O Quarto de Jacob
Capítulo Três
C A P Í T U L O T R Ê S
— Esse não é um vagão de fumantes'— protestou a sra. Norman nervosamente, mas
em tom bastante débil, quando a porta abriu e um rapaz grandalhão saltou para
dentro. Ele pareceu não ouvir. O trem não pararia antes de Cambridge, e ali se achava
ela trancada sozinha num vagão com um rapaz.
Ela tocou o fecho da frasqueira, assegurando-se de que o vidrinho de perfume e o
romance de Mudie se encontravam à mão (o rapaz estava de costas para ela, em pé, e
colocara a mala no bagageiro). Decidiu que atiraria o vidro de perfume com a mão
direita, e com a esquerda puxaria o fio do alarme. Tinha cinqüenta anos de idade, e
um filho na universidade. Mesmo assim, é fato que homens são muito perigosos. Leu
meia coluna do seu jornal; depois espiou secretamente por cima da folha para decidir o
problema da segurança pelo infalível teste da aparência... Gostaria de oferecer-lhe o
jornal. Mas será que rapazes liam o Morning Post? Olhou para ver o que ele estava
lendo — era o Daily Telegraph.
Observando as meias dele (frouxas), a gravata (desbotada), chegou mais uma vez ao
seu rosto. Deteve-se na boca. Lábios cerrados. Os olhos baixos, pois ele estava lendo.
Tudo firme mais juvenil, indiferente, inconsciente — capaz de abater alguém? Não,
não, não! Ela olhou pela janela, sorrindo de leve, agora, depois voltou, pois ele não a
notara. Grave, inconsciente... agora ele ergueu o olhar, mas sem fitá-la... parecia tão
deslocado sozinho com uma senhora idosa... depois fixou os olhos — de um azul
aguado — na paisagem. Ela pensou que o rapaz nem percebera sua presença. Mas não
era culpa dela que aquele não fosse um vagão de fumantes — se era isso que ele queria
demonstrar.
Ninguém vê ninguém tal qual é — exceto uma senhora idosa sentada diante de um
estranho num vagão de trem. As pessoas vêem um todo — vêem toda sorte de coisas —
vêem a si mesmas... Agora a sra. Norman leu três páginas de um dos romances do sr.
Norris. Deveria dizer ao rapaz (afinal ele tinha a mesma idade do filho dela): "Se quer
fumar, não se preocupe comigo"? Não: ele parecia absolutamente indiferente à sua
presença... Ela não quis interromper.
Contudo, uma vez que, mesmo na sua idade, magoava-se com a indiferença dele, seria
de se presumir que, de uma forma ou de outra — ao menos para ela — o rapaz era
simpático, bonito, interessante, distinto, de boa aparência, como seu próprio filho?
Temos de fazer o melhor que pudermos com o relatório dela. De qualquer modo,
aquele era Jacob Flanders, 19 anos. Não adianta tentar classificar pessoas. E preciso
seguir alusões, não exatamente o que é dito, nem inteiramente o que é feito — por exemplo, quando o trem entrou na estação, o sr. Flanders abriu a porta num arranco,
pegou a frasqueira para ela, dizendo, ou antes resmungando: "Permita", muito
timidamente; na verdade, fazia-o de modo bastante constrangido.
— Quem... — disse a senhora ao encontrar o filho; mas havia uma multidão na
plataforma, e Jacob já se fora quando ela ainda não concluíra a frase. Como ali fosse
Cambridge, como fosse ficar por três semanas, como não visse senão rapazes o dia todo,
nas ruas e ao redor das mesas, a visão daquele companheiro de viagem perdeu-se
totalmente em sua memória, como um alfinete de segurança que uma criança joga na
fonte dos desejos, rodopia na água e some para sempre.
Dizem que o céu é o mesmo por toda parte. Viajantes, náufragos e exilados buscam
conforto nessa idéia, inclusive consolo, se forem de temperamento místico, e até
explicação, revelação da superfície indevassada. Mas, por cima de Cambridge — ao
menos sobre o telhado da capela do King's College —, há algo diferente. No mar, uma
cidade grande lançará claridade para o céu. Será por acaso fantasia imaginar o céu
inundando as frestas da capela de King's College, mais claro, mais tênue, mais
cintilante do que o céu em outro lugar qualquer? Cambridge não arde apenas de noite,
mas também durante o dia?
Como tatalam aéreas as vestes deles quando passam para a cerimônia, como se dentro
delas não houvesse nada denso nem corpóreo. Que faces esculpidas, que segurança, que
autoridade controlada pela piedade, embora sob esses trajes haja grandes botas em
marcha. Como é ordenada a procissão em que avançam. Grossas velas de cera, erectas;
rapazes erguem-se em trajes alvos, enquanto a águia servil sustenta para inspecção o
grande livro branco.
