O Legado da Caça-Vampiro
— Im agino que ele vá dorm…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Porque ela sabia que sem pre venceria.
Max ficou ciente de que ela estava falando com alguém e se virou, focalizando, a tem po de ver o sorriso branco cintilante de Lilith.
— Receio que você terá que esperar m ais um pouco, querido Maxiliano. Minha convidada chegou, e eles a estão trazendo.
Max ficou de costas para a parede, a névoa e o arrebatam ento sum indo. As coisas iam de pior para o inim aginável. A convidada só poderia ser Vitória.
26
A m arquesa é recebida
Vitória colocou a pesada bolsa sobre um om bro, segurando contra o quadril o pesado volum e, enquanto seguia os dois Im periais para dentro de um a grande sala. Ela teve que piscar para aj ustar seus olhos à escuridão do salão, depois de estar na m anhã ensolarada.
Os Im periais, traj ados de preto da cabeça aos pés, a haviam conduzido do local do encontro que Lilith especificara até aquele salão cavernoso em um a propriedade em ruínas a dezesseis quilôm etros de Londres. Kritanu e Briy ani, que a acom panharam , receberam ordem para perm anecer na carruagem , um a ordem , Vitória sabia, que eles ignorariam no m om ento em que os vam piros a levassem para dentro.
As j anelas estavam pintadas de preto e cobertas com tábuas para im pedir que o perigoso sol se infiltrasse. Lá dentro, o ar frio e úm ido e a luz baixa fizeram com que ela sentisse sua pele pegaj osa, m as quando viraram a esquina e entraram no que parecia ser um a sala de visitas, havia labaredas saindo de grandes lareiras em cada canto.
A luz do sol queim ava os m ortos-vivos, o fogo não. Um vam piro podia andar por um a labareda e não ser cham uscado.
Em um dos lados do gabinete havia um púlpito baixo que a fez pensar num a sala do trono, ou no grande salão de um castelo m edieval. De fato, esta sala, com j anelas altas e cobertas por tábuas e um teto que se estendia até um a grande cúpula pintada de preto, provavelm ente foi um salão algum dia. Vam piros de todos os tipos estavam na sala, talvez dúzias deles, entre m ortos-vivos com uns, Guardiões e diversos Im periais. Ao lado do púlpito havia um enorm e prato oco que ostentava um a alta e crepitante cham a, dando calor e ilum inação à m ulher sentada num a larga cadeira no centro do púlpito.
Lilith, é claro.
Vitória olhou para a rainha vam pira, encarando seus olhos azul-averm elhados apenas por um instante, com o tia Eustácia alertara, e então exam inou o resto de sua figura. Esbelta, em aciada, sua pele era da cor azul e branca que Vitória im aginara. . m as o cabelo, longo e ondulado derram ando-se sobre os om bros e seios, era cobre brilhante. Queim ava os olhos de tão brilhante.
Ela devia ter sido m ais velha que Vitória ao tornar-se m orta viva sua idade im ortal era próxim a aos trinta anos. Não era bonita, m as horrivelm ente elegante. Suas pálpebras eram tão finas e frias, que tinham a cor roxa; as m açãs de seu rosto eram salientes e form avam covas dessa m esm a cor em baixo.
Seus lábios cinza-azulados, roliços e sensuais, curvavam -se num sorriso de boas-vindas. Suas m ãos, j untas no colo, exibiam unhas longas e pontudas. Do topo da m açã do rosto à lateral do seu queixo, cinco m arcas negras form avam o que, m esm o a distância, Vitória podia ver que era um a m eia-lua.
Lilith, a Escura, não era tão escura quanto era fogosa e frígida ao m esm o tem po. Etérea com sua pele clara e pulsos estreitos, pescoço com prido e fibroso, e longas pernas elegantem ente cruzadas.
— Vitória Gardella. Que prazer em tê-la conosco.
— Onde está m eu m arido? — Sua voz saiu forte e ousada.
— Onde estão seus m odos, m arquesa?
— Estou aqui para fazer um a troca, não para tom ar chá.
— Bem , então vam os ao que interessa. Você interrom peu o m eu prazer.
Vitória seguiu o gesto de m ão de Liith e parou de respirar. Max.
Aquele era Max.
Estava em pé ao lado do púlpito e tinha ficado nas som bras até que o gesto de Lilith fez alguém em purrá-lo para frente. Sua cam isa pendia em frangalhos da cintura, seus braços estavam inertes. O sangue escorria pelo seu om bro e seu torso nu estava coberto de pelos escuros, cicatrizes e suor.
A atenção dela se concentrou no brilho da prata que perfurava seu m am ilo.
Enquanto ela olhava, estupefata, ele levantou o rosto e a fitou. Seus olhos estavam m ortiços e frios.
Chocada e subitam ente aterrorizada, Vitória voltou sua atenção a Lilith, que observara tudo com interesse.
— Dois convidados Venadores de um a vez só. Nunca tive tanta sorte.
— Onde está o m eu m arido?
Então ela o ouviu.
— Vitória!
Ela rodopiou e o viu sendo trazido ao salão, acorrentado — com o se o pobre Filipe pudesse fazer algum m al às criaturas naquela sala! — m as vivo. E andando sozinho.
Vitória voltou-se para Lilith.
— Ele não precisa ser acorrentado. Solte-o e discutirem os nossa troca.
— Discutir? Não há nada para discutir. Se quiser o seu m arido de volta, entregue-m e o Livro de Antwartha.
Vitória sorriu para ela. Way ren estivera na casa de tia Eustácia quando a m ensagem de Lilith chegou.
