segurança. Ele não pertence a este lugar.

 

Sebastian levantou-se, puxando Vitória sem esperar a concordância de Max.

 

— Venha com igo, srta. Grantworth — m urm urou ele, fechando seus dedos firm em ente em torno do braço dela.

 

Vitória dirigiu a Max um últim o olhar suplicante, por m ais que odiasse o fato de ter que pedir-lhe aj uda, e perm itiu a Sebastian que a conduzisse de sua m esa para um a porta que levava ao corredor escondido.

 

Max ia se certificar de que Filipe estivesse seguro.

* * *

 

Max observou Vioget retirando Vitória rapidam ente do salão principal. Maldição! O que infernos Rockley pensava que estava fazendo?

 

Não im portava com o ou por quê. . Agora a única preocupação era tirar aquele alm ofadinha dali antes que os vam piros decidissem ficar ofendidos com a pistola que ele em punhava.

 

Durante a conversa m urm urada deles, Rockley tinha apenas olhado o salão e dado três passos incertos para dentro. Se viu Vitória, foi só com o um a figura nebulosa.

 

— Rockley — disse Max, aproxim ando-se dele, que se m antinha em pé na entrada, olhando em volta e cham ando a atenção de todos os m ortos-vivos no salão. Sangue fresco era sem pre m elhor do que aquela coisa que Vioget m antinha em barrilado nos fundos. — Posso lhe dar um conselho?

 

Guarde a arm a. Você não vai precisar dela aqui.

 

O alm ofadinha olhou para ele e Max ficou satisfeito de ver que não havia m edo em seus olhos, ou o nervosism o que frequentem ente acom panha os hom ens que brandem pistolas por aí afetando coragem . Seu olhar não era apenas firm e, m as não estava surpreso de ver um rosto que reconhecia.

 

— Era necessário, para ir da m inha carruagem até a entrada deste lugar — replicou Rockley, guardando a pistola no bolso. — E vou usá-la, se for necessário, para encontrar Vitória e colocá-la em segurança.

 

Era aqui que Max tinha que m ostrar suas qualidades de ator. Aliás, m uito m elhor, pensou ele sarcasticam ente, do que Vitória e Vioget pouco antes, fingindo que se viam pela prim eira vez.

 

— Vitória? Do que diabos você está falando, Rockley ?

— Ela está aqui, em algum lugar. Eu a segui, e não posso im aginar o que ela está fazendo! Em um lugar com o este! — Enquanto falava, seus olhos afiados dardej avam o salão novam ente, para assegurá-lo de que ela não reaparecera. — O que você está fazendo aqui?

 

— Não a vi — disse Max, inequívoco. — Estou aqui há m ais de um a hora e se Vitória estivesse aqui, eu a teria visto. Não vou nem perguntar por que é que você acha que ela viria a um lugar com o este, no m eio da noite. Você deve ter um a razão para achar isso, não im porta o quão ridícula sej a.

 

— Eu a segui de sua casa. Eu a vi sair de um cabriolé alugado, m eu Deus! Um cabriolé! Sua prim a saiu do cabriolé e veio para cá.

 

Isso era verdade. Ele não podia esquecer que Vitória dissera a Filipe que eles eram prim os.

 

— Quanto tem po faz isso? — perguntou Max, sabendo que tinha havido um lapso de tem po entre sua chegada e a de Rockley ; e Vitória j á estava ali quando ele voltou ao Cálice depois de um a rápida patrulha pela vizinhança. Max estivera esperando por ela desde as onze da noite.

 

— Há pouco tem po — replicou ele. — Eu entrei em um a pequena discussão quando desci de m inha carruagem , e tive que persuadir alguns cavalheiros que viria para cá com ou sem a perm issão deles.

 

Isso explicava a pistola.

 

— Com o j á disse, Rockley, ela não está aqui. De fato, se eu visse m inha prim a entrando em um estabelecim ento com o este, eu a teria levado para casa im ediatam ente. Isto não é lugar para um a m ulher, e nem para a m aioria dos hom ens.

 

— Eu a segui de sua casa — disse Rockley, teim osam ente. — Ela disse que estava se sentindo m al, então levei-a para casa logo depois do teatro. Mas ela esqueceu o xale na m inha carruagem , e eu voltei para entregá-lo e a vi saindo pela porta da frente e entrando em um cabriolé.

— Você deve ter se enganado. Deve ter sido a em pregada dela que você viu, ou outra pessoa deixando a casa. É absurdo, Rockley, sim plesm ente absurdo pensar que Vitória viria a um lugar com o este.

 

Max reparou que um dos m aiores vam piros vinha olhando para Rockley com m ais do que curiosidade. Ele tinha que tirar o suj eito antes que se visse no m eio de um tum ulto. A trégua que os m ortos-vivos e os m ortais com partilhavam no Cálice de Prata era tênue; um a vez puxada ou esticada, se desintegrava rapidam ente e virava pancadaria. Ele j á vira isso acontecer.

