O Legado da Caça-Vampiro
O gosto dela era tão delicioso quanto…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Filipe soltou o braço de Vitória e colocou o seu ao redor da cintura dela, conduzindo-a ao longo da balaustrada. Um a gardênia carregada de flores brancas erguia-se do j ardim lá em baixo, e estava tão próxim a, que ele pôde escolher um a flor e oferecer a ela.
— Para m inha dam a — disse ele, estendendo-a. — Eu quis trazer não-m e-esqueças, m as estão fora de estação.
Vitória sorriu ao aceitar a gardênia, im pressionada com o sem pre pela intensa fragrância exalada por um a única flor. Reparou que Filipe a conduzira pelo terraço a um canto m ais reservado, ainda dentro dos lim ites do decoro, j á que estavam a céu aberto, num a área bem ilum inada, porém distante das portas escancaradas e do falatório do salão. Os outros casais que desfrutavam o ar noturno não pareciam notar a presença deles.
Ela reconheceu um deles com o a Srta. Em ily Colton e lorde Truscott, o dos pés ineptos.
Filipe encarou-a, gentilm ente encurralando-a contra a balaustrada, e ela levantou o rosto. O cabelo escuro dele elevava-se bem acim a da testa, e nenhum a m echa ousava cair, m esm o quando ele baixava a cabeça. Seus olhos sem icerrados deixavam as m ãos dela suadas e a faziam sorrir nervosam ente.
— Vitória — ele falou tão baixo, que só ela podia ouvir. — Você deve saber que eu nunca a esqueci, e que m inha estim a por você só aum entou desde que nos reencontram os.
Naquele m om ento, ela sentiu um sopro de ar frio na nunca. Teve um sobressalto, tão repentina foi a sensação, e tão inesperada. Por que agora?
Filipe a observava com preocupação.
— Vitória?
— Continue, por favor. O que você estava dizendo? — Ela sorriu.
Talvez fosse apenas um a brisa fria de prim avera.
Ele então pegou as duas m ãos dela, levando-as a seus lábios e beij ando a palm a e as costas de cada um a.
— Quando tom ei a decisão de procurar um a noiva, im aginei que dem oraria tanto para encontrá-la quanto havia dem orado para eu decidir procurar.
Não era um a brisa. O frio tinha se tornado m ais áspero e intenso.
Vitória, de costas para a balaustrada e de frente para as luzes do salão, tentava prestar atenção em Filipe. Sorriu para seu pretendente, m esm o quando ficou claro que o vam piro não estava no salão.
Ele ou ela estava lá fora. Provavelm ente com um a vítim a j á escolhida.
Ela precisava fazer algum a coisa. Seus dedos apertaram os de Filipe e ela olhou para ele.
— Filipe.. estou sentindo um pouco de frio.
Ele parou, pois as palavras dela haviam interrom pido as suas. Fitou-a.
— Poderíam os. . Eu gostaria de falar com você sobre um assunto antes de voltarm os para dentro. Tenho algo que desej o lhe perguntar. —
Ele soltou-lhe as m ãos e colocou os dedos ao redor dos braços desnudos dela, m ovendo-os gentilm ente para cim a e para baixo, com o para aquecê-
la.
Vitória engoliu. Queria tanto ouvir o que ele ia dizer... m as com o poderia ouvir agora?
— Vitória — Filipe continuou falando —, com o eu disse, esperava que fosse levar m uito tem po para encontrar a m ulher certa para desposar. .
então, im agine a m inha surpresa e alegria quando percebi que a havia encontrado.. apenas algum as sem anas após iniciar m inha busca. Porque, na verdade, eu havia encontrado você há m uito tem po.
O frio estava insuportável na nuca de Vitória; queria que Filipe soltasse seus braços para que ela pudesse esfregá-la e descer correndo para o j ardim .
Pois era lá que o vam piro estava.
E com o ela escaparia para chegar lá?
— Vitória, você quer ser m inha m arquesa?
— Sim , Filipe! Sim , eu quero. . m as você poderia por favor buscar m eu xale? Estou com um frio terrível! — Não pôde evitar que sua voz saísse com um a nota de pânico; precisava deter o vam piro!
Ele a olhou, a surpresa estam pada em seu rosto, com o se não soubesse exatam ente com o reagir.
Vitória tinha que pensar: ela havia aceitado o pedido dele, não havia?
— Sim , é claro, milady — ele respondeu de m odo lento e form al.
Vitória sentiu um vazio no estôm ago.
Ele com eçou a se virar para partir, m as ela agarrou seu braço e o puxou de volta. Lançou os braços ao redor do pescoço dele e beij ou-o, m urm urando:
— Sim , eu m e casarei com você, Filipe! Eu quero m e casar com você!
— Um a explosão de alegria a inundou. Estava apaixonada, e ia se casar com Filipe.
Ele a beij ou de volta e então ela se afastou, a frigidez na nuca a cham ando para o dever.
— Meu xale, por favor, Filipe, para que possam os ficar aqui fora m ais um pouco. — Ela sorria, m ordendo o interior de seu lábio, silenciosam ente im plorando que ele fosse im ediatam ente, a fim de que ela pudesse correr para o j ardim abaixo.
Ele tam bém estava sorrindo, agora não tão form alm ente, e ela sabia que tinha salvado o m om ento. Oxalá pudesse tam bém salvar a vítim a. Vá agora!
Ele foi, cam inhando a passos largos, do terraço de volta para o salão, e Vitória m al esperou que ele entrasse para descer às pressas os degraus rum o ao escuro j ardim .
10
A Srta. Grantworth conclui seu treinam ento Quando Filipe voltou ao terraço trazendo o xale diáfano de Vitória, ela sum ira.
