O Legado da Caça-Vampiro

Colleen Gleason · Capítulo 2 de 4 · parte 3/3

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O Legado da Caça-Vampiro

O gosto dela era tão delicioso quanto…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

— Você veio atrás do Livro de Antwartha, não veio? — perguntou Vioget, naquele tom falsam ente agradável.

 

Max se afastou da m esa. O que é que Vitória estava esperando?

 

— Você parece particularm ente interessado no destino dele —

replicou Max. Talvez entregá-lo a Vioget fizesse Vitória aparecer. — Você tam bém não veio atrás?

 

— O que eu faria com um livro desses? Não vou im pedir você de levá-lo, Maxim iliano — disse-lhe Vioget. — Desej o tanto quanto você que Lilith o tenha.

 

Antes que Max pudesse responder, ou processar aquele com entário, ouviu algo que desviou sua atenção do problem a em m ãos. De fora da j anela aberta. . um grito, um grito baixo.

 

Vitória?

 

Correu até a j anela, abrindo as cortinas. Ela não estava lá.

 

Olhou para baixo, e na escuridão, atenuada apenas por um a lua m inguante, ele m ais ouviu do que viu um a altercação.

 

Ela saíra pela j anela e se m etera num a briga. Provavelm ente nem estivera m ais na biblioteca durante a luta dele com os Guardiões.

 

Max relanceou os olhos sobre Vioget, que se virara, m as sem fazer qualquer m ovim ento em direção à j anela.

 

— Vá! O livro estará seguro aqui.

 

Max confiava em Sebastian Vioget com o confiava num m endigo em um quarto com um baú de j óias, m as não tinha escolha. Se ele não podia tocá-lo, Vioget tam pouco podia.

 

Max olhou pela j anela. Se Vitória conseguira sair por ali, ele tam bém conseguiria.

 

12

Nossos heróis com eçam a fatiar e pulverizar Havia dez deles.

 

E isso depois de Vitória j á ter enfiado a estaca em dois; portanto um a dúzia exata para com eçar, m ais os dois que estavam na casa. Com Sebastian.

 

Droga! Sebastian estava lá!

 

Ela deu um a rasteira no vam piro de presas arreganhadas que vinha em sua direção com olhos fulgurantes, e ele se estatelou no banco do j ardim onde ela estivera sentada pouco antes. Rodopiando para encarar o que vinha por trás dela, tentou enfiar-lhe a estaca, errou, m anteve o im pulso até acertar no peito o vam piro por trás do prim eiro. Puf!

 

Faltavam nove.

 

A única coisa boa de que houvesse tantos era que não podiam pular sobre ela ao m esm o tem po: não havia espaço suficiente.. então, se ela pudesse deter um ou dois por vez, e m andá-los a seus destinos com sua estaca de freixo, talvez pudesse agüentar até...

 

Vitória abafou um berro nada venadoriano quando algo aterrissou sobre a sua cabeça, vindo da árvore acim a. Pelo j eito faltavam dez, pensou, enquanto seu rosto ia de encontro ao chão. Perdeu a respiração por um m om ento e não podia se m exer. Mas quando sentiu que ele, ou ela, afastava cachos desgrenhados de seu cabelo do pescoço, sentiu sua força se renovando.

 

Dando um chute com o calcanhar, acertou o vam piro com força na base do pescoço, e de novo, em rápida sucessão, m as não conseguiu rem ovê-lo. Vitória sentiu um a ponta de pânico quando outro vam piro investiu e, agachando-se sobre ela, prendeu-lhe os pulsos com as m ãos, im obilizando-a. Dorm entes, seus dedos largaram as estacas que seguravam .

 

Subitam ente ela sentiu sua fria nuca desnudada e vulnerável, e se retorceu e lutou com m enos habilidade e m ais pânico cego, o contrário do que Kritanu lhe ensinara. Um a das m ãos agarrou seu cabelo e o puxou, enquanto um j oelho na base de suas costas prendia seus quadris ao chão.

Ela engoliu um grosso soluço, algo difícil de fazer quando se está com o pescoço esticado para trás, olhando para os olhos flam ej antes de um m orto-vivo, acim a dela, sedento por sangue, e tentou usar um últim o esforço. Ploft! Arrem essou os dois calcanhares com toda a força e rapidez que pôde, tirando os quadris do chão e golpeando o vam piro para frente, fazendo-o perder o equilíbrio e derrubar o outro que segurava suas m ãos.

 

Vitória, debaixo de dois vam piros que lutavam para recobrar o equilíbrio, se contorcia freneticam ente e tentava escapulir, m as m ãos fortes agarravam -na pelos tornozelos e só o que ela podia fazer era dar solavancos com os quadris.

 

Ela sentiu, então, um a lufada de ar, um a nova presença, e em um instante, seus tornozelos foram soltos. O zunido inconfundível, o ruído abafado de algo sendo esm igalhado e um outro puf! Aquele que estava em suas costas estava m orto.

 

Suas m ãos estavam livres, e ela rolou para um dos lados para apanhar sua estaca, no m om ento em que outro vam piro arrem eda contra ela. Ela ergueu a estaca e ele em palou a si próprio. Ela ficou em pé e tirou o cabelo do rosto, a tem po de ver Max enterrar a estaca em dois outros m ortos-vivos com um único m ovim ento suave e brutal.

 

E então houve silêncio.

 

Estavam apenas os dois, encarando-se, com a respiração ofegante, recolhendo as pontudas estacas no j ardim de Redfield Manor.

 

— Você não tocou o livro.

 

— Que diabos você estava fazendo?

 

Am bos falaram ao m esm o tem po.

