O Quarto de Jacob

Virginia Woolf · Capítulo 2 de 14

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O Quarto de Jacob

Capítulo Dois

C A P Í T U L O D O I S

 

— A sra. Flanders. — Pobre Betty Flanders. — Cara Betty. — Ela ainda é bem atraente.

— Pena que não se casou de novo! -— Mas há o capitão Barfoot. — Visita-a todas as

quartas-feiras, regular como um relógio, e nunca traz a mulher.

— Mas é culpa de Ellen Barfoot — diziam as senhoras de Scarborough. — Ela não

aparece para ninguém.

— Um homem gosta de ter um filho, todo mundo sabe disso.

— Alguns tumores têm de ser extirpados; mas o tipo que minha mãe teve, a gente

carrega anos e anos, e nunca sequer nos servem uma xícara de chá na cama.

(A sra. Barfoot era inválida.)

Elizabeth Flanders, de quem isso e muito mais foi e seria dito, era naturalmente uma

viúva na flor da idade. Estava a meio caminho entre os quarenta e cinqüenta. Entre

eles, os anos e as mágoas; a morte de Seabrook, seu marido; três filhos; pobreza; uma

casa nos subúrbios de Scarborough; a ruína e possível morte do irmão, o pobre Morty

— pois onde andava ele? o que era ele? Protegendo os olhos com a mão, ela olhou a

estrada à procura do capitão Barfoot

— sim, lá estava, pontual como sempre; as atenções do capitão faziam Betty Flanders

desabrochar, expandiam o seu porte, coloriam de alegria seu rosto, e inundavam seus

olhos três vezes ao dia, sem razão evidente.

Claro, não há mal em chorar pelo marido da gente, e a pedra anular, embora simples,

era uma peça sólida, e em dias de verão, quando a viúva trazia seus meninos para se

postarem ali, as pessoas simpatizavam com ela. Os chapéus eram erguidos mais alto

que de costume; esposas agarravam firme os braços dos maridos. Seabrook jazia seis pés

abaixo, morto todos esses muitos anos; encerrado em três conchas; as frestas lacradas

com chumbo, de modo que, se terra e madeira fossem vidro, indubitavelmente seu

rosto seria visível lá embaixo, o rosto de um homem jovem, de suíças, bem-apessoado,

que saíra para caçar patos e se recusara a trocar de botas.

"Comerciante desta cidade", dizia a pedra tumular; mas por que Betty Flanders

resolvera designá-lo assim, se, como muitos ainda recordavam, ele apenas ficara

sentado atrás de um guiché de repartição por três meses, e antes disso domara cavalos,

participara de caçadas, cultivara uns poucos campos, e fizera algumas loucuras —

contudo, ela tinha de chamá-lo de alguma coisa. Um exemplo para os meninos.

Mas então ele não fora nada? Pergunta irrespondível, pois, mesmo que o agente

funerário não feche rapidamente os olhos dos mortos, a luz, mais cedo ainda, se apaga

neles. Primeiro, Seabrook fora parte dela; agora, um numa multidão, imerso na

grama, do lado íngreme da colina, mil e uma pedras brancas, algumas oblíquas, outras

verticais, as coroas de flores deterioradas, as cruzes de estanho verde, os estreitos

caminhos amarelos, os lilases que em abril fenecem sobre o muro do cemitério, com odor de quarto de inválido. Seabrook era tudo isso; e quando, saia arrepanhada,

alimentando as galinhas, ela escutava o sino para uma cerimônia ou funeral, era a voz

de Seabrook — a voz dos mortos.

O galo costumava voar para o ombro dela e bicar-lhe o pescoço, de modo que agora ela

carregava uma vara ou levava uma das crianças ao dar comida às aves.

Você não quer levar minha faca, mãe? — disse Archer.

Soando ao mesmo tempo que o sino, a voz do filho mesclava vida e morte de maneira

inextrincável e excitante.

— Mas que faca enorme para um menino tão pequeno! — disse ela. Pegou-a só para lhe

dar prazer. Depois o galo saiu voando do galinheiro, e gritando que Archer fechasse a

porta da cozinha para o quintal, a sra. Flanders decidiu o cardápio, chamou as

galinhas, lidou atabalhoadamente no pomar, e foi vista do outro lado da rua pela sra.

