O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris · Capítulo 1 de 3 · parte 5/5

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O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Seguiu-se uma série de fotografias — Catherine Martin aos oito anos segurando o leme de um barco a ve-la; este estava em seco, sobre calços, e o pai dela pintava o casco. Duas fotos recentes da jovem, uma de corpo inteiro e um close do seu rosto.

Agora a câmara voltou para a senadora em close:

— Prometo-lhe, tendo como testemunha todo este país, que você contará com meu apoio sem restrições sempre que necessitar. Estou em boas condições para ajudá-lo. Sou uma senadora dos Estados Unidos. Sirvo no Comitê das Forças Armadas. Estou envolvida na Iniciativa de Defesa Estratégica, o sistema de armas espaciais que todos chamam de Guerra nas Estrelas. Se você tem inimigos, lutarei contra eles. Se alguém o perseguir, eu impedi-rei. Pode telefonar-me a qualquer hora, dia ou noite. Catherine é o nome de minha filha. Por favor, mostre-nos sua força — acrescentou a senadora Martin, encerrando seu apelo — , liberte Catherine sem fazer-lhe mal.

— Puxa, uma atitude muito esperta — comentou Starling. Tremia de nervosa, como um cachorrinho. —

Puxa, ela foi muito esperta!

— O quê? A Guerra nas Estrelas? — disse Mapp.

— Se os alienígenas estão tentando controlar os pensamentos de Buffalo Bil de outro planeta, a senadora Martin pode protegê-lo; é essa a idéia?

Starling balançou a cabeça afirmativamente.

— Uma porção de paranóicos esquizofrênicos tem essa alucinação especial — controle alienígena. Se Bill funciona dessa forma, talvez a promessa possa fazê-lo expor-se. É uma porra duma idéia muito boa, e ela ficou ali de pé e a disparou, não foi? Pelo menos poderá conseguir mais alguns dias para Catherine. Haverá mais tempo para investigar Bil . Ou talvez não; Crawford pensa que o período dele está se tornando mais curto. Mas pode-se tentar isso, pode-se tentar outras coisas.

— Não há nada que eu não tentaria se se tratasse de gente minha. Por que ela ficou repetindo “Catherine”, por que repetir esse nome tantas vezes?

— Ela tenta fazer Buffalo Bil ver Catherine como uma pessoa. Acredita-se que Bil terá que despersonalizá-la, terá que vê-la como um objeto antes de destruí-la. Alguns assassinos em série dão a entender isso em entrevistas na prisão. Dizem que é como trabalhar com uma bo-neca. — Você está enxergando Crawford atrás das declarações da senadora?

— Talvez, ou talvez o Dr. Bloom; aí está ele — apontou Starling Na tela apareceu uma entrevista gravada havia várias semanas com o Dr. Alan Bloom, da Universidade de Chicago, sobre assassinatos em série. O Dr. Blo-

om recusou-se a comparar Buffalo Bill com Francis, Dolarhyde ou Garrett Hobbs ou qualquer um dos outros da sua experiência. Recusou-se a utilizar o nome Buffalo Bill.

De fato ele falou pouco, mas era conhecido como um perito, talvez o perito no assunto, e a rede desejava mostrar sua imagem.

Usaram sua última declaração como o ponto alto no fim da entrevista:

— Nada com que possamos ameaçá-lo será mais terrível que o que ele enfrenta a cada dia. Só podemos pedir-lhe que venha a nós. E prometer-lhe um tratamento bondoso e ajuda. Podemos fazer isso de modo absoluto e sincero.

— Nós todos não podemos ajudar um pouco? —

indagou Mapp. — Que eu me dane se não posso dar um pouco de ajuda eu mesma. Muita confusão e muita conversa fiada. Adorei! Ele não disse nada de especial na TV, e provavelmente o Bil não deve ter-se emocionado muito.

— Só consigo parar de pensar naquela garota de West Virginia durante algum tempo — disse Starling. —

A imagem dela desaparece, digamos, por uma meia hora, e depois me afoga de novo Esmalte brilhante nas unhas...

não quero pensar nisso de novo.

Mapp, abordando as muitas coisas que a entusias-mavam, aliviou a tristeza de Starling durante o jantar e fascinou os que a ouviam, comparando os ritmos entre os trabalhos de Stevie Wonde e Emily Dickinson.

Ao voltar para seu quarto, Starling encontrou uma mensagem em sua caixa e leu: Por favor chame Albert Roden — e a seguir um número de telefone.

— Isto prova exatamente minha teoria — disse ela a Mapp quando se estenderam nas camas com seus livros.

— Qual é ela?

— Você conhece dois caras, certo? E o cara errado é o que sempre telefona para você.

— Sim, já notei isso. .

O telefone soou.

Mapp tocou com o lápis na ponta do nariz.

— Se for aquele esquentado do Bobby Lowrance, quer dizer lhe que eu estou na biblioteca? — instruiu Mapp. — Diga-lhe que telefono amanhã.

Era Crawford telefonando de um avião, a voz arranhada pelo microfone.

— Starling, faça uma maleta para duas noites e me encontre dentro de uma hora.

Ela pensou que ele tinha saído do ar, porque havia apenas um zumbido no telefone, mas a voz voltou abruptamente:

— ...Não precisa levar seu estojo, apenas roupas.

— Encontro-o onde?

— No Smithsonian. — E Crawford começou a falar com alguém antes de desligar.

— Jack Crawford — revelou Starling, abrindo sua maleta na cama.

A cabeça de Mapp apareceu por cima do seu Código Federal de Procedimento Criminal. Ficou espiando Starling arrumar a mala, as pálpebras caindo sobre os grandes olhos negros.

— Não pretendo pôr minhocas na sua cabeça —

disse ela.

— Você pretende, sim — refutou Starling. Ela sabia o que estava por acontecer.

Mapp cursara Revisão de Direito na Universidade de Maryland enquanto trabalhava à noite. Era a segunda

aluna na classe, sua atitude com relação aos livros um pu-ro banzai.

— Você deverá fazer seu exame de Código Criminal amanhã e o teste PE dentro de dois dias. Certifique-se de que Sua Majestade Crawford sabe que você terá que repetir o ano se ele não tiver cuidado. Tão logo ele diga:

“Bom trabalho, treinanda Starling!” você não deve dizer:

“O prazer foi todo meu!” Deve encarar aquele rosto de estátua da Ilha da Páscoa e dizer: “Espero que o senhor mesmo providencie que eu não seja reprovada por faltar às aulas.” Entende o que estou querendo dizer?

— Posso conseguir uma segunda época no Código

— garantiu Starling, abrindo um grampo de cabelos com os dentes.