 

Então, silêncio de novo. O rosto dele, áspero e charm oso na penum bra, brilhava de suor. Ele o secou com eçando pela beira do m axilar, onde o suor gotej ava.

 

Vitória deslizou sua estaca de volta ao nó corredio à sua cintura, e, usando as duas m ãos, puxou todo seu pesado cabelo e colocou-o no lugar.

 

Verbena teria que descobrir um a m aneira m elhor de contê-lo, ou ela o cortaria todo. O cabelo longo voando em sua cara era um risco e ela não podia perm itir que ele obstruísse sua visão, com o fizera naquela noite.

 

Max se aproxim ou seu alto vulto cobrindo o pouco da lua que se via enquanto ele se inclinava. Agarrou-lhe o m axilar antes que ela pudesse com preender o que ele estava fazendo, virou-o para um lado e passou os dedos em seu queixo, descendo pela garganta.

 

— Você não está ferida — disse então a soltou e afastou-se. Afastou-se bastante.

 

— Você não tocou o livro — repetiu ela, resistindo ao ím peto de esfregar a pele onde ele havia tocado.

 

— Não. Você disse para não tocar. Ele ainda está lá dentro, acho.

 

Quantos você pegou?

 

A respiração dele havia se norm alizado, m as o olhar duro com que a j ulgava ainda estava em seu rosto. Um a m echa do cabelo longo dem ais o atravessava.

 

— Cinco talvez seis. Perdi a conta. Havia doze, e m ais dois lá dentro.

 

— Eu peguei os dois de dentro. E quatro aqui. Ainda há pelo m enos dois. — Ele olhou para a j anela de onde Vitória tinha escapado. — Mas eles sum iram . Você desceu pela árvore?

 

Vitória assentiu com a cabeça, e então se agachou para pegar sua outra estaca. Sua respiração tam bém tinha voltado ao norm al, e estava com eçando a se dar conta não só de que ela fora surpreendida pelo núm ero de vam piros e quase perdera a batalha, m as tam bém de que Sebastian era o hóspede que os deixara entrar.

 

O que ele estava fazendo lá?

 

Ela não se atrevia a perguntar a Max; fazer isso seria adm itir que ela conhecia Sebastian, e ela estava bastante certa de que isso seria um a violação do acordo entre eles.

 

— Diga-m e o que você sabe sobre o livro.

 

— Ele será roubado esta noite por dois ou m ais m ortos vivos. Um a vez que eles o rem ovam da casa de seu dono, podem os pegá-lo com segurança. Mas se um m ortal tocar o livro para roubá-lo, ele ou ela m orre.

 

Max fitou-a por um m om ento.

 

— Onde você conseguiu essa interessante inform ação?

 

— Não devíam os ficar parados aqui — replicou Vitória, com eçando a andar rum o à entrada da casa. — Se sobraram pelo m enos dois vam piros, eles ainda estão atrás do livro. Tem os que tom á-lo deles quando deixarem a casa.

 

— Vitória! — Sua voz tinha um tom de am eaça, cuj a intenção era detê-la.

 

Mas ela não deu atenção e continuou cam inhando até a entrada. Se ficasse num determ inado local, podia vigiar a porta da frente, ver o j ardim e perm anecer escondida.

 

Max foi atrás dela; ela não podia vê-lo, m as sentia a irritação na m aneira com o ele se m ovia silenciosa, m as deliberadam ente no seu encalço. Ela escolheu um lugar à som bra de um am plo carvalho, atrás de seu tronco. Max ficou bem atrás dela, olhando por cim a da sua cabeça.

Um a casca da árvore caiu no om bro dela quando os dedos dele tocaram o tronco.

 

— Vitória, onde você conseguiu essa inform ação?

 

— Não im porta. E além do m ais, eu não pergunto a você onde você consegue as suas inform ações — replicou ela, ainda olhando para frente, tentando não se m exer. Ele estava bem atrás dela. — Você ainda acha que eles levarão o livro hoj e?

 

— Eu não tenho a m esm a inform ação que você aparentem ente recebeu, m as a m inha expectativa é que eles não voltarão para Lilith sem o livro.

 

— Mortos vivos têm que rem ovê-lo da casa. Se forem apenas dois ou três, não terem os problem as em aliviá-los de sua carga.

 

— Teoricam ente, não.

 

Ficaram em silêncio. Esperando, observando e respirando com calm a, por fim .

 

E então.. Vitória levou um susto quando viu a m ão de Max se aproxim ar, o dedo apontando silenciosam ente.

 

Pelo m eio da rua, com o se fossem donos dela, três vultos se dirigiam para a casa. Altos, robustos, os cabelos com pridos balançando a cada passo.

 

Mesm o de onde se encontrava, Vitória viu a brancura da pele deles, o brilho profundo, violeta averm elhado de seus olhos. E as rutilantes espadas de m etal que em punhavam .

 

Ela sentiu com o se um a barra de gelo lhe apertasse a nuca.

Seu estôm ago encolheu e ela furtivam ente esfregou a palm a úm ida de sua m ão na áspera superfície da árvore.

 

— Vam piros Im periais. — A voz de Max estava em seu ouvido, quase inaudível.

 

Ela não precisava que ele lhe dissesse: j á sabia. Os vam piros m ais próxim os a Lilith, m ais ainda que os Guardiões, sua guarda de elite, e tão poderosos, que podiam sugar a energia vital de suas vítim as sem usar as presas. Som ente os olhos.

 

Lilith realm ente não queria correr riscos.

 

Não se m exeram quando os Im periais se aproxim aram de Redfield Manor. Era sorte que estivessem contra o vento em relação aos vam piros, e que houvesse um a leve brisa. Isso poderia evitar que eles farej assem Vitória e Max. Ela os observava com a nuca queim ando de frio. Eles ainda estavam a um a certa distância, m as ali m esm o ela j á conseguia sentir o poder, o ódio. . a m aldade. Um calafrio percorreu-a.

