O Silêncio dos Inocentes
Thomas Harris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Outras obras do autor
O dragão vermelho
Hannibal
Hannibal: a origem do mal
THOMAS HARRIS
O silêncio dos
inocentes
Tradução de
ANTÔNIO GONÇALVES PENNA
12a EDIÇÃO
CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
Harris, Thomas, 1940-H26s O silêncio dos inocentes /
Thomas Harris; tradução 12 a ed. de Antônio Gonçalves Penna. - 12 a ed. - Rio de Janeiro: Record, 2007.
Tradução de: The silence of the lambs
ISBN 978-85-01-03519-6
1. Ficção norte-americana. I. Penna, Antônio G. II. Título.
CDD - 813
99-0125 CDU - 820(73)-3
Título original norte-americano: THE SILENCE OF
THE LAMBS
Impresso no Brasil
ISBN 978-85-01-03519-6
EDITORA AFILIADA
À memória de meu pai Se, como homem, lutei em Éfeso com feras, de que me serve isso se os mortos não ressuscitam?
— 1 Coríntios
Preciso olhar para uma caveira num anel, se tenho uma no rosto?
— John Donne, “Devotions”
CAPÍTULO 1
Ciência do Comportamento, seção do FBI que trata de assassinatos em série, fica no andar térreo do edifício da Academia em Quântico, meio enterrada no solo. Clarice Starling chegou lá afogueada, depois de um rápido per-curso desde o estande de tiro em Hogan’s Alley. Tinha pedaços de capim no cabelo e seu blusão da Academia do FBI estava manchado porque tivera que se atirar ao chão sob fogo num exercício de aprisionamento em condições especiais.
Não havia ninguém na ante-sala, de modo que ela ajeitou os cabelos olhando seu reflexo nas portas de vidro.
Sabia que podia exibir uma boa aparência sem muito esforço. Suas mãos cheiravam à fumaça das armas de fogo pois não tivera tempo de lavá-las o chamado do Chefe de Seção Crawford frisava imediatamente.
Encontrou Jack Crawford sozinho no superlotado escritório. Ele estava de pé à mesa de alguém, falando ao telefone e ela teve a chance de observá-lo pela primeira vez após um ano. O que viu perturbou-a.
Normalmente Crawford tinha a aparência de um engenheiro de meia-idade, com bom físico, que poderia ter freqüentado a universidade participando no time de beisebol — jogo em que era um eficiente apanhador, duro de roer quando bloqueava a cancha. Agora estava magro, o colarinho da camisa folgado demais e tinha manchas escuras por baixo dos olhos avermelhados. Todo mundo que lia os jornais sabia que a seção da Ciência do Comportamento vinha sendo muito criticada. Starling es-
perava que Crawford não tivesse bebido, o que, aliás, parecia muito improvável naquele lugar.
Crawford terminou a conversa telefônica com um curto “não”. Tirou o dossiê dela debaixo do braço e abriu-o.
— Starling, Clarice M., bom dia — disse.
— Alô. — O sorriso dela era apenas educado.
— Nada de ruim com você. Espero que minha chamada não a tenha assustado.
— Não. — Não era inteiramente verdade, pensou Starling.
— Seus instrutores informam que você vai indo muito bem, no quartel superior da classe.
— Espero que sim; eles não divulgaram isso — ou divulgaram?
— Eu os questiono de tempos em tempos.
Aquilo surpreendeu Starling; ela descartara Crawford como um filho da puta de um sargento recrutador de duas caras.
Conhecera o Agente Especial Crawford quando ele era conferencista convidado na Universidade de Virginia.
A qualidade dos seminários dele em criminologia fora um fator de sua vinda para o Bureau. Ela lhe escrevera um bilhete quando foi aprovada para a Academia, mas nunca recebera resposta, e durante os três meses em que estava em treinamento em Quântico, Crawford a ignorara.
Starling descendia de gente que não pedia favores nem se esforçava para conseguir amizades, mas ficara in-trigada e também ressentida com o comportamento de Crawford. Agora, na presença dele, voltava a achá-lo simpático, o que registrou com pesar.
Estava claro que algo andava errado com ele. Crawford tinha um talento peculiar, além da inteligência, e Starling observara isso pela primeira vez aprovando seu senso de cores e a escolha dos tecidos de suas roupas, um problema difícil, dentro dos rígidos padrões FBI para a ves-timenta estilo robô de um agente. Agora ele continuava decente, mas um tanto desmazelado, como se estivesse mudando de pêlo.
— Apareceu um serviço e pensei em você — disse ele. — Não é propriamente um serviço, é mais um encargo interessante. Ponha no chão esse material de Berry que está na cadeira e sente-se. Você declarou na sua ficha que pretende vir diretamente para a Ciência do Comportamento quando terminar o curso na Academia.
— Correto.
— Você tem bastante prática forense, mas não tem um passado de atividade policial. Nós exigimos em geral seis anos, no mínimo.
— Meu pai era um agente de polícia. Eu conheço a vida policial.
Crawford deu um ligeiro sorriso.
— O que você realmente tem são dois diplomas superiores, em psicologia e criminologia, e quantos períodos de trabalho no verão num centro de sanidade mental. .
dois? — Dois.
— Sua licença de advogada está atualizada?
— Ainda é boa para mais dois anos. Eu a tirei antes do seu seminário na Universidade de Virgínia. . antes que decidisse dedicar-me a isto.
— Você foi apanhada no congelamento de admis-sões.
Starling fez que sim com a cabeça.
— No entanto, tive sorte; descobri-o a tempo de me qualificar para uma bolsa forense. Dessa maneira pude trabalhar no laboratório até que a Academia tivesse uma vaga. — Você me escreveu que queria vir para cá, não foi? E eu não creio haver respondido... sei que não o fiz.
Deveria ter dado uma resposta.
— Certamente tinha muito mais que fazer.
— Você está informada acerca do PAC-VI?
— Sei que é o Programa de Avaliação de Criminosos Violentos. O Boletim da Polícia diz que vocês estão trabalhando para atender a uma data básica, mas que o programa ainda não pode entrar em operação.
Crawford concordou com a cabeça.
— Desenvolvemos um questionário. Aplica-se a todos os assassinos em série conhecidos nos tempos modernos. — Passou-lhe um volumoso bloco de papéis nu-ma encadernação de cartolina. Há uma seção para investigadores e outra para as raras vítimas sobreviventes. O
questionário azul é para o assassino responder se quiser, e o rosa consta de uma série de perguntas que um examinador faz ao criminoso, observando suas reações e suas respostas. É uma papelada enorme.
Papelada. O interesse pessoal de Clarice Starling fa-rejou qualquer coisa viável como um cãozinho esperto.