— Ora, se for reprovada por falta de tempo para estudar, você pensa que eles não vão fazê-la repetir? Está brincando comigo? Bobinha! Eles a jogam pelas escadas do fundo como se fosse uma galinha morta. A gratidão tem uma meia-vida curta, Clarice. Faça com que ele pro-meta: “Nada de reprovação.” Você tem boas notas — fa-ça-o dizer isso. Nunca encontrarei outra companheira de quarto que passe a ferro tão rápido como você quando falta um minuto para a aula...

Starling conduzia seu carro pela estrada de quatro pistas numa marcha firme, uma milha por hora abaixo da velocidade em que o shimmy aparecia. Os cheiros de óleo queimado e mofo, os grilos embaixo do carro, o ronco da transmissão evocavam fracamente as lembranças da caminhonete do pai, suas memórias de andar ao lado dele com seus inquietos irmãos e irmã.

Agora quem dirigia era ela, à noite, os traços brancos no asfalto passando por baixo do carro blip, blip, blip.

Tinha tempo para pensar. Seus temores sopravam muito próximo à nuca; outras lembranças mais recentes, agita-vam-se a seu lado.

Starling receava muito que o corpo de Catherine Baker Martin já tivesse sido encontrado. Quando Buffalo Bil descobrira quem ela era, teria entrado em pânico. Talvez a tivesse matado, atirando fora o corpo com um inseto na garganta.

Talvez Crawford estivesse trazendo o inseto para ser identificado. Por que outro motivo a quereria no Smithsonian? Contudo, qualquer agente poderia trazer um inseto para o Smithsonian, até mesmo um mensageiro do FBI. E ele lhe dissera que levasse roupa para dois dias.

Podia entender que Crawford nada lhe explicasse através de uma ligação de rádio insegura, mas era de enlouquecer ficar cismando.

Encontrou no rádio uma estação só de notícias e esperou que terminasse o boletim do tempo. Quando vieram, as notícias em nada a ajudaram. A história sobre Memphis foi uma repetição do noticiário das sete. A filha da senadora Martin desaparecera. Sua fina blusa fora encontrada cortada nas costas ao estilo de Buffalo Bill. Nada de testemunhas. A vítima encontrada em West Virginia permanecia não identificada.

West Virginia. Entre as lembranças de Clarice Starling da Casa Funerária de Potter havia algo sólido e valioso. Um elemento durável, brilhando a parte das tenebro-sas revelações. Algo para guardar. Ela agora o recordava deliberadamente e via que podia apertá-lo como um talis-mã. Na Casa Funerária de Potter, de pé ao lado da pia, descobrira energia de uma fonte que a surpreendera e a-gradara: a memória de sua mãe. Starling sobrevivera a a-grados de segunda mão desde seu falecido pai até seus irmãos; e ficou surpresa e comovida pela recompensa que encontrara.

Estacionou o carro diante do quartel-general do FBI na Rua 10 com Pensilvânia. Duas equipes de televisão estavam na calçada, os repórteres parecendo exagerada-mente elegantes sob as luzes, Realizavam reportagens mostrando o Edifício J. Edgard Hoovei como cenário de fundo. Starling desviou-se das luzes e caminhou dois quarteirões até o National Smithsonian Museum of Natura History.

Podia distinguir no alto do edifício algumas janelas iluminadas. Uma caminhonete da polícia do condado de Baltimore estava na entrada semicircular. Jeff, o chofer de Crawford, aguardava ao volante de uma caminhonete de vigilância nova estacionada atrás da outra. Quando viu Starling chegando, falou qualquer coisa ao microfone de um rádio portátil.

CAPÍTULO 18

O guarda levou Clarice Starling ao segundo andar acima do grande elefante empalhado do Smithsonian. A porta do elevador abriu-se naquele vasto e obscuro patamar e lá estava Crawford esperando, sozinho, as mãos enfiadas no. bolsos de seu impermeável.

— Boa noite, Starling.

— Alô — cumprimentou ela.

Voltando-se para o guarda, sobre o ombro dela, Crawford disse:

— Daqui podemos seguir sozinhos, guarda. Obrigado. Crawford e Starling caminharam ao longo do corredor cheio de bandejas e caixas empilhadas contendo espécimes antropológicos. Algumas luzes do teto estavam acesas, não muitas. Quando acertou o passo com ele, na atitude discreta e reflexiva de uma caminhada no campus, Starling teve a impressão de que Crawford queria passar o braço por seus ombros, que o teria feito se lhe fosse possível tocá-la.

Esperou que o homem dissesse alguma coisa. Finalmente ele parou, meteu por sua vez as mãos nos bolsos, e ficaram ambos s encarando no corredor, naquele silêncio entre ossadas.

Crawford encostou a cabeça para trás, de encontro as caixa e aspirou fundo.

— Catherine Martin provavelmente ainda está viva

— disse afinal.

Starling balançou a cabeça e fitou o chão. Talvez ele achasse mais fácil falar-lhe se ela não o encarasse. Ele es-

tava sério, algo preocupava. Por um segundo Starling ponderou se a mulher de Crawford teria morrido. Ou talvez passar um dia inteiro com a aflita mãe de Catherine fosse à causa.

— Memphis foi uma brincadeira para ele — disse Crawford. — Agarrou-a no estacionamento, parece. Ninguém viu. Ela entrou no apartamento e logo saiu de novo, por alguma razão. Não pretendia ficar fora muito tempo

— deixou a porta escancarada e prendeu a tranca de forma que a porta não poderia fechar estando ela fora. Pusera as chaves em cima da televisão. Nada foi mexido do lado de dentro. Não creio que ela permaneceu no apartamento muito tempo. Nem chegou até a secretária eletrônica no seu quarto. A luz acusando mensagem ainda piscava quando o pateta do namorado dela chamou a polícia.

Sem querer, Crawford pousou a mão dentro de uma caixa de ossos e rapidamente a retirou.

— Portanto agora ele a retém, Starling. As redes de notícias concordam em não destacar o assunto no noticiário da noite. O Dr. Bloom teme que isso pode encorajá-lo a tomar uma atitude. Alguns dos tablóides, no entanto, talvez o façam.

Num rapto anterior, a roupa cortada nas costas fora encontrada cedo o bastante para identificar uma vitima de Buffalo Bil enquanto ele ainda a mantinha viva. Starling lembrava-se do noticiário tarjado de preto nas primeiras páginas da imprensa marrom. Começara 18 dias antes que o corpo aparecesse boiando.

— Então Catherine Baker Martin está esperando no quarto verde de Bil , Starling, e talvez tenhamos uma semana pela frente. Isso é o máximo... Bloom acha que os períodos dele estão encurtando.

Crawford considerou que a conversa se alongava muito. O teatral “quarto verde” era uma referência que cheirava a conversa fiada. Starling esperou que ele chegasse ao que interessava, e ele chegou.

