O Quarto de Jacob

Virginia Woolf · Capítulo 9 de 14

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O Quarto de Jacob

Capítulo Nove

C A P Í T U L O N O V E

 

A condessa de Rocksbier estava sentada na cabeceira da mesa, sozinha com Jacob.

Alimentada com champanhe e especiarias, há pelo menos dois séculos (se contarmos

sua linhagem feminina), a condessa Lucy parecia bem nutrida. Tinha um nariz

discriminador de odores, prolongado como se procurasse por eles; seu lábio inferior

avançava numa estreita saliência rubra; os olhos eram pequenos, com tufos arenosos

em lugar das sobrancelhas, e os maxilares eram pesados. Atrás dela (a janela abria para

Grosvenor Square) estava Moll Pratt na calçada, oferecendo violetas, e a sra. Hilda

Thomas, erguendo as saias, preparava-se para atravessar a rua. Uma era de Walworth;

outra, de Putney. Ambas usavam meias pretas, mas a sra. Thomas estava envolta em

peles. A comparação favorecia consideravelmente Lady Rocksbier. Moll tinha mais

humor, mas era violenta, e burra também. Hilda Thomas era hipócrita, todas as suas

molduras prateadas estavam fora de prumo, expunha taças para ovos quentes na sala

de visitas, e janelas sempre fechadas por cortinas. Apesar das deficiências do seu perfil,

Lady Rocksbier fora excelente amazona nas caçadas. Usava a faca com autoridade,

partia os ossos do frango com as mãos, pedindo desculpas a Jacob.

— Quem está passando? — perguntou a Boxall, o mordomo.

— A carruagem de Lady Fittlemere, senhora — coisa que a lembrou de mandar um

cartão indagando da saúde do lorde. Velha bem rude essa, pensou Jacob. O vinho era

excelente. Ela chamava a si própria de "velha" — "Tão amável vir almoçar com uma

velha" — o que deixou Jacob lisonjeado. Ela falava de Joseph Chamberlain, a quem

conhecera. Disse que Jacob não podia deixar de vir e encontrar... uma das nossas

celebridades. E Lady Alice entrou com três cães numa trela, e Jackie, que correu para

beijar sua avó, enquanto Boxall trazia um telegrama, e deram um bom charuto a

Jacob.

Alguns momentos antes de saltar, o cavalo reduz o passo, move- se de lado, concentra-

se, ergue-se como uma onda enorme, e cai do outro lado. Sebes e céus giram num

semicírculo. Então, como se o nosso próprio corpo disparasse dentro do corpo do

cavalo, e fossem nossas patas dianteiras embutidas nas dele que saltam, varando o ar,

lá vamos nós, o solo elástico, os corpos uma massa de músculos, e ainda assim temos de

comandar, com calma erecta, os olhos avaliando, acurados. Depois as curvas cessam,

mudam para marteladas vibrantes; e sobe-se, num solavanco; senta-se um pouco para

trás, cintilando, zunindo, esmaltado de gelo por cima das artérias pulsantes, ofegando:

"Ah! Ho! Hah!", o vapor desprendendo- se dos cavalos quando estes se chocam nas

encruzilhadas onde fica o marco do caminho, e uma mulher de avental olha, postada

na entrada da porta. Um homem ergue-se dentre os repolhos, para olhar também.

Assim galopava Jacob pelos campos de Essex, atolava na lama, perdia a caça, andava

sozinho a comer sanduíches, espiava por cima das sebes, notava as cores que pareciam recentemente brunidas, e amaldiçoava a sua sorte.

Ele tomou chá na estalagem; ali estavam todos, batendo palmas, pateando, dizendo

"você primeiro", lacônicos, rudes, jocosos, vermelhos como barbelas de peru, usando

uma linguagem livre até que a sra. Horsefield e sua amiga srta. Dudding apareceram

na porta com as saias arrepanhadas, o cabelo caindo. Então Tom Dudding bateu na

janela com seu chicote. Um automóvel roncou no pátio. Cavalheiros saíram,

procurando fósforos nos bolsos, e Jacob dirigiu-se ao bar com Brandy Jones para fumar

na companhia dos camponeses. Lá estava o velho Jevons, que perdera um olho, roupas

cor de lama, sacola nos ombros, cérebro enterrado muitos pés abaixo da terra entre

raízes de violeta e raízes de urtiga; Mary Sanders com sua caixa de madeira; e Tom

pediu cerveja, o filho retardado do coveiro — tudo isso a trinta milhas de Londres.

