O Segredo de Emma Corrigan

Sophie Kinsella · Capítulo 21 de 30

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O Segredo de Emma Corrigan

Dezenove

Homens e mulheres deveriam compartilhar, os líderes mundiais deveriam compartilhar!

- Hmm.- Lissy me olha em silêncio por alguns instantes. – Emma, alguma vez Jack lhe disse porque teve de sair correndo no meio da noite daquela vez?

- Não – digo surpresa. – Mas aquilo eram os negócios dele.

- Alguma vez ele disse o que eram todos aqueles telefonemas no primeiro encontro de vocês?

- Bem... não.

- Ele já contou alguma coisa sobre ele próprio, além do mínimo essencial?

- Ele me contou o suficiente! – rebato, na defensiva. – Lissy, qual é o seu problema?

- Eu não tenho problema – responde ela em tom afável. – Só estou imaginando... é você que faz toda a parte de compartilhar?

- O quê?

- Ele está compartilhando alguma coisa com você? – Lissy põe a água quente no café. –

Ou é só você que está compartilhando com ele?

- Nós estamos compartilhando um com o outro. – Desvio o olhar, brincando com um ímã de geladeira.

O que é verdade, digo a mim mesma com firmeza. Jack compartilhou um monte de coisas comigo! Quero dizer, ele me contou...

Ele me contou tudo sobre...

Bem, enfim. Ele provavelmente não estava no clima para falar muito. Isso é crime?

- Tome um pouco de café. – Lissy me entrega uma caneca.

- Obrigada – digo meio de má vontade, e Lissy suspira.

- Emma, eu não estou tentando estragar as coisas. Ele realmente parece um amor...

- E é! Sério, Lissy, você não sabe como ele é. É tão romântico! Sabe o que ele disse hoje cedo? Disse que no momento em que eu comecei a falar ele ficou ligado.

- Verdade? – Lissy me encara. – Ele falou isso? É bem romântico.

- Eu falei! – Não consigo evitar um sorriso de orelha a orelha. – Lissy, ele é perfeito!

Dezenove

Nas duas semanas seguintes nada pode estragar meu brilho feliz. Nada. Vou ao trabalho flutuando numa nuvem, fico o dia inteiro sentada e sorrindo para o meu terminal de computador, depois vou flutuando para casa de novo. Os comentários sarcásticos de Paul ricocheteiam em mim como bolhas. Nem noto quando Artemis me apresenta como sua

secretária a uma equipe de publicitários de visita. Todos podem dizer o que quiserem.

Porque o que não sabem é que, quando estou sorrindo para o meu computador, é porque Jack acaba de me mandar outro e-mail divertido. O que não sabem é que o cara que dá emprego a todos eles está apaixonado por mim. Por mim. Emma Corrigan. A subalterna.

- Bem, claro, eu tive várias conversas profundas com Jack Harper sobre esse assunto –

posso ouvir Artemis dizendo ao telefone enquanto arrumo o armário de provas. – É. E ele achou, como eu acho, que o conceito realmente precisava ser refocalizado.

Besteira! Ela nunca teve uma conversa profunda com Jack Harper. Quase me sinto tentada a passar um e-mail para Jack dizendo como ela está usando seu nome em vão.

Só que isso seria um pouco de maldade.

E, além disso, ela não é a única. Todo mundo larga o nome de Jack Harper nas conversas, à esquerda, à direita e ao centro. É como se, agora que ele foi embora, todos fingissem subitamente que eram seus melhores amigos e que ele achasse suas idéias perfeitas.

Exceto eu. Só estou mantendo a cabeça baixa e não mencionando seu nome em hipótese nenhuma.

Em parte porque sei que, se fizer isso, vou ficar totalmente vermelha ou dar um sorriso enorme, pateta, ou algo assim. Em parte porque tenho uma sensação terrível de que, assim que começar a falar sobre Jack, não poderei parar. Mas principalmente porque ninguém jamais puxa o assunto comigo. Afinal de contas, o que eu saberia sobre Jack Harper? Só sou a assistente de merda, afinal de contas.

- Ei! – anuncia Nick, erguendo a cabeça ao telefone. – Jack Harper vai aparecer na televisão!

- O quê?

Sinto um choque de surpresa. Jack vai aparecer na televisão?

Por que ele não me contou?

- Uma equipe de TV vem ao escritório, ou alguma coisa assim? – quer saber Artemis, alisando o cabelo.

