O Quarto de Jacob

Virginia Woolf · Capítulo 4 de 14

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O Quarto de Jacob

Capítulo Quatro

C A P Í T U L O Q U A T R O

 

De que adianta ler Shakespeare, especialmente numa dessas pequenas edições finas

cujas páginas amassam ou grudam com a água o mar? Embora as peças de

Shakespeare sejam muito elogiadas, até citadas e colocadas acima dos gregos, desde que

tinham começado a viagem, Jacob ainda não conseguira leu uma até o fim. Contudo,

que oportunidade!

Pois as Ilhas Scilly tinham sido avistadas por Timmy Durrant no lugar exato, como

cimos de montanhas quase à flor da água. Seus cálculos tinham funcionado à

perfeição, e com efeito vê-lo ali sentado, mão no leme, barba por fazer, olhando firme

as estrelas, depois o compasso, soletrando bastante bem sua página do eterno livro de

textos, poderia ter emocionado uma mulher. Naturalmente Jacob não era uma

mulher. A visão de Timmy Durrant nada significava para ele, nada a erguer diante do

céu e adorar; longe disso. Tinham discutido. Ninguém pode dizer por que, com

Shakespeare a bordo, sob todas as condições para tal esplendor, a maneira correta de

abrir uma lata de carne os transformara em colegiais mal-humorados. Mas carne

enlatada se come fria; água salgada estraga os biscoitos; as ondas se agitam e

espreguiçam por todo o horizonte. Agora passa uma ramada de algas flutuando — logo

depois um toro de madeira. Navios haviam naufragado ali. Um ou dois passaram,

mantendo seu lado na estrada. Timmy sabia para onde estavam indo quais suas cargas

e, olhando pelo binóculo, podia dizer o nome da empresa e até adivinhar que lucros

davam a seus acionistas. Isso, porém, não era razão para Jacob ficar indisposto.

As Ilhas Scilly pareciam cumes de montanhas quase à flor da água... Infelizmente

Jacob quebrou o pino do fogão Primus.

As Ilhas Scilly podiam ser obliteradas por uma vaga passando.

Mas deve-se dar aos rapazes o crédito de admitir que, comido nessas circunstâncias, o

almoço seja repelente, e ainda assim é bastante autêntico. Não se precisa de

conversação. Pegaram os cachimbos.

Timmy fez algumas anotações científicas; e — qual a pergunta que rompeu o silêncio:

a hora exata ou o dia do mês? De qualquer modo, foi dita sem o menor

constrangimento; da maneira mais trivial do mundo; então Jacob começou a

desabotoar a roupa e ficou sentado ali, nu, exceto a camisa, aparentemente para nadar.

As Ilhas Scilly estavam ficando azuladas; subitamente, azul, púrpura, verde,

inundaram o mar; deixaram-no pardo; traçaram uma faixa que se desvaneceu;

contudo, quando Jacob tirou a camisa por sobre a cabeça, todo o chão de ondas estava

azul e branco, franzido e crespo, embora vez por outra aparecesse uma grande mancha

roxa, como um hematoma; ou boiasse uma esmeralda inteira, tingida de amarelo. Ele

pulou. Engoliu água, cuspiu-a, bateu o braço direito, bateu o esquerdo, puxou-se por

uma corda, arquejou, patinhou, foi içado a bordo.

O assento do barco estava muito quente, o sol aquecia suas costas enquanto ele estava

sentado nu, com a toalha na mão, fitando as Ilhas Scilly que — com os diabos! a vela

deu uma sacudida. Shakespeare foi lançado por cima da borda. Podia ser visto

flutuando alegremente para longe deles, todas as páginas agitando-se inumeráveis;

depois submergiu.

Estranho, podia-se aspirar o aroma de violetas, ou se violetas eram impossíveis em

julho, devia crescer em terra algo muito pungente. A terra, não muito longe —

podiam-se adivinhar fendas nos rochedos, cottages brancos, fumaça subindo —, dava

uma impressão extraordinária de calma, de paz ensolarada, como se sabedoria e

piedade tivessem baixado sobre seus moradores. Foi quando se ouviu um grito, um

homem vendendo sardinhas numa rua principal. Havia uma sensação extraordinária

de piedade e paz, como de anciãos fumando junto à porta, e meninas, mãos nos

quadris, postadas junto à fonte, e cavalos; como se o fim do mundo houvesse chegado, e

campos de repolho e muros de pedra e estações da guarda-costeira e por sobre tudo isso

as baías com as ondas que se quebravam sem serem vistas por ninguém erguendo-se

para o céu em êxtase.

