O Segredo de Emma Corrigan

Sophie Kinsella · Capítulo 5 de 30

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O Segredo de Emma Corrigan

Três

- O que você acha? – Ele acaricia meu cabelo gentilmente.

- Hrm... – Coço meu rosto seco, tentando ganhar tempo, incapaz de pensar direito. Morar com Connor. Meio que faz sentido. Há algum motivo para recusar? Estou me sentindo toda confusa. Alguma coisa está cutucando meu cérebro; tentando me mandar uma mensagem.

E surgem na minha cabeça algumas coisas que eu falei no avião. Alguma coisa sobre nunca ter me apaixonado de verdade. Alguma coisa sobre Connor não me entender realmente.

Mas então... aquilo não passou de papo furado, não foi? Quero dizer, eu achei que ia morrer, pelo amor de Deus. Não estava na minha condição mais lúcida.

- Connor, e a sua reunião importante? – lembro-me de súbito.

- Cancelei.

- Cancelou? – Encaro-o. – Por minha causa?

Agora estou me sentindo realmente tonta. As pernas mal me sustentam. Não sei se é resultado da viagem de avião ou amor.

Meu Deus, olha só para ele. É alto, bonito e cancelou uma reunião importante e veio me resgatar.

É amor. Tem de ser amor.

- Eu adoraria morar com você, Connor – sussurro e, para minha total perplexidade, caio no choro.

Três

Acordo na manhã seguinte com o sol ofuscando as pálpebras e um delicioso cheiro de café no ar.

- Bom dia! – ouço a voz de Connor, lá do alto.- Bom dia – murmuro, sem abrir os olhos.

- Quer café?

- Quero, por favor.

Viro-me e enterro a cabeça latejante no travesseiro, tentando afundar no sono de novo por alguns minutos. O que normalmente eu acharia muito fácil. Mas hoje há algo me incomodando. Será que me esqueci de alguma coisa?

Enquanto escuto connor fazendo barulho na cozinha e o minúsculo som da televisão ao fundo, minha mente tateia em busca de pistas. É manhã de sábado. Eu estou na cama de Connor. Nós saímos para jantar – ah, meu Deus, aquela viagem de avião medonha... ele foi ao aeroporto, e disse...

Nós vamos morar juntos!

Sento-me no momento em que Connor entra com duas canecas e um bule de café. Está lindo com um roupão branco felpudo. Sinto uma pontada de orgulho e me estico para lhe dar um beijo.

- Oi – diz ele rindo. – Cuidado. – E me entrega o café. – Como está se sentindo?

- Tudo bem. – Afasto o cabelo do rosto. – Meio grogue.

- Não me surpreende. – Connor levanta as sobrancelhas. – Ontem foi um dia incrível.

- Sem dúvida – confirmo com a cabeça e tomo um gole de café. – E então. Nós vamos...

morar juntos!

- Se você ainda estiver a fim.

E é verdade. Estou.

Sinto-me como se tivesse ficado adulta de um dia para o outro. Vou morar com meu namorado. Finalmente minha vida está indo para onde devia!

- Vou ter que dar a notícia a Andrew... – Connor sinaliza para a parede, na direção do quarto de seu colega de apartamento.

- E eu, a Lissy e Jemina.

- E vamos ter de achar o lugar certo. E você vai ter de prometer que vai manter tudo arrumado. – Ele me dá um riso provocador.

- Até parece! – Finjo ultraje. – Você é que tem cinqüenta milhões de CDs.

- Isso é diferente!

- Diferente como, se é que posso perguntar? – Planto a mão no quadril, como um personagem de seriado de TV, e Connor ri.

Há uma pausa, como se os dois tivéssemos ficado sem gás, e tomamos um gole de café.

- Bom – diz Connor depois de um tempo -, preciso ir. – Ele está fazendo um curso de computação neste fim de semana. – Sinto muito, não vou poder ver os seus pais.

E sente mesmo. Quero dizer, como se já não fosse o namorado perfeito, ele gosta de visitar meus pais.

- Tudo bem – respondo, benevolente. – Não faz mal.

- Ah, e eu esqueci de dizer. – Connor me dá um riso misterioso. – Adivinha para que eu consegui bilhetes?