A sra. Papworth, de Endell Street, Covent Garden, trabalhava para o sr. Bonamy em

New Square, Lincoln's Inn; quando lavava as louças do jantar numa bacia, ouviu os

jovens cavalheiros talando no quarto ao lado. O sr. Sanders estava lá outra vez — ela se

referia a Flanders. Quando uma senhora de idade entende um nome trocado, que

chance há de que relate com fidelidade uma briga? Enquanto mantinha os pratos

debaixo da torneira, colocando-os depois na pilha debaixo do gás sibilante, ela escutou:

Sanders falava em tom alto e bastante arrogante: "Bom", ele disse, e "absoluto", e

"justiça", e "castigo", e "desejo da maioria". Depois foi o patrão dela que começou a

falar; e ela mentalmente lhe dava força na busca de um argumento contra Sanders.

Sanders, porém, era um rapaz distinto (nisso, todos os restos de comida começaram a

girar na pia, perseguidos por suas mãos roxas, quase sem unhas): "Mulheres" — pensou

e imaginou o que Sanders e seu patrão fariam nesse terreno, uma pálpebra baixando

imperceptivelmente enquanto ela fantasiava, pois era mãe de nove: três natimortos,

um surdo-mudo de nascença. Colocando os pratos na prateleira, ouviu Sanders mais

uma vez. ("Ele não dá uma chance a Bonamy", pensou.) "Ter um objetivo", disse

Bonamy e "fundamentos comuns", e mais alguma coisa — tudo palavras muito

compridas, notou ela. E o estudo dos livros que faz isso, pensou, e enquanto enfiava os

braços no casaco, escutou qualquer coisa — podia ser a mesinha perto da lareira —

caindo; e depois batidas, batidas, batidas — como se estivessem brigando — ao redor do

quarto, fazendo dançar os pratos.

— O que vai querer para o café da manhã, senhor? — disse ela, abrindo a porta; e lá

estavam Sanders e Bonamy como dois touros, empurrando-se e fazendo enorme

confusão, e todas aquelas cadeiras no caminho. Não perceberam a mulher. Ela sentiu-

se maternal. — E para o café, amanhã de manhã, senhor? — disse quando se

aproximaram. E Bonamy, cabelo desalinhado, gravata frouxa, parou e empurrou

Sanders para a poltrona, dizendo que o sr. Sanders quebrara o pote de café, e que ia

ensinar ao sr. Sanders...

De fato, o pote de café estava quebrado no chão.

"Qualquer dia desta semana menos terça", escreveu a srta. Perry, e de modo algum era

o primeiro convite. Estariam todas as semanas da srta. Perry livres com exceção de

terça, e era seu único desejo ver o filho da velha amiga? O tempo brota em longas fitas

brancas para senhoritas idosas e ricas. Elas as vão trançando, trançando e trançando,

assistidas por cinco criadas e um mordomo, um belo papagaio mexicano, refeições

regulares, a assinatura de livros da livraria Mudie, e amigos chegando. Já se sentia um

pouco magoada porque Jacob ainda não a visitara.

— Sua mãe é uma das minhas amigas mais antigas — disse.

Sentada junto à lareira, segurando o Spectator entre o rosto e o calor do fogo, a srta.

Rosseter recusou de início uma proteção para as chamas, mas depois aceitou-a. Então

discutiram o tempo, após o que, em deferência a Parkes, que abria mesinhas, adiaram

os assuntos mais sérios. A srta. Rosseter chamou a atenção de Jacob para a beleza de

um armário.

