O Silêncio dos Inocentes
Thomas Harris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
— Dr. Lecter. É o que parece mais próprio para sua idade e posição — atalhou ele.
— Sim.
— Como se sentiu ao entrar na garagem?
— Assustada.
— Por quê?
— Camundongos e insetos.
— Você usa alguma coisa quando quer alertar seus nervos? — perguntou o Dr. Lecter.
— Nada que conheço funciona, exceto desejar aquilo que estou perseguindo.
— Memória ou quadros de coisas passadas lhe o-correm então. Quer você as provoque ou não?
— Talvez. Nunca pensei sobre isso.
— Coisas da sua vida pregressa.
— Terei que observar para descobrir.
— Como se sentiu quando soube acerca de Miggs, meu faleci do vizinho? Você não me perguntou sobre ele.
— Pretendia fazê-lo.
— Você não ficou contente quando soube?
— Não.
— Ficou triste?
— Não. Foi o senhor quem o levou àquele extremo? O Dr. Lecter riu-se baixinho.
— Você me pergunta, policial Starling, se instiguei a covardia do suicídio ao Sr. Miggs? Não seja tola. Tem certa conotação agradável, no entanto, o fato de ele engolir aquela sua ofensiva língua, você não concorda?
— Não.
— Policial Starling, isso foi uma mentira. A primeira que você me prega. Uma ocasião triste, diria Truman.
— O presidente Truman?
— Esqueça. . Por que acha que a ajudei?
— Não sei.
— Jack Crawford gosta de você, não gosta?
— Ignoro isso.
— O que diz provavelmente não é verdade. Gostaria que ele gostasse de você? Diga-me: você sente necessidade de agradar-lhe e isso a preocupa? Desconfia da sua necessidade de agradar-lhe?
— Todo mundo gosta de ser apreciado, Dr. Lecter.
— Nem todo mundo. Você acha que Jack Crawford a quer sexualmente? Sei que ele agora anda muito frustrado. Você acha que ele imagina. . cenários, transas..
enfim, foder com você?
— É um assunto que não me desperta curiosidade, Dr. Lecter, é a espécie de coisa que Miggs perguntaria.
— Não pode mais perguntar. .
— O senhor sugeriu a ele que engolisse a língua?
— Seu senso interrogativo inclui muitas vezes o próprio subjuntivo. Com esse sotaque, cheira a lâmpada de mineiro... Crawford sem dúvida gosta de você e acha-a competente. Penso que a estranha confluência dos acon-tecimentos não lhe escapou, Clarice, pois tem tido a ajuda de Crawford e tem tido a minha. Você diz que não sabe por que Crawford a ajuda, sabe por que eu o faço?
— Não. Diga-me.
— Acha que é porque gosto de olhar para você e pensar em comê-la, em qual seria o seu gostinho?
— É por isso?
— Não. Eu quero algo que Crawford me pode dar e desejo negociar com ele. Mas ele não vem me ver. Não pede minha ajuda sobre Buffalo Bil , embora saiba que por isso mais mulheres jovens vão morrer.
— Não posso acreditar, Dr. Lecter.
— Quero algo muito simples e ele pode consegui-lo para min — Lecter girou vagarosamente o reostato da luz de sua cela. Seus livros e desenhos tinham desaparecido. O assento do toalete sumira. Chilton havia desnudado a cela para puni-lo por causa de Miggs — Estou neste lugar há oito anos, Clarice. Sei que eles jamais me deixarão sair vivo daqui. Só o que eu quero é um panorama para
olhar. Uma janela por onde eu possa ver uma árvore ou mesmo uma poça d’água.
— Seu advogado já fez uma petição. .
— Chilton mandou pôr aquela televisão no corredor, sintonizada num canal religioso. Tão logo você se retirar, o guarda irá novamente aumentar o som e meu advogado não pode impedi-lo, pois a corte não está inclinada a ser benévola a meu respeito. Desejo ir para uma instituição federal, desejo meus livros de volta, desejo umas visitas. Posso dar algo valioso em troca disso. Crawford pode conseguir. Pergunte-lhe.
— Posso relatar a ele o que o senhor me contou.
— Ele vai ignorar tudo isso. E Buffalo Bill irá continuar e continuar. Espere até ele escalpelar mais uma e veja se você vai gostar... Hum... Eu lhe digo uma coisa acerca de Buffalo Bil sem mesmo avaliar o caso. Daqui a alguns anos, quando o apanharem, se o apanharem, você verá que eu estava certo e que poderia ter ajudado. Poderia ter poupado vidas. Clarice?
— Sim?
— Buffalo Bil tem uma casa de dois andares —
anunciou o Dr. Lecter, e apagou a luz.
E não quis mais falar de novo.
CAPÍTULO 10
Clarice Starling encostou-se numa mesa de roleta no cassino do FBI e tentou prestar atenção a uma conferência sobre “lavagem” de dinheiro da jogatina. Haviam decorrido 36 horas desde que a polícia do condado de Baltimore tomara o seu depoimento (através de uma datilógrafa de dois dedos que fumava um cigarro atrás do outro: “Você pode abrir aquela janela se o cigarro a incomoda...”) e a dispensara da sua jurisdição não sem antes lembrar-lhe que assassinato não é crime federal.
As redes de notícias no domingo à noite mostraram o entrevero de Starling com os cameraman da televisão, e ela se sentia certa de estar enterrada até às orelhas em im-popularidade. Durante todo esse tempo nada ouviu de Crawford nem do escritório regional de Baltimore. Era como se o relatório dela tivesse caído num vazio.
O cassino onde estava agora era pequeno, tinha operado no reboque de um caminhão até que o FBI o a-preendera e instalara na escola como um instrumento auxiliar de ensino. O apertado espaço estava apinhado de policiais de muitas jurisdições. Com agradecimentos, Starling recusara aceitar as cadeiras que lhe foram oferecidas por dois guardas-florestais do Texas e um detetive da Sco-tland Yard.
O resto da sua classe estava no salão do edifício da Academia, procurando cabelos no caríssimo carpete de motel do “Quarto do Crime Passional” e aspergindo pó no “Banco Anônimo” em busca de impressões digitais.
Starling tinha passado tantas horas à procura de cabelos e à cata de impressões digitais como estudante de práticas
forenses, que preferiram enviá-la àquela conferência, parte de uma série destinada a autoridades policiais visitantes.
Imaginava se haveria alguma outra razão para ser separada de sua classe: talvez costumassem isolar novatos antes de lhes dar o bilhete azul. .
