O Peregrino

John Bunyan · Capítulo 22 de 24

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O Peregrino

20. Cristão e Esperançoso atravessam o Rio da Morte e entram, finalmente, na Cidade Celestial

ESPERANÇOSO — Acabei de lhe mostrar as razões do retrocesso. Agora peço que me mostre como isso acontece.

CRISTÃO — Com o maior prazer. Primeiro, eles afastam os seus pensamentos, o mais que podem, da lembrança de Deus, da morte e do juízo vindouro. Depois, se desvencilham pouco a pouco dos deveres privados, como a oração individual, o refreio das paixões, a vigília e o arrependimento do pecado, entre outros. Em terceiro lugar, passam a evitar a companhia de cristão ativos e calorosos. Mais tarde, tornam-se esquivos aos deveres públicos, como ouvir, ler e discutir assuntos piedosos, entre outros.

— Em seguida — continuou — passam a procurar defeitos na vida dos piedosos, e, usando como pretexto alguma fraqueza que, diabolicamente, tenham

verificado nos outros, tratam de se ver livres da religião.

— Depois — disse ele — começam a se unir a homens carnais, libertinos, devassos, e passam a ter, em segredo, conversas carnais e devassas. Muito se alegram quando veem o mesmo defeito em gente considerada honesta, para que assim possam seguir seu exemplo mais ousadamente.

— Depois disso — acrescentou ainda —, começam a praticar certos pecados abertamente e, por fim, insensíveis, revelam-se como de fato são. Lançados assim outra vez no abismo da miséria, a menos que um milagre da graça o evite, perecem para sempre em seus próprios enganos.

 

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Cristão e Esperançoso atravessam o Rio da Morte e

entram, finalmente, na Cidade Celestial Vi então em meu sonho que a essa altura os peregrinos deixavam o

Solo Enfeitiçado e entravam na terra da Desposada, 1de ar bem doce e agradável.

Como o caminho atravessasse essa terra, ali puderam se deleitar por certo tempo. Ouviam continuamente o canto dos pássaros, viam todo dia as flores brotando da terra e ouviam a voz da rolinha.

Nessa terra, o sol brilha noite e dia, pois já estavam além do Vale da Sombra da Morte e fora do alcance do gigante Desespero. Desse lugar tampouco se avistava o Castelo da Dúvida. Dali já enxergavam a cidade para onde se dirigiam.

Também encontraram por ali alguns de seus habitantes,2 pois nessa terra, já às portas do céu, os seres resplandecentes costumavam caminhar. Foi aqui também que se renovou a aliança entre a noiva e o noivo, e assim como o noivo se alegra da noiva, também o seu Deus deles se alegra (Is 62:5).

Ali não lhes faltava nem trigo nem vinho, pois encontraram abundância daquilo que vinham buscando em toda a peregrinação. Ouviam vozes lá da cidade, altas vozes que diziam: “Digam à cidade de Sião: Veja! O seu Salvador vem! Veja! Ele traz a sua recompensa” (Is 62:11). Todos os habitantes da terra os chamavam assim: “Povo santo, redimidos do Senhor, procurados” etc. (Is 62:12).

Agora, caminhando por essa terra, tinham mais alegria do que em outras partes mais distantes do reino pelas quais seguiram e, à medida que se aproximavam da cidade, tinham dela uma vista cada vez mais perfeita.

Era toda de pérolas e pedras preciosas. Também as ruas eram revestidas de ouro, de modo que, em virtude da glória natural da cidade e do reflexo dos raios solares sobre ela, Cristão se viu desfalecido de tanto desejo. Esperançoso também teve um ou dois acessos da mesma moléstia. Por isso se viram obrigados a parar por algum tempo, gritando em meio a tanta ansiedade: “Se encontrarem o meu amado [...], digam a ele dizei que estou doente de amor” (Ct 5:8).Mas, já um pouco fortalecidos e mais capazes de tolerar essa ansiedade, voltaram a caminhar. E, caminhando, aproximavam-se cada vez mais de pomares, vinhedos e jardins, os portões abertos à estrada. Acercando-se desses lugares, eis que viram o jardineiro no caminho, e a ele perguntaram:

— De quem são estes belos vinhedos e jardins?

— São do Rei e foram plantados aqui para deleite dele mesmo, e também para consolo dos peregrinos. Então os levou aos vinhedos, oferecendo-lhes as delícias que ali havia. Também lhes mostrou as veredas do Rei, onde ele gostava de ficar. Ali também se recostaram e dormiram.Vi então em meu sonho que conversaram mais durante esse sono do que o haviam feito em toda a jornada.

Tendo notado isso, disse-me o jardineiro:

— Por que você está tão admirado com isso? É da natureza das uvas desses vinhedos descer docemente, fazendo falar os lábios dos que dormem (Ct 7:9).

