O Silêncio dos Inocentes
Thomas Harris
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Uma frente de calor chegara do sul. As janelas estão abertas e o ar da Virgínia é suave e fresco. Rãzinhas pis-cam uma para as outras no escuro.
O quarto está impecavelmente limpo, mas o tapete começa a mostrar pêlos avulsos; Crawford não passa o barulhento aspirador no quarto, usa um limpador de tapetes manual que não é tão eficiente. Anda com passos silenciosos até o armário no corredor e acende a luz. Duas pranchetas estão penduradas no lado interior da porta.
Numa delas, anota a pressão e o pulso da doente. Os números dele e os da enfermeira do dia alternam-se numa coluna que se estende em muitas páginas amarelas, por muitos dias e noites. Na outra prancheta a enfermeira registra a medicação dada a Bel a.
Crawford está habilitado a ministrar qualquer medicação de que a mulher necessite durante a noite. Seguindo as instruções da enfermeira, ele treinara dando injeções num limão e depois nas próprias pernas antes de trazer a mulher para casa.
Crawford fica parado diante dela por uns três minutos, observando seu rosto. Um bonito lenço de moiré de seda cobre-lhe os cabelos como um turbante. Ela insistiu naquela faceirice, enquanto podia insistir. Agora é ele quem insiste em lhe cobrir a cabeça. Crawford umedece os lábios dela com glicerina e remove um argueiro do canto de seu olho com o grosso polegar. Ela não se mexe. E
ainda não é hora de virá-la na cama.
Olhando-se no espelho, assegura que não está doente, que não vai segui-la para baixo da terra, que está bem. Surpreende-se com esse pensamento, que o envergonha.
De volta à sua cadeira, não pode lembrar-se do que estava lendo. Passa a mão pelos livros a seu lado até descobrir um que ainda está morno.
Í
CAPÍTULO 6
Na segunda-feira de manhã, Clarice Starling achou a mensagem de Crawford na caixa do correio: CS:
Prossiga com o carro de Raspail. Nas suas horas de folga.
Meu escritório lhe fornecerá um número de cartão de crédito para chamadas interurbanas. Entre em contato comigo antes de se comunicar com o espólio ou ir a qualquer lugar. Apresente-se quarta-feira às 16:00.
O Diretor recebeu seu relatório sobre Lecter. Você saiu-se muito bem.
JC SAIC/Seção 8
Starling sentiu-se muito contente. Ela sabia que Crawford estava lhe fornecendo apenas um camundongo exausto para praticar dando-lhe uns trambolhões. Mas ele queria ensiná-la, e queria que ela se saísse bem. Para Starling, isso era melhor, de qualquer forma, que cortesias.
Havia oito anos que Raspail morrera. Que provas poderiam restar num carro após todo esse tempo?
Ela sabia, por experiência familiar, que, uma vez que os automóveis se depreciam tão rapidamente, uma corte de apelação permitiria que o carro fosse vendido antes da decisão sobre a herança, sendo o dinheiro incor-porado ao espólio. Parecia-lhe improvável que mesmo um inventário tão confuso e disputado como o de Raspail fosse manter um carro por todo esse período.
Havia também o problema da sua disponibilidade de tempo. Contando a hora de almoço, Starling tinha 75
minutos livres por dia para usar o telefone durante as horas de expediente. Tinha que reportar-se a Crawford na quarta-feira à tarde. Assim, dispunha de um total de 3 horas e 45 minutos para seguir a pista do carro, dividido durante três dias, se usasse seus períodos de estudo e os compensasse estudando à noite.
Alcançara boas notas em suas aulas de Procedimentos de Investigação e tivera a oportunidade de apresentar perguntas de caráter geral a seus instrutores.
Durante a hora do almoço de segunda-feira, o pessoal do Tribunal de Justiça do condado de Baltimore mandara Starling esperar ao telefone e se esquecera dela por três vezes. No seu período de estudo, conseguiu falar com um amável funcionário do tribunal, que procurou no arquivo os autos do julgamento sobre o espólio de Raspail.
O funcionário confirmou que houvera permissão para vender um carro e deu a Starling a marca e o número de série, bem como o nome do proprietário seguinte, anotado à transferência do titulo.
Na terça-feira ela perdeu a metade da sua hora de almoço tentando descobrir o dono daquele nome. Custou-lhe o resto de seu período de almoço descobrir que o Departamento de Veículos Automotores de Maryland não estava preparado para localizar um veiculo pelo número de série; só podia fazê-lo pelo número de registro ou da placa em uso.
Na terça-feira à tarde uma pesada chuva obrigou os estagiários a abandonarem o estande de tiro. Numa sala de conferências cheia de vapor de roupas molhadas e suor, John Brigham, ex-fuzileiro e instrutor de armas de fogo, decidiu testar a firmeza das mãos de Starling diante da
classe, apurando quantas vezes ela podia acionar o gatilho de um Smith & Wesson em 60 segundos.
Conseguiu 78 com a mão esquerda, soprou uma mecha de cabelo que lhe caíra sobre os olhos e começou de novo com a mão direita enquanto um outro estudante contava. Ela estava na posição weaver, com as pernas bem escoradas, o visor da frente da arma bem em foco, o de trás e o alvo improvisado propositadamente fora de foco.
No meio do seu minuto ela deixou a mente divagar para aliviar a tensão provocada pela rigidez da postura. O alvo na parede entrou em foco. Era um certificado de reconhecimento da Divisão de Observância da Lei Interestadual dirigido a seu instrutor, John Brigham.
Ela questionou Brigham com o canto da boca enquanto o outro estudante contava os estalidos da arma.
— Como é que você descobre o número de registro de um carro. .
— ...65... 66... 67... 68... 69. .
— ...dispondo apenas do número da série. .
— ...78... 79... 80... 81. .
— E da marca? Você não tem o número da chapa.
— ...89... 90. Tempo esgotado.
— O.K., minha gente — disse o instrutor. — Gostaria que vocês tomassem nota disso. A força da mão é um importante fator para a firmeza do tiro de combate.
Alguns dos senhores cavalheiros estão preocupados que eu os chame logo a seguir. . Essa preocupação é justifica-da: Starling está muito acima da média com as duas mãos.