Starling descansou os cotovelos na borda da mesa de roleta e tentou concentrar-se no problema de “lavar”
dinheiro de jogo. Entretanto, ela se concentrava mais no fato de quanto o FBI detestava ver seus agentes na televisão, fora de conferências oficiais no noticiário.
O Dr. Hannibal Lecter era um doce de coco para a mídia, e a polícia de Baltimore tinha prazerosamente for-necido o nome de Starling aos repórteres. Reiteradamente ela se via no noticiário da rede de domingo à noite. Lá estava “Starling, do FBI”, batendo com força a alavanca do macaco contra a porta da garagem, enquanto o cameraman tentava esgueirar-se por baixo dela. E depois a “Agente Federal Starling” virando-se para o assistente, ainda com a alavanca do macaco na mão.
Na estação rival, a WPIK, à falta de um filme próprio, anunciara-se uma ação legal por danos pessoais contra “Starling, do FBI” e contra o próprio Bureau porque o cameraman recebera poeira e partículas de ferrugem nos olhos quando Starling bateu com força na porta.
Jonetta Johnson, da WPIK, apareceu num programa costa a costa com a revelação de que Starling tinha encontrado os macabros restos na garagem através de um
“laço sinistro com um homem que as autoridades tinham estigmatizado como um monstro...!” Ficara claro que a WPIK tinha uma fonte de informações no hospital.
NOIVA DE FRANKENSTEIN! ! ! — Vociferava o Nacional Tattler de suas prateleiras nos supermercados.
Não surgiu nenhum comentário público da parte do FBI, mas houve muitos dentro do Bureau, disso Starling estava certa.
Durante o desjejum, um de seus colegas de classe, um jovem que usava quantidade exagerada de colônia após barba Canoe, referira-se a Starling com o “Melvin Pelvis”, um trocadilho estúpido com o nome de Melvin Purvis, o G-man número um de Hoover na década de 30.
O que Ardelia Mapp disse ao garotão fê-lo empalidecer e abandonar o desjejum na mesa sem sequer nele tocar.
Agora Starling encontrava-se num curioso estado no qual já não podia ter surpresas. Durante um dia e uma noite sentira-se envolvida num silêncio semelhante ao que experimentam os mergulhadores. Tencionava defender-se, se lhe dessem a oportunidade.
O conferencista fazia girar a roleta enquanto falava, mas nunca deixava a bolinha cair. Olhando-o, Starling se convencera de que ele nunca na vida deixara a bola cair. .
Agora percebeu-o dizendo alguma coisa familiar: “Clarice Starling.” Por que estaria dizendo Clarice Starling? Sou eu!
— Presente.
Com o queixo, o conferencista apontou para a porta atrás dela. Lá vinha porrada. . O chão pareceu-lhe afundar quando voltou-se para ver. Mas era Brigham, o instrutor de tiro, que se inclinava para dentro da sala e apontava para ela no meio do grupo. Quando Starling o viu, ele abriu-se num sorriso.
Por um segundo pensou que estava sendo expulsa, mas esse não seria um serviço para Brigham.
— Prepare-se para viajar, Starling. Onde está seu material de campanha? — perguntou ele no corredor.
— No meu quarto, na Ala C.
Precisava caminhar depressa para acompanhá-lo.
Ele estava carregando o estojo grande de impressões digitais do quarto de suprimentos, o conjunto bom, não o de dar aulas e um pequeno saco de lona.
— Você vai com Jack Crawford. Leve o que for preciso para passar uma noite fora. Vocês poderão voltar antes, mas é melhor levar.
— Onde?
— Uns caçadores de patos encontraram em West Virgínia um corpo no rio Elk ao romper do dia. Numa situação típica de Buffalo Bill. Policiais estão retirando-o.
É um lugar onde o diabo perdeu as botas e Jack não está inclinado a esperar que aqueles caras lhe transmitam os detalhes. — Brigham parou na entrada da porta da Ala C.
— Ele precisa de alguém para ajudá-lo, capaz de tirar as impressões de um cadáver que flutuou, entre outras coisas. Você era O.K. no laboratório. Você pode fazer isso, não? — É fácil. Deixe-me verificar o material.
Brigham manteve o estojo de impressões aberto enquanto Starling levantava as bandejas uma a uma. As agulhas fininhas de injeção estavam lá, bem como os frascos, mas não havia uma máquina fotográfica.
— Preciso da máquina Polaroid 1x1, a CU-5, Sr.
Brigham. E filmes e baterias para ela.
— Do almoxarifado? Vou apanhar.
Entregou-lhe o pequeno saco de lona, e quando ela sentiu o peso compreendeu por que tinham mandado Brigham buscá-la.
— Você ainda não tem arma de serviço, não é verdade? — Não.
— Pois precisa de um conjunto completo. Exatamente o que vem usando no estande de tiro. O revólver que vai levar é o meu. É o Smith modelo K com o qual você está treinada, mas de gatilho mais leve. Acione-o em seco no quarto hoje à noite, quando tive uma chance. Estarei num carro atrás da Ala C dentro de 10 minutos com a câmara. Olhe: no “Blue Canoe” não existe privada. Vá ao banheiro enquanto você tem oportunidade, é o meu conselho. Apresse-se, Starling.
Ela tentou fazer uma pergunta, mas ele já tinha ido embora.
Tem que ser Buffalo Bil , se o próprio Crawford es-tá indo. Que diabo será o “Blue Canoe”? Mas quando vo-cê está fazendo a mala, tem que pensar apenas em fazer a mala. Starling a fez depressa e bem.
— Tudo bem — Brigham interrompeu-a quando ela entrou no carro. — A coronha aparece um pouco sob o casaco se alguém procura ver se você está armada, mas por enquanto está tudo bem. Ela usava o revólver de cano curto debaixo do blazer, num coldre tipo panqueca bem encostado nas costelas, bem como um carregador rápido preso ao cinto no outro lado.
Brigham dirigia precisamente no limite de velocidade em direção à pista de aviões de Quântico.
Puxou um pigarro e disse:
— No estande de tiro há uma boa coisa, Starling: por lá não se faz política.
— Não.
— Você andou certa ao impedir a entrada naquela garagem em Baltimore. Está preocupada com a televisão?
— Deveria estar?
— Esta é uma conversa só entre nós, certo?
— Certo.
Brigham respondeu ao cumprimento de um fuzileiro que dirigia o tráfego.
— Levando-a hoje com ele, Jack está demonstrando sua confiança em você de uma forma que ninguém poderá ignorar — frisou ele. — Na hipótese, digamos, de alguém no Escritório de Responsabilidade Profissional agitar seu caso na frente dele, e ele fica em cólicas.. Compreende o que quero dizer?
— Hum...