Imperceptivelmente a fumaça do cottage definha, parece um sinal de luto, uma

bandeira flutuando sua carícia sobre uma tumba. As gaivotas, lançando seu amplo vôo

e depois vogando em paz, pareciam marcar o lugar da sepultura.

Sem dúvida, se fosse Itália, Grécia ou mesmo as costas da Espanha, a tristeza seria

afugentada por estranheza e excitação e pelo aguilhão de uma educação clássica. Mas

as colinas da Cornualha têm fortes chaminés por cima; e de uma forma ou outra a

beleza é infernalmente triste. Sim, as chaminés e as estações da guarda-costeira e as

pequenas baías com ondas quebrando, sem serem vistas por ninguém, nos recordam a

mágoa que domina o resto. Que mágoa poderia ser esta?

E urdida pela própria terra. Emana das casas na costa. Começamos translúcidos, depois

a nuvem se adensa. Toda história serve de fundo à nossa parede de vidro. Impossível

escapar.

Mas é impossível dizer se essa é a interpretação correta da melancolia de Jacob, sentado

nu ao sol, olhando para o Fim do Mundo; pois ele não pronunciou palavra alguma. Às

vezes (só por um segundo!) Timmy pensava que sua gente talvez fosse aborrecê-lo...

Não importa. Há coisas que não podem ser ditas. Vamos esquecê- las. Vamos secar o

corpo e pegar a primeira coisa à mão... O livro de anotações de Timmy Durrant sobre

suas observações científicas.

— Nesse caso... — disse Jacob.

Começou uma discussão terrível.

Há pessoas que conseguem seguir passo a passo um caminho, inclusive dar elas

mesmas um passo pequeno, de apenas seis polegadas para terminá-lo; outras se

contentam em julgar de imediato, observando tão-somente os indícios externos.

Os olhos fixam-se no atiçador; a mão direita pega o atiçador e o levanta; vira-o

lentamente, depois recoloca-o no lugar, com grande cuidado. A mão esquerda,

pousada no joelho, esconde uma música marcial, majestosa, mas intermitente. Segue-

se um fundo respirar; no entanto, a inspiração se evapora sem ser consumida. Um gato

atravessa o capacho da lareira. Ninguém presta atenção.

— E o máximo que posso fazer — Durrant encerrou a questão.

O minuto seguinte foi quieto como uma tumba.

— Conseqüentemente... — disse Jacob.

Só meia frase se seguiu; mas essas meias frases são como bandeiras içadas no topo de

edifícios para aquele que está observando indícios externos lá de baixo. O que era a

costa da Cornualha, com seus aromas de violeta e emblemas de luto e tranqüila

piedade, senão uma tela pendendo por acaso, vertical, atrás da sua mente, quando esta

se punha em movimento?

— Conseqüentemente... — disse Jacob.

— Sim — respondeu Timmy depois de refletir. — É isso.

Jacob começou a lidar por ali, em parte para esticar o corpo, em parte por uma espécie

de alegria, sem dúvida, pois de seus lábios brotava o som mais estranho, enquanto

enrolava a vela, esfregava os pratos — um som áspero e sem entonação, uma espécie de

cântico triunfal por ter enfrentado a discussão, por ter dominado a situação, queimado

de sol, barba por fazer, capaz da aventura de velejar ao redor do mundo num iate de

dez toneladas, o que provavelmente haveria de fazer um dia desses, em vez de

aboletar-se num escritório de advogado, usando polainas.

— Nosso amigo Masham — disse Timmy Durrant — preferiria não ser visto em nossa

companhia, do jeito que estamos agora. — Todos os seus botões tinham caído.

— Você conhece a tia de Masham? — perguntou Jacob.

- Nem sabia que ele tinha uma tia — respondeu Timmy.

— Masham tem milhões de tias — disse Jacob.

— — comentou Timmy.

Masham é mencionado no Domesday Book{1}

— As suas tias também — disse Jacob.

— A irmã dele é muito bonita — disse Timmy.

— É isso que vai acontecer com você, Timmy — disse Jacob.

— Com você primeiro — retrucou Timmy.

— Mas essa mulher de quem eu estava falando, a tia de Masham...

— Ah, continue — pediu Timmy, pois Jacob estava rindo tanto que não conseguia falar.

