O Segredo de Emma Corrigan
Vinte e Seis
Lágrimas estão escorrendo pelo meu rosto, e eu as enxugo com força. – Eu nem queria saber um segredo tão grande. Só queria saber dos seus segredos pequenos! Seus
segredinhos! Só queria conhecer você... como você me conhece.
Mas ele não me olha. A porta do carro se fecha com um ruído forte, e o veículo se afasta pela rua. E eu sou deixada ali, sozinha.
Vinte e Seis
Durante um tempo não consigo me mexer. Fico parada, atônita, com o vento soprando no rosto, olhando para o fim da rua onde o carro de Jack desapareceu. Ainda posso ouvir sua voz na mente. Ainda posso ver seu rosto. O modo como ele me olhou, como se não me conhecesse, depois de tudo.
Um espasmo de dor atravessa meu corpo e eu fecho os olhos, quase incapaz de suportar.
Se eu pudesse voltar no tempo... se fosse mais incisiva... se tivesse levado Jemina e seu
amigo para fora do teatro... se tivesse falado mais depressa quando Jack apareceu...
Mas não fiz isso. E é tarde demais.
Um grupo de convidados da festa sai do pátio para a calçada, rindo e falando de táxis.
- Você está bem? – quer saber alguém com curiosidade, e eu levo um susto.
- Estou – digo. – Obrigada. – Olho mais uma vez para onde o carro de Jack desapareceu, depois me obrigo a voltar lentamente para a festa.
Encontro Lissy e Jemina ainda na salinha, Jemina se encolhendo de terror enquanto Lissy pega pesado com ela.
- ...sua putinha egoísta e imatura! Você me dá nojo, sabia?
Uma vez ouvi alguém dizer que Lissy era um Rottweiler no tribunal, e nunca pude entender. Mas agora, vendo-a andando de um lado para o outro, os olhos chamejando de fúria, também sinto um bocado de medo.
- Emma, faz ela parar! – implora Jemina. – Faz ela parar de gritar comigo.
- Então... o que aconteceu? – Lissy me olha, com o rosto iluminado de esperança. Em silêncio eu balanço a cabeça.
- Ele...
- Ele foi embora. – Engulo em seco. – Não quero mais falar.
- Ah, Emma. – Ela morde o lábio.
- Não – digo com voz embargada. – Assim eu acabo chorando. – Encosto-me na parede e respiro fundo algumas vezes, tentando voltar ao normal. – Onde está o amigo dela? –
pergunto finalmente e aponto o polegar para Jemina.
- Foi expulso – responde Lissy com satisfação. – Estava tentando tirar uma foto do juiz Hugh Morris de malha, e um punhado de advogados o rodeou e colocou para fora.
- Jemina, escute. – Obrigo-me a encontrar seu olhar azul que não mostra arrependimento.
– Você não pode deixar que ele descubra mais nada. Não pode.
- Tudo bem. – cede ela, carrancuda. – Eu já falei com ele. Lissy me obrigou. Ele não vão continuar com isso.
- Como você sabe?
- Ele não vai fazer nada que irrite mamãe. Ele tem um arranjo muito lucrativo com ela.
Jogo para Lissy um olhar do tipo “dá para confiar nela?”, e ela encolhe os ombros, em dúvida.
- Jemina, isso é um aviso. – Vou até a porta e meu rosto está sério. – Se alguma coisa for revelada, qualquer coisa, eu vou tornar público que você ronca.
- Eu não ronco! – nega Jemina irritada.
- Ronca sim – confirma Lissy. – Quando você bebe demais, ronca muito alto. E nós vamos contar a todo mundo que você comprou seu casaco Donna Karan numa loja de ponta-de-estoque.
Jemina ofega horrorizada.
- Não comprei! – diz ela com o vermelho enchendo as bochechas.
- Comprou sim. Eu vi a bolsa de compras – entôo. – E vamos tornar público que uma vez você pediu um serviette e não um guardanapo.
Jemina aperta a mão na boca.
- ...e que sua pérolas são cultivadas, e não de verdade...
- ...e que você nunca prepara a comida que oferece nos seus jantares...