— Ela é tão maravilhosamente esperta para descobrir coisas — disse esta. A srta. Perry

encontrara-o em Yorkshire. Depois teceram comentários sobre o norte da Inglaterra. E

quando Jacob falou, ambas escutaram. A srta. Perry procurava algo adequado para

dizer, quando a porta se abriu e o sr. Benson foi anunciado. Agora, havia quatro

pessoas sentadas no aposento. A srta. Perry, com 66 anos; a srta. Rosseter, 42; o sr.

Benson, 38; e Jacob, 25.

— O meu velho amigo parece bem como sempre — disse o sr. Benson, dando um

tapinha na gaiola do papagaio; ao mesmo tempo, a srta. Rosseter elogiou o chá; Jacob

passou os pratos errados; e a srta. Perry mostrou desejo de maior aproximação.

— Seus irmãos... — começou vagamente.

— Archer e John — ajudou Jacob. Então, para sua alegria, ela recordou-se do nome de

Rebeca, e de como um dia "quando vocês todos eram pequenos e estavam brincando na

sala...".

— Mas a srta. Perry está com o pegador da chaleira — disse a srta. Rosseter, e realmente

a srta. Perry o apertava ao peito. (Será que fora mesmo apaixonada pelo pai de Jacob?)

"Tão inteligente" — "Não tão bom como costuma ser" — "Achei aquilo muito desleal"

— diziam o sr. Benson e a srta. Rosseter, discutindo o Westminster de sábado. Não

competiam regularmente pelos prêmios? O sr. Benson não ganhara três vezes um

guinéu, e a srta. Rosseter certa vez dez e seis pence? Naturalmente, Everard Benson

unha coração fraco, mas, ainda assim, ganhar prêmios, dar atenção a papagaios,

bajular a srta. Perry, desprezar a srta. Rosseter, oferecer chá em seus aposentos (que

eram todos em estilo de Whistler, com belos livros sobre as mesas), tudo isso, pressentia

Jacob sem conhecê-lo, fazia dele um tolo desprezível. Quanto à srta. Rosseter, tratara

de um câncer; agora pintava aquarelas.

— Fugindo tão cedo? — disse a srta. Perry vagamente. — Estou em casa todas as tardes

se você não tiver o que fazer... exceto nas terças.

— Nunca vi o senhor abandonar suas velhas amigas — dizia a srta. Rosseter, e o sr.

Benson debruçava-se sobre a gaiola do papagaio, e a srta. Perry se movia na direção da

sineta...

O fogo ardia claro entre dois pilares de mármore esverdeado; sobre a lareira havia um

relógio verde, enfeitado com a Grã-Bretanha apoiada em sua espada. Quanto aos

quadros — uma donzela com chapéu de abas largas oferecia rosas a um cavalheiro em

roupas do século XVIII, por cima do portão de um jardim. Um mastim estendia-se

contra uma porta meio arruinada. As vidraças inferiores das janelas eram de vidro

opaco, e as cortinas, cuidadosamente pregueadas, de pelúcia também verde.

Laurette e Jacob sentavam-se lado a lado, pés voltados para o guarda-fogo, em duas

grandes cadeiras forradas de pelúcia mais uma vez verde. As saias de Laurette eram

curtas, as pernas longas, finas e com meias transparentes. Acariciava os tornozelos com

os dedos.

— Não é exatamente porque eu não entenda — dizia, pensativa. — Preciso tentar de

novo.

— A que horas você estará lá? — perguntou Jacob.

Ela sacudiu os ombros.

— Amanhã?

— Não, amanhã não.

— Esse tempo me dá saudades do campo — disse ela, olhando sobre o ombro a paisagem

de casas altas além da janela.

— Eu gostaria que você tivesse estado comigo no domingo — disse Jacob.

— Eu costumava montar — disse ela. Ergueu-se, graciosa e serena. Jacob levantou-se.

Ela lhe sorriu. Quando Laurette fechou a porta, ele colocou uma porção de xelins sobre

a lareira.

De modo geral, fora uma conversação bastante sensata; um quarto bastante

respeitável; uma jovem inteligente. Contudo, a madame que reconduziu Jacob até a

saída ostentava aquele ar furtivo, aquela lascívia, aquele tremor da superfície (visível,

sobretudo, nos olhos) que ameaça espalhar pelo chão toda a bolsa de sujeira contida a

tanto custo. Em suma, alguma coisa estava errada.