- Aah! – exclamo empolgada. – Hmm...

Estou para dizer “Paris!”.

O festival de jazz! – Connor ri de orelha a orelha. – O Quarteto Dennisson! É o último show deles este ano. Lembra que a gente viu um show deles no Ronnie Scott’s?

Por um momento não consigo falar.

- Uau! – consigo, finalmente. – O... Quarteto Denisson! Eu lembro.

Eles tocaram clarinetas. Ininterruptamente, durante umas duas horas, sem parar para tomar fôlego.

- Sabia que você ia gostar. – Connor toca meu braço com afeto, e eu lhe dou um sorriso débil.

- Ah, gostei!

O negócio é que eu provavelmente vou acabar gostando de jazz um dia. Na verdade, tenho certeza de que vou.

Olho orgulhosa enquanto ele se veste, escova os dentes e pega a pasta.

- Você usou o meu presente – observa ele com um sorriso satisfeito, olhando para minha calcinha caída no chão.

- Ah... eu uso sempre – exclamo, cruzando os dedos às costas. – Ela é linda!

- Tenha um ótimo dia com sua família. – Connor vem até a cama e me beija, e então hesita. – Emma?

- Sim?

Ele se senta na cama e me olha sério. Meu Deus, os olhos dele são tão azuis!

- Tem uma coisa que eu queria dizer. – Ele morde o lábio. – Você sabe que nós sempre falamos francamente sobre nosso relacionamento.

- É... sim – concordo, meio apreensiva.

- É só uma idéia. Talvez você não goste. Quero dizer... você é que decide.

Olho perplexa para Connor. O rosto dele está ficando rosado, e ele está realmente sem graça.

- Ah, meu Deus. Será que ele vai começar a mostrar alguma tara? Será que ele quer que eu vista alguma fantasia ou sei lá o quê?

Eu não me importaria de bancar uma enfermeira. A mulher-gato do Batman. Seria maneiro. Eu arranjaria umas botas brilhantes...

- Eu estava pensando que... talvez... a gente poderia... – Ele pára sem jeito.

- Sim? – Coloco a mão em seu braço, dando força.

- A gente poderia... – Ele pára de novo.

- Sim?

Há outro silêncio. Quase não consigo respirar. O que ele quer que a gente faça? O quê?

- A gente podia começar a se chamar de “querido” e “querida” – desabafa, num jorro sem graça.

- O quê – respondo com a voz chapada.

- É só que... – Connor fica mais rosado ainda. – Nós vamos morar juntos. É um tremendo compromisso. E eu notei recentemente que a gente nunca usa nenhuma... palavra carinhosa para chamar o outro.

Encaro-o, sentindo-me deslocada.

- Não?

- Não.

- Ah. – Tomo um gole de café. Pensando bem, ele está certo. A gente não usa. Por que não?

- Então, o que você acha? Só se você quiser.

- Sem dúvida! – concordo, rapidamente. – Quero dizer, você está certo. Claro que a gente deveria. – Pigarreio. – Querido.

- Obrigada, querida – ele se abre em um sorriso amoroso, e eu sorrio de volta, tentando ignorar os minúsculos protestos dentro da cabeça.

Isso não está direito.

Eu não me sinto uma querida.

Querida é uma pessoa casada, com pérolas e um carro com tração nas quatro rodas.

- Emma? – Connor está me encarando. – Alguma coisa errada?

- Não sei bem! – Dou um riso sem jeito. – Só não sei se eu me sinto uma “querida”.

Mas... você sabe. Eu posso acabar me acostumando.

- Verdade? Bem, a gente pode usar outra coisa. Que tal “amor”?

Amor? Ele está falando sério?

- Não – respondo. – “Querida” é melhor.

- Ou “meu doce”... “docinho”... “anjo”...

- Talvez. Olha, a gente não pode deixar isso para depois?

O queixo de Connor cai, e eu me sinto mal. Qual é, eu consigo chamar meu namorado de

“querido”, pelo amor de Deus. É isso que é ser adulta. Só vou ter de me acostumar.

- Connor, desculpe. Não sei o que há de errado comigo. Talvez eu ainda esteja meio tensa por causa daquele vôo. – Seguro a mão dele. – Querido.