Ele ficou plantado no círculo de luz que se desenhava sobre as pedras, olhando ao redor para ter certeza de que ela não se recolhera para um canto m ais som breado... m as ela não estava em lugar algum . Os outros casais tinham desaparecido. O pátio estava vazio.
Então ele escutou um grito débil vindo dos j ardins, lá em baixo.
Desceu os degraus correndo, com o xale dela esvoaçando em sua m ão, seus pés rangendo sobre a trilha de seixos e espalhando pedras a cada passo.
—Vitória! — cham ou ele lançando-se para a esquerda, de onde estava certo que viera o grito, um som tão abafado, que se ele tivesse ficado dentro da casa por m ais um instante, não teria ouvido.
Por que ela deixara o terraço? O que havia acontecido?
Alguém a teria seqüestrado?
Ao fazer um a curva no cam inho, ele quase colidiu com um a figura de saias. Ela estava cam baleando, m eio curvada, soluçando e agarrando as saias.
— Vitória! — disse ele, dando-lhe um a leve sacudidela.
Ela ergueu os olhos. Não era Vitória, e sim a Srta. Em ily Colton, que estivera com Frederick Truscott no terraço m om entos antes. Seu rosto era um a m áscara de terror e algo escuro, com o um arranhão, m aculava seu pescoço. Estava balbuciando algo desconexo, segurando-se nele com o se estivesse se afogando e ele a puxasse fora da água.
Filipe ficou dividido. Vitória ainda estava por lá, m as a Srta. Colton tam bém precisava dele. E o que acontecera a Truscott?
— Venha — disse ele, puxando-a de volta para a casa e cham ando por socorro ao longo do cam inho. Sobre os soluços abafados, ele tentava ansiosam ente ouvir outro grito no escuro.
— A senhorita viu m ais alguém ? — perguntou ele, nervoso. —
Outra m ulher? A Srta. Grantworth?
Ela parecia assentir com a cabeça, m as ele não tinha certeza do que ela estava dizendo em m eio aos soluços e trem ores. Quando chegaram ao terraço, ele em purrou a m ulher gentilm ente, pediu aj uda, depois se voltou e correu de volta para a escuridão.
— Vitória! — gritou. — Vitória!
Ele dobrou outra esquina e quase colidiu com ela.
— Vitória! — exclam ou, agarrando-a pelos om bros e apertando-a contra o peito, agradecido por não ser ela chorando, assustada. — O que aconteceu? Você está bem ?
Ela estava ofegante, m as não parecia em perigo, e desvencilhou-se daquele abraço quebra-ossos com m ais facilidade do que deveria ser capaz.
Ela o olhava com surpresa e algo m ais... intenso. . em seu belo rosto. Por um m om ento ele esqueceu sua preocupação e sim plesm ente desfrutou da perfeição de sua fisionom ia. E se perguntou por que seus olhos cintilavam com um brilho tão predatório.
— Filipe? Estou bem . Não estou ferida. Qual o problem a?
— Ouvi alguém gritar e achei que era você! Você não estava no terraço quando voltei. — Percebendo que deixara o xale dela cair em algum lugar no m eio do cam inho, abraçou-a pela cintura. Afinal, ela aceitara seu pedido. Em bora não fosse oficial, estavam noivos. Portanto, não feria o decoro.
— Eu deixei cair m inha nécessaire do terraço, e quando desci para buscá-la, ouvi um a m ulher.. conversando. Discutindo; soava com o se estivesse em perigo.
— Então você foi atrás dela para aj udar? — Filipe queria chacoalhá-
la, seu frágil am or. —Você podia ter se m achucado!
— Mas não m e m achuquei. . era Em ily Colton. Ela passou correndo por m im . Você a viu?
— Sim , ela está assustada, m as não parecia estar ferida. Menina boba
— disse ele, esprem endo-a contra si com o braço em sua cintura.
Ele não podia esperar nada m enos de alguém capaz de repreender um rapaz com o dobro do seu tam anho aos doze anos. Sua beleza e sua coragem ; seu encanto e sua tendência a pensar por si m esm a e não conform e os ditam es da sociedade. Não era à toa que a am ava.
— Você foi m uito coraj osa ao tentar socorrê-la, m as podia ter se m achucado! Devia ter pedido aj uda.
Vitória assentiu com a cabeça. Estavam subindo os degraus do terraço e Filipe ficou satisfeito ao ver que o terraço perm anecia vazio.
Cuidariam da Srta. Colton depois de seu susto, o que quer que o tivesse causado — talvez algo sim ples com o um galho a arranhá-la ou um a discussão com Truscott, onde quer que estivesse — e ele e Vitória poderiam ficar no pátio sozinhos.
E com eçar de novo onde haviam parado.
Ele a olhou, pronto para tom á-la nos braços novam ente.
— Vitória, o que é isso na sua m ão?
Mesm o à m eia-luz ele viu que as bochechas dela ficaram ruborizadas. Ela olhou para baixo, para o pedaço fino de m adeira que segurava, parecendo perguntar-se com o fora parar lá.
— Eu. . isto estava caindo do m eu cabelo quando fui aj udar a Srta.
Colton. Vou colocá-lo na m inha nécessaire, pois só m inha criada sabe com o arrum ar m eu cabelo.
Filipe achou que a vareta era um tanto grande e pouco prática para fazer parte de um penteado tão com plicado, m as o que ele sabia sobre com o as m ulheres se penteavam ? Ele apreciava o resultado, m as tinha pouco interesse no processo.
Ele a estava puxando para perto de si, levantando seu queixo com o polegar, quando percebeu que ela estava olhando para o salão por cim a de seu om bro.