Um plano inclinado de luz entra nítido através de cada janela, púrpura e amarelo
mesmo em meio à poeira difusa, e quando nelas se fragmenta, as pedras são docemente
marcadas em vermelho macio, amarelo e roxo. Nem a neve nem as folhagens, inverno
ou verão, têm poder sobre esse vidro antigo e colorido. Tal como o bojo de um lampião
protege a chama de modo que ela arda firme até na noite mais tempestuosa — arda
firme e ilumine gravemente os troncos das árvores —, assim tudo é ordenado dentro da
capela. As vozes soavam graves; o órgão respondia sabiamente, como se confirmasse a
fé humana a sancionar os elementos. As figuras de branco cruzavam de um lado para
outro; ora subindo degraus, ora descendo, tudo ordenadamente.
...Se alguém instala um lampião debaixo de uma árvore, cada inseto da floresta se
arrastará até ele — curiosa assembléia, pois, embora rastejem e esvoacem e batam suas
cabeças no vidro, parecem não ter objetivo algum — uma coisa sem sentido os inspira.
A gente se cansa de observá-los a se moverem lentos em torno da lanterna, batendo
nela cegamente, como se quisessem entrar, um grande sapo parecendo o mais
atordoado de todos, a abrir caminho com os ombros entre os demais. Mas, que é isso?
Uma assustadora saraivada de tiros de pistola — agudos estalos; uma ondulação se espraia — o silêncio baixa suave sobre o ruído. Uma árvore — uma árvore tombou,
uma espécie de morte na floresta. Depois, o vento sopra melancólico no arvoredo.
Mas essa cerimônia na capela do King's College — por que permitir que mulheres
tomem parte? Certamente, se o pensamento começa a vaguear (Jacob parecia
extraordinariamente ausente, cabeça para trás, livro de hinos aberto na página
errada), se o pensamento vagueia, é porque naquelas cadeiras com assentos de
palhinha se espalham várias lojas de chapéus e armários e mais armários de vestidos
coloridos. Embora cabeças e corpos possam ser bastante devotos, tem-se uma noção das
individualidades — algumas gostam de azul, outras da marrom; estas de plumas,
aquelas de amores-perfeitos ou miosótis. Pois, embora um cão fique muito bem num
caminho de cascalhos e não falte com respeito às flores, quando anda por uma nave,
olhando, erguendo uma pata e chegando perto de um pilar com um objetivo que faz o
sangue gelar de horror (se você for membro da congregação — a timidez, aqui, não
vem ao caso), um cão estragará a cerimônia por completo. Assim também é com essas
mulheres — ainda que devotas se consideradas separadamente, distintas, com sua
posição assegurada pela teologia, a matemática, o latim e o grego dos maridos. Deus
sabe por que é assim. Primeiro, pensou Jacob, porque são feias como o pecado.
Agora ouvia-se arrastar de pés e murmúrio. Ele encontrou o olhar de Timmy Durrant;
fitou-o firme; e então, solenemente, deu uma piscadela.
Waverlcy chamava-se a villa na estrada para Girton, não que o sr. Plumer admirasse
Scott ou tivesse escolhido um nome, mas nomes são úteis quando é preciso entreter
universitários, e enquanto estavam sentados aguardando o quarto colega na hora do
almoço de domingo, falavam sobre nomes inscritos por cima de portões.
— Que coisa cansativa — interrompeu a sra. Plumer impulsivamente. — Alguém aqui
conhece o sr. Flanders?
O sr. Durrant conhecia; por isso corou vim pouco, e embaraçado disse algo sobre ter
certeza de que — olhava o sr. Plumer e repuxava a perna direita da calça ao falar. O sr.
Plumer ergueu-se, ficou parado diante da lareira. A sra. Plumer emitiu uma risada de
amigo franco e amável. Em suma, não se pode imaginar cena mais horrível, o
ambiente, a paisagem, mesmo com o jardim de maio afligido pela fria esterilidade, e
uma nuvem escolhendo aquele instante para atravessar-se na frente do sol. Havia um
jardim, claro. Todo mundo olhou para ele no mesmo momento. Devido à nuvem as
folhas encresparam-se, cinzentas, e os pardais... Havia dois pardais.
— Eu acho — disse a sra. Plumer, tirando vantagem do súbito intervalo enquanto os
rapazes olhavam o jardim, para fitar o marido, e ele, embora sem aceitar a plena
responsabilidade pelo que fazia, tocou a sineta.
Não pode haver desculpa por esse ultraje a uma hora na vida humana, exceto a
reflexão que ocorreu ao sr. Plumer, enquanto cortava o carneiro, de que, se nenhum
deão jamais oferecesse um almoço, se domingo após domingo se passasse, homens se diplomassem, se tornassem advogados, médicos, membros do parlamento, homens de
negócios — se jamais deão algum oferecesse um almoço...
