O Triângulo das Bermudas
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Charles Berlitz
com a colaboração de J. Manson Valentine
O TRIÂNGULO DAS
BERMUDAS
Tradução de CARMEN BALLOT
Ao mar e seus mistérios
cujas revelações talvez nos façam saber mais a respeito
de nós mesmos...
Índice
Capítulo 1: O Triângulo das Bermudas: Um Mistério do Ar e do Mar. Capítulo 2: O Triângulo dos Aviões Desaparecidos.
Capítulo 3: O Mar dos Navios Perdidos.
Capítulo 4: Alguns que Escaparam.
Capítulo 5: Existe uma Explicação Lógica?
Capítulo 6: Aberrações de Tempo-Espaço e Outros Mundos.
Capítulo 7: Uma Sugestão do Passado do Oceano.
Capítulo 8: As Surpresas da Pré-História.
Capítulo 9: Os Espiões: Defensores, Atacantes ou Observadores Neutros.
Agradecimentos.
Bibliografia.
1 - O Triângulo das Bermudas: Um Mistério do Ar e do Mar.
Existe uma região no Atlântico Ocidental, perto da costa sudeste dos Estados Unidos, que forma o que se convencionou chamar de triângulo, limitando-se ao norte pelas Bermudas e ao sul pela Flórida; a oeste por um ponto que passa pelas Bahamas e Porto Rico até aos 40° de latitude oeste e que se volta novamente em direção às Bermudas. Esta área ocupa um lugar estranho e quase inacreditável no catálogo mundial dos mistérios inexplicáveis. É uma área conhecida geralmente pelo nome de Triângulo das Bermudas, onde mais de cem aviões e navios desapareceram totalmente, a maioria deles depois de 1945, e onde mais de mil vidas se perderam nos últimos vinte e seis anos sem que um único corpo ou mesmo uma simples marca dos destroços de aviões ou navios fossem encontrados. Os desaparecimentos continuam a ocorrer com uma freqüência aparentemente crescente, não obstante serem os marujos e pilotos hoje mais experimentados, as buscas mais acuradas e os dados mais cuidadosamente estudados. Muitos desses aviões sumiram enquanto os pilotos mantinham contato normal pelo rádio com suas bases ou destinos até o momento exato do desaparecimento. Outros enviaram mensagens estranhas, explicando que não conseguiam fazer seus instrumentos funcionarem, que as bússolas giravam sem parar, que o céu se tornara amarelo e nublado (num dia claro e límpido) e que o mar (muito calmo nas redondezas) "não parecia normal", mas sem maiores detalhes sobre o que estaria acontecendo de errado.
Um grupo de cinco aviões, esquadrilha de Avengers TBM da Marinha, em missão que partiu da Base Aeronaval de Forte Lauderdale, no dia 5 de dezembro de 1945, foi objeto — junto com o avião Martin Mariner, enviado para procurá-los e que igualmente desapareceu — de uma das operações de resgate mais intensas e completas no mar e em terra de que se tem conhecimento. Apesar disso, nenhum colete salva-vidas, manchas de óleo ou destroços foram jamais localizados. Outros aviões, inclusive alguns de passageiros, desapareceram enquanto recebiam instruções de aterrissagem, como se tivessem penetrado por um buraco aberto no céu, conforme ficou registrado no Livro de Inquérito da Marinha. Barcos grandes e pequenos desapareceram sem deixar traços, como se eles e suas tripulações tivessem entrado em uma outra dimensão. Navios grandes, tais como o Marine Sulphur Queen, um cargueiro de 142 metros de comprimento, e o U.S.S. Cyclops, de 19.000 toneladas e com 309 pessoas a bordo, simplesmente sumiram enquanto outros navios e barcos menores foram encontrados à deriva dentro dos limites do Triângulo, algumas vezes com um animal sobrevivente, tais como um canário ou um cachorro, que não poderiam dar nenhuma indicação do que acontecera. Num dos casos, porém, um papagaio falador desapareceu junto com a tripulação.
Estes desaparecimentos inexplicáveis no Triângulo das Bermudas têm continuado até os dias de hoje e nenhum avião ou navio é assinalado como "desaparecido" e finalmente classificado no arquivo de "buscas suspensas" pelo Sétimo Corpo da Guarda Costeira, sem o comentário expresso ou não, ou sem o sentimento do público e daqueles que os investigam, de que existe uma certa conexão entre o passado e o presente do Triângulo das Bermudas. Ao que parece, há
atualmente um interesse cada vez maior do público para o fato de que ocorre algo de muito errado naquela região. Inúmeros e recentes relatórios de aviões e de barcos que sofreram e sobreviveram a experiências incríveis dentro dos limites do Triângulo têm contribuído para um novo folclore marítimo, apesar de a causa desta ameaça inexplicada continuar tão misteriosa quanto antes.
