O Segredo de Emma Corrigan

Sophie Kinsella · Capítulo 20 de 30

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O Segredo de Emma Corrigan

Dezoito

- Bem... – Ele me olha por um longo momento, depois balança a cabeça. – Não.

- Conta! – E agora não consigo evitar um riso alto.

- Conto, não. Mostro. – murmura ele no meu ouvido, e me puxa. – Ninguém lhe ensinou isso?

Dezoito

Estou apaixonada.

Eu, Emma Corrigan, estou apaixonada.

Pela primeira vez em toda a minha vida estou totalmente, cem por cento apaixonada!

Passei a noite inteira com Jack na mansão Panther. Acordei nos braços dele. Fizemos sexo umas noventa e cinco vezes e foi simplesmente... perfeito (E, de algum modo, parece que nem ouve truques. O que foi um certo alívio).

Mas não é só o sexo. É tudo. É o modo como ele estava com uma xícara de chá me esperando quando acordei. É o modo como ele ligou seu laptop especialmente para eu olhar todos os meus horóscopos na Internet e me ajudou a escolher o melhor. Ele sabe todas as coisas horríveis e embaraçosas sobre mim, que eu normalmente tento esconder de qualquer homem pelo máximo de tempo possível... e me ama mesmo assim.

Bom, ele não disse exatamente que me amava. Mas disse uma coisa ainda melhor. Ainda fico revirando isso prazerosamente na cabeça. Nós estávamos ali deitados hoje cedo, os dois só meio que olhando o teto, quando de repente eu falei, meio sem querer:

- Jack, como foi que você se lembrou de que Kerry me recusou o estágio?

- O quê?

- Como foi que você lembrou de que Kerry me recusou o estágio? – Eu virei a cabeça lentamente para ele. – E não é só isso. Cada coisinha que eu contei naquele avião. Cada detalhezinho. Sobre o trabalho, sobre minha família, sobre Connor... tudo. Você se lembra de tudo. E eu não entendo.

- O que você não entende? – pergunta Jack franzindo a testa.

- Não entendo por que alguém como você iria se interessar por minha vidinha estúpida e chata – falei, com as bochechas pinicando de embaraço.

Jack me olhou em silêncio por um momento.

- Emma, sua vida não é estúpida e chata.

- É!

- Não é.

- Claro que é! Eu nunca faço nada empolgante, nunca faço nada inteligente, não tenho uma empresa nem inventei nada...

- Quer saber por que eu me lembro de todos os seus segredos? – interrompeu Jack. –

Emma, no minuto em que você começou a falar naquele avião... eu fiquei ligado.

Encarei-o incrédula.

- Você ficou ligado? – Falei para me certificar. – Em mim?

- Fiquei ligado – repetiu ele gentilmente, depois se inclinou e me beijou.

Ligado!

Jack Harper ficou ligado em minha vida! Em mim!

E o negócio é que, se eu não tivesse falado com ele naquele avião – se nunca tivesse posto tudo aquilo para fora – isto nunca teria acontecido. Nós nunca teríamos nos encontrado. Foi o destino. Eu tinha de entrar naquele avião. Eu tinha de ser trocada de classe. Eu tinha de botar os segredos para fora.

Quando chego em casa estou luzindo inteira. Uma lâmpada foi acesa dentro de mim. De repente sei qual é o sentido da vida. Jemina está errada. Homens e mulheres não são inimigos. Homens e mulheres são almas gêmeas. E se forem simplesmente honestos, desde

o pontapé inicial, todos vão perceber isso. Todo esse negócio de ser misterioso e distante é uma besteira completa. Todo mundo deveria compartilhar os segredos logo de cara.

Estou tão inspirada que acho que vou escrever um livro sobre relacionamentos. Vai se chamar “Não tenha medo de compartilhar”, e vai mostrar que homens e mulheres devem ser honestos uns com os outros, e assim vão se comunicar melhor, entender um ao outro e nunca ter de fingir sobre nada, nunca mais. E isso também poderia se aplicar às famílias. E

à política! Talvez, se os líderes mundiais contassem aos outros alguns segredos pessoais, não haveria mais guerras! Acho que essa é a descoberta.

Flutuo escada acima e destranco a porta do nosso apartamento.

- Lissy! – chamo. – Lissy, eu estou apaixonada!

Não há resposta, e eu sinto uma pontada de desapontamento. Queria ter alguém com quem falar. Queria alguém para contar tudo sobre a minha nova e brilhante teoria da vida e...