Não fazia muito tempo que os operários tinham dourado o y final do nome de lorde

Macaulay, e os outros nomes estendiam-se numa fila ininterrupta na abóbada do

Museu Britânico. À uma considerável profundidade abaixo, muitas centenas de vivos

ocupavam seus lugares, entre os raios de uma roda, transcrevendo a mão textos

impressos; vez por outra erguendo-se para consultar o catálogo; voltando furtivamente

a seus lugares, enquanto, de tempos em tempos, um homem calado reabastecia de

livros seus compartimentos.

Deu-se uma pequena catástrofe. A pilha da srta. Marchmont desequilibrou-se e

desabou dentro do compartimento de Jacob. Coisas desse tipo aconteciam com a srta. Marchmont. O que estaria ela buscando através de milhões de páginas, em seu velho

vestido de pelúcia, a peruca vermelha, os camafeus e as frieiras? Às vezes uma coisa, às

vezes outra, para confirmar sua filosofia de que cor é som — ou talvez que a cor tenha

algo a ver com a música. Ela não conseguia afirmar com certeza, mas não que não

tentasse. Não podia convidar ninguém a visitá-la em seu quarto, pois "ele não está

muito limpo, receio", de modo que interpelava a gente de passagem, ou pegava uma

cadeira no Hyde Park e expunha seu sistema filosófico. O ritmo da alma dependia dele

("mas que meninos malcriados!", dizia). E falava da política irlandesa do sr. Asquith, e

de Shakespeare, e a rainha Alexandra "que muito gentilmente certa vez acusou o

recebimento de um exemplar do meu panfleto", falava e fazia um grande gesto para

espantar os tais meninos. Contudo, precisava de fundos para publicar seu livro, pois "os

editores são uns capitalistas, os editores são uns covardes". Assim, enfiando o cotovelo

na sua pilha de livros, derrubou-os para o lado de lá.

Jacob manteve-se praticamente impassível.

Mas Fraser, o ateu, do outro lado, detestando pelúcia, e mais de uma vez importunado

pelos folhetos dela, mudou de posição, irritado. Abominava coisas vagas — a religião

cristã, por exemplo, e os pronunciamentos do velho deão Parker. O deão Parker

escrevia livros, e Fraser os destruía por completo à força de lógica, e deixava seus filhos

sem batismo — a esposa batizava-os secretamente na pia do banheiro — mas Fraser a

ignorava e continuava apoiando os blasfemadores, distribuindo folhetos, coletando

suas provas no Museu Britânico, sempre no mesmo terno de xadrezinho e gravata

flamejante, pálido, sardento, irritadiço. Na verdade, que trabalho — destruir a religião!

Jacob transcrevia toda uma passagem de Marlowe.

A srta. Julia Hedge, a feminista, esperava por seus livros. Eles não vinham. Ela molhou

a pena. Olhou em tomo. Seu olho prendeu-se às letras finais do nome de lorde

Macaulay. E leu todos em tomo da abóbada — os nomes dos grandes homens que nos

recordam...

— Mas que droga — disse Julia Hedge —, por que não deixaram lugar para uma Eliot

ou uma Bronte?

Infeliz Julia! molhando sua pena em amargura e deixando desatados os laços dos

sapatos. Quando seus livros chegaram, entregou- se ao labor gigantesco, mas, com um

dos nervos da sua sensibilidade exasperada, percebeu que os leitores masculinos se

aplicavam aos seus trabalhos com compostura, despreocupação e toda ponderação.

Aquele rapaz, por exemplo. O que tinha ele a fazer senão copiar poemas? E ela tinha

de estudar estatísticas. Há mais mulheres do que homens. Sim; mas se você faz

mulheres trabalharem feito homens, morrerão muito mais depressa. Entrarão em

extinção. Esse era o argumento dela. Morte e bílis e poeira amarga na ponta de sua

pena; e quando a tarde foi passando, suas faces ficaram coradas e havia uma luz em

seus olhos.