Explicações as mais variadas e imaginosas foram formuladas e levadas seriamente em consideração numa tentativa de esclarecer os contínuos desaparecimentos e as prováveis (porque nenhum corpo foi jamais encontrado) conseqüências fatais. Estas explicações incluem como causa vagas repentinas de marés causadas por terremotos, bolas de fogo que explodem sobre os aviões, ataques por monstros marinhos, uma distorção de tempo-espaço que os levasse a uma outra dimensão, turbilhões eletromagnéticos ou gravitacionais que causassem a queda dos aviões e a perda dos navios em pleno mar, captura e seqüestro por OVNIs, sejam voadores ou submarinos, manejados por entidades de culturas sobreviventes da antigüidade, do espaço sideral, ou do futuro, à procura de espécimes da vida atual da Terra. Uma das sugestões mais exóticas foi a antecipada por Edgar Cayce, o "profeta adormecido", médium e curandeiro que morreu em 1944. Cayce predisse, décadas antes que os fachos de raios laser fossem inventados, que os antigos habitantes da Atlântida usavam cristais como fonte de energia, especificamente os localizados na área de Bimini, e que foram presumivelmente afundados no leito do oceano ao largo dos Andros, nas Bahamas, onde muitos dos desaparecimentos
sucederam.
Em
sua
opinião,
uma
fonte
independente de força submersa a uma milha de profundidade a oeste de Andros, ainda hoje estaria exercendo o seu poder ocasional sobre as bússolas e os equipamentos eletrônicos de navios e aviões dos nossos dias.
De qualquer forma, a explicação ou a solução para o mistério parece estar intimamente ligada ao mar, ainda hoje o maior de todos os mistérios com os quais se depararam os habitantes do planeta Terra. Pois, apesar de estarmos no limiar do espaço sideral, olhando ansiosamente para o cosmos, acreditando que o nosso mundo está totalmente explorado e já não guarda mais nenhum segredo, nada menos de três quintos de nosso mundo, as profundidades abissais dos mares, são-nos igualmente ou ainda menos conhecidas do que as crateras da Lua. Nós já fizemos, é lógico, mapas dos contornos gerais do fundo do mar, primeiro por sondas mecânicas e mais recentemente pelo sonar e através de explorações feitas por submarinos e batisferas, além de câmaras para grandes profundidades que diagramam sua superfície e as correntes submarinas e que presentemente são empregadas na prospecção de petróleo nas plataformas continentais e, em breve, talvez mesmo em maiores profundidades. A guerra fria e a crescente segurança das frotas modernas de submarinos, apesar dos perigos que as atividades submarinas da Marinha Francesa enfrentaram no Mediterrâneo, e a dos Estados Unidos, no Atlântico, certamente contribuirão decisivamente, se este material for revelado ao público, para nossos conhecimentos sobre o fundo do mar. De qualquer forma, as partes mais profundas do oceano talvez ainda nos reservem surpresas consideráveis. A planície abissal, os vales, os desfiladeiros que a cercam podem abrigar uma fauna surpreendente. O "extinto" celacanto, peixe supostamente préhistórico, com membros residuais, foi descoberto muito vivo e em perfeita saúde no Oceano Índico, em 1938. Este peixe azulado de quatro pernas, já existia há 60 milhões de anos. O último espécime fossilizado, antes do que foi achado vivo, datava de 18 milhões de anos antes de Cristo.
Cópia de um desenho contemporâneo da Serpente-Marinha de Gloucester, uma das mais comprovadas entre as muitas " 'serpentes-marinhas" já vistas através dos séculos. Consta que foi observada por várias pessoas ao largo do Cabo Ann,. em Massachussets, em agosto de 1917, tendo chegado a provocar uma investigação da Sociedade de Naturalistas de Boston. Representantes desta sociedade relataram que conseguiram chegar a 139 metros de distância do monstro. Estimaram seu comprimento em trinta metros, e calcularam a velocidade em que nadava de trinta milhas por hora. Logo após a visita dos naturalistas, ela desapareceu da região.
Descrições acuradas de observadores idôneos, muitos dos quais nada tinham a ganhar e, ao contrário, até bastante a perder ao inventar a história de uma "serpente-marinha", desenharam ou descreveram esta criatura que se assemelha muitíssimo à estrutura do monossauro do período plioceno ou do ictiossauro, aparentemente ainda vivos e saudáveis nas profundezas abissais. Em diversas ocasiões, essas criaturas foram vistas por centenas de testemunhas quando se aproximavam de praias e baías situadas em locais que variam desde a Tasmânia até Massachussets. O "Monstro de Loch Ness", carinhosamente chamado de "Nessie" pelos escoceses das vizinhanças, e regular, porém indistintamente fotografado, pode ser uma versão menor de um destes gigantescos "peixes-lagartos", como o seu nome em grego, Ichthyosaurus, significa.