Cranch, que, batendo seu capacho contra a parede, suspendeu-o por um momento,

enquanto comentava com a sra. Page, da casa ao lado, que a sra. Flanders estava com

as galinhas no pomar.

A sra. Page, a sra. Cranch e a sra. Garfit podiam ver a sra. Flanders em seu pomar

porque este fazia parte de Dods Hill; e Dods Hill dominava a aldeia. Não se pode

descrever com palavras a importância de Dods Hill. Era a própria terra; o mundo

contra o céu; o horizonte de tantas visões quantas podem ser computadas pelos que

viveram toda a sua vida na mesma aldeia, deixando-a apenas uma vez para lutar na

Criméia, como o velho George Garfit, debruçado no portão de seu jardim, fumando

cachimbo. O avanço do sol era medido por Dods Hill; e a tonalidade do dia tinha que

contrastar com ela para ser avaliada.

— Agora ela está subindo a colina com o pequeno John — disse a sra. Cranch à sra.

Garfit, sacudindo o capacho pela última vez e correndo atarefada para dentro de casa.

Abrindo o portão do pomar, a sra. Flanders seguiu até o topo de Dods Hill, levando

John pela mão. Archer e Jacob corriam à frente ou vagueavam atrás; mas já estavam

na Fortaleza Romana quando ela chegou lá, e gritavam quais os navios que se podiam

ver na baía. Pois descortinava-se um panorama magnífico — atrás os pântanos, à

frente o mar, e Scarborough inteira, de uma ponta a outra, estendendo-se plana como

um quebra-cabeças. A sra. Flanders, que estava engordando, sentou-se nas ruínas da

fortaleza e olhou em tomo.

Toda a gama das mudanças na paisagem devia ser sua conhecida; o aspecto hibernal, a

primavera, o verão, o outono; as tempestades subindo do mar; os pântanos tremendo e

iluminando-se quando as nuvens passavam por cima; devia ter notado a mancha

vermelha onde estavam edificadas as villas, o ziguezague de linhas onde estavam

marcando os loteamentos; e a reverberação de diamante nas pequenas estufas de vidro

ao sol. Ou, se detalhes como estes lhe escapavam, talvez ela extraísse prazer da

coloração dourada do mar ao anoitecer, vendo esse ouro decompor-se em moedas que rutilavam nos seixos. Barquinhos de passeio boiavam dentro dele; o braço negro do

quebra-mar o armazenava. Toda a cidade era rosa e ouro; ogival; brumosa; ressonante;

estridente. Havia violões desafinando; a multidão de passantes cheirava a piche que

grudava nos saltos dos sapatos; subitamente, cabras com seus carrinhos enveredavam

pelos grupos adentro. Via-se que a Corporação tinha arrumado bem os canteiros de

flores. Por vezes, o vento soprava pelos ares um chapéu de palha. Tulipas ardiam ao sol.

Vários calções bufantes estendiam-se em fila. Toucas roxas orlavam rostos macios,

rosados e tristes, sobre almofadas em cadeiras de rodas. Cartazes triangulares eram

empurrados sobre rodinhas por homens de casacos brancos. O capitão George Boase

apanhara um tubarão-monstro. Um lado do cartaz comunicava isso em letras

vermelhas, azuis e amarelas; e cada linha terminava em pontos de exclamação de três

cores diferentes.

Então havia uma razão para descer ao Aquário, onde os estores amarelos, o cheiro

decomposto de amónia, as cadeiras de bambu, as mesas com cinzeiros, os peixes

sinuosos, a empregada tricotando atrás de seis ou sete caixas de chocolate (muitas vezes

ela ficava praticamente sozinha com os peixes horas a fio) permaneciam na memória

como parte do tubarão-monstro, ele próprio não passando de um receptáculo amarelo

e flácido, uma bolsa vazia num tanque. Ninguém jamais se animara com o Aquário;

mas os rostos dos que emergiam rapidamente perdiam sua expressão vaga e hirta ao

perceberem que somente fazendo fila se entrava no quebra-mar. Vencendo as

passagens de borboleta, todos andavam uma jarda ou duas com muita animação; uns

instalavam-se nesta barraca; outros naquela. Mas era afinal a banda de música que os

atraía, e também aos pescadores no molhe de baixo, colocando suas vozes na mesma

tonalidade dela.

