O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris · Capítulo 1 de 3 · parte 4/5

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O Silêncio dos Inocentes

Thomas Harris

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

— Isso é conhecido como telefonar para os peixes

— esclareceu Starling. — Tonteia o peixe com a corrente elétrica da bateria quando se metem os fios dentro d′água e se aciona a alavanca. Eles flutuam e então é só recolher com o puçá.

— Confere — aprovou Lamar. — Você é destas bandas?

— Fazem isso em muitos lugares — justificou Starling. Starling sentiu vontade de dizer alguma coisa antes que fechassem o saco com o zíper, fazer um gesto ou expressar algum comentário. Contudo, apenas sacudiu a, cabeça e ocupou-se em colocar as amostras na bolsa.

Tudo parecia diferente com o corpo e seu problema longe dos olhos. Nesse momento de alívio, sentiu-se oprimida pelo que acabara de fazer. Arrancou as luvas e abriu a torneira na pia. De costas para o aposento, deixou a água correr sobre os pulsos. A água da tubulação não estava muito fresca. Lamar, que a observava, desapareceu no corredor. Voltou da máquina de Coca-Cola com uma lata gelada de refrigerante e a ofereceu.

— Não, obrigada — disse Starling. — Acho que não quero.

— Não é para beber, segure-a embaixo da nuca —

ensinou Lamar — encostada naquela pequena saliência atrás da sua cabeça. O frio vai fazer você sentir-se melhor.

Sempre me faz bem.

Quando Starling acabou de fechar o memorando para o patologista, colocando-o sobre o zíper do saco, o transmissor de impressões digitais de Crawford já estava funcionando na mesa do escritório.

Encontrar aquela vítima logo após o crime fora um golpe de sorte. Crawford estava determinado a identificá-la rapidamente e começar uma varredura em torno da casa dela á procura de testemunhas do rapto. Seu método dava muito trabalho a todo mundo, mas era rápido.

Crawford carregava com ele um transmissor de impressões digitais Litton Policefax. Ao contrário das máquinas de fac-símile de uso federal, o Policefax é compatí-vel com a maioria dos sistemas dos departamentos policiais das cidades grandes. O cartão de impressões que Starling havia coletado ainda não estava bem seco.

— Carregue-o, Starling, você tem os dedos mais delicados.

Não vá borrá-las — era o que ele queria dizer, e Starling não o fez. Era duro enrolar o cartão composto de impressões colada em torno do pequeno tambor, enquanto seis salas de receptores esperavam no país inteiro.

Crawford estava ao aparelho falando com a central telefônico, do FBI e com a sala de receptores em Washington.

— Dorothy, todo mundo está na linha? O.K., cavalheiros, vamos reduzir a recepção para um ponto vinte a fim de mantê-la boa e bem definida — verifiquem um e

vinte; todo mundo. Atlanta, que tal? O.K., dêem-me a linha de imagem... agora.

A seguir o tambor estava rolando a baixa velocidade para maio clareza, enviando as impressões da mulher morta simultaneamente para as salas de recepção do FBI e dos principais departamentos da polícia no leste. Se Chicago, Detroit, Atlanta ou qualquer um do outros aceitas-sem as impressões, uma busca começaria imediatamente.

A seguir Crawford enviou fotos dos dentes da vítima e do seu rosto, o crânio coberto por Starling com uma toalha para o caso de a imprensa de escândalos verem as fotografias.

Três policiais da Seção de Investigações Criminais da Polícia Estadual da West Virgínia chegaram de Charles-ton quando eles já iam embora. Crawford deu muitos apertos de mão e distribuiu cartões com o número reservado do Centro Nacional de Informações Criminais. Starling estava interessada em ver quanto tempo ele levaria para criar uma atmosfera de solidariedade masculina. Certamente iriam colaborar da melhor forma, sobre isso não havia a menor dúvida.

— Você pode apostar, e muito obrigado. Talvez não fosse solidariedade masculina; aquela atitude afetava também a ela.

Lamar deu um adeusinho da varanda com as pontas dos dedos quando Crawford e Starling se afastaram no carro com o delegado em direção ao rio Elk. A Coca-Cola ainda estava bem fresquinha. Lamar levou-a para dentro do depósito e preparou uma bebida refrescante com ela.

Í

CAPÍTULO 13

Deixe-me no laboratório, Jeff ordenou Crawford ao motorista — Depois quero que você espera a policial Starling no Smithsonian. Dali ela irá para Quântico.

— Sim, senhor.

Estavam cruzando o rio Potomac em sentido contrário ao tráfego noturno, vindo do Aeroporto Nacional em direção ao centro de Washington.

O jovem que dirigia o carro parecia assustado com Crawford e usava de extrema cautela na direção, pensava Starling. Não o culpava por isso; era artigo de fé na Academia que o último agente que se metera numa encrenca sob o comando de Crawford estava agora investigando roubos em linhas telegráficas nos confins do Círculo Árti-co. Crawford não estava de bom humor. Nove horas haviam passado desde que ele transmitira as impressões digitais e fotos da vítima, que permanecia sem ser identificada. Auxiliados por patrulheiro de West Virgínia, ele e Starling tinham vasculhado os arredores da ponte e as barrancas do rio, sem resultados.

Starling o ouvira falar pelo telefone do avião, requisitando a ida de uma enfermeira para sua casa à noite.

O sedã sem chapa oficial do FBI parecia maravilhosamente sossegado após o Blue Canoe, e era fácil conversar. — Vou usar a linha reservada e o Latent Descriptor Index quando levar as impressões que você tirou para o Departamento de Identificações — disse Crawford. —

Me faça uma minuta de uma entrada para o arquivo. Uma entrada, não um relatório você sabe como fazer.

— Sei.

— Imagine que eu sou o Index, e me diga o que encontrou.

Levou alguns segundos para reunir as palavras. E

ficou aliviada porque Crawford parecia interessado nos andaimes do Jefferson Memorial quando passaram por ali.

O Latent Descriptor Index no computador da seção de identificação compara as características de um crime sob investigação com as tendências conhecidas dos criminosos que constam do arquivo. Quando encontra semelhanças acentuadas, revela quais são os suspeitos e fornece suas fichas datiloscópicas. Então um operador humano compara as impressões do arquivo com as encontradas na cena do crime. Ainda não havia impressões digitais de Buffalo Bill, mas Crawford queria estar preparado. O sistema requer dados breves e concisos. Starling tentou apresentar alguns.

— Mulher branca, idade próxima aos 20 anos para mais ou para menos, morta a tiros, parte inferior do torso e coxas esfoladas..