Anton Bruun, oceanógrafo dinamarquês, observou uma vez um alevino em forma de enguia de dois metros de comprimento trazido à
tona por um barco de arrastão, e igualmente a sua forma larval, que, se crescesse até a idade adulta na mesma proporção, mediria 24 metros de comprimento.
Embora nunca se tenha conseguido capturar um exemplar de lula gigante, existem indicações de que elas podem efetivamente ser tão grandes quanto algumas das lendárias "serpentes-marinhas". Na realidade, podem até mesmo ser as próprias serpentes-marinhas vistas por tantas pessoas. O tamanho destas lulas ou calamares gigantescos pode ser calculado pelos restos ocasionais de esqueletos encontrados e também pelas marcas das cicatrizes em forma de disco no dorso de baleias como sinal de sucção deixada por tentáculos, resultado de titânicas batalhas nas grandes profundezas. As ventosas dos tentáculos arrancaram o pigmento do couro das baleias deixando o seu perfil de maneira fiel.
Apesar de estarmos constantemente aprendendo coisas novas, acerca da vida nos oceanos, a maioria de nossas observações e a descoberta de espécimes têm sido acidentais, como se exploradores do espaço sideral, por analogia, houvessem lançado redes de suas astronaves em várias partes da Terra e pescado o que tivessem a oportunidade de achar.
Até mesmo as criaturas marinhas que já nos são familiares encerram mistérios em suas migrações e hábitos de reprodução: as enguias que saem do interior da Europa e da América e se encontram para procriar no Mar dos Sargaços, de onde apenas os filhotes alcançam de volta o local de que partiram os seus pais; os atuns que iniciam sua migração ao longo das costas do Brasil, viajam até a Nova Escócia e de lá até a Europa, de onde alguns, e somente alguns, continuam até
o Mediterrâneo; as lagostas que caminham pelo fundo do mar ao longo das plataformas continentais e continuam a descer para um destino desconhecido na planície abissal.
Outros mistérios incluem as grandes fossas oceânicas, tendo todas, curiosamente, a mesma profundidade — os desconcertantes doze quilômetros — e as criaturas vivas que existem lá no fundo sob uma pressão tão tremenda. E existem igualmente as correntes oceânicas, grandes rios dentro do mar, algumas que correm apenas na superfície, variando em profundidade, enquanto outras deslizam a centenas de metros abaixo do nível das águas, muitas vezes em sentido contrário às correntes da superfície. Temos a Corrente de Cromwell no Oceano Pacífico, que há alguns anos atrás subiu até à
tona e depois voltou à sua condição de corrente submarina. Quase todas as correntes giram; as do Hemisfério Norte no sentido dos ponteiros do relógio, e as do Hemisfério Sul, em sentido contrário aos ponteiros do relógio. Mas por que a Corrente de Bengala é uma exceção ao correr sem girar em nenhuma direção?
Os ventos e as ondas também têm mistérios: as mais repentinas e violentas tempestades só ocorrem em duas áreas; os furacões das
Caraíbas e da região do Atlântico Ocidental e os tufões dos mares ao sul da China. Algumas vezes, no entanto, ondas extremamente violentas, chamadas seiche — como as oscilações existentes em al guns lagos da Suíça — surgem sobre mares aparentemente calmos. Acredita-se que essas ondas sejam causadas por avalanchas ou terremotos submarinos, não percebidos na superfície nem registrados pelas estações meteorológicas.
As principais correntes oceânicas. Notem que as correntes do Hemisfério Norte giram no sentido dos ponteiros de um relógio, enquanto as do Hemisfério Sul giram em sentido contrário, fato ligado ao movimento de rotação da Terra.
A riqueza mineral dos oceanos é incalculável, e a extração e a exploração desses depósitos minerais, juntamente com o petróleo, podem afetar consideravelmente o balanço financeiro do futuro. O
oceano protege ainda tesouros e vestígios de civilizações passadas. Muitas destas civilizações são manifestas nas águas costeiras do Mediterrâneo e da plataforma continental do Atlântico, mas outras podem existir, por exemplo, a uma ou a mais de uma milha de profundidade nas costas peruanas, onde colunas esculpidas foram fotografadas submersas entre ruínas que poderiam ter sido edifícios, indicando uma queda violenta de terreno para dentro do oceano, já na era de nossa civilização. Histórias sobre civilizações submersas são comuns em diversas partes dos oceanos — desde a perdida Atlântida, no meio do Atlântico; nas Bahamas ou no Mediterrâneo Oriental; os mistérios da Ilha de Páscoa e de outras civilizações perdidas no Sul do Pacífico; até a possibilidade de uma outra civilização presentemente soterrada sob os gelos da Antártida, e que teria existido ali antes que os pólos se deslocassem.
