O Peregrino
16. Os peregrinos chegam às Montanhas Aprazíveis
Os que vêm depois tenham cuidado,
não façam como nós, estouvados,
e, como invasores, não caiam prisioneiros
Do Castelo da Dúvida, do gigante Desespero.
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Os peregrinos chegam às Montanhas Aprazíveis
Seguiram então seu caminho e, chegando às Montanhas Aprazíveis, terras pertencentes ao Senhor do morro de que já falamos lá atrás, subiram-nas para ver os jardins e os pomares, os vinhedos e as fontes de água pura, onde também beberam e se banharam, comendo livremente do fruto das vinhas.
No cume dessas montanhas, pastores apascentavam seus rebanhos, bem ao lado da estrada. Os peregrinos, portanto, foram ter com eles e, apoiados em seus cajados (algo comum aos peregrinos exaustos, quando param para conversar com alguém pelo caminho), perguntaram:
— De quem são estas Montanhas Aprazíveis e as ovelhas que pastam por aqui?
PASTOR — Estas montanhas são a Terra de Emanuel, e podem ser vistas da Cidade Celestial. As ovelhas também pertencem a ele, que por elas deu a própria vida.CRISTÃO — É este o caminho para a Cidade Celestial?
PASTOR — Vocês estão no caminho certo.
CRISTÃO — Quanto ainda falta para chegar lá?
PASTOR — Muito se tratando de qualquer pessoa, mas muito pouco para os que de fato chegarão.
CRISTÃO — O caminho é seguro ou perigoso?
PASTOR — Seguro para aqueles aos quais deve ser seguro, “mas os rebeldes nele tropeçam” (Os 14:9).
CRISTÃO — Acaso há neste lugar algum alívio para peregrinos exaustos e abatidos?
PASTOR — O Senhor destas montanhas nos deu uma incumbência: “Não se esqueçam da hospitalidade” (Hb 13:2). Portanto tudo o que há de bom neste lugar é para vocês.
Vi também em meu sonho que, percebendo que os dois eram peregrinos, os pastores propuseram-lhes algumas questões (que os dois, como em outros lugares, responderam): de onde vinham, como haviam entrado no caminho e como conseguiram perseverar até ali, pois poucos dos que começavam conseguiam alcançar aquelas montanhas. Mas, ao ouvir as respostas, os pastores, muito maravilhados, olharam os dois com muito carinho e disseram:
— Sejam bem-vindos às Montanhas Aprazíveis.
Os pastores, cujos nomes eram Conhecimento, Experiência, Atento e Sincero, tomaram os dois peregrinos pelas mãos e os levaram até suas tendas, partilhando com eles aquilo que tinham à mão. Depois ainda disseram:
— Gostaríamos que vocês ficassem aqui por algum tempo, para nos conhecermos mais e também para que vocês se consolem com as boas coisas destas Montanhas Aprazíveis.
Os dois concordaram e disseram que gostariam muito de ficar. Em seguida foram dormir, pois já era bastante tarde.
Vi então em meu sonho que, de manhã, os pastores chamaram Cristão e Esperançoso para caminhar com eles pelas montanhas. Assim, os dois peregrinos acompanharam os pastores e passearam um pouco, admirando paisagens agradáveis por todos os lados. Então os pastores comentaram entre si:
— Será que devemos mostrar algumas maravilhas a esses peregrinos?
Decidindo fazê-lo, primeiro os levaram até o cume de uma colina, chamada Erro, que era bastante íngreme no lado oposto. Lá em cima, pediram que os dois olhassem para o precipício. Olhando, Cristão e Esperançoso viram lá embaixo vários homens despedaçados pela queda que sofreram lá do cume.
— O que significa isto? — questionou Cristão.
— Não ouviram falar daqueles que foram levados ao erro por dar ouvidos a Himeneu e Fileto com respeito à fé na ressurreição do
corpo? 1 — perguntaram os pastores.
— Já — responderam os peregrinos.