— Starling, o Index já sabe que ele mata mulheres jovens e que lhes tira a pele do torso — use “arrancar a pele”, incidentalmente, em vez de “esfolar”, pois esse é um termo pouco comum que outro policial nem sempre usa e você não pode ter certeza de que o maldito termo seja interpretado como um sinônimo. Ele já sabe que as vitimas são jogadas num rio. Ele não sabe o que é novo neste caso. O que é novo aqui, Starling?

— Esta é a sexta vitima, a primeira que ele escalpelou, a primeira com pedaços triangulares arrancados dos ombros, a primeira com um casulo na garganta.

— Você esqueceu das unhas quebradas.

— Não, senhor, ela é a segunda com unhas quebradas. — Certo. Ouça, na entrada para o arquivo observe que o casulo é confidencial. Nós o utilizaremos para eliminar confissões falsas.

— Fico imaginando se ele já o fez antes: colocar um casulo ou um inseto — ponderou Starling. — Seria fácil passar despercebido numa autópsia, especialmente no caso de um cadáver que boiou. Sabe, o médico examinador vê uma causa óbvia para a morte, na sala de autópsias faz calor, e ele quer terminar logo. . Será que podemos checar isso?

— Se for necessário. Pode contar que os patologistas dirão que a eles nada escapou, naturalmente. A moça Jane Doe, de Cincinnati ainda está no congelador. Pedirei a eles que dêem uma olhada, mas as outras quatro estão embaixo da terra. Ordens de exumação desagradam muito às pessoas. Tivemos que fazê-lo com quatro pacientes que morreram sob os cuidados do Dr. Lecter, só para termos certeza de que ele mesmo os matou. Deixe-me dizer-lhe: exumar dá um trabalho danado e perturba os parentes. Eu o farei se for necessário, mas vamos ver o que você descobre no Smithsonian antes que eu decida.

— Escalpelar. . isso é raro, não?

— Pouco comum — confirmou Crawford.

— Mas o Dr. Lecter disse que Buffalo Bil o faria.

Como podia saber disso?

— Ele não sabia.

— Contudo, ele o disse.

— E isso não é muito surpreendente, Starling. Não fiquei surpreso ao saber. Eu considerava raro até o caso Mengel, lembra-se. O que escalpelou a mulher? Houve dois ou três imitadores depois disso. Os jornais, quando estavam se ocupando do caso Buffalo Bill enfatizaram mais de uma vez que esse matador não arrancava couros cabeludos. Não foi surpresa depois disso. Buffalo provavelmente lê os jornais que falam dele. Lecter estava dando um palpite. Ele não disse quando iria acontecer, de forma que nunca poderia estar errado. Se pegássemos Bil e não tivesse havido nenhum escalpelamento, Lecter iria alegar que o pegamos antes de ele o fazer. .

— O Dr. Lecter também disse que Buffalo Bill vive numa casa de dois andares. Nunca discutimos isso. Por que diria ele uma coisa dessas?

— Isso não é um palpite. Ele provavelmente está muito certo e poderia ter-lhe dito por quê, mas preferiu brincar com você. É a única fraqueza que já notei nele, ele gosta de parecer esperto, mais esperto que qualquer outra pessoa. Vem fazendo isso há anos.

— Você me disse para perguntar o que não soubesse. Bem, devo pedir-lhe que me explique isso.

— O.K. Duas das suas vítimas foram enforcadas, certo? Marcas altas de ligaduras, deslocamento cervical, enforcamento sem menor dúvida. Como o Dr. Lecter sa-be por experiência pessoal, Starling, é muito difícil uma pessoa enforcar a outra contra a vontade dessa outra. Pessoas se enforcam todos os dias em maçanetas de portas.

Enforcam-se até sentadas, é fácil. Mas é difícil enforcar outra pessoa; mesmo quando amarradas, elas conseguem sustentar-se se encontrarem qualquer suporte para os pés.

Uma escada aberta torna-se ameaçadora. As vítimas não a sobem quando vendadas e certamente não o farão se virem um laço de forca. A maneira de fazê-lo é usar um po-ço de escadaria. Os degraus de escadarias são familiares.

Pode-se dizer às vítimas que estão sendo levadas ao banheiro cobri-las com um capuz, enfiar rapidamente o laço pela cabeça é empurrá-las do último degrau com a corda amarrada no corrimão É a única maneira adequada dentro de uma casa. Um camarada na Califórnia popularizou isso.

Se Bil não tivesse um poço de escada, ele as mataria de outra forma. Agora me dê aqueles nomes: o subdelegado de Potter e o cara da polícia estadual, o mais graduado deles. Starling encontrou os nomes no seu caderninho, lendo-os à luz de uma lanterna elétrica com feitio de caneta presa em seus dentes.

— Bem — concluiu Crawford. — Quando você estiver fazendo uma comunicação por linha reservada, Starling, sempre cite os policiais pelo nome. Ouvindo os próprios nomes, ficam mais predispostos ante a comunicação reservada. O prestigio ajuda-os a lembrar-se de nos telefonar se descobrirem alguma coisa. O que significa para você aquela queimadura na perna?

— Depende de se foi feita antes ou após a morte.

— E se foi feita após?

— Fico sabendo que ele dispõe de um caminhão fechado, um furgão, uma caminhonete, um veículo qualquer comprido.

— Por quê?

— Porque a queimadura é transversal à panturrilha.

Eles estavam no cruzamento da Rua 10 com a Pensilvânia, em frente ao novo quartel-general do FBI, ao

qual ninguém jamais se refere como o Edifício J. Edgar Hoover.

— Jeff, se você puder deixar-me aqui... — apelou Crawford. — Aqui mesmo, antes da passagem subterrânea. Fique no carro, Jeff, apenas abra à traseira. Venha mostrar-me, Starling.

Ela saltou fora do carro com Crawford, que retirou seu datafax e a pasta do porta-malas.

— Ele transportou o corpo em algo comprido o bastante para poder deitá-lo ao comprido de costas —

observou Starling. — É a única maneira de a panturrilha ficar encostada por cima do cano de descarga. Na mala de um carro como este, ela estaria toda enrodilhada e. .

— Sim, entendo o que você diz — concordou Crawford.

Só então ela compreendeu que ele a fizera sair do carro de forma a poder falar-lhe em particular.

— Quando eu disse àquele delegado que ele e eu não devíamos falar diante de uma mulher, você ficou queimada, não foi?

— Por certo.

— Foi apenas uma cortina de fumaça. O que eu queria era vê-lo sozinho.

— Sei disso.

— O.K. Não dê importância. — Crawford bateu a porta traseira e virou-se para ir embora.

Starling não podia deixar aquilo passar.

— Dou importância, sim, Sr. Crawford.

O policial fechou a meia-volta que iniciara, carregando seu fax e a pasta, e Starling sentiu que ele era toda atenção.

— Aqueles policiais sabem quem o senhor é —

disse ela. Eles o observam bem, para ver como o senhor age. — A jovem mantinha-se ereta; encolheu os ombros, espalmou as mãos. Era isso, a pura verdade.