— Crawford é um tipo que agüenta a mão. Ele esclareceu amplamente e até onde interessava que você tinha que fazer o que fez. Afirmou tê-la enviado nua — isto é, despida de todos os símbolo visíveis de autoridade, declarou isso também. E o tempo que os policiais de Baltimore levaram para agir foi muito demorado. Hoje, também Crawford necessita de ajuda e teria que esperar uma hora até Jimmy Price mandar alguém até aqui do laboratório. Então a coisa estava bem talhada para você, Starling.
Um cadáver boiando não é nenhuma brincadeira de praia... Também não é nenhuma punição contra você, mas se alguém de fora precisasse interpretar a coisa dessa maneira, poderia. Veja: Crawford é um cara muito sutil, mas não se sente inclinado a explicar as coisas, e é por isso que estou lhe contando. . Se você vai trabalhar com Crawford, deve saber como é o negócio com ele, entendeu?
— Na verdade, não entendi.
— Ele tem muitas preocupações além de Buffalo Bill. A mulher dele, Bella, está muito doente. Está numa situação. . terminal. Ele a mantém em casa. Não fosse por causa de Buffalo Bill, já teria tirado uma licença por motivo de doença na família.
— Eu não sabia disso.
— É uma coisa que não se discute. Não lhe diga que você sente muito ou qualquer coisa parecida; isso não vai ajudar nada. . Eles tiveram uma boa vida.
— Agradeço por ter me contado.
Brigham ficou mais animado quando chegaram ao extremo do campo de pouso.
— Tenho uma porção de preleções importantes a fazer no fim do curso sobre armas de fogo, Starling; tente não perdê-las. — Cortou caminho entre dois hangares.
— Não perderei.
— Veja: o que ensino, você talvez nunca terá que fazer. Espero que não tenha. Contudo, considero muito a sua aptidão, Starling. Se tiver que atirar, você sabe atirar.
Continue fazendo seus exercícios.
— Certamente.
— Jamais ponha a arma dentro da bolsa.
— Certo.
— Leve-a ao seu quarto algumas vezes à noite. Coloque numa posição em que possa encontrá-la facilmente.
— Farei isso.
Um venerável bimotor Beechcraft estava na área de taxiar da pista de Quântico com as luzes de navegação girando e a porta aberta. Uma das hélices girava agitando o capim ao lado do asfalto.
— Não me diga que isso aí é o Blue Canoe... 1 —
exclamou Starling.
— É ele mesmo.
— É pequeno e velho.
— É velho mesmo. . — confirmou Brigham alegremente.
— A Divisão de Repressão às Drogas pegou-o na Flórida há muito tempo, quando ele caiu nos Everglades.
No entanto, hoje está mecanicamente em condições. Espero que Gramm e Rudman não descubram que o estamos usando, todos supõem que só andamos de ônibus. —
Encostou o carro no avião e tirou a bagagem de Starling do banco traseiro. Com alguma confusão, conseguiu passar-lhe coisas e dar-lhe um aperto de mão.
E então, sem qualquer intenção especial, disse:
— Deus a abençoe, Starling! — Tais palavras pareciam estranhas na boca de um fuzileiro. Ele não sabia de onde haviam vindo e seu rosto se ruborizou.
— Obrigada... muito obrigada, Sr. Brigham.
Crawford estava no assento do co-piloto, em mangas de camisa e com óculos de sol. Virou-se para Starling quando ouviu o piloto bater a porta do avião.
Ela não podia distinguir-lhe os olhos atrás dos óculos escuros e teve a sensação de que não o conhecia.
Crawford tinha uma aparência pálida e tensa, como uma raiz que um buld8zer arranca do chão.
— Escolha um assento e leia — foi tudo o que ele disse. Uma grossa pasta de arquivo estava no assento atrás dele. Na capa, em maiúsculas, estava escrito BUFFALO BILL. Starling agarrou-a com força contra o peito quando o Blue Canoe roncou. Estremeceu e começou a deslocar-se.
CAPÍTULO 11
As margens da pista de decolagem tornaram-se in-distintas e desapareceram logo. Do lado leste via-se uma nesga do sol da manhã sobre a baia de Chesapeake quando o pequeno avião fez uma curva para afastar-se do tráfego. Lá embaixo Clarice Starling podia ver a escola e a base de Quântico do Corpo de Fuzileiros. Na pista de treinamento de assalto, pequenos vultos de fuzileiros des-locavam-se e corriam.
Era assim que parecia visto de cima.
Certa vez, depois de um exercício de tiro noturno, caminhando no escuro ao longo da deserta Hogan’s Alley apenas para espairecer, ouvira aviões roncando por cima e depois, no silêncio que se seguiu, vozes falando no céu negro por cima dela — soldados aerotransportados num salto noturno falando uns aos outros enquanto desciam na escuridão. E ela ficou cismando como alguém deveria sentir-se na porta do avião esperando ordens para saltar, e como se sentiria mergulhando naquela escuridão ameaçadora. Talvez como se sentia agora.
Abriu a pasta.
Buffalo Bil o havia feito cinco vezes, pelo menos que soubessem. Cinco vezes pelo menos, e provavelmente mais, durante os últimos seis meses ele raptara uma mulher esfolando-a depois de assassinar. (Starling correu os olhos pelos relatórios e autópsia até encontrar os testes de histamina livre confirmando que ele as havia matado antes de arrancar-lhes a pele).
Jogara cada um dos corpos n′água depois de terminar seu lúgubre serviço. Todos foram encontrados em rios diferentes, um curso d′água de um cruzamento de estradas interestaduais, cada um num diferente estado. Todo mundo sabia que Buffalo Bil era um homem que viajava. Era tudo que a polícia conhecia sobre ele, absolutamente tudo, exceto que ele tinha pelo menos uma arma com seis ra-nhuras, girando para a esquerda — possivelmente um revólver Colt ou uma imitação de Colt. Marcas das estrias em balas recuperadas indicavam que ele preferia usar o calibre 38 nas câmaras mais longas de um 357.
Os rios não deixavam qualquer impressão digital, nem sombra de cabelos ou de fibras que levassem a ele.
Tinha-se quase certeza de que era um homem branco: branco, porque assassinos em série geralmente matam dentro do seu próprio grupo étnico e todas as vitimas eram brancas; homem, porque assassinas em série são quase desconhecidas em nossa época.
Dois colunistas de cidades grandes haviam descoberto um título no pequeno poema sobre a morte, de E.E.
Cummings, “Buffalo Bill”: .. como você gosta de seu me-nino de olhos azuis, Sr. Morte.
Alguém, talvez Crawford, havia colado a citação na capa da pasta.