No entanto, o que levava Jacob Flanders a ler Marlowe no Museu Britânico?

Juventude, juventude — coisa agreste, coisa pedante. Por exemplo, temos o sr.

Masefield e temos o sr. Bennet. Coloquemos seus livros na chama de um Marlowe e

reduzamo-los a cinzas. Não deixemos sobrar um fiapo. Não lidemos com toda essa

mediocridade. Detestemos nossa própria época. Construamos outra melhor. E para

chegarmos a isso, leiamos ensaios incrivelmente enfadonhos sobre Marlowe para nossos

amigos. Para tanto, é preciso conferir textos no Museu Britânico. Trata-se de um

trabalho a fazer pessoalmente. Não podemos confiar nos vitorianos, que põem as

entranhas dos outros à mostra, nem nos vivos, que são meros jornalistas. A carne e o

sangue do futuro dependem inteiramente de seis rapazes. E como Jacob é um deles,

não admira que pareça um pouco pomposo e solene virando páginas, nem que Julia

Hedge o ache bastante antipático.

Nesse momento um homem com cara de lua empurrou um bilhete para Jacob, e este,

recostando-se para trás em sua cadeira, começou uma conversação agitada e

murmurada, e saíram juntos (Julia Hedge os observava), rindo alto (pensou ela) assim

que chegaram ao vestíbulo.

Ninguém ria na sala de leitura. Havia movimentos, sussurros, espirros com pedidos de

desculpas, e súbitas tosses despudoradas e devastadoras. A hora de estudo estava quase

no fim. Monitores recolhiam os exercícios. Os preguiçosos alunos queriam esticar o

corpo. Os bons escreviam aplicadamente — Ah, outro dia passado, e tão pouca coisa

realizada! E aqui e ali ouvia-se, de toda uma coleção de criaturas humanas, um suspiro

profundo, após o qual um velhote humilhante tossia sem pudor e a srta. Marchmont

relinchava como um cavalo.

Jacob só voltou na hora de devolver seus livros.

Agora os livros estavam recolocados. Algumas letras do alfabeto salpicadas pela

abóbada. Bem juntos num anel em torno da abóbada, ficavam Platão, Aristóteles,

Sófocles e Shakespeare; as literaturas de Roma, Grécia, China, Índia, Pérsia. Uma

página de poesia comprimia-se apertadamente contra outra, uma letra brilhante

recostava-se macia na outra, massa carregada de sentido, conglomerado de beleza.

— Uma boa xícara de chá me fará muito bem — disse a srta. Marchmont, reclamando

sua sombrinha desbotada.

A srta. Marchmont queria realmente o seu chá, mas jamais conseguia resistir à

tentação de dar uma última olhada nos mármores de Elgin. Contemplou-os de lado,

acenando com a mão e murmurando uma ou duas palavras de saudação, que fizeram

Jacob e o outro homem virarem-se. Ela lhes sorriu amavelmente. Tudo entrava na sua

filosofia — a cor é o som, ou talvez a cor tenha algo a ver com a música. E tendo

prestado sua reverência, saiu saltitando para tomar chá.

Era a hora de fechar. E o público se reunia no saguão para pegar suas sombrinhas e

bengalas.

Quase sempre a maior parte dos estudantes aguarda sua vez com humildade. Parar e

esperar enquanto alguém verifica as fichas brancas é algo tranqüilizador. Certamente

a sombrinha será achada, ainda que através da leitura de Macaulay, Hobbes, Gibbon;

através de oitavos, quartos e fólios, o fato de sua desaparição possível se impôs a você

durante o dia todo, mergulhando cada vez mais, entre páginas de marfim e

encadernações de couro marroquino, para dentro dessa densidade de pensamento,

desse conglomerado de sabedoria.

A bengala de Jacob era como todas as outras; talvez tivessem trocado os escaninhos.