- ...e que aquela foto sua com o príncipe William é forjada...
- ... e vamos contar a todo homem que você namorar, de hoje em diante, que você só está querendo uma pedra no dedo! – termino, e olho agradecida para Lissy.
- Certo! – grita Jemina, praticamente em lágrimas. – Certo! Prometo que vou esquecer tudo sobre isso. Prometo. Por favor, só não falem da loja de ponta-de-estoque. Por favor.
Posso ir agora? – Ela olha para Lissy, implorando.
- Sim, pode ir. – diz Lissy cheia de desprezo, e Jemina corre para fora da sala. Quando a porta se fecha, eu encaro Lissy.
- Aquela foto de Jemina com o príncipe William é mesmo forjada?
- É! Eu não contei? Uma vez eu fiz umas coisas para Jemina no computador dela e abri o arquivo por engano, e ali estava. Ela simplesmente grudou a cabeça no corpo de outra garota!
Não consigo evitar um risinho.
- Essa garota é inacreditável!
Deixo-me afundar numa cadeira, sentindo-me subitamente fraca, e por um tempo há silêncio. A distância ouço o rugir de gargalhadas na festa, e alguém passa pela porta da sala falando do problema do sistema judiciário tal como é... .
- Ele nem quis ouvir? – pergunta Lissy finalmente.
- Não. Só foi embora.
- Isso não é meio extremo? Quero dizer, ele entregou todos os seus segredos. Você só entregou um dele...
- Você não entende. – Encaro o tapete velho da sala. – O que Jack me contou não é uma coisa qualquer. É uma coisa realmente preciosa para ele. Ele veio até aqui me contar.
Mostrar que confiava em mim. – Engulo em seco. – E no instante seguinte me acha falando tudo com um jornalista.- Mas você não estava! – argumenta Lissy com lealdade – Emma, não foi sua culpa!
- Foi! – As lágrimas estão crescendo nos meus olhos. – Se eu ficasse de boca fechada, se nunca tivesse dito alguma coisa a Jemina...
- Ela pegaria pesado de qualquer modo. Ele estaria processando você por um arranhão no carro. Ou pela genitália danificada.
Dou um riso trêmulo.
A porta se abre de súbito, e o sujeito com penas na cabeça, que vi nos bastidores, olha para dentro.
- Lissy! Aí está você. Estão servindo a comida. E parece bem boa.
- Certo – responde ela. – Obrigada, Colin. Eu já vou indo.
Ele sai e Lissy se vira para mim.
- Quer comer alguma coisa?
- Não estou com fome. Mas vai você – acrescento depressa. – Você deve estar, depois da apresentação.
- Estou morrendo de fome. – Em seguida ela me dá um olhar ansioso. – Mas o que você vai fazer?
- Eu... só vou para casa – tento sorrir o mais animada que consigo. – Não se preocupe, Lissy, vou ficar bem.
E estou planejando ir para casa. Mas quando saio descubro que não consigo me obrigar.
Estou tensa como uma mola. Não consigo pensar em ir para a festa e jogar conversa fora –
mas também não consigo pensar nas quatro paredes vazias do meu quarto. Ainda não.
Em vez disso vou pelo cascalho em direção ao auditório vazio. A porta está destrancada e eu entro direto. Ando pelo escuro até uma poltrona no meio, e sento-me cansada no assento roxo e fofo.
Enquanto olho para a escuridão silenciosa do palco vazio, duas lágrimas gordas escorrem lentamente pelo meu rosto. Não acredito que fiz uma merda tão monumental. Não acredito que Jack realmente acha... acha que eu faria...
Fico vendo o choque no rosto dele. Fico revivendo aquela impotência travada, aquele desespero de falar; de me explicar.
Se eu ao menos eu pudesse voltar no tempo...
De repente há um rangido. A porta está se abrindo vagarosamente.
Olho em dúvida para a escuridão enquanto uma figura entra no auditório e pára. Mesmo contra a vontade, meu coração martela com uma esperança insuportável.
É Jack. Tem de ser Jack. Ele veio me procurar.