Ouço umas pancadas vindas do quarto dela e paro completamente imóvel no corredor, hipnotizada. Ah meu Deus. Aquelas pancadas misteriosas. Outra. E mais outra. O que, diabos...

E eu vejo, através da porta da sala. No chão, perto do sofá. Uma pasta. Uma pasta de couro preto. É ele. É Jean-Paul. Ele está lá. Neste minuto! Dou alguns passos para a frente e olho a porta, intrigada.

O que eles estão fazendo?

Não acredito na história dela, de que estão fazendo sexo. Mas o que mais pode ser? O

que mais poderia...

Certo... pára com isso. Não é da minha conta. Se Lissy não quer contar o que está aprontando, não quer. Sentindo-me muito madura, entro na cozinha e pego a chaleira para fazer uma xícara de café.

E largo a chaleira de novo. Por que ela não quer me contar? Por que ela tem um segredo que não me conta? Nós somos melhores amigas! Puxa, foi ela que disse que a gente não deveria ter nenhum segredo.

Não agüento isso. A curiosidade está me furando como uma broca de dentista. E esta pode ser minha única chance de descobrir a verdade. Mas como? Não posso simplesmente entrar lá. Posso?

De repente um pensamento me ocorre. E se eu não tivesse visto a pasta? E se eu tivesse entrado no apartamento na mais perfeita inocência, como faço normalmente, e por acaso fosse direto à porta de Lissy e por acaso a abrisse? Ninguém poderia me culpar, poderia?

Seria apenas um equívoco honesto.

Saio da cozinha, ouço com atenção por um momento e volto rapidamente na ponta dos pés até a porta da frente.

Começar de novo. Estou entrando no apartamento pela primeira vez.

- Oi Lissy! – Chamo sem graça, como se houvesse uma câmera apontada para mim. –

Nossa! Onde será que ela está? Talvez... hmm... vou tentar no quarto dela!

Vou pelo corredor, tentando um passo natural, chego à porta e dou uma batidinha fraquíssima.

Não há resposta. As pancadas pararam. Olho para a madeira lisa, sentindo uma súbita apreensão.

Eu vou realmente fazer isso?

Vou sim. Eu tenho de saber.

Seguro a maçaneta, abro a porta – e dou um grito de horror.

A imagem é tão espantosa que não consigo entender. Lissy está nua. Os dois estão nus.

Ela e o cara estão embolados na posição mais estranha que eu já... que eu já... as pernas dela estão no ar, as dele estão enroladas em volta dela, e os dois estão com o rosto escarlate e ofegando.

- Desculpe! – gaguejo. – Meu Deus, desculpe!

- Emma, espera! – Ouço Lissy gritar enquanto vou rapidamente para meu quarto, bato a porta e afundo na cama.

Meu coração está martelando. Quase fico enjoada. Nunca fiquei tão chocada na vida.

Nunca deveria ter aberto aquela porta. Nunca deveria ter aberto aquela porta.

Ela estava dizendo a verdade! Os dois estavam fazendo sexo! Mas, puxa, que tipo de sexo estranho, contorcido, era aquele? Eu nunca imaginei. Nunca...

Sinto uma mão no ombro e dou um novo grito.

- Emma, calma! – pede Lissy. – Sou eu! O Jean-Paul foi embora.

Não consigo levantar os olhos. Não consigo encará-la.

- Lissy, desculpe – balbucio olhando o chão. – Desculpe! Eu não pretendia fazer aquilo.

Nunca deveria... sua vida sexual é problema seu.

- Emma, nós não estávamos fazendo sexo, sua tonta!

- Estavam! Eu vi! Vocês estavam sem roupa.

- Nós estávamos de roupa. Emma, olha para mim!

- Não! – digo em pânico. – Não quero olhar para você!

- Olha para mim!

Apreensiva, levanto a cabeça, e gradualmente meus olhos se focalizam em Lissy, parada à minha frente.

Ah. Ah... certo. Ela está usando uma malha cor de pele.

- Bem, o que vocês estavam fazendo, se não era sexo? – pergunto, quase acusadoramente. – E por que você está usando isso?

- Nós estávamos dançando – revela Lissy, parecendo sem graça.

- O quê? – Encaro-a numa perplexidade absoluta.

- Nós estávamos dançando, certo? Era isso que nós estávamos fazendo!

- Dançando? Mas... por que vocês estavam dançando? Isso não faz nenhum sentido. Lissy e um francês chamado Jean-Paul dançando no quarto dela! É como se eu tivesse caído no meio de um sonho estranho.