Pressentiu uma futura oferta de emprego — provavelmente o enfadonho trabalho de alimentar um computador com dados insossos. Era tentador ingressar na Ciência do Comportamento em qualquer função, mas ela sabia o que acontece a uma mulher se um dia for rotulada como se-
cretária — o estigma adere até o fim dos tempos. Se havia uma escolha à vista, queria escolher bem.
Crawford parecia estar numa expectativa — por certo lhe tinha feito uma pergunta. Starling teve que dar tratos à bola para lembrar-se.
— Que testes você já empregou? Minnesota Multi-fásico? Rorschach?
— MMPI, sim; Rorschach nunca — respondeu ela.
— Já fiz Percepção Temática e apliquei em crianças o Bender-Gestalt.
— Você se apavora cora facilidade, Starling?
— Até agora, não.
— Olhe aqui: nós tentamos fazer entrevistas e examinar os trinta e dois assassinos em série que temos em custódia, a fim de construir um banco de dados para obter o perfil psicológico dos casos ainda não solucionados. A maioria deles concordou em cooperar conosco — penso que uma grande parte gosta de se exibir. Vinte e sete estavam dispostos a cooperar. Quatro, que estão no “corredor da morte” dependentes de apelação, negaram-se a falar, o que compreensível. Daquele, porém, que mais nos interessa, ainda não conseguimos a menor colaboração. Quero que você o procure amanhã no manicômio.
Clarice Starling sentiu um lampejo de alegria no peito, mas também alguma apreensão.
— Quem é o sujeito?
— O Dr. Hannibal Lecter, o psiquiatra — informou Crawford.
Um breve silêncio segue-se sempre a esse nome, em qualquer reunião civilizada.
Starling fixou o olhar em Crawford, mas ainda parecia muito calma.
— Hannibal, o canibal — disse ela.
— Sim.
— O.K., está certo. Fico contente pela oportunidade, mas você deve saber que estou admirada: por que eu?
— Principalmente porque você está disponível —
disse Crawford. — Não espero que ele coopere. Já se recusou antes, mas foi diante de um intermediário: o diretor do hospital. Eu preciso estar em condições de dizer que um examinador nosso, qualificado, o procurou e questionou pessoalmente. Existem razões para isso que não são problema seu. Não me resta ninguém nesta seção para fazê-lo. — Você falou amanhã; está apressado. O assunto tem algo a ver com algum caso corrente?
— Não. Seria melhor se tivesse.
— Você está encrencado: Buffalo Bil e as coisas que acontecem em Nevada
— Acertou. É a velha história: não dispomos de bastantes corpos ainda quentes
— Se ele se esquivar comigo, você ainda vai querer uma avaliação psicológica?
— Não. Estou até as orelhas de avaliações considerando o Dr. Lecter um “paciente inacessível”, e todas elas diferentes.
Crawford apanhou dois comprimidos de vitamina C na palma da mão. Dissolveu um Alka-Seltzer num copo de água gelada e depois os engoliu.
— É ridículo, saiba você; Lecter é um psiquiatra e escreve para jornais de psiquiatria — artigos extraordinários — , mas nunca sobre suas próprias anomalias. Certa vez, ele fingiu concordar com Chilton, o diretor do hospital, em se submeter a alguns testes — sentado, com uma
almofada de tirar pressão no pênis e olhando para fotos pornô. E foi Lecter quem publicou depois o que havia descoberto acerca de Chilton, fazendo-o passar por palha-ço. Ele responde é de a uma correspondência séria de estudantes de psiquiatria em campos que não têm relação com o seu caso, e isso é tudo o que faz. Se ele não quiser falar com você, limite-se a apenas um simples relatório: qual é a aparência dele, qual o aspecto da sua cela, o que ele está fazendo. A cor local, por assim dizer. Cuidado com a imprensa quando entrar e quando sair. Não a imprensa legítima, a imprensa marrom. Eles adoram Lecter, até mais do que ao Príncipe Andrew.
— Uma dessas revistas sujas não ofereceu a ele 50
mil dólares por algumas receitas? Tenho uma lembrança disso — disse Starling.
Crawford anuiu com a cabeça.
Estou quase certo de que a National Tattler subor-nou alguém dentro do hospital, e eles poderão saber que você está indo para lá assim que eu marcar o encontro.
— Ora, bem — Crawford inclinou-se para frente até encará-la a uma distância de dois palmos. Ela observou que seus óculos de meias-lentes disfarçavam as bolsas que pendiam debaixo dos olhos.
Sentiu que Crawford fizera recentemente gargarejos com Listerine. Agora eu desejo toda sua atenção, Starling. Você está me escutando?
— Sim, senhor. — disse Starling.
— Tenha muito cuidado com Hannibal Lecter. O
Dr. Chilton, — chefe do hospital de doentes mentais, irá recapitular com você todo o procedimento físico que deve adotar. Não se desvie dele. Não se desvie um s6 milímetro, seja qual for a razão. Quando Lecter falar com você, lembre-se de que estará tentando descobrir algo sobre vo-
cê. É a espécie de curiosidade que faz uma serpente fixar os olhos num ninho de pássaro. Ambos sabemos que nu-ma entrevista é preciso ouvir um pouco e falar um pouco, mas não lhe diga nada de específico a seu respeito. Não lhe convém que qualquer dos seus assuntos pessoais entre na cabeça dele. Você sabe o que ele fez com Wil Graham.
— Li quando aconteceu.
— Ele atacou com uma faca feita de linóleo quando Will se aproximou demais. Foi um milagre Wil não ter morrido. Lembra-se do Dragão Vermelho? Lecter atiçou Francis Dolarhyde contra Will e sua família. O rosto de Wil ficou como se houvesse sido pintado pela porra do Picasso, graças a Lecter. Ele trucidou uma enfermeira no asilo. Faça seu trabalho, mas não se esqueça do que ele é.
— E o que é ele? Você sabe?
— Sei que é um monstro. Mais que isso, ninguém pode dizer com certeza. Talvez você descubra, Starling; eu não a escolhi por acaso. Você me fez algumas perguntas interessantes quando estive na UVA. O diretor apreciará seu relatório — se for claro, conciso e organizado. Eu é que decido isso. E o terei nas mãos às 9:00 de domingo. O.K., Starling, quero um desempenho de acordo com o figurino.
Crawford sorriu para ela, mas seus olhos estavam mortos.
CAPÍTULO 2
Dr. Frederick Chilton, 58 anos, administrador do Hospital Estadual de Baltimore para Criminosos Aliena-dos Mentais, tem uma comprida e larga mesa sobre a qual jamais se vêem objetos duros ou pontudos. Alguns dos membros da equipe chamam-na de “fosso”. Outros não sabem o que fosso significa. O Dr. Chilton permaneceu sentado atrás da mesa quando Clarice Starling entrou no seu escritório.
— Já recebemos muitos detetives, mas não me recordo de nenhum tão atraente — disse Chilton, sem se levantar.
