O Quarto de Jacob
Capítulo Treze
C A P Í T U L O T R E Z E
— O auge da estação — disse Bonamy.
O sol já empolara a tinta nos espaldares das cadeiras verdes de Hyde Park, soltara as
cascas dos plátanos, transformara a terra em poeira e macios seixos amarelos. E o Hyde
Park, incessantemente percorrido pelo giro das rodas.
— O auge da estação — disse Bonamy sarcástico.
Estava sarcástico por causa de Clara Durrant; porque Jacob regressara da Grécia muito
moreno e magro, com bolsos cheios de anotações sobre a Grécia, que tirou para fora
quando o homem das cadeiras veio pedir um pence; porque Jacob estava calado.
"Ele não disse uma palavra demonstrando que está contente por me rever", pensou
Bonamy amargurado.
Os automóveis passavam incessantes sobre a ponte da Serpentina; as classes superiores
andavam erectas, ou debruçavam-se graciosas sobre as amuradas; as classes inferiores
deitavam-se de costas, com joelhos encolhidos; ovelhas pastavam sobre suas pernas
estiradas; criancinhas corriam pelo relvado oblíquo, estendiam os braços e caíam.
— De uma elegância tudo isso... — disse Jacob.
"Elegante" nos lábios dele tinha misteriosamente toda a beleza
de uma personalidade que Bonamy julgava cada dia mais sublime, devastadora,
terrífica do que nunca, embora ainda fosse — talvez para sempre — bárbara e obscura.
Que superlativos! Que adjetivos! Como absolver Bonamy de alimentar um sentimento
da espécie mais vulgar; de ser jogado como cortiça sobre as ondas, sem qualquer visão
firme da personalidade; de não ser amparado pela razão e de não haurir nenhum
consolo das obras dos clássicos?
— O máximo da civilização — disse Jacob.
Gostava de usar palavras latinas.
Magnanimidade, virtude — essas palavras, quando usadas por Jacob, em conversa com
Bonamy, significavam que ele assumia o controle da situação, e que Bonamy brincaria
em volta dele como um cocker spaniel afetuoso e que (muito provavelmente)
acabariam rolando pelo assoalho.
— E a Grécia? — disse Bonamy. — O Partenon, e tudo mais?
— Não se vê nada desse misticismo europeu — disse Jacob.
— É a atmosfera, acho eu — disse Bonamy. — E você foi a Constantinopla?
— Sim — disse Jacob.
Bonamy fez uma pausa, moveu um seixo; depois interveio, com a rapidez e segurança
de uma língua de camaleão.
— Você está apaixonado! — exclamou.
Jacob corou.
A mais afiada das facas jamais cortou tão fundo.
Em vez de responder, ou dar qualquer importância, Jacob olhou diretamente para
cima, com olhar fixo, monolítico — ah, quão belo! — como um almirante britânico,
exclamou Bonamy furioso, erguendo-se e afastando-se, esperando algum som. Nada se
ouviu; era orgulhoso demais para olhar para trás; andou mais e mais depressa, até que
deu consigo mesmo olhando fixo para dentro de automóveis e amaldiçoando as
mulheres. Onde estava o rosto da bela mulher? De Clara — de Fanny — de Florinda?
Quem seria a bela criatura?
Não era Clara Durrant.
O terrier de Aberdeen tinha de fazer exercício, e como naquele instante o sr. Bowley
estava saindo — não havia nada de que gostasse tanto quanto de um passeio — foram
juntos, Clara e o bondoso pequeno Bowley — Bowley, que tinha quartos no Albany,
Bowley que escrevia ao Times cartas repletas de chistes sobre hotéis estrangeiros e a
Aurora Boreal, Bowley, que gostava de gente jovem e andava por Piccadilly com o
braço direito repousando nas costas.
— Seu diabinho! — gritou Clara e prendeu Troy na corrente.
Bowley antecipava — esperava por — uma confidência. Embora devotada ã mãe, às
vezes Clara se ressentia um pouco; bem, sua mãe era tão segura de si, que não podia
compreender que outras pessoas fossem... fossem "tão ridículas como eu", disse Clara
num arranco (e o cão a puxava para diante). E Bowley achou-a parecida com uma
caçadora e ficou imaginando qual seria o seu nome — uma virgem pálida com uma
fita de luar nos cabelos, coisa que o deixou extasiado.