— A tia de Masham...

— O que é que tem Masham para a gente rir tanto? — perguntou Timmy.

— No final das contas, um homem que engole o próprio alfinete de gravata — disse

Jacob.

—Vai ser lorde chanceler antes dos cinqüenta — decretou Timmy.

— E um cavalheiro — ciisse Jacob.

— O duque de Wellington era um cavalheiro — disse Timmy.

— Keats não era.

— Lorde Salisbury era.

— E quanto a Deus? — perguntou Jacob.

Agora as Ilhas Scilly apareciam como se um dedo dourado emergindo de uma nuvem

apontasse diretamente para elas; e todos sabem como essa visão é poderosa, e como

esses largos raios abalam os alicerces do ceticismo, e levam a fazer piadas sobre Deus,

não importa se esses raios caiam sobre as Ilhas Scilly ou sobre as tumbas dos cruzados

nas catedrais.

Senhor, fica comigo: A noite cai depressa; As sombras se aprofundam; Senhor, fica

comigo.

— cantou Timmy Durrant.

— Na minha cidade costumávamos cantar um hino que começava Grande Deus, o que

estou vendo e ouvindo? - disse Jacob.

Gaivotas giravam docemente, balouçando em pequenos bandos de duas ou três, junto

ao bote; o cormorão, como a seguir seu próprio longo pescoço numa perseguição

eterna, deslizava uma polegada acima das águas em direção à rocha mais próxima; e o

rugido da maré nas furnas vinha pela água, baixo, monótono, corno a voz de alguém

falando sozinho.

Rocha dos séculos, abre-te para mim, Deixa que me esconda em ti. - cantava Jacob.

Como o dente rombudo de algum monstro, uma rocha varava a superfície; marrom;

inundada de cachoeiras perpétuas.

Rocha dos séculos - cantava Jacob, deitado de costas, erguendo os olhos para o céu do

meio-dia, do qual fora expulsa qualquer partícula de nuvem, de tal modo que parecia

algo permanentemente exposto, nu de todo véu.

Pelas seis da tarde, soprou uma brisa de campo de gelo; pelas sete, a água era mais

púrpura do que azul; pelas sete e meia, havia um remendo de áspera lâmina de ouro

em torno da Ilhas Scilly, e o rosto de Durrant, sentado pilotando o barco, era da cor de

uma caixa de laca vermelha polida por muitas gerações. Pelas nove, todo o fogo e

confusão tinham sumido do céu, deixando quilhas de verde-maçã e círculos de

amarelo-pálido; e pelas dez, as lanternas no barco lançavam cores entrançadas sobre as

ondas, alongadas ou largas, conforme as vagas se estendiam ou encolhiam. O raio de

luz do farol atravessou as águas rapidamente. Infinitos milhões de milhas adiante,

piscava uma poeira de estrelas; mas as ondas chapinhavam no bote e com regular,

espantosa solenidade rebentavam contra os rochedos.

Embora fosse possível bater na porta do cottage e pedir um copo de leite, somente a

sede provocaria essa intromissão. Mas talvez a sra. Pascoe achasse isso muito bom. Os

dias de verão podem ser opressivos.

Lavando em sua pequena pia, ela pode ouvir o relógio barato sobre a lareira tic, tic,

tic... tic, tic, tic... Está sozinha na casa. O marido saiu para ajudar o fazendeiro Hosken;

a filha casou e foi para a América. O filho mais velho também se casou, mas ela não se

dá bem com a mulher dele. O ministro da igreja de Wesley chegou e levou o menino

menor. Ela está sozinha na casa. Um vapor cruza o horizonte, sem dúvida dirigindo-se

a Cardiff, enquanto ao alcance da mão um sininho de dedaleira balouça tendo por

badalo uma abelha.

Esses cottages brancos da Cornualha são construídos na beira da rocha; no jardim, tojos

crescem mais facilmente que repolhos; quanto à cerca, algum sujeito primitivo

empilhou seixos de granito. Numa dessas pedras, conjeturou um historiador, cavou-se

uma bacia para receber sangue de vítimas, mas em nossos dias elas servem

insipidamente como assento para turistas que desejam uma visão plena de Gunard's

Head. Não, porém, que os turistas tenham qualquer objeção contra um vestido

estampado azul e um avental branco no jardim de um cottage:

— Olhe... ela precisa tirar água de uma fonte no jardim.