A banda tocava no Quiosque Mourisco. O cartaz anunciava o número nove. Uma

valsa. As mocinhas pálidas, a velha viúva, os três judeus hospedados na mesma casa, o

almofadinha, o major, o comerciante de cavalos e o cavalheiro que vivia de rendas,

todos mostravam a mesma expressão difusa e entorpecida, e pelas fendas das tábuas a

seus pés podiam ver as verdes ondas do verão balouçando tranqüilas e doces em torno

dos pilares de ferro do quebra-mar.

Houve um tempo em que nada disso existia (pensava o rapaz encostado à amurada).

Fixem-se os olhos na saia da mulher; a cinzenta serve — por sobre as meias de seda

cor-de-rosa. Ela vai mudando; cobre os tornozelos — os anos noventa; depois se alarga

— os setenta; agora é de um vermelho queimado, esticada sobre uma crinolina — os

sessenta; um diminuto pé preto em meias de algodão branco espia. Ainda sentada ali?

Sim — ela ainda está no quebra-mar. Agora a seda está salpicada de rosas, mas de

alguma forma já não a distinguimos bem. Não há mais quebra-mar debaixo de nossos

pés. A pesada carruagem pode vir sacolejando pela estrada do pedágio, mas não há

quebra-mar onde parar, e como é pardo e turbulento o mar do século XVII! Vamos ao museu. Balas de canhão; pontas de flecha; vidro romano e uma pinça, verde de

azinhavre. O reverendo Jaspar Floyd os descobriu em escavações feitas por conta

própria no começo dos anos quarenta no Campo Romano de Dods Hill — vê-se no

papelzinho com escrita esmaecida.

E agora, o que mais vamos ver em Scarborough?

A sra. Flanders estava sentada na elevação circular do Campo Romano, remendando os

calções de Jacob; apenas erguia a vista quando molhava de saliva a ponta do fio de

linha, ou quando algum inseto batia nela, zumbia em seu ouvido e partia.

John corria por ali jogando no colo dela grama e folhas mortas, que chamava de 'chá', e

ela as arranjava metodicamente, mas distraída, juntando as pontas floridas de capim,

pensando que Archer ficara novamente acordado a noite passada; o relógio da igreja

estava dez ou 13 minutos adiantado; ela queria poder comprar a propriedade dos

Garfits.

— Isso é uma pétala de orquídea, Johnny. Veja as manchinhas castanhas. Venha,

querido. Temos de ir para casa. Ar-cher! Ja-cob!

— Ar-cher! Ja-cob! — pipilou Johnny imitando-a, girando nos saltos dos sapatos,

espalhando grama e folhas que tinha nas mãos, como se estivesse semeando. Archer e

Jacob pularam de trás do montinho em que estavam agachados com intenção de saltar

sobre a mãe e assustá-la, e todos começaram a voltar lentamente para casa.

— Quem é aquele? — perguntou a sra. Flanders protegendo os olhos com a mão.

— O velho na estrada? — disse Archer olhando para baixo.

— Não é um velho — respondeu a sra. Flanders. — Ele é... Não, não é... Pensei que fosse

o capitão, mas é o sr. Floyd. Venham, meninos.

— Ora, o chato do sr. Floyd! — disse Jacob, cortando uma ponta de cardo com um golpe,

pois sabia que o sr. Floyd ia dar-lhes aulas de latim, coisa que realmente veio a fazer

durante três anos, em suas horas livres, apenas por bondade, pois não havia na

vizinhança outro cavalheiro a quem a sra. Flanders pudesse pedir tal coisa, e os

meninos mais velhos já a tinham ultrapassado em conhecimentos, e tinham de ser

preparados para o colégio, e isso era mais do que a maioria dos clérigos teria feito, vir

depois do chá ou recebê-los nos seus próprios aposentos — sempre que conseguia dar

um jeito, pois a paróquia era muito grande e, como seu pai antes dele, o sr. Floyd

visitava cottages a milhas de distância, nos pântanos, e assim como o velho sr. Floyd,

era um grande erudito, o que tornava tudo absolutamente inverossímil — ela jamais

sonhara com uma coisa dessas. Deveria ter adivinhado? Mas, além de ser erudito, ele

era oito anos mais novo do que ela. Betty Flanders conhecia sua mãe — a velha sra.