— Entregarei o Livro a você quando m inhas exigências forem satisfeitas. A proteção m udou, e o Livro tem que ser dado a você livrem ente, ou não servirá para nada. Você não pode tirá-lo de m im , ou ele se dissolverá em cinzas.
Lilith devolveu o sorriso e Vitória não gostou da expressão que o acom panhava.
— Ah, um a negociadora form idável, e que sabe planej ar! Eu não esperaria m enos do sangue de Eustácia. — Ela sacudiu a m ão e o Guardião segurando Filipe soltou as correntes de seus pulsos. — Presum indo, é claro, que você tenha realm ente m udado a proteção e não estej a apenas blefando.
— Sebastian Vioget tam bém está aqui?
Lilith arqueou as sobrancelhas acobreadas.
— Não. Eu m andei buscá-lo, m as ele não achou adequado aceitar m eu convite. — Seus olhos se estreitaram . — Eu suspeitava que ele fosse a razão de você ter chegado tão facilm ente ao Livro de Antwartha.
Vitória não achava que os eventos daquela noite poderiam ser cham ados de fáceis, m as nada disse.
— Ele disse a você com o conseguir o Livro, não disse?
— Você acha que eu seria burra o suficiente para acreditar num hom em com o Sebastian Vioget?
Lilith se recostou na cadeira, rindo deliciada. Era com o fum aça; delicada, penetrante e sufocante.
— Ah, tenho sentido falta de um duelo intelectual com um a m ulher.
Sua tia tam bém foi um a oponente form idável em seu tem po. Quanto a ele
— disse, olhando para Max — ele é um hom em e tem certas fraquezas que são um prazer explorar.
Sua atenção retornou contem plativam ente a Vitória.
Os pelos dos braços de Vitória se arrepiaram e ela percebeu que precisava m anter o controle da conversa. Agora teria que salvar tanto Max quanto Filipe.
— Estou com o Livro aqui, Lilith, m as m eus term os são diferentes daqueles que você ofereceu no seu bilhete.
— É m esm o? Por que será que isso não m e surpreende? — Lilith fez um m ovim ento sutil e Max se m exeu para frente com o se não controlasse seus m ovim entos. Ela fechou seus dedos no pulso dele, e o m anipulou de form a que ele ficou de j oelhos em frente a ela, no lado oposto ao fogo. — Deixe-m e adivinhar: você tam bém quer garantir a segurança do Venador.
Vitória assentiu com a cabeça.
Os olhos de Lilith então m udaram . Não a cor. . não, eles continuaram azul-safira, circulados por um grosso anel verm elho... m as algo em suas profundezas m udou. Vitória não conseguia desviar o olhar.
Estava presa, sentia-se m ole e enevoada. O chão se m ovia sob seus pés. O
ar ficou espesso, entrando-lhe à força.
— O que você quer, realm ente, Vitória Gardella? — A voz de Liith vinha de longe, e no entanto estava em seu ouvido, só para ela. Sua boca não se m exeu. Seus olhos não piscaram . — Seu m arido?
Filipe andou até ela, um fantoche respondendo à sua deixa, e Vitória tocou-lhe o braço. Ele estava frio, gelado; ela queria puxá-lo para si e m antê-lo seguro. Eles trom baram um no outro e através da névoa que Lilith criou ao redor de Vitória, ela sentiu algo pesado em seu bolso.
Vitória levantou a m ão e fechou suas pálpebras com os dedos, quebrando a conexão com Lilith. Um trem or percorreu-a quando Lilith reagiu, e então se rendeu. Mom entaneam ente. Ela não devia olhar para Lilith de novo. . m as era im possível, posto que aqueles olhos pareciam capazes de atrair seu olhar à vontade.
— Por que você quer tanto o Livro? — perguntou Vitória, deslizando sua m ão para o bolso de Filipe e fechando seus dedos em torno da pistola.
— Há m uitos segredos nele — disse-lhe Lilith, em tom de conversa.
Ela acariciou o cabelo preto de Max, puxando um chum aço que o fez levantar-se. — Estou particularm ente interessada no feitiço que m e dará o poder de arregim entar um exército de dem ônios em qualquer noite de lua cheia. E há tam bém a decocção que posso beber e dar a m eus servos para que um Venador não consiga detectar nossa presença. Isso seria extrem am ente útil, com o você deve im aginar.
Sem aviso, ela puxou a cabeça de Max para um lado e cravou os dentes na pele dele.
Vitória observou horrorizada enquanto ela bebia das veias distendidas, seus dentes pontudos deslizando para dentro com o m anteiga.
Max fechou seus olhos; ela podia vê-lo lutando para respirar, observou seu peito subir e descer, o vis bulla de prata trem endo com seus esforços. Ele fechou um a m ão na outra, e sua garganta se convulsionou.
Próxim o a ela, Filipe estrem eceu, sua respiração se acelerava, tornando-se irregular à m edida que assistia à cena. Vitória virou-se para olhá-lo e viu o brilho anim al em seu olhar e a abertura inconsciente de seu m axilar. . e soube. O horror a invadiu m esm o antes que ela visse o brilho das presas. . o cintilar verm elho nos seus olhos.
— Não! — gritou ela.
Lilith soltou Max e ele caiu m urcho no chão. Ela sorriu, seus dentes brancos brilhando. Alim entara-se elegantem ente; nem um a gota de verm elho em parte algum a.
Filipe caíra de j oelhos, arfando, ao lado de Vitória. Seus olhos estavam selvagens, tintos de verm elho, pois ainda era um m orto- vivo recente e a necessidade o consum ia. Vitória podia cheirá-la, e ficou enoj ada.
Seu estôm ago em brulhou, sua cabeça girou.
Ela agarrou a bolsa e forçou os dedos a parar de trem er.
