O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 4 de 4 · parte 2/3

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O Legado da Caça-Vampiro

— Im agino que ele vá dorm…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Graças a Deus!

 

Ela passou pelo rapaz com o se fosse a coisa m ais natural do m undo sair com vestido longo e voltar com roupas de hom em , e subiu correndo as escadas para o seu quarto. Verbena levantou-se quando ela entrou, com seu flexível cabelo achatado no m esm o lado em que seu rosto apresentava m arcas de travesseiro.

 

— Milady ! A sinhora chegô! Cum é que tá o seu braço?

 

— Estou bem . Obrigada por m e m andar estas roupas — disse Vitória. — Mas vam os rápido, preciso vestir m inha roupa de noite. O

 

m arquês deve chegar daqui a pouco e não quero que ele m e vej a vestida assim .

 

Elas trabalharam depressa, e bem a tem po, porque assim que o sol com eçou a derram ar seu fulgor sobre os telhados de Londres, a carruagem de Max estacionou em frente à propriedade.

 

Vitória cobriu-se com um a capa e desceu as escadas, segurando as saias e a anágua.

 

Briy ani, o sobrinho de Kritanu, um hom em baixo, de rosto estreito, grandes m úsculos e a m esm a pele bronzeada do seu tio, estava aj udando Filipe a descer da carruagem .

— Obrigada por cuidar dele — m urm urou Vitória ao cocheiro de Max. — Ele esteve acordado durante o traj eto?

 

— Não, só quando estávam os chegando. — Ele estendeu a Verbena um fardo de tecido vaporoso: o vestido de baile, irrem ediavelm ente am assado e suj o; m as pelo m enos não perm aneceria na carruagem .

 

— Max está na casa do seu tio e foi ferido gravem ente — disse-lhe Vitória.

 

Ele assentiu com a cabeça e subiu de volta para a boleia, partindo com a carruagem .

 

— Vou lá ver com o ele está.

 

— Vitória!

 

Filipe estava em pé na porta da casa, parecendo m al-aj am brado e exausto. Seus olhos, sem pre sem icerrados, pareciam particularm ente cansados.

 

— Querido, você está em casa, finalm ente! — disse Vitória anim adam ente, segurando o braço dele.

 

— Max veio ao m eu clube, disse que você pediu que eu viesse para casa. Então houve um a grande altercação por lá. Eu saí no m eio dela. —

 

Ele sacudiu a cabeça para clareá-la, e Vitória sentiu um a pontada renovada de culpa. — Devo ter dorm ido no cam inho para casa.

 

Mentiras e m ais m entiras. Subterfúgios e enganos. Filipe era um observador inocente que apenas queria viver um a vida norm al e feliz com a esposa que am ava.. e acabou envolvido em um a bagunça que não podia com preender. E nem sabia disso.

Por quanto tem po ela poderia gastar energia para assegurar que ele não soubesse? Para assegurar que ele estivesse a salvo? Vivendo um a vida dupla?

 

Vitória abraçou-o, lá m esm o na entrada de St. Heath’s Row, pouco além dos m uros de pedra que separavam a propriedade das ruas de Londres.

 

— Estou bem . Não havia urgência para que você voltasse para casa; eu apenas disse a Max, quando o vi no j antar dançante dos Guilderston, que se ele visse você, dissesse que eu chegaria em casa cedo e gostaria de ver você.

 

Talvez outra esposa teria perguntado sobre sua noite, sobre a altercação de que ele m al se lem brava no Bridge & Stokes, m as Vitória não podia levar a farsa tão longe.

 

— Venha, você parece exausto. Por que não descansa um pouco?

 

Ele colocou o braço ao redor da cintura dela e a em purrou com surpreendente força para dentro da casa.

 

— Irei, se você ficar com igo, m inha adorável esposa.

 

— Claro que sim . — Será que ele percebia o alívio na voz dela? Será que ele notava que a tensão dela se esvaíra quando ele pareceu aceitar o que acontecera tão facilm ente?

 

Vitória não estava certa se deveria ficar aliviada ou desapontada por Filipe estar cansado dem ais para fazer am or com ela, com o ele decerto havia pretendido. Ela se aninhou ao lado dele e tentou dorm ir, sabendo que algo teria de m udar antes que ela enlouquecesse.

 

Seus sonhos foram repletos de im agens e odores do episódio no Bridge & Stokes, de carne hum ana retalhada e piscinas de sangue; olhos vazados e bocas escancaradas gritando, estáticas e em choque. . de olhos verm elhos e presas cintilando e o zunido da lâm ina de m etal, decepando, decepando e decepando..

Quando ela acordou, foi por um m ovim ento inquieto, e estava olhando dentro dos olhos azuis de seu m arido. Ele não estava sorrindo.

 

—Você estava lá, ontem à noite. No clube. No m eu clube.

 

Pega tão de surpresa, Vitória não pôde fazer nada a não ser m over sua boca. Tentar falar; m as seus lábios não form avam palavras.

 

— Você estava com o seu prim o. Ele é realm ente seu prim o? — Ele estava apoiado num cotovelo, m eio sentado. O lençol caíra de seu dorso nu e m ostrava a curva de seu braço e a inclinação de seu cotovelo.

 

— Não, quero dizer, sim , ele é m eu prim o — gaguej ou ela, sentando-se. Tarde dem ais ela se lem brou da cicatriz no seu braço esquerdo. . Apressadas na noite anterior, Verbena a vestira com um traj e sem m angas. O corte em seu braço, em bora cicatrizando rapidam ente, era longo, verm elho e im possível de não notar.

 

Filipe notou e agarrou-lhe o braço, tirando-lhe o equilíbrio.

 

— O que é isto? Quando foi que isto aconteceu?

 

Vitória se afastou, soltando-se dele com pouco esforço. Ela não tirara seu vis bulla na noite anterior.

 

— Há alguns dias. Foi um acidente no estábulo; eu m e cortei com um a das ferram entas do ferrador.