 

Apesar de que seria um belo inconveniente para Sebastian Vioget, Max não podia deixar aquilo acontecer. Ele olhou para Rockley, que, com seu penteadinho sem um único cabelo fora do lugar e o lenço perfeitam ente am arrado, parecia pronto e capaz de se proteger.

 

Bancar o herói é m uito bom e divertido, e certam ente deve ser atraente para as m ulheres. . m as o m arquês de Rockley não estava nem m inim am ente preparado para lidar com os perigos específicos deste lugar.

 

Max tinha m uita experiência e pouca paciência para tais m ocinhos ingênuos.

 

A única coisa a fazer em um a situação com o aquela era ganhar tem po, pagar um a bebida para o suj eito, e colocar salvi em seu uísque. Isso o tornaria m ais fácil de m anej ar.

 

* * *

 

— A senhorita não m e disse que estava noiva — m urm urou Sebastian na luz bruxuleante.

 

Vitória sentiu a parede fria de pedra do corredor atrás dela, e o calor de suas palavras em seu rosto. Ele fechara a porta por trás dele, e eles estavam sozinhos no corredor de teto curvado. Seus dedos ainda apertavam seu braço enluvado, entre seu pulso e seu cotovelo; ela poderia facilm ente livrar-se do aperto com um safanão.

 

— E você não disse a Max sobre a proteção no Livro de Antwartha

 

— replicou ela. — Todos nós tem os segredos.

 

Ele sorriu.

 

— É segredo que você está noiva de um j ovem rico? Que precisa ser resgatado da escuridão, com o um a debutante que rej eita um pretendente pegaj oso?

 

Com isso, Vitória chacoalhou o braço, soltando-se do aperto.

 

— Rockley não é um segredo, e ele não é o fraco idiota que você descreveu. E não fique tão perto de m im .

 

— Ele j á viu o seu vis bulla? — Ele não se afastou; e colocou sua m ão entre eles, abaixo dos seios dela, para apertar o m úsculo trem elicoso de seu estôm ago por cim a da cam isa. — Ele sabe o que isso significa?

 

Ela o em purrou pelos om bros. Ele se m exeu um pouco, m as m al foi para trás. Ele era m ais forte do que ela im aginara.

 

— Ele sabe que isso significa que seu am or anda pelas ruas, à noite?

 

Que ela deve se m isturar com aqueles do lado negro para descobrir seus segredos? — Calm o, não abalado pela reação violenta dela, ele falou, com a voz baixa e hipnótica. — Que ela m ata cada vez que levanta sua arm a?

 

Que ela tem um a força que ele não possuirá j am ais?

 

— Ele não sabe de nada. — Vitória falou, por entre os dentes cerrados, Sebastian se aproxim ara novam ente, apertando-a contra a parede, m as sem tocá-la.

 

— Ele j á viu, Vitória? — A gentil j unção das últim as sílabas de seu nom e lhe causou um borboleteio no estôm ago. — Já viu?

 

Ela não conseguia se desviar de seus olhos de tigre, m al podia m over seus pulm ões para respirar. A parede áspera, úm ida, se sobressaía por sua capa e por entre o frágil tecido de seu vestido, assim com o a pressão da m ão dele tinha atravessado a frente de sua saia. Ela sentiu um a gota de água das pedras caindo na parte de trás de sua cabeça. Estava fria e em bolorada.

 

— Não — sussurrou ela.

 

A satisfação ilum inou o rosto dele.

 

— Entendo.

 

Afastou-se de um pulo, com o se tivesse sido puxado para trás. Com o se a proxim idade dela tivesse subitam ente se tornado dem ais. Vitória conseguiu respirar e se m exer, desgrudando-se da parede e se afastando dele.

 

— Venha. Vam os logo antes que o seu Venador venha nos procurar.

 

Ele se virou e saiu andando a passos largos, deixando Vitória segui-lo; tão diferente da prim eira vez, quando ele a levara pelo braço. Ela hesitou, com o fizera antes. A escolha entre Cila ou Caribde; a solidez de Filipe ou o redem oinho de Sebastian. Qual era o m enor dos dois desafios?

 

No fim , ela seguiu Sebastian. Filipe era um a parte m aior de sua vida, um a que ela não arriscaria. Sebastian era só um hom em .

 

16

 

O m arquês vence o j ogo de conchas e com ete um erro grave Filipe de Lacy não era burro. Nem um pouco.

 

Ele sabia que algum a coisa estava errada; o que ele não sabia era se o prim o taciturno de Vitória, Maxim iliano Pesaro, era a causa ou a solução.

 

O hom em parecia inteligente e capaz, não dava a im pressão de ser dissim ulado ou desonesto. Sugerindo firm em ente que Filipe guardasse sua arm a ele provavelm ente o poupou de um a altercação naquele lugar im undo, algo em que Filipe não pensou, em sua preocupação com Vitória.