Crawford fez um esforço para manter-se frio.

— Devidamente anotado, Starling. Agora vá estudar o inseto.

— Sim, senhor.

Ficou observando enquanto ele se afastava: um homem de meia-idade carregado de volumes, a roupa amassada durante o vôo, a bainhas das calças enlameadas pelo rio, dirigindo-se para o que esperava em casa. .

Seria capaz de qualquer coisa por ele. Esse era um dos grandes talentos de Crawford.

CAPÍTULO 14

O Smithsonian’s National Museum of Natural History estava fechado há horas, mas Crawford telefonara antecipadamente e um guarda esperava Clarice Starling no portão da Constitution Avenue.

As luzes estavam reduzidas e não havia ventilação no museu fechado. Apenas a colossal figura de um chefe de tribo dos mares do sul diante da entrada era alta o bastante para que a fraca claridade no teto iluminasse seu rosto.

O guia de Starling era um enorme negro da bela coleção dos guardas do Smithsonian. Considerou-o parecido com o chefe tribal ao levantar os olhos para as luzes do elevador. Houve um momento de alívio em sua vã fantasia, como quando se esfrega a mão para aliviar uma dor-mência.

O segundo andar, por cima do grande elefante empalhado, um enorme recinto vedado ao público, é com-partilhado pelos departamentos de Antropologia e Entomologia. Os antropologistas chamam-no de quarto andar.

Os entomologistas insistem em que é o terceiro. Alguns cientistas do Departamento de Agricultura dizem ter provas de que é o sexto. Cada facção tem um escritório no velho edifício com seus acréscimos e subdivisões.

Starling seguiu o guarda até um labirinto escuro de corredores cheios até o teto com caixas de madeira contendo espécimes antropológicos. Pequenas etiquetas revelavam seu conteúdo.

— Milhares de criaturinhas nessas caixas — informou o guarda. — Quarenta mil espécimes.

Ele conferia o número dos escritórios com sua lanterna elétrica passando o feixe de luz sobre as tabuletas à medida que andavam. Mochilas para carregar bebês, caia-ques e caveiras cerimoniais cederam lugar para afídios e eles deixaram para trás o homem caminhando para o mundo mais antigo e mais ordenado dos insetos. Agora o corredor tinha paredes formadas por grandes caixas metálicas pintadas de um verde pálido.

— Trinta milhões de insetos, e além disso as aranhas. Não confunda as aranhas com insetos — recomendou o guarda. — O povo das aranhas ficaria indignado.

Você vai para ali, o escritório que está iluminado. Não tente retirar-se sozinha. Se eles não se oferecerem para acompanhá-la até embaixo, chame-me por esta extensão telefônica: é do escritório dos guardas. Virei buscá-la. —

Entregou um cartão a Starling e deixou-a.

Ela estava agora no coração da Entomologia, numa galeria redonda, muito alta, acima do grande elefante empalhado. Lá estava o escritório com as luzes acesas e a porta aberta.

— Olhe o tempo, Pilch! — Era uma voz de homem estridente de excitação. — Vamos, homem! Olhe o tempo. Starling parou no limiar da porta. Dois homens, sentados ante uma mesa de laboratório, jogavam xadrez.

Ambos tinham cerca de 30 anos; um magro de cabelos pretos, o outro gorducho com cabelos ruivos espetados.

Pareciam estar absorvidos no tabuleiro; se viram Starling, não deram o menor sinal disso. Se notaram um enorme besouro-rinoceronte que cruzava vagarosamente o tabuleiro, desviando-se das peças do jogo, também não deram sinal.

Nesse instante o besouro cruzou a borda do tabuleiro. — Tempo, Roden — avisou o magro na mesma hora. O gorducho movimentou o bispo e com a outra mão deu meia volta no besouro, que recomeçou a andar vagarosamente na direção contrária.

— E se o besouro cortar o caminho e sair pelo la-do, o tempo se esgota? — perguntou Starling.

— É claro que o tempo se esgota — disse em voz alta o gorducho, sem levantar os olhos do tabuleiro. —

Naturalmente que o tempo se esgota. Como é que você joga? Você o faz cruzar sempre todo o tabuleiro? E contra quem você joga? Uma preguiça?

— Trago comigo o espécime sobre o qual o agente especial Crawford telefonou.

— Não posso imaginar por que não ouvimos sua sirene — criticou o gorducho. — Estamos aqui a noite inteira esperando para identificar um besouro para o FBI.

Besouros são o nosso negócio.. Ninguém nos adiantou nada acerca do espécime do agente especial Crawford. Ele deveria mostrar o espécime em particular a seu médico de família. — Tempo, Pilch!

— Eu gostaria de apreciar a rotina de vocês dois numa outra ocasião — reclamou Starling. — Meu assunto é urgente, portanto vamos tratar dele agora. Tempo, Pilch!

O camarada de cabelos pretos ergueu os olhos para ela, viu-a encostada no umbral da porta com sua pasta.

Colocou o besouro rinoceronte numa caixa de madeira podre e cobriu-o com uma folha de alface.

Quando se levantou, viu-se que era bem alto.

— Meu nome é Noble Pilcher — apresentou-se.

Este é Albertte Roden. Você precisa identificar um inseto?

Teremos muito prazer em ajudá-la. — Pilcher tinha um rosto comprido e simpático, e seus olhos negros eram fas-cinantes e muito juntos. Um deles tinha um modo de fitar que o fazia refletir a luz independentemente do outro.

Não se ofereceu para um aperto de mãos. — Você é? —

perguntou.

— Clarice Starling.

— Vejamos o que trouxe aí.

Pilcher levantou o pequeno frasco contra a luz. Roden veio observar.

— Onde encontrou? Você o matou com seu revólver? Acaso viu a mamãe dele?

Starling ficou imaginando como seria inútil para Roden receber um bom soco na ponta do queixo.

— Psiu — fez Pilcher. — Diga-nos onde o encontrou. Estava preso a alguma coisa, um graveto, uma folha, ou estava no chão?

— Pelo que vejo ninguém informou nada a vocês

— disse Starling

— O chefe nos pediu para ficar esperando e identificar um inseto para o FBI — esclareceu Pilcher.

— Nos mandou — corrigiu Roden. — Nos mandou ficar até mais tarde.

— Costumamos fazer isso para a Alfândega e para o Ministério da Agricultura — adiantou Pilcher — Mas não esperando no meio da noite — comentou Roden.

— Preciso dizer-lhes um par de coisas que se relacionam a um crime — disse Starling. — Tenho permissão para falar se vocês mantiverem segredo até o caso estar

resolvido. É importante. Trata de algumas vidas e não estou brincando. Dr. Roden, o senhor pode assegurar-me seriamente que respeitará minha confiança?