Starling sabia instintivamente que o brilho na sua mão estendida era devido à lanolina que ele usava para fixar o cabelo. Soltou a mão do diretor antes que ele o fizesse. — É a Srta. Sterling, estou certo?
— É Starling, doutor, com a. Obrigada por haver-me recebido.
— Então o FBI está selecionando mulheres, como todo mundo faz, hem? Ha, ha! — Empregou o sorriso de fumante que lhe servia para separar as frases.
— O Bureau está melhorando, Dr. Chilton. Sem dúvida. — Vai ficar em Baltimore alguns dias? Saiba que pode se divertir tanto aqui como em Nova York ou em Washington, desde que conheça a cidade.
Ela desviou o olhar para esquivar-se ao sorriso dele e percebeu imediatamente que o diretor sentira sua aver-são.
— Estou,certa de que é uma grande cidade, mas tenho instruções para ver o Dr. Lecter e apresentar-me de volta esta tarde.
— Há algum número em Washington para onde eu possa lhe telefonar mais tarde, para saber como correram as coisas?
— Naturalmente. É muita bondade sua pensar nisso. O agente especial Jack Crawford é o encarregado deste projeto e o senhor poderá entrar em contato comigo através dele.
— Entendo — disse Chilton. Seu rosto, repleto de manchas rosadas, contrastava com o improvável marrom-avermelhado de sua cabeleira. — Mostre-me sua identidade, por favor. — Deixou-a ficar de pé durante um vagaroso exame no cartão de identidade. Então o devolveu e levantou-se. — Bem, o caso não irá levar muito tempo.
Venha comigo.
— Eu supunha que o senhor teria instruções para mim, Dr. Chilton -— disse Starling.
— Posso fazer isso enquanto caminhamos. — Deu a volta em torno de sua mesa e consultou seu relógio: —
Tenho um compromisso para o almoço dentro de meia hora. Maldição! Deveria tê-lo compreendido melhor, mais rapidamente. Talvez ele não fosse um completo cretino. Talvez soubesse algo que lhe seria útil. Nada perderia se tivesse correspondido com um sorriso amável ao avanço dele, embora não fosse boa nisso.
— Dr. Chilton, tenho um encontro marcado com o senhor, agora. Foi marcado de acordo com sua conveniência, quando pudesse dedicar-me algum tempo. Algo po-
de surgir durante a entrevista. . talvez eu precise discutir algumas das respostas dele com o senhor.
— Na verdade, na verdade, eu duvido. Ah! e tenho que dar um telefonema antes de irmos. Encontro-a na sala de espera.
— Gostaria de deixar meu casaco e meu guarda-chuva aqui.
— Lá fora — determinou Chilton. — Entregue-os a Alan na sala de espera. Ele os guardará.
Alan usava a roupa semelhante a um pijama que era fornecida aos internos. Encontrou-o limpando os cinzeiros com a fralda da camisa.
Passou a língua dentro da boca enquanto pegava o casaco de Starling.
— Obrigada — disse ela.
— Não tem de quê. Quantas vezes por dia você ca-ga? — O que foi que você disse?
— Seu cagalhão é muito comprido?
— Bem, eu mesma vou pendurar minhas coisas.
— Se você não tiver nada que a impeça, pode abaixar-se e observar quando ele sai e ver como muda de cor quando o ar o atinge. Você faz isso? Não fica parecendo que você tem um longo rabo marrom? — Alan não larga-va o casaco dela.
— O Dr. Chilton precisa de você no escritório agora mesmo.
— Não, não preciso — disse o Dr. Chilton. — Ponha o casaco no armário, Alan, e não o tire enquanto não voltarmos. Faça-o. Eu tinha uma secretária em tempo integral, mas os cortes de despesa a levaram. Agora a pequena que introduziu você bate à máquina três horas por
dia, e neste intervalo eu tenho Alan. Onde andam as garotas de escritório, Srta. Starling? — Seus óculos dispararam raios em direção a ela. — Você está armada?
— Não. Não estou armada.
— Posso ver sua bolsa e sua pasta?
— O senhor viu minhas credenciais..
— E elas dizem que você é uma estudante. Deixe-me ver sua coisas, por favor.
Clarice Starling encolheu-se quando a primeira das pesadas portas metálicas se fechou com um estrondo.
Chilton caminhava um pouco à frente ao longo do convencional corredor verde numa atmosfera de lisol e distantes batidas de portas. Starling estava zangada consigo mesma por haver deixado Chilton pôr as mãos na sua bolsa e pasta e, com raiva, pisava forte de forma a poder recuperar-se. Em instantes estava tudo bem. Sentia um controle sólido sob seu pés, como um bom chão de areia nu-ma forte correnteza.
— Lecter nos dá um tremendo trabalho — disse Chilton sem olhar para trás. — Um guarda leva pelo menos 10 minutos todo dia para remover os grampos das publicações que ele recebe. Tentamos eliminá-las ou reduzir o número de assinaturas, mas ele fez uma reclamação e a corte desautorizou-nos. O volume da sua correspondência pessoal costumava ser enorme. Graças a Deus diminuiu quando ele foi superado por outras criaturas nos noticiários. Durante um bom tempo parecia que todo estudan-tezinho fazendo tese para doutorado em psicologia desejava incluir nela qualquer coisa, vinda de Lecter. Os jornais de medicina ainda o publicam, mas apenas pelo lado monstruoso das suas opiniões.
— Ele publicou um bom artigo, creio eu, sobre o vício da cirurgia, no Jornal de Psiquiatria Clínica — disse Starling.
— Você julgou-o bom, hein? Nós tentamos estudar Lecter. Pensamos: “Aí está a oportunidade de realizar um estudo que fará história” — é tão raro conseguir um exemplar vivo.
— Um o quê?
— Um sociopata puro, o que obviamente ele é.
Mas o homem é impenetrável, sofisticado em excesso para os testes convencionais. E, por Deus! — ele nos odeia.
Pensa que eu sou a Nêmesis dele. Crawford foi muito esperto — não é? — usando-a no caso Lecter.
— O que quer dizer com isso, Dr. Chilton?
— Uma mulher jovem para “animá-lo”, creio que é assim que se diz. Presumo que Lecter não vê uma mulher há anos — quando muito, pode ter vislumbrado uma das mulheres da limpeza. Em geral não aceitamos mulheres aqui. Elas são um problema nas prisões Ora, vá se foder, Chilton!
— Eu me formei na Universidade de Virginia com louvores, doutor. Não é uma escola de coquetes.
— Então lembre-se das regras: não enfie as mãos pelas barras, nem toque nelas. Não entregue nada a ele exceto papel macio. Nada de caneta ou lápis. Ele tem sua própria caneta com ponta de feltro. Os papéis que você passar a ele devem estar isentos de grampos, clipes ou alfinetes. Qualquer coisa só pode chegar às mãos dele pelo transportador deslizante de comida. E a devolução será feita pelo mesmo transportador. Sem exceções! Não aceite nada que ele tente lhe empurrar através das barras. Está me compreendendo?