 

— É um corte bem fundo — replicou Filipe, com a voz neutra. —

 

Quando foi que você disse que aconteceu?

 

Vitória engoliu. A últim a vez que ele a vira nua fora ao fazerem am or na volta do teatro. Pouco antes que ela o drogasse.

Apenas duas noites antes.

 

— Acho que foi ontem de m anhã, depois que você foi em bora para o seu clube.

 

Ele olhou para ela.

 

— Ontem ? Parece ter cicatrizado bem rápido.

 

O coração dela estava disparado.

 

— Sim , estou m uito surpresa. Minha tia m e deu algum unguento particularm ente eficaz.

 

Filipe j ogou os cobertores com tanta força, que eles caíram sobre ela, deslizando para o seu colo. Ele saiu da cam a, nu e belo, e m uito, m uito irritado.

 

Ele andou até a j anela, que tinha a altura da parede, do teto ao chão, e cruzou os braços. Com o j á fizera antes, falou para a parede, não para ela...

 

em bora as palavras fossem para ela.

 

— Vitória, eu quero saber por que você estava no m eu clube ontem à noite fantasiada de hom em com aquele italiano que você alega ser seu prim o. E quero a verdade sobre com o você recebeu um ferim ento tão perigoso que cicatrizou com tanta rapidez.

 

Ela respirou fundo. Havia desej ado que algo m udasse. Isso faria as coisas m udarem .

 

— Eu estava no clube porque nós, Max e eu (sim , ele é m eu prim o distante) soubem os que haveria um ataque por lá. Eu quis m e certificar de que você estaria seguro.

— Você quis se certificar de que eu estaria seguro? — Ele se virou da j anela e o brilho am arelado do sol proj etou um a bela som bra dourada sobre sua pele e cabelo. Infelizm ente, ela não estava em posição de apreciá-

 

la. — Que tipo de absurdo você está dizendo, Vitória? O que você poderia fazer a não ser se colocar em perigo? — Ele apontou o braço dela. —

 

Parece que j á se colocou!

 

Ela estava zangada com o escárnio na voz dele, e exausta, e com pletam ente estressada. Ela teria term inado a conversa ali, sem dizer m ais nada. Ele que ficasse irritado.

 

Mas não fez isso.

 

— Eu trabalho com Max. É parte do legado da nossa fam ília.

 

— Você trabalha com Max? Marquesas não trabalham .

 

—Eu trabalho. — Ela engoliu. — Eu caço vam piros.

 

Ele olhou fixam ente para ela. E olhou.

 

E olhou.

 

Por fim disse, com um a voz terrível:

 

— Você está louca!

 

— Não estou, Filipe. É verdade.

 

— Você está louca.

A paciência dela acabou. Ela pulou da cam a e foi até ele, parando tão perto, que sua cam isola tocava as pernas e a barriga dele.

 

— Dê-m e suas m ãos.

 

Quando ele relutantem ente lhe ofereceu as m ãos, ela apertou-lhe os pulsos e disse:

 

— Tente se soltar.

 

Ele tentou e não conseguiu. Ela forçou seus braços para os lados, observando a expressão no rosto dele m udar da raiva para o choque e a incom preensão.

 

Ela o soltou.

 

— Sou um a caça-vam piro. É o legado da m inha fam ília. Não tenho escolha; é o que tenho que fazer.

 

Filipe se afastou dela, topando com a j anela atrás dele.

 

— Eu não acredito em vam piros.

 

— Isso é m uito tolo da sua parte, j á que um deles quase m ordeu você ontem à noite...pouco antes de você m e ver. Max o m atou enquanto você falava com igo.

 

Ele sacudiu a cabeça.

 

— Quer eles existam ou não, você não pode caçar vam piros, Vitória!

 

Você é um a m arquesa! Você é um pilar da sociedade! Eu a proíbo! Com o seu m arido, eu a proíbo!

 

— Filipe, não é algo que você possa proibir. Isso está no m eu. .

sangue. É o m eu destino.

 

— Você pode acreditar nisso. Você pode achar que não tem escolha, m as se você não sair de casa para caçar vam piros, estará fazendo a escolha de não seguir seu destino.

 

— E devo então ignorar cada vez que souber que haverá ataques de vam piros. . em lugares com o o Bridge & Stokes? Deixar pessoas m orrerem ? Você escapou, Filipe, porque Max lhe contou um a m entira que fez você ir em bora. Mas você não viu a carnificina que ficou para trás. . de alguns dos seus am igos! Foi além do horripilante!

 

— Eu proíbo, Vitória.

 

— Não ficarei parada deixando pessoas m orrerem desse j eito.

 

Ele se afastou da j anela e passou por ela, entrando em seu quarto de vestir e gritando por seu criado:

 

— Franks!

 

Filipe parou na porta que com unicava os dois quartos, segurando a beirada e olhando para o chão.

 

— Você deveria ter m e dito isso antes de nos casarm os, Vitória. É

 

im perdoável que não o tenha feito.

 

E fechou a porta. Suavem ente. Mas o barulho foi alto.

 

* * *

— Eles só chegaram da lua de m el há dois dias, Nilly — disse Melly com placentem ente —, m as tenho certeza de que poderei convencer o m ais novo e m ais notável casal da alta sociedade a com parecer ao baile da sua sobrinha.

 

— Isso seria divino! — entusiasm ou-se Petronilha, de olho na bandej a com bolinhos de laranj a e canela. Tinham um cheiro delicioso, m as aquela cor esquisita de cenoura a repelia. Talvez ela tivesse um a conversa com Freda sobre dim inuir a coloração. Pelo m enos os biscoitos de lim a não tinham aquele tom horroroso de verde da últim a vez que ela os fizera.

 

Agora estavam bem apetitosos, m esm o com a fina cam ada de glacê.

 

— Onde está Winnie? Pensei que ela queria ouvir todos os detalhes da lua de m el — reclam ou Melly. Ela não tinha a hesitação de suas am igas: solapou dois bolinhos e com eçou a m ordiscar um terceiro.