— Então, é o carneiro que faz o molho de hortelã, ou é o molho de hortelã que faz o
carneiro? — perguntou a um rapaz perto dele, a fim de romper o silêncio que já
durava cinco minutos e meio.
— Não sei, senhor — respondeu o rapaz, corando intensamente.
Nesse momento chegou o sr. Flanders. Perdera a hora.
Então, embora tivesse terminado de comer a carne, a sra. Plumer serviu-se novamente
de repolho. Jacob, naturalmente, decidiu que comeria a sua carne no tempo que ela
levasse para terminar o repolho, olhando só uma vez ou duas para calcular o ritmo
dela — mas estava com uma fome infernal. Vendo isso, a sra. Plumer disse que estava
certa de que o sr. Flanders não repararia — e trouxeram a torta. Balançando a cabeça
de um jeito peculiar, ordenou à criada que servisse ao sr. Flanders uma segunda porção
de carneiro. Deu uma olhada na carne. Não sobraria pernil suficiente para o jantar.
Não era culpa dela — pois como poderia ter controlado o fato de seu pai a conceber
quarenta anos atrás nos subúrbios de Manchester? E uma vez concebida, como teria
podido fazer outra coisa senão crescer sovina, ambiciosa, com uma noção
instintivamente apurada dos degraus da ascensão social, e uma assiduidade de formiga
em empurrar George Plumer à sua frente, para o alto dessa escada? O que havia no
alto da escada? Havia uma impressão de que aparentemente todos os degraus ficavam
abaixo da gente; desde a época em que George Plumer se tornara professor de física, ou
do que quer que fosse, a sra. Plumer só podia agarrar firme essa dignidade, olhar para
baixo, e incitar suas duas modestas filhas a escalarem os tais degraus.
— Estive ontem nas corridas com minhas duas filhinhas — disse.
Elas também não tinham culpa. Ambas entraram na saleta com roupas brancas e
faixas azuis na cintura. Ofereceram cigarros. Rhoda herdara os frios olhos cinzentos do
pai. George Plumer tinha frios olhos cinzentos, mas neles habitava uma luz abstrata.
Era capaz de falar na Pérsia e nos Ventos Alíseos, no Projeto da Reforma e no Ciclo das
Colheitas. Havia livros de Wells e Shaw em suas estantes; sobre a mesa, semanários
baratos, escritos por homens pálidos de botinas sujas — rangidos e choramingos
hebdomários de cérebros enxaguados em água fria e torcidos para secar — jornais
muito melancólicos.
— Parece que não sei a verdade sobre coisa alguma, se não tiver lido esses dois! — disse a
sra. Plumer em tom brilhante, batendo no índice com a mão vermelha e nua, na qual
o anel parecia tão incongruente.
— Oh Deus, oh Deus, oh Deus! — exclamou Jacob quando os quatro estudantes saíram
da casa. — Oh meu Deus!
— Abominável! — disse ele, olhando a rua em busca de lilases ou de uma bicicleta,
qualquer coisa que lhe restaurasse o sentimento de liberdade.
— Abominável! — disse a Timmy Durrant, resumindo o desconforto que o mundo lhe
provocara na hora do almoço, um mundo capaz de existir — sem dúvida —, mas
absolutamente desnecessário, tão difícil de se acreditar — Shaw e Wells e aqueles
semanários baratos e sérios! O que é que pretendiam essas pessoas mais velhas,
esfregando e demolindo? Jamais tinham lido Homero, Shakespeare e os elisabetanos?
Via tudo claramente delineado contra as sensações que extraía da sua própria
juventude e naturais inclinações. Os pobres diabos tinham inflacionado o preço
daquele objeto tão precário. Ainda assim, sentia algo parecido com piedade. Aquelas
pobres menininhas...
A extensão da sua perturbação prova o quanto já andava inquieto. Era insolente,
inexperiente; sem dúvida, porém, as cidades que os mais antigos da raça construíram
sobre o horizonte apareciam como subúrbios de tijolo, casernas, lugares de disciplina
contra uma labareda amarela e rubra. Ele era impressionável; mas esse adjetivo é
contrariado pela postura com que fechava a mão em concha para abrigar um fósforo.
Era um rapaz de substância.