 

Tinha que lhe dar crédito por aquilo, na falta de outra coisa.

 

A m aneira com que alguns clientes estavam olhando para ele, com o se fosse um a lebre novinha, pronta para o espeto, deixou Filipe um tanto incôm odo. Ele não era nenhum coelhinho, que sairia correndo ao m enor sinal de perigo. Mas havia algo errado com aquele lugar. Algo que deixava seu sangue frio.

 

Mas ele viu Vitória sair de sua casa; apesar dos argum entos de Pesaro, tinha certeza de que era ela. A m aneira que ela andava, até seu m ovim ento quando fechou a porta por trás dela... ele reconheceria Vitória em qualquer lugar, com qualquer disfarce. E a capa cor de granada era da m elhor lã; certam ente não a em prestaria para sua em pregada.

 

Ele seguiu, então, o cabriolé, no com eço com um a pontada de ciúm e em seu coração. Ela ia se encontrar com alguém ? Um am ante? Esta não era a prim eira vez que ela ia em bora m ais cedo ou encurtava um a noite.

 

Incerteza, porque precisava dela, e preocupação por sua segurança, o levaram a segui-la. Ele realm ente a am ava; não poderia suportar se outra pessoa tam bém possuísse seu coração.

 

Quando o cabriolé virou a esquina e entrou na pior parte de Londres, parando, finalm ente, naquele lugar suj o e escuro, Filipe j á não desconfiou m ais que ela fosse se encontrar com um am ante. Em vez disso, ele percebeu que o que quer que a atraísse a esta parte da cidade ia bem m ais fundo do que a lascívia da paixão.

Ela não devia e não podia lidar sozinha com aquilo, fosse o que fosse.

 

Devia estar apavorada por ter que ir até aquele lugar; e as circunstâncias só podiam ser as piores para que ela não estivesse disposta a se abrir com ele. Mas ele ia levá-la para casa e convencê-la a contar tudo... pois iam se casar e ele seria seu m arido. Cuidaria dela. Ele consertaria o que quer que precisasse ser consertado.

 

Pelo m enos esse era o plano até que desceu as escadas e entrou naquele inferninho que cheirava a ferrugem e m ofo. O prim o o levara até um a m esa no canto m ais escuro e pediu um a bebida para ele. Até o m om ento em que viu, de soslaio, a m ão de Pesaro m exendo na caneca de Filipe, de leve, ligeiram ente.., m as o suficiente para notar o m ovim ento. , foi quando Filipe percebeu que Pesaro tinha seus próprios planos. E

 

quando Filipe bebericou seu uísque, e sentiu Pesaro observando-o, teve a certeza.

 

Então quando o outro se virou para falar com a servente extrem am ente dotada, Filipe trocou as canecas.

 

E quando Pesaro virou-se de volta, Filipe propôs um brinde, observando com o o outro bebia a m esm a droga que tentara lhe dar, o tem po todo se perguntando por que ele faria tal coisa. Queria m atá-lo ou sim plesm ente drogá-lo?

 

Supôs que se o prim o de Vitória o quisesse m orto, não o teria aconselhado a guardar a pistola, ou tirado ele do centro das atenções, no salão.

 

Não im portava. Ou perguntaria a ele, ou, se m orresse, a questão se tornaria irrelevante.

 

Com o era de se esperar, Pesaro parecia ansioso para que Filipe bebesse seu uísque; então ele aceitou, m as só se o prim o bebesse com ele.

Quando as duas canecas j á estavam quase vazias, ele com eçou a perceber os sinais de que o outro perdia os sentidos. Seus olhos se fechavam , as palavras ficavam m ais lentas. Se estava sendo envenenado ou sim plesm ente drogado, Filipe não sabia. . m as o que quer que fosse, o outro tentara fazer isso com ele, então ele não sentia nenhum rem orso.

 

— Você trocou as canecas — disse Pesaro, com voz pastosa e os olhos brilhando de raiva. — Seu burro!

 

— É nada m ais do que você m erece. Por que tentou m e envenenar?

 

— Você não... sabe. . perigo... m anter você.. seguro.. burro.

 

Esperou até que Max apagasse, com a cabeça caindo na m esa.

 

— Agora encontrarei Vitória. — Filipe j ogou algum as m oedas na m esa grudenta e elas tilintaram até parar próxim as aos dedos dobrados do hom em . Levantou-se e saiu andando sem olhar para trás.

 

Era claro que sua noiva não estava lá, se é que estivera. Ele atravessou o salão, em passos rápidos, dedilhando a pistola por baixo da capa.

 

Filipe não via a hora de sair daquele lugar deprim ente e nauseabundo; subiu correndo as escadas, precisando respirar o ar fresco da noite. Tinha que clarear a m ente, que agora trazia m ais dúvidas do que quando chegou lá, incluindo a razão pela qual o prim o de Vitória tentaria drogá-lo.

Continuar: parte 2 de 3