Isto acontece porque ela é dedicada. Ela pratica apertando coisas elásticas às quais todo mundo tem acesso. A maior parte de vocês não está acostumada a apertar qualquer coisa mais dura do que.. — sempre vigilante contra sua terminologia de quartel dos fuzileiros, esforçou-se para encontrar um símile mais polido — ... as espinhas em seus rostos — disse, afinal. — Falando sério, Starling, você também ainda não está bastante boa. Quero ver essa mão esquerda acima de 90 antes da sua formatura. Formem pares e façam as contagens uns para os outros — chop!
chop! Voltou-se para Clarice:
— Menos você, Starling; venha cá. O que mais vo-cê tem sobre o carro?
— Apenas o número de série de fabricação e a marca, só isso. E um antigo proprietário, há cinco anos.
— Pois bem, escute aqui. Onde a maior parte das pessoas se fo... se atrapalham é quando tentam pular através dos registros de um proprietário para o seguinte. Você se confunde entre os estados. Quero dizer: até os policiais às vezes fazem isso. E registro e número de placa é tudo o que o computador tem. Estamos todos acostumados a usar os números da placa ou o número do registro, não o número de série do veiculo.
O barulho dos gatilhos dos revólveres com cabo azul de exercício invadia toda a sala e ele tinha que falar próximo ao ouvido dela.
— Há uma maneira, bem fácil. R. L. Polk & Cia., que publica guias de cidades, publica também uma lista do registro corrente de carros por marca e por números de série de fabricação consecutivos. É o único lugar onde você encontra isso. Os negociantes de carros usados ori-entam seus anúncios por essa lista. Por que você decidiu perguntar a mim?
— Você trabalhou na divisão de carros roubados e imaginei que tinha seguido a pista de muitos veículos. Obrigada.
— Tem que me pagar: treine essa sua esquerda até onde ela pode ir e vamos envergonhar alguns desses caras de mãozinhas delicadas. De volta à cabine telefônica durante o período de estudo, as mãos dela tremiam, de modo que suas notas eram quase ilegíveis. O carro de Raspail era um Ford. Havia um representante Ford próximo à Universidade de Virgínia que durante anos fizera pacientemente o que podia com seu Ford Pinto. Agora, com a mesma paciência, o vendedor correu os olhos pela lista Polk para ela. Voltou ao telefone com o nome e o endereço da pessoa que pela última vez registrara o carro de Benjamin Raspail.
Clarice está na pista, Clarice está no controle. Deixe de ser tola e telefone para o homem. Vejamos: Número 9
Ditch, Arkansas. Jack Crawford nunca me deixará ir até lá, mas pelo menos poderei confirmar a quem fizer a viagem.
Sem resposta, e de novo sem resposta. A campainha soava estranha e muito afastada, um ruído como se fosse uma linha partilhada por dois assinantes. Tentou à noite e continuou sem resposta.
No período de almoço de quarta-feira, um homem respondeu ao chamado de Starling.
— WPOQ Toca Músicas Antigas.
— Alô, estou telefonando para. .
— Não estou interessado em revestimentos laterais de alumínio e não quero viver em nenhum acampamento de reboque na Flórida. O que mais você tem para me oferecer?
Starling percebia muito bem o sotaque das montanhas de Arkansas na voz do homem. Ela podia imitar aquele sotaque quando desejava e não tinha tempo a perder. — Sim, senhor, se o senhor puder ajudar-me eu lhe agradeço muito. Estou tentando descobrir o Sr. Lomax Bardwell. Meu nome é Clarice Starling.
— É uma pessoa chamada qualquer coisa Starling...
— gritou ele para dentro de casa. — O que a senhora deseja com Bardwell?
— Aqui é o escritório regional do Centro-Sul da Divisão de Reparações da Ford. Ele tem direito a um serviço de garantia gratuito em seu LTD.
— Eu sou Bardwell. Pensava que você estivesse tentando me vender qualquer coisa com aquela sua chamada interurbana. Agora é muito tarde para quaisquer reparações, preciso de uma reposição total. Eu e a patroa estávamos em Little Rock, saindo do South land Mal , está ouvindo?
— Sim, senhor.
— E aquela maldita haste do pistão furou o fundo do cárter e o óleo espalhou-se por toda parte e aquele caminhão Orkin que tem uma enorme carroceria, conhece?
Derrapou em cima do óleo e atravessou na pista.
— Que barbaridade!...
— Bateu na cabine da Fotomat, arrancou-a da fun-dação e quebrou-lhe os vidros. O camarada da Fotomat saiu de dentro da cabine meio tonto. Tivemos que impedi-lo de ir para o meio da estrada.
— Que coisa, hein? E o que aconteceu com ele depois? — O que aconteceu com quem?
— Com o carro.
— Eu disse a Buddy Sipper no ferro-velho que ele podia fica: com o carro por 50 paus se viesse buscá-lo. E
acho que ele o desmontou.
— O senhor poderia me dizer qual é o número do telefone dele, Sr. Bardwell?
— O que quer você com o Sipper? Se alguém tivesse que receber alguma compensação, ia ser eu.
— Compreendo, senhor. Eu apenas faço o que eles me mandam até às cinco horas, e eles me disseram para encontrar o carro. O senhor tem o número do telefone, por favor?
— Não sei onde está meu caderno de telefones.
Desapareceu há uma porção de tempo. Você sabe como são os netos.. A Central deve ser capaz de informá-la: o nome é Sipper Salvage.
— Muito obrigada, Sr. Bardwel .
O ferro-velho confirmou que tinha desmontado o carro para aproveitar peças, e a carcaça fora enviada a uma prensa para reciclagem como sucata. O encarregado deu a Starling o número de série do veiculo que constava de seu arquivo.
“Que grande bosta! — pensou Starling em voz alta, ainda com um pouco do sotaque de Arkansas. Era o fim da picada. Que belo presente!
Starling reclinou a cabeça de encontro à fria caixa do aparelho telefônico dentro da cabine. Ardelia Mapp, segurando os livros contra o quadril, deu uma batida na porta e passou-lhe uma garrafa de Crush.
— Muito obrigada, Ardelia. Tenho que fazer mais uma chama da. Se eu a terminar a tempo, me encontro com você na cafeteria. O.K.
— Eu estava tão esperançosa de que você perdesse esse horroroso sotaque — disse Mapp. — Existem livros que podem ajudá-la. Eu não uso mais o colorido patuá da vizinhança de onde nasci. Continue falando com esse sotaque de matuto do interior e as pessoas vão dizer que você é igual àqueles patetas, pequena. . — Mapp fechou a porta da cabine.
Starling sentia que precisava tentar extrair mais informações de Lecter. Se ela já houvesse marcado um encontro, talvez Crawford a deixasse voltar ao manicômio.
Discou o número do Dr. Chilton, mas não conseguiu passar da secretária dele.