— Filipe.. eu realm ente preciso ver com o está a Srta. Colton e m e assegurar de que ela não se m achucou.
A decepção o invadiu.
— Tenho certeza de que estão cuidando dela. Apesar de não saber o que aconteceu ao lorde Truscott.
Ela se desvencilhou facilm ente do que ele pensava ser um abraço forte.
— Filipe, eu prom eto... voltarei num instante. Sinto-m e responsável por ela. Por que você não entra com igo? — Ela sorria tão lindam ente e apertava o braço dele tão perto do seu corpo, acariciando a lateral do busto, que ele não pôde recusar.
* * *
De volta à residência dos Madagascar, Vitória rapidam ente livrou-se de Filipe. Frenética com o atraso que ele causara indo atrás dela no j ardim , ela se apressou pelas aglom erações de gente, sabendo que m ais tarde teria de inventar m ais explicações para ele.
Ficou aliviada por não haver, aparentem ente, um senso enorm e de pânico entre os convidados; m ais gente conversava do que dançava, contudo não pareciam nervosos. O que parecia era que a Srta. Colton se dirigira ao toalete fem inino sem causar grande com oção sobre o ataque vam pírico que ocorrera a poucos m etros de distância da festividade.
Vitória rezou para que esse fosse o caso, e torceu para que a Srta.
Colton estivesse num estado que não a perm itisse falar sobre o que havia acontecido.. ou perguntar sobre o paradeiro do lorde Truscott. Ela não tinha idéia com o explicaria que ele fora pulverizado num a nuvem de cinzas.
Talvez fosse esperar dem ais que Em ily Colton não tivesse percebido o que estava acontecendo antes que Vitória entrasse em cena, m as ela tinha essa esperança. Tudo acontecera m uito rápido; lorde Truscott estava inclinando o rosto para o pescoço de Em ily quando Vitória interrom peu sobre eles.
Em ily escapou, sum indo no m atagal com um berro, antes que Vitória ficasse cara a cara com Truscott e lhe enfiasse a estaca no peito.
Agora ela corria pelo corredor até alcançar o toalete fem inino.
Fazendo um a pausa para respirar e aj eitar o cabelo, Vitória abriu a porta e encontrou um pequeno grupo de m ulheres ao redor da pálida Em ily Colton.
— Em ily — disse Vitória, entrando e fechando a porta. — Com o você está?
— Oh! — gritou Em ily, erguendo-se num pulo e j ogando-se sobre Vitória. — Você não está ferida! Estava tão assustada por você!
Vitória gentilm ente se desvencilhou dos braços dela.
— Não, não estou ferida. Com o se sente?
Em ily ignorou a pergunta e ficou a tagarelar com as outras, apontando Vitória com um dedo trêm ulo.
— Ela chegou bem no instante em que ele m e atacou! Eu saí correndo; não devia tê-la deixado, m as estava apavorada dem ais para pensar!
As cinco outras dam as olharam de Vitória para Em ily e novam ente para Vitória, com o se avaliassem a diferença no com portam ento de am bas.
Vitória tom ou o cuidado de m anter um a expressão calm a em bora precisasse saber o que Em ily tinha visto, e se ela percebera o que havia acontecido.
Em ily continuava falando depressa, com o se tivesse que soltar as palavras para não esquecê-las.
— O que aconteceu? O lorde Truscott. .?
— Não sei o que aconteceu com ele — replicou Vitória, segurando as m ãos de Em ily. — Assim que você saiu correndo, ele virou e desapareceu em outra direção. Ele não m e m achucou. — Isso pelo m enos era verdade.
Aparentem ente Em ily aceitou essa explicação, e as outras não tinham razão para questioná-la. A palavra "vam piro" não fora m encionada; ela não precisava dar explicações para o sum iço de Truscott. Agora Vitoria podia voltar para Filipe.
Seria fácil voltar para o seu noivo; m as não seria tão fácil aceitar que ela havia m atado o lorde Truscott, dos suaves olhos castanhos e pés desastrados.
***
— Aconteceu! — Lady Melisande irrom peu pela sala de visitas de Winnie sem esperar pelo m ordom o. — Ah, glória a Deus, aconteceu!
Vitória será um a m arquesa!
— Rockley j á se decidiu? — Winnie levantou-se com agilidade surpreendente para um a m ulher tão avantaj ada. — Oh, Melly, estou extasiada por você! E por Vitória tam bém , é claro!
— Vitória vai se casar com Rockley ? — exclam ou Petronilha, no exato instante em que a duquesa guinchou. — Saia da frente, Winnie, para que eu possa abraçá-la tam bém !
As dam as dançaram pela sala, fazendo tilintar as porcelanas e bugigangas.
— Ele veio há pouco pedir a m inha bênção. . com o se precisasse pedi-la! — resfolegou Melly, afundando-se num a poltrona.
Winnie, que havia surrupiado duas broas de m irtilo, não parou de saltitar até servir o chá para a recém -chegada. Em seguida sentou-se pesadam ente ao lado dela.
— Tem os que com eçar a planej ar o casam ento im ediatam ente. Será o evento da tem porada! — disse Petronilha. — Mas, conte-nos, Vitória tinha algum detalhe sobre o incidente no baile dos Madagascar, ontem à noite?
Está todo m undo falando disso!
Winnie bateu a m ão no peito, fechando os dedos ao redor do crucifixo que descansava sobre seu peito. Se possível, era até m aior do que o outro que ela estivera usando na sem ana anterior.
— Nilly estava nos contando sobre isso. Tenho certeza de que foi um ataque de vam piros!
Melly olhou para elas.