Floyd. Tomava chá com ela. E foi na mesma noite em que voltava de um chá com a

velha sra. Floyd que encontrou no vestíbulo aquele bilhete e o levou para a cozinha

quando foi entregar o peixe a Rebeca, pensando tratar-se de um aviso sobre os

meninos.

— Foi o sr. Floyd quem trouxe pessoalmente, não foi? Acho que o queijo deve estar no

pacote, no vestíbulo, ah, no vestíbulo... — pois ela estava lendo. Não, não era a respeito

dos meninos.

— Sim, certamente é o bastante para os bolos de peixe amanhã. Talvez o capitão

Barfoot... — Ela chegara à palavra 'amor'. Foi ao jardim e leu, recostada a uma

nogueira para se firmar. Seu peito subia e descia. Seabrook apareceu nítido diante dela.

Betty Flanders sacudiu a cabeça e olhava através das lágrimas as folhinhas balouçando

contra o céu amarelo quando três gansos, meio correndo meio voando, dispararam

pelo gramado com Johnny atrás a brandir uma vara.

A sra. Flanders ficou vermelha de raiva.

— Quantas vezes já lhe disse? — gritou, agarrou-o e jogou fora a vara.

— Mas eles escaparam! — gritou o menino lutando para libertar-se.

— Você é um menino impossível. Eu lhe disse uma vez, disse milhares de vezes. Não

quero você perseguindo os gansos! — e amassando a carta do sr. Floyd, segurou Johnny

firmemente e tangeu os gansos de volta ao pomar.

"Como é que eu poderia pensar em casamento!", disse para si mesma, amargamente,

enquanto prendia o portão com um pedaço de arame. Jamais gostara de homens de

cabelo ruivo, pensou, lembrando a aparência do sr. Floyd, naquela noite quando os

meninos tinham ido para a cama. E empurrando para o lado sua caixa de costura,

puxou o mata-borrão para junto de si e releu a carta do sr. Floyd, e seu peito subia e

descia quando chegou à palavra 'amor', mas não tão depressa dessa vez, pois via Johnny

a perseguir gansos, e sabia que era impossível casar-se com quem quer que fosse —

muito menos o sr. Floyd, que era tão mais novo do que ela, mas um homem simpático

e, além disso, erudito.

"Caro sr. Floyd", escreveu. "Será que esqueci o queijo?", espantou-se, depondo a caneta.

Não, dissera a Rebeca que o queijo estava no vestíbulo. "Estou muito surpresa..."

escreveu.

Contudo, a carta que o sr. Floyd encontrou na mesa ao acordar cedo na manhã

seguinte não começava com "Estou muito surpresa", e era uma carta tão maternal,

respeitosa, inconseqüente, apreensiva, que ele a guardou por muitos anos; muito

depois do seu casamento com a srta. Wimbush, de Andover; muito depois que ele

deixara a aldeia. Pois que solicitou uma paróquia em Sheffield, que lhe foi dada; e

mandando chamar Archer, Jacob e John para despedir-se, disse que escolhessem o que

quisessem de seu gabinete, como lembrança dele. Archer escolheu um cortador de

papel, porque não gostava de escolher coisas boas demais; Jacob escolheu as obras

completas de Byron em um volume. John, ainda muito jovem para uma escolha

apropriada, optou pelo gatinho do sr. Floyd, o que seus irmãos consideraram um

absurdo, mas o sr. Floyd o defendeu quando o menino lhe disse:

— Ele tem pêlo igual ao seu.