Depois vi que, ao acordarem, estavam decididos a subir até a cidade. Mas, como já disse, os reflexos do sol sobre ela (pois “a cidade é de ouro puro” Ap 21:18) eram tão exuberantemente gloriosos que não conseguiam mirá-los diretamente, senão com um instrumento fabricado especificamente para tal fim.

Então vi que, caminhando, encontraram dois homens em vestes brilhantes como ouro, cujos rostos também resplandeciam como a luz.

Os homens perguntaram aos peregrinos de onde vinham, e eles responderam.

Perguntaram também onde se haviam hospedado, com que dificuldades e perigos, consolos e prazeres se haviam confrontado pelo caminho, e eles responderam. Então lhes disseram os homens: — Só lhes restam duas dificuldades a superar e depois já estarão na cidade.

Cristão e seu companheiro, então, pediram aos homens que os acompanhassem, e eles consentiram.

— Só que vocês terão de vencer pela sua própria fé.

Então vi em meu sonho que foram caminhando juntos até avistarem o portão.

Vi depois que entre eles e o portão havia um rio, 3 sem ponte que levasse até a outra margem. O rio era muito profundo e, diante dele, os peregrinos se viram absolutamente perplexos. Mas os homens que os acompanhavam disseram:

— Precisam atravessá-lo. É o único meio de chegar até o portão.

Os peregrinos então perguntaram se não havia outro caminho que

conduzisse até o portão. 4

— Há, mas só dois homens, Enoque e Elias, puderam trilhar esse caminho desde a fundação do mundo. E ninguém mais terá tal permissão até o soar da última trombeta.

Os peregrinos, em especial Cristão, desanimaram profundamente, e, olhando de um lado e de outro, não viam alternativa que lhes permitisse contornar o rio.

Perguntaram então aos homens se as águas eram profundas em toda a extensão do rio, e eles responderam que não, mas que não poderiam ajudá-los nesse momento.

— Vocês o acharão mais fundo ou mais raso dependendo da sua fé

no Rei deste lugar.5Então decidiram entrar na água; e, entrando, Cristão começou a afundar, bradando então ao bom amigo Esperançoso:

— Afundo em águas profundas, as vagas me encobrem a cabeça,

todas as suas ondas passam por cima de mim, Selá. 6

Falou então o outro:

— Tenha bom ânimo, meu irmão. Sinto o fundo, e é bom.

— Ah, meu amigo, as angústias da morte me envolveram — disse Cristão. —

Não verei a terra que mana leite e mel.

E grande treva e terror desceram sobre Cristão, tanto que mais nada via a sua frente. Perdeu também praticamente os sentidos, não mais podendo lembrar-se nem falar sensatamente de nenhum dos doces refrigérios que encontrara ao longo da peregrinação, pois todas as palavras que falava revelavam o horror e os profundos temores de que morreria naquele rio, sem jamais alcançar a entrada do portão.

Como perceberam os que observavam a cena, ele também se debatia em meio às perturbadoras lembranças dos pecados que cometera, antes e depois de se tornar peregrino. Observou-se ainda que o assombravam aparições de duendes e espíritos malignos, pois vez por outra o sugeria em palavras.

Esperançoso, portanto, muito se esforçava por manter a cabeça do irmão acima da água. Mas às vezes ele afundava, para depois erguer-se novamente quase morto. Esperançoso também tentava consolá-lo. Dizia:

— Irmão, já vejo o portão adiante, e há homens ali de pé para nos receber.

Mas Cristão respondia:

— É você, é você que eles estão esperando. Pois tem sido Esperançoso desde que o conheci.

— E você também — respondeu.

— Ah, irmão! Se eu tivesse me portado com retidão, certamente ele agora surgiria para me ajudar, mas ele me enredou no laço pelos meus pecados e me abandonou.

— Meu irmão, você se esqueceu do livro, onde se diz dos ímpios: “Eles não passam por sofrimento e têm o corpo saudável e forte. Estão livres dos fardos de todos; não são atingidos por doenças como os outros homens” (Sl 73:4-5). Esses tormentos e aflições que você sofre nessas águas não são sinais de que Deus o abandonou, mas pretendem colocá-lo à prova, para ver se você se lembrará ou não daquilo que até aqui recebeu da sua bondade, confiando nele em meio a toda essa angústia.

Vi então em meu sonho que Cristão ficou absorto por alguns momentos; e Esperançoso disse ainda, incentivando-o:

— Tenha bom ânimo. Jesus Cristo curou você.

Diante dessas palavras, Cristão explodiu aos brados: — Ó, novamente o vejo!