— O Dr. Chilton está com o médico-legista e com o assistente ao promotor público — disse a mulher. —
Ele já conversou com seu supervisor e nada tem para dizer a você. Até logo.
CAPÍTULO 7
— Seu amigo Miggs morreu — disse Crawford. —
Você me contou tudo, Starling? — O rosto cansado de Crawford era tão sensível a sinais quanto uma esfinge e totalmente isento de compaixão.
— Como? — perguntou ela, e teve que ouvi-lo.
— Conseguiu engolir sua língua um pouco antes do amanhecer. Lecter foi quem sugeriu isso a ele, presume Chilton. O guarda da noite ouviu-o falando em voz baixa com Miggs. Lecter sabia muita coisa sobre Miggs. Falou com ele durante algum tempo, mas o guarda noturno não conseguiu ouvir o que Lecter disse. Miggs chorou durante algum tempo, depois parou. Você me contou tudo, Starling? — Entre o relatório e meu memorando expus tudo, quase palavra por palavra.
— Chilton telefonou para queixar-se de você.. —
Crawford esperou um pouco e pareceu satisfeito quando ela nada comentou. — Eu disse que julguei seu comportamento satisfatório. Chilton está tentando impedir uma investigação sobre direitos civis.
— Vai haver uma?
— Certamente, se a família de Miggs desejar. A Divisão de Direitos Civis vai provavelmente completar oito mil neste ano. Ficarão satisfeitos de incluir Miggs na lista.
— Crawford estudou-a com atenção. — Você está bem?
— Não sei como devo me sentir acerca disso.
— Você não tem que se sentir de nenhuma maneira particular sobre isso. Lecter fê-lo para se divertir. Ele sabe que realmente não podem imputá-lo, então.. por que não?
Chilton priva-o de seus livros e de seu assento no vaso sanitário por algum tempo, e é tudo. Ele talvez não ganhe mais o pudim de gelatina... — Crawford entrelaçou os dedos por cima do estômago e ficou comparando os polegares. — Lecter perguntou-lhe a meu respeito, não foi?
— Perguntou se você estava ocupado. Eu disse que sim. — Só isso? Você não deixou fora do relatório nada pessoal, que pudesse me desagradar?
— Não. Ele disse que você era um estóico, mas is-so eu incluí.
— Sim, você o fez. Mais nada?
— Bem, creio que não deixei nada de fora. Você não está pensando que eu prometi a ele alguma fofoca, e que só por isso ele falou comigo?
— Não.
— Não sei nada de pessoal a seu respeito, e se soubesse, não iria comentar. Se você tem alguma dificuldade em acreditar nisso, vamos pôr tudo em pratos limpos agora mesmo.
— Estou satisfeito. Passemos a outro assunto.
— Você pensou em algo, ou. .
— Passe para outro assunto, Starling.
— A dica de Lecter sobre o carro de Raspail é um beco sem saída. O carro foi prensado num cubo há quatro meses no ferro velho. Número 9 Ditch, em Arkansas, e vendido para reciclagem. Talvez, se eu voltar ao manicômio e falar com Lecter, ele me diga mais alguma coisa.
— Você esgotou a pista?
— Sim.
— O que a leva a pensar que o carro que Raspail dirigia era seu único carro?
— Era o único registrado, ele era solteiro, eu saquei a hipótese..
— Ah, ah! Pare por aí. — O dedo de Crawford apontou para algum princípio invisível no ar entre eles. —
Você sacou a hipótese.. Você sacou a hipótese, Starling.
Olhe aqui. — Crawford escreveu hipótese num bloco de anotações legais. Vários dos instrutores de Starling tinham absorvido esse hábito de Crawford e usavam-no, mas Starling não revelou que o havia visto antes.
Crawford começou a sublinhar.
— Se você saca a hipótese quando eu a mando numa missão, Starling, pode fazer tanto você como eu parecermos umas bestas. — Ele recostou-se na cadeira, satisfeito. — Raspail colecionava carros, sabia disso?
— Não, os herdeiros dele ainda os têm?
— Não sei. Você acha que poderia dar um jeito de descobrir isso?
— Sim, posso.
— Você começaria por onde?
— Pelo executor testamentário.
— Um advogado em Baltimore, um chinês, se bem recordo indicou Crawford.
— Everett Yow — disse Starling. — Ele está na lista telefônica de Baltimore.
— Você já pensou na questão de um mandado para inspecionar o carro de Raspail?
Às vezes o tom de Crawford lembrava a Starling a lagarta que sabia tudo no livro de Lewis Carroll. Starling não ousou retrucar com muita ênfase.
— Uma vez que Raspail está morto e não é suspeito de nada, se tivermos permissão do seu executor para examinar o carro, o exame será válido e seus frutos admis-
síveis em outros assuntos legais — disse ela, como reci-tando. — Precisamente — disse Crawford. — Eis o que farei: telefono ao nosso escritório de Baltimore avisando que você vai para lá. Sábado, Starling, no seu tempo de folga. Vá avaliar os frutos, se houver alguns.
Crawford fez um esforço para não acompanhá-la com o olhar quando ela saiu. Da sua cesta de papéis usados tirou com as pontas dos dedos um pequeno maço de papéis de notas cor de malva. Alisou um deles sobre a me-sa. Era sobre sua esposa e dizia, numa caligrafia caprichosa:
Lamento muito acerca de Bella, Jack.
Hannibal Lecter
CAPÍTULO 8
Everett Yow dirigia um Buick preto com um adesivo da Universidade De Paul no vidro da janela traseira. O
peso dele dava ao Buick uma ligeira inclinação para a esquerda quando Clarice Starling o seguia na chuva para fo-ra de Baltimore. Escurecia; o dia de Starling como investigadora estava quase terminado e ela não tinha outro para substituí-lo. Lutava com sua impaciência, batendo no volante na mesma cadência dos limpadores de pára-brisas. O
tráfego se arrastava ao longo da Estrada 301.
Yow era inteligente, gordo, e tinha um problema respiratório. Starling avaliou sua idade em uns 60 anos.
Até agora ele fora compreensivo. O dia perdido não era culpa dele; voltando muito tarde de uma viagem de negócios a Chicago, o advogado de Baltimore viera diretamente do aeroporto para seu escritório a fim de encontrar Starling.