Não havia uma relação clara entre o lugar onde Bill raptava as jovens mulheres e onde ele as jogava n′água.
Nos casos em que os corpos foram encontrados cedo o bastante para uma determinação exata da hora da morte, a polícia descobriu outra coisa sobre o assassino: Bill as mantinha vivas por um certo tempo. Essas vítimas só morreram entre uma semana e dez dias após o rapto.
Isto queria dizer que ele precisava ter um lugar para man-
tê-las, um lugar onde pudesse agir discretamente. Isto queria dizer ainda que ele não era um vagabundo; era, enfim, um sujeito que tinha sua própria teia de aranha, seu próprio alojamento Em algum lugar.
Esse fato horrorizou o público de maneira chocante — o fato de ele mantê-las presas por uma semana ou mais, sempre sabendo que iria matá-las.
Duas foram enforcadas; três morreram por tiros.
Não havia evidência de estupro ou abuso físico antes da morte, e os relatórios da autópsia não registravam qualquer evidência de desfiguração “especificamente genital”, embora os patologistas notassem que seria quase impossível determinar tal coisa nos corpos mais deteriorados.
Todas foram encontradas nuas. Em dois casos, artigos das roupas externas das vítimas foram encontrados ao lado da estrada próxima às suas casas, cortadas nas costas como roupas para defuntos.
Starling conseguiu examinar as fotografias sem problemas. Corpos flutuantes são a pior espécie de mortos para se lidar. Eles são absolutamente patéticos, como muitas vezes também acontece com vitimas de homicídios ao ar livre. As indignidades que a vitima sofre, a exposição aos elementos e aos olhos de estranhos, fazem o investigador ficar com raiva, se seu serviço lhe permite dar-se ao luxo de ter raiva.
Em homicídios dentro de casa, testemunhas das práticas pessoais desagradáveis da vítima, e as vítimas da própria vitima — esposas espancadas, crianças que sofrem abusos — , aproximam-se eventualmente para sussurrar que o morto merecia o que lhe aconteceu, e muitas vezes isso é verdade.
Mas nenhuma das vítimas de Bil merecera o casti-go. Elas já não tinham sequer as próprias peles quando apareciam no lixo das barrancas dos rios, entre garrafas de óleo para motor de popa, embrulhos de sanduíches e outras imundícies assim. As vitimas mortas durante a estação fria, em grande parte ainda tinham seus rostos. Starling não ignorou que seus dentes não estavam à mostra para expressar a dor, mas que, ao se alimentarem, tartarugas e peixes haviam criado aquela expressão dos cadáveres. Bil arrancava a pele dos torsos e em geral deixava os membros intocados.
As fotografias não seriam tão horríveis de examinar, pensou Starling, se a cabine deste avião não fosse tão quente e se o maldito avião não desse aquela guinada constante para um lado porque uma das hélices pegava mais vento que a outra, e se a porra daquele sol não varas-se as arranhadas janelas de plástico para provocar-lhe uma dor de cabeça.
Pode-se apanhá-lo! Starling agarrou-se ao pensamento para auxiliá-la a manter-se sentada naquela cabine que parecia cada vez menor, com o colo cheio de informações horrorosas. Poderia ajudar a liquidar com ele. Depois recolocaria na gaveta essa pasta ligeiramente pegajosa e nojenta, trancando-a a chave.
Pôs-se a contemplar a nuca de Crawford. Se queria acabar com Buffalo Bil , estava na companhia certa. Crawford havia organizado caçadas bem-sucedidas de três assassinos em série. Mas não sem vitimas entre os caçadores. Wil Graham, o cão de fila mais esperto que jamais correra na matilha de Crawford, era uma legenda na Academia; era agora um beberrão na Flórida e tinha um rosto para o qual era difícil olhar, segundo diziam.
Talvez Crawford sentisse que ela o estava fitando por trás, porque levantou-se da cadeira de co-piloto. O
piloto ajustou o balanceamento do avião quando ele veio para o banco posterior e sentou-se ao lado dela. No momento em que ele dobrou seus óculos de sol e recolocou os bifocais, ela sentiu que de novo o reconhecia.
Quando observou o rosto de Starling e olhou para o relatório, e a seguir de novo para ela, algo se passou por trás da sua face e rapidamente desapareceu. Um rosto mais expansivo que o de Crawford teria denunciado pena dela. — Estou com calor, e você? — perguntou ele. —
Bobby, está um calor danado aqui — disse para o piloto.
Este fez um ajuste qualquer e lufadas de ar fresco penetra-ram na cabina. Alguns flocos de neve se formaram no ar úmido e pousaram no cabelo de Starling.
Então teve início a caçada de Jack Crawford, seus olhos brilhando como um claro dia de inverno.
Ele abriu a pasta num mapa da região central e leste dos Estados Unidos. Os locais onde os corpos haviam sido encontrados estavam marcados no mapa — uns pontos espalhados, tão mudos e irregulares quanto a constelação de Órion.
Crawford tirou uma caneta do bolso e marcou a localização mais recente, seu objetivo.
— O rio Elk, cerca de 10 quilômetros abaixo da U.S. 79 — disse. — Tivemos sorte com este. O corpo foi fisgado por um espinhei, uma linha de pescar atravessada no rio. Eles não acreditam que a vítima esteja na água há muito tempo. Estão levando-a para Potter, a sede do condado. Pretendo saber logo quem ela é, de forma que se possa pesquisar testemunhas do rapto. Mandaremos as
fotos por uma via rápida tão logo as tenhamos. — Crawford abaixou a cabeça para olhar Starling pela parte inferior de seus óculos. — Jimmy Price diz que você sabe tirar as impressões de um cadáver que boiou.
— Na verdade, nunca tive um cadáver flutuante inteiro — observou Starling. — Eu tirava as impressões digitais das mãos que o Sr. Price recebia pelo correio todos os dias. Muitas eram de cadáveres que, de fato, haviam flutuado.
Aqueles que nunca trabalharam sob a supervisão de Jimmy Price acreditam que ele seja um amável grosseirão.
Como a maior parte dos grosseirões, ele é realmente um velho comum. Jimmy Price é um especialista em Impressões Latentes no laboratório de Washington. Starling serviu um tempo com ele como estagiária de Prática Forense.
— Aquele Jimmy — lembrou Crawford afetuosa-mente. — Como é mesmo que chamam àquele serviço. .
— A posição é denominada “tirano do laboratório”, ou algumas pessoas preferem Igor... — é o que está impresso no avental de borracha que lhe dão.
— É isso mesmo.
— Eles lhe dizem para você fingir que está disse-cando uma rã.
