O Segredo de Emma Corrigan
Doze
- Sim – concordo, finalmente. – Sim, seria ótimo.
- Ótimo! – Ele pára. – A única coisa é que minha vida está meio complicada agora. E
com a situação no nosso escritório... – Ele abre as mãos. - Talvez seja boa idéia mantermos isso só entre nós.
- Ah, eu concordo totalmente – digo depressa. – Nós devemos ser discretos.
- Então, digamos... que tal amanhã à noite? Serve para você?
- Amanhã à noite seria perfeito.
- Eu vou pegá-la. Se você me passar um e-mail com o endereço. Oito horas?
- Oito horas!
Quando saio da sala de Jack, Sven me olha e levanta as sobrancelhas, mas não digo nada.
Volto ao departamento de marketing, tentando ao máximo manter o rosto desapaixonado e calmo. Mas a empolgação está borbulhando no meu estômago, e um sorriso gigantesco fica lambendo meu rosto.
Ah meu Deus. Ah meu Deus. Vou jantar com Jack Harper. Simplesmente... não acredito.
Ah, quem eu estou querendo enganar? Eu sabia que isso ia acontecer. Assim que soube que ele não tinha ido para os Estados Unidos. Eu sabia.
Doze
Nunca vi Jemina tão aparvalhada.
- Ele sabe todos os seus segredos? – Ela está me olhando como se eu tivesse acabado de informar, com orgulho, que vou sair com um assassino em série. – O que você quer dizer com isso?
- Eu me sentei perto dele num avião e contei tudo sobre mim.
Franzo a testa para o reflexo no espelho e arranco outro fio de sobrancelha. São sete horas, eu tomei um banho, sequei o cabelo e agora estou fazendo a maquiagem.
- E agora ele convidou Emma para sair – comenta Lissy, abraçando os joelhos. – Não é romântico?
- Você está brincando, não está? – Jemina está pasma. – Diga que isso é uma piada.
- Claro que não estou brincando! Qual é o problema?
- Você vai sair com um homem que sabe tudo sobre você.
- É.
- E está perguntando qual é o problema? – Sua voz cresce, incrédula. – Está maluca?
- Claro que não estou maluca!
- Eu sabia que você estava a fim dele – gaba-se Lissy, pela milionésima vez. – Eu sabia.
Desde o momento em que você começou a falar dele. – Ela olha para o meu reflexo. – Eu deixaria essa sobrancelha em paz agora.
- Verdade? – Olho o meu rosto.
- Emma, a gente não fala aos homens sobre a gente! A gente tem de guardar alguma coisa! Mamãe sempre me disse que um homem nunca deve ver o conteúdo da bolsa da mulher.- Bem, é tarde demais – eu a desafio. – Ele já viu tudo.
- Então isso nunca vai dar certo. Ele nunca vai respeitar você.
- Vai sim.
- Emma – insiste Jemina, quase com pena. – Você não entende? Você já perdeu!
- Eu não perdi!
Algumas vezes acho que Jemina não vê os homens como pessoas, mas como robôs alienígenas que devem ser dominados por qualquer meio possível.
- Você não está ajudando muito, Jemina – intervém Lissy. – Qual é, você já teve um monte de encontros com empresários ricos. Você deve ter algum conselho bom!
- Certo. – Jemina suspira e pousa sua bolsa. – É uma causa sem solução, mas vou fazer o melhor possível. – Ela começa a contar nos dedos. – A primeira coisa é estar impecável.
- Por que você acha que eu estou fazendo as sobrancelhas? – rebato, com uma careta.
- Ótimo. Certo, outra é mostrar interesse pelos passatempos dele. De que ele gosta?
- Não sei. Carros, eu acho. Parece que ele tem um monte de carros antigos no rancho.
- Muito bem! – Jemina fica animada. – Isso é bom. Finja que você gosta de carros, sugira visitarem uma exposição de carros. Você poderia folhear uma revista de carros no caminho para lá.
- Não posso – respondo, tomando um gole relaxante, pré-encontro, de Harvey’s Bristol Cream. – Eu disse a ele no avião que odeio carros antigos.
- Você fez o quê? – Jemina parece a ponto de me dar um soco. – Você contou ao homem com quem vai se encontrar que odeia o passatempo predileto dele?
- Eu não sabia que ia me encontrar com ele, sabia? – digo na defensiva, pegando minha base. – E, de qualquer modo, é verdade. Eu odeio carros antigos. As pessoas que andam neles sempre parecem metidas a bestas e satisfeitas consigo mesmas.
- O que é que a verdade tem a ver com as coisas? – A voz de Jemina se ergue, agitada. –
Emma, sinto muito, não posso ajudar você. Isso é um desastre. Você está completamente vulnerável. É como ir para uma batalha de camisola.