- Não sei.

- Pessoal – exclama Paul, entrando na sala. – Jack Harper deu uma entrevista no Business Watch, e vai passar ao meio-dia. Estão colocando uma televisão na sala grande de reuniões; quem quiser pode assistir lá. Mas nós precisamos de alguém para ficar e atender ao telefone. – Seu olhar pousa em mim. – Emma. Você pode ficar.

- O quê? – digo chapada.

- Você pode ficar e cuidar dos telefones – insiste Paul. – Certo?

- Não! Quero dizer... eu quero assistir! – reajo consternada. – Ninguém mais pode ficar?

Artemis, você não pode ficar?

- Eu não vou ficar! – reage Artemis imediatamente. – Puxa, Emma, não seja tão egoísta.

Não vai ser muito interessante para você.

- Vai sim!

- Não vai não! – Ela revira os olhos.

- Vai – repito, desesperada. – Ele é... ele também é o meu chefe!

- É, bem – ironiza Artemis. – Acho que há uma ligeira diferença. Você mal falou com Jack Harper.

- Falei! – rebato, antes de me controlar. – Eu falei! Eu... – Paro, com as bochechas ficando cor-de-rosa. – Eu... uma vez fui a uma reunião onde ele estava...

- E serviu uma xícara de chá para ele? – Artemis encontra o olhar de Nick com um

risinho.

Encaro-a furiosa, com o sangue latejando nas orelhas, desejando ao menos uma vez ser capaz de pensar em alguma coisa realmente desprezível e inteligente para deixar Artemis na pior.

- Chega, Artemis – encerra Paul. – Emma, você vai ficar aqui, e está resolvido.

Às cinco para o meio-dia a sala está completamente vazia. Apenas eu, uma mosca e uma máquina de fax zumbindo. Desconsolada, enfio a mão na gaveta da mesa e pego um Aero.

E um Flake, para completar. Estou desembrulhando o Aero e dando uma grande mordida quando o telefone toca.

- Pronto – diz a voz de Lissy. – Eu programei o vídeo.

- Obrigada Lissy – respondo com a boca cheia de chocolate. – Você é uma estrela.

- Não acredito que não deixaram você assistir.

- Eu sei. É completamente injusto.- Afundo mais na cadeira e dou uma outra mordida no Aero.

- Bom, não faz mal, a gente assiste essa noite. Jemina vai gravar no vídeo do quarto dela também, para a gente não perder.

- O que a Jemina está fazendo em casa? – pergunto surpresa.

- Ela disse que estava doente para ficar em casa cuidando da beleza. Ah, e o seu pai ligou

– acrescenta ela com cuidado.

- Ah, certo. – Sinto uma pontada de apreensão. – O que ele disse?

Não falei com mamãe nem com papai desde a confusão no Dia da Família na Empresa.

Não consigo me obrigar a isso. Foi doloroso e embaraçoso demais e, pelo que eu sei, eles ficaram totalmente do lado de Kerry.

Assim, quando papai ligou para cá na segunda-feira seguinte, eu disse que estava muito ocupada e que ligava de volta – e não liguei. E a mesma coisa em casa.

Sei que uma hora dessas vou ter de falar com ele. Mas não agora. Não enquanto estou tão feliz.

- Ele viu a propaganda da entrevista – continua Lissy. – Reconheceu Jack e imaginou se você estava sabendo. E disse... – Ela faz uma pausa. – Ele realmente queria conversar com você sobre umas coisas.

- Ah. – Olho para o meu bloco de anotações onde rabisquei uma enorme espiral sobre um número de telefone que deveria estar guardando.

- De qualquer modo, ele e sua mãe vão assistir. E o seu avô.

Ótimo. Maravilha. Todo mundo está assistindo ao Jack pela televisão. O mundo inteiro, menos eu.

Quando desligo o telefone, vou pegar um café na máquina nova, que faz um café com leite muito bom. Volto e olho a sala silenciosa, depois coloco suco de laranja na planta de Artemis. E um pouco de toner da copiadora, para ajudar.

Então me sinto meio má. Não é culpa da planta, afinal de contas.

- Desculpe – digo em voz alta, e toco uma das folhas. – Só que a sua dona é uma vaca de verdade. Mas acho que você já sabia disso.

- Falando com seu homem misterioso? – entoa uma voz sarcástica atrás de mim, e eu me viro num choque e vejo Connor parado na porta.