— Entendo. .
— Então eles lhe trazem um pacote da UPS. Eles estão todos observando — alguns se apressam de volta do café, todos esperando que você vá vomitar. Posso tirar as impressões de um cadáver flutuando muito bem. De fa-to. . — Bem. Agora olhe para isto. A primeira vitima dele que conhecemos foi achada no rio Blackwater, no Missouri, nos arredores de Lone Jack, no mês de junho
último. A moça, Bimmel, fora dada como desaparecida em Belvedere, Ohio, no dia 15 de abril, dois meses atrás.
Não pudemos dizer muito a respeito — levou-nos mais três meses só para estabelecer a identidade. A seguinte ele pegou em Chicago, na terceira semana de abril. Ela foi encontrada no rio Wabash, na parte central de Lafayette, Indiana, apenas 10 dias depois de raptada, de forma que pudemos apurar o que aconteceu com ela. A seguinte foi uma mulher branca, de vinte e poucos anos, jogada no rio Rolling Fork, próximo à estrada I-65, cerca de 60 quilômetros ao sul de Louisvil e, Kentucky. Nunca foi identificada. E a mulher chamada Varner, agarrada em Evansvil-le, Indiana, e jogada no rio Embarras logo abaixo da interestadual I-70, na parte leste de Il inois.
“Depois ele viajou para o sul e jogou uma no Co-nasauga, abaixo de Damascus, na Georgia, ao sul da interestadual 75, que foi essa pequena Kittridge de Pittsburgh
— aqui está o retrato de formatura dela. A sorte dele é inacreditável-— ninguém jamais o viu atacar uma mulher.
Exceto pelo fato de abandonar os cadáveres perto de uma interestadual, não vemos nenhum outro padrão de comportamento.
— Se você seguir de volta as vias de tráfego mais pesado desde o lugar onde ele jogou os corpos, elas con-vergem de qualquer modo?
— Não.
— Que tal se você.. considerar como um postula-do. . que ele está fazendo um despejo e um novo rapto na mesma viagem? — perguntou Starling evitando cuidadosamente a expressão proibida “fazer a hipótese”. — Ele primeiro se descartaria do corpo — não seria lógico —
para o caso de ter dificuldade em apossar-se da próxima
vitima? Então, se fosse apanhado raptando alguém, ele poderia escapar alegando um atentado ao pudor, e nada confessar se não tivesse um corpo em seu carro. Portanto, que tal traçar vetores para trás de cada ponto de rapto passando pelo lugar anterior de abandono do corpo? Você já tentou isso, não?
— É uma boa idéia, mas ele também a teve. Se ele está fazendo ambas as coisas numa mesma viagem, fica andando em ziguezague. Já programamos simulações no computador, primeiro com ele movimentando-se para oeste nas interestaduais, depois para leste, depois várias combinações com as melhores datas que podemos atribuir aos abandonos de corpos e aos raptos. Você entra com isso no computador e sai uma fumacinha. Ele vive no leste, diz-nos o computador. Ele não segue um ciclo lunar, informa. Datas de convenções nas cidades em causa não têm qualquer correlação. Nada a não ser coisas sem importância. Não, ele já viu que estamos na sua pista, Starling. — Você pensa que ele é por demais cuidadoso para ser um suicida — Crawford concordou com a cabeça:
— Definitivamente, cauteloso demais. Ele descobriu como ter uma relação significativa agora e ele deseja repetir muito. Não estou colocando minhas esperanças num suicida.
Crawford passou ao piloto um copo d’água de uma garrafa térmica. Deu uma para Starling e misturou um Al-ka-Seltzer no seu.
O estômago dela reagiu quando o avião começou a descer. — Há um par de coisas que quero dizer-lhe, Starling. Espero de você uma prática forense de primeira clas-
se, mas necessito mais que isso. Você não fala muito, e é O.K.; eu também não. Mas não creia nunca que precisa ter um novo fato para me contar antes de trazer qualquer assunto pertinente. Não há nenhuma pergunta tola. Você irá ver coisa que eu não vejo e eu quero saber delas. Talvez você tenha jeito para isso. De repente surge uma chance para revelar se você tem esse jeito.
Escutando-o, o estômago aos pulos e a expressão propriamente atenta, Starling cismava desde quando Crawford teria sabido que iria usá-la naquele caso, como desejara que ela ficasse sequiosa por uma oportunidade.
Ele era um líder, tinha a conversa fiada franca e aberta de um líder, ora essa. .
— Você pensa nele o tempo todo, você imagina por onde esteve, você cria um sentimento por ele — continuou Crawford. — Você até que não desgosta dele con-tinuamente, difícil como isso seja de acreditar. Então, se tiver sorte, do meio de tudo o que você acumulou, uma parte pula sobre você, tenta capturar sua atenção. Sempre me diga quando algo pular pedindo sua atenção, Starling.
“Ouça-me: um crime já é uma coisa confusa sem uma investigação para complicá-lo. Não deixe que um monte de policiais a confundam. Viva de acordo com seus olhos, escute a você mesma Mantenha o crime separado do que está acontecendo em torno de si. Não tente impor nenhum padrão ou simetria a esse cara. Mantenha-se re-ceptiva e deixe que ele lhe mostre o caminho.
“Outra coisa: uma investigação como esta é como um zoológico. Espalha-se por uma porção de jurisdições e algumas delas são orientadas por tipos fracassados. Temos que tolerá-los, de modo que eles não escondam nada de nós. Vamos para Potter, West Virgínia. Nada sei sobre
essas pessoas que vamos encontrar. Podem ser boa ou podem pensar que somos cobradores de impostos.
O piloto tirou o fone dos ouvidos e falou, voltando-se para trás — Aproximação final, Jack. Você vai ficar ai atrás?
— Sim — disse Crawford. — Acabou a aula, Starling. .
CAPÍTULO 12
Eis aqui a Casa de Funerais Potter, a maior casa branca de madeira da Rua Potter, em Potter, West Virgínia, que serve como necrotério para o condado de Rankin.
O médico-legista é um clínico chamado Dr. Akin. Se ele decide que uma morte é questionável, o corpo é encaminhado para o Centro Médico Regional de Claxton no condado vizinho, onde eles têm um patologista experiente.
Clarice Starling, viajando do aeroporto para Potter na parte de trás de um carro-patrulha do departamento do xerife, tinha que encostar o rosto na tela que separava o compartimento dos prisioneiros da frente do carro para ouvir o delegado que dirigia o carro explicando tais coisas para Jack Crawford.