— Não gostou da m inha surpresinha? Lam ento não ter perm itido a ele que term inasse de se alim entar antes de você chegar. Só deixei que ele m e provasse para abrir-lhe o apetite. Ele ainda vai desfrutar de você quando eu lhe der a ordem . — Ela fez um gesto para Filipe. — Levante-se!
Você terá o que precisa quando chegar a hora.
Filipe obedeceu e ficou em pé ao lado de Vitória, e ela percebeu o que Lilith pretendia quando ele passou sua m ão possessivam ente pelo braço dela. Ela teve engulhos.
— Agora vam os negociar, m inha querida. Em bora eu não acredite que há m uito espaço para isso, j á que, com o você pode ver, eu tenho todas as cartas.
— Eu ainda tenho o Livro. — Em bora Vitória não soubesse qual a vantagem daquilo. Filipe. O que ela tinha feito com ele? Casando-se com ele, satisfazendo seus desej os egoístas. . ela o trouxera até lá.
A dor a entorpeceu. Ele se fora e ela não podia trazê-lo de volta. Ele estava am aldiçoado. Maligno. Im ortal.
— Sim , m as o Livro vale m ais para você se o der a m im do que se o m antiver.
Vitória lutou para desviar sua atenção do choque e do horror da condição de seu m arido e concentrar-se em Lilith.
— O que quer dizer?
— Com o Livro, eu posso lhe dar o que você quer, Vitória. — As pálpebras de Lilith se abaixaram e ela penetrou Vitória com sua intenção, o verm elho cintilou, refulgindo de suas íris — Posso lhe dar o seu m arido de volta. Inteiro. Puro. Mortal, pois ele ainda não se alim entou de um ser m ortal.
— Com o?
Lilith se levantou, pela prim eira vez, e desceu um degrau. Colocou as m ãos esbeltas no ventre, seu vestido longo arrastando-se pelos degraus atrás dela.
— Está no Livro.
— Por que eu deveria acreditar em você? — A m ente de Vitória trabalhava freneticam ente. Ela podia salvar Filipe! Valia a pena, para salvar-lhe a vida. Dar a ela o Livro.
— Porque você não tem escolha. E por que eu m entiria? A vantagem é m inha. Não preciso fazer nada por você.
— E por que faria?
Foi quando Lilith cam inhou até ela. Vitória m anteve os olhos concentrados acim a do om bro dela, m as a proxim idade da rainha dos vam piros fez disparar seu pulso, roubou-lhe a respiração e a tornou dela.
Vitória podia sentir Filipe a seu lado, lutando para se controlar.
— Porque, m inha querida, eu posso dar-lhe algo m ais que tam bém m e beneficiará.
Ela cheirava a rosas. Frescas, orvalhadas, lindas rosas. O ícone da m aldade, da voracidade, tinha o cheiro de um a flor de verão. O epftom e da fem inilidade. Ela cheirava com o a m ãe de Vitória.
Vitória queria engasgar. Em vez disso, replicou:
— Eu suplico, não m e m antenha nesse suspense.
— Posso libertá-la do seu voto. Posso torná-la um a pessoa, não um a Venadora. Posso libertá-la. Você e seu m arido.
O coração de Vitória m artelava. Suas m ãos suavam . Ela fechou os olhos; Lilith continuou falando.
— Sua tia não lhe disse que existia um a form a de sair, não é? —
Vitória sacudiu a cabeça.
— Há sem pre um a saída.. bem , quase sem pre. — Lilith riu. O som encheu seus ouvidos, ecoando em seu cérebro. Alguns de nós estam os presos para sem pre.. m as não você, Vitória. Não o seu m arquês. Você pode ser livre. Ter um a vida norm al. Não é isso que você desej a?
— Ah, sim , abrirei m ão de m eus poderes para que você possa m e m atar. É um ótim o acordo! — Foi um a luta form ar as palavras, m as elas soaram frias, pelo m enos aos ouvidos de Vitória.
Ela esperou ser convencida, esperou ouvir a linha de raciocínio de Lilith.. rezando que lhe desse a liberdade para fazer um a escolha.
— Ah, não, eu não m encionei? Junto com a anulação do seu voto, há tam bém um feitiço que dará a você e ao seu am ante um a proteção infinita contra os m ortos-vivos. Vocês serão livres para viver com o quiserem ...
podem até ter um filho. . totalm ente protegidos de todos os vam piros. Se você m e der o Livro.
Vitória respirou fundo. Tudo que ela queria na vida, pelo preço de um livro velho.
Um livro com feitiços nele que aj udariam Lilith a ganhar poder. Ela seria capaz de conj urar dem ônios. Seria capaz de ficar im perceptível para os Venadores.
Vitória engoliu. O livro pesava na bolsa, j unto com a sua consciência. Seu coração estava entorpecido.
Filipe continuava resfolegando ao lado dela. Vitória olhou para ele, e ele a encarou, com o se guiado por um fio invisível. O verm elho desaparecera de seus olhos, e suas presas haviam recuado. Ele se parecia com o hom em que ela am ava. Aquele que estivera ao seu lado no altar, a quem prom etera seu am or e sua fidelidade.
Aquele a quem prom etera estar unida pelo resto de suas vidas.
Você deveria ter m e dito isso antes de nos casarm os, Vitória. É
im perdoável que não o tenha feito.
Suas últim as palavras a ela ressoavam em sua m em ória, duras e brutalm ente verdadeiras.
Ela lhe fizera um m al inim aginável, condenando-o ao inferno um a vez que sua vida im ortal fosse aniquilada por alguém com o ela... ou ao inferno na Terra com o um a criatura m aligna que se alim entava do sangue de vítim as inocentes.