— Não sou doutor. Além disso, devo assinar alguma coisa?

— Não, se sua palavra tem valor. Terá apenas que me dar recibo do espécime se precisarem ficar com ele, nada mais.

— Dr. Pilcher?

— Naturalmente que a ajudarei. Não sou irresponsável. — Posso confirmar. Ele não é irresponsável.

— Conto com a sua discrição?

— Não tocarei no assunto.

— Pilch também não é doutor — avançou Roden.

— Quanto à educação profissional, estamos em pé de i-gualdade. Contudo, ele permitiu que você lhe conferisse o título. — Roden apoiou a ponte do indicador contra o queixo, como se destacasse sua judiciosa expressão.

— Dê-nos todos os detalhes. O que pode parecer irrelevante para você talvez seja uma informação vital para o perito.

— Este inseto foi encontrado atrás do véu palatino de uma vítima de assassinato. Não sei como foi parar ali.

O corpo da vítima foi encontrado no rio Elk, em West Virgínia, e ela não estava morta há mais do que uns poucos dias.

— É Buffalo Bill, escutei no rádio — disse Roden.

— Você não ouviu sobre o inseto no rádio, ouviu?

— indagou Starling.

— Não, mas eles falaram sobre o rio Elk. Você veio de lá, e é por isso que está chegando tão tarde?

— É isso — confirmou Starling.

— Você deve estar cansada, quer um pouco de ca-fé? — ofereceu Roden.

— Não, obrigada.

— Água?

— Não.

— Uma Coca?

— Acho que não. O que desejamos saber é onde essa mulher foi mantida cativa e onde foi assassinada.

Temos a esperança de que esse inseto tenha algum habitat especial, que viva numa região limitada, entendem? Ou que só durma em alguma espécie de árvore. Queremos saber de onde ele veio. Estou pedindo sua discrição porque se o criminoso introduziu o inseto deliberadamente, então só ele saberia do fato e poderíamos utilizá-lo para eliminar falsas confissões e ganhar tempo. Ele já matou pelo menos seis pessoas. Para nós, o tempo é crítico,

— Você acha que ele mantém cativa outra mulher enquanto ficamos olhando para este inseto? — perguntou Roden inopinadamente. Tinha os olhos arregalados e a boca aberta, e por um momento ela pensou noutra coisa.

— Eu não sei — respondeu meio brusca. — Não sei mesmo — repetiu, tentando atenuar a agressividade da resposta. — Mas o fará de novo tão logo puder.

— Então trataremos disto tão cedo quanto for possível — prometeu Pilcher. — Não se preocupe. Somos peritos nisso. Você não poderia estar em melhores mãos.

— Extraiu o objeto marrom do frasco com um delicado par de pinças e colocou-o em cima de uma folha de papel branco sob a luz. Aproximou um vidro de aumento montado num braço flexível para cima do inseto.

Este era comprido e parecia uma múmia. Estava envolto numa cobertura semitransparente que acompa-nhava suas linhas como um sarcófago. Seus apêndices estavam colados, tão justos contra o corpo que poderiam parecer esculpidos em baixo-relevo. A pequena cabeça parecia viva.

— Em primeiro lugar não é nada que normalmente pudesse infestar um corpo ao ar livre, e não estaria na água a não ser por acidente — disse Pilcher. — Não sei quão familiarizada você está com insetos ou quanto está disposta a escutar.

— Digamos que não sei nadinha. Quero que você me conte tudo.

— O.K. Aqui está uma ninfa, um inseto imaturo, numa crisálida; este é o casulo que o envolve enquanto ele se transforma de larva num adulto — disse Pilcher.

— Uma ninfa obtéctea, Pilch? — perguntou Roden enrugando o nariz para manter os óculos no lugar.

Bem, penso que sim. Quer pegar o livro de Chu sobre insetos imaturos? O.K. É este é o estágio ninfal de um inseto grande. A maioria dos insetos mais avançados tem um estágio ninfal. Grande parte deles passa o inverno desse modo.

— Quer o livro ou prefere examinar, Pilch? — indagou Roden.

— Vou dar uma olhada. — Pilcher transferiu o inseto para a mesa de um microscópio e debruçou-se sobre ela com uma ferramenta de exploração especial. — Vamos lá. Não tem órgãos respiratórios distintos na região dorso cefálica, mas vejo espiráculos no mesotórax e alguns abdominais. Comecemos com isto.

— Hum. Hum... — Fungou Roden, virando as páginas de um pequeno manual. — Mandíbulas funcionais?

— Neca.

— Gálias de maxilas pareadas no mesônio ventral?

— Sim, sim.

— Onde ficam as antenas?

— Adjacentes à margem mesal das asas. Dois pares de asas, o par de dentro totalmente coberto. Apenas os três segmentos abdominais debaixo estão livres. Pequenos cremasteres pontudos. Eu diria que é um lepidóptero.

— É o que diz aqui — confirmou Roden.

— É a família que inclui borboletas e mariposas.

Abrange um enorme território.. — salientou Pilcher.

— Vai ser difícil se as asas estão encharcadas. Vou buscar as referências — disse Roden. — Penso que não há jeito de impedir que vocês falem sobre mim enquanto eu estiver ausente.

— Penso que não — disse Pilcher. — Roden é boa pessoa acrescentou, tão logo o outro saiu da sala.

— Não duvido que seja.

— Será mesmo? — raciocinou Pilcher, parecendo divertido. Formamo-nos juntos, pleiteando e nos quei-xando de qualquer espécie de estágio que arranjávamos.

Ele conseguiu um no qual tinha de ficar sentado dentro de uma mina de carvão aguardando a decadência de prótons.

Ficou no escuro tempo demais. Ele é O.K. Apenas não fale na sua presença sobre a decadência de prótons..

— Procurarei evitar.

— É uma família enorme, a dos lepidópteros —

ponderou Pilcher afastando-se da luz brilhante. — Talvez umas 30 mil borboletas e 130 mil mariposas. Gostaria de

tirar esta da crisálida. . serei obrigado a isso se quisermos identificá-la.

— O.K. Pode fazê-lo sem a dividir?

— Penso que sim. Veja, esta começou a libertar-se por conta própria antes de morrer. Ela iniciou uma fratura irregular na crisálida bem aqui. Acabar de tirá-la levará pouco tempo.

Pilcher alargou a fissura natural no casulo e retirou o inseto. As asas enfeixadas estavam encharcadas. Abri-las foi como trabalhar com um lenço de papel úmido e amas-sado. Não se percebia nenhum desenho.

Roden chegou de volta com os livros.

— Pronto? — perguntou Pilcher. — O.K. o fêmur protorácico está oculto.

— E quanto a pilíferos?

— Nada de pilíferos — respondeu Pilcher. —

Quer apagar as luzes, policial Starling?