- Jemina, isso não é uma batalha – respondo revirando os olhos. – E não é um jogo de xadrez. É um jantar com um homem bom!
- Você é cínica demais, Jemina – concorda Lissy. – Eu acho que é realmente romântico!
Eles vão ter um encontro perfeito, porque não vai haver aquela sensação incômoda. Ele sabe do que Emma gosta. Sabe no que ela é interessada. Os dois já são totalmente compatíveis.
- Bem, eu lavo minhas mãos – desiste Jemina, ainda balançando a cabeça. – O que você vai usar? – Seus olhos se estreitam. – Onde está sua roupa?
- Meu vestido preto – respondo inocentemente. – E a sandália de tiras. – Aponto para trás da porta, onde o vestido preto está pendurado.
Os olhos de Jemina se estreitam ainda mais. Sempre acho que ela seria uma boa oficial da SS.
- Você não vai pegar nada meu emprestado.- Não! – nego, indignada. – Francamente Jemina, eu tenho minhas roupas, né.
- Ótimo. Bem. Divirta-se.
Lissy e eu esperamos seus passos se afastarem até o fim do corredor e a porta da frente bater com força.
- Pronto! – exclamo empolgada, mas Lissy levanta a mão.
- Espera.
As duas ficamos sentadas imóveis por uns dois minutos. Depois ouvimos o som da porta da frente sendo aberta muito discretamente.
- Ela quer pegar a gente – sussurra Lissy. – Ei! – chama ela, levantando a voz. – Tem alguém aí?
- Ah, oi. – responde Jemina, aparecendo na porta do quarto. – Esqueci o brilho labial. –
Seus olhos fazem uma rápida varredura no quarto.
- Acho que não está aqui. – diz Lissy, inocente.
- Não. Bem. – Seus olhos viajam de novo cheios de suspeita pelo quarto. – Certo. Tenha uma boa noite.
De novo seus passos ecoam pelo corredor, e de novo a porta da frente bate com força.
- Pronto! – exclama Lissy. – Vamos.
Tiramos a fita adesiva da porta de Jemina e Lissy faz uma pequena marca onde ela estava.
- Espera! – adverte ela, quando estou para empurrar a porta. – Há outra embaixo.
- Você deveria ser espiã – observo, olhando-a tirar a fita com cuidado.
- Bom. – A testa de Lissy está franzida de concentração. – Tem de haver mais alguma armadilha.
- Tem fita adesiva no armário também – constato. – E... ah meu Deus! – aponto. Há um copo d’água equilibrado em cima do armário, pronto para nos encharcar se abrirmos a porta.
- Aquela vaca! – indigna-se Lissy quando vou pegá-lo. – Sabe, eu tive de passar a noite inteira atendendo ao telefone para ela um dia desses, e ela nem agradeceu.
Ela espera até eu ter posto o copo d’água num lugar seguro, depois estende a mão para a porta.
- Pronta?
- Pronta.
Lissy respira fundo, depois abre a porta do armário. Imediatamente uma sirene alta, penetrante, começa a uivar. “Uiii-uu uiii-uu uiii-uu...”
- Merda! – grita ela, batendo a porta. – Merda! Como ela fez isso?
- Continua tocando! – digo agitada. – Como é que pára?
- Não sei! Acho que precisa de um código especial!
Estamos as duas batendo freneticamente no armário, tateando, procurando um interruptor.
O som se interrompe abruptamente e nós nos encaramos, um pouco ofegantes.
- Na verdade – Lissy se manifesta depois de uma longa pausa. – Na verdade, eu acho que deve ter sido um alarme de carro lá fora.- Ah. Certo. É, talvez tenha sido.
Meio sem graça, Lissy estende a mão de novo para a porta, que desta vez se mantém em silêncio.
- Pronto. Aqui vai.
- Uau. – Respiramos ao mesmo tempo enquanto ela abre a porta.
O armário de Jemina é como um baú de tesouro. Como uma árvore de Natal. São roupas novas, brilhantes, lindas, uma depois da outra, todas muito bem dobradas e penduradas em cabides perfumados, como numa loja. Todos os sapatos ficam em caixas com fotos Polaroid na frente. Todos os cintos muito bem pendurados em ganchos. Todas as bolsas
estão muito bem enfileiradas numa prateleira. Já faz um tempo desde que eu peguei alguma coisa emprestada com Jemina, e cada item parece ter mudado desde então.
- Ela deve gastar uma hora por dia mantendo isso arrumado – comento com um suspiro, pensando na bagunça do meu armário.
- E passa mesmo. Eu já vi.
Veja bem, o armário da Lissy é ainda pior. Consiste numa cadeira em seu quarto, sobre a qual tudo é jogado numa pilha enorme. Ela diz que guardar coisas faz seu cérebro doer, e que, desde que esteja limpo, o que importa?