Há no Museu Britânico uma mente enorme. Pense que Platão está ali, face a face com

Aristóteles; e Shakespeare com Marlowe. Essa grande mente é muito mais do que

aquilo que qualquer mente individual tem poder de armazenar. Mesmo assim

(enquanto demoram tanto para encontrar a bengala) não se pode afastar a idéia de vir

para cá com um caderno de notas, sentar numa escrivaninha, ler tudo isso. Um

homem erudito é a coisa mais venerável que existe — um homem como Huxtable, de

Trinity, que escreve todas as suas cartas em grego, dizem, e poderia ter competido

vitoriosamente com um Bentley. E há ciência, pintura, arquitetura — uma vasta

mente coletiva.

Empurraram a bengala sobre o balcão. Jacob parou embaixo do pórtico do Museu

Britânico. Chovia. A Great Russel Street surgia vítrea e brilhante — aqui amarela, ali,

fora da farmácia, vermelha e azul-pálido. Pessoas andam depressa junto às paredes;

carruagens matraqueiam em correria pelas ruas. Bem, um pouco de chuva não

machuca ninguém. Jacob costumava andar muito quando estava no campo; tarde

naquela noite, ficou sentado em sua mesa com o cachimbo e o livro.

A chuva desabava. O Museu Britânico ficava numa colina imensa e sólida, muito

pálido, muito liso na chuva, a menos de um quarto de milha de distância. A vasta

mente, cercada de pedra; nas suas profundezas, cada compartimento estava seguro e

seco. Os vigias da noite, fazendo relampejar suas lanternas nas lombadas de Platão e

Shakespeare, cuidavam para que nem fogo nem rato nem ladrão violassem aqueles

tesouros, no dia 22 de fevereiro — pobres homens, muito respeitáveis, com mulheres e

famílias em Kentish Town, dando o melhor de si durante vinte anos para proteger

Platão e Shakespeare, e depois enterrados em Highgate.

A pedra pousa sólida sobre o Museu Britânico, tal como o osso jaz frio sobre as visões e

os ardores do cérebro. Só que ali trata-se do cérebro de Platão e de Shakespeare; o

cérebro construiu potes e estátuas, grandes touros e diminutas jóias, e atravessou o rio

da morte de um lado para outro sem parar, procurando onde atracar, agasalhando

bem seu corpo para o longo sono; ou deitando uma moeda sobre as pálpebras; ou

virando os pés escrupulosamente para leste. Entrementes, Platão prossegue seu diálogo;

apesar da chuva; apesar dos assobios chamando carros; apesar da mulher nas

estrebarias, atrás de Great Ormond Street, que chegou em casa embriagada e grita a noite toda: "Me deixe entrar! Me deixe entrar!"

Vozes altearam-se na rua, sob o quarto de Jacob.

Mas ele continuou lendo. Pois que, afinal, imperturbável Platão permanece. E Hamlet

pronuncia o seu solilóquio. E os mármores de Elgin jazem a noite toda, a lanterna do

velho Jones evocando por vezes Ulisses, ou uma cabeça de cavalo; ou de dez em quando

um cintilar de ouro, ou o rosto amarelo e escaveirado de uma múmia. Platão e

Shakespeare prosseguem; e Jacob, lendo o Fedro, ouviu pessoas vociferando em torno

do poste com seu lampião, e a mulher batendo na porta e chorando, "Me deixe entrar!"

como se tudo isso tosse apenas carvão saltando do fogo, ou uma mosca que, caindo do

teto, tombasse de costas, fraca demais para se virar.

O Fedro é muito difícil. Assim, quando alguém o lê continuadamente, assumindo um

ritmo, marchando em frente, tornando- se (assim parece) momentaneamente parte

dessa energia que avança imperturbável, que tem empurrado as trevas à sua frente

desde que Platão andou pela Acrópole, torna-se impossível cuidar do fogo.

O diálogo aproxima-se do final. A argumentação de Platão está concluída. A

argumentação de Platão está armazenada na mente de Jacob, e por cinco minutos a

mente de Jacob continua avançando sozinha dentro da escuridão. Depois, erguendo-se,

abriu as cortinas e viu com espantosa nitidez que os Springetts do outro lado tinham

ido para a cama; que estava chovendo; que os judeus e a estrangeira estavam junto da

caixa do correio, no fim da rua, discutindo.