Então o sr. Floyd falou sobre a Marinha Real (para onde Archer iria); e sobre o Rugby

(para onde Jacob iria); e no dia seguinte ganhou uma bandeja de prata e partiu —

primeiro para Sheffield, onde encontrou a srta. Wimbush, que estava de visita ao tio,

depois para Hackney — e então para Maresfield House, da qual se tornou diretor, e

finalmente, como editor de uma série muito conhecida de Biografias Eclesiásticas,

retirou-se para Hampstead com mulher e filha, e pode ser visto seguidamente

alimentando patos em Leg of Mutton Pond. Quanto à carta da sra. Flanders — quando

ele a procurou recentemente, não conseguiu encontrá-la, e não quis perguntar à

esposa se a guardara. Encontrando Jacob em Picadilly há pouco tempo, reconheceu-o

em três segundos. Mas Jacob crescera, tornando-se rapaz tão distinto, que o sr. Floyd

não quis interpelá-lo na rua.

— Meu Deus — exclamou a sra. Flanders quando leu no Scarborough and Harrogate

Courier que o rev. Andrew Floyd, etc., etc., se tornara diretor de Maresfield House —

esse tem de ser o nosso sr. Floyd.

Uma claridade baça descia sobre a mesa. Jacob servia-se de geléia; o carteiro falava com

Rebeca na cozinha; uma abelha zumbia em torno da flor amarela que cabeceava na

janela aberta. Todos estavam vivos, enquanto o pobre sr. Floyd se tornava diretor de

Maresfield House.

A sra. Flanders ergueu-se, foi até o guarda-fogo da lareira e acariciou Topázio na nuca,

atrás das orelhas.

— Pobre Topázio — disse (porque o gatinho do sr. Floyd agora era um gato muito velho,

um pouco de sarna entre as orelhas, e um dia desses teriam de matá-lo).

— Pobre, velho Topázio — disse a sra. Flanders quando o gato se esticou ao sol; sorriu

então, pensando em como o mandara castrar, e como achava feio cabelo ruivo em

homens. Sorrindo ainda, voltou para a cozinha.

Jacob jogou um lenço bastante sujo sobre o rosto. E subiu as escadas para seu quarto.

Besouro morre devagar (era John quem colecionava besouros). Mesmo no segundo dia

as pernas deles ainda se mostravam flexíveis. As borboletas, porém, estavam mortas.

Um bafo de ovos podres liquidara as pálidas amarelas que vinham como doidas pelo

pomar subindo para Dods Hill, depois dirigindo-se ao pântano, num momento ocultas

atrás de um arbusto de tojo, noutro esvoaçando em desordem ao sol escaldante. Uma

fritilária aquecia-se numa pedra branca do Campo Romano. Do vale subia o som dos

sinos da igreja. Todos comiam rosbife em Scarborough àquela hora; pois era domingo

quando Jacob apanhou as pálidas amarelas no campo de trevos, a oito milhas de casa.

Rebeca pegou na cozinha a mariposa cabeça-de-caveira.

Um forte cheiro de cânfora saía das caixas de borboletas.

Misturado ao cheiro de cânfora sentia-se o odor inconfundível de algas. Fitas fulvas

pendiam da porta. O sol dava nelas em cheio.

As asas anteriores da mariposa que Jacob segurava estavam nitidamente marcadas por sinais amarelados em forma de rins. Mas não havia meia-lua na asa posterior. A árvore

tombara na noite em que ele a apanhara. Subitamente tinham escutado uma série de

tiros de pistola nas profundezas da mata. Sua mãe o tomara por um ladrão quando ele

chegara tarde em casa. O único dos filhos que nunca obedecia, disse ela.

O Morris designava a mariposa como "um inseto muito local encontrado em lugares

úmidos e pantanosos". Mas às vezes o Morris se engana. E Jacob, pegando uma caneta

muito fina, de vez em quando fazia uma correção na margem do livro.

A árvore tombara, embora fosse noite sem vento, e a lanterna, pousada no chão,

iluminara as folhas ainda verdes e as folhas já mortas da faia. Era um lugar seco. E a

asa inferior vermelha girara em torno da luz, reverberara e sumira. A asa inferior

vermelha não retornara mais, embora Jacob esperasse. Era depois das doze quando

atravessou o relvado e viu a mãe no quarto iluminado, jogando paciência, ainda

acordada.