— Pois aqueles que vocês veem despedaçados lá no fundo do precipício são eles. Até hoje permanecem insepultos (como vocês podem ver), como exemplo para os outros, para que tomem cuidado ao subir demais, ou ao aproximar-se demais da beirada deste precipício.
Vi então que os levaram até o pico de outra montanha, chamada Cautela. Ali pediram-lhes que olhassem ao longe. Contemplando, julgaram divisar vários homens perambulando entre os túmulos que havia ali. Perceberam que os homens eram cegos, pois às vezes tropeçavam nas sepulturas, sem jamais conseguir se afastar delas.
— O que significa isto? — intrigou-se Cristão.
— Não viram um pouco abaixo destas montanhas uma escada que conduz até um prado, à esquerda do caminho? — perguntaram-lhe os pastores.
— Vimos sim — disseram os dois.
— Dessa escada parte uma trilha que leva diretamente até o Castelo da Dúvida, guardado pelo gigante Desespero. Esses homens (apontando os que perambulavam por entre os túmulos) eram também peregrinos como vocês, até chegarem àquela escada. Por ser o caminho reto acidentado naquele trecho, preferiram desviar-se e entrar no prado, e ali foram pegos pelo gigante Desespero e atirados no Castelo da Dúvida.
— Depois de permanecer certo tempo no calabouço — contaram-lhes os pastores — foram afinal cegados e levados até aqueles túmulos, onde até hoje perambulam perdidos. Isso para que se cumprisse o ditado do sábio: “Quem se
afasta do caminho da sensatez repousará na companhia dos mortos” (Pv 21:16).
Então Cristão e Esperançoso se entreolharam, os olhos marejados, mas nada disseram aos pastores.
Vi também em meu sonho que os pastores os levaram a outro lugar, em um vale, onde se via uma porta na encosta de um morro. Abriram a porta e pediram aos peregrinos que olhassem lá dentro. Olhando, viram que o interior era sombrio e fumarento. Pensaram ouvir lá de dentro também ruídos continuados, como o crepitar de labaredas e os gritos de homens atormentados, subindo-lhes às narinas um cheiro de enxofre.
— O que significa isto? — quis saber Cristão.
— Eis aí um atalho para o inferno —responderam os pastores — caminho que tomam os hipócritas; gente que, como Esaú, vende o direito de primogenitura; gente que vende o próprio Mestre, como Judas; gente que blasfema o evangelho, como Alexandre; e gente que mente e dissimula, como Ananias e Safira, sua mulher.
— Vejo que esses tinham, todos eles, a aparência de peregrinos como nós, não? — perguntou Esperançoso aos pastores.
PASTORES — Sim, e a mantiveram por longo tempo também.
ESPERANÇOSO — Até que ponto puderam seguir na peregrinação antes de se perder assim tão miseravelmente?
PASTORES — Alguns foram além destas montanhas, outros nem chegaram até aqui.
Então disseram os peregrinos um ao outro:
— Convém pedir força àquele que é poderoso.
PASTORES — Sim, e também é preciso usá-la quando a tiverem disponível.
A essa altura os peregrinos manifestaram desejo de prosseguir, com o que concordaram os pastores. Juntos caminharam até o final das montanhas. Então comentaram entre si os pastores:
— Mostremos daqui aos peregrinos os portões da Cidade Celestial. Vejamos se eles conseguem usar o nosso telescópio.
Os dois, agradecidos, aceitaram o convite. Então os levaram ao cume de uma alta colina, chamada Transparência, e lhes deram um telescópio. Tentaram usar o instrumento, mas a lembrança da última coisa que os pastores lhes mostraram fez tremer suas mãos.
Sem conseguir segurar com firmeza o telescópio, não obtiveram uma imagem nítida, mas mesmo assim vislumbraram algo semelhante a um portão, e entreviram também algo da glória do lugar. E assim preparavam-se já para partir, cantando:
Assim nos revelaram os pastores os segredos Que os homens desconhecem em seu degredo.