Partes do solo no fundo dos oceanos parecem estar constantemente mudando de posição; em maio de 1973, um pedaço da Fossa Bonin, perto do Japão, ergueu-se dois mil metros. A maioria das centenas de milhares de terremotos ocorrem anualmente ao longo da cordilheira do centro do Atlântico, comumente citada desde os tempos antigos como localização da lendária Atlântida. E há também o mistério dos "fundos falsos", freqüentemente revelados em sondagens submarinas, e que muitas vezes revelam profundidade mais rasa do que a encontrada anteriormente e que,tempos depois, voltam a indicar as profundidades anteriores. Presume-se que este fundo falso seja causado pela presença temporária de cardumes de peixes ou de outro tipo de fauna tão espesso que apresentam uma superfície sólida a qual o sonar atinge, registrando assim uma informação equívoca. Outro enigma igualmente incompreensível são as curiosas estrias brilhantes das "águas brancas" na Corrente do Golfo. Já se pensou diversas vezes que elas são causadas pelos cardumes de pequenos peixes fosforescentes, marga agitada por peixes, ou radiatividade nas águas. Mas seja lá o que for, é bastante evidente, pois o fato foi comentado por Colombo há cinco séculos, e também consta de relatórios de astronautas no espaço sideral. Finalmente, temos a teoria dos continentes que se deslocam, afastando-se um do outro pelos mares e separando-se do que antes seria um supercontinente. Esta teoria vem sendo aceita somente agora e pode ter uma relação considerável com a rotação, a composição e o comportamento da Terra.
Existe porém uma diferença entre estes múltiplos mistérios, que poderão ser eventualmente resolvidos (e que durante sua pesquisa se mostrarão fascinantes), e o enigma proposto pelo Triângulo das Bermudas, que introduz um elemento de perigo aos viajantes. Ê
verdade, lógico, que inúmeros aviões voam sobre o Triângulo todos os dias; que barcos, grandes e pequenos, navegam em suas águas, e que incontáveis passageiros e viajantes visitam aquela área todos os anos sem qualquer incidente. Além disso, navios e aviões se perdem nos mares e continuam a desaparecer em todos os mares do mundo por diversas razões (aqui devemos recordar a diferença entre "perdidos no mar", que sugere a descoberta de destroços ou de qualquer objeto flutuante, e "desaparecidos", que implica não deixar qualquer vestígio). Contudo, em nenhuma outra área os desaparecimentos inexplicáveis têm sido tão numerosos, tão súbitos, e cercados de circunstâncias tão estranhas, a ponto mesmo de ultrapassar os limites da coincidência.
Muitas autoridades marítimas e aeronáuticas diriam que é perfeitamente natural que aviões, navios e pequenos iates desapareçam em uma área em que existe tanto tráfego marítimo e aéreo, área sujeita a tempestades repentinas e às múltiplas possibilidades de erros de navegação e acidentes. Estas mesmas autoridades são capazes de dizer que o Triângulo das Bermudas simplesmente não existe, e que o próprio termo é inadequado, um mistério manufaturado para a diversão de curiosos e de leitores imaginativos. As linhas aéreas que servem a área delimitada pelo Triângulo das Bermudas concordam, compreensivelmente, de maneira entusiástica com esta opinião, embora muitos pilotos experimentados não estejam assim tão certos de sua não-existência. Aqueles que alegam que o Triângulo não existe, de certa forma estão certos: o Triângulo das Bermudas, área dos desaparecimentos inexplicáveis, talvez não seja mesmo um triângulo geometricamente verdadeiro, mas algo parecido com uma elipse ou talvez um segmento de um círculo gigantesco com o ápex perto das Bermudas e a parte curva e inferior estendendo-se até a Flórida, passando por Porto Rico, curvando-se para o sul e para leste através do Mar dos Sargaços, e voltando novamente às Bermudas.