— Mas como você me assustou! — exclamara. Já estava pensando que algo de terrível

houvesse acontecido. Ainda por cima, acordara Rebeca, que tinha de levantar tão cedo.

Jacob ficou ali parado, pálido, emergindo do fundo das trevas, no quarto aquecido,

piscando na luz.

Não, Tião podia ser uma de asa posterior com bordas cor de palha.

A máquina de ceifar estava sempre mal lubrificada. Barnet a dirigia debaixo da janela

de Jacob, e ela rangeu — rangeu e matraqueou pelo gramado, e rangeu de novo.

Agora o céu se cobria de nuvens.

O sol voltou, ofuscando.

Caiu como um olho sobre os estribos, depois, rápido, mas ainda assim muito suave,

pousou na cama, no despertador e na caixa aberta de borboletas. As pálidas amarelas

tinham voado como doidas sobre o pântano, ziguezagueando através do campo de

trevos roxos. As fritilárias exibiam-se ao longo das fileiras de cerca-viva. As azuis

instalavam-se sobre pequenos ossos que jaziam na turfa, e as damas- pintadas e as

borboletas-pavão se banqueteavam com entranhas sangrentas que um falcão deixara

cair. Milhas longe de casa, numa cova entre cardos debaixo de uma ruína, ele

encontrara as poligônias. Vira uma almirante-branca girando mais e mais alto em

torno de um carvalho, mas nunca a apanhara. A velha moradora de um cottage, que

vivia sozinha bem no topo, contara-lhe de uma borboleta púrpura que vinha ao seu

jardim todos os verões. E contou-lhe que os filhotes de raposa brincam nos tojos de

manhãzinha. E se a gente olhasse para fora ao amanhecer, poderia sempre ver dois

texugos. Às vezes eles se dão socos como dois menininhos.

— Você não vai longe esta tarde, Jacob — comunicou sua mãe metendo a cabeça pela

porta — porque o capitão vem dizer adeus. — Era o último dia das férias de Páscoa.

Quarta-feira era o dia do capitão Barfoot. Ele se vestia muito bem, de saija azul, pegava

a bengala com ponta de borracha — pois era manco, e faltavam dois dedos de sua mão esquerda, perdidos em combate pela pátria — e saía de casa com seu bastão

exatamente às quatro da tarde.

Às três o sr. Dickens, o homem encarregado da cadeira de rodas, vinha ver a sra.

Barfoot.

— Mova a minha cadeira — diria ela ao sr. Dickens depois de sentar-se na esplanada

por 15 minutos. E em seguida: — Assim está bem, sr. Dickens. — Ao primeiro

comando ele procuraria o sol; ao segundo deixaria a cadeira na faixa de claridade.

Sendo ele próprio um velho morador da aldeia, tinha muito em comum com a sra.

Barfoot — filha de James Coppard. O bebedouro onde a West Street se encontra com a

Broad Street é presente de James Coppard, que foi prefeito ao tempo do jubileu da

rainha Vitória, e Coppard está retratado nas carretas de água, por cima de vitrines de

lojas, e nas persianas de zinco em janelas de escritórios de advogados. Contudo, EUen

Barfoot jamais visitara o Aquário (embora tivesse conhecido muito bem o capitão

Boase, que apanhou o tubarão) e quando os homens passavam com cartazes, olhava-os

com desdém, pois sabia que nunca veria os pierrôs, os irmãos Zeno, ou Daisy Budd e

sua trupe de focas amestradas. Pois Eilen Barfoot em sua cadeira de rodas na esplanada

era uma prisioneira — uma prisioneira da civilização —, todas as grades de sua jaula

caindo oblíquas na esplanada em dias de sol, quando a prefeitura, as lojas de tecidos, a

piscina e o Memorial Hall riscavam o chão de sombras.

Sendo ele próprio um velho morador, o sr. Dickens ficaria em pé um pouco atrás dela,

fumando seu cachimbo. Ela lhe faria perguntas — quem eram as pessoas — quem

cuidava agora da loja do sr. Jones — ou sobre a estação — e se a sra. Dickens tentara

não importa o quê — palavras brotando de seus lábios como migalhas de biscoito seco.