O Packard clássico de Raspail já estava num depósito muito tempo antes da sua morte, explicou Yow. Nunca tivera licença e nunca fora dirigido. Yow vira-o uma vez, coberto e bem guardado, a fim de confirmar sua existência para o inventário dos bens que fizera logo após o assassinato de seu cliente. Se a investigadora Starling concordas-se em “revelar imediata e francamente” qualquer descoberta que pudesse ser prejudicial ao interesse de seu falecido cliente, ele lhe mostraria o automóvel, prometeu. O
mandado e o trabalho que isso implicava seriam dispensá-veis. Starling estava desfrutando do uso por um dia de um Plymouth da garagem do FBI, equipado com telefone,
e tinha um novo cartão de identidade que lhe fora dado por Crawford. Dizia simples mente INVESTIGADOR
FEDERAL e expirava dentro de uma semana ela observou. O destino deles era a Split City Mini-Storage, que ficava cerca de seis quilômetros fora dos limites da cidade.
Dirigindo vagarosamente, por causa do tráfego, Starling usou o telefone para descobrir o que pudesse sobre o depósito Split City. Quando avistou o alto cartaz cor de laranja, SPLIT CITY MINI-STORAGE — VOCÊ FICA COM A CHAVE, já conhecia alguns fatos.
Split City tinha uma licença como transportadora de cargas de Comissão Interestadual do Comércio, em nome de Bernard Gary Um grand jury federal quase havia processado Gary por transporte interestadual de mercadorias roubadas há uns três anos e sua licença estava sendo investigada para renovação.
Yow fez a volta por baixo do cartaz e mostrou suas chaves um jovem sardento uniformizado que estava no portão. O porteiro tomou nota das placas de seus carros, abriu o portão e sinalizou lhes para entrarem, com certa impaciência, como se tivesse coisas mais importantes a fazer. Split City era um lugar descampado, varrido pelo vento. Como o chamado “vôo do divórcio” dos domingos do La Guardia para Juárez, é uma indústria de serviço para o insensato movimento browniano da nossa população: a maior parte do seu negócio consistia em armazenar os variados bens móveis que sobram de divórcios. Suas unidades estão abarrotadas de jogos de salas de estar, conjuntos de copa, colchões manchados, brinquedos e fotografias de coisas que não deram certo. É crença muito es-
palhada entre os policiais do xerife do condado de Baltimore que Split City também esconde boa e valiosas mercadorias das cortes de falência.
Parece uma instalação militar: 12 hectares de compridos edifícios divididos por paredes corta-fogo em unidades do tamanho do uma espaçosa garagem para um só carro, cada uma delas com sua porta de enrolar. Os alu-guéis são razoáveis e algumas das mercadorias estão ali há anos. A segurança é boa. O lugar é envolvido por uma dupla cerca alta, à prova de tufões, e cães patrulham entre a cercas 24 horas por aia.
Um palmo de folhas murchas, misturadas com copos de papel e lixo miúdo, havia-se acumulado de encontro à parte de baixo da porta da unidade do depósito de Raspail, de número 31. Um grande cadeado trancava cada um dos lados da porta. O ferrolho do lado esquerdo exi-bia também um selo. Everett Yow curvou-se cor dificuldade sobre o selo. Starling segurava o guarda-chuva e uma lanterna elétrica devido ao início das sombras do cair da noite. — Não parece ter sido aberto desde que estive aqui há cinco anos — afirmou ele. — Pode ver a impressão do meu selo de tabelião aqui no plástico. Não fazia a menor idéia, na ocasião, de que os parentes iam brigar tanto, arrastando a solução do inventário por tão longos anos.
Yow segurou o guarda-chuva e a lanterna enquanto Starling tirava uma foto do ferrolho e do selo.
— O Sr. Raspail tinha um estúdio-escritório na cidade; eu o fechei para evitar que o espólio tivesse que pagar aluguel — disse ele. — Trouxe os móveis para cá e os depositei junto com o carro de Raspail e outras coisas que
já se encontravam aqui. Trouxemos ainda um piano, livros, partituras, e uma cama, creio eu.
Yow experimentou uma chave.
— Os cadeados podem estar enferrujados. Este, pelo menos, está muito duro. — Era difícil, para ele, en-curvar-se e respirar ao mesmo tempo. Quando tentou ficar de cócoras, seus joelhos estalaram.
Starling ficou satisfeita de ver que os cadeados eram de padrão americano, grandes e cromados. Pareciam muito seguros, mas ela sabia que podia estourar os cilindros de latão facilmente usando uma chave de fenda e um martelo com unha — seu pai lhe havia mostrado como os arrombadores faziam isso quando ela ainda era criança. O
problema imediato seria encontrar o martelo e a chave de fenda; ela não tinha nem o benefício da variedade de ferramentas velhas que guardava no seu carro.
Procurou na bolsa e encontrou o spray lubrificante que usava nas fechaduras das portas do Ford.
— Quer descansar um pouco no seu carro, Sr.
Yow? Por que não se aquece uns poucos minutos enquanto faço uma tentativa? Leve o guarda-chuva; o que temos agora é só uma garoa.
Starling encostou o Plymouth do FBI perto da porta a fim de aproveitar a luz de seus faróis. Tirou a vareta de sonda do óleo e deixou cair umas gotas no orifício da chave; depois usou o spray lubrificante para afinar o óleo.
Do seu carro, o Sr. Yow sorriu e aprovou com a cabeça.
Starling estava satisfeita porque Yow era um homem inteligente; ela podia cumprir sua tarefa sem incomodá-lo.
Acabara de escurecer. Starling sentia-se exposta sob o brilho dos faróis do Plymouth, e a correia do ventilador chiava no seu ouvido com o motor em marcha lenta. Ela
trancara o carro com o motor funcionando. O Sr. Yow parecia inofensivo, mas não via razão para arriscar-se a ser esmagada de encontro à porta.
O cadeado pulou como uma rã na sua mão e ali ficou aberto, pesado e cheio de óleo. O outro, depois de oleado, foi mais fácil. A porta não queria subir. Starling fez força, segurando a alça até que começou a ver pontinhos luminosos diante dos olhos. Yow veio auxiliar mas, entre a pequena e adequada alça e a abertura da porta pouca força acrescentou.
— Podemos voltar na semana que vem, com meu filho ou com um ajudante — sugeriu o Sr. Yow. — Eu gostaria muito de ir par casa cedo.
Starling não estava de forma alguma segura de que voltaria àquele lugar; seria muito mais simples para Crawford pegar o telefone e pedir que o escritório de Baltimore cuidasse do caso.
— Sr. Yow, serei rápida. O senhor tem um macaco no se carro?