— Do que é que vocês estão falando?
— A Srta. Em ily Colton foi atacada, ontem à noite, nos j ardins da residência dos Madagascar. Não ficou ferida, m as levou um susto, e seu acom panhante, o lorde Truscott, desapareceu — explicou Winnie.
— Por que vocês acham que foi um ataque de vam piros? —
perguntou Melly, revirando os olhos. — O lorde Truscott provavelm ente foi íntim o dem ais com a Srta. Colton e ela o m andou passear.. e depois não quis confessar que estivera andando no j ardim sozinha com ele. A Srta.
Colton é conhecida por ser um pouco desregrada, com o vocês sabem .
— Mas ninguém sabe onde ele está — disse Winnie. — E a coisa ocorreu no escuro. E o pescoço dela tinha um arranhão!
— Talvez o lorde Truscott sej a um vam piro — disse Petronilha.
Seus olhos brilhavam com o safiras. — Talvez tenha sido vencido pela lascívia e, não conseguindo m ais resistir, tentou seduzir a Srta. Colton nos j ardins. .
— Que bobagem ! Nilly, Winnie, afirm o que se vocês preferem ficar falando sobre vam piros em vez de m e aj udar a planej ar o casam ento de Vitória, então vou deixá-las sozinhas!
— Não, Melly, nós vam os parar! Eu nem queria falar sobre eles —
disse Winnie, trocando um olhar com Petronilha. — Não há nada neles que m e fascine de m odo algum . São criaturas m alignas e chupadoras de sangue, suj as e fedorentas com garras e cabelo com prido. .
— Não são não! A irm ã do vizinho da filha da Sra. Lawson foi a que teve um deles no seu dorm itório, e ela disse que ele cheirava a alcaçuz e que era bem barbeado e..
— Eu pensei que vocês não queriam m ais falar neles! — interrom peu Melly, levantando-se. — Vou em bora se algum a de vocês m encionar a palavra vam piro novam ente!
Winnie fechou a boca. Petronilha ergueu sua xícara até os lábios e bebeu, olhando inocentem ente pela j anela.
— Então... — disse Melisande, recostando-se de volta em sua poltrona. — Que m odista devem os cham ar para fazer o vestido?
— Vitória sem pre ficou bem com os desenhos de m adam e LeClaire
— replicou Petronilha.
— Eu não estou falando do vestido de Vitória! Estou falando do m eu! — disse Melly, indignada.
— Bem , nesse caso eu sugiro que saiam os daqui e façam os um a excursão de com pras na Rua Bond! — disse Winnie. E as três fizeram isso alegrem ente, com Winnie apertando seu crucifixo durante todo o cam inho.
* * *
O sol estava se pondo quando Vitória desceu do cabriolé de Barth a pequena distância da residência de Rudolph Caulfield, proprietário do Livro de Antwartha. Sebastian deixara claro que os vam piros de Lilith chegariam à noite, m as Vitória não pretendia correr o risco de que eles viessem e fossem em bora antes que ela chegasse.
Verbena aj udou-a a se vestir, não com o um hom em naquela noite, nem com o debutante, m as com o Venadora, num a fantasia especialm ente preparada pela criada. Consistia em um a saia dividida ao m eio que não parecia diferente de qualquer outro vestido diurno, m as lhe perm itia m aior liberdade de m ovim entos. As m angas estavam firm em ente presas aos om bros do corpete, ao contrário das m angas vaporosas e finas, norm alm ente m al encaixadas num vestido noturno. O tecido era azul-m arinho, com pouca ornam entação e de um algodão m acio, para que não se ouvisse o farfalhar do tafetá ou cetim . O com prim ento era m enor que aquele com o qual Vitória estava acostum ada, vários centím etros acim a do chão.
O detalhe m ais singular do vestido era um par de nós corredios nos quais Vitória podia portar estacas na cintura, e dois bolsos fundos escondidos nas dobras da saia, onde podia guardar água benta salgada, um crucifixo e outros assessórios.
Quando Vitória saiu do cabriolé, deixou sua capa: era um a noite balsâm ica de prim avera, e a em polgação da aventura a m anteria aquecida.
Barth recebeu suas instruções e ela deu as costas ao coche.
Antes, naquele m esm o dia, ela e Verbena tinham ido até a casa de Caulfield, conhecida com o Redfield Manor, para se assegurar de sua localização, sua geografia, e um local apropriado para que Vitória pudesse esperar e vigiar sem ser notada.
Verbena, que entrara no espírito da coisa após sua noite bebendo cervej a com vam piros no Cálice de Prata, aproxim ou-se da entrada dos em pregados num a tentativa de descobrir o que pudesse sobre os horários da casa e a disposição dos quartos. Vitória não sabia ao certo com o ela conseguiu as inform ações, m as soube que os criados estavam partindo com Rudolph Caulfield naquela tarde, e que o cavalheiro que chegaria para ficar na casa traria seus próprios em pregados.
E, ao m eter-se detrás do alto portão de ferro, Vitória ficou grata a Verbena por ter descoberto tam bém que o j ardim era raram ente usado...
sendo, portanto, o local perfeito para esperar.
Encontrando um banco de pedra sob um a pequena árvore que se recusara a florescer naquela prim avera, Vitória sentou-se na beirada para poder olhar a casa. De lá podia ver qualquer um que se aproxim asse da porta da frente. Ela supôs que o Sr. Caulfield e seus em pregados tinham ido em bora e sido substituídos pelo seu hóspede durante aquela tarde.