— Deve ser muito solitário no inverno, com o vento varrendo essas colinas e as ondas

batendo nas rochas.

Mesmo num dia de verão, a gente escuta o seu rumorejar.

Tendo apanhado sua água, a sra. Pascoe entrou. Os turistas arrependeram-se de não

terem trazido binóculos, para poderem ler o nome do vapor. Na verdade, era um dia

tão bonito que não havia nada que um par de binóculo não tivesse trazido para junto

dos olhos. Dois barcos de pesca, com velas, provavelmente vindo da Baía de St. Ives,

singravam agora em direção oposta ao vapor, e o fundo do mar tornava-se

alternadamente claro e opaco. Quanto à abelha, tendo sugado sua quota de mel, foi

visitar o cardo e dali traçou uma linha reta na direção do quintal da sra. Pascoe, mais

uma vez orientando o olhar dos turistas para o vestido estampado e o avental branco

da velha senhora, pois ela viera até a porta do cottage, e estava parada ali.

Estava parada ali, protegendo os olhos com a mão e olhando o mar.

Olhava-o talvez pela milionésima vez. Uma borboleta-pavão desdobrava-se agora

sobre o cardo, descansada, recém-nascida, conforme provavam o azul e o chocolate de

suas asas. A sra. Pascoe entrou, pegou a caçarola, e postou-se ali, limpando-a. Sem

dúvida, seu rosto não era suave, nem sensual ou lascivo, mas duro, sábio e saudável,

significando, num lugar cheio de gente sofisticada, a carne e o sangue da vida. No

entanto, ela era capaz de dizer uma mentira tão prontamente quanto a verdade. Na

parede atrás dela pendia uma grande arraia seca. Encerrados na sala de visitas,

guardava com grande cuidado quadros, bibelôs de porcelana e fotografias, embora o

pequeno aposento embolorado fosse protegido da brisa salgada apenas pela espessura

de um tijolo, e entre as cortinas de renda se pudesse ver o mergulhão tombar como

uma pedra, e em dias tempestuosos as gaivotas vinham pelo ar, arrepiadas, e as luzes dos navios apareciam ora altas ora baixas. Melancolia eram os sons de uma noite de

inverno.

Os jornais ilustrados eram entregues pontualmente aos domingos e ela contemplava

longamente o casamento de Lady Cynthia na Abadia. Também teria gostado de andar

numa carruagem de molas. As sílabas doces e fluidas da linguagem culta muitas vezes

a deixavam envergonhada das suas próprias, poucas e rudes. E depois a noite toda

ouvir o tormento do Atlântico sobre os rochedos, em vez de belos cabriolés e homens

assobiando para chamar os carros... Era com isso que ela podia estar sonhando

enquanto esfregava sua caçarola. Mas todas aquelas pessoas tagarelas e espertas tinham

ido para as cidades. E ela guardava suas emoções no peito como um avarento. Não

gastara nem uma moedinha em todos esses anos, e a quem a observasse com cobiça,

pareceria que tudo ali dentro devia ser puro ouro.

A sábia anciã, tendo fixado o mar, retirou-se mais uma vez. Os turistas decidiram que

estava na hora de ir a Gunard's Head.

Três segundos depois a sra. Durrant bateu à porta.

— Sra. Pascoe? — chamou.

E olhava um tanto arrogante os turistas atravessarem a trilha do campo. Vinha de

uma raça das Terras Altas, famosa por seus capitães.

A sra. Pascoe apareceu.

— Invejo-a por esse arbusto, sra. Pascoe — disse a sra. Durrant apontando o guarda-sol

com que batera na porta para um belo tufo de arbustos de São João, que crescia ao

lado. A sra. Pascoe olhou o arbusto de modo depreciativo.

— Estou esperando meu filho dentro de um ou dois dias — disse a sra. Durrant. — Vem

num pequeno barco, de Falmouth, com um amigo... Alguma notícia de Lizzie?

Seus pôneis de cauda longa estavam na estrada a vinte jardas dali, sacudindo as

orelhas. O empregado, Curnow, ocasionalmente espantava as moscas deles. Viu sua

patroa entrar na cabana; sair de novo; e passar em torno do canteiro de verduras em

frente da casa, falando energicamente, a julgar pelos movimentos de suas mãos. A sra.