Aqueles que estudaram o fenômeno estão em geral — se bem que não especificamente — de acordo com esta localização. Ivan Sanderson, que tratou do assunto em seu livro Residentes Invisíveis e em numerosos artigos, concluiu que se trata realmente de uma elipse ou um losango igual a doze outros espalhados em intervalos regulares pelo mundo, incluindo o mal afamado "Mar do Demônio", no Japão. John Spencer considera que a área de perigo segue a plataforma continental, que se inicia em uma ponta ao largo da Virgínia, seguindo para o sul ao longo das costas americanas até a Flórida, continuando em torno do Golfo do México, inclusive as plataformas das ilhas do mar das Caraíbas e a periferia das Bermudas. Vincent Gaddis, autor de Horizontes Invisíveis, e de um artigo na revista Argosy que talvez tenha sido o responsável pelo nome do Triângulo das Bermudas, estabelece a sua forma triangular grosseiramente como... "uma linha que vai da Flórida às Bermudas, outra das Bermudas a Porto Rico, e uma terceira de volta a Flórida passando através das Bahamas"; enquanto John Godwin, em Este Mundo Estranho, sugere que este "Mar das Feiticeiras" é mais ou menos "um quadrado aproximado cujos limites se estendem entre as Bermudas e as costas da Virgínia", com sua fronteira meridional "formada pelas ilhas de Cuba, Hispaniola e Porto Rico". Até mesmo a Guarda Costeira dos Estados Unidos, que não acredita no Triângulo das Bermudas, condescendentemente identifica sua localização em uma carta circular — arquivada sob o n.° 5720 —
do Sétimo Distrito da Guarda Costeira. Ela começa assim:
"O 'Triângulo das Bermudas' ou 'Triângulo do Demônio' é uma área imaginária localizada ao largo da costa sudeste dos Estados Unidos, conhecida pela alta incidência de perdas inexplicáveis de navios, barcos pequenos e aviões. Os vértices deste triângulo são formados e aceitos geralmente como sendo as Bermudas, Miami— na Flórida — e San Juan de Porto Rico. "
Os meteorologistas freqüentemente se referem ao "Triângulo do Demônio" como uma área limitada por linhas que correm ao norte das Bermudas até Nova Iorque e ao sul até as ilhas Virgens, estendendo-se em leque para oeste, até os 75° de longitude.
Os desaparecimentos mais importantes de navios e aviões nos são revelados em mapa da mostrado mais adiante que servirá para o leitor tirar suas próprias conclusões quanto à forma do Triângulo das Bermudas. Se é ou não um triângulo, ou talvez um pequeno triângulo dentro de um outro muito maior, uma elipse gigantesca, um quadrado, ou um fenômeno paralelo às plataformas continentais e das ilhas. Há longos anos se comenta nos círculos marítimos que muitos navios desapareceram nesta área, e vários destes desaparecimentos no passado talvez hajam contribuído para a lenda do "Mar dos Navios Perdidos" ou do "Cemitério de Navios", localizado no mar dos Sargaços, parte do qual se encontra dentro do Triângulo. Relatórios a respeito de navios desaparecidos parecem indicar que estes desaparecimentos começam a aumentar consideravelmente a partir de 1860, provavelmente devido a informações mais detalhadas. Os desaparecimentos começaram depois da Guerra Civil, excluindo assim a possibilidade de ataques por parte das tropas confederadas. Mas foi alguns meses após a Segunda Guerra Mundial que ocorreu um acidente estranhíssimo, sugerindo que aviões que voassem sobre esta área pudessem sumir nos ares da mesma forma como os navios vinham desaparecendo nas águas. Foi este incidente que deu o nome ao Triângulo das Bermudas.
2 - O Triângulo dos Aviões Desaparecidos.