Sentada ali, tentando ignorar um a persistente abelha determ inada a encontrar néctar nas proxim idades da árvore m orta, Vitória sentiu um a pontada de culpa. Tinha discutido consigo m esm a e com Verbena, longa e duram ente, se devia contar à tia Eustácia e a Max sobre seus planos para aquela noite... m as no fim decidira não contar. Ela podia cuidar de si própria Kritanu a havia treinado bem . Ela sabia o que estava fazendo.
Assim , decidira agir sozinha, por diversas razões perfeitam ente lógicas.
Prim eiro, se a inform ação de Sebastian estivesse errada, ela se sentiria um a tola por ter arrastado Max até Redfield Manor, pois certam ente ele, e não tia Eustácia, é que a acom panharia.
Sem falar que ela teria de aturar a com panhia dele a noite toda.
Em segundo lugar, Vitória tinha certeza de que podia lidar com dois ou três vam piros sozinha, especialm ente considerando que o elem ento surpresa estaria a seu favor. Ela podia determ inar quando e com o atacar.
Em terceiro, ela enfrentara os perigos do Cálice de Prata sozinha para conseguir a inform ação, e Sebastian havia dito a ela que não contasse a ninguém . Se contasse à tia Eustácia e Max, eles teriam exigido que ela divulgasse a fonte. Um a vez que tivesse o Livro de Antwartha em seu poder, ninguém se im portaria com o ela obtivera a inform ação.
E em quarto. . Max e tia Eustácia pareciam bastante dispostos a guardar os seus próprios segredos dela. Então por que não deveria ela agir por conta própria, se eles não a incluiriam em todos os seus planos? Afinal, ela era um a Venadora visbullada, e tinha m atado um vam piro Guardião enquanto ele a m ordia.
Pouco im portavam os estalos de língua e a reprovação de Verbena.
Vitória estava contente com sua decisão.
Ela então esperou e desviou seus pensam entos para itens m ais prazerosos; com o os beij os apaixonados que ela e Filipe haviam trocado no terraço, e na carruagem , e na entrada de Grantworth House. Ela ia se casar! Mal podia crer que tudo acontecera tão rapidam ente; tão fácil e m aravilhosam ente. Ela sem pre guardara um a lem brança carinhosa do rapaz que conhecera naquele verão; talvez j á naquela época tivesse dado a ele o seu coração. Mas não im portava se ela o havia am ado então ou não, pois o am ava agora.
O sol parecia m over-se num a lentidão infinitesim al em direção ao anel de árvores que m argeava a rua. Vitória vigiava, reparando em qualquer hom em ou m ulher que passasse, sabendo que reconheceria os vam piros quando eles se aproxim assem .
De repente, sua atenção foi atraída por um m ovim ento no canto de seu olho. . na parte de trás do j ardim . Vitória prendeu a respiração e se encolheu em m eio aos arbustos que cercavam o banco, agachando-se rapidam ente no chão.
O quintal estava coberto pelas som bras daquele fim de tarde e logo estaria escuro, portanto a som bra que escapuliu por um a greta na parede de pedra foi inicialm ente indiscernível. Movia-se com rapidez e graça, e ao aproxim ar-se dos fundos da casa e se tornou reconhecível, o queixo de Vitória caiu até o chão, por trás de um arbusto.
Max.
Não havia com o confundir a sua altura, os m ovim entos com edidos e calculados, enquanto ele se dirigia às portas de m adeira da adega.
Um raio de fúria a trespassou, e Vitória cerrou os dentes com tanta força, que sentiu dor na m andíbula.
O que ele estava fazendo ali?
Não estava procurando por ela; ele a teria encontrado facilm ente se tivesse procurado.
Ele devia ter descoberto sobre o livro; que estava lá e que o proprietário partira.
No m om ento em que o branco do choque e a névoa verm elha da raiva a acom etiam , ela perdeu o m ovim ento seguinte dele. Quando voltou a se concentrar na casa e nas portas de m adeira para onde Max se dirigira, ele j á havia desaparecido.
Teria entrado?
Ou encontrara outro esconderij o, com o ela, e tam bém esperaria pelos vam piros?
Ele era um grandessíssim o idiota se pensava que ela ia ficar lá esperando sozinha.
Vitória em ergiu cuidadosam ente de seu esconderij o, feliz de que, em bora o sol não tivesse se posto por com pleto, as som bras fossem suficientem ente grandes nesse j ardim para lhe fornecerem cobertura enquanto ela se precipitava no cam inho traçado por Max.
Ao se aproxim ar da casa, pelo m enos um a de suas perguntas foi respondida quando ela viu um a figura alta e inconfundível passando em frente a um a j anela nos fundos da casa. Max estava lá dentro; na ala dos em pregados, a j ulgar pelo tam anho e localização da j anela.
Pretendia ele surrupiar o Livro debaixo das barbas dos vam piros?
Antes que tivessem a chance de. .
Meu Deus! Max ia pegar o Livro sozinho! Se o tocasse antes que o livro estivesse fora da casa, m orreria!
Vitória saltou de seu escudo de arbustos antes de perceber que não podia entrar correndo na casa daquele j eito.
E percebeu subitam ente que com etera um erro. Deveria ter contado à tia Eustácia e Max.
Pois se não o im pedisse a tem po, ele m orreria... e a culpa seria dela.
11
Maxim iliano encontra m ontículos de pó
Max parou, ouvindo atentam ente. Ele conseguira entrar em Redfield Manor sem qualquer contratem po. Não era a prim eira vez que ele entrava em um edifício sem ser detectado, e certam ente não seria a últim a.
Por m eio de suas fontes no Cálice de Prata ele soubera que o Livro de Antwartha seria roubado naquela noite, naquele exato local; e que Rudolph Caulfield deixara a cidade, levando seus em pregados consigo e deixando um hóspede insuspeito para cuidar de seus pertences.