E ele me diz: “Quando você atravessar as águas, eu estarei com você; quando você atravessar os rios, eles não o encobrirão” (Is 43:2). Então os dois criaram coragem, e o inimigo, depois disso, se fez mudo como pedra, até alcançarem a

outra margem. Cristão imediatamente encontrou apoio para os pés no leito do rio, e o resto da travessia se deu em águas rasas. Já na outra margem do rio, viram novamente os dois seres resplandecentes, que ali os aguardavam. Saindo da água, foram saudados por eles:

— Somos espíritos ministradores, enviados para servir aqueles que

hão de ser herdeiros da salvação.7

Assim se encaminharam rumo ao portão. Ora, o leitor deve notar que a cidade ficava sobre um monte imponente, mas os peregrinos o galgaram com facilidade, pois os dois homens os levavam pelo braço. Também haviam deixado lá atrás no rio as suas vestes mortais, pois embora tenham entrado nas águas com elas, ao sair já não as traziam no corpo.

Subiram, pois, com muita agilidade e rapidez, embora a fundação em que se assentava a cidade fosse mais alta que as nuvens. Atravessavam as alturas do ar, mansamente conversando pelo caminho, consolados por terem passado o rio em segurança e pela companhia e o auxílio de seres tão gloriosos.

Com os seres resplandecentes conversaram sobre a glória do lugar, e eles lhes disseram que a beleza e a glória eram simplesmente indizíveis.

— Ali — disseram — estão o monte Sião, a Jerusalém celeste, o inumerável exército dos anjos e os espíritos aperfeiçoados dos homens justos. Agora vocês irão para o paraíso de Deus, onde verão a árvore da vida e comerão de seus frutos eternos. Quando lá chegarem, receberão mantos brancos e viverão todos os dias ao

lado do Rei, por toda a eternidade. 8

— Jamais verão as coisas que viram quando estavam nas regiões inferiores da terra — acrescentaram eles —, como a tristeza, a doença, a aflição e a morte,

“pois a antiga ordem já passou” (Ap 21:4). Vocês estão indo para o convívio de Abraão, Isaque e Jacó, dos profetas, dos homens que Deus libertou do mal que virá e que hoje repousam nos seus leitos, cada qual andando na sua justiça.

Perguntaram então os peregrinos:

— O que devemos fazer no lugar santo?

— Lá receberão consolo por todos os seus esforços e terão alegria que compensará todos os seus pesares; colherão o que plantaram, o fruto de todas as suas orações, lágrimas e sofrimentos pelo Rei ao longo do caminho. Nesse lugar usarão coroas de ouro e desfrutarão da eterna visão do Santo, porque ali o verão como ele é (1Jo 3:2).

— Ali também servirão continuamente — explicaram-lhes — com louvores, com brados e ações de graça, aquele que desejaram servir no mundo, embora então com muito mais dificuldade por conta da debilidade da carne. Os seus olhos se deleitarão com a visão, e os ouvidos com a audição da suave voz do Poderoso. Conviverão novamente com os seus amigos que chegaram antes de vocês e receberão com alegria cada um que chegar depois de vocês ao lugar

santo. Ali também se revestirão de glória e majestade, e terão vestes adequadas para andar ao lado do Rei da Glória.

— Quando ele descer das nuvens ao som da trombeta, sobre as asas do vento

— concluíram — vocês poderão recebê-lo, e quando ele se assentar no trono do juízo, estarão ao lado dele. Sim, e quando ele decretar a sentença dos obreiros da iniquidade, sejam anjos sejam homens, vocês também terão voz no julgamento, pois esses eram não só inimigos dele, mas também de vocês. Ainda, quando ele voltar à cidade, também vocês voltarão com ele, ao som da trombeta, e lá para sempre permanecerão.

Aproximando-se já do portão, eis que um destacamento do exército celeste sai para recebê-los. Disseram então os dois seres resplandecentes que acompanhavam os peregrinos:

— Eis aqui homens que amaram nosso Senhor quando viviam no mundo e que tudo abandonaram pelo seu santo nome. Ele nos enviou para buscá-los e nós os trouxemos até aqui nessa jornada, para que possam entrar e mirar a face do seu Redentor com alegria. Então o exército celeste soltou um forte brado, dizendo:

— Felizes os convidados para o banquete do casamento do Cordeiro (Ap 19:9).

Também vieram recebê-los vários dos trombeteiros do Rei, trajando vestes brancas e resplandecentes. Esses, com sons fortes e melodiosos, faziam até mesmo os céus ecoarem a música. Os trombeteiros saudaram Cristão e seu companheiro com dez mil boas-vindas, com brados e o soar de trombetas.

Depois cercaram os peregrinos de todos os lados, alguns pela frente, outros por trás, alguns à direita, outros à esquerda, como para escoltá-los até as regiões superiores e, no trajeto, continuamente soavam as trombetas, tocando notas agudas e melodiosas.