As faces dela estavam rosadas. Ter falado abertamente sobre a mãe... Mas só com o sr.
Bowley, que a amava, como era do dever dele; para ela, falar não era algo natural,
embora fosse terrível sentir, como sentira o dia todo, que era preciso contar tudo a
alguém.
— Espere até atravessarmos a rua — disse ao cão, inclinando-se para ele.
Felizmente nessa hora já recuperara o controle.
— Ela pensa tanto na Inglaterra — disse. — Está tão ansiosa...
Como de costume, Bowley sentiu-se defraudado. Clara jamais
confiava em ninguém.
"Por que é que vocês, jovens, não dão um jeito, hein?", queria perguntar. "Qual é o
problema com a Inglaterra?" — questão à qual a pobre Clara não teria podido
responder, pois, enquanto a sra. Durrant discutia com Sir Edgar a política de Sir
Edward Grey, Clara apenas se admirava que o armário estivesse empoeirado, e que
Jacob não tivesse regressado. Ah, ali estava a sra. Cowley Johnson...
E Clara passaria as belas taças de chá de porcelana, e sorriria ao elogio de que ninguém
em Londres fazia chá tão bem quanto ela.
— Nós compramos chá no Brocklebank — dizia —, em Crusitor Street.
Não deveria sentir-se grata? Não deveria ser feliz? Especialmente quando sua mãe parecia estar tão bem e gostava tanto de falar com Sir Edgar sobre Marrocos,
Venezuela, ou algum desses lugares.
"Jacob! Jacob!", pensava Clara; e o bondoso sr. Bowley, sempre tão delicado com as
senhoras idosas, que olhava, e parava, e pensava se Elizabeth não estaria sendo dura
demais com a filha; que pensava em Bonamy, em Jacob — que tipo de rapaz era ele? —
e que se levantou imediatamente quando Clara disse que tinha de levar Troy para
fazer exercício.
Tinham chegado ao terreno da antiga Exposição. Olharam as tulipas. Rígidas e
encaracoladas, erguiam-se da terra as pequenas hastes de uma maciez de cera, viçosas,
mas discretas, moldadas em escarlate e coral. Cada uma tinha sua sombra; cada uma
crescia comportada no canteiro em forma de diamante, segundo o plano do jardineiro.
— Barnes não consegue fazer com que cresçam assim — cismou Clara e suspirou.
— Você está negligenciando seus amigos — disse Bowley, quando alguém, seguindo em
direção oposta, ergueu o chapéu. Ela sobressaltou-se; percebeu a mesura do sr. Lionel
Parry; desperdiçou com ele o que em si brotara para Jacob.
("Jacob! Jacob!", pensava.)
— Mas você vai ser atropelado se eu soltá-lo — disse ao cachorro.
— Acho que a Inglaterra vai indo bem — disse o sr. Bowley.
O arco do parapeito debaixo da estátua de Aquiles estava repleto de guarda-sóis e
coletes, correntes e pulseiras, damas e cavalheiros passeando ociosos e elegantes,
observando tudo vagamente.
— ...essa estátua foi erguida pelas mulheres da Inglaterra... — leu Clara, soltando um
risinho tolo. — Oh, sr. Bowley! Oh! — Galope, galope, galope, um cavalo passou a
galope, sem cavaleiro. As rédeas voavam, os pedregulhos saltavam.
— Oh, pare-o! Pare-o, sr. Bowley! — gritou ela, pálida, trêmula, agarrando o braço dele,
totalmente fora de si, as lágrimas brotando.
— Tst-tst — disse o sr. Bowley em seu quarto de vestir, uma hora mais tarde. — Tst-tst
— comentário bastante profundo, embora expresso de maneira inarticulada, pois seu
criado lhe entregava as abotoaduras.
Também Julia Eliot vira o cavalo disparar e erguera-se da cadeira para ver o fim do
incidente, que lhe parecia um pouco ridículo, a ela que vinha duma família de
esportistas. Naturalmente o homenzinho corria atrás, com dificuldade, calções
empoeirados; parecia aborrecido; um policial o ajudava a montar quando, com um
sorriso sardónico, Julia Eliot se dirigia a Marble Arch, no seu passeio benemerente. Era
apenas para visitar uma velha senhora enferma, que conhecera sua mãe e talvez o
duque de Wellington; pois Julia partilhava do amor que seu sexo nutre pelos aflitos;
gostava de visitar moribundos; jogava chinelos em casamentos {5}; escutava dúzias de
confidências; conhecia mais pedigrees do que um erudito conhece datas, e era uma das
mais bondosas, mais generosas e a menos moderada das mulheres.