Sempre que a porta se abria e outras pessoas entravam, as que já se encontravam no

aposento moviam-se de leve; as que estavam em pé olhavam sobre os ombros; as

sentadas interrompiam pelo meio suas frases. Com a luz, o vinho, o som de uma

guitarra, era excitante aquela porta se abrindo. Quem entrava?

— E Gibson.

— O pintor?

— Mas prossiga com o que estava dizendo.

Estavam falando algo que era muito, muito íntimo para ser dito abertamente.

Contudo, o vozerio agia como um badalo na mente da pequena sra. Withers,

afugentando pelo ar bandos de passarinhos, que depois pousaram e então ela teve

medo, passou as mãos no cabelo, juntou-as em torno dos joelhos, ergueu nervosa os

olhos para Oliver Skeltin, e disse:

— Prometa, prometa que não vai contar a ninguém. — Ele era tão atencioso, tão terno.

Ela comentava o caráter do marido: dizia que era frio.

Sobre eles desceu a esplêndida Magdalen, castanha, cálida, volumosa, mal tocando a

relva com os pés calçados em sandálias. Seu cabelo cascateava; as sedas esvoaçantes

pareciam mal e mal presas por alfinetes. Uma atriz, naturalmente, com um traço de

luz perpetuamente a sublinhá-la. Disse apenas "meu caro", mas sua voz soou entre as

gargantas dos Alpes. Deixou-se cair no chão e cantou, e uma vez que não havia nada a dizer, emitiu ahs e ohs perfeitamente redondos. Mangin, o poeta, chegando perto,

baixou os olhos sobre ela, cachimbo na boca. A dança começou.

A grisalha sra. Keymer pediu a Dick Graves que lhe dissesse quem era Mangin, e

afirmou que vira demasiadas coisas assim em Paris (Magdalen agora sentava-se nos

joelhos dele; o cachimbo de Mangin em seus lábios) para ainda se escandalizar.

— Quem é aquele? — disse, fixando os óculos em Jacob, que parecia quieto, não

indiferente, mas como alguém postado numa praia a olhar.

— Oh, minha cara, deixe que me apóie em você — ofegou Helen Askew, saltando num

pé só, pois a fita prateada em volta de seu tornozelo se desprendera. A sra. Keymer

virou-se e fitou o quadro na parede.

— Olhe para Jacob — disse Helen (estavam vendando os olhos dele para algum jogo).

E Dick Graves, um pouco embriagado, muito fiel, muito ingênuo, disse-lhe que julgava

Jacob o maior homem que já conhecera. E sentaram-se de pernas cruzadas sobre

almofadões, conversando a respeito de Jacob, e a voz de Helen vibrava, pois ambos lhe

pareciam heróis, e a amizade entre eles tão mais bela do que as amizades entre

mulheres. Anthony Pollet pediu-lhe que dançasse com ele, e enquanto dançava, ela os

contemplava, por cima do ombro, parados junto à mesa, brindando-se mutuamente.

O esplendor do mundo — o mundo vivo, hígido, vigoroso.

...Essas palavras, entre as duas e três da madrugada, no mês de janeiro, só podem

referir-se ao longo trecho do pavimento de madeira que vai de Hammersmith a

Holborn. Era esse o chão sob os pés de Jacob. Era saudável e magnífico, pois um

aposento, por cima de uma estrebaria, em algum lugar perto do rio, continha

cinqüenta pessoas excitadas e tagarelas. E então andar pelo calçamento (quase não se

via carro ou policial) é divertido. O longo trecho de Piccadilly, bordado de diamantes,

vê-se melhor quando vazio. Um rapaz não tem o que recear. Ao contrário, embora

talvez não tenha dito nada de brilhante, sente-se bastante certo de saber como se

portar. Estava satisfeito por ter encontrado Mangin; admirava a jovem mulher no

chão; gostava de todos eles; gostava dessa espécie de coisa. Em resumo, todos os

tambores e trombetas estavam soando. Os varredores de rua eram apenas pessoas

eventualmente por ali. Não era preciso dizer como Jacob se sentia bem disposto em

relação a eles; como lhe agradava entrar por sua própria porta com a chave; como

parecia trazer consigo, para dentro do quarto vazio, dez ou 12 pessoas que não

conhecia quando saíra dali; procurou algo para ler e encontrou e não leu e pegou no

sono.