De qualquer modo, fosse universitário ou empregado de loja, homem ou mulher, devia
ser um choque aos vinte anos — o mundo dos mais velhos —, esboçado num contorno
tão negro sobre aquilo que somos; sobre a realidade; os pântanos e Byron; o mar e o
farol; o maxilar de ovelha com dentes amarelos; a convicção obstinada e invencível que
torna a juventude tão insuportavelmente desagradável — "Eu sou o que sou, e
pretendo ser exatamente isso" —, para a qual não haverá forma no mundo exceto se
Jacob criar a sua. Os Plumers tentarão evitar que o faça; Wells e Shaw e os semanários
sérios e baratos estarão no topo. Cada vez que almoçar fora no domingo — em jantares
e chás — haverá esse mesmo choque — horror — desconforto — depois prazer, porque
a cada passo, enquanto caminha ao longo do rio, ele haure uma tal segurança, tal
tranqüilidade de todos os lados, as árvores curvando-se, os cones cinzentos e macios no
azul, sopros de vozes parecendo suspensos no ar, o ar primaveril de maio, o ar elástico
com suas partículas — flores de castanheiro, pólen, o que quer que esteja dando ao ar
de maio essa potência, manchando as árvores, dando seiva aos botões, reforçando o
verde. E também o rio passa, não numa torrente rápida, mas sugando o remo que nele
submerge e transpira alvas gotas da pá flutuando verde e profunda sobre os juncos
vergados como se os acariciasse devagar.
As árvores deitavam seus ramos no ponto em que amarraram o barco, de modo que as
folhas das pontas dos ramos arrastavam-se nas ondas, e a quilha verde na água, feita de
folhas, movia-se com efeitos de folhagem, como também as folhas reais se movem.
Agora, um arrepio de vento — por um instante, uma orla do céu; e enquanto comia
cerejas, Durrant deixava cair na quilha verde de folhas as frutas amarelas e raquíticas,
caules tremendo quando serpeavam para dentro e para fora, e por vezes uma cereja
mordida mergulharia rubra naquele verdor. Quando Jacob se deitou para trás, a campina ficou ao nível de seus olhos, iluminada pelos botões-de-ouro. A relva, porém,
não corria como a tênue água verde da grama do cemitério, quase cobrindo as
sepulturas; ela estacionava, densa e seivosa. Olhando para cima e para trás, ele via
pernas de crianças afundadas na relva, e pernas de vacas. Rac, rac, ouvia; depois um
passo curto na grama; e novamente rac, rac, rac, quando arrancavam a grama rente às
raízes. À frente dele, duas borboletas brancas circulavam cada vez mais alto em torno
do olmo.
"Jacob está desligado", pensou Durrant erguendo os olhos de seu romance. Lia mais
umas páginas, depois erguia, tirava algumas cerejas do saco de papel e as comia
distraído. Outros barcos passavam por eles cruzando a água parada para se desviarem
uns dos outros, pois agora havia muitos atracados, e numa coluna de ar entre duas
árvores viam-se vestidos brancos e uma mancha redonda com uma sinuosa listra azul
— o piquenique de Lady Miller. Mais barcos chegavam e sem se levantar Durrant
dirigiu o seu para mais perto da margem.
— Ooooh! — resmungou Jacob quando o bote oscilou e as árvores oscilaram e os vestidos
brancos e as calças de flanela branca oscilaram longas e ondulantes na ribanceira.
— Ooooh! — Ele sentou-se e teve a impressão de que um pedaço de elástico lhe atingira
o rosto.
— São amigos de minha mãe — disse Durrant. — Ao que vejo, o velho lobo do mar não
pára de se preocupar com seu barco.
O tal barco tinha ido de Falmouth à Baía de St. Ives, rodeando a costa toda. Durrant
disse que no caso deles se tratava de um outro barco, maior, um iate de dez toneladas,
bem equipado, a sair por volta do dia 15 de junho.
— Mas há o problema do dinheiro — comentou Jacob.
— Minha família vai cuidar disso — retrucou Durrant (filho de um banqueiro já
falecido).
— Pretendo manter minha independência econômica — declarou Jacob formalizado.
(Estava ficando nervoso.) — Minha mãe disse qualquer coisa sobre ir a Harrogate —
comentou um pouco aborrecido, apalpando o bolso onde guardava suas cartas.
— O que existe de verdade nessa história do seu tio se tornar maometano? — perguntou
Timmy Durrant.
Jacob contara a história do seu tio Morty, na noite anterior, no quarto de Durrant.
— Espero que ele esteja alimentando os tubarões, se a verdade for conhecida — disse
Jacob. — Ei, Durrant, não sobrou nenhuma! — exclamou, remexendo no saco de papel
que continha cerejas e jogando-o no rio. Enquanto o atirava, avistou o grupo de
piquenique de Lady Miller.
Unia espécie de constrangimento, irritação, melancolia, desven- dou-se em seus olhos.
— Vamos sair daqui... Esse bando abominável...
E seguiram em frente, passando além da ilha.
A penugenta lua branca não deixava o céu escurecer por inteiro; por toda a noite as
flores do castanheiro alvejaram no verde; a cicutária escurecia os prados.