 

—Estou aqui! — Com o se recebesse a deixa, a porta da sala se abriu, dando passagem à duquesa Farnham , que tilintava e chocalhava a cada passo.

 

— E o que, em nom e de Deus, é isso? — perguntou Melly, olhando desconfiada para o crucifixo enorm e que pendia da sua cintura com o um a corrente de chaves usada por castelãs em tem pos m edievais. Só que o crucifixo era bem m aior do que qualquer corrente de chaves. — E isso?

 

— É a estaca dela, claro — explicou Petronilha, com o se Melly tivesse perdido a cabeça, em bora lady Grantworth achasse que suas duas am igas m ais queridas é que a haviam perdido.

 

— Winnie, espero realm ente que você não estej a pensando em usar um a coisa dessas! Seria tão cruel!

 

Winifred afundou-se em sua poltrona favorita na sala de Petronilha,conseguindo ao m esm o tem po em purrar quatro bolinhos e três biscoitos de lim a para o seu prato e servir-se um a xícara de chá.

— Não sou boba o suficiente para ficar m e exibindo por aí sem proteção, e vocês duas seriam sábias se fizessem o m esm o.

 

— Não, não, não, não!.. Winnie, não m e diga que você ainda tem m edo que um vam piro pule das som bras em cim a de você à noite! — Melly enfiou na boca o resto do bolinho de laranj a e tom ou um gole de chá, balançando a cabeça e revirando os olhos.

 

— Eu diria que sim ! — Winifted despej ou um a quantidade generosa de crem e em seu chá, desdenhando o açúcar, e m exeu gentil e elegantem ente com a colher para dispersá-lo. — Vocês ouviram sobre o incidente de ontem à noite naquele clube de cavalheiros, Bridge & Stokes, não ouviram ? Quando m e contaram eu fui im ediatam ente até um dos lacaios, ordenei que ele pegasse um a das bengalas do duque e a transform asse num a estaca. Não vou a lugar nenhum sem ela!

 

— Incidente no Bridge & Stokes? — ecoou Petronilha, com os pálidos olhos azuis arregalados de interesse. — Do que é que você está falando? Havia vam piros ali? Alguém foi m ordido? — A últim a pergunta veio quase sem voz.

 

— Aqueles não eram vam piros, Winnie! — Melly sacudiu a cabeça e alisou as saias. — Sei do incidente que você está falando, e não foram vam piros. Quantas vezes vou ter que repetir que eles sim plesm ente não existem ? São produto da im aginação de Polidori, alim entada por lendas e histórias de fantasm as.

 

— O que aconteceu em Bridge & Stokes? — perguntou Petronilha novam ente.

 

— Com o é que você não ouviu falar? A fofoca está correndo entre os em pregados com m ais rapidez do que fogo num cam po seco — replicou Melly com ar de superioridade.

 

— Estive indisposta a m anhã inteira — respondeu Petronilha delicadam ente.

 

Melly bufou, m as Winnie dignou-se, por fim , a explicar:

— Cinco hom ens foram encontrados m ortos depois que alguns transeuntes inform aram a polícia que tinha havido um a briga barulhenta lá, hoj e de m anhã bem cedo. Ninguém escutou tiros, e pelo que ouvi, os corpos foram encontrados bem destruidos, m utilados, até. Um a trem enda suj eira. — Ela estendeu a m ão para pegar outro biscoito, pensou duas vezes e o colocou de volta no prato. Aparentem ente havia algum as coisas que afetavam seu apetite.

 

— Lorde Jellington, m eu prim o, visitou-m e hoj e de m anhã bem cedo

 

— intercedeu Melly. — Pois o m arquês é m em bro do clube em questão e tinha, de fato, estado lá ontem à noite. Mas parece que ele foi em bora antes do incidente, e Jellington quis m e assegurar que ele não estava envolvido.

 

— Conhecendo Jellington, tenho certeza de que não era só isso que ele desej ava ao visitar sua atraente prim a em terceiro grau — com entou Petronilha, m aliciosam ente.

 

— Ora, vam os! Jellington nunca olhou duas vezes. , bem , talvez duas vezes, m as definitivam ente não três vezes.., para m im dessa form a —

 

replicou Melly, escondendo o rosto na xícara de chá.

 

— Foram os vam piros que fizeram isso! — Winnie conduziu a conversa de volta aos trilhos. — É por isso que não houve tiros! Eles não precisam de arm as para conseguir o que querem .

 

Melly estava sacudindo a cabeça.

 

— Não, Jellington diz que um a ou duas pessoas, ao que parece, atacaram os m em bros do clube com facas. Talvez em aIgum tipo de represália, pois todos os m ortos (exceto um , que pode ter sido m orto acidentalm ente) estavam endividados e deviam m uito dinheiro a alguns daqueles agiotas horrendos de St. Giles. Os policiais acreditam que foi um a tentativa de coletar fundos que lhes eram devidos, ou fazer daqueles hom ens um exem plo do que acontece quando não se paga um a dívida.—

Ela fungou e pôs sua xícara na m esa.

 

Foi a vez de Winnie bufar.

 

— Isso é o que os policiais estão dizendo. Mas não acredito neles.

 

Eles não querem que haj a um a onda de pânico em Londres, com todos crendo que há vam piros por aí.

 

— Se há vam piros causando tudo isso — redarguiu Melly — por que ninguém inform ou ter visto um ?

 

— Eles são m uito cuidadosos. . eles se infiltram na calada da noite

 

— replicou Winnie. — Certifiquem -se de que as j anelas de seus quartos estej am bem fechadas e trancadas.