Ela o am ava, e ela fizera isso com ele.
E proteção contra eles.
Isolam ento da consciência e da realidade dos m ortos-vivos.
O coração de Vitória acelerou. Suas m ãos se m overam para dentro da bolsa. Sentiu a aspereza da capa de couro do livro, a lom bada se soltando, as páginas quebradiças ao toque.
— Dê-m e o Livro! — Lilith chegou perto, m as não se atreveu a tocá-lo antes que Vitória o desse a ela. Livrem ente.
Vitória sentia sua ansiedade, sua luxúria pelo m onte de páginas encadernadas.
O que ela estava trocando? Sua vida, a vida de Filipe.. por um livro.
Um livro que continha... talvez. . grandes poderes. E talvez não.
— Afaste-se — disse Vitória a Lilith. Sua decisão estava tom ada. —
Farei a troca.
27
Um a corda extrem am ente fortuita
Quando Lilith se afastou dele, concentrando todo seu poder e atenção em Vitória, Max finalm ente conseguiu controlar o ritm o de sua própria respiração. Seu pescoço latej ava e queim ava, m as ele sabia por experiência própria que poderia ter sido pior.
Muito pior.
Sangue quente escorria por sua pele. Ele tentou se levantar com os braços trêm ulos, forçou-se a ficar em pé e lançou um olhar hostil ao Guardião que se atreveu a andar em sua direção. Ninguém se atreveria a tocar naquilo que pertencia a Lilith, o que garantia sua segurança. De certa form a.
Rockley fora convertido em m orto-vivo. Max suspeitava, m as não tivera certeza até então, ao ver Rockley fitando sua esposa com descontrolada luxúria. Com um a ordem de Lilith, ele se alim entaria nela até que ela m orresse.. ou pior. Mas não até que recebesse a perm issão de sua senhora. Ela não só perm itira que ele se alim entasse nela, m as Lilith o m antivera para garantir sua com pleta devoção.
Tocando seu vis bulla, Max fechou os olhos, inalou o poder e deixou que a m alignidade de Lilith fosse filtrada por seus poros. Eles tinham que dar um j eito de sair dali, com o Livro. Não havia esperança para Rockley.
Então ele ouviu Vitória: ―Afaste-se. Farei a trocaǁ.
O quê?
Dar o Livro a Lilith? Desfazer tudo pelo qual tinham trabalhado?
Não!
Ele com eçou a descer os degraus do púlpito. . e foi bloqueado pelas espadas de dois Im periais.
Vitória tinha visto; ela olhou para ele. Duram ente. Seus olhos então se desviaram para sua esquerda, rapidam ente para cim a e para baixo, depois de volta para a bolsa, pendurada diante do seu corpo. Ela vasculhou a bolsa com um a m ão, a outra deslizou pelas folgadas calças brancas que vestia.
Ela se vestira para a batalha, por assim dizer. Seu cabelo preso atrás, severo e negro, torcido em um coque na base de sua nuca, deixava seus olhos am plos e negros em um rosto que tinha a cor da saúde.. não da m orte. A despeito do cabelo vibrante de Lilith, era Vitória que brilhava, perto dela.
Max respirou fundo. Concentrou-se. À sua esquerda estava o grande prato de fogo, suspenso por um a arm ação de braços m etálicos. Ao lado havia um a pilha de m adeira... grossa dem ais para ser usada com o estacas.
Mas o próprio fogo...
— Não se aproxim e — disse Vitória a Lilith, e subitam ente Max entendeu o porquê. Ela segurava um a pistola em sua m ão. Aquilo era útil.
Lilith recuou, m as não pareceu surpresa.
— Você pegou isso do seu m arido. Não há bala nessa arm a que possa m e ferir. Você é a única em perigo com essa arm a. — Ela se virou e olhou para Max, ainda prisioneiro atrás das duas espadas cruzadas. — Ou ele. — Suas sobrancelhas se ergueram e ela m andou-lhe um sorriso causticante. — Talvez você desej e elim inar quaisquer testem unhas da sua... m udança de opinião.
Vitória levantou a pistola e apontou-a para Max. Fazia tem po que ele não se encontrava do lado errado de um tam bor, e não sentira a m ínim a falta daquilo. Os Im periais até m udaram as espadas de posição, para que ela pudesse atirar m elhor.
— Eu não ia querer que m inha tia soubesse que abandonei m eu voto; em vez disso, Max, Filipe e eu vam os sim plesm ente desaparecer.
— Eu ainda não acabei com ele — replicou Lilith.
— Nem eu. — Vitória olhou para Max novam ente, acenando com a cabeça, apontou a pistola para cim a e puxou o gatilho duas vezes em rápida sucessão. A cúpula pintada de preto se arrebentou, estilhaços de vidro choveram no centro do salão. . e o sol do m eio-dia explodiu através da abertura no teto.
Lilith gritou e caiu, rolando para fora do generoso círculo de luz no chão.
Filipe, em pé no canto da área ilum inada pelo sol, desviou-se da zona de perigo.
Max se m exera ao aceno de Vitória, atirando o prato de fogo sobre os Im periais. A calça de um deles pegou fogo, e quando ele largou a sua espada, Max pulou sobre ela.
Ficou em pé, decapitando o Im perial em cham as. Deu um a pirueta e cortou duas outras cabeças de vam piros despreparados, e virou-se para Vitória.
Ela hesitou, olhando para seu m arido, porém Max correu para ela, saltou e se colocou ao lado dela no m eio do salão. A luz do sol banhou os dois, em pé no círculo da segurança. O fogo que ele derrubara se espalhou pelo estofam ento da cadeira de Lilith e alcançou o carpete. A fum aça enevoou a sala, elevando-se para o ar livre, acim a.