 

Pela prim eira vez, ela estava verdadeiram ente feliz de que Max estivesse lá.

 

O Livro de Antwartha ainda estava dentro da casa, e teria que ser rem ovido por um dos m ortos-vivos, j á que Sebastian não teria sido capaz de levá-lo.

 

Mas por que ele estava lá?

 

Lilith sabia que ela e Max fariam qualquer coisa para im pedi-la de conseguir o Livro. Talvez houvesse até m ais surpresas aguardando-os naquela noite. Vitória tinha um a desconfortável sensação de que, em bora estivessem preparados, a Rainha dos Vam piros estava um passo à frente deles.

 

Se ela tivesse procurado tia Eustácia ou Max para com partilhar o que sabia, eles poderiam ter planej ado m elhor sua estratégia. Afinal, Max tinha algum a experiência com Im periais. Mas Vitória decidira ir sozinha, e Max tam bém , e agora estavam à m ercê das determ inações de Lilith.

Com o é que se lutava com um Im perial? O coração dela parecia bater por todo o corpo. Os vam piros, com certeza, deviam perceber isso!

 

Com o se lesse os pensam entos dela, um dos Im periais parou nos degraus da entrada de Redfield Manor, virando-se para eles e farej ando o ar. Vitória prendeu a respiração e sentiu a tensão de Max.

 

O vam piro virou-se para os com panheiros e eles se separaram . Dois subiram os degraus e aquele que os encarara em baixo, foi para perto da rua. O com prim ento de sua espada era um a terceira perna, que ia do quadril até o chão.

 

A porta de Redfield Manor se abriu e os dois Im periais entraram . O

 

terceiro ficou sozinho.

 

Ela quase deu um pulo quando Max apertou-lhe o braço e sussurrou-lhe ao ouvido:

 

— Prim eiro eu. Espere, e você vai em seguida.

 

Sem esperar resposta, ele saiu da som bra da árvore e com eçou a andar audaciosam ente em direção ao Im perial.

 

Não tinha espada, nenhum a arm a a não ser suas estacas de freixo, e um galho longo e fino com a ponta dentada.

 

Vitória observou quando o Im perial virou o rosto e viu Max cam inhando a passos largos pelo gram ado, que de algum a form a ficara úm ido. Com os olhos candentes, não m ais que fendas, o vam piro esperava preparado. Mesm o à distância que se encontrava, à luz fraca do luar, Vitória pôde ver o sorriso cínico e a postura indolente anunciando que ele estava pronto para a luta.

 

Quando ele chegou a dois braços de distância, o Im perial ergueu sua espada. Sim , com sua força bruta ele era páreo para Max, m as para lutar com um Venador, que carregava um a vara de m adeira trazendo a m orte, Lilith não se arriscava. Ela arm ava seus vam piros com varas de m etal: espadas. Assim , estariam em igualdade de condições. Madeira contra m etal. Força sagrada contra poder inum ano.

 

Vitória entendeu o plano de Max, e em bora seu coração tenha acelerado m uito quando ela viu as duas figuras altas e largas se encarando, aguardou. O Im perial teria sentido a presença deles; m ostrando-se e aproxim ando-se do vam piro, Max esperava que a presença de Vitória perm anecesse despercebida.

 

O m etal brilhou na luz e Vitória viu que os dois j á estavam se enfrentando, lutando pela vida. Ou pela m orte-viva.

 

Ela estava errada. Não estavam em condições iguais.

 

Max estava em desvantagem . A pele na palm a da m ão dela um edeceu. Enquanto sua arm a só m ataria se ele conseguisse um golpe lim po e certeiro através do peito, a espada m anej ada pelo Im perial era letal de todas as form as.

 

E se ele derram asse sangue, o cheiro atrairia os outros Im periais e Guardiões de dentro de Redfield Manor. . e qualquer outro que estivesse espreitando pela rua.

 

Eles se m oviam com o se fizessem um a coreografia, parecendo saltar e às vezes quase planar, atacando e se defendendo, cada um com seu bastão da m orte. Rodando, pulando, tom ando im pulso em um a árvore próxim a, deslizando para cim a de um dos lados da casa e de novo para baixo. Quase com o se fossem m arionetes nas cordas, flutuando no ar e adej ando, um em direção ao outro, num balé de m ovim entos letais.

 

Im pressionada, ela olhava com o Max parecia deslizar e pairar pelo ar com m ovim entos graciosos de um a arte que ela ainda não aprendera.

 

Mantinha o olhar fixo nele, rezando para que soubesse quando deveria sair das som bras e aj udá-lo. Se fosse rápida o suficiente.

E então, o gelo perm anente de sua nuca m udou, desviando sua atenção da luta. Ela sentiu algo atrás de si e virou-se bem a tem po, com a estaca na altura de sua cintura. Com um rápido golpe, enterrou a estaca no peito de um vam piro assaz ordinário que teve a estupidez de aparecer por trás de um Venador tenso; um a m ulher que ele achava que seria um a vítim a fácil.

 

Seria sua últim a caçada pelas ruas.

 

Vitória virou-se de volta, percebendo que sua m ovim entação podia ter alertado o Im perial de sua presença, m as o que viu foi sua longa espada m etálica fazendo um a curvatura no ar e caindo no chão. Com um m ovim ento que prendeu o fôlego dela, Max pulou por cim a do vam piro e agarrou sua espada. Em pertigando-se, rodopiou e, com um golpe lim po, separou a cabeça do Im perial de seu corpo.