Ela cerrou os olhos. O sr. Dickens foi dar uma volta. As emoções de homem não o

tinham abandonado inteiramente, embora, vendo-o aproximar-se, a gente notasse

uma botina preta abotoada cambaleando diante da outra; uma sombra entre o colete e

as calças; e ele avançava inseguro, como um cavalo velho subitamente desatrelado dos

varais, sem carroça para puxar. Mas, enquanto o sr. Dickens tragava e soprava outra

vez a fumaça, em seus olhos se notavam as emoções de homem. Pensava em como

agora o capitão Barfoot se dirigia para Mount Pleasant; o capitão Barfoot, seu patrão.

Pois em casa, na saleta por cima das estrebarias com o canário na janela e as mocinhas

na máquina de costura, e a sra. Dickens entre os reumáticos — em casa, onde lhe

davam pouca importância, a idéia de ser empregado do capitão Barfoot o sustentava.

Gostava de pensar que, enquanto conversava com a sra. Barfoot na frente de casa,

estava ajudando o capitão a ir ao encontro da sra. Flanders. Ele, um homem, cuidava

da sra. Barfoot, uma mulher.

Voltando-se, viu que ela conversava com a sra. Rodgers. Voltando-se outra vez, notou

que a sra. Rodgers se afastara. Então regressou para junto da cadeira de rodas, e a sra.

Barfoot lhe perguntou as horas, e ele tirou seu grande relógio de prata e disse as horas, muito solícito, como se soubesse muito mais do que ela a respeito da hora e de todas as

coisas. A sra. Barfoot, porém, sabia que o capitão Barfoot estava indo ao encontro da

sra. Flanders.

Na verdade ele se dirigia para lá, tendo saído do bonde, e vendo Dods Hill a sudeste,

verdejando contra um céu azul difuso pela cor da poeira no horizonte. Ele escalava a

colina. Apesar de manco, havia algo de militar na sua maneira de aproximar-se.

Saindo do portão da reitoria, a sra. Jarvis o viu chegar, e seu cão terra-nova, Nero,

abanou o rabo de um lado para outro.

— Oh, capitão Barfoot! — exclamou a sra. Jarvis.

— Bom-dia, sra. Jarvis — disse o capitão.

Andaram juntos, e quando chegaram ao portão da sra. Flanders, o capitão Barfoot

tirou o boné de tweed e curvando-se muito cortês, disse:

— Tenha um bom dia, sra. Jarvis.

E deixou-a sozinha.

Ela tencionava passear pelo pântano. Estivera mais uma vez andando pelo seu

gramado tarde da noite? Tamborilara outra vez na janela fechada, exclamando:

— Olhe a lua, olhe a lua, Herbert!

E Herbert olhava a lua.

Quando se sentia infeliz, a sra. Jarvis passeava pelo pântano, alcançando uma certa

ravina em forma de pires, embora sempre quisesse seguir até um cume mais distante;

lá sentava-se tirando de baixo da capa o livrinho escondido, lendo algumas linhas de

poesia, olhando em torno. Não era muito infeliz; como já tivesse 45 anos, talvez nunca

chegasse a ser muito infeliz, quer dizer, desesperadamente infeliz, e abandonar o

marido, e arruinar a carreira de um bom homem, como por vezes pensava fazer.

Não é preciso dizer que riscos uma esposa de clérigo assumia ao andar sozinha pelo

pântano. Baixa, morena, olhos acesos, uma pena de faisão no chapéu, a sra. Jarvis era

exatamente o tipo de mulher capaz de perder a fé de tanto andar pelo pântano —

confundindo Deus com o universo —, mas ela não perdia a fé, não abandonava o

marido, jamais lia seu poema até o fim, e continuava a passear pelo pântano, olhando

a lua através dos olmos, e sentindo, quando sentava na relva bem acima de

Scarborough... Sim, sim, quando a cotovia voa alto; quando, movendo-se um passo ou

dois à frente, as ovelhas comem a turfa e fazem soar os cincerros; quando a brisa

começa a soprar e depois morre, deixando o rosto beijado; quando os barcos no mar

abaixo parecem se atravessar uns aos outros e passam dirigidos por uma mão invisível;

quando há estrondos ao longe no ar, cavaleiros fantasmas galopando, depois de repente

cessando; quando o horizonte flutua, azul, verde, comovido — então, com um suspiro,

a sra. Jarvis pensava consigo mesma, "se ao menos alguém pudesse me dar... se eu

pudesse dar a alguém...". Mas ela não sabe o que deseja dar, nem quem poderia dá-lo a

ela.