Cinco minutos depois de ultrapassar a estátua de Aquiles, ela ostentava o ar extasiado
de alguém abrindo caminho entre multidões numa tarde de verão, quando as árvores
farfalham, rodas giram amarelas, o tumulto do presente parece uma elegia sobre a
juventude passada e os verões passados, e uma singular tristeza dominava sua mente,
como se tempo e eternidade espreitassem por entre saias e coletes e ela visse pessoas
tragicamente a caminho da destruição. Ainda assim — só Deus sabe —, Julia não era
nenhuma tola. Não havia mulher mais arguta em suas barganhas. Era sempre
pontual. O relógio de pulso lhe dava 12 minutos e meio para chegar a Bruton Street;
Lady Congreve esperava-a às cinco.
O relógio dourado do Verrey estava soando cinco horas.
Florinda olhou-o com expressão embotada, como um animal. Olhou o relógio; olhou a
porta; olhou o longo espelho em frente; arranjou sua capa; chegou mais perto da mesa,
pois estava grávida - não havia dúvida quanto a isso, dissera a mãe Stuart,
aconselhando remédios, consultando suas amigas; Florinda esvaída, no alto dos saltos
dos sapatos, deslizando pela superfície das águas.
Seu copo de conteúdo rosado e doce foi colocado na mesa pelo garçom; ela chupou por
um canudo de palha, olhos no espelho, na porta, apaziguada pelo sabor doce. Quando
Nick Bramham entrou, até o jovem garçom suíço notou que havia um caso entre eles.
Nick ajeitou as roupas canhestramente; passou os dedos no cabelo; sentou-se, nervoso,
para a provação. Ela o fitou e começou a rir; riu — riu — riu. O jovem garçom suíço,
parado junto ao pilar, de pernas cruzadas, riu também.
A porta abriu-se; a zoeira de Regent Street entrou, a zoeira do tráfego impessoal,
impiedoso; e a luz do sol com grãos de sujeira. O garçom suíço teve de atender aos
recém-chegados. Bramham ergueu seu copo.
— Ele parece Jacob — disse Florinda fitando o recém-chegado.
— O jeito de olhar. — Seu riso morreu.
Debruçando-se para diante, Jacob desenhava uma planta do Partenon na poeira de
Hyde Park; pelo menos era uma rede de rabiscos que poderia ser o Partenon ou um
diagrama de matemática. E por que os seixos tão enfaticamente assentados num
canto? Não, não fibra para conferir suas anotações que ele tirara um maço de papéis do
bolso e lera uma longa carta escrita por Sandra dois dias atrás, em Milton Dower
House, com o livro que ele lhe dera na frente, e no pensamento a lembrança de algo
pronunciado ou tentado, em algum momento na escuridão, na estrada da Acrópole,
que (acreditava ela) importaria para sempre.
"Ele é como aquele personagem de Molière", ela cismou.
Ela queria dizer Alceste. Ela queria dizer que Jacob era inflexível. E ao mesmo tempo
ela queria dizer que poderia muito bem desprezá-lo.
"Ou não poderia?", pensou, recolocando os poemas de Donne na estante. "Jacob",
prosseguiu, indo até a janela e olhando, por cima dos canteiros manchados de flores, para a relva onde vacas malhadas pastavam debaixo de faias, "Jacob ficaria chocado".
O carrinho de bebê estava passando pelo portãozinho da grade. Ela enviou um beijo
com a mão; orientado pela ama, Jimmy abanou a sua.
— Ele é um menininho — disse ela, pensando em Jacob.
Mas — e Alceste?
— Mas que chateação! — resmungou Jacob, estendendo primeiro uma perna depois
outra, apalpando os bolsos das calças à procura do tíquete de sua cadeira.
— Espero que as ovelhas o tenham devorado — disse. — Por que é que vocês criam
ovelhas aqui?
— Sinto muito incomodá-lo, senhor — disse o rapaz que recolhia os tíquetes, a mão no
fundo da enorme sacola de moedas.