 

O vam piro pulverizou-se.

 

Tudo ficou calm o.

 

Exceto pelo coração descom passado de Vitória e sua respiração ofegante.

 

Max virou-se enquanto ela cruzava o gram ado em direção a ele.

 

— Um j á foi. Faltam dois — disse ele, indo ao seu encontro. Para profunda irritação dela, ele m al resfolegava. — Agora estam os em condições iguais. Você vai por aquele lado. Eu vou por este. — Ele apontou os buxos que flanqueavam a entrada da casa.

 

— Você estava voando!

 

Ele olhou para ela, com as sobrancelhas erguidas.

 

— De certa form a, sim . Por m ais que você pense que j á sabe tudo, você ainda tem m uito que aprender Vitória. Agora assum a sua posição.

— Espere! — Ela agarrou o braço dele, com a respiração m ais estável, agora. Algo brilhoso um edecia sua m anga, e ela reparou que tinha sido cortada e o sangue espirrava. — Ele acertou você.

 

— Claro que acertou! — rosnou Max, puxando seu braço de volta e pisando na som bra protetora de outra árvore. — De que outra form a eu ia distraí-lo para poder torcer a espada de sua m ão? Um golpe rápido da m inha estaca naquele ângulo, e ele teve que largá-la. — Por baixo de sua irritação havia um ar de satisfação e gabolice.

 

— Parabéns! — replicou Vitória no m esm o tom cortante. — Mas se você não fizer um curativo e estancar o sangram ento, vai atrair outros m ortos-vivos das cercanias. . sem m encionar os que estão lá dentro com Sebastian.

 

Ela queria m order a língua, m as isso significaria m ais cheiro de sangue no ar. E Max não pretendia deixar passar.

 

— Com o você sabe o nom e dele? — disparou ele.

 

Vitória se recusou a ficar intim idada.

 

— Mais tarde, Max. Prim eiro vam os cuidar dos. .

 

Ela não conseguiu term inar a frase. A porta próxim a a eles se abriu e havia dois vam piros Im periais no topo dos degraus da entrada.

 

Os vam piros tinham que sair da casa, carregando o livro, para que Vitória e Max pudessem tom á-lo deles com segurança.

 

Eles trocaram olhares à som bra dos buxos, assegurando que am bos haviam entendido isso.

 

Em bora o prim eiro Im perial tivesse parado na soleira da porta, não esperou m uito; o outro apareceu por trás de seu om bro e os dois saíram .

Suas m ãos estavam vazias, exceto pelas espadas que ainda em punhavam .

 

Eles olharam ao redor, em busca do com panheiro desaparecido; com o ele se tornara um m onte de cinzas, não veriam nem sinal dele. Mas talvez farej assem a poeira que perm anecia no ar.

 

Os Im periais desceram os degraus, a pouquíssim a distância de Max e Vitória — deviam tê-los farej ado, sobretudo o sangue de Max —, olhando para os dois lados, erguendo as narinas para o ar.

 

Assim que um vam piro virou-se para os buxos, cuj a altura ia até os om bros e os protegia, Max saltou de trás de um deles, brandindo a espada, e decapitou o vam piro com outro golpe lim po e certeiro.

 

Enquanto o terceiro e últim o Im perial rodopiava, segurando sua própria espada prateada, outro rosto apareceu na porta. Vitória o viu e saiu correndo de trás do buxo, galgando os degraus antes que ele pudesse fechar a porta.

 

Ele veio até os degraus ao encontro dela, e Vitória percebeu que não era ele que estava carregando o Livro; m as isso não im portava, pois agora tinha de lutar com ele até m atá-lo. Ou m orrer.

 

Em m eio à sua luta com o vam piro Guardião ela percebia o violento entrechoque de espadas lá em baixo, enquanto Max e o Im perial se enfrentavam . Um grito, seu único m om ento de distração, fez com que ela desviasse o olhar, e quando deu por si o seu oponente a havia agarrado pela cintura. Ele a ergueu e a j ogou pelos degraus abaixo, fazendo-a aterrissar no solo, perto de Max e do Im perial.

 

Ela se levantou com dificuldade, e Max gritou seu nom e; ela olhou a tem po de vê-lo apontar para trás dela e voltar a se defender.

 

Vitória se virou e viu a figura de um hom em , caindo de um a j anela aberta da casa, carregando algo grande e volum oso debaixo do braço.

 

Antes que ela pudesse dar um passo, foi derrubada no chão, com a cara na gram a.

 

Mãos tateantes, m ais frias que o gelo em sua nuca, em aranharam -se no seu cabelo e o puxaram . Ela j ogou a m ão para trás com rapidez e enfiou a estaca no vam piro.

 

Em vez de m ergulhá-la no coração, a ponta da estaca perfurou o olho dele com o um estilete em um a uva roliça. Ele berrou e ela se desvencilhou dele, cam baleando.

 

Com um a brevíssim a olhadela em Max, que prosseguia em com bate, ela saiu correndo.

 

Vitória correu m ais rápido do que j am ais im aginara que um hum ano pudesse correr; o seu vis bulla tinha que estar aj udando-a. Ou talvez fosse a Providência Divina.

 

Fosse o que fosse ela conseguiu não perder de vista o vam piro fugitivo. Ele não estava m uito à sua frente; quando chegaram à esquina das estrebarias, ele fez um a curva brusca e ela seguiu, m ergulhando num a viela estreita, escura, cercada por um m atagal cerrado de arbustos que bloqueavam a pouca ilum inação oferecida pela lua.

 

Sua visão noturna não era tão poderosa quanto à de um vam piro, nem o olfato... m as ela foi abrindo cam inho às cegas pela passagem . Não podia parar. . se o perdesse de vista, o livro estaria perdido: seria de Lilith.