O macaco escorado debaixo da alça, Starling usou o próprio peso sobre a chave de roda que servia como alavanca para o macaco. A porta rangeu horrivelmente e subiu uns dois centímetros. Parecia estar se dobrando no centro. Subiu outros dois centímetros depois mais dois, até que ela pôde enfiar o pneu sobressalente por baixo, a fim de segurá-la, enquanto transferia o macaco dela e o do Sr. Yow para os lados da porta, colocando-os por baixo da parte inferior, perto dos trilhos onde a porta corria.
Acionando os macacos alternadamente, de um lado e de outro, levantou a porta, pouco a pouco, até um meio metro; ali ela emperrou definitivamente e todo o seu peso sobre as alavancas dos macacos não adiantava mais.
O Sr. Yow veio espiar por baixo da porta. Ele só podia curvar se por pouco tempo de cada vez.
— Sinto um cheiro de rato — disse. — Me garanti-ram que haviam posto veneno contra ratos aí dentro. Acredito que isso está previsto no contrato. Ratos são quase desconhecidos por aqui, eles me afirmaram. Mas posso até ouvi-los, você não pode?
— Posso — afirmou Starling. Com sua lanterna elétrica ela pôde ver caixas de papelão e um grande pneu com larga faixa branca debaixo de uma coberta de pano.
O pneu estava arriado.
Ela recuou o Plymouth até que parte da luz dos faróis iluminou embaixo da porta, e retirou do carro um dos tapetes de borracha.
— Você vai entrar ali, policial Starling?
— Tenho que dar uma olhada, Sr. Yow.
— Posso sugerir — aventou ele, sacando do bolso um lenço — que você amarre as pernas de suas calças bem apertadas em volta dos tornozelos para evitar a invasão de camundongos?
— Obrigada, senhor, eis uma idéia muito boa. Se a porta arriar, ah, ah!, ou acontecer qualquer outra coisa, o senhor poderia fazer o favor de chamar este número? É
do nosso escritório regional de Baltimore. Eles sabem que estou com o senhor neste momento e ficarão alarmados se não tiverem notícias minhas dentro de algum tempo.
Está entendendo?
— Sim, naturalmente. Eu o farei, sem dúvida alguma. — Entregou a ela a chave do Packard.
Starling pôs o tapete de borracha no chão molhado em frente da porta e deitou-se nele, sua mão segurando um pacote de sacos plásticos de provas sobre as lentes da
câmara e as pernas das calças fortemente apertadas com o lenço de Yow e o dela mesma. Um borrifo de chuva caiu no seu rosto e o cheiro de ratos e mofo invadiu com força as suas narinas. Absurdamente, o que ocorreu a Starling foi uma frase em latim.
Escrita no quadro-negro pelo seu instrutor de práticas forenses no seu primeiro dia de treinamento, era o lema dos médicos romanos: Primum non nocere. Em primeiro lugar não causar danos.
Ele não disse isso numa porra de uma garagem cheia de camundongos.
E subitamente, ouviu a voz do pai, falando a ela com a mão pousada no ombro de seu irmão:
— Se você não pode brincar sem chorar, vá para casa, Clarice.
Starling abotoou a gola da sua blusa, levantou os ombros em torno do pescoço e deslizou sob a porta.
Agora estava embaixo da traseira do Packard. O
carro fora estacionado no lado esquerdo do depósito, quase encostado na parede. Havia caixas de papelão empilhadas à direita, enchendo o vazio ao lado do carro. Starling arrastou-se de costas até que sua cabeça ficou fora daquele exíguo espaço. Iluminou com sua lanterna a parede vertical formada pelas caixas. Muitas aranhas haviam tecido as teias cruzando o estreito vão. Na maioria eram da espécie que fazem teias redondas para caçar insetos, cujos restos secos apareciam solidamente presos.
Bem, uma aranha caranguejeira é a única espécie com que eu me preocuparia, e elas não fazem teias ao ar livre, pensou Starling consigo mesma. O resto não causa lá muito dano.
Havia espaço para ficar de pé junto ao pára-choque traseiro. Ela continuou se arrastando até sair debaixo do carro, o rosto muito perto do pneu com larga faixa branca.
Estava todo pintalgado de bolor e ela pôde ler nele as palavras GOODYEAR DOUBLE EAGLE. Tomando cuidado com a cabeça, pôs-se de pé no reduzido espaço, a mão na frente do rosto para afastar as teias de aranha.
Não era assim que a gente se sentia quando usava um véu?
Do lado de fora ouviu a voz do Sr. Yow:
— Tudo bem, Srta. Starling?
— Tudo bem — confirmou. Ao som da sua voz houve ligeiras corridinhas e algo dentro do piano correu sobre algumas notas altas. As luzes do carro do lado de fora lhe iluminavam as pernas até o meio da canela.
— Vejo que encontrou o piano, policial Starling —
comentou o Sr. Yow.
— Bem, mas não fui eu...
— Oh!
O carro era grande, alto e comprido. Uma limusine Packarc 1938, de acordo com o inventário de Yow. Estava coberto com um tapete, seu lado peludo para baixo. Starling jogou o feixe de luz da lanterna sobre ele.
— O senhor cobriu o carro com esse tapete, Sr.
Yow? — Assim o encontrei, e nunca o descobri — disse Yow por baixo da porta. — Não posso lidar com um tapete poeirento. Era assim que Raspail o mantinha. Apenas me certifiquei de que o carro estava aí. Os homens que fizeram a mudança colocaram o piano de encontro à parede, empilharam mais caixas ao lado do carro, e foram embora. Eu os estava pagando por hora. A maioria das caixas contém livros e partituras.
O tapete era grosso e pesado, e quando ela o puxou, a poeira apareceu no feixe de luz da sua lanterna. Ela espirrou duas vezes, Ficando na ponta dos pés conseguiu dobrar o tapete ao meio no topo do carro antigo e alto. As cortinas das janelas traseiras estavam abaixadas e a maçaneta da porta coberta de poeira. Ela teve que se debruçar sobre as caixas de papelão para alcançá-la. Tocando apenas na ponta da maçaneta, tentou acioná-la. Estava trancada. Não havia orifício para chave na porta traseira. Teria que deslocar uma porção de caixas para chegar à porta dianteira e não havia quase nenhum espaço para mudá-las de lugar. Ela pôde perceber uma pequena fresta entre a cortina e a coluna da porta traseira.