— Desta vez, no entanto, Starling, desta vez temos uma pequena chance.

Ela o encarou com a cabeça baixa, fitando-o sob as sobrancelhas, esperançosa e ao mesmo tempo aflita.

— Temos um outro inseto. Seus amigos, Pilcher e..

aquele outro. .

— Roden.

— . .estão trabalhando nele.

— Onde estava, em Cincinnati? Na gaveta do congelador?

— Não. Venha cá e eu lhe mostro. Vejamos o que você pensa sobre isso.

— A seção de Entomologia fica do outro lado, Sr.

Crawford.

— Eu sei — concordou ele.

Dobraram a esquina para chegar à porta da Antropologia. Luz e vozes filtravam-se através do vidro fosco.

Ela entrou.

Três homens com jaquetas de laboratório trabalha-vam numa mesa no centro da sala, debaixo de uma luz brilhante. Starling não conseguia ver o que estavam fazendo. Jerry Burroughs, da Ciência do Comportamento, olhava por sobre os ombros deles e tomava notas numa prancheta. Havia na sala um cheiro familiar.

Então um dos homens de branco afastou-se para pôr algo na pia e aí ela pôde ver bem.

Numa bandeja de aço inox, sobre a mesa de trabalho, estava “Klaus”, a cabeça que ela encontrara na Split City Mini-Storage.

— “Klaus” tinha o inseto na sua garganta — disse Crawford. Espere um momento, Starling. Jerry, você está entrando em contato com a sala de comunicações?

Burroughs estava lendo de sua prancheta para o telefone. Colocou a mão sobre o microfone.

— Sim, Jack, o retrato “Klaus” de está na secagem.

Crawford pegou o fone da mão dele.

— Bobby, não espere pela Interpol. Arranje um transmissor de telefotos e mande as fotos gráficas agora mesmo, junto com o relatório médico. Países escandinavos, Alemanha Ocidental, Holanda. Não se esqueça de dizer que “Klaus” poderia ser um marujo da marinha mercante que desertou. Mencione que a Saúde Pública pode achar uma pista com base na fratura da mandíbula. Chame-a de arco zigomático. Certifique-se de que segui-rão ambas as cartas dentais, a universal e a da Federation Dentaire. Eles vão indicar uma idade, mas enfatize que essa é uma estimativa grosseira — não se pode depender de suturas cranianas para esse fim. — Devolveu o telefone para Burroughs. — Onde está seu equipamento, Starling?

— No escritório dos guardas, lá embaixo.

— A Universidade Johns Hopkins encontrou o inseto — revelou Crawford enquanto esperavam pelo elevador. — Eles estudaram a cabeça para a polícia do condado de Baltimore. O inseto estava na garganta, exatamente como o da pequena em West Virginia.

— Exatamente como em West Virginia.

— Não fique me repetindo. A Johns Hopkins encontrou-o mais ou menos às sete desta noite. O promotor

público de Baltimore chamou-me ao telefone do avião.

Eles enviaram tudo para cá, “Klaus” e tudo, de forma que pudéssemos vê-lo ‘in situ’. Também queriam uma opinião do Dr. Angel sobre a idade de “Klaus”, e sobre que idade teria quando fraturou o maxilar. Eles consultam o Smithsonian, da mesma forma que nós.

— Dê-me uns segundos para digerir isso. Você está dizendo que Buffalo Bil tenha matado Klaus? Anos atrás?

— Parece muito improvável, uma coincidência exagerada? — Neste momento, parece.

— Deixe que a idéia assente por um momento.

— O Dr. Lecter indicou-me onde encontrar Klaus

— lembrou Starling.

— Sim, foi ele.

— O Dr. Lecter contou-me que seu paciente, Benjamin Raspail, afirmava ter matado Klaus. Mas Lecter opinou que teria sido provavelmente uma asfixia erótica acidental. — Isso foi o que ele lhe contou.

— Você pensa que o Dr. Lecter talvez saiba exatamente como Klaus morreu, e que não foi Raspail, e que não foi também asfixia erótica?

— Klaus tinha um inseto na garganta, a pequena de West Virginia tinha um inseto na garganta. Nunca li nada assim, nunca ouvi falar em coisa assim. O que pensa você?

— Penso na sua instrução de fazer uma mala para dois dias. Deseja que eu vá perguntar ao Dr. Lecter, certo?

— Você é a pessoa com quem ele fala. — Crawford parecia bem triste ao dizer isso. — Acho que você lhe agrada.

Ela anuiu com a cabeça.

— Falaremos a caminho do hospício — acrescentou Crawford.

CAPÍTULO 19

— Durante anos o Dr. Lecter teve uma grande clientela psiquiátrica antes de o pegarmos pelos assassinatos que cometeu — disse Crawford. — Ele fez muitas avaliações psiquiátricas para as cortes de Maryland e Virginia e para algumas outras ao longo da costa leste, aqui e ali. Examinou uma porção de criminosos insanos. Quem sabe quantos ele liberou, só por desfastio? Está aí uma coisa que ele podia fazer. Ele também conheceu Raspail social-mente e Raspail lhe contou sabe-se lá o quê durante a terapia. Talvez Raspail lhe tenha dito quem matou Klaus.

Crawford e Starling estavam frente a frente em cadeiras giratórias na traseira do furgão de vigilância, que rapidamente se dirigia para o norte, na estrada US 95, em direção a Baltimore, a 60 quilômetros de distância. Jeff, no compartimento do motorista tinha ordem de pisar na tábua. — Lecter ofereceu-se para ajudar, mas eu recusei.

Já tivera a ajuda dele antes, mas nada resultou de útil, e Wil Graham recebeu uma facada no rosto da última vez que o usara. Para divertir-se, alegou Lecter.

“Não posso, porém, ignorar um inseto na garganta de Klaus, um inseto na garganta da moça de West Virginia; não posso ignorar isso. Alan Bloom nunca ouviu falar de semelhante coisa antes, e eu tampouco. Você já teve notícia de um caso assim, Starling? Você, que tem lido muito sobre crimes depois de mim.

— Nunca. Inserir objetos, sim, mas nunca um inseto.

— Duas coisas para começar. Primeiro partimos da premissa que o Dr. Lecter sabe realmente algo concreto.

Segundo, não vamos esquecer que Lecter gosta de se divertir. É a sua natureza. Ele tem que desejar que Buffalo Bil seja apanhado enquanto Catherine Martin ainda está viva. Toda a sua diversão mais os benefícios têm que ser encaminhados nessa direção. Não temos meios de ameaçá-lo — ele já perdeu o assento do vaso sanitário e os livros. — Que aconteceria se apenas lhe expuséssemos a situação e lhe oferecêssemos um benefício: uma janela com vista para fora. Foi o que ele pediu quando se ofereceu para ajudar.