Ela esperou junto ao interruptor na parede até que a lanterna elétrica de Pilcher se acendesse. Depois ela afastou-se da mesa e fez a luz incidir sobre o inseto. Seus olhos brilharam no escuro, refletindo o estreito feixe de luz.

— Corujinha — disse Roden.

— Provavelmente, mas qual delas? — indagou Pilcher. Acenda a luz, por favor. É uma noctuídia, policial Starling, uma mariposa noturna. Quantas noctuídias existem, Roden?

— Duas mil e seiscentas e.. cerca de duas mil e seiscentas foram descritas.

— Entretanto, não muitas deste tamanho. O.K., vejamos você fazer bonito, camarada.

A cabeça de cabelos ruivos e duros de Roden cobriu o microscópio.

— Agora temos que apelar para a chaetaxia estudar a pele do inseto para descobrir sua espécie — ensinou Pilcher. — Roden é um craque nisso.

Starling teve a sensação de que uma espécie de paz se havia derramado sobre a sala.

Roden respondeu começando uma feroz discussão com Pilcher sobre se as marcas larvais do espécime estavam dispostas em círculos ou não. A discussão continuou agora sobre a disposição dos cabelos no abdome.

— Erebus odora — exclamou finalmente Roden.

— Vamos dar uma olhada — disse Pilcher.

Levaram o espécime com eles, descendo no elevador até o andar logo acima do elefante empalhado. Chegaram a um enorme quadrilátero cheio de caixas pintadas de verde-claro. O que havia sido anteriormente um grande saguão fora convertido em dois níveis, com andares para prover mais espaço de depósito para os insetos do Smithsonian. Eles estavam agora na seção de neotropicais, andando para noctuídios. Pilcher consultou o caderno de notas e parou numa caixa à altura de seu peito na grande pilha da parede.

— A gente tem que tomar cuidado com essas coisas — ponderou ele, abrindo a pesada porta metálica da caixa e depositando-a no chão. — Se deixar que caia uma destas no seu pé, vai andar capengando durante semanas.

Correu os dedos pelas gavetas superpostas da caixa, escolheu uma e puxou-a para fora.

Na bandeja, Starling viu os minúsculos ovos conservados, a lagarta num tubo de álcool, o casulo retirado de um espécime muito semelhante ao dela, e o adulto: uma grande mariposa marrom e preta com envergadura de

asas de uns 15 centímetros, o corpo peludo e delicadas antenas.

— Erebus odora — confirmou Pilcher. — A mariposa conhecida como Feiticeira Negra.

Roden já estava virando as páginas de um livro.

— Uma espécie tropical que às vezes chega até o Canadá no outono — leu ele. — As larvas comem acácia, unha-de-gato e plantas semelhantes. Habitam o sul dos Estados Unidos, as índias Ocidentais, e no Havaí são consideradas uma praga.

Que droga!, pensou Starling.

— Droga — repetiu ela em voz alta. — Estão por toda parte!

— Mas não estão por toda parte ao mesmo tempo.

— Pilcher mantinha a cabeça abaixada e coçava o queixo.

— Elas se reproduzem duas vezes, Roden?

— Quando?

— Espere um momento... Sim, no extremo sul da Flórida e no sul do Texas.

— Em maio e agosto.

— Eu estava justamente pensando — disse Pilcher.

— Seu espécime é um pouco mais bem desenvolvido do que o que temos, e é novo. Estava começando a romper o casulo para sair. Nas índias Ocidentais ou no Havaí, eu talvez pudesse entender, mas aqui estamos no inverno.

Neste país ele teria que esperar uns três meses para sair. A não ser que acontecesse acidentalmente numa estufa, ou que alguém o criasse.

— Criasse?

— Numa gaiola, num lugar quente, com algumas folhas de acácia para as larvas se alimentarem até que esti-

vessem aptas a sair de seus casulos. Não é difícil fazer is-so. — Será esse um hobby popular? Além de estudantes e profissionais, alguém mais faz isso?

— Não, quem o faz são principalmente entomologistas tentando obter um espécime perfeito, talvez alguns colecionadores. Existe também a indústria da seda, que cria algumas mariposas, mas não desta espécie.

— Entomologistas devem receber publicações pe-riódicas e jornais especializados, e conhecer pessoas que vendem equipamento observou Starling.

— Por certo, e muitas das publicações vêm para cá.

— Vou oferecer-lhe um pacote delas — disse Roden. — Alguns camaradas aqui são assinantes particulares de boletins profissionais menores. Eles os mantêm reservados e cobram 25 centavos para deixar você dar uma olhada naquelas estúpidas coisas. Terei que consegui-los amanhã de manhã.

— Providenciarei para que sejam apanhados. Obrigada, Sr. Roden.

Pilcher tirou fotocópias das referências sobre Erebus odora e as entregou a Starling, junto com o inseto.

— Vou levá-la até lá embaixo — ofereceu-se.

— A maioria das pessoas gosta de borboletas e detesta mariposas — frisou Pilcher enquanto aguardavam o elevador. — Mas as mariposas são mais interessantes, mais misteriosas.

— Elas são destruidoras.

— Algumas sim, uma porção delas, mas veja que vivem toda espécie de vidas. Da mesma forma que nós.

Desceram em silêncio.

— Existe uma mariposa, aliás, mais do que uma, que se alimenta só de lágrimas — explicou. — É só o que comem ou bebem.

— Que espécie de lágrimas? Lágrimas de quem?

— As de grandes mamíferos terrestres, mais ou menos do nosso tamanho. A velha definição das mariposas dizia que eram “qualquer coisa que gradualmente e em silêncio come, consome ou destrói qualquer outra coisa”.

Havia um verbo que significava também destruição. . É isso o que você faz todo o seu tempo — caçar Buffalo Bill? — Eu faço tudo o que posso.

Pilcher passou a língua sobre os dentes, movendo-a por trás dos lábios, como fazem os gatos.

— Você alguma vez sai para comer uns cheesbur-gers com uma cerveja ou tomar um copo de vinho para se distrair?

— Ultimamente não...

— Aceitaria agora comer qualquer coisa comigo?

Não é longe..

— Não, mas aceitaria quando o caso terminar. . e o Sr. Roden poderá ir também, naturalmente.

— Não há nada de natural em incluí-lo... — Comentou Pilcher. E quando chegaram à porta: — Espero que acabe com isso em breve, policial Starling.

Correu apressada para o carro que a esperava.

Ardelia Mapp deixara a correspondência e a metade de uma barra de chocolate Mounds em cima da cama de Starling. Ardelia dormia.

Starling levou sua máquina de escrever portátil para o quarto da lavanderia no subsolo, colocou-a em cima da mesa de passar e enfiou na máquina duas folhas com car-

bono. Tinha organizado em sua cabeça as notas sobre Erebus odora durante a viagem de volta para Quântico e redigiu-as rapidamente.