— Bem, acho que você é pago para fazer isso — disse Jacob. — Aqui. Não, pode ficar
com o troco. Tome um pileque.
Ele se desfizera de meia coroa, condescendente, compassivo, com um considerável
desprezo pelo seu dinheiro e pelo gênero humano.
Nesse mesmo momento, enquanto andava ao longo do Strand, a pobre, incompetente
Fanny Élmer pensava, sem conseguir entendê-la, nessa maneira descuidada,
indiferente, sublime, que Jacob tinha ao falar com funcionários de ferrovia ou
porteiros, ou com a sra. Whitehorn, quando ela o consultava sobre o seu filho que fora
surrado pelo professor.
Amparada nos últimos dois meses unicamente pelos cartões- postais, a idéia que Fanny
tinha de Jacob era mais irreal, mais nobre e mais cega do que nunca. Para reforçar essa
visão, ela se pusera a visitar o Museu Britânico, onde, conservando os olhos baixos até
passar pelo Ulisses carcomido, ela os abria e recebia novo impacto da presença de Jacob,
o suficiente para sustentá-la por meio dia. Mas isso começava a se diluir. E agora ela
escrevia — poemas, cartas nunca enviadas, via o rosto dele em anúncios de cartazes, e
atravessaria a rua para fazer o realejo transformar suas próprias cismas em rapsódias.
No café da manhã (ela dividia o quarto com uma professora), quando a manteiga se
espalhava no prato e nos dentes dos garfos se enrolava gema de ovo envelhecida, ela
revisava intensamente tais conceitos; na verdade, ficava muito aborrecida; estava
perdendo sua bela aparência, conforme dissera Margery Jackson, rebaixando o caso
(enquanto amarrava suas sólidas botinas) a uma questão de superioridade maternal,
vulgaridade e sentimento banal — pois também ela um dia amara e fora uma tola.
— Nossas madrinhas deviam ter nos ensinado — disse Fanny para si mesma, olhando
pela vitrine de Bacon, o vendedor de mapas, no Strand — que não adianta fazer
drama; isso é a vida, deviam ter dito — tal como Fanny se dizia agora, olhando o
grande globo amarelo onde apareciam demarcadas as rotas dos navios.
— É a vida. É a vida — disse Fanny.
"Que rosto duro", pensou a srta. Barret, do outro lado do vidro, comprando mapas do deserto da Síria e esperando impacientemente que a atendessem. Hoje em dia, as
mocinhas parecem velhas muito cedo.
O equador nadava atrás das lágrimas.
— Piccadilly? — perguntou Fanny ao condutor do ônibus e subiu para o andar de
cima. Ao fim e ao cabo, ele iria, ele tinha de voltar para ela.
Contudo, Jacob talvez estivesse pensando em Roma, em arquitetura, em
jurisprudência, sentado debaixo do plátano no Hyde Park.
O ônibus parou na altura de Charing Cross: atrás estavam enfileirados ônibus, furgões,
automóveis, pois uma procissão com estandartes desfilava por Whitehall, e pessoas
idosas desciam rígidas por entre as patas dos leões limosos onde haviam testemunhado
sua fé, cantando fervorosas, erguendo os olhos da música para fitar o céu, e ainda
mantendo os olhos no céu ao marcharem atrás dos letreiros dourados do seu credo.
O tráfego interrompeu-se; o sol, não mais suavizado pela brisa, era quase quente
demais. A procissão passava; os estandartes cintilavam ao longe, descendo Whitehall; o
tráfego foi liberado e seguiu adiante; tramando uma zoeira branda e contínua,
desviou-se em torno da curva de Cockspur Street, passou por escritórios do governo e
estátuas eqüestres, em Whitehall, e chegou às torres espinhentas, à cinzenta frota de
pedras engatadas umas nas outras, e ao grande relógio branco de Westminster.
O Big Ben entoou cinco batidas; Nelson recebeu a salva de hábito. Os fios telefônicos do
Almirantado vibravam com alguma comunicação de longa distância. Uma voz
comentava que primeiros-ministros e vice-reis falavam no Reichstag ou chegavam a
Laore; que o imperador alemão viajara; que em Milão havia tumulto, e rumores em
Viena; que o embaixador em Constantinopla tivera audiência com o sultão; e que a
esquadra se achava em Gibraltar.