A m aioria dos vam piros avançara, agrupando-se ao redor deles, bloqueando-os na área am arela redonda que atingia talvez dois m etros e m eio. Lilith estava a um a pequena distância, gritando ordens e esfregando as m ãos em seu corpo com o para rem over as queim aduras da luz solar. Um dos seus Guardiões retirava-lhe um a fina cam ada de pele queim ada do seu rosto e do seu busto, deixando-a em carne viva.
Max olhou para baixo. Deu-se conta de que o am arelo quente vinha esfriando aos seus pés. Um a nuvem se m ovia no céu e em breve bloquearia o sol. O santuário deles iria desaparecer.
— Não suponho que você tenha pensado no que fazer a partir daqui
— disse ele, brandindo a espada para um j ovem m orto-vivo que se atreveu a dar um passo na direção deles.
— Eu tinha a esperança de que, com o consegui a nós dois até aqui, você teria algum a ideia.
A fum aça estava ficando m ais espessa e parte da m obília estava com eçando a crepitar. Faltava pouco tem po para que a sala inteira estivesse envolta em cham as; línguas raivosas, verm elhas e alaranj adas j á devoravam as cortinas secas, apodrecidas, penduradas nas j anelas negras.
Algo rápido e escuro serpenteou no círculo dos vam piros, e Max se virou a tem po de ver Vitória se debatendo nos braços de Filipe. A luz e a escuridão os dividiam : ela estava sob o raio de sol, ele na segurança das som bras, tentando puxá-la para as trevas. Parte do braço dele estava ao sol, e seu rosto se retorcia de dor com a luz solar a queim á-lo, m as ele não a soltava. Os pés de Vitória estavam distantes um do outro, com os braços para trás, e, sob a vista de Max, Filipe enlaçou-a pela cintura e a varreu para fora da luz.
Ela se debateu, tentando se soltar. Seu rosto estava banhado em lágrim as e ela parecia estar dizendo algo, que repetia sem parar. . e finalm ente, ela curvou a cabeça e a j ogou para trás com força no nariz de Filipe. Ele a soltou, e, aproveitando a oportunidade, Max ergueu a sua espada, preparou o golpe.
Mas antes que ele pudesse cortar a cabeça do m arquês de Rockley, Vitória cam baleou de volta para a luz am arela e segurou o braço que em punhava a espada, desviando o poderoso golpe para o ar e para o chão.
— Não, Max! — gritou ela. — Não!
— Você não pode salvá-lo, Vitória! — gritou ele de volta, furioso e subitam ente assustado. Ela não podia salvá-lo. Será que não entendia isso?
— Não! — gritou Vitória.
— Você não pode m e deixar, Vitória — disse Filipe, aproxim ando-se; sua voz era um eco vazio daquilo que tinha sido.
— O seu lugar é aqui com igo. — Persuasivo. Tão persuasivo, tão doce e sedutor. E inevitável.
Max agarrou o braço dela quando ela quis se m over na direção de Filipe. A atração. . ele entendia isso. O que não entendia era a força do cham ado de Filipe a Vitória, sendo um m orto- vivo tão recente. Ela era um a Venadora.
— Filipe — soluçou ela, m as com um a estaca em sua m ão.
— Venha a m im , Vitória — disse seu m arido. — O seu am igo pode ir em bora... m as você tem que vir a m im . Eu preciso de você. Ela m e prom eteu que eu teria você.
Então Max a ouviu, aproxim ando-se deles no círculo quente de luz.
Lilith. Ela havia se recuperado. Ele sentiu de novo a atração, a exigência.
Ela o estava cham ando.. e era com fúria desta vez. Ele ia m orrer. Os j ogos haviam term inado.
Eles não tinham saída.
Então, enquanto a luz ia definhando, ele percebeu um m ovim ento vindo de cim a. Ergueram a cabeça e viram um a corda sendo j ogada pela cúpula quebrada. Mais vidro se espatifou na m edida em que a corda se esfregava nas beiradas frágeis.
— Kritanu! — sussurrou Vitória.
Max viu o rosto escuro de seu treinador, e depois o de Briy ani, que se agachavam pelo buraco no teto. O tim ing não poderia ter sido m elhor. .
eles realm ente estavam fazendo um trabalho sagrado.
Um dos vam piros pulou, tentando agarrar a corda que balançava próxim a à m argem de luz. Ele a apanhou, m as perdeu o equilíbrio e caiu aos pés deles, na piscina de sol. Gritando em agonia, tentou rolar para fora de lá, ainda segurando a corda. Max trouxe sua espada abaixo e a agonia term inou. A corda estava solta, novam ente.
— Vá! — gritou Vitória, j ogando a corda sobre Max.
— Não vou deixar você!
— Eu tenho o Livro! — disse ela, ferozm ente. — E você foi m ordido. Vá agora!
Os vam piros estavam fechando o cerco, suas presas brilhando enquanto o sol arrefecia por trás de um a sucessão de nuvens. Lilith estava em pé no lim ite entre a luz e o escuro, m as não pisou além . A fum aça filtrava-se pelo buraco, flutuando no canto superior do salão, e as cham as estavam tão próxim as, que Max podia sentir o cham usco do seu calor.
Mesm o que o sol j á não estivesse arrefecendo, o calor iria tirá-los de sua área de segurança em pouco tem po.
Quando Lilith ia alcançá-lo, Vitória levantou a bolsa e a m anteve suspensa na frente dela.
— Um m ovim ento, Lilith, e eu j ogo o Livro no fogo!
Naquele instante, outra corda caiu. Max pegou-a e a am arrou na cintura de Vitória, apertando-a bem .