— Compreendo.
Haviam transposto mais dois portões e deixado à luz natural para trás. Agora estavam além das alas da prisão onde os prisioneiros podiam encontrar-se, num local onde só havia celas solitárias, sem janelas. As luzes do corredor eram cobertas por grossas grades, como as das salas de máquinas nos navios. O Dr. Chilton parou embaixo de uma. Ao se deterem, Starling ainda pôde ouvir por trás da parede fragmentos de gritos distantes.
— Lecter nunca sai da sua cela sem uma aparelhagem completa para restrição de movimentos e uma mordaça — explicou Chilton. — Vou dizer-lhe por quê. Ele foi um modelo de cooperação durante o primeiro ano de internamento. A segurança em torno dele foi ligeiramente relaxada — isto aconteceu durante a administração anterior, compreenda. Na tarde do dia 8 de julho de 1976, ele queixou-se de dores no peito e foi levado para o ambula-tório. A restrição foi suspensa para tornar mais fácil um eletrocardiograma. Quando a enfermeira se inclinou sobre ele, aqui está o que Lecter fez com ela. — Chilton passou a Clarice Starling uma fotografia com os cantos desgastados. — Os médicos conseguiram salvar um de seus olhos.
Lecter estava todo o tempo ligado aos monitores, mas assim mesmo quebrou a mandíbula dela para arrancar-lhe a língua. A pulsação dele nunca passou de 85, mesmo quando ele a engoliu.
Starling não sabia o que era pior, a fotografia ou a atenção de Chilton enquanto examinava seu rosto com olhos curiosos. Ela pensou numa galinha sedenta procurando lágrimas no seu rosto.
— Eu o mantenho guardado aqui — disse Chilton, e apertou um botão ao lado de pesadas portas duplas de
vidro de segurança. Um guarda grandalhão deixou-os entrar. Starling tomou uma dura decisão e parou assim que passaram pelas portas.
— Dr. Chilton, nós realmente precisamos dos resultados desses testes. Se o Dr. Lecter sente que o senhor é inimigo dele, e tem uma fixação nisso, exatamente como o senhor disse, talvez tenhamos mais sorte se eu me aproximar sozinha. O que o senhor acha?
O rosto de Chilton teve um tremor.
— Concordo perfeitamente com isso. Você poderia tê-lo sugerido no escritório. Eu mandaria um guarda acompanhá-la e não perderia meu tempo.
— Eu lhe proporia isso se o senhor me houvesse instruído quando ainda estávamos lá.
— Não espero vê-la de novo, Senhorita Starling. —
E para o guarda: — Barney, quando ela terminar com Lecter, chame alguém para acompanhá-la na saída.
Chilton afastou-se sem olhar para ela.
Agora havia apenas o grande e impassível guarda, o relógio silencioso por trás dele, seu gabinete gradeado com um porrete e uma camisa-de-força pendurados administrador, uma mordaça e a pistola de gás tranqüilizante na mesa. Num suporte havia um aparelho feito um cano em U para imobilizar os violentos de encontro à parede.
O guarda olhava para ela.
— O Dr. Chilton lhe avisou para não tocar nas barras? — A voz dele era ao mesmo tempo forte e rouca.
Fazia-a lembrar-se de Aldo Ray.
— Sim, ele me avisou.
— O.K. Bem, é a última cela, à direita. Ande no centro do corredor e não ligue para nada. Você pode levar
a correspondência dele, será um bom começo. — O guarda parecia particularmente divertido. — Mas ponha-a na bandeja e deixe rolar. Se a bandeja estiver no lado de dentro, você pode puxá-la, com a corda, ou Lecter pode mandá-la de volta. Ele não pode alcançar você no lugar onde a bandeja pára no lado de fora. — O guarda entregou-lhe duas revistas com as folhas soltas, três jornais e várias cartas abertas.
O corredor tinha uns 30 metros de comprimento, com celas em ambos os lados. Algumas eram acolchoadas, com uma janela longa e estreita como uma frecheira, no centro da porta. Outras eram celas padronizadas de prisão, com uma grade de barras abrindo-se para o corredor.
Clarice Starling pressentia vultos no interior dos cubículos, mas tentava não olhar para eles. Tinha percorrido mais que a metade do caminho quando ouviu uma voz sibilan-te:
— Posso sentir o cheiro da sua boceta.
Ela não deu sinal que tinha ouvido e continuou andando. As luzes estavam acesas na última cela. Clarice moveu-se para o lado esquerdo do corredor, tentando enxergar o que havia lá dentro, sabendo que os saltos dos sapatos já a haviam anunciado.
CAPÍTULO 3
A cela do Dr. Lecter ficava bem separada das outras, de frente para um armário embutido, e era especial também sob outros aspectos. A parte da frente era composta por barras, mas por trás das barras, a uma distância maior que o alcance de um braço humano, havia uma segunda barreira, uma forte rede de náilon estendendo-se do chão ao teto e de parede a parede. Por trás da rede, Starling pôde ver uma mesa aparafusada ao chão, em cima dela uma grande pilha de livros em brochura e jornais, e ao lado uma cadeira de espaldar reto, também aparafusada ao chão.
O Dr. Hannibal Lecter estava reclinado na sua ca-ma, folheando uma edição italiana da Vogue. Segurava as páginas soltas com a mão direita e punha-as ao lado, uma a uma, com a esquerda. Na mão esquerda o Dr. Lecter tinha seis dedos.
Clarice Starling parou a uma pequena distância, deixando entre ela e as grades o espaço de um pequeno corredor. — Dr. Lecter. — Sua voz pareceu adequada aos ouvidos dela.
O psiquiatra levantou os olhos da leitura.
Por um rápido momento teve a impressão de que o olhar dele produzia um zumbido, mas o que ela ouvia era a pulsação do seu próprio sangue.
— Meu nome é Clarice Starling. Posso falar com o senhor? A cortesia estava implícita na distância que ela mantinha e no seu tom de voz.
O Dr. Lecter pareceu pensar, um dedo encostado nos lábios em bico. Depois se levantou devagar e veio pa-ra frente da sua jaula tranqüilo, detendo-se antes da rede de náilon sem ligar para ela, como se escolhesse uma distância adequada.
Clarice pôde observar que ele era de estatura baixa e franzina; em suas mãos e braços, a musculatura se desta-cava como nas dela mesma.
— Bom dia — disse ele, como se tivesse atendido à porta. Sua voz revelava cultura, mas tinha um ligeiro timbre metálico, possivelmente pelo pouco uso.
Os olhos do Dr. Lecter eram castanhos e refletiam a luz em diminutos pontos vermelhos. Às vezes esses pontos luminosos pareciam voar como centelhas para o centro dos olhos. Seu olhar percorreu Starling de cima a baixo. Ela avançou uma distância bem medida em direção à grade. Os cabelos no seu antebraço se eriçaram e aderi-ram às mangas da blusa.