 

Ela não podia deixar isso acontecer.

 

Quando chegou ao fim das estrebarias, Vitória precisou parar. Para onde ele tinha ido? Não estava em lugar nenhum ... então, o onipresente gelo em sua nuca intensificou-se e ela o sentiu por trás. Ele se escondera no m atagal e a esperara passar.

 

Foi seu erro.

Ela se virou e retrocedeu, devagar. Ele não conseguiria se esprem er por todo o m atagal; era m uito denso, e de um dos lados estava à parede de um j ardim . Ela estava feliz por ele ser apenas um Guardião, e não um Im perial, j á que alguns destes podiam m udar de form a. Guardiões eram lutadores aguerridos e tinham fortes cargas de energia, contudo eram m ais facilm ente superados que um Im perial.

 

Lá estava ele.

 

Ela se voltou, m ergulhou a estaca no m atagal e sentiu algo sólido.

 

Não era o peito do vam piro; ele pulou e de repente estavam os dois engalfinhados no chão, rolando pelo cam inho pedregoso de volta ao m atagal. Ele tinha as m ãos em volta do pescoço dela; não estava perdendo tem po querendo m ordê-la, pensou Vitória, enquanto eles se estreitavam .

 

A respiração dela tornou-se árdua, e os cantos de sua j á obscurecida visão ficaram ainda m ais enevoados. Ela pegou a estaca. Um golpe... sentia os próprios dedos m oles e vacilantes. Apertou-os, ordenando-lhes que se crispassem , m esm o enquanto sua m ente falhava.

 

Ploft!

 

Ela golpeou com o fizera antes, e acertou-o no olho. Dois vam piros cegos graças a ela na m esm a noite; m as não era suficiente. Vitória ficou em pé enquanto ele se levantava, com a m ão sobre o olho vazado... e aquele foi seu fim . Puf!

 

Arfando, Vitória precisou de um a pausa para recobrar a respiração.

 

Levando oxigênio de volta aos pulm ões, pensou que nunca tivera um a sensação tão boa. E pôs-se a ouvir.

 

Nada.

Silêncio.

 

Só o ruído surdo de um cavalo trotando num a rua distante.

 

O Livro.

 

Ele tinha que tê-lo deixado cair. Vitória varej ou o m atagal até encontrá-lo. Estendeu o braço, hesitou, e então, prendendo a respiração, pegou-o. Nada aconteceu.

 

Com um suspiro de alívio, ela suspendeu o volum oso pacote e o colocou debaixo do braço.

 

E agora?

 

Deveria voltar e ver se Max precisava de aj uda?

 

E se não precisasse? E se ele tivesse sido.. Não, era m elhor levar o Livro para casa. Um a vez que ele estivesse em segurança, ela descobriria o que acontecera com Max. Se ele estava bem .

 

Deus, ela esperava que ele estivesse bem . Se não estivesse, aquele fora um nobre sacrifício. Se não estivesse, ela teria que se virar sozinha.

 

Vitória saiu das estrebarias e entrou na noite aberta.

 

13

 

O m arquês faz um anúncio inoportuno

 

Um cabriolé de aluguel — não o de Barth — levou-a para casa.

 

Vitória m anteve o Livro de Antwartha no assento de seu coche, próxim o dela, e tentou não pensar em Max. Com o se esforçara bastante para dem onstrar, ele era perfeitam ente capaz de cuidar de si.

 

Vitória sabia que ele preferiria que ela cuidasse do Livro, agora que estava de posse dele, em vez de arriscar perdê-lo indo auxiliá-lo.

 

Quando o cabriolé chegou a Grantworth House, Vitória apeou rapidam ente, carregando o pesado volum e debaixo de um braço e batendo a porta do coche por trás dela. As j anelas da casa estavam escuras exceto por um a lâm pada ardendo diante da j anela da sala. Eram quase quatro da m anhã; sua m ãe j á devia ter chegado do baile a que com parecera e provavelm ente estava roncando na cam a. Vitória j ogou um a m oeda na m ão do condutor e com eçou a subir os degraus de sua casa.

 

E sentiu um a lufada de frio na nuca.

 

Mas que inferno!

 

De novo?

 

Procurou a estaca que achou que não ia precisar m ais naquela noite e virou-se para olhar a rua. Agora seu corpo inteiro estava frio.

 

Sua m ãe estava, de fato, em casa. Mas não estava em sua cam a dorm indo.

 

Não. A carruagem dos Grantworth estava estacionada, brilhando verde e dourada sob o lam pião da rua, onde não deveria estar. E o hom em no assento do condutor, segurando as rédeas dos cavalos anorm alm ente quietos, não era o cavalariço dos Grantworth.

 

Vitória olhou para o que estava carregando, refletiu e olhou de novo a carruagem . Quantos haveria ali? Com o poderia com batê-los com um a das m ãos segurando o livro? Não poderia colocá-lo no chão.

 

— Venadora! — gritou um a voz.

Vitória virou-se e viu quatro vam piros — Guardiões, j ulgou ela, baseada no fato de que seus olhos eram m ais rubi do que granada —

 

saindo de trás da carruagem . Um deles, um a m ulher alta de cabelo carm esim , é que tinha falado.

 

— Espero não tê-los privado de seus passeios noturnos — replicou Vitória com um a calm a que não estava sentindo. — Concluir a tarefa desta noite dem orou um pouco m ais do que eu planej ara. — Falava e olhava em volta, calculando com a m ente, m esm o enquanto lutava para não aceitar que sua m ãe estava sob custódia de cinco vam piros.

 

Quantas dessas m alditas criaturas havia em Londres?