— Ele se ofereceu para ajudar, Starling, mas não para denunciar. Uma delação não daria a ele uma boa oportunidade para se mostrar. Você está indecisa e prefere a verdade. Pois ouça: Lecter não tem pressa. Ele está a-companhando tudo como se fosse um jogo de beisebol.

Nós lhe pedimos para denunciar, ele preferirá esperar.

Não o fará facilmente.

— Nem mesmo por uma recompensa? Algo que não obterá se Catherine morrer?

— Suponha que nós lhe digamos que sabemos que ele possui informações e queremos que ele se abra. Lecter se divertiria muito protelando e agindo, semana após semana, como se estivesse tentando lembrar-se, animando as esperanças da senadora Martin, mas deixando Catherine morrer. Depois faria o mesmo com a próxima mãe e ainda a próxima, reanimando esperanças, sempre quase a lembrar-se — agradaria mais a ele do que uma janela com vista para fora. É dessa espécie de coisa que ele vive; é o seu alimento.

“Não sei se a gente fica mais esperta com a idade, Starling, mas aprende-se a driblar uma certa porção de ruindade. Talvez aqui possamos driblar alguma.

— Então o Dr. Lecter deve pensar que lhe estamos apelando apenas por uma teoria e por um insight — arris-cou Starling.

— Correto.

— Por que não me disse? Por que não me mandou interroga-lo dessa maneira?

— Eu me ponho no mesmo nível que você. E você fará o mesmo quando tiver um comando. Nenhuma outra forma de agir dura muito tempo.

— Então não tenho que mencionar o inseto na garganta de Klaus, nenhuma conexão entre Klaus e Buffalo Bill. — Não. Você estará voltando porque ficou muito impressionada por ele prever que Buffalo Bil começaria a escalpelar. Já deixei claro que não vou me interessar por ele, da mesma forma que Alan Bloom. Mas estou deixando que você fale com ele. Você lhe oferece alguns privilégios — coisas que somente uma pessoa tão poderosa co-mo a senadora Martin poderia obter. Lecter tem que acreditar que deve apressar-se porque a oferta será cancelada se Catherine morrer. A senadora perderá o interesse por ele se isso acontecer. E se ele falhar, será porque não é inteligente e não tem a capacidade para fazer o que disse que podia fazer, e não porque está se esquivando para zombar de nós.

— A senadora perderá mesmo o interesse?

— Se fosse prestar juramento, você diria que nunca soube a resposta para essa questão.

— Entendo.

Concluiu que não haviam contado à senadora Martin, o que demandava muita coragem. Estava claro que Crawford não queria interferência, receoso de que a senadora cometesse o erro de apelar diretamente para o Dr.

Lecter. — Você está entendendo mesmo?

— Sim. Como poderá ele ser suficientemente especifico para levar-nos até Buffalo Bil sem mostrar que sabe de alguma coisa especial? Como poderá fazer isso só com teoria e insight?

— Não sei, Starling. Ele já teve muito tempo para pensar sobre o assunto. Ela esperou o extermínio de seis vítimas.

O telefone no furgão tilintou e piscou com a primeira de uma série de telefonemas que Crawford tinha combinado com o centro do FBI.

Durante os próximos vinte minutos, falou com policiais conhecidos da Polícia de Estado Holandesa e da Royal Marechaussee, com um Overstelojtnant na Polícia Técnica Sueca que estudara em Quântico, um amigo que era assistente do Rigspolitichef da polícia dinamarquesa, e surpreendeu Starling falando em francês com o escritório de comando noturno da Polícia Criminal Belga. Em todos os diálogos enfatizou a necessidade de apressar a identificação de Klaus e seus companheiros. Cada uma dessas jurisdições já tinha o pedido por telex da Interpol, mas, com a rede de conhecimentos íntimos em atividade, o pedido não ficaria na máquina durante horas.

Starling podia ver por que Crawford havia escolhi-do o furgão para suas comunicações — ele dispunha do novo sistema de Privacidade de Voz — mas a tarefa certamente seria mais fácil de seu escritório. Aqui ele tinha de

manusear seu livro de notas numa mesa pequena com luz deficiente, e os passageiros eram sacudidos toda vez que os pneus passavam sobre uma emenda no asfalto. A experiência de campo de Starling era pequena, mas ela sabia não ser comum um chefe de seção usar um furgão numa missão como essa. Crawford poderia tê-la instruído pela radiotelefonia, mas ela gostou que não o tivesse feito.

Starling sentia que a privacidade e a calma no furgão, e o tempo dedicado ordenadamente àquele trabalho, tinham um alto custo. Escutando Crawford ao telefone, confirmou isso.

— Como está a senadora?

— Controlada, mas ferida. É uma mulher esperta e dura, tem um bocado de bom senso, Starling. Você provavelmente gostará dela.

— O pessoal da Johns Hopkins e a Divisão de Homicídios do condado de Baltimore vão manter segredo acerca do inseto na garganta de Klaus? Poderemos manter o assunto fora dos jornais?

— Por uns três dias, sim.

— Deve ter dado muito trabalho conseguir isso.

— Não podemos confiar em Frederick Chilton nem qualquer outra pessoa no hospital — disse Crawford.

— Se Chilton souber, o mundo todo saberá. Ele vai saber que você está lá apenas como um favor que faz à Divisão de Homicídios de Baltimore, tentando encerrar o caso Maus — nada a ver com Buffalo Bil .

— E vou fazer isso tarde, esta noite?

— É o único tempo que eu lhe daria. Devo avisá-la que a história sobre o inseto em West Virgínia estará nos jornais amanhã. O escritório do legista em Cincinnati deu com a língua nos dentes, de modo que não é mais segre-

do. É um detalhe que Lecter pode obter de você; isso realmente não tem importância, desde que ele não saiba que encontramos um também em Maus.

Ele agora falava com o diretor do FBI que estava em casa.

— Não, senhor. Eles insistiram muito nisso?. . Por quanto tempo? Não, senhor. Não. Nada de aparelhagem de gravação, Tommy, recomendo e insisto. Não quero que ela leve um gravador escondido. O Dr. Bloom diz a mesma coisa. Ele está retido pela cerração em O’Hare.

Virá tão logo ela permita. Certo.

Depois Crawford teve uma misteriosa conversa com a enfermeira da noite em sua casa. Ao terminar, olhou pela janela com vidro espelhado por fora durante talvez um minuto, os óculos descansando sobre o joelho, presos por um dedo. Seu rosto parecia lívido quando as luzes o iluminavam de tempo em tempo. Depois recolocou os óculos e virou-se para Starling.

— Lecter é nosso por três dias. Se não conseguir-mos resultado, Baltimore irá fazê-lo suar até que a justiça os faça largá-lo.