Esta era a única chance deles de conseguir o Livro antes de Lilith; um a vez que ela o tivesse em seu poder, escondida onde quer que estivesse, seria im possível recuperá-lo.
Ele não podia falhar naquela noite.
Satisfeito por sua presença não ter sido detectada, e por não haver ninguém prestes a aparecer andando pela esquina do corredor dos em pregados, Max atravessou rapidam ente a passagem . Em bora não estivesse fam iliarizado com a disposição dos quartos, a lógica sugeria que algo de tal valor ficaria guardado em um estúdio, trancado à chave, ou num gabinete privado nos aposentos pessoais do dono da casa.
Max esperava que fosse a segunda opção, j á que os aposentos privados do dono estariam no andar de cim a, portanto seriam m enos provavelm ente habitados por um hóspede, ou investigados pela sua criadagem .
A escada dos em pregados era acessível e levava aos andares superiores. A porta azul-clara onde term inava o corredor estava com sua m adeira em penada e rangeu quando Max a abriu. Ele entrou e subiu com pés ligeiros os estreitos degraus, parando no topo para ouvir.
Quando o silêncio continuou a reinar, ele abriu um pouco a porta e pôs o ouvido na beirada. Um pequeno ruído próxim o a entrada da casa, abaixo, deu-lhe a certeza de que pelo m enos não havia ninguém por perto.
Só que aí ele ouviu a m açaneta da porta em penada, abaixo, sendo girada com um surdo tilintar, e não esperou m ais: esprem eu-se pela abertura e viu-se num salão com um abençoado carpete no segundo andar.
Com passos de gato, ele correu pelo salão, parando a cada porta para ouvir, abrindo-as com cuidado e espiando dentro. Os quartos estavam escuros e desabitados; a m obília coberta com lençóis ou outras proteções, com o se não fossem usados havia anos. O Sr. Caulfield retornara recentem ente da índia — desse m odo o Livro de Antwartha chegara da colônia à pátria-m ãe — e era óbvio que sua casa estivera fechada por essa razão. Isso facilitaria a tarefa de Max, pois os itens trazidos da índia, incluindo o Livro, se destacariam com o novas aquisições ao quarto, e decerto se encontrariam em um gabinete que obviam ente estava sendo utilizado.
Max tinha m ais três quartos para investigar quando ouviu a porta no topo da escada dos em pregados se abrir no fim do corredor. Ele atravessou a porta diante dele e fechou-a rápida e silenciosam ente.
Virando-se, encarou o quarto, rezando a Deus que estivesse vazio, pois não tivera tem po para checar... e encontrou-se em um dorm itório que fora usado recentem ente.
Felizm ente para ele, estava vazio, m as Max não podia ter certeza de que continuaria assim . Ele ouviu passos aproxim ando-se pelo corredor; m al podia discerni-los, m as sua audição era quase tão aguda quanto à de um vam piro.
Max enfiou-se debaixo da cam a alta, afastou de seu cam inho o urinol, que tam bém felizm ente estava vazio, e fechou os olhos para as nuvens de poeira que ele levantara. Faziam -lhe cócegas no nariz, faziam -no lacrim ej ar, e ele tentou não espirrar; qualquer distúrbio m ínim o do ar parecia ir direto para suas narinas. Ele apertou o cavalete do nariz logo abaixo das extrem idades internas das sobrancelhas e sentiu dissipar-se a necessidade de espirrar.
A porta do quarto se abriu e alguém entrou. A nuca de Max não teve qualquer alteração, então ele m anteve a m ão no bolso onde estava sua pistola. Não podia ver a pessoa, não conseguia olhar seus sapatos para saber se era um em pregado ou o convidado; m as quando ele ou ela atravessou o quarto e saiu, Max expirou lentam ente. Provavelm ente o criado trazendo roupas lavadas para o quarto, ou m esm o o convidado subindo para pegar algum a coisa que esquecera.
Ótim o. Ele não apreciara a idéia de um a altercação com um m ortal.
Em vam piros ele enfiava a estaca sem pensar duas vezes; m as lutar com um m ortal ou feri-lo era algo que ele procurava evitar. Ele j á vira m uita violência e preferia enfiar estacas em vam piros a trocar socos porque era bem m ais lim po. Nada de sangue, nada de ossos quebrando, nada de bagunça. Som ente um punhado de cinzas.
Porém ... para conseguir o Livro de Antwartha, Max faria o que fosse preciso, porque se não fizesse, um núm ero infinito de m ortais estaria em perigo.
Ele esperou até que os passos silenciosos desaparecessem para sair debaixo da cam a e se levantar. Tirando a poeira de suas calças escuras, Max correu para a porta. Tinha m ais dois quartos para averiguar naquele andar e então poderia subir ao terceiro. Era m enos provável que lá estivesse o Livro de Antwartha, m as pelo m enos poderia elim inar essa possibilidade antes de esgueirar-se pela área principal da casa, onde era m ais fácil que o descobrissem .
Pôs a cabeça para fora do quarto e olhou o corredor de cim a a baixo.
Mais um a vez convencido de que estava só, saiu e girou a m açaneta do quarto no outro lado do corredor. Viu-se em um a biblioteca.
Ah! Ele sorriu de satisfação. Havia em brulhos e caixotes contra a parede, e ao lado de um a grande poltrona, um a pilha desordenada de livros que certam ente não ficara lá m ofando pelos três anos que Caulfield estivera na índia.
Sobre um a das m esas ele viu um a caixa do tam anho de um livro grande, aberta, com o o baú de um tesouro. Em balagens de seda verm elha transbordavam de seu interior, e com a confiança que nascia da certeza, ele andou até a m esa.