- Tudo bem, querida. – Ele sorri outra vez para mim, com a expressão ensolarada de volta, e me dá um beijo. – Vejo você mais tarde.

Está vendo? É fácil.

Ah meu Deus.

Tanto faz. Não importa. Imagino que todos os casais tenham esse tipo de momento incômodo. Na certa é perfeitamente normal.

Demoro quase meia hora para ir do apartamento de Connor em Maida Vale a Islington, onde moro. E quando abro a porta encontro Lissy no sofá. Está rodeada de papéis e tem a testa concentrada. Lissy trabalha demais. Algumas vezes realmente passa do ponto.

- Em que está trabalhando? – pergunto com simpatia. – Aquele processo de fraude?

- Não, é essa matéria – comenta Lissy abstratamente, e levanta uma revista colorida. –

Diz que desde a época de Cleópatra as proporções da beleza são as mesmas, e que há um modo científico de saber o quanto a gente é bonita. A gente toma um monte de medidas...

- Ah, sei! – exclamo, interessada. – Você tirou quanto?- Estou fazendo as contas. – Ela franze a vista para a página outra vez. – 53... menos 20...

são... Ah meu Deus! – Ela olha a página, consternada. – Tirei só 33!

- Qual é a nota máxima?

- Cem! Tirei 33, em cem!

- Ah, Lissy. Isso aí é uma merda.

- Eu sei – responde Lissy, séria. – Eu sou feia. Eu sabia. Você sabe, no fundo, durante toda a vida eu sempre soube mas...

- Não! – exclamo tentando não rir. – Eu quis dizer que a revista é uma merda! Não se pode medir a beleza com alguma tabela estúpida. Olha pra você! – Faço um gesto em

direção a Lissy, que tem os maiores olhos verdes do mundo, uma pele clara e estupenda e é francamente estonteante, mesmo que o último corte de cabelo seja um pouco demais. –

Puxa, em quem você vai acreditar? No espelho ou numa revista estúpida e insensata?

- Numa revista estúpida e insensata – insiste Lissy, como se isso fosse perfeitamente óbvio.

Sei que ela está meio brincando. Mas Lissy está com pouca auto-estima desde que seu namorado Simon lhe deu o pé na bunda. Na verdade estou meio preocupada com ela.

Isso é a proporção áurea da beleza? – pergunta nossa outra colega de apartamento, Jemina, batendo no piso da sala com os saltos altos. Está usando jeans rosa-claros e uma blusa branca e justa. E, como sempre, está perfeitamente bronzeada e arrumada. Em teoria, Jemina tem um emprego numa galeria de esculturas. Mas parece passar a via depilando, repuxando e massageando partes do corpo e saindo com banqueiros cujo salário ela sempre verifica antes de dizer sim.

Eu me dou bem com Jemina. Mais ou menos. Só que ela tem a mania de começar todas as frases com “Se você quiser uma pedra no dedo” e “Se você quer morar num endereço com SW3” e “Se você quiser ser conhecida como uma anfitriã realmente boa”.

Quero dizer, eu não me incomodaria em ser conhecida como uma anfitriã realmente boa.

Você sabe. Só que não é bem esse o item principal na minha lista de prioridades.

Além disso, a idéia de Jemina para uma anfitriã realmente boa é convidar um monte de amigos ricos, decorar todo o apartamento com coisas cheias de frescura, encomendar um monte de comida gostosa em bufês e dizer a todo mundo que ela é que fez, e depois mandar as colegas de apartamento (eu e Lissy) ao cinema e ficar afrontada quando elas ousam se esgueirar de volta no meio da noite e preparar um chocolate quente para tomar.

- Eu também fiz esse teste – informa ela, pegando sua bolsa Louis Vuitton cor-de-rosa.

Seu pai lhe deu de presente quando ela rompeu com um cara depois de três encontros.

Como se estivesse de coração partido.

Veja bem, ele tinha um iate, então acho que ela ficou mesmo de coração partido.

- Quanto você tirou? – pergunta Lissy.

- Tirei 89. – Ela se borrifa com perfume, joga o cabelo louro e comprido para trás e sorri para si mesma ao espelho. – Então, Emma, é verdade que você vai morar com o Connor?