— Interrogá-lo exaustivamente não funcionou da última vez. O Dr. Lecter não transpira muito..

— O que foi que ele ofereceu ao pessoal depois da sessão, uma galinha de papel?

— Uma galinha, sim.

A galinha de papel dobrado, amassada, ainda estava na bolsa de Starling. Ela alisou-a na pequena mesa e fê-la dar uma bicada.

— Não culpo os policiais de Baltimore. Ele é um prisioneiro. Se o corpo de Catherine aparecer boiando,

deverão estar em condições de dizer à senadora Martin que tentaram tudo.

— O que temos para trocar com ele?

— É no que estou trabalhando — disse Crawford, e voltou para seus telefones.

CAPÍTULO 20

Um grande banheiro forrado de azulejos brancos, com clarabóias e elegantes metais italianos se destacando de encontro a antigos tijolos aparentes. Um enfeitado armário de toucador flanqueado por grandes plantas e carregado de cosméticos, o espelho velado pelo vapor que a água quente fazia. Do chuveiro uma voz cantava num tom alto demais. A canção era Cash for Your Trash (Pago à vista por seu lixo) de Fats Wal er, do musical Ain’t Misbe-havin. Às vezes a voz escondia as palavras:

“Guarde todos seus velhos JORNAIS, Guarde e empilhe-os como um ARRANHA-CÉU DAH DAHDAHDAH DAH DAH DAHDAHDAH DAH...”

Sempre que ocorriam palavras, uma cachorrinha arranhava a porta do banheiro.

Embaixo do chuveiro estava Jarne Gumb, branco, 34 anos, 1,83m, 95 quilos, cabelos castanhos, olhos azuis, sem marcas características. Pronuncia seu primeiro nome como o James, porém sem o s — Jame. Insiste nisso.

Depois de se enxaguar pela primeira vez, Gumb aplicou Friction des Bains, esfregando-a no peito e nas nádegas e usando uma esponja nas partes que não gostava de tocar. Suas pernas estavam cobertas dê pêlos, mas ele decidiu deixá-las assim mesmo.

Gumb esfregou-se até ficar rosado e aplicou um bom emoliente para amaciar a pele. Seu espelho de corpo inteiro tinha uma cortina para protegê-lo, estendida em uma barra à sua frente.

Gumb usou a esponja para ajeitar o pênis e os testí-culos entre as pernas. Afastou a cortina para um lado e

ficou de pé em frente ao espelho, assumindo uma pose com um quadril mais alto que o outro, a despeito do des-conforto que isso causava em suas partes íntimas.

“Faça algo por mim, doçura. Faça algo por mim LOGO.” Usava o registro mais alto de sua voz naturalmente profunda, e acreditava estar melhorando. Os hor-mônios que tomara — Premarin durante algum tempo e depois dietilestilbestrol, via oral — nada puderam fazer por sua voz, mas tinham tornado esparsos os cabelos em volta de suas marnas ligeiramente cheias. Muita eletrólise lhe removera a barba e dera à linha fronteira do seu cabelo um formato de bico de viúva, mas apesar disso ele não se parecia com uma mulher. Parecia-se com um homem inclinado a lutar com as unhas, mas também com os punhos e os pés.

Se o seu comportamento era uma séria, mas inepta tentativa para parecer homossexual ou apenas uma odiosa imitação, seria difícil dizer após um rápido conhecimento, e rápidos conhecimentos era tudo o que ele fazia.

“O que vai fazer por mim?”

O animal arranhou a porta ao som da voz dele.

Gumb vestiu o roupão e deixou-o entrar. Agarrou a pequena poodle cor de champanha e beijou-a no gordo traseiro. — Sim. Você está esfomeada, Preciosa? Eu também estou.

Passou a cadelinha de um braço para o outro ao abrir a porta do quarto. Ela agitou-se, querendo voltar para o chão. — Espere um momento, queridinha. — Com a mão livre ele apanhou uma carabina mini-14 ao lado da cama e colocou-a sobre os travesseiros. — Agora. Agora,

vamos. Vamos jantar num minuto. — Colocou a cadelinha no chão e vestiu um pijama e o robe. O animal seguiu-o alegremente escadas abaixo em direção à cozinha.

Jame Gumb tirou três refeições TV do seu forno de microondas. Eram duas refeições Homem Esfomeado para ele e uma Cozinha Magra para a cachorrinha.

O animal comeu gulosamente o prato principal e a sobremesa, deixando os vegetais, Jame Gumb deixou apenas os ossos em seus dois pratos.

Fez a cadelinha sair pela porta de trás e, chegando seu robe bem de encontro ao corpo por causa da friagem, observou quando ela se agachava na estreita faixa de luz que passava pela porta.

— Você não fez o número dois... Muito bem. Não vou olhar... — Mas deu uma espiada por entre os dedos da mão em frente ao rosto. — Oh! Que beleza! Sua safa-dinha, você é uma perfeita senhorita! Vamos, vamos para a cama. O Sr. Gumb gostava de ir para a cama. Fazia-o várias vezes durante a noite. Gostava também de se levantar e sentar-se em um ou outro de seus muitos quartos sem acender a luz, ou trabalhar um pouco durante a noite quando ficava entusiasmado com algo criativo.

Ia apagar a luz da cozinha mas fez uma pausa, seus lábios formando um bico quando ele olhou para os restos do jantar. Pegou as três bandejas e limpou a mesa.

Um interruptor em cima da escada iluminou o porão. Jame Gumb começou a descer, levando as bandejas.

O animal ganiu na cozinha e com o focinho abriu a porta atrás dele.

— Muito bem, sua bobinha. — Agarrou a cadelinha no chão e carregou-a para baixo. Ela agitou-se e me-

teu o focinho nas bandejas. — Nada disso! Você já comeu bastante. — Depositou-a no chão e ela seguiu-o bem de perto ao longo do piso irregular e de vários níveis do subsolo. Num quarto do porão, bem embaixo da cozinha, havia um poço seco. Suas bordas de pedra, reforçadas com modernos anéis de cimento, elevavam-se uns 60 centímetros acima do chão arenoso. A tampa de segurança original, de madeira, pesada demais para uma criança levantar, estava em posição. Havia nela uma abertura suficiente para passar um balde. Jame Gumb despejou as bandejas por essa abertura.

Os ossos e os vegetais desapareceram na escuridão absoluta do poço. A cadelinha sentou-se, com um jeito de estar pedindo algo.

— Nada disso, tudo foi-se embora — repreendeu Gumb. Você está gordinha demais.

Subiu as escadas do porão repetindo baixo: “Gorduchinha, gorduchinha” para o cão. Não deu sinal de ter ouvido o grito, bastante forte mas controlado, que ecoou do fundo daquele buraco negro.

— POR FAVOR!