Pascoe era tia dele. As duas mulheres examinavam um arbusto. A sra. Durrant

inclinou-se e apanhou um ramo. Depois (seus movimentos eram peremptórios. Ela

mantinha-se muito erecta) apontou para as batatas. Estavam com ferrugem. Todas as

batatas aquele ano estavam com ferrugem. A sra. Durrant mostrou à sra. Pascoe como

a ferrugem estava forte nas suas batatas. A sra. Durrant falava energicamente; a sra.

Pascoe escutava submissa. O empregado Curnow sabia que a sra. Durrant estava

dizendo que era absolutamente simples; a gente mistura o pó em um galão de água:

"Fiz isso com minhas próprias mãos em meu próprio jardim", estava dizendo a sra.

Durrant.

— Não lhe vai sobrar uma só batata. Não lhe vai sobrar uma só batata — estava dizendo

a sra. Durrant com sua voz enfática quando chegaram ao portão. O empregado Curnow ficou imóvel como uma pedra.

A sra. Durrant pegou as rédeas na mão e instalou-se na boléia.

— Cuide dessa perna ou mandarei o médico vir vê-la — gritou por cima dos ombros;

tocou os pôneis; e a carruagem arrancou. O empregado Curnow mal teve tempo de

equilibrar-se na ponta das botas. O empregado Curnow, sentado no meio do assento de

trás, olhou sua tia.

A sra. Pascoe estava parada no portão, olhando para eles; ficou parada no portão até

que a carruagem dobrou a esquina; ficou parada no portão, olhando ora para a direita,

ora para a esquerda; depois entrou novamente em sua casa.

Logo os pôneis chegaram à estrada elevada dos pântanos, forcejando com as pernas

dianteiras. A sra. Durrant afrouxou as rédeas e recostou-se para trás. Sua vivacidade a

abandonara. O nariz de falcão estava fino como um osso alvacento ao sol, através do

qual se pode ver a luz. As mãos, jazendo sobre as rédeas em seu colo, eram firmes

mesmo em repouso. O lábio superior curto erguia-se quase num escárnio sobre os

dentes da frente. Seu pensamento voava a léguas dali, enquanto o pensamento da sra.

Pascoe aderia à sua trilha solitária. Ela arremessava a mente para diante e para trás,

como se os cottages sem telhado, os montículos de lava, os jardins de casas

transbordando de dedaleiras e amoras pretas lançassem uma sombra sobre essa mente.

Chegando ao topo, parou a carruagem. Colinas pálidas cercavam-na, cada uma com

pedras antigas espalhadas; abaixo, o mar, mutável como um mar do Sul; e ela própria

ali sentada, olhando da colina para o mar, erecta, aquilina, equilibradamente postada

entre a melancolia e o riso. De repente, chicoteou os pôneis de tal modo que o

empregado Curnow balançou na ponta das botas.

As gralhas pousavam; as gralhas se alçavam no ar. As árvores em que tocavam tão

caprichosamente pareciam insuficientes para alojá-las. As copas faziam cantar a brisa

em seu interior; os ramos rangiam audivelmente; de vez em quando, embora fosse

pleno verão, deixavam cair cascas ou galhos finos. As gralhas subiam e desciam de

novo, erguendo-se em número menor sempre que as andorinhas se preparavam para

pousar, pois a noite já era suficiente para tornar o ar quase escuro dentro da floresta. O

musgo estava macio; os troncos das árvores, espectrais. Atrás delas abria-se uma

campina prateada. O capim-dos-pampas erguia suas lanças emplumadas de

montículos verdes no fim do prado. Uni trecho de água cintilava. A mariposa

convulvulus girava em parafuso sobre as flores. Laranja e púrpura, nastúrcio e cerejeira

diluíam-se na meia-luz, mas a planta do fumo e a flor da paixão, sobre as quais

regirava a grande mariposa, eram alvas como porcelana. As gralhas faziam chiar as

asas juntas nas copas das árvores, e ajeitavam-se para dormir quando, bem ao longe,

um som familiar reboou e tremeu — intensificou-se — praticamente estrondeou em

seus ouvidos — sagradas, sonolentas asas outra vez nos ares — a sineta do jantar na

casa.