- Connor! O que você está fazendo aqui?

- Estou indo ver a entrevista. Mas queria trocar uma palavrinha rápida. – Ele dá alguns passos para dentro da sala e me fixa um olhar acusador. – Então. Você mentiu para mim.

Ah droga. Será que Connor adivinhou? Será que viu alguma coisa no Dia da Família na Empresa?

- O que você quer dizer? – pergunto, nervosa.

- Eu acabei de bater um papinho com o Tristan, do design. – A voz de Connor incha de indignação. – Ele é gay! Você não está saindo com ele, está?

Connor não pode estar falando sério. Connor não achava a sério que eu estava saindo com o Tristan, do Design, achava? Quero dizer, Tristan não pareceria mais gay nem se usasse malha de oncinha, carregasse uma bolsa e andasse cantarolando sucessos de Barbra Streisand.

- Não – respondo conseguindo manter a cara normal. – Eu não estou saindo com Tristan.

- Bem! – responde Connor, assentindo como se tivesse marcado cem pontos e não soubesse o que fazer com eles. – Bem. Não sei por que você acha necessário mentir para mim. – Ele levanta o queixo numa dignidade ferida. – Só isso. Eu só achava que nós poderíamos ser um pouquinho mais honestos um com o outro.

- Connor, é só que é... complicado. Certo?

- Ótimo. Tudo bem. O barco é seu, Emma.

Há uma ligeira pausa.

- O que é meu? O barco?

- O campo – pronuncia ele, num clarão de irritação. – Eu quis dizer... a bola está no seu campo.

- Ah, certo. – respondo ainda sem entender. – É... certo. Não vou esquecer disso.

- Bom. – Ele me dá seu mais ferido olhar de mártir e começa a se afastar.

- Espera! – peço subitamente. – Espera um minuto! Connor, você poderia me fazer um favorzão? – Espero até ele se virar, depois faço uma cara de bajulação. – Você poderia atender ao telefone aqui enquanto eu vou rapidinho ver a entrevista de Jack Harper?

Sei que Connor não é meu fã número um neste momento. Mas não tenho muita escolha.

- Se eu podia fazer o quê? – Connor me olha aparvalhado.

- Podia atender ao telefone? Só por meia hora. Eu agradeceria tanto...

- Não acredito que você está me pedindo isso! – Ele está incrédulo. – Você sabe como Jack Harper é importante para mim, Emma, realmente não sei em que você se transformou.

Depois de ele sair, fico ali sentada durante vinte minutos. Recebo vários recados para Paul, um para o Nick, e um para Caroline. Arquivo algumas cartas. Endereço uns envelopes. E de repente já estou farta.

Isso é estúpido. Isso é mais do que estúpido. É ridículo. Eu amo Jack. Ele me ama. Eu deveria estar lá, apoiando-o. Pego meu café e vou depressa pelo corredor. A sala de reuniões está cheia de gente, mas eu me esgueiro no fundo e me espremo entre dois caras que não estão assistindo ao Jack, e sim discutindo um jogo de futebol.- O que você está fazendo aqui? – quer saber Artemis, quando chego ao seu lado. – E os telefones?

- Não há taxação sem representação – ouço-me respondendo de jeito maneiro, o que talvez não seja exatamente apropriado (nem sei o que significa), mas tem o efeito desejado de fazer com que ela se cale.

Estico o pescoço para ver acima da cabeça de todo mundo, e meus olhos se concentram na tela – e ali está ele. Sentado numa cadeira num estúdio, de jeans e camiseta branca. Há um fundo azul e as palavras “Inspirações para os negócios” atrás dele, e um casal de

entrevistadores elegantes do outro lado.

Ali está. O homem que eu amo.

É a primeira vez que o vejo desde que dormimos juntos, ocorre-me de súbito. Mas seu rosto é caloroso como sempre, e os olhos estão escuros e brilhantes sob as luzes do estúdio.

Ah meu Deus, quero beijá-lo.

Se ninguém mais estivesse aqui eu iria até o aparelho de TV e lhe daria um beijo. Sério.

- O que perguntaram a ele até agora? – murmuro para Artemis.

- Estão falando sobre o modo como ele trabalha. Suas inspirações, sua parceria com Pete Laidler, coisas assim.

- Sssh! – Faz alguém.