CAPÍTULO 21

Clarice Starling entrou no Baltimore State Hospital for the Criminal y Insane pouco depois das 10 horas da noite. Viera sozinha. Esperava que o Dr. Chilton não estivesse lá, mas encontrou-o esperando por ela em seu escritório. Chilton usava um casaco esporte axadrezado, de corte inglês. As duplas pregas nas costas e as abas soltas davam ao casaco uma aparência de saia curta, pensou Starling. Tinha esperança de que não o houvesse vestido por causa dela. .

Diante da mesa, a sala estava vazia exceto por uma cadeira de espaldar reto aparafusada no chão. Starling ficou de pé a seu lado enquanto o cumprimento dela pairava no ar sem resposta. Ela podia sentir o cheiro dos cachimbos frios e fedorentos num suporte ao lado da bolsa de tabaco.

Chilton terminou de examinar sua coleção de lo-comotivas da Franldin Mint e virou-se para ela.

— Gostaria de uma xícara de café?

— Não, obrigada. Desculpe por perturbá-lo à noite.

— Você ainda está tentando descobrir algo sobre aquela história da cabeça? — perguntou o Dr. Chilton.

— Sim. O escritório do Promotor Público de Baltimore disse-me que havia feito os arranjos com o senhor, doutor. — Oh, sim. Eu trabalho muito ligado às autoridades daqui, Srta. Starling. Por falar nisso, está escrevendo um artigo ou uma tese?

— Nem uma coisa nem outra.

— Já publicou alguma vez em órgãos profissionais?

— Não, nunca. Esta é apenas uma tarefa que o escritório do Promotor me pediu que realizasse para a Divisão de Homicídios de Baltimore. Nós os deixamos com um caso aberto e os estamos ajudando a acertar as pontas.

— Starling descobriu que sua antipatia por Chilton tornava-lhe mais fácil mentir.

— Está ligada, Srta. Starling?

— Estou o quê. .?

— Está usando um dispositivo eletrônico para registrar o que o Dr. Lecter diz? O termo policial é “ligada”; estou certo de que já o ouviu.

— Não.

O Dr. Chilton pegou um pequeno Pearlcorder na sua mesa e colocou nele um cassete.

— Então ponha isto na sua bolsa. Depois lhe mandarei uma cópia. Pode usá-lo para ampliar suas notas.

— Não. Não posso fazer isso, Dr. Chilton.

— Por que não? As autoridades de Baltimore me pedem sempre uma análise sobre tudo o que Lecter diz acerca desse caso de Klaus.

Evite Chilton, se puder, dissera-lhe Crawford. Podemos forçá-lo com uma ordem judicial. Ademais, Lecter irá descolar. Ele sabe o que se passa com Chilton como se lesse um livro aberto.

— O Promotor Público pensou que deveríamos tentar primeiro uma aproximação informal. Se eu gravasse o Dr. Lecter sem seu conhecimento, e ele descobrisse, seria... realmente seria o fim da boa atmosfera de trabalho que mantemos. Estou certa que o senhor concorda com isso.

— Como iria ele descobrir?

Ele saberia pelos jornais que você está a par de tu-do, seu calhorda! Conteve-se.

— Se isto chegar a algum resultado e ele tiver que depor, o senhor seria o primeiro a ver o material e eu estou certo que seria convidado a servir como testemunha importante. Nós agora estamos apenas tentando obter uma pista dele.

— Sabe por que ele concorda em lhe falar, Srta.

Starling?

— Não, Dr. Chilton.

O homem voltou-se de costas e ficou a examinar o sortimento de certificados e diplomas que estavam na parede atrás da mesa, como se estivesse fazendo um levan-tamento. Em seguida virou-se devagar para Starling.

— A senhorita realmente sabe o que está fazendo?

— Claro que sei. — As pernas de Starling tremiam de tanta raiva. Mas não desejava brigar com Chilton; tinha que sobrar-lhe alguma energia para enfrentar Lecter.

— O que está fazendo é vir ao meu hospital para obter uma entrevista, porém sem compartilhar a informação comigo.

— Estou agindo de acordo com as instruções que recebi, Dr. Chilton. Tenho aqui o número do telefone particular do Promotor Público. E agora, por favor, ou discuta o assunto com ele, ou deixe-me trabalhar.

— Eu não sou o porteiro daqui, Srta. Starling. Não venho para cá à noite apenas para deixar as pessoas entrarem e saírem. Eu tinha um bilhete para o Holiday on Ice.

Ele percebeu que tinha dito um bilhete. Naquele instante Starling avaliou a vida dele, e Chilton o sentiu.

Ela viu o refrigerador maltratado, as migalhas do jantar na bandeja onde ele comia sozinho, as pilhas de coisas que permaneciam fixas no lugar durante meses até que ele as arrumasse — e sentiu pena da sua vida solitária, mas rapidamente concluiu que não devia poupá-lo, que não devia continuar a falar ou a evitar o olhar dele. Encarou-o nos olhos e com uma inclinação mínima da cabeça fitou-o, sobranceira. Fê-lo sentir que percebera quem ele era e como vivia, sabendo que ele já não teria coragem para estender aquela conversa.

Chilton mandou um guarda chamado Alonzo acompanhá-la.

CAPÍTULO 22

Andando com Alonzo em direção às últimas celas, Starling conseguiu não dar ouvidos às batidas de portas e aos gritos, embora os sentisse agitando o ar de encontro à sua pele. Sentia crescer nela uma pressão como se estivesse afundando n’água, cada vez mais baixo.

A proximidade dos loucos, a lembrança de Catherine Baker Martin amarrada e sozinha, um deles estrangu-lando-a e procurando ferramentas em sua maleta, tudo isso dava coragem a Starling para continuar seu serviço.

Mas ela precisava mais do que coragem. Precisava também permanecer calma, não se alterar, ser um instrumento muito afiado. Tinha que ser paciente apesar da terrível necessidade de apressar-se. Se o Dr. Lecter soubesse a resposta, ela teria que desencavá-la no emaranhado dos pensamentos dele.

Starling pensava em Catherine Baker Martin como a criança que vira no filme-noticiário, uma menininha num barco a vela.

Alonzo apertou o botão da campainha da última porta. Ensina-nos como preocupar-nos e como não preocupar-nos, ensina-nos a permanecer calmos.

— Perdão? — fez Alonzo, e Starling compreendeu que pensara em voz alta.

Ele deixou-a com o guarda corpulento que abrira a porta. Quando Alonzo deu meia-volta para ir embora, notou que ele se persignava. — Prazer em vê-la de novo — cumprimentou o guarda enquanto passava os ferrolhos na porta atrás dela.

— Alô, Barney.

Barney mantinha preso entre o polegar e o maciço indicador um volume em brochura. Era o Sense and Sen-sibility, de Jane Austen; Starling estava disposta a registrar tudo. — Como quer as luzes? — perguntou ele.