Depois de seis dias de sal e vento e sol, Jacob Flanders colocara um smoking. O discreto

traje negro aparecera vez por outra no barco entre enlatados, picles, carnes em

conserva, e conforme a viagem progredira, tornara-se cada vez mais irrelevante, quase

inacreditável. E agora, num mundo estável, iluminado peia luz das velas, só o smoking

o protegia. Ele nem sabia como agradecer. Mesmo assim, seu pescoço, punhos e rosto

estavam expostos sem véu, formigando e brilhando tanto que a roupa preta se tornava

invólucro imperfeito. Ele recolheu a grande mão vermelha que jazia sobre a toalha da

mesa. Sub-repticiamente ela se fechou sobre esbeltos cálices e recurvados garfos de

prata. Os ossos das costeletas estavam decorados com babados cor-de-rosa — ontem

ainda ele roera presunto no osso! A frente havia contornos obscuros, translúcidos,

amarelos e azuis. Atrás deles, o jardim verde-acinzentado, e barcos de pesca pareciam

presos e suspensos entre as folhas da escalônia, em formato de pêra. O navio a vela

passou pelas costas das mulheres. Dois ou três vultos atravessaram apressadamente o

terraço no lusco-fusco. A porta abriu e fechou. Nada se acomodava nem permanecia

intacto. As frases, brotando ora daqui ora dali, eram como remos que se alvoroçavam

dos dois lados da mesa.

— Oh, Clara, Clara! — exclamou a sra. Durrant, e Timothy Durrant acrescentou: —

Clara, Clara — então Jacob identificou no vulto em gaze amarela a irmã de Timothy.

A moça estava sentada, sorrindo, e corou. Com os mesmos olhos escuros do irmão, era

mais vaga e suave do que ele. Quando as risadas amainaram, ela disse:

— Mas, mamãe, foi verdade. Ele disse isso, não disse? A srta. Eliot concordou conosco...

Mas a srta. Eliot, alta, grisalha, estava fazendo lugar a seu lado para o homem idoso

que entrava, vindo do terraço. O jantar não terminaria nunca, pensou Jacob, e não

queria que terminasse, embora o navio tivesse singrado de um canto a outro da

moldura da janela, e uma luz indicasse o fim do quebra-mar. Viu a sra. Durrant olhar

fixamente a luz. Ela virou-se para ele.

— Era você quem comandava o barco, ou Timothy? — perguntou. — Perdoe-me

chamá-lo de Jacob. Ouvi falar tanto em você. — Depois seus olhos voltaram ao mar.

Seus olhos ficaram vítreos quando fixaram a paisagem.

— Um dia, uma pequena aldeia — disse — e agora cresceu... — Ela ergueu-se, levando

o guardanapo, e parou junto da janela.

— Você discutiu com Timothy? — perguntou Clara timidamente. — Eu teria discutido.

A sra. Durrant voltou da janela.

— Está ficando cada vez mais tarde — disse, sentando-se erecta e baixando os olhos

sobre a mesa. — Vocês deveriam envergonhar- se... Todos vocês. Sr. Clutterbuck, o

senhor devia estar envergonhado. — Ela erguia a voz porque o sr. Clutterbuck era

surdo.

— Estamos envergonhados — disse uma mocinha. Mas o velho de barba continuou

comendo torta de ameixa. A sra. Durrant riu e recostou-se para trás na cadeira, como se condescendesse com ele.

— Confiamos o caso à senhora, sra. Durrant — disse um jovem com óculos grossos e um

bigode selvagem. — Eu digo que as condições foram preenchidas. Ela me deve um

soberano.

— Mas não antes do peixe; com ele, sra. Durrant — disse Charlotte Wilding.

— Essa foi a aposta; com o peixe — disse Clara gravemente. — Begónias, mamãe. Para

comer com o peixe dele.

— Meu Deus — disse a sra. Durrant.

— Charlotte não vai pagar — disse Timothy.

— Como é que você se atreve... — disse Charlotte.

— Esse privilégio será meu — disse o cortês sr. Wortley, apresentando um estojo de

prata cheio de soberanos e fazendo escorregar uma moeda sobre a mesa. Então a sra.

Durrant ergueu-se e atravessou o aposento, mantendo-se muito erecta, e as mocinhas

em gaze amarela e azul e prateada seguiram-na, e a idosa srta. Eliot em seu veludo; e

uma mulher um pouco rosada, hesitando na porta, limpa, escrupulosa, provavelmente

a governanta. Todas saíram pela porta aberta.

— Quando você for velha como eu, Charlotte — disse a sra. Durrant colocando o braço

da moça no seu enquanto passeavam pelo terraço.

— Por que está tão triste? — perguntou Charlotte impulsivamente.

— Pareço triste? Espero que não — disse a sra. Durrant.