E verdade, tambores e trombetas não é apenas uma frase. E verdade, Piccadilly e

Holborn, e a sala de estar vazia e a sala de estar com cinqüenta pessoas conseguem

lançar música no ar a qualquer momento. Talvez mulheres sejam mais excitáveis do

que homens. Raramente se diz qualquer coisa a esse respeito, e vendo as multidões

cruzarem a ponte de Waterloo a fim de apanharem o direto até Subirton, pode-se pensar que é a razão que as impele. Não, não. São os tambores e as trombetas. Mas se

você dobrar para o lado, entrando num desses pequenos vãos sobre a ponte de

Waterloo, para refletir no caso, provavelmente tudo lhe parecerá confuso — tudo um

mistério.

Elas cruzam a ponte sem cessar. Por vezes, 110 meio de carruagens e ônibus, aparecerá

um caminhão com grandes árvores acorrentadas nele. Depois, talvez, o furgão de um

pedreiro com lápides tumulares com inscrições recentes, registrando o quanto alguém

amou alguém que está enterrado em Putney. Então, o automóvel da frente avança

sacolejando, as lápides seguem depressa demais para que você possa ler o resto. Todo o

tempo a torrente de pessoas jamais deixa de passar, do lado de Surrey para Strand; de

Strand para o lado de Surrey. Parece que os padres invadiram a cidade e agora

retornam para seus alojamentos, como besouros pressurosos à procura de suas tocas, tal

aquela velha manca na direção de Waterloo, segurando uma bolsa puída como se

tivesse estado fora na luz e agora partisse para o seu abrigo subterrâneo com alguns

ossos de galinha reunidos a custo. Por outro lado, embora o vento seja áspero e sopre

em seus rostos, aquelas moças passeando de mãos dadas, cantando alto, parecem não

sentir frio nem pudor. Não sentem ódio. São triunfantes.

O vento encrespou as ondas. O rio dispara por baixo de nós e os homens parados nas

barcaças têm de apoiar todo o seu peso no leme. Um oleado preto está amarrado sobre

uma protuberante carga de ouro. Avalanches de carvão cintilam em seu negror. Como

de hábito, há pintores amarrados a pranchas diante dos grandes hotéis na margem do

rio, e as janelas dos hotéis abrigam pontinhos de luz. Do outro lado, a cidade é branca

como se fosse uma anciã; St. Paul se arredonda alva por cima dos edifícios retos,

pontudos e oblongos a seu lado. Só a cruz brilha num tom rosa e ouro. Mas em que

século estamos? Essa procissão do lado de Surrey para Strand não se interrompeu

nunca? Aquele velho não parou de atravessar a ponte nesses seiscentos anos, com o

bando de meninos nos calcanhares, porque é bêbado, ou cego pela miséria, e amarrou

velhos trapos ao corpo como talvez tenham feito os peregrinos? Ele se arrasta para

diante. Ninguém pára. E como se marchássemos ao som de música; talvez o vento e o

rio; talvez esses mesmos tambores e trombetas — êxtase e tumulto da alma. Ora, até os

infelizes riem, e o policial, longe de censurar o bêbado, vigia-o bem-humorado, os

meninos afastam-se correndo, e o amanuense de Somerset House mostra-se tolerante

para com ele, e o homem que lê meia página do Lothair na barraca de livros medita

piedosamente, olhos longe do texto, e a mocinha hesita em atravessar, e volta para ele

o luminoso olhar vago dos jovens.

Luminoso, mas vago. Talvez ela tenha 22. Anda mal vestida. Atravessa a rua e

contempla os narcisos silvestres e as tulipas rubras na vitrine da florista. Hesita e parte

na direção de Temple Bar. Caminha depressa, nada a distrai. Num momento parece

ver, noutro parece não perceber coisa alguma.