O Triângulo das Bermudas recebeu este nome após o desaparecimento de seis aviões da Marinha dos Estados Unidos e suas tripulações em 5 de dezembro de 1945. Os cinco primeiros aviões que sumiram, aparentemente ao mesmo tempo, encontravam-se em missão rotineira de treinamento com plano de vôo determinado: seguir uma linha triangular que se iniciara na Base Aeronaval de Forte Lauderdale, na Flórida, avançando 250 quilômetros para leste, 65
quilômetros para o norte, e depois de volta às suas bases, pelo rumo sudoeste. As ilhas Bermudas batizaram o que já era anteriormente chamado de "Triângulo do Demônio", "Triângulo da Morte", "Mar das Feiticeiras", "Cemitério do Atlântico", e várias outras designações, principalmente porque se notou naquela ocasião que o vértice do plano triangular do vôo que partira de Forte Lauderdale estava numa linha direta em relação às Bermudas, e em parte porque as Bermudas pareciam ser a fronteira ao norte de recentes e de antigos desaparecimentos de navios e aviões em circunstâncias insólitas. Mas nenhum incidente — anterior ou posterior — foi mais estranho que o desaparecimento de toda essa esquadrilha em vôo de treinamento, juntamente com o gigantesco aparelho que saiu para socorrê-lo, um Martin Mariner, que levava uma tripulação de 13 pessoas, e que inexplicavelmente como que se evaporou durante as operações de busca. Vôo 19 era a designação do grupo de aviões que se perdera e que decolara de sua base no Forte Lauderdale, na tarde de 5 de dezembro de 1945. As aeronaves eram pilotadas por cinco comandantes e contavam com nove membros na tripulação, distribuídos dois a dois em cada avião, menos um deles, que pedira a sua retirada das turmas de vôo devido a um "pressentimento" e não fora ainda substituído. Os aviões eram aparelhos Grummans Navais TBM-3 Avenger, bombardeiros com torpedos, e cada um deles levava bastante combustível para um vôo de mais de mil e seiscentos quilômetros. A temperatura era 18,3°C, o sol brilhava e havia pequenas nuvens esparsas e ventos moderados de nordeste. Pilotos que tinham voado antes naquele mesmo dia haviam constatado as condições ideais de vôo. O tempo previsto para o vôo era de duas horas. Os aviões começaram a decolar às duas horas da tarde e às 2hl0m estavam todos no ar. O Tenente Charles Taylor, com mais de 2.500 horas de vôo, e que estava no comando da esquadrilha, guiou o grupo em direção aos baixios Chicken, ao norte de Bimini, onde eles deveriam fazer ataques de treinamento sobre um casco desmantelado que servia de alvo. Tanto os pilotos como os tripulantes eram experientes e não havia nenhuma razão para esperar algo de natureza excepcional naquela missão rotineira do Vôo 19.
Mas algo aconteceu, como se fosse uma vingança. Por volta das 3hl5m, quando o bombardeio terminou e os aviões deveriam continuar no rumo leste, o radioperador da torre da Base Aeronaval de Forte Lauderdale, que estava à espera do contato com os aviões para saber a provável hora do retorno e transmitir-lhes as instruções de pouso, recebeu uma mensagem extraordinária do líder da esquadrilha. As gravações mostram o seguinte:
Líder da Esquadrilha (Tenente Charles Taylor): — Chamando a torre. Isto é uma emergência. Parece que estamos fora do rumo. Não consigo ver a terra... Repito... Não consigo ver a terra. Torre: — Qual é a sua posição?
Líder da Esquadrilha: — Não estamos certos de nossa posição. Não tenho a certeza de onde estamos... Parece que estamos perdidos. Torre: — Mude o rumo para oeste.
Líder da Esquadrilha: — Não sabemos para que lado fica o oeste. Tudo está errado... Estranho... Não temos certeza de nenhuma direção — até mesmo o oceano parece diferente, esquisito...
Cerca de 3h30m da tarde, o instrutor-chefe dos vôos em Forte Lauderdale captou em seu rádio uma mensagem de alguém chamando Powers, um dos alunos-pilotos, pedindo informações a respeito da leitura de sua bússola, e ouviu Powers responder:
— Eu não sei aonde estamos. Devemos ter-nos perdido após a última virada.
O instrutor-chefe conseguiu contato com o Vôo 19, e chamou o instrutor do vôo, que lhe disse:
— Ambas as minhas bússolas estão fora de ação. Estou tentando encontrar Forte Lauderdale... Tenho certeza que estamos sobre as ilhas do litoral, mas não sei a que distância...
O instrutor-chefe depois disto aconselhou-o a voar rumo norte
— com o sol por bombordo — até que ele alcançasse a Base Aeronaval de Forte Lauderdale. Mas logo em seguida ouviu:
— Acabamos de passar sobre uma ilhota... Não há mais nenhuma terra à vista... Isso indicava que o avião do instrutor do Vôo 19 não estava sobre a costa e que toda a esquadrilha, já que nenhum deles conseguia ver terra, que normalmente seguiria em continuação às ilhas baixas da costa da Flórida, havia perdido a direção.
Foi ficando cada vez mais difícil captar as mensagens do Vôo 19 devido à estática. Aparentemente o Vôo 19 já não podia ouvir as mensagens enviadas pela torre de controle, mas a torre conseguia ouvir a conversa trocada entre os aviões. Algumas se referiam a uma possível falta de combustível — gasolina para apenas mais cem quilômetros de vôo, referências a ventos de 120 quilômetros por hora, e a desalentada observação de que todas as bússolas, magnéticas ou giroscópicas, de todos os aviões, "tinham ficado malucas" — como haviam dito antes
— cada qual dando uma leitura diferente. Durante todo este tempo, o poderoso transmissor de Forte Lauderdale foi incapaz de estabelecer qualquer contato com os cinco aviões, apesar das comunicações entre os componentes da esquadrilha serem perfeitamente audíveis. A esta altura, o pessoal da base estava num compreensível alvoroço quando se espalhou a notícia que o Vôo 19 havia-se deparado com uma emergência de origem ignorada. Todos os tipos de suposições a respeito de ataques inimigos (apesar da Segunda Guerra Mundial já haver terminado fazia vários meses) ou até mesmo de ataques por novos inimigos, como eles próprios sugeriram, determinaram o envio de um aparelho de resgate, um bimotor Martin Mariner, hidroavião de patrulha com uma tripulação de 13 pessoas, que decolou da Base Aeronaval do Rio Banana.