 

— Vou m e assegurar de que a m inha será totalm ente trancada —

 

replicou Petronilha, em tom um pouco sério dem ais. — Eles realm ente se infiltram na calada da noite, não é? Mas j á ouvi que eles podem se transform ar em sereno ou neblina e penetrar pelas gretas da j anela... e aí se transform am de volta em hom ens. Dentro do dorm itório! Ah, m eu Deus, e o sr. Fenworth dorm e em seu próprio quarto do outro lado do corredor! Estarei com pletam ente sozinha e desprotegida! — Sua voz aum entou de volum e com o se ela quisesse garantir que quaisquer vam piros por perto ouviriam .

 

— Se eles se infiltram na calada da noite, então essa é um a indicação clara de que vam piros, se é que existem , não foram responsáveis pelo ataque no Bridge & Stokes. — Melly se inclinou para despej ar um cubinho de açúcar em seu chá.

 

— E aquele incidente no Parque Vauxhall anteontem à noite? —

com entou Winnie. — Jellington lhe disse qualquer coisa sobre aquilo?

 

—Não.

 

— Houve algum tipo de altercação por lá, m as ninguém ficou m achucado ou ferido.

 

Melly levantou as sobrancelhas.

 

— Ninguém foi m achucado, ferido e m uito m enos m ordido.. e você debita o incidente, qualquer que tenha sido, a vam piros inexistentes?

 

Winnie, m inha querida, você realm ente está levando aqueles rom ances góticos m uito a sério. Tudo de violento ou inesperado que acontece nesta cidade não pode ser atribuído a criaturas com o vam piros. Há suficiente m aldade perpetrada pelo hom em para que precisem os inventar seres paranorm ais em quem j ogar a culpa.

 

— Agora, vam os deixar de lado os absurdos e falar sobre coisas m uito m ais interessantes.., com o por exem plo, quando terem os um m arquezinho em nossas m ãos!

 

***

 

Sua esposa estava louca. Tinha que estar louca, porque a alternativa era aterrorizante.

 

Pela prim eira vez até onde se lem brava, Filipe de Lacey, m arquês de Rockley, não sabia o que fazer.

 

Ele saiu de St. Heath’s Row e dirigiu sua charrete até a cidade.

 

Parou no White’s, outro dos clubes que frequentava, e sentou-se sozinho a um a m esa. Bebeu vários copos de uísque, com eu um grande naco de carne que tinha gosto de serragem , e um filão de pão que poderia estar cheio de carunchos que ele nem notaria.

 

Depois do White’s, ele continuava inquieto, então foi para outro clube de cavalheiros, em bora não tivesse qualquer vontade de ser sociável.

 

No Bertrand’s ele evitou seus am igos e se sentou num a sala vazia, ignorando o burburinho sobre os infelizes que haviam perecido no Bridge

 

& Stokes na noite anterior.

 

Talvez por isso ele não quisesse conversar com ninguém .

 

Ele não queria saber se Vitória estava certa ou errada. Não queria ter que pensar sobre o que significaria se ela estivesse certa. . ou se estivesse errada.

 

***

 

Quando Filipe não retornou a St. Heath’s Row na m anhã seguinte, Vitória não aguentou m ais. Pediu que preparassem a carruagem e foi até a casa de Eustácia.

 

Sua tia olhou para ela um a única vez e entendeu:

 

— Ele sabe.

 

Vitória afundou-se num a cadeira, zangada por suas m ãos estarem trem endo e lágrim as am eaçarem seus olhos. Ela assentiu com a cabeça.

 

— Ele m e proibiu de continuar a caçar.

 

Eustácia esperou. Sabia o poder do silêncio. O som do relógio m arcava os m inutos, diluindo as esperanças que ela depositara em Vitória.

 

— Eu lhe disse que não podia ficar quieta deixando pessoas m orrerem .

 

Eustácia assentiu com a cabeça. Bem falado.

 

— Ele ficou zangado e saiu. Não voltou para casa desde que discutim os ontem de m anhã.

 

— Ele viu você no clube? — Max tinha contado a Eustácia sobre o ataque no Bridge & Stokes enquanto ela tratava de seus ferim entos. Foi a tentativa dele de evitar que ela lhe desse um serm ão sobre não cuidar direito de suas feridas; ela percebeu e deixou-o pensar que conseguira enganá-la. Mas quando term inou, ela o repreendeu duram ente. Até m esm o Venadores tinham que cuidar de seus ferim entos, lem brou-lhe Eustácia.

 

— Sim , ele m e reconheceu. Eu lhe disse a verdade; não podia esconder m ais, tia. Não podia viver naquela m entira, continuar entupindo-o de salvi.

 

— Claro que não podia, cara. Não está na sua natureza ser dissim ulada. Eu sabia que existia a possibilidade de você ter que contar a ele, algum dia. Não esperava que fosse tão cedo, e no m eio de um período tão dificil...

 

— Com o assim ?

 

—Você e Max enfrentaram dois ataques nas últim as três noites; talvez até tenha havido um ontem à noite de que não soubem os. Lilith está reunindo suas forças. Ela está pronta para atacar você em retaliação por você tê-la passado para trás. Ela quer o Livro de volta e tem algum plano em m ente para obtê-lo.

 

Ela esfregou as falangetas de sua m ão esquerda, onde as afiadas pontadas da artrite a incom odavam , e prosseguiu:

 

— Max não está em condições de sair, m as ele está no Cálice de Prata desde ontem , tentando descobrir o que está acontecendo. — Ele suspeitara que Rockley teria reconhecido Vitória e que eles discutiriam , por isso não perm itira que Eustácia a envolvesse, insistindo que lidaria sozinho com aquilo enquanto a m arquesa cuidava de seus ―incêndios dom ésticos’ com o disse cinicam ente.

 

— Eu sabia que ele estava m uito ferido — observou Vitória —, m as ele não m e deixou cuidar dos ferim entos.

 

— Eu sei. Ele m e confessou isso — suspirou Eustácia. Ela possuía outras suspeitas a respeito das m otivações de Max, m as agora não era o m om ento para ventilá-las. Em vez disso, com entou: — Ele não gosta de ser m im ado.