— Doutor, temos um sério problema no traçado de um perfil psicológico. Venho pedir-lhe auxilio.
— “Temos” quer dizer a Ciência do Comportamento em Quântico. Você é parte da gente de Jack Crawford, certo?
— Certo.
— Posso ver suas credenciais?
Ela ficou surpresa. Não esperara por aquilo.
— Mostrei-as.. no escritório.
— Quer dizer que as mostrou a Frederick Chilton, Ph.D? — Sim.
— Você viu as credenciais dele?
— Não.
— As acadêmicas não se dedicam a uma leitura muito extensa, asseguro-lhe. Você foi apresentada a Alan?
Ele não é encantador? Com qual dos dois você preferiria conversar?
— Para ser sincera, eu diria que com Alan.
— Você pode ser uma repórter que o Chilton deixou entrar por dinheiro. Penso ter o direito de ver suas credenciais.
— Muito bem. — Ela levantou na mão seu cartão de identidade.
— Não posso ler a essa distância; mande-o para cá, por favor.
— Não posso.
— Por que, não sabe se pode fazê-lo?
— Sim.
— Consulte Barney.
O guarda aproximou-se e avaliou a situação.
— Dr. Lecter, vou deixar esse cartão passar. Mas se o senhor não o devolver quando eu pedir, se tivermos que incomodar todo mundo e agarrá-lo para reaver o cartão, vou ficar aborrecido. E se o senhor me aborrecer, ficará numa camisa-de-força até eu me sentir melhor a seu respeito. Suspendo a comida através do tubo, as roupas de baixo mudadas duas vezes por dia — tudo a que o senhor tem direito. E vou reter sua correspondência por uma semana. — Certamente, Barrey.
O cartão foi para dentro na bandeja e o Dr. Lecter o expôs à luz.
— Uma estagiária? Aqui diz “em treinamento”.
Jack Crawford mandou uma estagiária entrevistar-me? —
Bateu o cartão de encontro aos pequenos dentes brancos e depois o cheirou.
— Dr. Lecter... — começou Barney.
— Sem dúvida. — Pôs o cartão de volta na bandeja e Barney puxou-o para fora.
— Ainda estou treinando na Academia, é verdade
— disse Starling — , mas não estamos discutindo o FBI, estamos falando de psicologia. O senhor pode decidir por si mesmo se eu sou qualificada sobre o assunto de que estamos falando?
— Humrnmm... — rosnou o Dr. Lecter. — Em verdade. . isso parece meio astucioso da sua parte. Barney, você acha que a policial Starling pode usar uma cadeira?
— O Dr. Chilton não me falou em cadeira.
— O que lhe diz sua educação, Barney?
— A senhora quer uma cadeira? — perguntou Barney. — Podemos arranjar uma, mas ele nunca. Bem, em geral ninguém necessita permanecer tanto tempo.
— Quero, obrigada.
Barney tirou uma cadeira dobrável do armário embutido fronteiriço à cela, abriu-a e retirou-se.
— Agora — disse Lecter, sentando-se de lado para ficar de frente para ela — , o que foi que Miggs disse a você? — Quem? — O múltiplo Miggs, na cela ali adiante.
Ele sibilou qualquer coisa quando você passou. O que foi que ele lhe disse?
— Disse: “Posso sentir o cheiro da sua boceta”.
— Entendo. Pois eu não posso. Você usa creme para pele Evyaru e às vezes L’Air du Temps, mas não ho-je. Hoje você está propositalmente sem perfume. Como você se sentiu com o que Miggs disse?
— Ele me hostilizou por razões que eu não conheço. Como uma perua! Presumi que seja hostil com as pessoas e as pessoas sejam hostis com ele. Um círculo vicio-so. — Você hostil em relação a ele?
— Lamento tê-lo perturbado. Mas ele foi descortês.
Como senhor soube sobre meu perfume?
— Um cheirinho da sua bolsa quando você a abriu para tirar o cartão. Tem uma bonita bolsa.
— Obrigada.
— Você trouxe sua melhor bolsa, não foi?
— Acertou. — Era verdade. Ela economizara para comprar uma elegante bolsa de passeio e era a melhor coisa que possuía.
— Tem muito mais classe que seus sapatos.
— Talvez também cheguem um dia a ter mais classe.. — Não duvido.
— Foi o senhor quem fez os desenhos nas paredes, doutor?
— O que acha? Que chamei um decorador?
— Aquele acima da pia é uma cidade da Europa?
— Florença. Ali estão o Palazzo Vecchio e o Duo-mo, vistos do Belvedere.
— O senhor o fez de memória, com tantos detalhes? — Memória, policial Starling, é o que tenho em vez de uma vista.
— O outro é uma crucificação? A cruz do meio es-tá vazia.
— É o Gólgota após a descida da cruz. Creiom e pincel mágico sobre papel de açougue. Ali está o que o
bom ladrão realmente ganhou quando levaram o cordeiro pascoal.
— O que foi que ele ganhou?
— Duas pernas quebradas, naturalmente, da mesma forma que as do seu companheiro que zombou de Cristo. Você não conhece nada do evangelho de São João?
Pois então olhe para Duccio ele pinta crucificações perfeitas. Como vai Wil Graham? Qual é o aspecto dele?
— Eu não conheço Wil Graham.
— Você sabe quem é. É um protegido de Jack Crawford. Aquele que a antecedeu. Como é o rosto dele?
— Nunca o vi.
— Isto é o que se chama “relembrar velhas manhas”, policial Starling. Você não se incomoda, não é?
Alguns segundos de silêncio e ela mergulhou no assunto. — Longe de me incomodar, poderíamos evocar algumas velhas manhas suas.. Eu trouxe..
— Não. Não, isso é estúpido e errado. Nunca use artimanhas em seqüência. Ouça: entender um dito espiri-tuoso e replicar de imediato faz com que seu interlocutor realize um exame imparcial e rápido da situação que é inimigo da boa vontade. E é numa base de boa vontade que poderemos prosseguir. Você estava indo bem, tinha sido cortês e sensível à cortesia, mostrou-se confiante ao contar-me a embaraçosa verdade sobre Miggs, e agora me vem com uma seqüência grosseira em favor do seu questionário. Assim não dá.
— Dr. Lecter, o senhor, um experiente psiquiatra, acredita que sou tão estúpida para iludir-me acerca de co-mo conquistar sua boa vontade? Dê-me um crédito. Eu
lhe peço para responder ao questionário, e o senhor o fará se quiser. Pode fazer-lhe algum mal olhar para ele?
— Policial Starling, você tem lido alguns dos artigos publicados recentemente pela Ciência do Comportamento? — Sim.