A voz continuou imprimindo nos rostos dos empregados de escritório em Whitehall
(Timothy Durrant era um deles) algo da sua própria inexorável gravidade, enquanto
eles ouviam, decifravam, anotavam. Papéis acumulavam-se entulhados com as
façanhas do Kaiser, as estatísticas dos arrozais, as exigências de centenas de operários
tramando sedição em ruelas afastadas ou reunindo-se em bazares de Calcutá ou
revistando tropas nas terras altas da Albânia, onde as colinas são cor de areia e os ossos
jazem desenterrados.
A voz falava nítida no aposento quadrado, com pesadas mesas, onde um homem idoso
tomava notas na margem de folhas datilografadas, o guarda-chuva com ponteira
prateada encostado na estante de livros.
Sua cabeça — calva, de veias vermelhas, aparência oca — representava todas as
cabeças do edifício. Sua cabeça, com os amáveis olhos desbotados, carregava pelas ruas
o ônus do saber; apresentava-o aos colegas, que chegavam igualmente onerados; e
então os 16 cavalheiros, erguendo suas canetas ou virando-se talvez fatigados nas
cadeiras, decretavam que o curso da história deveria delinear- se por este ou aquele caminho, virilmente determinados, conforme demonstravam seus rostos, a impor
alguma coerência aos Rajás e ao Kaiser e à murmuração dos bazares, às reuniões
secretas, bastante visíveis em Whitehall, de camponeses de saiote nas terras altas da
Albânia; e a controlar o curso dos acontecimentos.
Pitt e Chatham, Birke e Gladstone, olhavam de um e outro lado com seus fixos olhos de
mármore e um ar de imortal aquiescência, que talvez os vivos invejassem. E o ar estava
cheio de assobios e concussões, enquanto a procissão descia Whitehall com seus
estandartes. Mais ainda, alguns estavam sofrendo de dispepsia; um deles rachara
naquele instante o vidro de seus óculos; outro falaria em Glasgow amanhã; todos
juntos pareciam por demais vermelhos, gordos, pálidos ou magros, para lidarem com o
curso da história, tal como haviam feito outrora aquelas cabeças de mármore.
Timmy Durrant, em seu quartinho no Almirantado, indo consultar o livro azul*,
parou por um momento na janela e observou o cartaz amarrado ao poste do lampião.
A srta. Thomas, uma das datilógrafas, disse à sua amiga que, se o Gabinete se reunisse
por muito tempo mais, ela se desencontraria de seu filho em frente do Gaiety.
Voltando a seu lugar com o livro azul debaixo do braço, Timmy Durrant notou um
pequeno grupo de pessoas na esquina; conglomeradas, como se uma delas soubesse de
alguma coisa; e as outras, comprimindo-se ao redor, olhavam para cima, olhavam
para baixo, olhavam ao longo da rua. O que era que essa pessoa sabia?
Colocando o livro azul à sua frente, Timothy estudou um papel enviado pelo Tesouro
para informação. O sr. Crawley, seu colega no escritório, empalou uma carta num
espetinho.
Jacob ergueu-se de sua cadeira no Hyde Park, rasgou em pedaços o seu bilhete, e
afastou-se.
"Que pôr-de-sol", escrevia a sra. Flanders, em sua carta para Archer em Cingapura. "A
gente não conseguia decidir-se a entrar", escrevia. "Parecia um pecado desperdiçar um
só momento que fosse."
As longas janelas de Kensington Palace incendiaram-se num rosa chamejante quando
Jacob se afastou; um bando de patos selvagens voou sobre a Serpentina; e as árvores
erguiam-se contra o céu, negrejando magnificentes.
"Jacob", escrevia a sra. Flanders, a luz vermelha sobre a página, "está trabalhando
muito depois de sua deliciosa viagem...".
— O Kaiser recebeu-me em audiência — comentava a voz distante em Whitehall.
— Mas eu conheço esse rosto — disse o reverendo Andrew Floyd, saindo da loja Cárter
em Piccadilly — mas quem, diabo?... — examinou Jacob e virou-se para olhá-lo, mas
não podia ter certeza.
"Ora, Jacob Flanders!", lembrou num lampejo.
Estava tão alto, tão seguro, um rapaz tão distinto.