 

— Tia Eustácia, eu com eti um erro contando tudo a Filipe?

 

— Não sei com o você poderia ter feito outra coisa; m as acredito, sim , que haverá consequências. Elas podem ser sim ples com o o m arquês tentar im pedir você de sair quando precisarm os de você; ou podem ser m ais severas. Você precisa fazê-lo entender de que isto não é algo em que ele possa se envolver, por m ais que queira protegê-la. Ele não pode. Você precisa deixar isto claro para ele; ou m ande-o falar com igo e eu o farei.

 

Vitória assentiu com a cabeça. Faria isso. Se algum dia ele voltasse a St. Heath’s Row.

 

— Agora, cara, você deve voltar para casa e descansar. Seu m arido am a você; ele voltará no m om ento adequado para ele, quando tiver assim ilado a sua confissão. E nós precisam os de você. Max não pode fazer isto sozinho.

 

Vitória concordou.. m as pela prim eira vez, ela realm ente se arrependeu de sua decisão de aceitar o Legado. Gostaria de ter recusado, e que lim passem sua m ente.

 

Ela desej ava a ignorância. E um a vida norm al.

 

24

Três cavalheiros se encontram

 

No fim do segundo dia depois de Vitória lhe ter contado sua história fantástica, Filipe se deu conta do que deveria fazer.

 

Ele certam ente j á visitara o Bridge & Stokes, encontrando-o

 

―Fechado por m otivo de m orteǁ. E, sem dúvida, houve falatório sobre os ataques ocorridos lá; m as ninguém m encionou vam piros.

 

Ele chegara ao ponto de dirigir sua charrete à casa do prim o de Vitória, Maxim iliano, planej ando confrontá-lo com o j á fizera antes. . m as o suj eito não estava em casa, e o m ordom o de pele escura não soube dizer a Filipe quando é que seu patrão voltaria.

 

Um a coisa que ele ainda não estava preparado para fazer era encarar Vitória. Por isso não voltou para St. Heath’s Row.

 

Em vez disso, ele alugou um cabriolé para levá-lo a St. Giles.

 

Ao local até onde ele seguira Vitória, o estabelecim ento cham ado Cálice de Prata.

 

Ali ele encontraria a resposta.

 

Ah, ele não era burro. Entorpecido, talvez; tonto e com a m ente partida de tristeza e dor... m as não burro. Ele se preparou: colocou um crucifixo por baixo de seu paletó. Encheu os bolsos com dentes de alho.

 

Até encontrou algo que poderia usar com o um a estaca de m adeira: um a bengala quebrada na chapelaria do White’s.

 

Filipe não acreditava em vam piros, e em bora não tivesse perdido seu tem po lendo aquele rom ance ridículo de Polidori , sabia o que o folclore dizia sobre a proteção contra os m ortos-vivos.

Mas ele tam bém enfiou um a arm a no bolso.

 

* * *

 

Quando Max entrou no Cálice de Prata pela terceira noite seguida, soube que algo ruim ia acontecer.

 

Já era hora; ele vinha esperando que a coisa toda explodisse havia três dias. Desde o prim eiro ataque no Vauxhall, seguido pelo outro no Bridge & Stokes, ele sabia que isso levaria a algum a coisa.

 

A paciência de Lilith tinha acabado.

 

O que ele não esperava, nem poderia ter im aginado encontrar, era o m arquês de Rockley sentado am igavelm ente a um a m esa com Sebastian Vioget.

 

Antes que tivesse a chance de se perguntar sobre aquilo, Vioget deu um a olhada para cim a e o viu em pé na entrada. Deu um sorriso m ínim o e acenou com a cabeça para Max.

 

Max foi ao encontro deles. Não im portava quão astuta fosse Lilith, isto não podia ser parte do plano dela.

 

— Boa noite, Rockley — disse Max, aproxim ando-se da m esa.

 

— Pesaro. Por que não estou surpreso em vê-lo aqui? — Sincero no que dizia, não havia inflexão em sua voz.

 

— Talvez, m as eu estou surpreso em vê-lo. Pensei que após sua últim a visita, você teria aprendido algum a coisa. A saber: que existem lugares onde você não é bem -vindo.. e nem a salvo.

— Vioget, aqui, m e garantiu que este não é o caso, que eu nada tenho a tem er enquanto estiver no estabelecim ento dele. Vitória m e contou tudo.

 

— É m esm o? Mas você não acreditou nela, então veio até aqui para descobrir por si próprio. Seu tolo! Se eu não tivesse chegado, você estaria à m ercê dos caprichos desse hom em .

 

Então ela contara para ele. Max apertou os olhos ao analisar o m arquês: seus olhos dorm entes, o cabelo perfeito, as roupas feitas em alfaiates. O hom em entrara naquele covil de m ortos-vivos não acreditando, e com pletam ente despreparado para enfrentar o resultado de suas ações.

 

Era um hom em m orto se Max não interviesse. Novam ente.

 

— Se você não tivesse chegado, nós teríam os continuado nossa conversa agradavelm ente — replicou Vioget com frieza. — Agora, se nos dá licença, Maxim iliano. .

 

Antes que pudesse term inar, um ruído desagradável cham ou a atenção de am bos. Ele se virou enquanto Sebastian erguia-se de um salto.

 

Im periais. Cinco deles. Mais do que Max j am ais vira j untos ao m esm o tem po. Em pé na base da escadaria, espadas desem bainhadas, olhos verm elho-violeta brilhando. Só um deles sorria, e suas presas cintilavam .

 

Max ouviu a respiração de Rockley. Tarde dem ais, pobre infeliz.

 

O salão ficara silencioso e a tensão pulsava com o um coração m oribundo.

 

— Boa noite e bem -vindos ao Cálice de Prata. — Max teve que dar crédito a Vioget: sua voz estava tão suave e serena com o se estivesse cum prim entando um a dam a que chegara para o chá.

 

Porém , Max sabia que os cinco Im periais não estavam lá para tom ar chá, nem qualquer outra bebida, m esm o do tipo fresco.