Estava para começar um serviço fúnebre na capela mortuária. As pessoas enlutadas, vestidas em suas melhores roupas dominicais, formavam uma fila na calçada entre altos e baixos e acotovelavam-se nos degraus aguardando sua vez de entrar. A casa, pintada de fresco, e os degraus, cada um por seu lado, tinham saído um pouco de prumo.
No estacionamento particular atrás da casa, onde os carros fúnebres esperavam, dois policiais jovens e um mais velho estavam reunidos com dois guardas estaduais debaixo de um olmo desfolhado. O frio não era suficiente para condensar a respiração deles.
Starling observou esses homens quando o carro-patrulha entrou no estacionamento, e imediatamente reconheceu-os. Sabia que provinham de lares que tinham guarda-roupas em vez de closet e sabia muito bem o que havia dentro desses guarda-roupas. Sabia que o policial mais velho crescera com uma bomba d’água na varanda da casa e patinhara pela estrada durante a úmida primavera para apanhar o ônibus escolar com seus sapatos pendurados ao pescoço por cordões, como o pai já fizera. Sabia que haviam levado seus lanches para a escola em sacos de papel com manchas de gordura por serem usados e reusados e que, depois do almoço, eles dobravam os sacos e os enfiavam nos bolsos de trás de seus jeans.
Ela imaginava o quanto Crawford saberia acerca deles. Não havia maçanetas no lado de dentro das portas traseiras do carro-patrulha, descobriu Starling quando o motorista e Crawford desembarcaram e se dirigiram para os fundos da casa funerária. Ela precisou bater no vidro até que um dos policiais debaixo da árvore a viu e o motorista teve que voltar, encabulado, para deixá-la desembarcar. Os policiais olharam-na de soslaio quando passava por eles. Um deles cumprimentou-a, dizendo “Madame...”. Ela os premiou com um aceno de cabeça e um sorriso de proporções corretas quando foi juntar-se a Crawford na varanda atrás da casa.
Depois que ela se afastou bastante, um dos policiais jovens, que era recém-casado, coçou o queixo e disse:
— Ela não parece tão gostosa quanto pensa que é. .
— Bem, se ela pensa que parece uma gostosona, creio que teria de concordar com ela — respondeu o outro policial jovem. Eu seria capaz de fazer um embrulho dela e levá-la para casa..
— Eu preferiria uma grande melancia, se estivesse bem geladinha... — disse o policial mais velho com seus botões. Crawford já estava conversando com o sub-xerife, um homem pequeno, empertigado, de óculos com aros de aço e a espécie de botas com os lados de elástico que os catálogos chamam de “Romeus”.
Ambos haviam se deslocado para o sombrio corredor dos fundos da casa funerária, onde uma máquina de vender Coca-Cola zumbia e onde diversos objetos estranhos se acumulavam de encontro à parede: uma máquina de costura com pedal, um triciclo e um rolo de grama artificial, bem como um toldo de lona listrada embrulhado em volta de seus suportes. Na parede havia uma gravura de cor sépia de Santa Cecília ao piano. O cabelo da santa estava arrumado em tranças em volta da cabeça e rosas caiam em cima do teclado, vindo do ar.
— Agradeço-lhe por haver-nos dado conhecimento tão rápido, xerife — disse Crawford.
O sub-xerife não queria conversa.
— Foi alguém do escritório do promotor público quem chamou vocês — informou ele. — Sei que o xerife não os chamou; o xerife Perkins está fazendo presente-mente uma excursão pelo Havaí com a Sra. Perkins. Falei com ele pelo telefone esta manhã, as oito, ou seja, às três da manhã, hora do Havaí. Ele vai me telefonar de volta mais tarde ainda hoje, mas me disse que o Serviço Número Um é descobrir se esta é uma moça do lugar. Poderia ser alguém que elementos de fora tivessem despejado em nossa jurisdição. Vamos atender a isso antes de fazer qualquer outra coisa. Já aconteceu trazerem corpos para cá vindos de muito longe, de Phoenix City, Alabama.
— Este é um ponto onde podemos ajudá-lo, xerife.
Se.. — Já me comuniquei pelo telefone com o comandante dos serviços de campo da polícia estadual em Char-leston. Ele está mandando alguns homens da Seção de Investigações Criminais, conhecida como SIC. Eles nos darão todo o apoio que necessitarmos. — O corredor estava se enchendo, de subdelegados e policiais fardados; o sub-xerife estava oferecendo uma audiência longa demais.
— Iremos procurá-los tão logo pudermos e corresponde-remos à sua cortesia; trabalharemos em conjunto com vocês de toda forma possível, mas por enquanto. .
— Xerife, essa espécie de crime sexual tem alguns aspectos que eu preferiria discutir somente entre nós, homens, compreende o que quero dizer? — insistiu Crawford, indicando a presença de Starling com um pequeno movimento da cabeça. Empurrou o colega baixinho para dentro de um escritório cheio de móveis que dava para o corredor e fechou a porta. Starling ficou sozinha, tendo que disfarçar seu embaraço aos olhares dos policiais. Com os dentes cerrados, ela olhou para Santa Cecília e retribuiu o etéreo sorriso da imagem ao mesmo tempo em que procurava escutar o que se passava atrás da porta. Pôde ouvir vozes exaltadas, depois uns trechos de conversas telefônicas. Em menos de quatro minutos todos estavam de volta ao corredor.
O sub-xerife tinha os lábios cerrados.
— Oscar, vá em frente e chame o Dr. Akin. Ele tem uma certa obrigação de assistir a esses funerais, mas não creio que já começaram. Diga-lhe que temos Claxton ao telefone.
O legista Dr. Akin veio até o pequeno escritório.
Pôs o pé em cima de uma cadeira e ficou batendo nos dentes com um leque do Bom Pastor, enquanto entretinha breve conversa com o patologista em Claxton. A seguir pareceu concordar com tudo.
A seguir no quarto de embalsamar forrado com papel de parede decorado com rosas e uma moldura de madeira por baixo do teto alto, numa casa de madeira branca de um estilo que lhe era familiar, Clarice Starling teve seu primeiro contato direto com uma obra de Buffalo Bil .
O lustroso saco verde, bem fechado com um zíper, era a única coisa moderna no aposento. Estava em cima de uma antiga mesa com tampo de porcelana, refletida muitas vezes nos painéis de vidro dos armários que guardavam ferramentas de cirurgia e pacotes de fluidos da marca Rock-Hard para encher cavidades.
Crawford foi até o carro pegar o transmissor de impressões datiloscópicas enquanto Starling desembrulha-va seu material na mesa com uma grande pia dupla encostada à parede.