O Livro de Antwartha. Tinha que ser.
Ele se aproxim ou ansiosam ente da m esa, m esm o com um ouvido virado para o corredor, atento ao barulho de passos indesej áveis. Tocando a pistola em um bolso e a estaca em outro, ele se inclinou para olhar o baú.
Vazio.
Virou-se e então o viu. Próxim o a um a j anela alta, acinzentada pelo crepúsculo, por trás do recosto de um a poltrona, estivera fora do alcance de sua visão desde que Max entrara. Mas era ele, com certeza: um livro grande, em poeirado, m arrom , com um A gravado na capa, sobre um a m esa ao lado da poltrona, com o se a pessoa que o lia o tivesse colocado lá. Ele se aproxim ou com o ouvido ainda atento à porta, os olhos fixos no livro.
Estendeu a m ão e estava quase a ponto de tocá-lo quando algum a coisa voou de trás das longas cortinas e o derrubou. Max tom bou sobre a poltrona e seu agressor o seguiu num em aranhado de saias.
— Não toque nele! — sussurrou um a voz de m ulher que ele de repente, com um choque, reconheceu.
— Vitória? O que diabos você está fazendo aqui? — Ele se esqueceu de falar baixo e ela cobriu-lhe a boca com a m ão, fincando o cotovelo no peito dele enquanto tentava levantar-se. Maldição! Ela podia não pesar m uito, m as seus cotovelos e quadris eram tão afiados quanto sua língua.
— Quieto! — sibilou ela, com a boca m uito perto de seu ouvido. —
Acabei de salvar a sua vida inútil, seu cretino dos infernos! Não precisam os ser ouvidos.
Max desvencilhou-se de Vitória, saindo debaixo dela e deixando-a esparram ada na poltrona. Levantou-se, olhando feio para ela, e aj eitou seu paletó.
— Repito — disse ele rilhando os dentes, em bora num tom m ais baixo que antes — o que raios você está fazendo aqui?
— Repito — ela sussurrou, erguendo-se e sacudindo a saia escura e sem graça — eu estava salvando a sua vida. Você não pode tocar o Livro de Antwartha! — gritou ela ao vê-lo estender a m ão para tocá-lo. Seus dedos prenderam -lhe o pulso, m al cobrindo toda a circunferência, e ele se im pressionou com a força dela.
Ah, claro. . ela tam bém tinha um vis bulla. Com o ele pôde ter esquecido?
Max esboçou um sorriso que sabia não ser nem um pouco agradável.
— Tem os a chance de tirá-lo daqui agora. Ou você quer ser a pessoa que vai levá-lo? Se for esse o seu j oguinho, não vou atrapalhar pegue-o e vam os em bora!
— Se eu quisesse fazer isso — replicou Vitória, im pertinente — eu teria deixado você tocá-lo, depois passaria por cim a do seu cadáver e levaria o livro para m inha tia.
Ele teria respondido, m as am bos ouviram ao m esm o tem po vozes baixas e passos leves no corredor. Antes que Max pudesse reagir, Vitória o puxou pela m anga para trás das cortinas de onde ela havia saído.
Ela o colocou atrás de um a, e se encolheu atrás de outra, e os dois ficaram com o sentinelas em cada lado da j anela. Se ele virasse a cabeça podia ver o perfil dela, recostada na parede. Ele queria chacoalhar a cabeça para clareá-la.
Max espiou por cim a do om bro, tentando olhar pela j anela, e percebeu que ela estava quase aberta. Sentia um a brisa fraca nas unhas com que apertava o peitoril, atrás dele. Deslizou os dedos por baixo do caixilho e em purrou para cim a, levem ente, sentindo a j anela m over-se. Se pudesse abri-la... talvez eles pudessem pegar o livro e escapar.
Ele sentiu a j anela subir com m ais facilidade, e virou-se para ver Vitória a encará-lo. Ela tam bém estava em purrando para cim a, e com binando a força de am bos, conseguiram abri-la devagar e em silêncio.
A nuca de Max esfriou. As vozes estavam m ais próxim as agora; atravessariam a porta a qualquer m om ento, se o destino deles era aquele quarto.
Ele olhou para o enorm e m anuscrito encadernado, depois para Vitória, avaliando suas chances... m as a m ão dela voou de trás das cortinas e espalm ou-se no peito dele.
— Não! — sussurrou ela, as cortinas agitando-se ao seu redor —
Não vou dizer de novo, seu cretino arrogante!
Então, assim que a porta se abriu, ela recolheu o braço de volta para trás da cortina e aj eitou-a.
Max afastou um pouco a cortina do lado m ais escuro da j anela, onde seria m ais difícil que o vissem . Eles entraram um atrás do outro. Eram três: dois vam piros Guardiões e um m ortal.
Sebastian Vioget.
Ele devia ter sabido.
Aquele hom em parecia estar sem pre onde não devia.
Max percebeu que seus dedos agarravam violentam ente as cortinas, então as soltou bem devagar para não cham ar atenção. Até ali conseguira não ser notado; não era a prim eira vez que agradecia pelos vam piros não conseguirem sentir a presença de um Venador.
Mas aí. . Vioget olhou diretam ente para ele. Max não se m exeu, observou quando ele transferiu sua atenção para o outro lado da j anela, onde Vitória estava, e depois continuou sua conversa com os vam piros.
— Acho que esse é o item que vocês procuram — disse Vioget, apontando a m esa a centím etros de Vitória.