Os garçons do Trinity deviam estar embaralhando pratos como cartas de jogo, pelo
ruído que se podia ouvir em Great Court. Mas os aposentos de Jacob eram em Nevilles
Court; bem no topo; de modo que se chegava um pouco ofegante à sua porta; ele,
porém, não estava em casa. Jantando no hall provavelmente. Tudo está bastante escuro
em Nevilles Court, antes da meia-noite, só os pilares do outro lado se mostrarão sempre
brancos, e as fontes. O portão surte um efeito estranho, como renda sobre o verde-
pálido. Ouvem-se os pratos até da janela; um murmurejar de conversas também, de
pessoas jantando; o hall iluminado, as portas giratórias abrindo e fechando com uma
batida suave. Alguns retardatários.
O quarto de Jacob tinha uma mesa redonda e duas cadeiras baixas. Havia lírios
amarelos numa jarra sobre a lareira; uma fotografia de sua mãe; cartões de diversas
sociedades com pequenas meias-luas, brasões, iniciais; bilhetes e cachimbos; sobre a
mesa, papel pautado com margem vermelha — sem dúvida, uma dissertação: "A
História consistirá em biografias de grandes homens?" Mas havia muitos livros; poucos
franceses; qualquer pessoa de algum valor lê apenas o que aprecia, conforme seu estado
de alma, com imenso entusiasmo. Vidas do duque de Wellington, por exemplo;
Spinoza; as obras de Dickens; o Facry Queen; um dicionário de grego com pétalas de
papoulas comprimidas em seda nas páginas; todos os elisabetanos. Os chinelos dele
eram incrivelmente cambaios, como barcos queimados na beira da água. Depois, havia
fotos dos gregos, uma gravura de Sir Joshua — tudo muito inglês. As obras de Jane
Austen também, talvez por deferência ao gosto de outra pessoa. Carlyle fora um
prêmio. Havia muitos livros sobre pintores italianos da Renascença, um Manual de
enfermidades de eqüinos, e todos os livros-texto de costume. O ar num quarto vazio é
lânguido, mal inflando a cortina; as flores fenecem no vaso. Uma fibra da cadeira de
balanço estala, embora não haja ninguém sentado nela.
Descendo os degraus um pouco de lado (Jacob sentava-se no banco da janela,
conversando com Durrant; fumava, e Durrant olhava o mapa), o velho, mãos nas
costas, roupa negra tatalando, cambaleava inseguro junto da parede; depois subiu para
seu quarto. Depois outro, que ergueu a mão e elogiou as colunas, o portão, o céu; outro
ainda, em passinhos curtos e afetados. Cada um subia por uma escada; três luzes foram
acesas nas janelas escuras.
Se há luz ardendo por cima de Cambridge, tem de ser em três quartos desses; aqui
ardem os gregos; ali, ciência; filosofia no andar térreo. O pobre velho Huxtable não
consegue andar em linha reta; Sopwith também louvou o céu todas as noites nesses
vinte anos; e Cowan ainda dá suas risadinhas por causa das mesmas histórias. Não é
simples nem pura nem inteiramente esplêndida a lâmpada do conhecimento, pois,
vendo-os ali, debaixo da sua luz (não importa se há na parede um Rossetti, ou uma reprodução de Van Gogh, ou se há lilases na jarra, ou velhos cachimbos), como
parecem clericais! Como tudo semelha um desses subúrbios aonde se vai para ver uma
paisagem e comer um bolo especial! "Somos os únicos a fornecer esse tipo de bolo." E
volta-se a Londres porque a brincadeira acabou.
O velho professor Huxtable, mudando de roupa metódico como um relógio, sentou-se
na cadeira; encheu o cachimbo; escolheu o papel; cruzou os pés; tirou os óculos. Então
toda a carne do seu rosto desabou em dobras, como se tivessem removido as estacas de
sustentação. Mas, arranquem toda uma fila de assentos de um vagão do metrô, e eles
caberão ordenados na cabeça de Huxtable. Agora mesmo, enquanto seus olhos descem
pelas letras impressas, uma procissão anda pelos corredores do seu cérebro, em ordem,
a passos rápidos, até que todo o salão, abóbada, ou não importa o quê, estejam
povoados de idéias. Em nenhum outro cérebro acontece um tal desfile. Outras vezes,
no entanto, ficará sentado ali horas a fio, agarrado ao braço da cadeira como um
homem segurando-se firme porque naufragou, e então, apenas porque seu calo dói ou
talvez o reumatismo, que abominação, meu Deus, ouvi-lo falar em dinheiro, pegar a
carteira de couro e resmungar por causa da mais insignificante moeda de prata,
fechado em si e cheio de suspeitas como uma velha camponesa com todas as suas
mentiras. Estranha paralisia e constrição — maravilhosa iluminação. Serena por cima
disso tudo cavalga a grande sobrancelha densa, e quando ele dorme, ou nos espaços
quietos da noite, pode-se imaginá-lo jazendo triunfalmente sobre uma almofada de
pedra.
