O Peregrino
1. Começa o sonho do autor. Cristão, guiado por Evangelista, inicia sua peregrinação
frontispício da edição original, 1678.
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Começa o sonho do autor. Cristão, guiado por
Evangelista, inicia sua peregrinação
Andando pelas regiões desertas deste mundo, achei-me em certo
lugar onde havia uma caverna; 1ali deitei-me para dormir e, dormindo, tive um sonho. Vi um homem vestido de trapos (Is 64:6), de pé em determinado lugar, com o rosto voltado para o lado oposto da própria casa, um livro na mão e um grande fardo às costas (Sl 38:4). Olhei e o vi abrir o livro, e lê-lo; e lendo, chorava e tremia, e já não se contendo, rebentou em um choro sentido, dizendo:
“Que devo fazer?” (At 16:30-31).
Nessa angústia, portanto, voltou para casa e se conteve o máximo que pôde, para que sua mulher e seus filhos não lhe percebessem o desconsolo; mas não podia mais calar-se, pois seu tormento crescia. Assim, afinal revelou sua angústia à mulher e aos filhos; e começou a falar-lhes:
— Minha querida esposa e filhos — disse ele — estou muito preocupado em virtude de um fardo que me pesa muito; além disso, tenho uma informação segura de que nossa cidade será queimada com fogo do céu, em cuja terrível destruição eu, você, minha esposa, e vocês, filhinhos amados, seremos destruídos, a não ser que haja uma maneira (que não vejo) de escapar, pela qual nos libertemos.
A revelação deixou a mulher e os filhos surpresos e aflitos, não porque acreditassem que o que ele lhes dizia era verdade, mas porque achavam que alguma insensatez desvairada lhe confundia o pensamento. Aproximando-se a noite, portanto, e esperando que o sono pudesse acalmá-lo, mais do que depressa o fizeram dormir. Mas a noite foi para ele tão perturbadora quanto o dia; assim, em vez de dormir, passou-a entre suspiros e lágrimas.
Quando veio a manhã, quiseram saber como ele passara, e lhes disse que piorava cada vez mais. Também voltou a falar-lhes, mas
eles começaram a mostrar-se endurecidos.2 Então cogitaram curar-lhe a insensatez por meio de um comportamento rude: às vezes zombavam dele; às vezes o repreendiam; e às vezes simplesmente o ignoravam.
Por isso ele passou a isolar-se em seu quarto para orar e lamentar por eles, e também para condoer-se da própria angústia. Caminhava solitário pelos campos, às vezes lendo, às vezes orando. Assim passou o tempo durante alguns dias.
Ora, vi certa vez quando ele caminhava pelos campos que (como costumava fazer) lia seu livro exibindo grande angústia, e lendo, rebentou em lágrimas, como já o fizera antes, clamando: “Que devo fazer para ser salvo?”.
Vi também que ele olhava para um lado e para o outro, como se pretendesse correr, porém permanecia imóvel, pois, como percebi, não conseguia decidir que caminho tomar. Olhei então e vi um homem chamado Evangelista aproximar-se dele e perguntar-lhe:
— Por que você está chorando?
— Senhor, percebo, por este livro que tenho nas mãos, que estou condenado a morrer e, depois, ir a julgamento (Hb 9:27). Não quero que a primeira coisa aconteça comigo agora, nem tampouco estou pronto para a segunda.
Disse então o Evangelista:
— Por que não está disposto a morrer, se esta vida é afligida por tantos males?
— Porque temo que esse fardo que trago às costas me enterre mais
fundo que a sepultura, e que eu venha a cair na fogueira. 3 E, senhor, se não estou disposto a ir para a prisão, não estou disposto (tenho certeza) a enfrentar o juízo, e depois a execução. Pensar nessas coisas me faz chorar.
— Se é assim que você se sente — disse o Evangelista — por que fica aí parado?
— Porque não sei para onde ir.