Um dos vam piros soltou um grunhido e se aproxim ou para tocar o alfarrábio, e Max sentiu Vioget olhando em sua direção. Colocou a m ão no bolso e sentiu a pistola. Iria usá-la, se precisasse. Não podia deixar que aqueles vam piros levassem o livro.
Enquanto os três se inclinavam sobre a m esa, um dos vam piros virava descuidadam ente as vetustas páginas, com o se confirm asse que o livro era autêntico, Max olhou de soslaio para Vitória. Ela não estava olhando por trás da cortina, m as m antinha-se rigidam ente contra a parede, o m ais longe possível dela.
Estava assustada? Era bom que estivesse! Se ela não o tivesse im pedido, eles j á teriam saído pela j anela com o livro.
Max considerou suas opções. Poderia pular de trás das cortinas e tentar pegá-los de surpresa. As duas m ãos de Vioget estavam à vista; ele pelo m enos não estava em punhando um a arm a, em bora pudesse ter um a guardada. Seria típico dele.
Os vam piros deviam ser dois dos m ais fortes e espertos Guardiões de Lilith; ela só m andaria os m elhores para essa tarefa. Ele acertaria um com certeza, e o segundo com facilidade, se Vioget não interferisse.
Nem Vitória. Por que é que ele não podia tocar o livro? Maldita m ulher!
E então, de repente, as opções de Max evaporaram quando Vioget puxou as cortinas, escancarando-as e deixando-o exposto.
— Maxim iliano! Não esperava ver você aqui esta noite — disse ele, com um sorriso condescendente.
Porém Max havia sacado sua pistola e a apontou para o dândi francês loiro antes que ele pudesse term inar seu raciocínio.
— Duvido m uito — replicou, saindo com pletam ente de trás das cortinas, a pistola em um a m ão e a estaca na outra. Não olhou para trás, m as sua visão periférica lhe dizia que Vitória não se m exera. Talvez ela fosse esperta e viesse aj udá-lo. Não que ele precisasse da aj uda dela, m as era m elhor estar seguro do que perder o livro.
— Agora — disse Max, com gentileza —, se você se afastar prom eto não feri-lo, Vioget, pois sei que o seu próprio bem -estar é a sua m aior preocupação. Mas estes outros dois... cavalheiros. . bem , talvez não tenham a m esm a sorte.
As palavras m al haviam saído de sua boca e os dois vam piros, com os olhos de rubi e as presas cintilando, pularam sobre ele. A pistola era inútil; sim plesm ente largou-a quando a força do ataque dos vam piros o j ogou no chão.
Um deles prendeu-lhe a m ão que em punhava a estaca contra o chão, por cim a da cabeça, com as duas m ãos, enquanto o outro se sentava sobre a sua cintura e lutava para prender sua outra m ão. Max grunhia, im pulsionando seus j oelhos e pés para perto do corpo, e com um m ovim ento rápido e forte, enganchou os pés ao redor do pescoço do vam piro e lançou-o num salto m ortal de costas. O vam piro aterrissou sobre um a m esa atrás dele.
Max rolou para o lado, puxou um a segunda estaca da m anga de sua cam isa e enterrou-a no peito do vam piro que ainda segurava seu pulso antes que o Guardião soubesse o que havia acontecido.
Antes que as cinzas tocassem o chão, Max j á estava em pé, encarando o outro vam piro, que avançava sobre ele com um a espada reluzente e um sorriso selvagem que exibia duas presas a espetar seu lábio inferior. Com um a olhada de relance para o resto do quarto — Vioget assistia, divertindo-se, com os braços cruzados, e Vitória não estava em lugar algum — Max voltou sua atenção para o vam piro quando a lâm ina fatiou o ar diante dele.
Ele se desviou para o lado, saltou sobre a poltrona, e, em pé atrás dela, em purrou-a pelos braços para cim a de seu adversário. Max aproveitou o m ovim ento da poltrona e avançou sobre o vam piro, j ogando-o por terra a centím etros de distância das cortinas de Vitória. Ele não precisava da aj uda dela. Ela provavelm ente estava agachada lá atrás, apavorada dem ais para se m exer.
Ela devia ter ficado em casa com o seu m arquês.
A raiva ferveu dentro dele, e ele a usou para enterrar a estaca no coração do segundo vam piro.
— Et voilà! — m urm urou Vioget enquanto Max se reerguia ofegante, m as não sem fôlego.
Vigiando o francês, Max dirigiu-se à m esa, para cuj a beirada o livro tinha sido j ogado durante a briga. Por um instante desej ou em punhar a pistola, m as com o Vioget não dava qualquer sinal de que pretendia im pedi-lo, Max não se preocupou m ais.
Ele alcançou a m esa e estendeu as m ãos para levantar o pesado livro. . e parou.
Duas coisas lhe ocorreram naquele instante. Prim eiro, o aviso de Vitória fora veem ente. Segundo, o próprio Vioget não havia tocado o livro, m esm o quando os vam piros o estavam exam inando. Mas os vam piros o haviam tocado.
Então um a terceira constatação: Vitória estivera no quarto antes dele.. poderia facilm ente ter levado o livro se sua intenção fosse superá-lo.
Ela, pelo m enos, acreditava que havia um a razão para ele não tocar no livro.
Fingiu que aj ustava suas m angas, e aproveitando a oportunidade para espiar Vioget com o canto do olho, estendeu as m ãos novam ente.. e m ais um a vez parou. Sim , estava lá: a m udança quase im perceptível na postura de Vioget... ah, ele escondeu bem , m as não bem o suficiente.
Sim , havia algo errado com aquele livro. Vitória, ao que parece, estava certa. E Max percebeu, com um gosto subitam ente am argo, que ela provavelm ente salvara m esm o... com o ela a cham ara? Sua vida inútil.