Há um silêncio longo, angustiante. Estou tensa de apreensão. Por que ele não diz nada?
Por que não fala?
Ele está me castigando? Está esperando que eu peça desculpa de novo? Ah meu Deus, isso é uma tortura. Diga alguma coisa, imploro em silêncio. Diga alguma coisa.
- Ah, Francesca...
- Connor...
O quê? Olho de novo, com mais atenção, e sinto um choque de desapontamento. Sou uma imbecil. Não é Jack. Não é só uma figura, são duas. É Connor, e aquela deve ser a namorada nova. E estão se esfregando.
Arrasada, afundo na poltrona tentando bloquear os ouvidos. Mas não adianta, consigo ouvir tudo.
- Você gosta disso? – ouço Connor murmurando.
- Mmm...
- Gosta mesmo?
- Claro que gosto! Pára com esse interrogatório!
- Desculpe – diz Connor, e há um silêncio, afora um ou outro “Mmm”.
- Você gosta disso? – diz a voz dele outra vez.
- Eu já disse que gosto.
- Francesca, seja honesta, certo? – A voz de Connor se eleva, agitada. – Porque se isso significa um não...
- Não significa um não! Connor, qual é o seu problema?
- Meu problema é que não acredito em você.
- Você não acredita em mim? – Ela parece furiosa. – Por que, diabos, você não acredita em mim?
De repente estou cheia de remorso. É tudo minha culpa. Não somente estraguei meu relacionamento, agora estraguei o deles também. Tenho de fazer alguma coisa. Tenho de construir pontes.
Pigarreio.
- Hrm... com licença?
- Quem é, droga? – irrita-se Francesca. – Tem alguém aí?
- Sou eu. Emma. A ex-namorada de Connor.
Uma fileira de luzes se acende, e eu vejo uma garota ruiva me olhando com beligerância, com a mão no interruptor.
- Que diabo você está fazendo aqui? Espionando a gente?
- Não! Olha, desculpa. Eu não queria... eu não pude deixar de ouvir... – Engulo em seco.
- O negócio é... Connor não está sendo difícil. Ele só quer ser honesto. Quer saber do que
você gosta. – Busco minha expressão mais compreensiva, de amiga. – Francesca... diga a ele o que você quer.
Francesca me olha incrédula, depois olha para Connor.
- Eu quero que ela dê o fora daqui. – Ela aponta para mim.
- Ah – digo sem graça. – É, tudo bem. Desculpe.
- E apague as luzes quando sair – acrescenta Francesca, guiando Connor pelo corredor em direção aos fundos do auditório.
Eles vão fazer sexo?
Certo, não quero estar por aqui para ver isso.
Pego minha bolsa depressa e vou rapidamente pela fileira de bancos em direção à saída.
Passo pela porta dupla para o saguão, apagando a luz ao mesmo tempo, e saio para o pátio.
Fecho a porta e levanto os olhos.
E congelo.
Não acredito. É Jack.
É Jack, vindo para mim, caminhando depressa pelo pátio, com determinação no rosto.
Não tive tempo para pensar nem para me preparar.
Meu coração está realmente disparado. Quero falar, chorar ou... fazer alguma coisa, mas não consigo.
Ele me alcança com um som de cascalho esmagado, me pega pelos ombros e me dá um olhar longo, intenso.
- Eu tenho medo de escuro.
- O quê? – hesito.
- Eu tenho medo de escuro. Sempre tive. Tenho um bastão de beisebol debaixo da cama, só para garantir.
Encaro-o numa perplexidade absoluta.
- Jack...
- Eu nunca gostei de caviar. – Ele olha em volta. – Eu... eu tenho vergonha do meu sotaque em francês.
- Jack, o que você...
- Eu ganhei a cicatriz no pulso abrindo uma garrafa de cerveja quando tinha quatorze anos. Quando era garoto eu costumava grudar chiclete debaixo da mesa de jantar da tia Francine. Perdi a virgindade com uma garota chamada Lisa Greenwood, no celeiro do tio dela, e depois perguntei se podia ficar com o sutiã dela para mostrar aos meus amigos.