- Então! – Lissy ri, e estende a mão para um vestido branco e brilhante. – Que look madame vai querer esta noite?
Não uso o vestido branco brilhante. Mas experimento. De fato, nós duas experimentamos um bocado de coisas, e depois temos de colocar de volta, muito cuidadosamente. De vez em quando um alarme de carro é acionado lá fora, e nós duas pulamos aterrorizadas, para logo em seguida fingir que não estamos nem aí. No fim eu escolho uma incrível blusa vermelha, nova, com ombros cortados, com minhas calças de chiffon preto da DNKY (25 libras num bazar em Notting Hill) e a sandália Prada de salto alto, prateada, de Jemina. E depois, mesmo que eu não estivesse pretendendo, no último minuto pego também uma bolsinha Gucci.
- Você está incrível! – exclama Lissy quando faço uma pirueta. – Ma-ra-vi-lho-sa!
- Não estou chique demais?
- Claro que não! Qual é, você vai jantar com um multimilionário!
- Não diga isso! – exclamo sentindo os nervos apertarem o estômago. Olho o relógio.
São quase oito horas.
Ah meu Deus. Agora estou começando realmente a ficar nervosa. Na diversão de me arrumar, quase tinha esquecido para que era.
Fique calma, digo a mim mesma. É só um jantar. Só isso. Nada especial. Nada fora do...
- Porra! – Lissy está olhando pela janela da sala de estar. – Porra! Tem um carro grande lá fora!
- O quê? Onde? – Corro para perto dela, com o coração galopando. Quando acompanho seu olhar, estou quase sem fôlego.
Um carro enorme e chique está esperando do lado de fora da nossa casa. Quero dizer, enorme. É prateado e brilhante, e chama uma atenção incrível na nossa ruazinha. Na verdade estou vendo algumas pessoas olhando curiosas da casa do outro lado.
E de repente estou mesmo cheia de pavor. O que estou fazendo? Este é um mundo do qual eu não sei nada. Quando estávamos naquelas poltronas do avião, Jack e eu só éramos duas pessoas no mesmo nível. Mas olha agora. Olha o mundo em que ele vive – e olha o mundo em que eu vivo.
- Lissy – murmuro numa voz minúscula. – Não quero ir.
- Quer sim! – reage Lissy, mas dá para ver que ela está pirada como eu.
A campainha toca, e nós duas pulamos.
Acho que vou vomitar.
Certo. Certo. Lá vou eu.
- Oi – digo ao interfone. – Eu... já estou descendo.
Ponho o fone no gancho e olho para Lissy.
- Bem – sussurro com a voz trêmula. – É isso aí!
- Emma. – Lissy agarra minhas mãos. – Antes de ir. Não ligue para o que a Jemina falou.
Só se divirta. – Ela me abraça com força. – Ligue se puder.
- Eu ligo.
Dou uma última olhada no espelho, depois abro a porta e desço a escada.
Abro a porta de baixo e Jack está ali parado, usando paletó e gravata. Ele sorri para mim, e todos os meus medos voam para longe como borboletas. Jemina está errada. Não sou eu contra ele. Sou eu com ele.
- Oi – Jack ostenta um sorriso caloroso. – Você está muito bonita.
- Obrigada.
Estendo a mão para a maçaneta, mas um homem de quepe se adianta para abrir a porta do carro para mim.
- Sou uma idiota! – digo nervosa.
Não acredito que estou entrando nesse carro. Eu. Emma Corrigan. Estou me sentindo uma princesa. Uma estrela de cinema.
Sento-me no banco fofo, tentando não pensar em como esse carro é diferente de todos em que já entrei, em toda a vida.
- Você está bem? – pergunta Jack.
- Sim! Estou ótima! – Minha voz é um guincho nervoso.
- Emma. A gente vai se divertir. Eu prometo. Você tomou o xerez pré-encontro?
Como é que ele sabia...
Ah, sim. Eu contei no avião.
- Sim, tomei – admito.
- Quer mais um pouco? – Ele abre o bar e eu vejo uma garrafa de Harvey’s Bristol Cream numa bandeja de prata.
- Você comprou isso especialmente para mim? – exclamo, incrédula.
- Não, é minha bebida predileta. – Sua cara-de-pau é tão tremenda que não consigo evitar o riso. – Eu acompanho você – propõe ele, enquanto me entrega um copo. – Nunca provei isso antes. – Ele se serve de uma dose grande, toma um gole e quase cospe. – Está falando sério?
- É gostoso! Tem gosto de Natal!
- Tem gosto de... – Ele balança a cabeça. – Nem quero dizer que gosto tem. Vou ficar no uísque, se você não se incomodar.- Certo – concordo, dando de ombros. – Mas você está perdendo. – Tomo outro gole e dou um riso feliz. Já estou totalmente relaxada.