 

Esse pensam ento absurdo era um testem unho da sua fadiga e frustração, m as Vitória não podia se dar ao luxo de tê-lo. Sua m ãe estava na carruagem e ela tinha que salvá-la.

 

A vam pira de cabelo carm esim agora estava perto o suficiente para que Vitória pudesse sentir o seu arom a som brio, em poeirado e seco.

 

Tom ando cuidado de não olhá-la diretam ente nos olhos flam ej antes, Vitória preparou-se para quaisquer m ovim entos súbitos. Os outros vam piros a flanquearam por trás em form ação de V.

 

— Providenciam os um acom panhante para sua m ãe esta noite —

 

disse a líder, com um tom relaxado sem elhante ao de Vitória. — Ela está bem ; resistim os ao ím peto de nos alim entarm os nela até agora, Venadora, porque sabíam os que se você tivesse êxito em sua tarefa de obter o Livro de Antwartha, precisaria de um a razão convincente para entregá-lo a nós.

 

Ela fez um gesto com o queixo, indicando a carruagem , cuj a porta se abriu. Lady Melly saiu cam baleando, com as saias em aranhadas e tudo, tropeçando ao tentar descer os degraus. Mas estava bem , ilesa exceto pelos hem atom as nos cotovelos e j oelhos por causa da queda.

 

— Não posso lhes dar o livro — disse Vitória sim plesm ente. — Mas posso dar-lhes a sua vida.. tal com o é. Se preferirem m antê-la, e não ter o m esm o destino de. . hã, um a dúzia dos seus colegas, é bom que vocês sim plesm ente caiam fora daqui e vão am olar outro Venador cansado. — Se é que havia outros Venadores em Londres... cansados ou não.

 

Ouviu o Big Ben batendo as quatro. Em sessenta m inutos, talvez um pouco m ais, o sol com eçaria a nascer.

 

Poderia Vitória enrolá-los por tem po suficiente?

 

Um cabriolé, então, virou a esquina, sacudindo em um a velocidade estranham ente alta. Vitória reconheceu o condutor. O que Barth estava fazendo lá?

 

Mas antes que pudesse form ular a pergunta, o cabriolé passou correndo sem parar e de sua j anela aberta saiu um j orro de água que acertou os quatro vam piros.

 

Subitam ente, eles estavam gritando e arranhando-se onde a água os havia tocado. Quase antes de com preender que alguém , talvez Verbena, j ogara um balde de água benta neles, ela entrou em ação.

 

Quando ela j á cravara sua estaca em dois m ortos-vivos, o cabriolé havia dado m eia-volta e retornado. Outro esguicho de água ensopou o vam piro sentado no assento do condutor e um a onda m enor atingiu os dois últim os acom panhantes.

 

Eles estavam em tal agonia, que era fácil, fácil dem ais, acabar com eles; m as Vitória não tinha energia nem m esm o para ficar agradecida pelo final sim ples e gratificante de um a noite tum ultuada.

 

O cabriolé de Barth, por fim , parou perto dela na rua. Vitória enlaçou com um braço a sua m ãe, que estava pálida e silenciosa com o raram ente ficava, pôs o outro em volta do precioso pacote com o livro antigo, e subiu os degraus de Grantworth House.

 

Um a apavorada lady Melly era apenas um a de m uitas coisas com as quais Vitória teria de lidar pela m anhã. Sem falar no que fazer agora que tinha o Livro de Antwartha. E o fato de que seu noivado seria anunciado em um baile naquela noite.

 

Mas por ora... ela queria o conforto de seu colchão de plum as e um lugar seguro para esconder o livro.

 

E a certeza de que Max sobrevivera àquela noite.

 

***

 

Lidar com lady Melly acabou resultando bem m ais fácil do que Vitória previra. Verbena, que de fato j ogara a água benta nos vam piros, preparou e adm inistrou-lhe um sonífero que a fez dorm ir com o pedra.

 

Quando Vitória acordou de m anhã, tia Eustácia havia chegado em Grantworth House. Ela fora cham ada por Max, que sobrevivera ao seu terceiro Im perial em um a noite e chegara a Grantworth House pouco depois de Vitória ter colocado sua m ãe às pressas para dorm ir. Ele fora para certificar-se de que tudo estava bem , e um a vez notificado pela subitam ente im portante Verbena de que sua patroa estava em casa, ilesa, e de posse do obj eto do desej o de Lilith, Max caiu na noite, decerto em busca do seu próprio colchão de plum as.

 

Tia Eustácia tinha seus próprios m étodos para lidar com o choque de vítim as de vam piros. Segurando um pequeno disco de ouro entalhado com um desenho em espiral diante do rosto de sua sobrinha, ela o girou até que o rosto de Melly ficasse inexpressivo, e seus olhos em baçados.

 

— Por que — perguntou Vitória, quando sua tia-avó term inou de apagar a lem brança do m orto-vivo de olhos verm elhos e presas longas da m em ória de sua m ãe — precisam os fazer isso? Não seria m elhor para aqueles que não são Venadores saber quais os riscos? Saber que vam piros de fato existem ?

 

— Para espalhar o pânico, com o certam ente espalharia? Para dar a Lilith o benefício adicional de hum anos apavorados, enfraquecidos por seus m edos? Ou para dar aos despreparados e destreinados pseudo-heróis a crença de que poderiam m atar e caçar vam piros tão facilm ente quanto um Venador? Para que um m onte de indignos exij a o seu próprio vis bulla?

 

Não, Vitória, é m uito m elhor m anter essa sabedoria longe daqueles que nada podem contra isso. Com a exceção de pouquíssim os — acrescentou ela, assim que Verbena entrou na sala.