A seguir comeu o chocolate Mounds e escreveu um memorando para Crawford sugerindo que fizessem uma investigação cruzada entre as listas de endereços compu-tadorizados das publicações de entomologia e as listas dos criminosos conhecidos pelo FBI, consultando os arquivos das cidades mais próximas aos raptos, bem como aqueles sobre os criminosos sexuais de Metro Dade, San Antonio e Houston, as áreas onde aquelas mariposas eram mais comuns.

Havia outra coisa que ela tinha de trazer à tona pela segunda vez: Vamos perguntar ao Dr. Lecter por que ele achava que o criminoso iria começar a retirar escalpos.

Entregou os papéis ao funcionário de serviço noturno e caiu no seu leito acolhedor, as vozes do dia ainda sussurrando, mais suavemente do que Mapp a respirar no outro lado do quarto. Na envolvente escuridão pensou ver a cara esperta da mariposa. Aqueles olhos brilhantes tinham visto Buffalo Bill.

Após a cósmica ressaca que o Smithsonian lhe deixara veio-lhe um último pensamento e a coda para o dia: Sobre este estranho mundo, esta metade do mundo agora imersa no escuro, tenho que caçar uma coisa que vive de lágrimas.

CAPÍTULO 15

Em East Memphis, Tennessee, Catherine Baker Martin e seu namorado preferido estavam vendo um filme tarde da noite na televisão no apartamento dele e dando umas tragadas num cachimbo bong carregado com haxixe.

Os intervalos comerciais começaram a tornar-se mais longos e freqüentes.

— Estou com vontade de mastigar alguma coisa.

Você quer umas pipocas? — perguntou ela.

— Vou buscá-las, dê-me suas chaves.

— Fique quieto aqui. De qualquer modo, preciso ver se mamãe telefonou.

Ela levantou-se do divã. Era uma jovem alta, de ossos grandes e bem carnudos, quase pesadona, com um belo rosto e uma basta cabeleira. Encontrou os sapatos embaixo do divã, calçou-os e saiu.

A noite de fevereiro estava mais úmida do que fria.

Uma ligeira cerração vinda do Mississipi pairava à altura do tórax das pessoas sobre a grande área de estacionamento. Bem acima dela, podia ver a lua em quarto minguante, pálida e fina como um anzol feito de osso. Levantar os olhos e a cabeça tonteou-a um pouco. Começou a atravessar o estacionamento, dirigindo-se em linha reta para o lugar onde vivia, a uns 100 metros de distância.

O caminhão marrom de carroceria aberta estava estacionado próximo ao apartamento dela, no meio de algumas casas sobre rodas e barcos sobre carretas. Ela notou-o particularmente porque ele se parecia com os cami-nhões de entrega de encomendas que muitas vezes traziam presentes de sua mãe.

Ao passar perto do veículo, um abajur apareceu no meio da neblina. Era uma lâmpada de pedestal colocada no chão, com seu abajur em cima, no asfalto por trás do caminhão. Ao lado havia uma grande poltrona estofada, coberta por um tecido de chintz estampado com flores vermelhas e grandes surgindo do meio da névoa. As duas peças pareciam um conjunto de móveis expostos numa mobiliária.

Catherine Baker Martin piscou os olhos várias vezes e continuou andando. Pensou na palavra surrealista e atribuiu a lembrança ao bong. Contudo, não estava deli-rando. Alguém se mudava para cá ou para fora. Chegando; partindo: alguém estava sempre de mudança na Stonehinge Vil as. A cortina do seu apartamento ondulou e ela viu o gato no peitoril da janela, empinando as costas e roçando o corpo de encontro ao vidro.

Tinha a chave pronta na mão e antes de usá-la olhou para trás. Um homem pulara da traseira do caminhão. Podia ver à luz do poste que ele tinha a mão engessada e o braço numa tipóia. Ela entrou na casa e fechou a porta. Catherine Baker Martin espiou para fora afastando um pouco a cortina e viu que o homem tentava colocar a poltrona pela traseira do caminhão. Agarrou-a com a mão boa e tentou ajudar com o joelho. A poltrona caiu. Ele endireitou-a, lambeu o dedo e esfregou-o num ponto que a sujeira do chão manchara o chintz.

Ela resolveu sair para ajudar.

— Posso ajudá-lo, quer? — Usou um tom adequado, apenas de cooperação.

— Você me ajudaria? Muito obrigado. — Uma voz estranha, tensa. Não era o sotaque da gente do local.

O abajur iluminou-lhe o rosto de baixo para cima, distorcendo suas feições, mas ela pôde ver-lhe claramente o corpo. Ele usava calça cáqui passada a ferro e uma espécie de camisa de camurça, desabotoada e mostrando um peito sardento. O queixo e o rosto eram glabros, lisos co-mo os de uma mulher, e os olhos apenas pontinhos de luz sobre os malares à sombra da lâmpada.

Ele também a contemplou e ela se ressentiu com is-so. Os homens muitas vezes ficavam surpresos com seu tamanho quando ela chegava perto deles, e alguns escon-diam a reação melhor do que outros.

— Bom — comentou ele.

O homem exalava um cheiro desagradável e ela notou com repugnância que a camisa de camurça tinha pêlos, pêlos crespos nos ombros e embaixo dos braços.

Foi fácil levantar a poltrona até o piso abaixo do caminhão.

— Vamos empurrá-la para frente, você se incomoda? — Ele pulou para dentro e movimentou algo no piso — uma daquelas grandes bandejas chatas que servem para drenar o óleo e um pequeno guincho manual.

Empurraram a poltrona para frente até que ela ficasse logo atrás dos assentos da cabine.

— Você é mais ou menos número 14?

— O quê?

— Pode me passar aquela corda? Está bem a seus pés. Quando a mulher se abaixou para olhar, ele deixou cair o gesso da mão com força na sua nuca. Ela pensou ter batido com a cabeça numa trave e tentou segurá-la, mas a mão engessada golpeou de novo, batendo com o punho contra seu crânio; e de novo, desta vez atrás da orelha,

numa sucessão de golpes muito bem calculados, até ela cair em cima da poltrona. Dai ela escorregou para o piso do caminhão e ficou imóvel, deitada de lado.

O homem observou-a por um momento, depois retirou o gesso e a tipóia do braço. Rapidamente trouxe o abajur para dentro do carro, fechando as portas traseiras.

Puxou a gola da blusa da mulher para trás e, com uma lanterna elétrica, observou o tamanho daquela peça de roupa na etiqueta.

— Bom — resmungou.

Com uma tesoura cortou a blusa nas costas e, tirando-a, com ela amarrou-lhe os pulsos por trás. Esticou uma lona de cobrir mudanças no piso do caminhão e fê-la deitar em cima, de costas.