- Claro que foi difícil depois da morte de Pete – está dizendo Jack. – Foi difícil para todos nós. Mas recentemente... – Ele faz uma pausa. – Recentemente minha vida deu uma reviravolta e eu estou encontrando inspiração de novo. Estou gostando da vida de novo.

Um pequeno arrepio me atravessa.

Ele tem de estar se referindo a mim. Tem de ser. Eu revirei a vida dele! Ah meu Deus.

Isso é ainda mais romântico do que “fiquei ligado”.

- Você já expandiu os negócios para o mercado de bebidas esportivas – está dizendo o entrevistador. – Agora imagino que esteja querendo expandir para o mercado feminino.

- O quê?

Há um frisson na sala, e as pessoas começam a virar a cabeça.

- Nós vamos entrar no mercado feminino?

- Desde quando?

- Na verdade, eu sabia – revela Artemis, presunçosa. – Algumas pessoas já sabem há um tempo...

Olho para a tela, lembrando-me instantaneamente daquelas pessoas na sala de Jack. Eram para isso os ovários. Minha nossa, isso é bem empolgante. Um novo empreendimento!

- Você pode dar mais algum detalhe sobre isso? – sugere o entrevistador. – Vai ser um refrigerante dirigido às mulheres?

- Ainda estamos nos estágios iniciais – conta Jack. – Mas estamos planejando toda uma linha. Uma bebida, roupas, um perfume. Temos uma forte visão criativa. – Ele sorri para o sujeito. – Estamos empolgados.

- Então, qual é o seu mercado-alvo dessa vez? – pergunta o homem consultando suas anotações. – Quer alcançar as mulheres esportivas?

- De jeito nenhum. – responde Jack. – Estamos querendo alcançar... a garota comum.

- A “garota comum”? – A entrevistadora se empertiga, parecendo ligeiramente afrontada.

– O que significa isso? Quem é essa garota comum?

- Ela tem vinte e poucos anos – diz Jack depois de uma pausa. – Trabalha num escritório, vai de metrô para o trabalho, sai à noite e volta de ônibus... Uma garota comum, sem nada de especial.

- Há milhares delas. – intervém o homem com um sorriso.

- Mas a marca Panther sempre foi associada aos homens – insiste a mulher, parecendo cética. – À competição. Aos valores masculinos. Você realmente acha que pode mudar para o mercado feminino?

- Nós fizemos pesquisas – argumenta Jack em tom agradável. – Achamos que conhecemos o mercado.

- Pesquisa! – zomba ela. – Este não é apenas outro caso de homens dizendo às mulheres o que elas querem?

- Não creio – Jack mantém o tom agradável, mas posso ver um ligeiro tremor de chateação passar em seu rosto.

- Muitas empresas tentaram mudar de mercado sem sucesso. Como vocês sabem que não serão apenas mais uma delas?

- Eu estou confiante.

Meu Deus, por que ela está sendo tão agressiva?, penso indignada. Claro que Jack sabe o que está fazendo!

- Vocês reúnem um punhado de mulheres num grupo de foco e fazem algumas perguntas! Como isso lhes diz alguma coisa?

- Isso é apenas parte do quadro, posso garantir – responde Jack calmamente.

- Ah, que é isso. – A mulher se reclina e cruza os braços. – Uma empresa como a Panther, um homem como você, pode realmente se ligar à psique de, como você disse, uma garota comum, sem nada de especial?

- Posso sim! – Jack a encara de frente. – Eu conheço essa garota.

- Você conhece? – A mulher levanta as sobrancelhas.

- Eu sei quem é essa garota. Sei quais são os gostos dela; de que cores ela gosta. Sei o que ela come, sei o que ela bebe. Sei o que ela quer da vida. Ela veste 42 mas gostaria de ser 38. Ela... - Ele abre os braços como se procurasse inspiração. – Ela come Cheerios no café da manhã e molha Flakes no cappuccino.

Olho numa surpresa para minha mão, segurando um Flake. Eu já ia molhar no café. E...

eu comi Cheerios hoje cedo.

- Hoje em dia nós somos rodeados por imagens de pessoas perfeitas, brilhantes –

continua Jack animado. – Mas essa garota é de verdade. Tem dias em que seu cabelo está bom, tem dias em que está ruim. Ela usa calcinha fio-dental mesmo achando desconfortável. Escreve listas de exercícios físicos e depois ignora. Finge ler jornais de negócios mas esconde revistas de celebridades dentro.