— Bem, apenas nesse momento. E a senhora não é velha.

— Velha o bastante para ser a mãe de Timothy — elas pararam.

A srta. Eliot olhava pelo telescópio do sr. Clutterbuck no canto do terraço. O velho

surdo estava parado ao lado dela, acariciando a barba, recitando os nomes das

constelações:

— Andrômeda, Boiadeiro, Sidónia, Cassiopéia...

— Andrômeda — murmurou a srta. Eliot, movendo de leve o telescópio.

A sra. Durrant e Charlotte olharam pelo cilindro do instrumento apontado para os

céus.

— Há milhões de estrelas — disse Charlotte com convicção. A srta. Eliot afastou-se do

telescópio. Os rapazes subitamente riram na sala de jantar.

— Deixe que eu olhe — disse Charlotte ansiosa.

— As estrelas me aborrecem — disse a sra. Durrant, andando pelo terraço com Julia

Eliot. — Uma vez li um livro sobre estrelas... O que é que eles estão dizendo? — Ela

parou diante da janela da sala de jantar. —Timothy — ela comentou.

— O jovem silencioso — disse a srta. Eliot.

— Sim, Jacob Flanders — disse a sra. Durrant.

— Oh, mãe! Não a reconheci! — exclamou Clara Durrant vindo da direção oposta com

Elsbeth. — Que delícia — aspirou esmagando uma pétala de verbena.

A sra. Durrant virou-se e saiu andando sozinha.

— Clara! — chamou. Clara foi até ela.

— Como são diferentes! — disse a srta. Eliot.

O dr. Wortley passou por elas fumando charuto.

— Cada dia que vivo me surpreendo concordando... — disse quando passou por elas.

— E tão interessante adivinhar... — murmurou Julia Eliot.

— Logo que viemos para cá podíamos ver as flores naquele canteiro — disse Elsbeth.

— Vemos muito pouco agora — disse a srta. Eliot.

— Ela deve ter sido tão linda, e naturalmente todo mundo a amava — disse Charlotte.

— Suponho que o sr. Wortley... — ela interrompeu-se.

— A morte de Edward foi uma tragédia — disse a srta. Eliot com firmeza.

Nisso o sr. Erskine se juntou a elas.

— Não existe o silêncio — afirmou. — Posso ouvir vinte sons diferentes numa noite

como esta, sem contar as vozes de vocês.

— Vamos apostar? — disse Charlotte.

— Feito — disse o sr. Erskine. — Um, o mar; dois, o vento; três, um cachorro; quatro...

Os outros passaram.

— Pobre Timothy — disse Elsbeth.

— Uma noite muito bonita — gritou a srta. Eliot no ouvido do sr. Clutterbuck.

— Gostaria de olhar as estrelas? — disse o velho virando o telescópio para Elsbeth.

— O senhor não fica melancólico... olhando estrelas? — gritou a srta. Eliot.

— Meu Deus, meu Deus, não — o sr. Clutterbuck deu uma risadinha quando a

compreendeu. — Por que ficaria melancólico? Nem por um momento, meu Deus, não.

— Obrigada,Timothy, vou entrar — disse a srta. Eliot. — Elsbeth, aqui tem um xale.

— Vou entrar — murmurou Elsbeth com o olho no telescópio. — Cassiopeia —

murmurou. — Onde estão todas vocês? — perguntou afastando o olho do telescópio. —

Como está escuro!

A sra. Durrant estava sentada na sala junto de uma lâmpada, enrolando uma bola de

lã. O sr. Clutterbuck lia o Times. Ao longe havia uma segunda lâmpada, e em torno

dela sentavam-se as moças, fazendo cintilar tesouras sobre uma fazenda com

lantejoulas prateadas, para uma representação de teatro amador. O sr. Wortley lia um

livro.

— Sim; ele tem toda razão — disse a sra. Durrant, erguendo-se e parando de enrolar a

lã. E enquanto o sr. Clutterbuck lia o resto do discurso de lorde Lansdowne, ela ficou

sentada erecta, sem mexer na bola de lã.

— Ah, sr. Flanders — disse, com orgulho como se se dirigisse ao próprio lorde

Lansdowne. Depois suspirou e recomeçou a enrolar a sua lã.

— Sente-se aqui — disse.

Jacob saiu do lugar escuro, junto da janela, onde estivera sem fazer nada. A luz derramou-se sobre ele, iluminando cada fissura de sua pele; mas nenhum músculo da

sua face se moveu quando sentou, olhando o jardim.