Starling inclinou-se por cima das caixas, encostou um olho no vidro e iluminou o interior com a lanterna. A única coisa que podia ver era seu reflexo, até cobrir a luz com a mão. Um raio luminoso, difundindo-se pelo vidro empoeirado, deslocou-se sobre o banco. Sobre o banco havia um álbum aberto. O colorido era pobre com a fraca iluminação, mas ela pôde ver cartões do Dia dos Namorados colados em suas páginas. Cartões antigos, rendados, em relevo sobre uma página.
— Muito, muito obrigada, Dr. Lecter. — Quando ela falou, sua respiração agitou a camada de poeira na base da janela e escureceu o vidro. Não se animou a limpá-lo e esperou que a poeira assentasse. A luz movimentou-se sobre um xale de cobrir os joelhos amarrotado no chão do carro e a rápida visão de um par de sapatos de verniz usados com traje a rigor. Sobre os sapatos, meias pretas, e, acima das meias, calças de smoking com pernas dentro delas.
Ninguém entrou por esta porta nos últimos cinco anos — calma, calma, não se afobe, moça..
— Hei, Sr. Yow! Por favor, Sr. Yow!
— Diga, policial Starling!
— Sr. Yow, parece que alguém está sentado neste carro. — Oh, não! Acho melhor que saia já daí, Srta. Starling. — Ainda não, Sr. Yow. Apenas espere-me aí, faça o favor. Agora é quando é importante pensar. Agora é mais importante do que toda a merda que você fica conversando com seu travesseiro para o resto de sua vida. Engula e faça isso direito. Eu não desejo destruir provas. Eu preciso de alguma ajuda. Mas principalmente não quero gritar por socorro. Se eu acionar o escritório de Baltimore e os policiais daqui por algo inexistente, estou liquidada. Estou vendo uma coisa parecida com pernas. O Sr. Yow não meteria trazido aqui se soubesse que havia um “presunto”
no carro. Conseguiu sorrir para si mesma. “Presunto” era uma bravata. Ninguém esteve aqui depois da última visita de Yow. Muito bem. Isto significa que todas as caixas foram introduzidas depois do que quer que seja aquilo no carro. E significa ainda que posso movimentar as caixas sem perder nada de importante.
— Tudo certo, Sr. Yow.
— Bem. Afinal, temos que chamar a polícia ou vo-cê será o bastante, policial Starling?
— Preciso destrinchar isso. Queira esperar um pouco, por favor.
O problema das caixas era enlouquecedor como a brincadeira dos cubos de Rubik. Ela tentou trabalhar com
a lanterna embaixo do braço, deixou-a cair duas vezes e finalmente ajeitou-a em cima do carro. Teve que colocar algumas caixas atrás dela, e as caixas menores, de livros, empurrou para baixo do carro. Sentiu uma espécie de mordida ou picada de farpa na ponta do polegar.
Agora podia ver o assento do chofer, pelo vidro empoeirado da janela fronteira no lado do passageiro.
Uma aranha tecera sua rede entre o volante e a alavanca das marchas. A divisão entre o compartimento da frente e o de trás estava fechada.
Gostaria de ter pensado em passar óleo na chave do Packard antes de se infiltrar por baixo da porta, mas quando enfiou a chave na fechadura, esta funcionou.
O espaço não permitia abrir mais que um terço da porta na apertada passagem. A porta abriu-se de encontro às caixas com barulho que espantou os camundongos e fez soar mais algumas nota no piano. Um cheiro de po-dridão e produtos químicos vinha do carro; o cheiro levou sua memória para outro local, mas ela não identificou qual era. Inclinou-se para o lado de dentro, abriu a separação atrás do assento do chofer e iluminou com sua lanterna.
Uma camisa de traje a rigor com botões foi a coisa brilhante que a luz encontrou primeiro. Subiu então rapidamente da camisa para o rosto, mas não viu rosto nenhum.
Passou de novo a luz sobre os brilhantes botões da camisa e as lapelas de cetim até uma braguilha com zíper aberto Voltou para cima até a perfeita gravata-borboleta e o colarinho, de onde saia o vulto claro do pescoço de um manequim. Acima do pescoço, entretanto, havia alguma coisa que refletia pouca luz, um pano, um capuz preto onde
deveria estar à cabeça, grande como se cobrisse uma gaiola de papagaio.
Aveludado, pensou Starling. Estava em cima de uma prateleira que se estendia sobre o pescoço do manequim e se apoiava na parte traseira do carro, atrás dos bancos. Ela tirou diversas fotos do assento da frente, fo-cando com flash e fechando os olhos ao estouro da lâmpada strobe. A segui esticou-se do lado de fora do carro.
De pé no escuro, molhada, coberta de teias de aranha, ficou pensando no que devia fazer.
O que não iria fazer era convocar o agente especial do escritório regional de Baltimore para olhar um manequim com a braguilha aberta e um álbum de presentes.
Tão logo decidiu entrar no banco de trás e tirar o capuz daquela coisa, resolveu que faria isso sem pensar muito no que iria encontrar. Meteu a mão pelo compartimento do chofer, destravou a porta traseira e re-arrumou algumas caixas para poder abri-la. Tudo pareceu-lhe levar muito tempo. O cheiro do compartimento de trás tornou-se mais forte quando ela abriu a porta. Meteu a mão dentro do carro e, levantando cuidadosamente o álbum de presentes segurando-o pelos cantos, colocou-o num saco de provas no topo do carro. Esticou outro saco aberto no assento.
As molas do carro gemeram quando ela entrou e o vulto mexeu se um pouco assim que ela se sentou a seu lado. A mão direita com a luva branca escorregou de cima da coxa e pousou sobre o assento Ela tocou a luva com um dedo. A mão, no lado de dentro, era dura. Com cuidado, puxou a luva para baixo do pulso, que era de algum material sintético branco. Nas calças havia uma protube-
rância Por um instante, isso lembrou-lhe certos aconteci-mentos quando cursava o ginásio.
Ruídos de ratos correndo vinham de baixo do banco. Gentilmente, como se o acariciasse, sua mão tocou no capuz. O pano moveu-se facilmente sobre algo duro e escorregadio por baixo dele. Quando apalpou o grande botão redondo no topo, ela soube o que era. Percebeu um grande boião de espécimes de laboratório e imaginou o que estava dentro dele. Com temor, mas com poucas dúvidas, retirou a cobertura.
A cabeça no interior do boião fora cortada com perícia logo abaixo do maxilar. Estava de frente para ela, os olhos há muito opacos e leitosos pelo álcool que os con-servara. A boca estava aberta e a língua pendia ligeiramente para fora, muito cinzenta. Ao longo dos anos o álcool evaporara em parte, até a cabeça descansar no fundo do boião. O alto do crânio projetara-se através da superfície do fluido e começava a apodrecer. Virada num ângulo parecido com o das cabeças de corujas em relação ao corpo, olhava boquiaberta e estúpida para Starling. Mesmo com a projeção da luz sobre seus traços, parecia sem expressão e sem vida.