Olho chapada para a tela da TV.

Só... espera um minuto. Isso tudo parece meio familiar.

- É exatamente o que você faz, Emma – diz Artemis. – Eu vi seu exemplar da OK! dentro do Marketing Week. – Ela se vira para mim com um riso de zombaria e seu olhar pousa no meu Flake.

- Ela adora roupas mas não é vítima da moda – está dizendo Jack na tela. – Ela pode usar, talvez, jeans...

Artemis olha incrédula para minha Levis.

- ...e uma flor no cabelo...

Atordoada, levanto a mão e toco a rosa de pano no cabelo.

Ele não pode...

Ele não pode estar falando...

- Ah... meu... Deus – Artemis sufoca uma exclamação.

- O que é? – pergunta Caroline perto dela. Em seguida acompanha o olhar de Artemis e sua expressão muda.

- Ah, meu Deus! Emma! É você!

- Não é – digo, mas minha voz não está funcionando direito.

- É sim!

Algumas pessoas começam a cutucar umas às outras e a se virar para me olhar.

- Ela lê quinze horóscopos todo dia e escolhe o que mais lhe agrada... – prossegue a voz de Jack.

- É você! É exatamente você!

- ...ela folheia o final dos livros metidos a besta e finge que leu...

- Eu sabia que você não tinha lido Grandes Esperanças! – grita Artemis em triunfo.

- ...ela adora licor de xerez...

- Licor de xerez? – Nick vira-se para mim, horrorizado. – Você não pode estar falando sério.

- É Emma! – ouço pessoas falando do outro lado da sala. – É Emma Corrigan!

- Emma? – repete Katie, me olhando direto, incrédula. – Mas... mas...

- Não é Emma! – Connor se manifesta de repente, rindo. Ele está parado do outro lado da sala, encostado na parede. – Não sejam ridículos! Emma é tamanho 38, para começar. Não 42!

- Emma é 38? – diverte-se Artemis com um riso fungado.

- Tamanho trinta e oito! – Caroline dá um risinho. – Essa é boa!

- Você não é 38? – Connor me olha, perplexo. – Mas você disse...

- Eu... eu sei que disse. – Engulo em seco, com o rosto parecendo uma fornalha. – Mas eu estava... eu estava...

- Você realmente compra todas as roupas em brechós e finge que são novas? – quer saber Caroline, erguendo os olhos da tela, com interesse.

- Não! – respondo, na defensiva. – Quero dizer, é, talvez... algumas vezes...

- Ela pesa 61 quilos, mas finge que pesa 56 – está dizendo a voz de Jack.

O quê? O quê?

Todo o meu corpo se contrai em choque.

- Não peso! – grito ultrajada para a tela. – Nem de longe peso 61 quilos! Eu peso... uns...

cinquenta e oito... e meio... – paro quando toda a sala se vira para me encarar.

- ...odeia crochê...

Há um gigantesco som ofegante do outro lado da sala.

- Você odeia crochê? – É a voz incrédula de Katie.

- Não! – nego, horrorizada. – Está errado! Eu adoro crochê! Você sabe que eu adoro crochê.

Mas Katie está saindo furiosa da sala.

- Ela chora quando ouve os Carpenters – a voz de Jack insiste na tela. – Ela adora o Abba mas não suporta jazz...

Ah não. Ah não, ah não...

Connor está me encarando como se eu mesma tivesse cravado uma estaca em seu peito.

- Você não suporta... jazz?

É como um daqueles sonhos em que todo mundo pode ver você só com roupa de baixo e você quer correr mas não consegue. Não posso me afastar. Só posso ficar olhando em frente numa agonia enquanto a voz de Jack prossegue inexoravelmente.

Todos os meus segredos. Todos os meus segredos pessoais, particulares. Revelados pela televisão. Estou num tal choque que nem absorvo tudo.

- Ela usa roupa de baixo da sorte nos primeiros encontros... pega sapatos de grife emprestados da colega de apartamento e finge que são dela... finge lutar kickboxing...

confusa com relação à religião... se preocupa achando que os seios são pequenos demais...

Fecho os olhos, incapaz de suportar. Meus seios. Ele falou dos meus seios. Na televisão.

- Quando sai, ela banca a sofisticada, mas na cama...

De repente estou desmaiando de medo.