Lilith os enviara.

 

O líder dos Im periais deu três passos. Os m ortos-vivos nas m esas próxim as se encolheram . Im periais, quando irritados, costum avam canibalizar seus próprios sem elhantes.

 

— Sebastian Vioget, fom os enviados para conduzir você à presença de nossa senhora.

 

— Por favor, apresente a ela m inhas desculpas, m as j á tenho um com prom isso para esta noite.

 

Max notou que Vioget se m overa em direção à parede de tij olos atrás de Rockley. Fingindo aj ustar seu paletó, Max m oveu-se para a esquerda do m arquês, colocando-o entre Sebastian e ele, e a centím etros da porta escondida. Max não ia deixar Vioget entrar por lá sem eles dois.

 

Não pela prim eira vez, ele se perguntou com o tinha sido levado a paj ear um m arquês. . de novo.

 

— Você é engraçado, Vioget. Bem , você pode tornar isto sim ples..

 

ou difícil. — A m aneira que o líder Im perial acariciava o lábio inferior com a presa esquerda indicava que ele preferia m uito m ais a form a difícil.

 

Max tocou Rockley e sentiu a rigidez do seu om bro.

 

— Prepare-se — disse-lhe baixo, sem m exer os lábios. — Atrás de você.

 

Mas não tiveram a m ínim a chance.

 

Subitam ente, o salão se tornou um turbilhão: um a m esa voou, espadas lançaram clarões, cadeiras se partiram , gritos, berros e golpes ressoaram .

Max agarrou Rockley, j ogou-o debaixo de um a m esa e foi atrás.

 

Melhor esquecer a porta escondida; eles tentariam esgueirar-se para fora ao longo das paredes.

 

Filipe, que se vira im possibilitado de se m over, soube de repente que sua única chance de escapar era seguir o prim o de Vitória pelo chão, por baixo das m esas. Ele largou a pistola que tinha no bolso, percebendo, finalm ente, o que Pesaro e Vitória vinham tentado lhe dizer. Tarde dem ais.

 

Os olhares hipnóticos e a m aneira com que os clientes o fitavam , com o se o atravessassem e o suavizassem , não haviam sido suficientes; não, foi som ente quando aqueles cinco hom ens, com olhos ardentes e arm as m ortais irrom peram salão adentro que ele percebeu que iria m orrer.

 

Ele iria m orrer com acusações e raiva pendentes entre ele e sua esposa.

 

Sabendo instintivam ente que o crucifixo em seu bolso seria pouca proteção contra as cinco criaturas, Filipe engatinhou pelo chão atrás de Max, j ogando sua única esperança de sobrevivência no hom em que parecia saber o que fazer. Cacos de copos e lascas de m adeira cortaram seus culotes finos e feriram suas m ãos. Algo escuro e grudento respingou sobre sua cabeça e om bros, vindo das m esas acim a. O fedor de ferrugem encheu suas narinas. Houve um barulho alto de algo se espatifando atrás deles e ele sentiu cheiro de óleo de lam parina e, logo em seguida, o odor asfixiante de um violento incêndio.

 

Ele e Pesaro m ilagrosam ente alcançaram a curva da parede que term inava ao pé da escada que dava naquele lugar que ele associaria para sem pre ao inferno. Gritos e sons de luta os seguiam enquanto eles avançavam lentam ente pela parede, sob a cobertura de um a súbita e espessa fum aça, e Filipe quis gritar em triunfo quando tocaram o últim o degrau.

 

Subindo os degraus aos tropeços, Filipe viu seu guia olhar para trás, parando na escada. Ele passou por Max e seguiu em frente, reconhecendo que não havia esperança de aj udar Vioget. Ou quem quer que fosse pego no cam inho daqueles cinco m onstros.

 

Mas quando ele alcançou o topo, a liberdade, ele se viu encarando m ais duas daquelas criaturas. Seus olhos eram verm elhos e eles não carregavam espadas. Um a era m ulher. Mas, por m enos fam iliarizado que fosse com esses dem ônios, Filipe reconheceu que eram vam piros pela form a com o seus m ovim entos ficaram lentos ao ser capturado pelo olhar dela.

 

— Que beleza! — disse ela com voz gutural. — Exatam ente o que eu precisava. E eu pensando que perderia toda a diversão ao ser colocada aqui para vigiar.

 

Ele não conseguia lutar; os olhos dela o aprisionaram . Ele foi pego e carregado, sem qualquer esforço, para algum lugar qualquer. Ele se debateu; não podia se livrar... ela o segurou perto e ele sentiu o coração dela batendo nele, através dele, com o se estivesse em um invólucro que o apertava m ais quando ele se debatia.

 

Ela o enfiou em algum lugar; ele caiu sobre algo acolchoado e lutou para fugir. Estava em um a carruagem ; pela porta pôde ver que haviam capturado Max. Estavam arrastando-o em direção à carruagem , m as ela o puxou para trás, para longe da abertura.

 

— Agora, m eu adorado — disse ela, olhando-o nos olhos. Ele não podia evitar. Eles o com peliam com o nada j am ais o fizera. Ele estava vagam ente consciente de um pesado fardo sendo j ogado ao lado dele, pois quebrou a conexão por um m ilésim o de segundo.

 

— Meu adorado — disse ela novam ente, e em aranhou seus dedos fortes nos cabelos dele, com o um a am ante. Com o Vitória. Então ela os agarrou, puxou a cabeça dele para trás com força, e ele gritou com o choque. Ela se inclinou para ele; seus lábios eram quentes e frios ao m esm o tem po. Eles tocaram a curva de seu pescoço, a parte m acia agora aberta e nua.

 

Ele se debateu, m as ela se afastou e olhou para ele, acalm ando-o com seus olhos.