— Puxem ! — gritou ele para cim a, e im ediatam ente viu-se subindo pelos ares. Max balançava de um lado para outro com o um pêndulo; e olhando para baixo, pôde ver sua som bra cortar o círculo de sol em um m ovim ento rítm ico, um a m ancha am bulante na esfera am arela que dim inuía quanto m ais ele subia.
Vitória agarrava-se à bolsa, de m odo que não podia trepar pela corda; porém Max havia am arrado o nó bem apertado e ela foi ligeiram ente erguida do chão. Quando com eçava a subir, Filipe pulou na luz e agarrou seu pé, puxando-a de volta.
— Não! — gritou ele.
Max j á estava na m etade do cam inho até o topo quando olhou para baixo e viu Filipe puxando-a. Ela não parecia resistir; parecia paralisada, suspensa no ar, a pesada bolsa apertada contra o peito. Filipe pegara seu pé e a colocara num ângulo fora da luz. Ele estava quase subindo pelas pernas dela para puxá-la de vez para baixo, adicionando seu peso e força ao fardo que Kritanu lutava para erguer.
—Vitória! — gritou Max. Ele não tinha com o voltar; estava sendo içado e não podia ir para baixo resgatá-la.
Ela não estava lutando, não estava se debatendo.
Filipe alcançou a corda na cintura dela, puxando-a, e Max olhou, incrédulo, a corda que ele acabara de am arrar afrouxando-se e Vitória caindo no chão, m etade na luz e m etade no escuro.
A corda pendeu inutilm ente da cúpula.
— Filipe — Max ouviu Vitória dizer. Ela não estava se m exendo, só olhando para ele. Seu m arido olhava para ela, e então para Lilith, com o se pedisse perm issão.
— Deixem -m e descer! Agora! — gritou Max para Kritanu, m as a corda continuou subindo inexoravelm ente. O rosto de Kritanu não estava m ais na cúpula; ele havia se afastado para poder puxar o fardo pesado.
— Kritanu!
Pedalando no ar, Max lutava para desam arrar o nó, enfiando os dedos no áspero cânham o ao redor da cintura.
Filipe levantou Vitória e ela j á não estava m ais no sol. A corda pendia atrás dela, ainda balançando.
— Você não pode salvá-lo! — berrou Max, tentando desam arrar a corda para cair de volta e aj udá-la. Mas o seu peso e a força da gravidade haviam apertado o nó de tal form a, que ele não tinha m ais com o desam arrá-lo. Ele estava quase chegando à cúpula e com eçava só agora a notar a fum aça.
O salão era tão grande, que a fum aça, que deveria estar sufocando todo m undo, se dissipou e perm anecia concentrada próxim a ao elevado teto; o fogo era um perigo m aior do que a fum aça.
Ele captou o gesto de Liith dando a sua perm issão. Filipe caiu sobre Vitória e a cabeça dela tom bou para trás com o se ele a com andasse. Max quase pôde escutar o grunhido de sua necessidade quando ele se inclinou para o pescoço exposto dela.
— O Livro, Liith! Ele vai destruí-lo! — gritou Max, balançando-se ainda m ais em sua agitação. Ele podia ver um a parede de fogo m ovendo-se na direção do círculo de vam piros, m as eles não se im portavam . Fogo não lhes faria m al. Som ente a Vitória.
— Pare! — gritou Lilith, estendendo seu braço e alcançando Filipe à distância.
Filipe paralisou-se com o se ela tivesse agarrado seu pescoço, lam uriou-se, m as não se m exeu. Max conseguia ouvir sua custosa respiração e, graças a Deus, o poder de Lilith libertou Vitória e ela voltou a si. E se afastou.
Ela caiu de volta na luz do sol, e Filipe não a im pediu. Ela ficou ali, caída, em um círculo m uito m enor de luz do que houvera m om entos antes.
— Se você quer o Livro — disse ela, com a voz m ais firm e do que Max teria esperado —, deixe-m e ir. Eu o darei a você.
Max olhou para baixo, tentando ver o que estava acontecendo. E
então, assim que sua corda o fez rodopiar em um pequeno círculo, que ele percebeu a corda ao lado dele se m exer, retesando-se.
— Puxem ! – ele gritou para cim a. – Ela está pronta. Puxem !
À m edida que Vitória era içada em m eio à fum aça, ele podia ouvi-la.
— O Livro de Antwartha! Lilith, o Livro é seu! Você não precisará m ais procurá-lo!
— Não! Vitória, não! — gritou Max, e então ouviu o longínquo baque do Livro caindo no chão, lá em baixo. E em seguida, através da névoa de fum aça, ele viu o m anuscrito, caído no círculo am arelo, esperando para ser arrebatado pelos vam piros.
E então não pôde ver m ais.
Lá de baixo, um a m ulher berrava e guinchava de dor e ódio, e subitam ente, Max foi arrastado do ar esfum açado para o sol, lindo e fresco.
Ele escalou para fora, com as correntes ainda tilintando, e pôs-se a aj udar Kritanu e Briy ani a puxar Vitória.
Quando ela finalm ente chegou ao topo, com o rosto m anchado de preto, ele aj udou a puxá-la pelas beiradas de vidro quebrado, cuidando para que ela não se cortasse. Mas isso não o im pediu de fulm iná-la de outro m odo.
— Você deu a ela o Livro? — gritou. — Vitória!
— O que sobrou dele — replicou ela calm am ente, com o se tivesse acabado de chegar para o chá. — Deixei-o cair e o Livro virou pó. Foi destruído para sem pre.
Max recuou, plantando o pé firm em ente no telhado inclinado.