O corredor entre as celas estava em meia escuridão.

Próximo ao seu extremo ela podia notar uma luz brilhante vindo da última cela, a iluminar o chão do corredor.

— O Dr. Lecter está acordado.

— A noite, sempre, mesmo quando sua luz fica apagada. — Deixe-as como estão.

— Fique no meio do corredor ao passar para lá, e não toque nas barras, certo?

— Quero aquela TV desligada.

O aparelho de televisão fora mudado de lugar. Estava ao fundo do corredor, de frente para o centro. Alguns prisioneiros podiam vê-lo encostando a cabeça nas barras. — Elimine o som, mas deixe a imagem, se não se importar. Alguns deles gostam de ficar olhando. A cadeira está lá, se quiser utilizar-se dela.

Starling avançou sozinha pelo corredor na penumbra. Não olhou para as celas de nenhum dos dois lados.

Suas pisadas lhe pareciam meio barulhentas. Os únicos outros ruídos eram o ressonar vindo de uma cela, talvez de duas, é um risinho baixo soando em outra.

A cela do falecido Miggs tinha um novo ocupante.

Ela podia ver compridas pernas esticadas no solo, a cabeça apoiada nas grades. Um homem permanecia sentado no chão da sua cela no meio de uma porção de papel rasgado.

Seu rosto era inexpressivo. A televisão refletia-se em seus olhos e um brilhante fio de baba ligava o canto da sua bo-ca ao ombro.

Ela não quis olhar para a cela do Dr. Lecter até estar segura de que ele a vira. Passou por ela sentindo um arrepio na espinha, foi até a televisão e cortou o som.

O Dr. Lecter usava o branco pijama do asilo em sua branca cela. As únicas coisas coloridas, ali, eram seus cabelos e olhos, e sua boca vermelha, num rosto há tanto tempo longe do sol que se diluía na brancura envolvente; suas feições pareciam flutuar acima da gola da camisa. Estava sentado à mesa, atrás da rede de náilon que o mantinha afastado das barras. Fazia um esboço em papel de embrulho, usando a própria mão como modelo. Enquanto ela observava, virou a mão e, flexionando os dedos para distender a musculatura, desenhou a parte interna do antebraço. Usou o dedo mínimo como esfuminho para mo-dificar uma linha de carvão.

Starling aproximou-se das barras e ele levantou os olhos. Para Starling, todas as sombras da cela se juntaram nos olhos dele e no bico-de-viúva dos seus cabelos.

— Boa noite, Dr. Lecter.

A ponta da língua dele apareceu, vermelha como seus lábios. Tocou o lábio superior exatamente no centro e recolheu-se de novo.

— Clarice.

Ela percebeu o arranhado ligeiramente metálico daquela voz e ficou pensando há quanto tempo ele falara pela última vez.

— Você está atrasada para sua aula noturna — repreendeu ele. — Esta é a minha classe noturna — disse ela, desejando que sua voz fosse mais forte. — Ontem estive em West Virginia. .

— Você se machucou?

— Não, eu...

— Está com um Band-Aid novo, Clarice.

Então ela lembrou.

— Arranhei-me hoje na borda da piscina. — O

Band-Aid estava na sua perna, escondido, por baixo da calça. Ele devia ter sentido o cheiro.

— Estive em West Virginia ontem. Encontraram lá um corpo, o último de Buffalo Bill.

— Não exatamente o último, Clarice.

— O penúltimo.

— Pois é.

— Ela foi escalpelada. Exatamente como o senhor disse que aconteceria.

— Incomoda-se se eu continuar a desenhar enquanto falamos?

— Não. Continue, por favor.

— Você examinou o corpo?

— Sim.

— Tinha visto serviços anteriores dele?

— Não; apenas fotografias.

— Como se sentiu?

— Apreensiva. Depois atenta.

— Depois? Abalada. Você conseguiu trabalhar direito? — O Dr. Lecter esfregou seu carvão na beira do papel para refazer-lhe a ponta.

— Muito bem. Trabalhei muito bem.

— Para Jack Crawford? Ele ainda lhe telefona para casa? — Ele estava lá.

— Seja boazinha para mim um momento, Clarice.

Deixe sua cabeça pender para a frente, como se estivesse dormindo. Mais um segundo. Obrigado, agora já peguei a pose. Sente-se, se quiser. Você tinha contado a Jack Crawford o que eu disse antes de eles a encontrarem?

— Sim. E ele zombou muito da idéia.

— E depois que ele viu o corpo em West Virgínia?

— Bem, ele falou com a principal autoridade no assunto, na Universidade de. .

— Alan Bloom.

— Isso mesmo. O Dr. Bloom disse que Buffalo Bil estava personificando um tipo criado pelos jornais: essa história de Buffalo Bil escalpelar que os tablóides andaram explorando. O Dr. Bloom opinou que qualquer pessoa podia ver que isso iria acontecer.

— O Dr. Bloom viu que isso estava para acontecer? — Ele afirmou que sim.

— Afirmou, mas guardou a previsão para si mesmo. Entendo. O que acha você, Clarice?

— Não estou certa.

— Você estudou psicologia e prática forense. Onde as duas coisas confluem, você pesca, não é, Clarice? Já fisgou alguma coisa?

— Até agora tudo tem andado muito devagar.

— O que as suas duas disciplinas lhe dizem sobre Buffalo Bill?

— Segundo os livros, ele é um sádico.

— A vida é escorregadia demais para os livros, Clarice; a raiva parece luxúria, o lúpus apresenta-se como uma urticária.

O Dr. Lecter terminou o esboço da sua mão esquerda com a direita; trocou o carvão de mão e começou a desenhar a mão direita com a esquerda, com a mesma facilidade.

— O senhor se refere ao livro do Dr. Bloom?

— Sim. Você me procurou nele, não foi?

— Sim.

— Como foi que ele me descreveu?

— Um sociopata puro.

— Você diria que o Dr. Bloom está sempre certo?

— Continuo esperando pela futilidade do afeto..

O sorriso do Dr. Lecter revelou seus pequenos dentes brancos.

— Temos peritos em todos os assuntos, Clarice. O

Dr. Chilton diz que Sammie, ali atrás de você, é um esquizóide hebefrênico e irremediavelmente perdido. Ele pés Sammie na antiga cela de Miggs porque pensa que Sammie já disse adeus. Você sabe como os hebefrênicos geralmente se vão? Não se preocupe; ele não ouvirá.

— São os mais difíceis de tratar — respondeu ela.

— Usualmente caem num retiro terminal e se desinte-gram. O Dr. Lecter tirou algo dentre suas folhas de papel de embrulho e colocou na bandeja deslizante. Starling puxou-a. — Ontem mesmo Sammie mandou-me isto com a minha comida — disse ele.