"Eu lhe dei as obras de Byron", refletiu Andrew Floyd, e avançou quando Jacob atravessou a rua; hesitou, porém; deixou o momento passar e perdeu a ocasião.
Outra procissão, sem estandartes, bloqueava Long Acre. Carruagens com aristocráticas
senhoras idosas usando ametistas, e cavalheiros com cravos, interceptavam cabriolés e
automóveis que seguiam em direção oposta, nos quais se refestelavam ociosos senhores
avelhantados de coletes brancos, a caminho de seus arbustos e salas de bilhar em
Putney e Wimbledon.
Dois realejos tocavam na beira da calçada, e cavalos saindo de Aldridge com marcas
brancas nos traseiros atravessavam a rua e eram habilmente puxados para trás.
A sra. Durrant, sentada num automóvel com o sr. Wortley, estava impaciente,
receando perder a abertura.
Mas o sr. Wortley, sempre educado, sempre a tempo para a abertura, abotoava as luvas
e admirava a srta. Clara.
— Um absurdo, passar uma noite dessas num teatro! — disse a srta. Durrant, vendo
abrasarem-se todas as janelas dos fabricantes de carruagens em Long Acre.
— Pense nos seus pântanos! — disse o sr. Wortley a Clara.
— Ah! Mas Clara gosta mais disso aqui — riu a sra. Durrant.
— Não sei... realmente — disse Clara, olhando as janelas em brasa. E sobressaltou-se.
Avistara Jacob.
— Quem? — disse a sra. Durrant em tom penetrante, debruçando-se para diante.
Mas não viu ninguém.
Debaixo do arco da Ópera, os rostos grandes e outros finos, os empoados e os peludos,
todos estavam ruborizados pelo pôr-do-sol; e excitadas pelos grandes lustres pendentes
com suas contidas luzes amarelo-pálido, pelo ruído, pelo escarlate e pela pompa,
algumas damas se voltaram em imaginação, por um momento, para dentro de
enfumaçados quartos de dormir nauseabundos, próximos ao teatro, onde mulheres de
cabelos desgrenhados, ou meninas, ou crianças se debruçavam nas janelas — longos
espelhos, na passagem, faziam parar as damas —, e era preciso prosseguir, não
bloquear a passagem...
Eram belos os pântanos de Clara. Os fenícios dormiam debaixo de suas rochas
cinzentas empilhadas; as chaminés das velhas minas apontavam severas no ar;
mariposas prematuras punham manchas nas urzes; podiam-se ouvir rodas de carroças
chiando na estrada bem abaixo; e o chapinhar e suspirar das ondas soava doce,
persistente, eterno.
Protegendo os olhos com a mão, a sra. Pascoe detinha-se no seu jardim de repolhos,
olhando o mar. Dois navios e um barco a vela cruzaram um pelo outro, passaram um
pelo outro, e na baía as gaivotas pousavam sobre um toro de madeira, erguendo-se
alto, voltando ao toro, enquanto algumas cavalgavam as ondas e paravam na beira da
água, até que a lua embranqueceu tudo.
Há muito tempo a sra. Pascoe entrara em casa.
Mas o clarão vermelho pairava sobre as colunas do Partenon, e as mulheres gregas, que
tricotavam suas meias e às vezes gritavam por uma criança para que viesse e deixasse
tirar os insetos de sua cabeça, estavam alegres como andorinhas no calor, discutindo,
ralhando, amamentando seus bebês, até que os navios no Pireu se puseram a disparar
seus canhões.
O som achatou-se, e depois veio escavando o túnel do seu caminho com explosões
espasmódicas entre as ilhas.
E a escuridão tombou como um punhal sobre a Grécia.
— Os canhões? — disse Betty Flanders meio adormecida, saindo da cama e dirigindo-
se à janela decorada com uma franja de folhas escuras.
"Não a essa distância", pensou. "E o mar."
Mais uma vez, bem longe, escutou o som abafado, como de mulheres noturnas batendo
enormes tapetes. Havia Morty desaparecido e Seabrook morto; e seus filhos que
combatiam pela pátria. Mas as galinhas estariam bem guardadas? Alguém descia as
escadas? Rebeca com dor de dente? Não. As mulheres noturnas batiam seus enormes
tapetes. As galinhas agitavam-se de leve nos ninhos.