Entrementes, avançando da lareira, num curioso andar oscilante, Sopwith corta o bolo
de chocolate. Até meia-noite ou mais haveria universitários em seu quarto, às vezes 12,
outras três ou quatro; mas ninguém se levantava quando saíam ou chegavam; Sopwith
continuava falando. Falando, falando, falando — como se tudo pudesse ser falado —, a
própria alma esgueirando-se de seus lábios em tênues discos argênteos, que se
dissolviam nas mentes dos jovens, como prata, como luar. Ah, bem mais tarde se
recordariam disso e, num profundo embotamento, voltariam para lá o olhar,
renovando-se.
— Bom, eu nunca. Eis aí o velho Chucky. Meu caro rapaz, como vai a vida? — E o
pobre, pequeno Chucky entrava, o provinciano fracassado, sendo Stenhouse o seu
verdadeiro nome, mas, naturalmente, usando o outro, Sopwith evocava tudo aquilo,
tudo, "tudo o que eu jamais poderei ser" — sim, embora no dia seguinte, comprando o
jornal e apanhando o primeiro trem, tudo lhe parecesse absurdo e infantil; o bolo de
chocolate, os rapazes; Sopwith repetindo coisas; não, de modo algum; ele haveria de
mandar seu filho para lá. Economizaria cada centavo para mandar seu filho para lá.
Sopwith não parava de falar; urdindo as rijas fibras de uma linguagem desajeitada —
coisas que os rapazes diziam sem refletir —, depois as colocava em pregas em torno da
sua própria guirlanda flexível, mostrando o lado luminoso, os verdes intensos, os espinhos agudos, a virilidade. Ele amava isso. Na verdade, um homem podia dizer
qualquer coisa a Sopwith, talvez até quando ele se tornasse velho ou decadente,
descendo fundo, quando os discos argênteos soassem ocos e a inscrição fosse lida com
demasiada simplicidade, e a velha estampa parecesse pura demais, a ilustração sempre
a mesma — a cabeça de um menino grego. Mas ele, ainda então, seria respeitado. Uma
mulher, porém, adivinhando o sacerdote, involuntariamente o desprezaria.
Cowan, Erasmus Cowan, bebericava seu vinho-do-porto, sozinho ou com um
homenzinho rosado, cuja memória abrangia exatamente o mesmo lapso de tempo;
bebericava o seu porto e contava suas histórias e, sem livro à frente, entoava latim,
Virgílio e Catulo, como se a linguagem fosse vinho em seus lábios. Mas — isso às vezes
nos ocorre —, e se o poeta entrasse? "E esta a minha imagem?", poderia perguntar,
apontando para o homem gorducho cujo cérebro, afinal de contas, é o representante de
Virgílio entre nós, embora o corpo seja glutão, e quanto a braços, abelhas ou mesmo
arado, Cowan faz suas excursões ao estrangeiro, um romance francês no bolso, manta
sobre os joelhos, e sente-se grato por estar de novo em casa, em seu lugar, em seus
limites, mostrando em seu espelhinho familiar a imagem de Virgílio rodeada de boas
histórias sobre os deães de Trinity e rubros reflexos de vinho-do-porto. Contudo, a
linguagem é vinho em seus lábios. Virgílio não ouviria coisas assim em nenhum outro
lugar. E embora, enquanto passeia nos Backs, a velha srta. Umphelby o cante bastante
melodiosamente e também com correção, quando chega a Clare Bridge, sempre se
preocupa com este problema: "Mas, se o encontrasse, Virgílio, o que deveria vestir?" —
e então, seguindo seu caminho pela avenida na direção de Newham, deixa a
imaginação brincar com detalhes de encontros entre homens e mulheres, jamais
publicados. Por isso suas aulas não têm nem a metade da assistência das de Cowan, e
aquela palavra que ela poderia ter dito para elucidar o texto jamais foi pronunciada.
Em resumo, faça um professor defrontar-se com a imagem do que é ensinado, o
espelho se parte. Passada, porém, a sua exaltação, Cowan bebericava o porto e já não
era um representante de Virgílio. Não, antes o construtor, o assessor, o supervisor;
traçando linhas entre nomes, pendurando listas nas portas. Essa é a textura através da
qual a luz deve brilhar, se brilhar pode — a luz de todas essas linguagens, chinês e
russo, persa e árabe, de símbolos e figuras, de história, e coisas que só são conhecidas e
coisas que ainda estão por o serem. De modo que, se à noite, longe no mar sobre as
ondas tumultuadas, se avistasse um nevoeiro sobre as águas, uma cidade iluminada,
um alvor no céu, como esse agora sobre o hall de Trinity onde ainda estão jantando, ou
lavando pratos, isso seria a luz ardendo ali — a luz de Cambridge.