— Eu presum o. . — ele pausou, porque se não m edisse com cuidado as palavras, poderia m atá-la. — Presum o que você o fez sabendo que seria esse o efeito.
— É claro. Assim que a luz do sol o tocasse, ele se esfacelaria, tal com o Way ren planej ou. — Ela se virou e seguiu Kritanu e Briy ani para fora do telhado do edifício em cham as, deixando Max seguindo-os atrás.
Ele tinha diversas outras coisas para dizer a ela, m as elas teriam que esperar. Em bora ela houvesse tentado escondê-las, ele tinha visto as lágrim as.
28
Eustácia faz um a confissão
— Vim os a cúpula negra se partir — explicou Kritanu quando estavam de volta à casa de tia Eustácia — e percebem os que algo estava acontecendo naquela parte da m ansão. E então a fum aça saiu. — Ele deu de om bros. — Nós soubem os.
— Você não poderia ter chegado em m elhor hora — observou Max.
Vitória fitou as feias m arcas verm elhas no pescoço dele. O
sangram ento havia parado e ela tivera o prazer de deitar água benta salgada na m ordida dele durante o traj eto de volta a Londres. Ela havia falado m uito pouco desde que deixaram o esconderij o de Lilith, cabendo a Max a tarefa de explicar o que pudesse.
— Os Venadores fazem um serviço sagrado — sentenciou Eustácia de sua cadeira. — As coisas m ais m ilagrosas acontecem quando estam os com batendo o m al.
Milagrosas? Vitória fechou os olhos. Ela não conseguia apagar o rosto de Filipe da sua m em ória, a avidez profunda. . A súplica. . a curvatura de seus lábios e a linha do seu nariz. Aquele rosto tão am ado, agora desesperado e vazio.
Você não pode salvá-lo.
As palavras zangadas de Max reverberavam em sua m ente. Ela não podia salvá-lo; na verdade, ela o havia condenado.
— O Livro foi destruído? — A pergunta de Eustácia trouxe Vitória de volta e ela ergueu os olhos para ver todos os dem ais olhos fixos nela.
— Nunca tive a intenção de entregá-lo a ela. — Olhou para Max.
Ele curvou a cabeça em reconhecim ento, m as nada disse. Estivera insolitam ente gentil com ela desde que haviam descido do telhado da m ansão e sentado na carruagem para vê-la consum ir-se em cham as. A fortaleza de Lilith estava destruída, m as não havia razão algum a para acreditar que ela tam bém estava. Ou Filipe.
Haveria m ais batalhas no futuro. Lilith ascenderia ao poder de novo e eles novam ente a enfrentariam .
E, com o tia Eustácia havia dito, Lilith nunca esqueceria o papel desem penhado por Vitória na derrota dela.
—Sabe o que aconteceu com Sebastian? — ela perguntou de repente, olhando para Max.
— Não. Presum o que pereceu no incêndio ou foi m orto pelos Im periais. Ele teria preferido isso a encarar Lilith.
Vitória não deixou de captar o desdém na sua voz, e não pensou m al dele. Ela vira em prim eira m ão o poder de Lilith, e sentira o inexorável poder de atração do abraço de um vam piro. Talvez a m orte fosse m elhor do que não ser capaz de controlar suas próprias ações e desej os.
Mas não para ela.
— Tia Eustácia, posso falar com a senhora?
— Estava esperando você pedir.
Quando ficaram a sós, sua tia falou antes dela:
— Não tenho palavras para expressar o quanto eu sinto por Filipe, Vitória. — Seus olhos negros estavam carregados de pesar e rem orso, e suas m ãos m acias e nodosas procuraram as da sobrinha. — Se eu tivesse sabido..
— Mas não sabia. Não poderia saber. E a senhora, assim com o Max, tentou m e deter. — Vitória segurou os dedos de sua tia e piscou para reprim ir as lágrim as. — Não há nada que se possa fazer para salvá-lo?
Eustácia sacudiu a cabeça.
— Quando um vam piro se alim enta de um m ortal, este fica condenado por toda a eternidade. Talvez orações ou um grande sacrifício possam salvar a alm a dele, m as não há garantia algum a.
Vitória fechou os olhos.
— Foi m eu egoísm o que causou isso. Eu nunca deveria ter m e casado com ele. Eu o am ava, e deveria tê-lo am ado o suficiente para deixá-
lo ir. — Ela ergueu o rosto e enxugou as lágrim as. — Ele m e disse que seu destino era m e am ar, quer estivéssem os j untos ou não. Agora nem isso ele pode fazer.
— É duro, Vitória. Eu sei. Bem m ais do que qualquer coisa que você j á im aginou. Você deu a sua vida por esta causa, e nunca se esqueça de que ela é a coisa certa e verdadeira. Você aj uda a livrar o m undo do m al, a m antê-lo encurralado. Se você e Max e eu não estivéssem os aqui, dando nossas vidas, esta terra j á teria sido devastada pelo m al há m uito tem po.
Em troca dos nossos extraordinários poderes e proteções, nós nos sacrificam os. — Ela hesitou e disse: — Lilith ofereceu libertar você, não ofereceu?
Vitória assentiu; seu rosto m olhado estava quente e pegaj oso.
— Eu queria, tia Eustácia. Eu queria. Ela teria m e dado Filipe.. ou disse que o faria. Ela podia tê-lo feito?
— Talvez. Eu não sei. — Eustácia respirou fundo. — Vitória, não fui totalm ente honesta com você. Sobre as escolhas e a vocação de um Venador.
— Alguns Venadores são natos, com o você. Alguns escolhem , com o você sabe, por m eio de grande perigo e sacrifício, assum ir esse papel. Um a vez que se tom a a decisão de aceitar a responsabilidade, existe apenas um a form a de um Venador deixar de sê-lo...