Havia gente demais no quarto. Vários subdelegados, o sub-xerife, todos haviam entrado e não mostravam nenhuma disposição para sair. Estava tudo errado. Por que Crawford não se mexia E se livrava deles?
O papel de parede, que estava meio solto, voltou à sua posição normal quando o doutor acionou o grande, velho e poeirento ventilador, gerando uma corrente de ar.
De pé ao lado da pia, Clarice Starling necessitava agora de um tipo de coragem mais adequado e potente do que num salto de pára quedas dos fuzileiros. Veio-lhe à cabeça uma imagem que a ajudou, mas perturbando-a ao mesmo tempo:
Sua mãe de pé junto a pia, lavando o sangue do ca-pacete do pai; fazia correr água fria por cima dele, dizendo: “Vamos nos arrumar, Clarice. Diga a seus irmãos que se lavem e venham à mesa. Precisamos conversar e depois serviremos o jantar”.
Starling retirou o lenço do pescoço e amarrou-o sobre os cabelos, como uma parteira do interior. Do estojo tirou um par de luvas: cirúrgicas. Quando abriu a boca pela primeira vez em Potter, sua voz tinha mais que um timbre normal, e sua energia levou Crawford até a porta para escutá-la.
— Cavalheiros, cavalheiros! Senhores policiais e cavalheiros. Peço sua atenção, por favor! Agora sou eu quem vai tomar conta dela. — Levantou as duas mãos à frente deles enquanto enfiava as luvas. — Tenho algumas coisas a fazer com ela. Os senhores a trouxeram até aqui, e sei que a família lhes agradeceria por isso. Agora por favor, queiram sair e deixem-me tomar conta dela.
Crawford viu-os subitamente calados, depois falaram respeitosamente entre si, aos sussurros:
— Vamos, Jess. Esperaremos no pátio.
Observou que a atmosfera havia mudado: de onde quer que aquela vítima tivesse vindo, quem quer que fosse, o rio a havia carregado para aquele lugar do interior, e enquanto ela jazia inerte compreenderam que Clarice Starling tinha um relacionamento especial com ela. Crawford viu que naquele lugar Clarice era a herdeira das mulheres idosas, das experientes, das que sabem curar com ervas, das duras velhotas do interior que sempre fazem o que é preciso, velam os defuntos e, quando o velório termina, lavam e vestem os mortos para o enterro.
Logo só restaram Crawford, Starling e o legista, além da vítima. O Dr. Akin e Starling olharam um para o outro com uma espécie de reconhecimento. Ambos estavam estranhamente contentes, ambos estranhamente en-vergonhados.
Crawford tirou uma latinha de Vick VapoRub do bolso e ofereceu aos outros. Starling ficou observando, e quando Crawford e o doutor esfregaram a pasta nas narinas ela os imitou.
Tirou as câmaras fotográficas de dentro da bolsa de equipamento e as pôs na mesa da pia, de costas para o quarto. Atrás dela, ouviu abrir-se o zíper do saco que continha o corpo.
Starling piscou os olhos para as rosas no papel de parede, inspirou profundamente e esvaziou o peito. Voltou-se e olhou o corpo na mesa.
— Deveriam ter protegido as mãos dela com sacos de papel disse. — Agora farei isso quando terminarmos.
Com todo o cuidado, posicionando a máquina automática para enquadrar as exposições, Starling fotografou o corpo.
A vítima, uma mulher jovem de quadris largos, tinha 1,70m de altura segundo mostrava a fita de Starling. A água havia acinzentado as partes em que a pele fora retirada, mas era claro que não estivera mergulhada por mais de alguns dias. O corpo fora esfolado com perícia desde uma linha precisa logo abaixo dos seios e até os joelhos, mais ou menos a área que seria coberta pelos calções e faixa da cintura de um toureiro.
Os seios eram pequenos e entre eles, por sobre o esterno, via-se a causa aparente da morte, uma ferida pro-
funda, com o feitio de uma estrela, e da largura de um palmo. A cabeça redonda estava raspada até o osso, desde acima das sobrancelhas e orelhas até a nuca.
— O Dr. Lecter bem disse que ele iria começar a escalpelar — comentou Starling.
Crawford estava de pé, os braços cruzados, enquanto ela tirava as fotografias.
— Fotografe as orelhas dela com a Polaroid — foi só o que disse.
Limitou-se a franzir o cenho enquanto andava em torno do corpo. Starling tirou uma luva para correr o dedo ao longo da panturrilha da vítima. Um pedaço da linha de pesca e os anzóis tipo garatéia que se haviam enrolado, segurando o corpo no rio em movimento, ainda estavam presos em torno da perna.
— Alguma coisa especial, Starling?
— Bem, vê-se que não é mulher destas redondezas, tem as orelhas perfuradas três vezes e usa esmalte de unhas brilhante. Para mim, é gente da cidade. Tem pêlo nas pernas de mais ou menos duas semanas. E vejam como cresceu macio. Provavelmente usava cera para depilar.
Também nas axilas. Reparem como limpou a penugem do lábio superior. Era cuidadosa consigo mesma, mas finalmente não foi capaz de cuidar-se..
— O que acha da ferida?
— Não sei — disse Starling. — Diria que a saída de uma bala de arma de fogo, mas também parece parte de um anel de abrasão e vê-se a marca do que seria um cano aqui em cima.
— Bom, Starling. É uma ferida de contato com entrada acima do esterno. Os gases da explosão expandem-
se entre o osso e a pele e formam uma estrela em volta do buraco. Do outro lado da parede ouviu-se um órgão de foles quando o serviço fúnebre começou na casa funerária.
— Morte infeliz! — lamentou o Dr. Akin, balançando a cabeça. — Tenho que ir lá fora pelo menos para uma parte do serviço. A família sempre espera que eu a-companhe a última fase. Lamar virá ajudar vocês tão logo termine a oferenda musical. Confio em que vocês preser-varão as provas para o patologista em Claxton, Sr. Crawford. — Ela tem duas unhas quebradas na mão esquerda
— indicou Starling quando o doutor saiu. — Estão quebradas até o sabugo e parece que há sujeiras ou algumas partículas duras acumuladas. Podemos colher amostras?
— Colha amostras do material e umas escamas do esmalte das unhas — pediu Crawford. — Informaremos a eles depois de obter os resultados.
Lamar, o magro assistente da casa funerária com um corado de uísque nas maçãs do rosto, entrou enquanto ela ainda trabalhava
— Você deve ter sido manicure alguma vez na vida
— observou ele.
Ficaram contentes ao ver que a jovem vítima não tinha marca: de unhas nas palmas das mãos uma indicação de que, como as outras, morrera antes que qualquer outra coisa fosse feita com ela.