— Quero saber da sua viagem — disse a sra. Durrant.

— Sim — disse ele.

— Vinte anos atrás fizemos a mesma coisa.

— Sim — disse ele. Ela fitou-o perquiridoramente.

E extraordinariamente desajeitado, pensou, notando que o rapaz apalpava as meias. E

ainda assim, com ar tão distinto.

— Naqueles dias... — resumiu ela, contando-lhe como tinham navegado — meu

marido, que sabia muita coisa sobre navegação, porque tinha um iate antes do nosso

casamento... — e narrou como tinham desafiado temerariamente os pescadores —

quase pagamos com nossas vidas, mas ficamos tão orgulhosos de nós mesmos! — Ela

estendeu de repente a mão que segurava a bola de lã.

— Quer que eu segure a sua lã? — perguntou Jacob, formalizado.

— Você faz isso para sua mãe — disse a sra. Durrant, olhando-o de modo penetrante

enquanto transferia a meada. — Sim, assim vai muito melhor.

Ele sorriu; mas não disse nada.

Elsbeth Siddons apareceu atrás deles, indecisa, com alguma coisa prateada no braço.

— Queremos... — disse. — Eu vim... — ela interrompeu-se.

— Pobre Jacob — disse a sra. Durrant calmamente, como se o conhecesse desde sempre.

— Elas vão fazer você atuar na peça.

— Adoro a senhora! — disse Elsbeth, ajoelhando-se ao lado da cadeira da sra. Durrant.

— Dê-me a lã — disse a sra. Durrant.

— Ele vem! Ele vem! — gritou Charlotte Wilding. — Ganhei minha aposta!

— Há outro cacho mais em cima — murmurou Clara Durrant, subindo outro degrau;

Jacob segurava a escada enquanto ela se esticava para alcançar as uvas no alto da

parreira.

— Pronto! — exclamou, cortando o caule. Parecia translúcida, pálida,

maravilhosamente bela, no alto, entre folhas de videira e os cachos amarelos e roxos,

luzes boiando acima dela em ilhas de cor. Gerânios e begônias em potes ao longo de

tábuas; tomates trepando pelas paredes.

— As folhas precisam mesmo ser desbastadas — disse ela, e uma folha verde, espalmada

como uma mão, baixou girando perto da cabeça de Jacob.

— Já tenho mais do que sou capaz de comer — disse ele, erguendo os olhos.

— Parece absurdo... — começou Clara — voltar a Londres...

— Ridículo — disse Jacob com firmeza.

— Então — disse Clara — você tem de vir no próximo ano sem falta — e cortou outra

folha de parreira, meio ao acaso.

— Se... Se...

Uma criança passou correndo pela estufa aos gritos. Clara desceu lentamente a escada

com o cesto de uvas.

— Um cacho de uvas brancas, dois das roxas — disse e colocou duas grandes folhas com

os cachos aninhados mornamente no cesto.

— Eu me diverti muito — disse Jacob, olhando da estufa para baixo.

— Sim, foi uma delícia — disse ela vagamente.

— Ah, srta. Durrant — disse ele pegando o cesto de uvas; mas ela passou em direção à

porta da estufa.

"Você é bom demais, bom demais", pensava, pensando em Jacob e em como ele não

devia lhe dizer que a amava. Não, não, não.

As crianças rodopiavam junto à porta, jogando coisas para o alto.

— Seus diabinhos! — gritou ela. — O que é que eles têm aí? — perguntou a Jacob.

— Acho que são cebolas — respondeu. Olhava as crianças sem se mexer.

— Lembre-se, Jacob, no próximo agosto — disse a sra. Durrant apertando-lhe a mão no

terraço onde fúcsias pendiam como brincos escarlates atrás da cabeça dela. O sr.

Wortley saiu pela porta de vidro, em pantufas amarelas, carregando o Times e

estendendo a mão cordialmente.

— Adeus — disse Jacob. — Adeus — repetiu. — Adeus — disse mais uma vez. Charlotte

Wilding abriu estabanadamente a janela do quarto e gritou.

— Adeus, Jacob!

— Sr. Flanders! — gritou o sr. Clutterbuck, tentando levantar-se da poltrona. — Jacob

Flanders!

— Tarde demais, Joseph — disse a sra. Durrant.

— Mas não para posar para mim — disse a srta. Eliot plantando seu tripé no gramado.