Não. Não. Por favor, isso não. Por favor, por favor...

- ...ela tem uma colcha da Barbie.

Uma gargalhada gigantesca explode na sala, e eu enterro o rosto nas mãos. Estou além da mortificação. Ninguém deveria saber da minha colcha da Barbie. Ninguém.

- Ela é sexy? – quer saber a entrevistadora, e meu coração dá um pulo enorme. Olho a tela, incapaz de respirar, de tanta apreensão. O que ele vai dizer?

- Ela é muito sexy – responde Jack imediatamente, e todos os olhos giram para mim, arregalados. – Ela é uma garota moderna que anda com camisinhas na bolsa.

Certo. Toda vez que eu acho que não pode ficar pior, fica.

Minha mãe está assistindo a isso. Minha mãe.

- Mas talvez ela não tenha alcançado todo o seu potencial... talvez haja um lado seu que seja frustrado...

Não posso olhar para Connor. Não posso olhar para lugar nenhum.

- Talvez ela esteja disposta a experimentar... talvez ela tivesse, não sei, uma fantasia lésbica com a amiga mais íntima.

Não! Não! Todo o meu corpo se contrai num horror. Tenho uma imagem súbita de Lissy olhando para a tela em casa, arregalada, apertando a mão na boca. Ela vai saber que é ela.

Nunca vou poder olhá-la de novo.

- Foi um sonho, certo? – consigo dizer desesperada, enquanto todo mundo me olha de queixo caído. – Não uma fantasia. É diferente!

Sinto vontade de me jogar contra a televisão. Cobri-la com os braços. Fazer com que ele pare.

Mas não adiantaria, não é? Há um milhão de TVs ligadas, em um milhão da casas.

Pessoas em toda parte estão assistindo.

- Ela acredita no amor e no romance. Acredita que um dia sua vida vai ser transformada numa coisa maravilhosa e empolgante. Tem esperanças, medos e preocupações, como todo mundo. Algumas vezes ela sente medo. – Ele pára, e acrescenta numa voz mais suave. –

Algumas vezes ela sente que não é amada. Algumas vezes sente que nunca vai ter a aprovação das pessoas que são mais importantes para ela.

Enquanto olho o rosto caloroso e sério de Jack na tela, sinto os olhos ardendo de leve.

- Mas ela é corajosa, tem bom coração e encara a vida de frente... – Ele balança a cabeça atordoado e sorri para a entrevistadora. – Eu... desculpe. Não sei o que aconteceu aqui.

Acho que fiquei meio empolgado. Será que poderíamos... – Sua voz é interrompida abruptamente pelo entrevistador.

Empolgado.

Ele ficou meio empolgado.

É como dizer que Hitler era um pouquinho agressivo.

- Jack Harper, muito obrigada por falar conosco – começa a dizer a entrevistadora. – Na semana seguinte conversaremos com o carismático rei dos vídeos motivacionais, Ernie Powers. Enquanto isso nossos agradecimentos a...

Todo mundo olha para a tela enquanto ela termina a fala e a música do programa começa. Então alguém se inclina para a frente e desliga a televisão.

Por um segundo toda a sala está em silêncio. Todo mundo está me olhando boquiaberto, como se estivessem esperando que eu fizesse um discurso, uma dançazinha ou algo do tipo.

Alguns rostos são simpáticos, alguns curiosos, alguns jubilosos e alguns apenas tipo “Meu Deus, ainda bem que eu não sou você”.

Agora sei exatamente como se sente um animal no zoológico.

Nunca mais visito um zoológico.

- Mas... eu não entendo – ouve-se uma voz do outro lado da sala, e todas as cabeças giram avidamente para Connor, como num jogo de tênis. Ele está me encarando, o rosto vermelho de confusão. – Como Jack Harper sabe tanto sobre você?

Ah meu Deus. Sei que o Connor tem um diploma verdadeiro da Universidade de Manchester e coisa e tal. Mas algumas vezes ele é lento demais.

As cabeças giraram de volta para mim.

- Eu... – Todo o meu corpo está pinicando de embaraço. – Porque nós... nós...

Não posso dizer em voz alta. Simplesmente não posso.

Mas não preciso. O rosto de Connor está lentamente ficando com várias cores.

- Não. – Ele engole em seco, me olhando como se tivesse visto um fantasma. E não somente um fantasma antigo. Um fantasma realmente grande com correntes chacoalhando e fazendo “Roooaaarr!”.