— Não vai doer, m eu adorado.. m eu adorado. — Ela lam beu seu rosto, fechou sua boca sobre a dele e enfiou sua língua dentro. Sufocando-o... porém dando-lhe prazer. Quando ela recuou, ele sentiu gosto de sangue. . e ela estava lam bendo os próprios lábios. Ele tam bém quis lam bê-

 

los.

 

Alguém se debatia ao lado dele, na carruagem . Isso o abalou, e a vam pira sibilou:

 

— Dom ine o Venador. Mas controle-se. Nossa senhora arrancará o seu coração se você se alim entar nele.

 

Então ela voltou para Felipe, sorrindo, cham ando-o com os olhos.

 

— E qual é seu nom e, m eu adorado? Você é bonito dem ais para ficar anônim o. Talvez eu fique com você para m im .

 

Ele queria responder; ele não queria responder.. m as não tinha escolha. Os olhos verm elhos dela, rodeados de preto e com a pupila tam bém negra, o com peliram a responder:

 

— Filipe.. — conseguiu ele. — Rockley. .

 

Os olhos dela se dilataram pelo choque; o controle dela falhou.

 

Unhas afiadas enfiaram -se no seu escalpo e no braço que ela agarrava.

 

— Você é Rockley ? Casado com Vitória?

 

Distante, por cim a do zum bido em seus ouvidos, ele ouviu um

 

―Não!ǁ desesperado, m as o gem ido de Max não pôde im pedi-lo de responder ―Sim ǁ.

A vam pira sorriu, olhando para ele. Suas presas eram longas e bonitas. Ele as queria nele, dentro dele. Ficou excitado por antecipação.

 

Ele respirou fundo quando ela se debruçou sobre sua carne. Ela o atiçou por um m om ento; seus lábios, sua língua, suas presas arranhando, m ordiscando.

 

— Isso m uda as coisas — m urm urou ela, e enterrou-lhe as presas em sua orelha.

 

Ele gem eu enquanto o prazer e a dor o invadiam . . diferente de tudo que ele j á sentira. Um líquido m orno pingava no seu pescoço; ele podia cheirá-lo. Cheirá-lo no hálito dela quando ela voltou para sua boca. Ele queria sentir o cheiro tam bém .

 

— Não precisarei m atá-lo, agora. — Ela respirou fundo e exalou, devagar, delicadam ente.. inj etando seu hálito tépido na carne e no sangue dele enquanto enterrava os dentes no seu om bro.

 

25

 

O m arquês, o Venador e o estalaj adeiro desaparecem Vitória tinha acabado de voltar para St. Heath’s Row depois de um j antar em Grantworth House quando a m ensagem chegou.

 

Ela foi m uito pressionada para explicar à sua m ãe o porquê de seu novo m arido não ter com parecido com ela; e foi ainda m ais difícil livrar-se de socializar com os presentes depois do j antar... m as ela alegou exaustão.

 

Aparentem ente, os círculos azuis e pretos debaixo de seus olhos foram suficientes para convencer sua m ãe de que ela não estava preparada para esticar. E se lady Melly acreditou que a razão se devia a um feliz e im inente evento, bem , Vitória estava desanim ada dem ais para contradizê-

 

la.

Assim , ela tinha com eçado a tirar as presilhas de seu cabelo quando o m ensageiro chegou para entregar o bilhete.

 

Ela não reconheceu a letra, m as o selo era dourado e trazia o carim bo de um audacioso V cercado de treliças e taças. Só podia ser de um a pessoa. . ela o abriu.

 

Estou de posse de algo de aparente valor para você, embora suas ações na minha carruagem tenham me levado a duvidar disso. Ele estará a salvo até você chegar. Dou-lhe a minha palavra.

 

S.

 

Sua palavra?

 

Ela j ogou o bilhete na penteadeira e cham ou Verbena para aj udá-la a se trocar. Um a visita ao Cálice de Prata requeria certa preparação.

 

Mas quando Vitória chegou ao Cálice, ou o que havia sido o Cálice, ficou claro que nada poderia tê-la preparado para a cena diante dela.

 

Eram três da m anhã, e quando o bar deveria estar transbordando de clientes indo e vindo pelas escadas, estava silencioso. O cheiro acre de m adeira queim ada, sangue derram ado e m edo assaltou-o enquanto ela descia a escada correndo.

 

O lugar estava reduzido a escom bros. Mesas, canecas, cadeiras, garrafas. . até corpos, o piano... tudo estava espalhado pelo chão. A m etade estava queim ada; o local fedia a cinzas e óleo.

 

Vitória entrou na sala, esperando encontrar algo... algo que lhe dissesse o que havia acontecido.

 

Max teria estado lá, lem brou-se ela subitam ente.

Teria sido pego no m eio disso? Estaria m orto?

 

E Filipe? Sebastian prom etera m antê-lo em segurança...

 

O frio se apossou dela; um a frigidez profunda, penetrante, term inal.

 

Max. Filipe. Sebastian.

 

Todos tinham estado ali.

 

***

 

Max abriu os olhos.

 

O quarto estava quente e som breado, a única ilum inação vinda de cham as que lam biam um a longa parede.

 

— Maxim iliano. — Ele tentou bloquear a voz dela.. m as estava fraco dem ais. Sua força se esvaíra, ele tinha pouca resistência.

 

Especialm ente para ela.

 

— Olhe para m im , Maxim iliano — ela cantarolou, suas palavras afagando-o com o um a m ão gentil.

 

Ele fechou os olhos.

 

— Por que você tenta evitar? Você sabe que não pode se negar.

 

Ele se endireitou da posição esparram ada em que encontrava, no chão. Suas m ãos não estavam presas; m as ela não teria necessidade de fazer isso. Ele ficava im potente, de m uitas m aneiras, na presença dela.

 

— Faz tanto tem po que você não vem a m im , Maxim iliano.

 

A m aneira que ela dizia seu nom e fazia-o sentir com o se houvesse m il centopeias percorrendo sua pele.. contudo.. perm anecia no ar, seu nom e saído dos lábios dela. Um elo que os unia.