Naquele momento, Starling fez uma avaliação de si mesma. Estava satisfeita. Sentia-se radiante. Ficou cismando por um instante se esses sentimentos tinham algum valor. Agora, sentada naquele carro, ao lado da cabeça, e de alguns ratinhos, conseguia pensar claramente e por isso se sentia orgulhosa.
— Muito bem, garota — aplaudiu ela — , não estamos mais em Kansas! — Sempre desejara dizer isso no caso de estar estressada; mas agora, fazendo-o, parecia-lhe
falso e estava contente que ninguém a tivesse ouvido. Tinha trabalho a fazer.
Encostou-se com cuidado no banco e lançou o olhar em volta.
Aquele ambiente alguém escolhera e criara, a mil anos-luz de distância na imaginação do tráfego que se arrastava ao longo da Estrada 301.
Flores secas pendiam dos vasinhos de cristal lapi-dado presos às colunas entre as portas. A mesa da limusine estava dobrada e coberta com uma toalha de linho. Sobre ela, um frasco brilhava destacando-se da poeira. Uma aranha construíra sua teia entre o frasco e um pequeno castiçal ao lado.
Tentou imaginar Lecter, ou alguém mais, sentado com seu atual companheiro, tomando um drinque e tentando mostrar-lhe os presentes. E o que mais? Com muito cuidado, mexendo no vulto o mínimo possível, revistou-o à procura de uma identificação. Não havia nenhuma. Num bolso do paletó encontrou as tiras de pano que haviam sobrado do ajuste no comprimento das calças — o traje a rigor era provavelmente novo ao ser colocado no manequim. Starling apalpou a saliência nas calças. Duro demais, mesmo para uma lembrança de ginásio.. Abriu a braguilha e iluminou o interior com a lanterna: era um pênis artifici-al de madeira trabalhada e polida. E também de bom tamanho. . Ficou cismando se seria depravada.
Cuidadosamente fez girar o boião e examinou os lados da cabeça e a nuca à procura de ferimentos. Nenhum que fosse visível. No vidro, em relevo, leu o nome de uma companhia fornecedora de material de laboratório.
Examinando novamente o rosto, admitiu ter aprendido algo que lhe iria ser muito valioso. Olhar aten-tamente aquele rosto, com a língua mudando de cor ao encostar o vidro, não era tão terrível quanto ver, em seus sonhos, Miggs engolindo a própria língua. Sentia-se capa de olhar qualquer coisa se tivesse algo de positivo a fazer com ela. Starling era jovem. .
Nos dez segundos depois que a unidade móvel de notícias da WPIK-TV freou e parou, Jonetta Johnson pôs os brincos, passou pó-de-arroz no belo rosto moreno e avaliou a situação. Ela e sua equipe jornalística, tendo mo-nitorado o rádio da polícia do condado de Baltimore, chegaram a Split City na frente dos carros de patrulha.
Tudo o que a equipe de notícias viu à luz dos faróis do carro foi Clarice Starling, de pé na frente da garagem, com sua lanterna elétrica e seu pequeno cartão de identidade laminado. Tinha o cabelo escorrido, por causa da garoa que caía.
Jonetta Johnson podia detectar um calouro toda vez que o via. Ela pulou para baixo do carro levando a equipe da câmara atrás dela e aproximou-se de Starling. As luzes fortes da TV se iluminaram.
O Sr. Yow estava tão afundado no Buick que só seu chapéu era visível sobre a borda da janela.
— Jonetta Johnson, da WPIK Notícias. Você re-portou um homicídio?
Starling não tinha a típica aparência de uma autoridade policial, e sabia disso.
— Sou da polícia federal, e este é o cenário de um crime. Tenho de manter tudo intacto até que as autoridades de Baltimore..
O assistente do cameraman já tinha agarrado a base do portão da garagem e estava tentando levantá-la.
— Pare aí! — gritou Starling. — Estou falando com o senhor! Pare aí! Não estou brincando. E peço que colaborem comigo. Sentia muito não dispor de um distintivo, um uniforme, qualquer coisa apropriada.
— O.K., Harry — instruiu a jornalista. — Veja, policial, nós desejamos cooperar no que for possível. Francamente, esta equipe custa dinheiro e só quero saber se devo mantê-la aqui até as outras autoridades chegarem.
Afinal, há mesmo um cadáver aí dentro? Nada de câmara, apenas entre nós. Diga-me isso, e esperamos. Nos com-portaremos bem, prometo. Que tal?
— Eu esperaria, se fosse você — disse Starling.
— Obrigada, você não vai se arrepender — prometeu Jonetta Johnson. — Ouça: tenho algumas informações sobre a Mini-Storage de Split City que você possivelmente poderia usar. Quer iluminar a prancheta com sua lanterna? Vamos ver se posso encontrá-las aqui.
— A unidade móvel de WEYE acaba de aparecer no portão, Joney — avisou o homem chamado Harry.
— Vejamos se posso encontrar aqui, policial; ah, aí está. Houve um escândalo há cerca de dois anos quando tentaram provar que neste lugar estavam trazendo de caminhão e armazenando. . o que era mesmo? Fogos de arti-fício? — Jonetta Johnson olhava com insistência por cima do ombro de Starling.
Starling voltou-se e viu o cameraman deitado de costas no chão, a cabeça e os ombros dentro da garagem.
Acocorado ao lado dele, o assistente, pronto para passar-lhe a mini-câmara por baixo da porta.
— Hei! — exclamou Starling. Agachou-se de joelhos no chão molhado e puxou-o pela camisa — Você não pode entrar aí! Já lhe disse para não fazer isso!
Durante todo o tempo os homens falavam com ela, repetindo com gentileza:
— Não vamos tocar em coisa alguma. Somos profissionais, você não precisa se preocupar. De qualquer forma, a polícia nos deixará entrar. Não há problema, queridinha! O tom meloso e insinuante deles perturbou-a.
Correu para um dos macacos no lado da porta e acionou a alavanca. A porta desceu uns cinco centímetros guinchando. Acionou de novo a alavanca. Agora a porta estava encostando-se no peito do homem. Como ele não saía de baixo, puxou a alavanca do encaixe e trouxe-a até o cameraman deitado. Havia agora outros refletores de televisão brilhando, ante a sua luz ela bateu com a alavanca na porta, fazendo cair um chuveiro de poeira e ferrugem em cima do homem.