- Não. – repete ele. – Não. Não acredito.

- Connor... – começa alguém, pondo a mão em seu ombro, mas ele a empurra.

- Connor, eu realmente sinto muito – balbucio, desamparada.

- Está brincando! – exclama um cara no canto, um cara obviamente ainda mais lento do que Connor, e a quem acabaram de soletrar, letra por letra. Ele me olha. – Há quanto tempo isso está acontecendo?

É como se ele tivesse aberto as comportas. De repente todo mundo na sala começa a fazer perguntas. Não consigo ouvir meus pensamentos no meio da confusão.

- Foi por isso que ele veio à Inglaterra? Para ver você?

- Você vai casar com ele?

- Sabe, você não parece ter 61 quilos...

- Você tem mesmo uma colcha da Barbie?

- E aí, na fantasia lésbica, eram só vocês duas ou...

- Você fez sexo com Jack Harper no escritório?

- Foi por isso que você deu o fora no Connor?

Não suporto. Tenho de sair. Agora.

Sem olhar para ninguém, levanto-me e saio cambaleando da sala. Quando vou pelo corredor, estou atordoada demais para pensar em algo além de que tenho de pegar a bolsa e ir embora. Agora.

Entro no departamento de marketing, que está vazio, e onde os telefones tocam agudos.

O hábito é entranhado demais, não consigo ignorar.

- Alô? – digo, pegando um ao acaso.

- Então! – é a voz furiosa de Jemina. – Ela pega sapatos de grife emprestados com a colega de apartamento e finge que são dela. De quem são esses sapatos, então? De Lissy?

- Olha, Jemina, será que eu posso... desculpe... eu tenho de ir – digo debilmente e desligo o telefone.

Chega de telefone. Pegar a bolsa. Ir embora.

Enquanto fecho a bolsa com as mãos trêmulas, duas pessoas que me seguiram até a sala estão atendendo alguns dos telefones que tocam.

- Emma, seu avô está na linha – anuncia Artemis, pondo a mão no fone. – Está falando alguma coisa sobre o ônibus noturno e que nunca mais vai confiar em você.

- Você recebeu um telefonema do departamento de publicidade da Harvey’s Bristol Cream – é a vez de Caroline. – Eles querem saber para onde podem mandar uma caixa grátis de licor de xerez.

- Como eles souberam o meu nome? Como? A notícia já se espalhou? As mulheres na recepção estão contando a todo mundo?

- Emma, seu pai está na linha – informa Nick. – Ele disse que precisa falar com você urgente...

- Não posso – respondo, entorpecida. – Não posso falar com ninguém. Eu tenho que... eu tenho que...

Pego meu casaco, saio quase correndo da sala e vou pelo corredor até a escada. Em toda parte pessoas estão voltando para suas salas depois de assistir à entrevista, e todas me olham enquanto passo depressa.

- Emma! – Enquanto me aproximo da escada, uma mulher chamada Fiona, que eu mal conheço, me agarra pelo braço. Ela pesa uns 150 quilos e vive fazendo campanhas para cadeiras maiores e portas mais largas. – Nunca tenha vergonha do seu corpo. Rejubile-se dele! A mãe terra lhe deu! Se você quiser ir ao nosso grupo de estudos no sábado...

Puxo o braço horrorizada e começo a descer a escada de mármore. Mas quando chego ao andar de baixo outra pessoa agarra meu braço.

- Ei, pode dizer que brechós você freqüenta? – É uma garota que eu nem conheço. –

Porque você sempre parece muito bem vestida...

- Eu adoro Barbies também! – Carol Finch, da contabilidade, está subitamente no meu caminho. – Vamos fundar um clube, Emma?

- Eu... realmente tenho de ir.

Recuo e começo a correr escada abaixo. Mas as pessoas ficam me encurralando, de todas as direções.

- Eu só soube que era lésbica aos 33 anos...

- Muitas pessoas se sentem confusas com relação à religião. Este é um folheto de nosso grupo de estudos bíblicos...

- Me deixem em paz! – grito angustiada. – Todo mundo, me deixe em paz!

Corro para a entrada, com as vozes me seguindo, ecoando no piso de mármore. Enquanto empurro freneticamente a pesada porta de vidro, Dave, o segurança, se aproxima e olha direto os meus peitos.- Para mim eles estão ótimos, querida – elogia.