— Vamos até o quarto de Simeon — disse Jacob, e enrolaram o mapa depois de tudo
combinado.
Todas as luzes brotavam ao redor do pátio, caindo nas pedras arredondadas do
calçamento, destacando tufos escuros de grama e solitárias margaridas. Os rapazes tinham voltado a seus quartos. Deus sabe o que estariam fazendo. O que poderia estar
gotejando assim? E debruçando-se sobre uma floreira de janela, cheia de flocos
brancos, um fazia parar outro que passava rápido, e subiam as escadas, e desciam as
escadas, até que uma espécie de plenitude baixava sobre o pátio, a colméia cheia de
abelhas, as abelhas em casas densas de ouro, ébrias, zumbindo, subitamente
vocalizadas; a Sonata ao Luar respondida por uma valsa.
A Sonata ao Luar perdeu-se num tilintar; a valsa despedaçou- se. Embora ainda
houvesse rapazes entrando e saindo, andavam como se tivessem encontros marcados.
Aqui e ali uma batida surda, como um móvel batendo inesperadamente por conta
própria. Supufhi ergueu os olhos do livro que estavam lendo quando Hovil tombou.
Estavam lendo? Certamente pairava no ar uma impressão de coisa concentrada. Atrás
das paredes cinzentas sentavam-se tantos rapazes, alguns indubitavelmente lendo
revistas e romances sensacionalistas, claro; talvez pernas por cima dos braços de
poltronas; fumando; esparramando-se sobre mesas e escrevendo, enquanto suas
cabeças giravam em círculos conforme se movesse a caneta — rapazes simples aqueles,
que haveriam de..., mas não se precisava pensar neles envelhecendo; outros comendo
doces; aqui trocavam socos; e o sr. Hawkins deve ter ficado indignado de súbito, pois
abriu num arranco a janela e berrou: "Jo-seph! Jo-seph!" e depois correu pelo pátio o
mais depressa que podia, enquanto um homem idoso, de avental verde, carregando
uma imensa pilha de talheres de estanho, hesitou, recuperou o equilíbrio, prosseguiu.
Mas era uma festa aquilo. Alguns rapazes liam deitados em poltronas baixas,
segurando seus livros como se sustivessem nas mãos algo que os ajudava a passarem
aquele tempo difícil; todos angustiados, vindos de cidades do interior, filhos de clérigos.
Outros liam Keats. E aquelas longas histórias em vários volumes — certamente alguém
começava do começo, para entender o Sagrado Império Romano corno se deve.
Isso fazia parte da concentração, embora fosse perigoso numa cálida noite de
primavera — perigoso, talvez, concentrar-se demais em livros isolados, capítulos
únicos, se a qualquer momento a porta haveria de abrir-se e Jacob apareceria; ou
Richard Bonamy, já não mais lendo Keats, começaria a fazer longos pavios cor-de- rosa
com jornais velhos, inclinado para diante, não parecendo mais aplicado nem contente,
mas quase feroz. For quê? Talvez apenas porque Keats morreu jovem — a gente
também quer escrever poesia, e amar — ah, que brutos! E terrivelmente duro.
Contudo, afinal de contas, não é tão duro assim, se no próximo lance de escadas, no
quarto grande, há dois, três, cinco rapazes, todos convencidos disso, quer dizer, da
brutalidade e da nítida fronteira entre o certo e o errado. Havia um sofá, cadeiras, uma
mesa quadrada, e com a janela aberta podia-se ver como estavam sentados — pernas
aparecendo aqui; ali, uma dobrada no canto do sofá; e, presumivelmente, pois não
podia ser visto, havia alguém parado no guarda-fogo da lareira, conversando. De
qualquer modo, sentado a cavalo numa cadeira, comendo tâmaras de uma caixa comprida, Jacob estourou na risada. A resposta veio do canto do sofá; pois seu
cachimbo ficou erguido no ar, depois foi recolocado. Jacob girou sobre si mesmo. Tinha
algo a retrucar àquilo, embora o robusto rapaz de cabelo vermelho na mesa parecesse
negar balançando lentamente a cabeça; e então, pegando o canivete, enfiou
repetidamente a ponta num nó da madeira, como que afirmando que a voz do guarda-
fogo falava a verdade — o que Jacob não podia negar. Possivelmente, quando tivesse
terminado de arrumar as sementes de tâmara, encontrasse algo para dizer — na
verdade, seus lábios se abriram e deles irrompeu uma risada.
A risada morreu no ar. Dificilmente o som poderia ter chegado até uni dos que
estavam junto da capela, do outro lado do pátio. A risada morreu, e só gestos de braços,
movimentos de corpos, podiam ser vistos configurando qualquer coisa no aposento. Era
uma discussão? Uma aposta nas corridas de barcos? Não era nada disso?