- Eu entrei para um grupo – conta Lissy depois de uma pausa.

- Ah meu Deus. Não é um culto...

- Não, não é um culto. É só... – Ela morde o lábio. – É que uns advogados se juntaram e formaram um... um grupo de dança.

Um grupo de dança?

Por alguns minutos não consigo falar. Agora que meu choque acabou, tenho a sensação terrível de que talvez vá cair na gargalhada.

- Você entrou para um grupo de... advogados dançarinos.

- É. – Lissy confirma com a cabeça.

Uma imagem me salta na mente, um punhado de advogados corpulentos dançando com suas perucas, e não consigo evitar, dou um riso fungado.

- Está vendo! – grita Lissy. – Por isso eu não contei. Eu sabia que você ia rir!

- Desculpe! Desculpe! Não estou rindo. Acho maravilhoso! – Outro risinho histérico jorra de mim. – É só que... não sei. De algum modo a idéia de advogados dançarinos...

- Nós não somos todos advogados – defende-se ela. – Há dois corretores de valores, um

juiz... Emma, pára de rir!

- Desculpe – peço, desamparada. – Lissy, eu não estou rindo de você, sério. – Respiro fundo e tento desesperadamente apertar os lábios. Mas só consigo ver corretores de valores vestindo tutus, agarrando as pastas e dançando O lago dos cisnes. Um juiz saltitando pelo palco, com a beca voando.

- Não é engraçado! – fala Lissy. – São somente alguns profissionais liberais com o mesmo tipo de pensamento, que querem se expressar através da dança. O que há de errado nisso?

- Desculpe – digo de novo, enxugando os olhos e tentando recuperar o controle. – Não tem nada errado. Eu acho fantástico. Então... vocês vão fazer um show, ou algo assim?

- Daqui a três semanas. Por isso estamos fazendo ensaios extras.

- Três semanas? – Encaro-a, com o riso sumindo. – Você não ia me contar?

- Eu... eu não tinha decidido ainda – confessa, arrastando a sapatilha no chão. – Eu estava sem graça.

- Não fique sem graça! – reajo consternada. – Lissy, desculpe eu ter rido. Eu acho superlegal. E vou assistir. Vou sentar bem na primeira fila...

- Na primeira fila não. Você vai me deixar com vergonha.

- Então sento no meio. Ou no fundo. Onde você quiser. – Dou-lhe um olhar curioso. –

Lissy, eu nunca soube que você dançava.

- Ah, não danço – rebate ela imediatamente. – Sou uma merda. É só para me divertir.

Quer um café?

Enquanto acompanho Lissy até a cozinha, ela me olha com a sobrancelha erguida.

- Então, você foi bem descarada, me acusando de fazer sexo. Onde você passou a noite?

- Com Jack – admito com um sorriso sonhador. – Fazendo sexo. A noite inteira.

- Eu sabia!

- Meu Deus, Lissy! Estou completamente apaixonada por ele.

- Apaixonada? – Ela acende o fogo da chaleira. – Emma, tem certeza? Você só o conhece há uns cinco minutos.

- Isso não importa! Nós já somos almas gêmeas completas. Não há necessidade de fingir com ele... ou de tentar ser alguma coisa que eu não sou... e o sexo é incrível! Ele é tudo que eu nunca tive com Connor. Tudo. E é interessado em mim. Sabe, ele me faz perguntas o tempo todo, e parece realmente fascinado pelas respostas.

Abro os braços com um sorriso abençoado e me deixo cair numa cadeira.

- Sabe, Lissy, toda a minha vida eu tive a sensação de que alguma coisa maravilhosa estava para acontecer. Eu sempre... soube, bem no fundo. E agora, aconteceu.

- Então, onde ele está agora? – pergunta Lissy, colocando pó na cafeteira.

- Ele vai ficar um tempo longe. Vai discutir um conceito novo com uma equipe de criação.

- O que é?

- Não sei. Ele não disse. Vai ser um negócio realmente intenso e ele provavelmente não vai poder me telefonar. Mais vai passar e-mails todo dia – acrescento feliz.

- Biscoito? – oferece Lissy, abrindo a lata.- Ah, é... sim. Obrigada. – Pego um biscoitinho e dou uma mordida pensativa. – Sabe, eu tenho toda uma teoria nova sobre os relacionamentos. É muito simples. Todas as pessoas do mundo deveriam ser mais honestas umas com as outras. Todo mundo deveria compartilhar!