— Pois eu também tenho. O FBI recusa-se estupi-damente a enviar-me o Boletim da Polícia, mas eu o obte-nho de negociantes de livros usados, assim como recebo o News de John Jay e os jornais de psiquiatria. Eles estão dividindo aqueles que praticam assassinatos em série em dois grupos: o dos organizados e o dos desorganizados. O
que você acha disso?
— ...fundamental. Eles evidentemente..
— Simplista é a palavra que você está procurando.
De fato, a maior parte da psicologia é pueril, policial Starling, e aquela praticada na Ciência do Comportamento nivela-se com a frenologia. A psicologia, para início de conversa, não recebe material humano muito bom. Vá ao departamento de psicologia de qualquer universidade e observe os estudantes e o corpo docente: são radioamado-res entusiasmados e personalidades de mentalidade precá-ria. Dificilmente podem ser consideradas as melhores cabeças no campus. Organizados e desorganizados: realmente, um pensamento de nível muito baixo.
— E como o senhor mudaria a classificação?
— Eu não a mudaria.
— Por falar em publicações, li seus artigos sobre vícios cirúrgicos e expressões da face direita e da face esquerda. — Sim, foram trabalhos de primeira — assentiu o Dr. Lecter.
— Assim os julguei, da mesma forma que Jack Crawford. Foi ele quem os recomendou para mim. Essa é uma das razões pelas quais Crawford está ansioso que o senhor. .
— Crawford, o Estóico, está ansioso? Ele deve andar muito ocupado para agora recrutar auxílio no corpo de estudantes.
— Ele está, e deseja. .
— Está ocupado com Buffalo Bil .
— Assim parece.
— Não! Nada de “assim parece”, policial Starling.
Você sabe perfeitamente que é Buffalo Bil . Eu pensei que Jack Crawford tivesse mandado você questionar-me acerca disso.
— Não.
— Então você não está fazendo rodeios para chegar a esse ponto?
— Não. Eu vim porque necessitamos da sua. .
— O que sabe você sobre Buffalo Bil ?
— Ninguém sabe muito a respeito.
— Os jornais têm publicado tudo?
— Penso que sim. Dr. Lecter, eu não vi nenhum material confidencial sobre o assunto; meu serviço é..
— De quantas mulheres Buffalo Bil se serviu?
— A polícia encontrou cinco.
— Todas com a pele arrancada?
— Parcialmente, sim.
— Os jornais nunca explicaram o nome dele. Por acaso sabe por que o chamam de Buffalo Bil ?
— Sei.
— Diga-me.
— Eu digo se o senhor olhar o questionário.
— Prometo olhar. Agora responda: por quê?
— Começou como uma piada infeliz na seção de Homicídios de Kansas City.
— Sim...
— Chamam-no Buffalo Bill Ias nas quais monta..
Starling descobriu que havia trocado sentir-se assustada por sentir-se vulgar. Entre uma coisa e outra, preferiria estar assustada.
— Mande esses papéis para cá.
Starling passou o questionário azul para o outro la-do pela bandeja. Ficou sentada, quieta, enquanto Lecter o folheava.
O psiquiatra remeteu-o de volta no transportador.
— Ora, policial Starling, você pensa que poderá dissecar-me com essa pequena ferramenta cega?
— Não, eu penso que o senhor pode fornecer uma visão profunda do problema e adiantar seu estudo.
— E que possível razão teria eu para fazer isso.
— Curiosidade.
— Curiosidade em relação a quê?
— Em relação ao motivo pelo qual o senhor está aqui. Em relação ao que lhe aconteceu.
— Nada aconteceu comigo, policial Starling. Eu aconteci. Você não pode reduzir-me a um jogo de influências. Vocês trocaram o bem e o mal pelo behaviorismo, policial Starling. Puseram todo mundo vestindo fraldas morais — nada mais é culpa de ninguém. Olhe para mim, policial Starling. Você pode afirmar que eu sou... mal? Por que ele arranca a pele daquelas mulheres? Eu sou o mal, policial Starling?
— Penso que o senhor foi destrutivo. Para mim é a mesma coisa.
— O mal é, portanto, destrutivo? Então as tempes-tades são o mal, se tudo é tão simples. E temos o fogo, e temos o granizo. As companhias de seguro listam-nos todos como “Atos da Providência”.
— A deliberação. .
— Eu coleciono desabamentos de igrejas, por dis-tração. Você viu o último, na Sicília? Maravilhoso! A fachada caiu sobre sessenta e cinco avós numa missa especial. Isso foi um mal? Se foi, quem o cometeu? Se Ele esta lá em cima, Ele adora isso, policial Starling. Febre tifóide e cisnes, ambos têm a mesma origem.
— Eu não posso explicar-lhe, doutor, mas conheço alguém que pode.
Lecter fê-la calar levantando a mão. A mão tinha um belo formato e o dedo médio repetia-se de um modo perfeito. Era a forma mais rara de polidactilia.
Quando ele voltou a falar, seu tom era suave e agradável.
— Você gostaria de me analisar, policial Starling.
Você é muito ambiciosa, não é? Sabe o que você me parece, com sua bela bolsa e seus sapatos baratos? Parece uma caipira. Uma caipira melhorada, limpa, com um pouco de bom gosto. Seus olhos são como pedras baratas do mês
— tudo é brilho superficial quando você consegue uma pequena resposta. E por trás delas você é brilhante, não é?
Desespera-se para não ser como sua mãe. Uma boa nutri-ção deu-lhe ossos mais longos, mas você não está fora das minas há mais de uma geração, policial Starling. Você é dos Starlings de West Virgínia ou de Oklahoma? Houve uma decisão de cara-ou-coroa entre a universidade e o Corpo Feminino do Exército, não houve? Vou lhe dizer algo específico sobre você mesma, estudante Starling. No
seu quarto você tem um colar de ouro de contas soltas, e sente um choquezinho desagradável quando vê como agora se tornaram sem graça, não é verdade? Tantos cansativos agradecimentos vida afora, tantas mesuras e hesita-ções, banalizando cada uma daquelas contas. Cansativo.
Cansativo. Te-e-edioso. Ser inteligente estraga uma porção de coisas, não é verdade? E ter bom gosto não é bom.
Quando você pensar sobre esta conversa, vai se lembrar do estúpido animal ferido no rosto quando você se livrou dele. — E no mais suave dos tons, o Dr. Lecter acrescentou: — Se o colar de contas se tornou sem graça, o que mais perderá a graça no curso da sua vida? Você cisma com isso, não é, durante a noite?
Starling levantou a cabeça para encará-lo.
— O senhor enxerga longe, Dr. Lecter. Não nego nada do que acabou de dizer. Mas eis uma pergunta que está me respondendo agora mesmo, quer queira quer não: O senhor tem energia suficiente para voltar essa sua percepção de alta potência em direção a si mesmo? É difícil encarar isso, descobri nos poucos últimos minutos. O que é que o senhor acha? Questione-se e revele a verdade.