Ela não usava sutiã. O homem apalpou-lhe os grandes seios com os dedos, sentindo o peso e a resistência. — Bom — repetiu.

Havia uma marca rosada de um chupão no seio esquerdo. Ele lambeu o dedo para esfregá-lo como fizera com o chintz e balançou a cabeça quando a mancha desapareceu após uma ligeira pressão. Em seguida rolou-a de barriga para baixo e avaliou seu couro cabeludo, separan-do o cabelo com os dedos. O gesso não havia causado cortes. Verificou a pulsação dela com dois dedos ao lado de seu pescoço e constatou que estava forte.

— Booom... — disse.

Ele tinha muito caminho pela frente até chegar à sua casa de dois andares e preferia não prepará-la ali.

O gato de Catherine Baker Martin observava da janela quando o caminhão se afastou, as luzes da traseira se tornando cada vez mais juntas.

Por trás do gato o telefone tocava. A secretária eletrônica que ficava no quarto respondeu, sua lâmpada vermelha piscando no escuro.

Quem chamava era a mãe de Catherine, a mais jovem senadora dos Estados Unidos — pelo estado do Tennessee.

CAPÍTULO 16

Na década de 80, a Idade de Ouro do terrorismo, havia procedimentos em vigor para cuidar de raptos que afetassem membros do Congresso.

Às 2:45 da manhã o agente especial encarregado do escritório do FBI em Memphis comunicou ao quartel-general em Washington que a filha única da senadora Ru-th Martin desaparecera.

Às 3:00 dois furgões sem marcas saíram da úmida garagem no subsolo do escritório regional de Washington, em Buzzard’s Point. Um furgão foi para o Edifício de Escritórios do Senado, onde técnicos colocaram aparelhagem de monitoração e gravação nos telefones do escritório da senadora Martin e instalaram uma Escuta Título 3

nos telefones públicos mais próximos ao escritório da senadora. O Ministério da Justiça acordou o membro mais jovem do Comitê de Inteligência Especial do Senado para fazer-lhe a obrigatória notificação da instalação de escuta.

O outro veículo, um “furgão de vigilância” com vidro unidirecional e equipamento próprio para sua função, estacionou na Virgínia Avenue para cobrir a frente de Wa-tergate West, a residência da senadora Martin em Washington. Dois dos homens ocupantes do furgão entraram no edifício para instalar equipamentos de monitoração nos telefones da casa da senadora.

A Bell Atlantic estimava em 70 segundos o tempo médio para traçar um telefonema para qualquer chamada de resgate num sistema telefônico digital doméstico.

A Esquadra de Reação de Buzzard’s Point entrou em turnos dobrados para a eventualidade do pagamento de um resgate na área de

Washington. Seu procedimento por rádio mudou para uma inscrição mandatória a fim de proteger qualquer notificação de resgate contra a intrusão de helicópteros de noticiários — essa espécie de irresponsabilidade por parte das empresas de notícias era rara, mas tinha acontecido.

O Grupo de Resgate de Reféns entrou em estado de alerta, e a apenas um passo de embarque aéreo.

Todo mundo esperava que o desaparecimento de Catherine Baker Martin fosse um rapto profissional para cobrança de resgate; essa hipótese oferecia a melhor chance para sua sobrevivência.

Ninguém mencionou a pior possibilidade.

Então, um pouco antes do romper do dia em Memphis, um patrulheiro da cidade, investigando uma queixa de invasão de domicílio na Winchester Avenue, interpelou um velho que coletava latas de alumínio e restos ao longo do acostamento da estrada Em seu carro o patrulheiro encontrou uma blusa de mulher, ainda abotoada na frente. A blusa estava cortada nas costas, como uma roupa de funeral. A marca da lavanderia citava Catherine Baker Martin.

Jack Crawford dirigia para o sul vindo de sua casa em Arlington às 6:30 quando o telefone do carro chamou pela segunda vez em dois minutos.

— Nove vinte-e-dois, quarenta.

— Quarenta na escuta para Alfa 4.

Crawford descobriu uma área de acostamento, de-teve-se ali, parando o carro para prestar maior atenção ao telefone — Alfa 4 era o diretor do FBI.

— Jack, você está ciente de Catherine Martin?

— O oficial de serviço noturno acaba de me telefonar. — Então você sabe sobre a blusa. Informe qualquer coisa.

— Buzzard’s Point entrou em alerta de rapto —

disse Crawford. — Eu preferiria que não se retirassem por enquanto. Quando o fizerem, gostaria de manter vigilância telefônica. Sem a blusa cortada ou não, não temos certeza de que é Bil . Se for um imitador, poderá pedir um resgate.

Quem é que está fiscalizando telefones e seguindo pistas em Tennessee, nós ou eles?

— Eles. A polícia estadual. São muito bons. Phil Adler telefonou da Casa Branca para me comunicar o

“grande interesse” do presidente. Poderíamos marcar um tento neste caso Jack.

— Isso já me ocorreu. Onde está a senadora?

— A caminho de Memphis. Ligou para minha casa há um minuto. Você pode imaginar. .

— Sim. — Crawford conhecia a senadora das audiências sobre orçamento.

Ela vai agir com todo o peso de que dispõe.

— Não a censuro por isso.

— Nem eu — completou o diretor. — Assegurei a ela que vamos empenhar-nos de corpo e alma, como vimos fazendo até agora. Ela está. . está ciente da sua situação pessoal e ofereceu-lhe um Lear da companhia dela.

Use-o. Venha para casa à noite, se desejar.

— Bom. A senadora é dureza, Tommy. Se ela tentar interferir nós vamos nos digladiar.

— Sei disso. Descarregue qualquer coisa em cima de mim se tiver que fazê-lo. Qual é a melhor perspectiva, Jack? Seis ou sete dias?

— Não sei. Se ele entrar em pânico quando souber, quem ela é, poderá liquidá-la e despejá-la em algum lugar.

— Onde você está?

— A três quilômetros de Quântico.

— A pista de Quântico recebe um Lear Jet?

— Sim.

— Em 20 minutos.

— Sim, senhor. Crawford digitou alguns números no seu telefone e voltou com o carro para o tráfego da estrada.

CAPÍTULO 17

Cansada de uma noite agitada, Clarice Starling estava de roupão (chinelos de banho, a toalha no ombro, esperando para entrar no banheiro que ela e Mapp compartilhavam com as estudantes do quarto ao lado. As notícias de Memphis no rádio interromperam-lhe a respiração.

— Oh, meu Deus! — Suspirou. — Que coisa!

MUITO BEM, VOCÊ AÍ DENTRO! ESTE BANHEI-RO ESTÁ OCUPADO. SAIA COM AS CALÇAS ENFIADAS. ISTO NÃO É UM EXERCÍCIO! — Pulou para dentro do chuveiro com uma espantada colega do quarto ao lado. — Chega para lá, Gracie, e faça o favor de me passar aquele sabonete.