O que estava sendo conformado por braços e pernas movendo-se no quarto
penumbroso?
Um ou dois passos mais além da janela, não havia nada exceto as construções ao redor
— chaminés erectas, telhados horizontais; tijolos demais e edificações demais para uma
noite de maio, talvez. E então, diante de nossos olhos apareceriam as colinas nuas da
Turquia — contornos nítidos, terra seca, flores coloridas, cores nos ombros das
mulheres paradas de pernas nuas na torrente, batendo as roupas nas pedras. A torrente
erguia redemoinhos de água em redor de seus tornozelos. Mas nada disso podia
aparecer claramente através de faixas e lençóis movendo-se na noite de Cambridge.
Até o bater do relógio era amortecido; como se fosse reverentemente entoado por
alguém de um púlpito; como se gerações de eruditos escutassem a última hora rolar
entre suas fileiras e a emitissem, já abrandada e desgastada pelo tempo, com suas
bênçãos, para que os vivos fizessem uso dela.
Foi para receber essa dádiva do passado que o rapaz se dirigiu à janela e se postou ali,
olhando o pátio? Era Jacob. Parou, fumando o cachimbo, enquanto a última batida do
relógio se derramava macia ao seu redor. Talvez tivessem estado discutindo. Ele
parecia contente; na verdade, superior; essa expressão mudou ligeiramente enquanto
esteve ali parado, o som do relógio convergindo para ele (talvez) uma sensação de casas
antigas e de tempo; ele próprio o herdeiro; e depois, o amanhã, e os amigos; ao pensar
neles, em perfeita intimidade e prazer, bocejou e espreguiçou-se.
Enquanto isso, atrás dele, a figura que haviam criado, com discussão ou sem ela, a
figura espiritual, dura embora efêmera, como de vidro se comparada à pedra negra da
capela, fora estilhaçada; rapazes ergueram-se de cadeiras e cantos de sofá,
murmurando e fazendo ruído no aposento, empurrando-se para a porta do quarto de
dormir, caindo quando a porta cedeu. Deixaram então Jacob ali sozinho com Masham
na poltrona rasa? Com Anderson? Simeon? Ah, era Simeon. Todos os demais tinham
partido.
"...Juliano, o Apóstata..." Qual deles disse isso e as outras palavras murmuradas em
derredor? Mas pela noite, por vezes, sobe um vento pesado, como um vulto com véus,
subitamente acordado; era o que pulsava agora em torno de Trinity, erguendo folhas
invisíveis e tornando tudo difuso. "Juliano, o Apóstata", e depois o vento. Os ramos de
olmo se alçam, as velas inflam, velhas escunas empinam-se e adernam, as ondas pardas
do cálido Oceano Indico tumultuam-se mormacentas, depois tudo volta a se alisar.
Dessa forma, se a dama de véus andava pelos pátios de Trinity, agora está novamente
entorpecida, todos os panejamentos recolhidos ao seu redor, cabeça recostada num
pilar.
— Isso parece ter certa importância.
A voz baixa era de Simeon.
A voz que respondeu era mais baixa ainda. A batida seca de um cachimbo sobre a
lareira cancelou as palavras. E talvez Jacob apenas dissesse: hum, ou não dissesse coisa
alguma. Na verdade, as palavras eram inaudíveis. Era a intimidade, uma espécie de
maleabilidade espiritual, da mente imprimindo-se, indelével, sobre outra mente.
— Bem, você parece ter estudado o assunto — disse Jacob, erguendo-se e postando-se
diante da cadeira de Simeon. Equilibrava-se; balançava um pouco. Parecia
extraordinariamente feliz, como se o seu prazer fosse chegar até as bordas e escorrer
pelos lados, quando Simeon falasse.
Simeon nada disse. Jacob continuou em pé. Mas a intimidade — o aposento estava
pleno dela, quieto e profundo como uma piscina. Sem necessidade de movimento ou
fila, ela erguia-se branda, recobrindo tudo, amaciando, iluminando e revestindo a
mente com o lustro de uma pérola, de modo que, se você fala de uma luz, de
Cambridge ardendo, não é apenas a linguagem. É Juliano, o Apóstata.
Jacob, porém, moveu-se. Murmurou boa noite. Saiu para o pátio. Abotoou o casaco
sobre o peito. Voltou a seus aposentos, e sendo o único homem a andar de volta a seus
aposentos nessa hora, seus passos ressoavam e sua figura assomava enorme. O som de
seus passos vinha da capela, do hall, da biblioteca, como se as velhas pedras ecoassem
em tom professoral: "O jovem... o jovem... o jovem... volta a seus aposentos."