Às 4 horas da tarde, a torre conseguiu ouvir de relance que o Tenente Taylor inesperadamente passara o comando da esquadrilha para um antigo piloto da Marinha, o Capitão Stiver. Apesar de confusa devido à estática e deformada pela excessiva tensão, uma mensagem compreensível foi enviada por ele:
— Não temos certeza de onde estamos... Penso que devemos estar a 360 quilômetros a nordeste da base... Devemos ter passado por cima da Flórida e estar sobre o Golfo do México...
O líder da esquadrilha aparentemente resolveu dar uma volta de 180° na esperança de voltar para a Flórida, mas ao fazer a curva a transmissão começou a ficar cada vez mais fraca, indicando que deviam ter feito a curva na direção errada e que estavam se afastando no rumo leste, cada vez mais longe da Flórida e na direção do mar aberto. Alguns relatórios afirmam que as últimas palavras ouvidas do Vôo 19 foram:
— ...parece que... nós estamos...
Enquanto outros radioperadores parecem lembrar-se de mais alguma coisa, tais como:
— Estamos em águas brancas... Estamos completamente perdidos... Nesse meio tempo a torre de controle recebeu uma mensagem enviada poucos minutos após a decolagem do Tenente Come, um dos oficiais do Martin Mariner, despachada da área geral de onde se presumia estivesse o Vôo 19, afirmando que havia fortes ventos acima de dois mil metros. Esta foi, no entanto, a última mensagem recebida do avião de resgate. Logo depois todas as unidades de busca receberam uma mensagem urgente dizendo que eram seis e não mais cinco aviões que haviam sumido. O avião de resgate, com seus 13 tripulantes, também desaparecera. Nenhuma mensagem posterior foi recebida do Vôo 19 em sua missão de treinamento ou do Martin Mariner enviado para procurálos. Um pouco depois das 7h da noite, no entanto, a Base Aeronaval de Opa-Locka em Miami captou uma mensagem muito fraca que consistia de: — FT... FT... — que era o prefixo dos aviões do Vôo 19. O avião do instrutor do vôo era o FT-28. Mas se esta chamada fosse mesmo da "patrulha perdida", a hora em que ela foi captada indicava uma transmissão duas horas depois de os aviões presumivelmente já
estarem sem gasolina.
As buscas aéreas imediatas, iniciadas no dia do desaparecimento, foram suspensas quando escureceu, mas barcos do Serviço da Guarda Costeira continuaram a procurar sobreviventes a noite inteira. No dia seguinte, quinta-feira, um imenso esforço de buscas começou às "primeiras horas", isto é, ao romper da aurora, embora tenha se desencadeado uma das mais intensas operações de resgate de toda a História — que envolveu 240 aviões, além de 67 suplementares do porta-aviões Solomons, quatro destróieres, vários submarinos, 18
barcos da Guarda Costeira, centenas de aviões particulares, iates e barcos menores, e os restantes PBM da Base Aeronaval do Rio Banana — e apesar da ajuda da RAF e das unidades da Marinha Real Britânica sediadas nas Bahamas, nada foi encontrado.
Uma média diária de 167 vôos, a cem metros acima do nível do mar, da madrugada até o anoitecer, procedendo a uma inspeção minuciosa sobre 380.000 milhas quadradas de terra e de mar, inclusive no oceano Atlântico, mar das Caraíbas, parte do Golfo do México e a zona territorial da Flórida e ilhas vizinhas, com um tempo de vôo que totalizou 4.100 horas, não revelou nenhuma balsa salva-vidas, nenhum destroço, qualquer mancha de óleo. As praias da Flórida e das Bahamas foram vasculhadas diariamente várias semanas na esperança de nelas se encontrar algum destroço dos aviões perdidos trazido pelas marés. Tais buscas não tiveram nenhum sucesso.