— Preste atenção ao que vou lhe dizer. — Preveniu ela. — Saia daí agora mesmo. Você está prestes a ser preso por obstrução à justiça.
— Vá com calma — apaziguou o assistente, colocando a mão no ombro dela. Starling virou-se para ele.
Ouviam-se exclamações e perguntas por trás das luzes, e em seguida o som de sirenes.
— Tire as mãos de cima de mim e afaste-se, cara!
— Pôs o pé sobre o tornozelo do cameraman, mantendo a alavanca suspensa a seu lado. Contudo, não a usou. Foi melhor assim. Mesmo sem violência, tinha uma aparência horrível na tela do vídeo.
CAPÍTULO 9
Os cheiros da galeria dos presos violentos pareciam mais intensos na semi-escuridão. Um aparelho de TV ligado sem som no corredor lançava a sombra de Starling, nas barras da cela do Dr. Lecter.
Ela não podia enxergar no escuro além das barras, mas não pediu ao guarda para ligar, de seu posto, as luzes.
Toda a galeria seria iluminada de uma só vez e ela sabia que a polícia de Baltimore exigira as luzes totalmente acesas durante horas a fio enquanto gritavam perguntas a Lecter. Ele se recusara a falar, mas reagi mostrando-lhes uma galinha origami de papel dobrado que dava bicadas quando se manipulava o rabo para cima e para baixo. O
policial mais antigo, furioso, amassara o brinquedo japo-nês no cinzeiro da entrada quando ele fez sinal a Starling para entrar.
— Dr. Lecter? — Ela ouvia sua própria respiração e também outras ao longo do corredor exceto da cela vazia de Miggs, agora enorme na sua vacuidade. Sentia aquele silêncio como uma corrente de ar.
Starling sabia que Lecter a observava da escuridão.
Dois minutos se passaram. As pernas e costas lhe doíam após a luta com porta da garagem, e suas roupas estavam úmidas. Sentou-se no chão sobre o casaco, bastante afastada das barras, os pés encolhidos de baixo das nádegas.
Levantou o cabelo úmido e embaraçado sobre a gola para livrar o pescoço.
Por trás dela, na tela da TV, um evangelista agitava os braços.
— Dr. Lecter, ambos sabemos o que ocorre. Eles acham que o senhor falará comigo.Silêncio. No fim do corredor alguém assobiava: Over the Sea to Skye.Depois de uns cinco minutos, ela disse:
— Foi uma coisa estranha entrar ali. Eu gostaria de lhe falar sobre o que vi.
Starling teve um sobressalto quando o transportador de comida rolou vindo da cela de Lecter. Na bandeja havia uma toalha limpa, dobrada. Ela não o havia percebido movimentar-se.
Fitou a bandeja e, com uma sensação de estar cometendo algo errado, agarrou a toalha e com ela secou o cabelo. — Obrigado — agradeceu.
— Por que você não me questiona sobre Buffalo Bill? — A voz de Lecter soava próxima, no mesmo nível dela. Parecia que também ele estava sentado no chão.
— O senhor sabe algo sobre ele?
— Poderia saber se estudasse o caso.
— Não faço parte daquele caso — disse Starling.
— E também não fará parte deste quando termina-rem de usá-la.
— Sei disso.
— Você poderia conseguir o arquivo sobre Buffalo Bil . Os relatórios e as fotografias. Gostaria de ver isso.
— Aposto que gostaria. .
— Dr. Lecter, foi o senhor quem começou esta história. Agora, por favor, conte-me acerca da pessoa no Packard.
— Você encontrou uma pessoa inteira? Curioso; vi somente uma cabeça. De onde você supõe que veio o resto?
— Está certo. De quem era aquela cabeça?
— Conte-me, o que você descobriu.
— Bem, eles fizeram apenas exames preliminares.
Sexo masculino, branco, uns 27 anos, trabalhos dentários americanos e também europeus. Quem era ele?
— O amante de Raspail. Raspail, o da flauta melo-sa. . — Em que circunstância.. como morreu ele?
— Circunlóquios, policial Starling?
— Não. Perguntarei mais tarde.
— Deixe-me poupar-lhe algum tempo. Não foi obra minha. Raspail gostava de marinheiros. Esse era um escandinavo chamado Klaus Qualquer-coisa. Raspail nunca me informou o sobrenome.
A voz do Dr. Lecter pareceu mover-se para baixo.
Talvez se tivesse deitado no chão, pensou Starling.
— Klaus estava embarcado num navio sueco em San Diego. Raspail estava lá ensinando no conservatório durante o verão. Ficou alucinado pelo jovem. O sueco viu vantagem na situação e desertou do navio. Os dois com-praram uma espécie de trailer e começaram a vagar nus como sílfides, pelos bosques. Raspail disse que o jovem lhe fora infiel e estrangulou-o.
— Raspail contou-lhe isso?
— Ora, sim, sob o selo confidencial de sessões de terapia. Penso que era mentira. Raspail sempre embeleza-va os fatos. Gostava de parecer perigoso e romântico. O
sueco provavelmente morreu asfixiado durante uma banal transa erótica. Raspail era demasiado gorducho e fraco para tê-lo estrangulado. Notou quão perto da mandíbula Klaus foi cortado? Provavelmente para remover uma marca alta nos ligamentos, resultado de enforcamento.
— Entendo.
— O sonho de felicidade de Raspail estava arruina-do. Ele pôs a cabeça de Klaus num saco de bolas boliche e voltou para o Leste.
— E o que fez com o resto?
— Enterrou nas montanhas.
— Ele mostrou-lhe a cabeça no carro?
— Sim, no curso da terapia achou que podia abrir-se comigo, ele ia lá com Klaus bastante repetidamente, para mostrar-lhe os presentes.
— E então foi o próprio Raspail quem morreu. .
Por quê?
— Francamente, fiquei enjoado, farto dos seus lamentos. Afinal, foi a melhor coisa para ele. A terapia não levava a parte alguma. Creio que a maioria dos psiquiatras tem um paciente ou dois que gostaria de encaminhar para mim. Nunca discuti isso antes e agora estou ficando cansado de fazê-lo — E quanto ao seu jantar para os dirigen-tes da orquestra? — Nunca lhe aconteceu receber hóspe-des para comer e você não ter tempo de fazer compras?
Aí tem que dar um jeito com c que há no congelador, Clarice. Posso chamá-la de Clarice?
— Certo. E acho que vou chamá-lo. .