Que assunto mais adequado ou mais complexo poderia encontrar? Ou será que tem medo de si mesmo?
— Você é uma pessoa dura, não é, policial Starling?
— Razoavelmente, sim.
— E odiaria pensar que é uma criatura comum. Is-so não iria feri-la? Por Deus! Bem, você está longe de ser comum, policial Starling. Mas tem medo de sê-lo. De que tamanho são as contas do seu colar, sete milímetros?
— Sete.
— Deixe-me fazer uma sugestão. Arranje algumas contas olho-de-tigre avulsas e enfie-as alternadamente
com as contas de ouro. Você poderá querer colocar duas para três ou uma para duas, conforme lhe parecer melhor.
As contas olho-de-tigre vão refletir a cor dos seus olhos e os reflexos de seu cabelo. Alguém já lhe mandou um presente de namorado?
— Claro.
— Estamos em junho. O Dia dos Namorados está a apenas uma semana. Bem, você está esperando algum presente?
— Nunca se sabe.
— Não. Nunca se sabe.. Eu tenho pensado sobre o Dia dos Namorados. Ele me lembra algo engraçado.
Agora que estou pensando nisso, ocorre-me que eu poderia torná-la muito feliz no Dia dos Namorados, Clarice Starling.
— Como, Dr. Lecter?
— Mandando-lhe um maravilhoso presente. Terei que pensar nisso. Agora, por favor, dê-me licença. Adeus, policial Starling.
— E o estudo?
— Um recenseador tentou avaliar-me certa ocasião.
Comi o fígado dele com favas e um grande vinho. Volte à escola, pequena Starling!
Hannibal Lecter, educado até o último momento, não lhe voltou as costas. Foi recuando da barreira para trás até chegar ao seu leito e, deitando-se, ficou tão alheio a ela como um cruzado de pedra esticado em sua tumba.
Starling sentiu-se subitamente vazia, como se tivesse acabado de doar sangue. Levou mais tempo que o necessário para colocar os papéis de volta em sua pasta porque de imediato não confiava em suas pernas. Sentia-se saturada com o fracasso, que detestava. Dobrou a cadeira e colocou-a de encontro à porta do armário embutido.
Teria que passar por Miggs de novo. À distância Barney parecia estar lendo. Pensou em chamá-lo para vir buscá-la.
Maldito Miggs! Contudo, não era pior do que passar por operários de construções ou serventes grosseiros, todos os dias, na cidade. Começou a retirar-se pelo corredor.
Bem perto dela, a voz de Miggs soou como um sil-vo. — Mordi meu pulso para morrer.. vê como está sangrando?
Ela devia ter chamado Barney, porém, assustada, olhou para a cela; viu Miggs fazer um movimento rápido com os dedos e sentiu algo quente atingi-la no rosto e no ombro antes que pudesse esquivar-se.
Afastou-se dali, verificou que era esperma e não sangue, e só então percebeu que o Dr. Lecter a chamava.
A voz do Dr. Lecter atrás dela, o tom áspero mais acentu-ado. — Policial Starling!
Estava de pé, chamando-a, enquanto ela se afastava. Meteu a mão em sua bolsa, procurando um lenço de papel. Ouviu-o chamar de novo:
— Policial Starling!
Retornando aos frios trilhos do seu controle, andava com firmeza em direção à saída.
— Policial Starling! — Havia uma nova inflexão na voz de Lecter.
Ela parou. Por que, em nome de Deus, eu desejo tanto isso? Ao voltar, Miggs disse algo que ela não ouviu.
Deteve-se mais uma vez diante da cela de Lecter e viu o raro espetáculo do doutor agitado. Agora sabia que ele era capaz de sentir o cheiro daquilo no corpo dela. Ele farejava o cheiro de qualquer coisa.
— Eu jamais desejaria que isso acontecesse com você. Considero a descortesia uma coisa intoleravelmente feia. Era como se cometer assassinatos o houvesse re-mido de rudezas menores. Ou talvez, pensou Starling, ex-citava-o vê-la maculada daquela forma invulgar. Sentia-se atarantada. As faíscas nos olhos do Dr. Lecter brilhavam naquela penumbra como vaga-lumes numa caverna.
— O que quer que seja, aproveite! Ela ergueu sua pasta. — Por favor, faça isso por mim!
— Talvez fosse tarde demais; ele recuperara a calma. — Não. Mas vou deixá-la feliz por ter vindo. Vou dar-lhe outra coisa. Vou dar-lhe o que você mais aprecia, Clarice Starling.
— E o que é, Dr. Lecter?
— Um adiantamento, é claro. Ajusta-se muito bem e fico contente! O Dia dos Namorados fez-me pensar nisso. — O sorriso sobre seus pequenos dentes brancos poderia ter surgido por qualquer motivo. Sua voz era tão suave que ela mal podia escutar. — Procure no carro de Raspail por seu presente. Entendeu? Procure no carro de Raspail por seus presentes. É melhor partir agora; não creio que Miggs consiga de novo em tão pouco tempo, mesmo louco como ele é, você não acha?
CAPÍTULO 4
Clarice Starling estava excitada, esgotada, apelando para sua força de vontade. Algumas das coisas que Lecter dissera a respeito dela eram verdadeiras, outras apenas se aproximavam da verdade. Por alguns segundos sentira uma consciência estranha solta em sua cabeça, desarru-mando as coisas em suas prateleiras como um urso numa barraca de acampamento.
Odiara o que ele havia dito sobre sua mãe, e tinha que livrar-se dessa raiva. Tudo agora era uma questão de negócio.
Ficou sentada no velho carro, no outro lado da rua do hospital e respirou profundamente. Quando as janelas ficaram embaciadas, sentiu um pouco de privacidade em relação à calçada.
Raspail. Ela se lembrava do nome. Raspail fora um dos pacientes de Lecter e uma de suas vitimas. Ficara apenas uma noite com o material sobre Lecter; o registro era enorme, e Raspail uma das muitas vítimas. Agora precisava ler os detalhes.
Queria fazê-lo com toda a pressa, mas sabia que a urgência era inventada por ela mesma. O caso Raspail fora encerrado há anos. Ninguém estava em perigo, portanto dispunha de tempo. Era melhor ficar bem informada e bem resolvida antes de prosseguir.
Crawford poderia afastá-la do caso, dando-o a outra pessoa. Era um risco a correr.
Tentou chamá-lo de um telefone público, mas foi informada de que ele estava encaminhando uma apelação,
em nome do Ministério da Justiça, ao Comitê de Orçamentos da Câmara dos Representantes.
Poderia obter detalhes do caso na Divisão de Homicídios do Departamento de Polícia de Baltimore, mas assassinato não era um crime federal, e ela sabia que lhe retirariam o caso imediatamente, sem nada perguntar.