 

Então seus argutos olhos negros focalizaram Vitória firm em ente.

 

— Mas não adianta m udar de assunto, m inha querida. Soube que você alcançou o obj etivo pelo qual estivem os todos trabalhando. Quero dar-lhe m inhas m ais profundas congratulações, m eu agradecim ento de coração, e..

 

—. . e m inha raiva m ais intensa!

 

Claro que era Max, alto e am eaçador à porta aberta da sala. Verbena estava atrás dele, descabelada e de olhos esbugalhados, e atrás dela Jim m ons, o m ordom o de rosto verm elho, que não deveria ter perm itido a entrada do visitante sem anunciá-lo. Apesar de que, conhecendo Max, Vitória não estava m uito surpresa que isso tivesse ocorrido.

 

Ele entrou na sala, todo vestido de preto, inclusive a cam isa —

 

Vitória nem sabia que faziam cam isas pretas —, e fechou vigorosam ente a porta atrás de si, quase batendo no nariz curioso de Verbena.

 

— O que você pensou que estava fazendo, Vitória? — rosnou ele avançando contra ela.

 

— Max. . — tia Eustácia pretendia falar, m as Vitória adiantou-se.

— Salvando a sua vida.. ou j á esqueceu com tanta facilidade? — Ela tam bém se levantou, virando a cara para a expressão furiosa dele.

 

— Salvando a m inha... Vitória, se você tivesse com partilhado sua inform ação com igo antes do m om ento que quase custou m inha vida, salvá-

 

la não teria sido necessário! Nós teríam os determ inado a m elhor form a...

 

—. . de você obter o livro, enquanto eu ficava em casa cuidando de m eus berloques e falbalás, sem dúvida nenhum a!

 

— Claro que não! Teria sido um trabalho de equipe, com um plano...

 

— Palavras fáceis vindas do hom em que tam pouco com partilhou suas inform ações com igo! Que tipo de trabalho em equipe você tinha em m ente, Max?

 

Ele abriu a boca para responder, m as Eustácia não agüentou m ais.

 

Ela saltou de sua cadeira às últim as palavras de Vitória e colocou-se entre os dois, as m ãos estendidas para cada um deles.

 

— Sentem -se, vocês dois! — ordenou ela com um a voz trovej ante que Vitória nunca ouvira antes.

 

Ela sentou-se. Max tam bém , m as, ela reparou sem parecer nem um pouco am edrontado.

 

— Vou deixar um a coisa bem clara — falou Eustácia, dardej ando um de cada vez com o olhar: — vocês dois são a nossa única verdadeira esperança aqui na Inglaterra, e j á que am bos foram cham ados, precisam aprender a trabalhar j untos, ou ficarem os enfraquecidos pelas dissensões!

Não vou discutir m ais sobre o que aconteceu ontem à noite... exceto para parabenizá-los. E respirar com grande alívio. Tem os o Livro de Antwartha, e Lilith não. Você executou três Vam piros Im periais, Max, e isso, creio eu, é um recorde para um a noite. O m áxim o que eu consegui foram dois em um a noite — acrescentou com o traço de um sorriso triste.

 

— E outros num erosos Guardiões, pelo que soube. Graças, em parte, à sua engenhosa em pregada.

 

Vitória assentiu com a cabeça; ela expressara a m esm a gratidão a Verbena, o que devia ter, em parte, causado a recente introm issão da criada.

 

— O que farem os com o livro agora que o tem os? — perguntou Max com o se a explosão e a bronca nem tivessem ocorrido.

 

Antes que Eustácia pudesse responder, um a batida apropriada ressoou na porta da sala e Jim m ons pôs a cabeça para dentro. Vitória acenou, ele abriu e disse:

 

— E cedo dem ais para visitas, m as o cavalheiro insistiu em ser anunciado, Srta. Vitória. O m arquês de Rockley.

 

O calor se espalhou pelo rosto dela antes que pudesse evitá-lo, e sem olhar para Max ou para a tia, Vitória replicou:

 

— Por favor, faça o m arquês entrar, Jim m ons. Acredito que esta não será a últim a vez que ele nos visitará fora do horário norm al.

 

Pela expressão de seu rosto, Max queria m uito dizer algo... m as antes que pudesse, a porta se abriu novam ente e ele entrou.

 

Vitória ergueu-se ansiosam ente, porém conseguiu se conter antes de correr para Filipe. O noivado deles ainda não fora anunciado; seria indecente da parte dela portar-se de tal form a antes do baile daquela noite.

Mas a m aior parte dela desej ava enlaçá-lo com os braços, enterrar seu rosto no peito dele e se perder em sua norm alidade.. no conforto não vam pírico, sem estacas e bem ilum inado da normalidade.

 

Ele tam bém parecia controlar-se para não tocá-la; m as ao ver os outros ocupantes da sala, em pertigou-se form alm ente e aceitou a cadeira que lhe ofereceram , não m uito longe daquela em que Max estava sentado.

 

— Peço perdão por vir tão cedo — disse ele, depois das apresentações form ais, ou, no caso de Max, dos cum prim entos form ais —, porém soube do que aconteceu ontem à noite e vim para m e certificar de que tudo estava bem .

 

Vitória olhou-o fixam ente. Com o ele podia saber sobre o que ocorrera? Com o?

 

Mas Filipe ainda estava falando, seus olhos cinza-azulados m uito sérios e preocupados:

 

— Sua m ãe está aqui? Está a salvo?

 

Então ela com eçou a entender.

 

— Minha m ãe está bem . Está dorm indo lá em cim a e acredito que tenha tirado por com pleto esse acontecim ento de sua m ente. —

 

Literalm ente. — Com o soube disso, e o que ouviu a respeito?

