O Peregrino
6. Cristão chega à cruz e livra-se do fardo
HOMEM — Ora, pensei que o dia do juízo chegara, e que eu não estava pronto para ele. Mas isso muito me apavorou, pois os anjos arrebataram várias pessoas e me deixaram para trás. Além disso, o abismo do inferno abriu-se bem onde eu estava. Minha consciência também me afligia no íntimo; e enquanto eu pensava essas coisas, o juiz não tirava os olhos de mim, revelando indignação no semblante.
Em seguida, Intérprete disse a Cristão:
— Você já refletiu sobre todas essas coisas?
CRISTÃO — Já, e elas me incutem esperança e medo.
INTÉRPRETE — Bom, lembre-se bem de tudo isso, para que lhe seja espinho na carne, que o faça avançar pelo caminho que você deve seguir.
Então Cristão foi se aprontar para retomar a jornada. Mas Intérprete ainda lhe disse:
— O Consolador esteja sempre com você, bom Cristão, para guiá-lo pelo caminho que conduz à Cidade.
Assim partiu Cristão, dizendo:
Coisas raras e proveitosas vi;
Coisas agradáveis, temíveis; e que o que vi aqui
Me fortaleça naquilo que me propus fazer.
Que eu nelas pondere para compreender
Por que me foram mostradas, e que seja eu,
Ó, bom Intérprete, grato ao conselho teu.
6
Cristão chega à cruz e livra-se do fardo
Em meu sonho vi que a estrada pela qual Cristão havia de seguir era murada dos dois lados, e o muro chamava-se Salvação. Por esse caminho, portanto, corria o sobrecarregado Cristão, mas não sem grandes dificuldades, por causa do fardo às suas costas.
Correu assim até alcançar um local íngreme, no alto do qual se erguia uma cruz, e pouco abaixo, no vale, um sepulcro. Vi em meu sonho que assim que Cristão chegou à cruz, seu fardo, afrouxando, escorregou pelos seus ombros, caiu-lhe das costas e, tombando, foi descendo até a entrada do sepulcro, onde caiu, e não mais o enxerguei.
Então ficou Cristão alegre e aliviado, 1 e disse de coração exultante:
— Ele me concedeu repouso, pela sua angústia, e pela vida, e pela morte.
E ali permaneceu algum tempo, olhando e admirando-se, pois ficara muito surpreso ao perceber que a visão da cruz o aliviava assim de seu fardo. Olhou, portanto, e olhou novamente, até que as fontes de sua cabeça manassem água, que lhe escorria pelo rosto.
Estando Cristão a olhar e chorar, eis que três seres resplandecentes se aproximaram dele, e o saudaram dizendo: “A paz seja contigo”. E o primeiro lhe disse: “Os seus pecados estão perdoados” (Mc 2:5). O segundo o despiu dos farrapos e o vestiu com nova muda de roupas (Zc 3:3-5). O terceiro ainda gravou-lhe um sinal na testa, deu-lhe um rolo com um selo e mandou Cristão observá-lo durante o caminho, devendo entregá-lo no Portão Celestial. Os três então partiram. Cristão deu três saltos de alegria, e seguiu cantando: Sobrecarregado de pecados até aqui vim
Nem pude aliviar o pesar, pesar sem fim, Que até aqui trazia. Ah, lugar ditoso!