— A sra. Flanders saiu faz poucos minutos, capitão — disse Rebeca. O capitão Barfoot

sentou-se para esperar. Descansando os cotovelos nos braços da poltrona, colocando

uma mão sobre a outra, estendendo a perna manca, e pondo ao lado dela a bengala

com ponta de borracha, ficou sentado absolutamente imóvel. Havia nele algo de

rígido. Estaria refletindo? Provavelmente os mesmos pensamentos, outra vez e sempre.

Mas seriam pensamentos 'bons', pensamentos interessantes? Era um homem de

caráter; tenaz e fiel. Mulheres teriam sentido "Aqui há lei. Aqui existe ordem.

Precisamos valorizar esse homem. Ele estará na ponte do navio esta noite", e, passando-

lhe a xícara ou o que fosse, entregar-se-iam a visões de naufrágio e desastre, em que

todos os passageiros sairiam cambaleando das cabines, e lá estaria o capitão, abotoando

a jaqueta, lutando com a tempestade, vencido por ela, mas por ninguém mais. "Mas eu

tenho uma alma", refletiria a sra. Jarvis quando subitamente o capitão assoasse o nariz

no seu grande lenço colorido, "e é a estupidez desse homem que causa tudo isso, e a

tempestade é tão minha quanto dele"... era assim que a sra. Jarvis refletiria quando o

capitão entrasse para visitá-los e encontrasse Herbert fora de casa, e passasse duas ou

três horas quase em silêncio na poltrona. Betty Flanders, porém, não pensava em nada

parecido.

— Oh, capitão — disse a sra. Flanders entrando precipitadamente na sala. — Tive de

procurar o homem do Barker... Espero que Rebeca... Espero que Jacob...

Estava muito ofegante, mas não muito aborrecida; quando depôs a escova para lareira

que comprara do vendedor de óleo, comentou que estava quente, abriu mais a janela,

alisou uma toalha, pegou um livro, como se se sentisse muito confiante, muito

encantada com o capitão, e muitos anos mais nova do que ele. Com efeito, no avental

azul, não parecia ter mais de 35. Ele estava bem além dos cinqüenta.

Ela moveu as mãos sobre a mesa; enquanto Betty seguia tagarelando, o capitão mexia a

cabeça de um lado para outro, emitindo pequenos ruídos, perfeitamente à vontade —

depois de vinte anos.

— Bem — disse ele finalmente —, tive notícias do sr. Polegate. O sr. Polegate lhe dissera

que não podia aconselhar nada melhor

do que mandar um rapaz a uma das universidades.

— O sr. Floyd esteve em Cambridge... Não, Oxford... Bem, uma das duas — disse a sra.

Flanders.

E olhou pela janela. Janelinhas e lilases e o verde do jardim refletiram-se em seus olhos.

— Archer está indo muito bem — disse. — Tive informações muito boas pelo capitão

Maxwell.

— Deixarei a carta aqui, para que a mostre a Jacob — disse o capitão, recolocando-a

desajeitadamente no envelope.

— Jacob está caçando borboletas, como sempre — disse a sra. Flanders irritada, mas

surpresa com um súbito pensamento. — Naturalmente o críquete começa na semana que vem.

— Edward Jenkinson entregou sua demissão — disse o capitão Barfoot.

— Então o senhor vai presidir o Conselho? — exclamou a sra. Flanders olhando-o

abertamente no rosto.

— Bem, quanto a isso... — começou o capitão Barfoot, ajeitando-se mais fundo na

poltrona.

Assim Jacob Flanders foi para Cambridge em outubro de 1906.