— Você quer tirar-lhe as impressões estando ela em decúbito ventral? — perguntou Crawford.
— Será mais fácil.
— Vamos primeiro tirar-lhe uma foto dos dentes, depois Lamar pode ajudar-nos a pô-la de barriga para baixo. — Apenas fotos ou um mapeamento? — Starling adaptou o jogo de fotos dentais na frente da câmara de datiloscopia, aliviada ao verificar que todas as peças estavam na bolsa.
— Apenas fotos — preferiu Crawford. — Um mapeamento pode confundir sem os raios X. Com as fotos poderemos eliminar algumas mulheres desaparecidas.
Lamar era muito delicado. Com suas mãos de orga-nista foi abrindo a boca da moça sob a orientação de Starling e arregaçando seus lábios, enquanto a policial colocava a Polaroid 1x1 contra o rosto da mulher para obter os detalhes de seus dentes da frente. Essa parte era fácil, mas ela devia fotografar os molares com um refletor palatal, observando de lado o brilho através da bochecha para ter certeza de que o strobe em volta das lentes estava ilumi-nando o interior da boca. Ela só havia visto fazer aquilo em aulas.
Starling avaliou as primeiras fotos dos molares, ajustou os controles de iluminação e tentou repetir. A foto saiu melhor. Ficou realmente muito boa.
— Ela tem qualquer coisa na garganta — observou Starling.
Crawford olhou para a foto; mostrava um objeto cilíndrico, escuro, logo atrás do véu palatino.
— Dê-me a lanterna elétrica.
— Quando um corpo é retirado da água, muitas vezes aparecem folhas e outras coisas na boca — observou Lamar, olhando ao lado de Crawford.
A policial tirou algumas pinças da sua bolsa. Olhou para Crawford, que estava do outro lado do corpo. Ele assentiu com a cabeça e Starling levou apenas um segundo para retirar o objeto.
— O que é isto, alguma espécie de vagem com se-mentes? — perguntou Crawford.
— Não, senhor, é o casulo de um inseto — informou Lamar.
Starling colocou-o num frasco.
— Você poderia pedir ao agente do condado para examiná-lo — disse Lamar.
De rosto para baixo, tornava-se mais fácil tirar as impressões digitais. Starling estava preparada para o pior, mas nenhum dos cansativos e delicados métodos de injeção ou aplicação de dedeiras seria necessário. Ela tomou as impressões num cartão fino preso a um aparelho com a forma de uma calçadeira. Obteve também um jogo de impressões das plantas dos pés, para o caso de que aparecessem tais impressões fornecidas para comparação por algum hospital-maternidade.
Dois pedaços triangulares de pele faltavam nos ombros. Starling tirou mais fotografias.
— É bom medir também — aconselhou Crawford.
— O bandido cortou a moça de Akron quando lhe rasgou a roupa nas costas, não muito mais que um arranhão, mas conferia com o corte nas costas da blusa quando a encontraram à beira da estrada. Isto, no entanto, é algo novo.
Ainda não tinha visto.
— Parece uma queimadura por trás do calcanhar
— disse Starling.
— Gente velha é que costuma ter sinais assim. . —
ponderou Lamar.
— O quê? — berrou Crawford.
— EU DISSE QUE GENTE VELHA TEM SI-
NAIS ASSIM.
— Ouvi muito bem, mas quero que você explique.
O que é que acontece com gente velha?
— Velhos perdem a consciência enquanto aquecem os pés com uma almofada elétrica por baixo deles, e se morrem ela os queima mesmo não sendo excessivamente quente. As pessoas sofrem queimaduras por uma almofada de aquecimento quando estão mortas Não existe circu-lação embaixo dela.
— Vamos pedir ao patologista em Claxton para testá-la e vê se é post-mortem — disse Crawford a Starling.
— Cano de descarga de um carro é mais provável
— aventou Lamar.
— O quê?
— O CANO DE. . silencioso. Uma vez Billy Petrie foi morto a tiros e fecharam-no na mala do carro. A mulher dele dirigiu o carro dois ou três dias procurando o marido. Quando o trouxeram para cá, estava assim; o silencioso havia esquentado por baixo da mala e queimara-o dessa forma, só que foi na altura dos quadris — contou Lamar. — Eu não posso colocar as compras do mercado na mal do meu carro porque o calor estraga.
— Está aí uma boa observação, Lamar; gostaria que você trabalhasse para mim — aprovou Crawford. — Você conhece os caras que a encontraram no rio?
— Jabbo Franklin e seu irmão, Bubba.
— O que fazem eles?
— Brigam lá no Moose, divertem-se com as pessoas que não estão incomodando. Alguém entra no Moose apenas atrás de um drinque, cansado de olhar para gente
de luto todo dia, e eles dizem “Sente-se ali, Lamar, e toque Filipino Baby.” Fazem uma pessoa tocar Filipino Baby várias vezes naquele maldito velho piano. É disso que Jabbo gosta. “Bem, invente alguns versos se você não os sabe” diz ele, “e desta vez faça a coisa rimar.” Ele recebe um cheque mensal dos Veteranos e vai visitar a Veterans Administration durante o Natal. Estou esperando por ele nesta mesa há quinze anos..
— Precisamos de testes de serotonina dos Anzóis
— observou Crawford. — Estou mandando um recado ao patologista.
— Aqueles anzóis estão muito próximos um do outro — notou Lamar.
— O que é que você disse?
— Os Franklins estavam usando um espinhel com os anzóis próximos demais, o que é proibido. Esta é provavelmente a razão pela qual só telefonaram esta manhã
— O xerife disse que eram caçadores de patos.
— Acredito que lhe tenham dito isto — concordou Lamar. Eles são também capazes de lhe dizer que uma vez lutaram com Duke Keomuka em Honolulu, ou que jogaram no mesmo time de Satélite Monroe. Você pode acreditar nisso, se quiser.
— O que você acha que aconteceu, Lamar?
— Os Franklins estavam usando esse espinhel — o espinhel deles com esses anzóis ilegais — e o recolhiam para ver se tinham algum peixe.
— Por que você acha isso?
— A moça aí não estava nem perto da condição de boiar. — Não.
— Portanto, se não estivessem recolhendo a linha, nunca a teriam encontrado. Provavelmente fugiram assustados, mas acabaram telefonando. Espero que você queira ouvir o guarda-caça sobre isso.
— Espero ouvi-lo — disse Crawford.
— Muitas vezes eles levam um telefone de manivela embaixo do assento do carro, e isso já acarreta uma grande multa — se você não acabar indo para a cadeia.
Crawford levantou as sobrancelhas, sem entender.