 

— O que ouvi foi que a carruagem dela foi roubada com ela dentro.

 

Foram as únicas notícias, e só tom ei conhecim ento delas hoj e cedo. Fico contente que ela estej a aqui, e bem . E a senhorita deve ter tido um a noite péssim a com tudo isto, Srta. Grantworth. — Por não terem ainda anunciado seu noivado, ele utilizava o título form al dela, m as não havia com o não reparar na intim idade com que o dizia.

Max rem exeu-se na cadeira.

 

— Se o senhor ouviu só hoj e de m anhã que a carruagem foi roubada, m e pergunto por que a notícia de que lady Melly chegou a salvo em casa tam bém não chegou aos seus ouvidos? — Ele sorriu prazerosam ente.

 

Filipe devolveu o sorriso. Prazerosam ente.

 

— O senhor m e desm ascarou, lor. . hã. . Sr. Pesaro. Foi só um a desculpa para m e assegurar de que a Srta. Grantworth não havia sofrido nenhum efeito desagradável do que deve ter sido um a noite de terrível provação.

 

Vitória abafou o riso canino de Max com um a curta resposta:

 

— Que gentileza a sua, m ilorde! — Ela deu-lhe um sorriso que com binava com o tom íntim o da voz dele. — Posso assegurar-lhe, em bora m inha noite tenha sido difícil em m ais aspectos do que se possa im aginar, que estou m e sentindo m uito bem agora que j á é m anhã e o sol está alto no céu.

 

Filipe olhou para ela, para Eustácia e de relance para Max antes de retornar sua atenção a Vitória.

 

— Estou certo de que após a experiência assustadora de ontem , a senhorita precisará descansar e levar o tem po que for necessário se preparando para o baile de hoj e. Espero que esta noite sej a tão exaustiva quanto à de ontem , só que de um a m aneira bem m ais prazerosa. Terem os m uita aj uda para com em orar a nossa novidade.

 

— Novidade? — perguntou Max delicadam ente, m ordendo a isca. —

 

Outro baile? Para com em orar o quê?

 

— Ora, o nosso noivado, é claro — replicou Filipe afavelm ente. —

 

Vitória e eu vam os nos casar daqui a um m ês.

14

 

Um a aliança é sugerida

 

Vitória traj ava um vestido de um pálido roxo-claro, com botões de rosa cor de violeta e laços acom panhando os babados de sua saia. Verbena preparou seu penteado com todo tipo de intricados cachos e tranças, ainda m ais labirínticos por serem enrolados e ancorados no topo da cabeça. Duas m echas pendiam soltas, um a em cada lado de seu rosto, encaracolando-se a partir das têm poras e derram ando-se nas clavículas.

 

Cintilando por trás delas estavam m ontes de am etistas e diam antes, pendentes das orelhas. Um a am etista grande e quadrada encaixava-se no pequeno vão na base de sua garganta, am arrada por um laço de veludo branco.

 

Ela carregava um a pequena nécessaire de seda perolada, da qual pendia um laço de cetim rosa - claro, e um xale de renda de Alençon envolvia-lhe os cotovelos.

 

Não levava um a estaca. Ou água benta. Nem m esm o crucifixo, exceto um aloj ado dentro do corpete.

 

Naquela noite ela não era um a Venadora.

 

Naquela noite Vitória era a noiva do m arquês de Rockley.

 

Talvez fosse um a decisão im petuosa, m as Vitória queria um a noite para desfrutar do fato de ser um a m ulher apaixonada por um hom em bonito, charm oso e rico. Queria um a noite em que não tivesse que considerar com o um vam piro entraria no salão de baile, ou com o ela poderia sair furtivam ente... ou m esm o se a brisa em sua nuca era um a raj ada de vento de verão ou o sinal de um m orto-vivo.

 

Ela queria ser norm al.

Não obstante, ela trouxera um a estaca escondida em sua capa, na sala de estar. Só para garantir.

 

Filipe, que nunca estivera tão belo, conduzia Vitória ao salão de baile depois que o noivado deles fora anunciado por seu parente m ais próxim o, o irm ão de sua falecida m ãe, na m etade do baile. Ele tom ou Vitória graciosam ente em seus braços e eles com eçaram a prim eira valsa da segunda parte, rodeados cercados por um a com binação de rostos radiantes e surpresos.

 

No início, eram o único casal na pista de dança. Durante cinco com passos, Vitória sentiu sobre ela o peso do olhar fixo de m etade dos bem -nascidos da cidade, analisando a futura esposa do m arquês de Rockley, um dos solteiros m ais cobiçados da sociedade. Ele olhava para ela com o se fosse a única m ulher que tivesse visto... ou veria.. enquanto giravam pelo salão retangular em espaçados percursos triangulares.

 

Quando se aproxim aram dos espectadores pela terceira vez, outros casais com eçaram a entrar na pista para dançar a valsa, e Vitória não se sentiu tanto com o um troféu em exposição.

 

Filipe erguia o olhar de vez em quando para ver os am igos, fam iliares e conhecidos enquanto conduzia Vitória pelos passos, m as sua atenção sem pre voltava a ela. O m odo com o a olhava, com prom essa e estabilidade, fazia Vitória sentir-se quente e arrepiada. Ela sorria, levantando o rosto e olhando para ele, confiando que ele guiaria seus passos sem que ela tivesse de se preocupar para onde iam e por onde pisavam .

 

Um sentim ento m aravilhoso... deixar-se levar. Não ter que estar atenta ao que havia à sua volta. Não precisar ouvir seus instintos e se perguntar quando sentiria aquele gelo na nuca, e não ter que calcular com o faria para escapulir do salão a fim de cum prir o seu dever.