 

— Eu não vim até você, Lilith. — Ele precisou de toda sua força para que aquelas palavras soassem suaves; para dizer-lhe o nom e em sua cara.

 

O riso dela, baixo com o um suspiro, enroscou-se nele.

 

— Você sem pre precisou de algum a persuasão. Venha cá, Maxim iliano. Venha a m im .

 

Ele se levantou, e então forçou seus m em bros a obedecerem ao seu com ando, e não ao dela... e se inclinou contra a parede, pousando um a das m ãos no m am ilo esquerdo, tocando seu vis bulla. Graças a Deus nem m esm o ela podia tocar naquilo!

 

Um a onda de força fluiu através dele e ele se concentrou nela, extraindo a energia da prata sagrada que o cingia.

 

E ele se virou, então, de costas para a parede, e olhou para ela. Ela estava reclinada sobre um a longa espreguiçadeira branca. Seus olhos —

 

que ele podia encarar apenas por um instante — eram am endoados, fundos, com belos cílios, azuis anelados de verm elho.

 

— Ah, voltou a ser você m esm o, não é, Maxim iliano? Prefiro m uito m ais você no seu estado alfa àquela m assa de fraqueza que m eus servos descarregaram aqui ontem à noite.

— Ontem à noite?

 

Ela assentiu com a cabeça, m aj estosam ente.

 

— Rockley está m orto?

 

— Rockley ? Oh, não. , não, m eu querido, eu tenho outras utilidades para ele.

 

Max fechou os olhos. Se o hom em tivesse m antido a boca fechada, sem dizer seu nom e à vam pira, estaria m orto. E salvo.

 

A conexão com Vitória não teria sido feita.

 

— Agora, Max, m eu querido, faz tem po dem ais. Você tem que vir a m im .

 

A intim ação líquida em sua voz puxava-o. As m ãos e pés dele com eçaram a trem er com o esforço de m antê-los im óveis, sob seu controle.

 

O suor se acum ulou em sua nuca congelada, pingando por dentro de sua cam isa. As cicatrizes em seu pescoço queim avam e latej avam , respondendo ao cham ado dela.

 

Ainda assim , ele resistia. Ele rolou pela parede, para longe dela.

 

Max sentiu o m ovim ento dela; seus olhos estavam fechados em concentração, m as ele a sentiu vindo em sua direção. Ele se im obilizou, sentiu a parede sob suas m ãos e bochecha e tentou segurá-la. Era lisa dem ais.

 

Alta com o um hom em , ela respirou sobre ele por trás. Sua presença o encobria, sufocando-o e subj ugando-o.. e ela ainda nem o havia tocado.

 

Ela estendeu um a das m ãos — ele sentiu o ar se m over — e tocou o cabelo dele, alisando-o, acariciando-o, então respirou fundo durante um a lânguida carícia. . e exalou.

Ela inclinou a cabeça dele para o lado, gentilm ente. Ele deixou.

 

Ela chegou m ais perto e agora ele sentia os seios dela e a curva do seu ventre pressionando sua espinha e seu traseiro. Ele passou a m ão entre si m esm o e a parede, tocou seu vis bulla, e respirou.

 

Seu pescoço estava aberto para ela; ela era alta o suficiente para pressionar seus lábios, um frio, outro quente, sobre a pele que havia ali.

 

Ele estrem eceu quando ela o tocou. Fechou os olhos. Esperou.

 

Ela brincou com ele. Riu contra sua pele, respirou em sua um idade, arranhou-o com um afiado canino. Seu batim ento cardíaco tornou-se um só com o dele. Ela se fundiu a ele por trás. A cam isa dele estava toda m olhada; ele nada ouvia além da pulsação dela.

 

Quando ela passou suas unhas longas e afiadas pelo om bro dele até a base das costas, Max sentiu sua cam isa ceder. Caiu por baixo das m ãos dela, e quando ela se apertou contra ele novam ente, tocando-lhe as costas desnudas, ele quis se entregar. Parar de lutar.

 

O cheiro de seu sangue pelos arranhões à unha encheu-lhe as narinas... ela fechou os lábios na beira do om bro dele, onde os cortes tinham com eçado e onde eram m ais fundos, e ele sentiu a língua dela deslizando pela um idade.

 

Ela suspirou, e seus lábios se curvaram de prazer contra ele.

 

— Maxim iliano. . ninguém tem o seu sabor.

 

Ele reuniu toda sua força.

 

— Não considero isso um elogio.

Rindo de prazer, ela chupou o om bro dele com m ais força.

 

— Prove. — Ela puxou a cabeça dele para trás em um ângulo im possível e cobriu a boca dele com seus lábios ensanguentados.

 

Ele provou o pesado sabor de ferro e a língua fria e escorregadia dela. Recebeu o beij o dela e quis m ais. Maldição! Ele queria mais.

 

As m ãos dela deslizaram por baixo dos braços dele, pela barriga.

 

Dobraram -se no centro de seu peito, arrepiando os pelos que cresciam lá.

 

Ele se arqueou, erguendo o peito, colocando a cabeça para trás ao com ando das m ãos dela. As m ãos se afastaram para os lados, sobre seus m am ilos, ela as chacoalhou e as rem oveu. Rindo.

 

— Essa é outra particularidade sua, Maxim iliano. . você é o único que m e dá prazer e dor ao m esm o tem po. — Então ela se afastou, recuou; ele sentiu a frieza da ausência dela na sua pele desnuda.

 

Ele respirou fundo, recostou a testa na parede. Quando ela esfregou seu vis bulla, a dor que ela sentiu dera a ele um necessário choque de força. Fora assim todas as vezes, anteriorm ente... ela ansiava por aquela com binação de prazer com j atos inesperados de dor quando se aproxim ava da cruz sagrada de prata. Ela tam bém gostava do poder que isso dava a ele, a força adicional que perm itia a ele resistir quando ela o tocava.

Continuar: parte 3 de 3