A cena, para quem a pudesse observar, era como se o próprio céu descesse para recebê-los. Assim caminhavam juntos e, no percurso, vez por outra, os trombeteiros demonstravam com alegres notas, combinando o som com olhares e gestos, o quanto Cristão e seu irmão eram bem-vindos, tamanho era o júbilo com que os acolhiam.

E agora os dois homens, por assim dizer, se viam no céu antes de lá entrar, extasiados que estavam pela visão dos anjos e pela audição de notas tão melodiosas. Dali também já avistavam a própria cidade e julgaram ouvir todos os sinos repicando como sinal de boas-vindas.

Mas, acima de tudo, estava a expectativa alegre e doce que tinham de lá viver ao lado de tão bela companhia, e isso pelos séculos dos séculos. Ah! Com que língua ou pena se pode expressar júbilo tão glorioso? E assim chegaram ao portão.

Ora, diante do portão, lia-se escrito no alto, em letras douradas: “Bem-aventurados os que lavam as suas vestimentas [no sangue do Cordeiro], para que lhes assista o direito à árvore da vida e entrem na cidade pelas portas” (Ap 22:14, RA).Então vi em meu sonho que os homens resplandecentes lhes diziam que chamassem diante do portão, o que eles fizeram. Alguns lá de cima olharam por sobre o portão, Enoque, Moisés e Elias, entre outros, e ouviram:

— Esses peregrinos vêm da Cidade da Destruição, pelo amor que têm ao Rei deste lugar. Cada um dos peregrinos entregou o seu diploma, aquele que haviam recebido no início, e os documentos foram levados até o Rei, que, depois de lê-los, falou:

— Onde estão os homens?

— Estão diante do portão — foi a resposta.

O Rei imediatamente mandou abrir a porta.

— Que entre a nação justa, que guarda a fidelidade (Is 26:2).

Então vi em meu sonho os dois homens passando pelo portão, e eis que, entrando, se transfiguraram e receberam vestes que resplandeciam como ouro.

Também alguns os receberam com harpas e coroas, que lhes foram dadas: a harpa para o louvor e as coroas como sinal de honra. Nesse momento, ouvi em meu sonho que todos os sinos da cidade repicavam de júbilo, e aos peregrinos se disse: “Participe da alegria do seu Senhor” (Mt 25:21). Ouvi também que os próprios peregrinos cantavam a plenos pulmões:

— Àquele que está assentado no trono e ao Cordeiro, sejam o louvor, a honra, a glória e o poder para todo o sempre! (Ap 5:13).

Enquanto os portões estavam abertos para a entrada dos dois, acompanhei-os com o olhar, e eis que a cidade brilhava como o sol. As ruas também eram revestidas de ouro, e nelas caminhavam muitos homens com coroas na cabeça, ramos nas mãos e harpas douradas para cantar louvores.

Havia também seres alados, que respondiam uns aos outros sem interrupção, dizendo: “Santo, Santo, Santo é o Senhor”. Mas logo se fecharam os portões. E

depois de ver tudo aquilo, desejei estar entre eles.

Ora, enquanto eu admirava todas essas coisas, virei-me para olhar para trás e vi Ignorância chegando à beira do rio. Logo cruzou as águas, sem nem metade da dificuldade com que se debateram os outros dois, pois eis que ele encontrou ali um tal Vã Esperança, barqueiro, que com seu barco o ajudou a atravessar o rio.

Assim também ele, como os outros dois que vi, subiu o monte e se encaminhou ao portão, mas sozinho. Nem um homem sequer o recebeu, nem ouviu palavras de estímulo. Chegando diante do portão, ergueu os olhos e via a inscrição no alto e começou a bater, supondo que logo lhe seria facultada a entrada. Mas os homens que olhavam por cima do portão lhe perguntaram:

— De onde você vem e o que quer?

— Comi e bebi na presença do Rei, e ele ensinou pelas nossas ruas.

Pediram-lhe o diploma, para que pudessem levá-lo ao Rei. Tateou as vestes à procura do documento, mas nada encontrou.

— Não tem nada? — perguntaram-lhe.

Mas o homem nada dizia. Então chamaram o Rei, que não quis descer para vê-lo, mas chamou os dois seres resplandecentes que conduziram Cristão e Esperançoso e ordenou-lhes que fossem lá fora atar os pés e as mãos de Ignorância para lançá-lo fora.

Então eles o agarraram e o levaram pelos ares até a porta que vi na encosta do morro, atirando-o lá dentro. E vi assim que, também dos portões do céu, não só da Cidade da Destruição, havia um caminho até o inferno. Despertando, porém, vi que tudo não passara de um sonho.