— Não — interrom peu Vitória sacudindo a cabeça, decidida. — Não o diga.
Sua tia fez um a pausa e olhou para ela.
— Sei que é tarde dem ais para você e Filipe, m as se você quiser, eu o farei. O seu sacrifício foi grande.
Vitória levantou e cam inhou até o arm ário onde a Bíblia Gardella estava guardada em segurança, com o um a hóstia num a sacristia.
— Não. Não é m ais um a opção para m im , se é que j á foi algum a vez.
Quando aceitei o Legado, eu o fiz de m odo inocente... m as eu não compreendia.
— Achei divertido ser forte, poder cam inhar pelas ruas sozinha à noite, e saber que eu podia m e defender m elhor do que qualquer hom em poderia. Dava-m e um a liberdade que nunca im aginei que um a m ulher pudesse ter!
— Com a liberdade, a força e o poder, vêm a dor e o sacrifício. A im possibilidade de ter um a vida norm al. Responsabilidade.
— Não posso voltar atrás, tia Eustácia, m esm o que a senhora m e dê essa chance. Não posso porque isso não é m ais brincadeira para m im . Não é m ais sim plesm ente um a tarefa, perseguir o m al e despachá-lo para o inferno. Lilith fez disso um a coisa m uito pessoal para m im .
Epílogo
Um adeus
Ele se m ovim entava pela casa silenciosa com o fum aça: rápido, escuro, inaudível. Sua casa. No seu próprio lar ele podia entrar sem ser convidado.
Se um dos criados o visse, nada pensaria dem ais, a não ser que o patrão finalm ente voltara para casa.
Mas ninguém o viu enquanto ele subia a escada sem ruído algum . A necessidade pulsava através dele, e quando pensou no gosto dela, em ficar finalm ente saciado, sentiu o coração dela pulsando na m esm a cadência que o seu. Mesm o a distância.
Sentia o cheiro dela, e suas m ãos trem iam à ideia do alívio que em breve experim entaria. A horrível necessidade se dissolveria e ele seria capaz de pensar novam ente. De respirar por conta própria. Descansar.
Sentir outra coisa além de fom e.
Ele a levaria consigo, estaria com ela... para sem pre. Ele a tornaria com o ele, im ortal. Ela era o seu destino, havia sido e sem pre seria.
Ficou em pé no um bral do quarto dela. Não hesitando, e sim . .
saboreando o m om ento. Desfrutando da atração. . e do vínculo m ais forte que controlava. Ele sabia que era forte o suficiente. O am or deles era profundo o suficiente. Ele podia fazê-lo.. por m ais poderosa que ela fosse, ele podia convertê-la.
Ela estava deitada de lado, coberta apenas por um a diáfana cam isola branca que deixava braços e peito descobertos, e o luar azul infiltrava-se pela j anela aberta. Seu cabelo negro encaracolava-se sobre o travesseiro.
Os olhos estavam fechados, im ersos na som bra.
Ele entrou, sentindo seu coração — não, o coração dela —
m artelando dentro do peito, das suas têm poras, da sua barriga, do seu pênis. A respiração dele ficou m ais profunda, m ais lenta, à m edida que pensava no alívio que sentiria, afundando-se nela. Seu am or eterno.
Vitória estava esperando. Soubera que ele viria, havia esperado por ele desde que voltara para casa, recusando que Max ou Eustácia a acom panhassem . Mandou Verbena em bora e deu folga aos criados naquela noite.
Queria estar sozinha quando ele chegasse.
Assim que ele encostou-se ao lado da cam a, ela sentiu sua própria respiração m udar. Não era m ais dela. Am bos respiravam j untos, com o um só. Ela abriu os olhos e olhou para ele.
Era Filipe.. seu am ado Filipe. Estendeu os braços para ele, e ele deitou-se na cam a.
Ele a beij ou, acariciou-a, retirou-lhe a cam isola e ela deixou.
Ela perm itiu a si m esm a o desej o, o consolo.
Ela sentiu quando ele m udou. O ritm o da sua respiração e a aspereza da sua pulsação percorreram o corpo dela com o um a tem pestade. A perda do seu controle. Os olhos dele adquiriram um tom róseo e, quando ergueu o rosto, suas presas cintilaram , brancas e fatais.
Mas a voz era a de Filipe. Não m udara, continuava fam iliar e am orosa.
— Não resista, Vitória, m inha m ulher — ele m urm urou, com o fizera outras vezes. — Serei m uito gentil.. e em breve você sentirá som ente prazer. Estarem os j untos para sem pre. É o m eu destino.
Quando seus incisivos arranharam a carne dela, na tenra j unção entre o pescoço e o om bro, preparando-se para penetrar, ela ficou rígida, suspirou e fechou os olhos. Lágrim as escorreram deles.
Ela procurou às apalpadelas entre as cobertas, fechou os dedos ao redor da m adeira lisa.
— Sem pre am arei você, Filipe. — E cravou-lhe a estaca.
Quando abriu os olhos m olhados, viu alguém em pé à porta do seu quarto.
Max. A estaca dele era delineada pelo luar.
— Eu o segui.
— Eu sabia que ele viria.
Ele abaixou a cabeça e depois levantou os olhos para ela.
— Você o salvou. Você o deteve a tem po.
— Espero que sim . — Ela suspirou. — Você tinha razão em tudo, Max.
— Por isso, e por isto tam bém , eu lam ento.
— Você estava certo a m eu respeito. Sou um a m ulher tola.
— Não. Você é um a Venadora.
FIM!!
Você terminou O Legado da Caça-Vampiro
Colleen Gleason