Com o ouvido pregado no telefone, fez uma maleta para a noite e depositou seu estojo de datiloscopia perto da porta. Certificou se de que a telefonista sabia que ela estava no seu quarto e desistir do desjejum para ficar gru-dada no telefone. Quando faltavam 11 minutos para o início das aulas, sem receber nenhum recado, correu até a Ciência do Comportamento com seu equipamento.

— O Sr. Crawford viajou para Memphis há 45 minutos — informou a secretária delicadamente. — Burroughs foi com ele e Stafford, do laboratório, partiu para lá, do Aeroporto National.

— Deixei um relatório para ele na noite passada.

Ele não deixou nenhuma mensagem para mim? Meu no-me é Clarice Starling.

— Sei quem você é. Tenho três números de telefones seus e há mais alguns na mesa dele, acredito. Não, ele não deixou nada para você, Clarice. — A moça olhou para a mala de Clarice. — Gostaria que eu informasse qualquer coisa a ele quando telefonar?

— Ele deixou algum número de telefone em Memphis? — Não, mas ficou de telefonar. Você tem aulas ho-je, Clarice? Você ainda está na escola, não está?

— Sim, sim. Estou.

A entrada de Starling, atrasada, na aula, não foi faci-litada por Gracie Pitman, a pequena que ela tinha deslocado no chuveiro. Gracie Pitman sentava-se logo atrás de Starling O caminho até seu lugar pareceu-lhe longo. A língua de Gracie Pitman teve tempo de fazer duas voltas completas na sua bochecha macia antes que Starling pudesse absorver-se na classe.

Sem desjejum, teve que assistir a duas horas de “A Exceção do Mandado de Boa-Fé nas Regras Exclusivas de Pesquisa e Captura”, antes de se dirigir à máquina automática e tomar uma coca-cola.

Verificou sua caixa de correspondência ao meio-dia, não havia nada. Ocorreu-lhe então, como já havia o-corrido em umas poucas outras ocasiões na sua vida, que uma intensa frustração tem o gosto muito parecido com um medicamento chamado Fleet que ela tivera de tomar quando era criança.

Certos dias a gente acorda diferente; este era um deles para Starling. O que ela vira na véspera na Casa Funerária de Potter causara-lhe um pequeno deslocamento tectônico.

Starling estudara psicologia e criminologia numa boa escola. Durante a vida pudera observar algumas das horríveis e precipitadas formas com que o mundo destrói as coisas. Mas realmente não tinha jamais imaginado que

às vezes os seres humanos produzem, atrás de um rosto com aparência humana, uma mente cujo prazer era aquilo que jazia na mesa de porcelana em Potter, West Virgínia, na sala forrada de papel decorado com rosas. Seu primeiro encontro com uma mente daquele tipo chocou-a mais do que qualquer coisa que pudesse ver em mesas de autópsia.

Tal conhecimento ficaria entranhado na sua pele para sempre, e ela sabia que tinha de criar uma crosta ou aquilo a penetraria.

A rotina da escola não a ajudou. Durante todo o di-a, manteve a impressão de que as coisas estavam acontecendo além do horizonte. Parecia-lhe escutar um surdo rumor de eventos, como o som vindo de um estádio distante, sugestões de movimento, grupos passando pelos corredores, a sombra das nuvens correndo no solo, o ronco de um avião — tudo a perturbava.

Depois das aulas Starling deu muitas voltas correndo e a seguir mergulhou na piscina. Nadou até imaginar que o fazia sobre cadáveres flutuantes e então não quis mais sentir a água em volta do seu corpo.

Na sala de recreação, assistiu ao noticiário das sete com Mapp e mais uma dúzia de outras estudantes. O rapto da filha da senadora Martin não era a notícia mais importante, mas foi a primeira após a conferência sobre de-sarmamento em Genebra.

Apareceu um filme de Memphis, começando com o cartaz dos Stonehinge Vil as fotografado à luz giratória de um carro-patrulha. A mídia estava dando importância à história e, com poucas novidades a noticiar, os repórteres entrevistaram uns aos outros nos estacionamentos de Stonehinge. As autoridades de Memphis e do condado de Shelby procuravam evitar a grande quantidade de micro-

fones, com os quais não estavam acostumadas. Naquela confusão, de reflexos das lentes e de sons de áudio, relata-vam os dados e expunham suas dúvidas. Fotógrafos mo-vimentavam-se para um lado e outro, esbarrando nas minicâmaras de TV toda vez que os investigadores entravam ou saíam do apartamento de Catherine Baker Martin.

Um breve e irônico aplauso ecoou na sala de re-creios da Academia quando o rosto de Crawford apareceu brevemente na janela do apartamento. Starling esboçou um meio sorriso.

Pensou se Buffalo Bil estaria assistindo à TV. Cismava o que ele acharia do rosto de Crawford ou até mesmo se ele sabia quem era Crawford.

Outras pessoas também pareciam pensar que Buffalo Bill estava assistindo.

Uma era a senadora Martin, num programa ao vivo na televisão, com Peter Jennings. Aparecia sozinha no quarto da filha, com uma pequena bandeira da Universidade do Sudoeste e pôsteres promovendo Wile E. Coyote e a Emenda de Direitos Iguais na parede por trás dela.

Uma mulher alta, rosto enérgico e franco.

— Estou me dirigindo agora à pessoa que mantém minha filha em seu poder — disse. Aproximou-se mais da câmara, provocando uma desfocalização imprevista e falou como nunca falaria sequer a um terrorista. — Você tem o poder de livrar minha filha sem lhe causar danos. O

nome dela é Catherine. Ela é muito gentil e compreensiva.

Por favor, solte minha filha, por favor liberte-a sem ma-chucá-la. Você tem o controle da situação. Você tem o poder. Você domina. Eu sei que você pode sentir amor e compaixão. Você é capaz de protegê-la contra qualquer coisa que possa causar-lhe dano. Você agora tem uma ma-

ravilhosa oportunidade de mostrar a todo mundo que é capaz de muita bondade, que é suficientemente grande para tratar outra pessoa melhor do que o mundo a tratou.

O nome dela é Catherine.

Os olhos da senadora Martin afastaram-se da câmara quando a imagem mudou para uma cena de filme doméstico mostrando uma criança que aprendia a andar agarrando-se aos pêlos do pescoço de um grande col ie.

— O filme que você está vendo agora é de Catherine quando ainda era uma criancinha. Liberte Catherine.

Liberte-a sem lhe fazer mal em qualquer lugar deste país e você terá minha ajuda e minha amizade — continuou a voz da senadora.

Continuar: parte 5 de 5