Era um pedaço de papel marrom com a escrita em creiom. Starling leu:

I WAN TOO GO TO JESA

I WAN TOO GO WIV CRIEZ

I CAN GO WIV JESA

EF I AC RELL NIZE

SAMMIE

Starling olhou para trás, sobre o ombro direito.

Sammie estava sentado, o rosto inexpressivo de encontro à parede da cela, a cabeça encostada nas barras.

— Quer ler em voz alta? Ele não pode escutá-la.

Starling começou:

— Eu desejo ir para Jesus. Eu quero ir com Cristo.

Eu posso ir com Jesus. Se eu me comportar bem.

— Não, não. Imprima urna qualidade mais agressi-va de “pudim de ervilhas quente” nos versos. A métrica varia, mas a intensidade é a mesma. — Lecter batia o compasso suavemente: “Pudim de ervilhas na panela há nove dias.” Com fervor: “I wan to go Jesa, I wan to go wiv Crieiz”.

— Entendo — disse Starling, colocando o papel de volta no carregador.

— Não, você não está entendendo nada — repreendeu o Dr. Lecter, pondo-se de pé; o corpo magro subitamente grotesco, dobrado em dois como um gnomo, ele pulava marcando o compasso, a voz reverberando como um sonar, “I wan to go to Jesa. .”.

De repente a voz de Samtnie ecoou atrás dela como a tosse de um leopardo, mais alto do que o grito de um macaco urrador, de pé e batendo com seu rosto nas grades, lívido e fazendo um violento esforço, os tendões do pescoço salientando-se:

“I WAN TOO GO TO JESA I WAN TOO GO

WIV CRIEZ I CAN GO WIV JESA EF I AC RELL NI-IIZE.”

Silêncio. Starling viu que se pusera de pé e que sua cadeira de dobrar estava virada atrás dela. Os papéis haviam escorregado do seu colo.

— Por favor — pediu o Dr. Lecter, novamente ereto e gracioso como um bailarino, convidando-a a sentar-se. Deixou-se cair em sua cadeira e descansou o queixo na mão. — Você não entende coisa alguma — repetiu. —

Sammie é profundamente religioso. Ele simplesmente revela sua decepção porque Jesus está tão atrasado. Posso dizer a Clarice por que você está aqui, Sammie?

Sammie coçou o queixo e ficou estático.

— Por favor? — insistiu o Dr. Lecter.

— Sim... — concedeu Sammie por entre os dedos.

— Sammie pôs a cabeça da mãe dele na bandeja de espórtulas na igreja batista da estrada em Trune. Estavam cantando. Dê o melhor que você tem ao Senhor e era a melhor coisa que ele tinha. Lecter voltou-se para o lado e falou sobre seu ombro. — Obrigado, Sammie. Está tudo muito bem. Olhe a televisão.

O homem alto deixou-se cair no chão, a cabeça contra as barras, como antes, as imagens da televisão se refletiam em suas pupilas, agora três riscos prateados no seu rosto: cuspe e lágrimas.

— Muito bem: veja se você pode aplicar-se ao problema dele e talvez eu me aplique ao seu. — Quid pro quo. Ele não está escutando.

Starling teve que se concentrar.

— Os versos mudam de “ir para Jesus” para “ir com Cristo” — observou ela. — Há uma seqüência racional: ir para, chegar a, ir com.

— Sim. É uma progressão linear. Estou particularmente satisfeito que ele saiba que “Jesa” e “Criei” são o

mesmo. Isto é um progresso. A idéia de um simples Deus-padre ser também uma Trindade é difícil de aceitar, especialmente para Sammie, que não está seguro de quantas pessoas ele mesmo é formado. Eldridge Cleaver dá-nos a parábola do Óleo Três-em-Um e nós achamos que é útil.

— Ele vê uma relação casual entre o próprio comportamento e seus objetivos e isso é um raciocínio estrutural — assuntou Starling. — Assim é também a constru-ção de um ritmo. Ele não está obtuso, pois chora. O senhor acredita que é um catatônico esquizóide?

— Sim. Você pode sentir o cheiro do suor dele?

Aquele cheiro de bode é ácido trens3-metil2 -hexenóico.

Lembre-se: é o cheiro da esquizofrenia.

— E o senhor acredita que ele é tratável?

— Particularmente agora, quando está saindo de uma fase de estupor. Como brilham as faces dele!

— Dr. Lecter, por que o senhor diz que Buffalo Bill não é um sádico?

— Porque os jornais declaram que os corpos tinham marcas de ligaduras nos pulsos, mas não nos tornozelos. Você viu algumas marca nos tornozelos da pessoa em West Virgínia?

— Não.

— Clarice: esfolamentos como recreação são sempre executados com a vitima invertida, de forma que a pressão sangüínea se mantenha normal mais tempo na cabeça e no peito e a vítima permaneça consciente. Você sabia disso?

— Não.

— Quando estiver de novo em Washington, vá até a Galeria Nacional e veja O esfolamento de Marsias, de Ticiano, antes que o mandem de volta para a Tchecoslo-

váquia. Ticiano era maravilhoso nos detalhes; repare no prestativo Pã trazendo o balde de água fria.

— Não estou interessada na sua pior invenção.

— Bem, eu acredito em você. Mas há mais coisas que não sabe, além de como se procede com propriedade a um esfolamento, sobre o comportamento humano. Vo-cê não acharia que, para um senador dos Estados Unidos, é uma estranha escolha como mensageiro?

— Eu fui sua escolha, Dr. Lecter. O senhor me escolheu para falar-lhe. Preferiria agora outra pessoa? Ou talvez o senhor não ache que poderá ajudar.

— Isso é ao mesmo tempo imprudente e falso, Clarice. Não creio que Jack Crawford jamais permita que me dêem alguma compensação. Possivelmente eu lhe darei alguma coisa para dizer à senadora, mas opero estritamente na base do toma-lá-dá-cá. Talvez eu troque essa coisa por uma certa informação a seu respeito. Sim ou não?

— Vejamos qual é a questão.

— Sim ou não? Catherine está esperando, não está?

Ouvindo o barulho da pedra de afiar? O que pensa você que ela lhe pediria para fazer?

Starling respirou profundamente.

— Apresse-se — urgiu o Dr. Lecter.

— Dr. Lecter, temos aqui algumas circunstâncias extraordinárias e algumas oportunidades incomuns.

— Para quem?

— Para o senhor, se salvarmos essa moça. O senhor viu a senadora Martin na televisão?

— Sim, escutei as notícias.

— O que achou das declarações dela?

— Mal-orientada e inócua. Ela está mal-assessorada.

— A senadora Martin tem muita influência. E é uma pessoa decidida.

— Vejamos o que você tem a dizer.