Dirigiu-se novamente para Quântico, retornando à sede da Ciência do Comportamento, com suas cortinas caseiras de quadrados marrons e seus arquivos cinzentos cheios de coisas infernais. Sentou-se ali até o anoitecer, até sair a última secretária, acionando a manivela do microfil-me de Lecter. O caprichoso e antigo projetor brilhava como um fogo-fátuo na sala escurecida, as palavras e os negativos das fotografias desfilando a frente do seu rosto cheio de atenção.
Raspail, Benjamin René, branco, sexo masculino, 46
anos, primeiro-flautista da Orquestra Filarmônica de Baltimore, era um dos pacientes da clinica psiquiátrica do Dr.
Hannibal Lecter.
No dia 22 de março de 1975 ele deixou de se apresentar para um concerto em Baltimore. No dia 25 de março seu corpo foi descoberto. Estava sentado num banco, numa pequena igreja rural perto de Falls Church, Virgínia, vestindo apenas uma casaca e uma gravata branca. A autópsia revelou que o coração de Raspail fora perfurado e que ao corpo faltavam o timo e o pâncreas.
Clarice Starling, que desde os primeiros anos de sua vida sabia muito mais do que desejaria sobre o processa-mento da carne, reconhecia os órgãos faltantes como o que nos açougues se denomina moteja.
A Divisão de Homicídios acreditava que esses órgãos apareceram no menu de um jantar que Lecter ofere-
ceu ao presidente e ao maestro da Filarmônica de Baltimore na noite seguinte ao desaparecimento de Raspail.
O Dr. Hannibal Lecter declarou nada saber acerca desse assunto. O presidente e o maestro da Filarmônica de Baltimore não se puderam lembrar de todo o cardápio do jantar do Dr. Lecter, embora este fosse conhecido pela excelência de sua mesa, tendo contribuído com numero-sos artigos para revistas especializadas em alimentação.
O presidente da Filarmônica foi mais tarde tratado de anorexia e problemas relacionados com dependência ao álcool num sanatório para pessoas nervosas na Basiléia.
Raspail fora a nona vítima conhecida de Lecter, segundo a polícia de Baltimore.
Raspail morrera sem deixar testamento, e as demandas legais por causa da herança foram seguidas pela imprensa durante vários meses até que o interesse do público esfriou.
Os parentes de Raspail juntaram-se às famílias de outras vítimas da clientela de Lecter numa ação legal bem-sucedida, para que os arquivos e as fitas gravadas do psiquiatra criminoso fossem destruídos. Não era possível saber sobre que embaraçosos segredos ele poderia tagare-lar — assim raciocinavam — , e aqueles arquivos constitu-íam uma documentação indiscreta.
A corte havia designado o advogado de Raspail, Everett Yow, executor testamentário da sua herança.
Starling teria que apelar a esse advogado para chegar ao carro. Talvez o advogado quisesse proteger a memória de Raspail e, se recebesse uma notificação, poderia destruir provas para proteger seu antigo cliente.
Starling preferia agir sem aviso prévio e precisava de conselhos e de autorização. Como se encontrava sozi-
nha na Ciência do Comportamento, podia andar à vontade. Encontrou o número do telefone da casa de Crawford no Rolodex.
Não chegou a ouvir o telefone tocar, e subitamente a voz dele surgiu, muito tranqüila e uniforme.
— Jack Crawford.
— Aqui é Clarice Starling. Espero não ter interrompido seu jantar... — Não houve resposta, e ela continuou, apesar do silêncio no outro lado. — ... Lecter hoje me disse algo sobre o caso Raspail. Fiquei no escritório, pesquisando. Ele informou que existe algo interessante no carro de Raspail. Para chegar até o carro tenho que me comunicar com o advogado, e uma vez que amanhã é sábado, e não tenho aulas, eu queria perguntar-lhe se..
— Starling, você tem alguma lembrança do que eu lhe disse para fazer com as informações sobre Lecter? —
A voz de Crawford era terrivelmente calma.
— Dar-lhe um relatório no domingo às 9:00.
— Faça isso, Starling. Faça exatamente isso.
— Sim, senhor.
O ruído do telefone ao ser desligado soou como um estouro em seu ouvido. Uma onda de calor espalhou-se no seu rosto e fez seus olhos queimarem.
— Porra, que merda! — esbravejou. — Seu velho aleijado! Filho de uma puta. . Deixe Miggs esporrar em você, e quero ver como se sente depois.
Bem lavada e escovada, usando a camisola de dormir da Academia do FBI, Starling estava trabalhando na segunda minuta do relatório quando chegou sua companheira de dormitório, Ardelia Mapp. Vinha da biblioteca.
O rosto largo, bronzeado e muito saudável de Mapp foi uma das visões mais bem-vindas para ela naquele dia.
Ardelia Mapp percebeu o cansaço no rosto da amiga. — O que fez hoje o dia todo, garota? — Mapp sempre formulava perguntas como se as respostas pouco lhe interessassem.
— Consegui, com agradinhos, que um louco me esporrasse toda.
— Eu gostaria de ter tempo para uma vida social como a sua. . Não sei como você consegue isso e ao mesmo tempo freqüentar a escola.
Starling descobriu que estava rindo. Ardelia Mapp ria junto com ela, tanto quanto a piadinha merecia. Starling não parou e ouvia-se rindo a uma grande distância, rindo e rindo. . Através das lágrimas em seus olhos, Mapp parecia estranhamente velha e seu sorriso tinha um ar de tristeza.
CAPÍTULO 5
Jack Crawford, 53 anos, lê numa cadeira de braços, sob a luz de um abajur baixo, no seu quarto de dormir. A frente dele estão duas camas duplas, ambas apoiadas sobre calços para atingirem a altura de camas de hospital. Uma é a dele mesmo; na outra está Bel a, sua mulher. Crawford pode ouvi-la respirando pela boca. Faz dois dias que ela pela última vez conseguiu mexer-se ou falar com ele.
Sua respiração sofre uma parada. Crawford levanta os olhos da leitura e observa-a por cima de seus óculos de meias-lentes. Descansa o livro. Bella respira de novo, primeiro uma aspiração curta, depois uma expiração completa. Levanta-se e vai palpá-la, testa sua pressão e seu pulso.
Durante aqueles meses ele se tornara um perito com o aparelho de medir pressão.
Uma vez que não a deixava sozinha durante a noite, mandou instalar um leito ao lado do dela. E como estende a mão no escuro para avaliar como ela está, seu leito também fica alto, sobre calços.
Exceto pelos leitos elevados e pelas poucas tubula-ções para o conforto de Bella, Crawford conseguira fazer com que aquele não parecesse um quarto de doente. Vê-em-se flores, mas não em demasia. Não há frascos de remédios à vista. Crawford esvaziou um armário de roupas de cama no corredor e encheu-o com remédios e aparelhos antes de a trazerem do hospital para casa. Era a segunda vez que ele a carregava no colo através do limiar da porta e aquele pensamento quase o derrubou.