Todos os indícios possíveis foram investigados. Um relatório dizendo que um clarão avermelhado fora visto em terra por um avião comercial, no dia dos desaparecimentos, foi tido como sendo a possível explosão do Martin Mariner. Mas logo essa versão era posta de lado. Mais tarde um navio mercante anunciou ter visto uma explosão no céu às sete e meia da noite. Mas se tal explosão tivesse algo a ver com os cinco Avengers, isto significaria forçosamente que eles estavam ainda voando horas depois de seu combustível ter-se esgotado. Além do mais, explicar desta maneira a perda de todos os aviões sem deixar nenhum traço implicaria a hipótese de que eles todos se tivessem chocado ao mesmo tempo e explodido após silenciarem o rádio totalmente. É igualmente notável o fato de que nenhum SOS foi enviado, seja pelo Vôo 19, seja pela missão de resgate. Quanto à possibilidade de uma amerrissagem forçada no oceano, observa-se que os Avengers eram capazes de descer suavemente, podendo-se manter à tona por noventa segundos em qualquer eventualidade. E suas tripulações estavam treinadas para abandonar as aeronaves em sessenta segundos. Balsas salva-vidas estavam disponíveis e eram facilmente alcançadas pelo lado de fora dos aviões. Assim, em praticamente quase todos os tipos de amerrissagem as balsas salva-vidas boiariam e eventualmente seriam encontradas. Durante a primeira parte da operação de resgate, alguns observadores notaram grandes ondas, mas as vagas eram tão separadas umas das outras que os aviões poderiam ter descido, se necessário, nos intervalos. A curiosa menção às "águas brancas" na última mensagem recebida do Vôo 19 pode talvez ter alguma conexão com a estranha neblina branca e espessa que é um fato ocasional naquela região. Isto talvez possa explicar a falta de visibilidade e o comentário de que o sol "estava diferente", mas é certo que não teria afetado as bússolas e os giroscópios. Por outro lado, existe um local entre a Flórida e as Bahamas em que as comunicações pelo rádio emudecem, mas os problemas dos aviões começaram antes que o contato pelo rádio fosse perdido.
Uma Comissão Naval de Inquérito, depois de examinar todas as evidências disponíveis e chegando incidentalmente a debater o problema durante a. corte marcial a que foi submetido o oficial encarregado dos instrumentos de bordo (que mais tarde foi absolvido quando ficou estabelecido que todos os instrumentos tinham sido verificados por ele antes da decolagem), terminou também às escuras quanto ao que realmente acontecera. Parte do relatório afirma:
— Uma mensagem enviada pelo rádio e interceptada na torre de controle da base indicava que os aviões estavam perdidos e que suas bússolas apresentavam defeito.
O Capitão W. C. Wingard, oficial de informação, foi de certa forma mais objetivo em uma entrevista concedida à imprensa posteriormente:
— ...Membros da Comissão de Inquérito não foram capazes nem mesmo de dar um palpite razoável sobre o que aconteceu.
Outro membro da Comissão, de maneira bastante dramática, comentou:
— Eles sumiram tão completamente como se tivessem voado para Marte...
Desta maneira foram introduzidos os elementos fantasiosos das viagens espaciais e possíveis OVNI, que desde então passaram a fazer parte das lendas do Triângulo das Bermudas. Investigadores sérios e oceanógrafos apresentaram uma variedade de opiniões a respeito de como aqueles e tantos outros navios e aviões poderiam desaparecer sem deixar traço, e como tantos pilotos e passageiros se haviam como que evaporado.
O Capitão-de-Corveta R. H. Wirsching, oficial de treinamento na Base Aeronaval de Forte Lauderdale na época do caso, que estudou a ocorrência por muitos anos, pensa que o termo "desaparecidos" é um dado importante a respeito do destino dos tripulantes do Vôo 19, já que não existe nenhuma prova de que eles efetivamente tenham perecido. (A mãe de um dos pilotos perdidos, que assistiu a uma das audiências navais afirmou na época que tinha a impressão de que seu filho "ainda estava vivo em algum lugar do espaço".) E o Dr. Manson Valentine, um cientista que estudou a área vários anos a partir de Miami, foi citado no Miami News por ter declarado:
— Eles ainda se encontram aqui, mas numa dimensão diferente, graças a um fenômeno magnético que poderá ter sido criado por um OVNI.
Um oficial da Guarda Costeira, membro da Comissão de Inquérito, expressou-se com uma franqueza simplória ao dizer simplesmente:
— Nós não sabemos que diabo anda acontecendo por aqui!
E uma afirmativa final, mais formal, feita por um outro oficial da Comissão expressou a conformidade de opiniões de todos os investigadores:
— Esta perda inédita em tempo de paz é um mistério total, o mais estranho de todos os mistérios jamais registrados nos anais da aviação naval.
Existem muitas vezes elementos de coincidências incríveis associados a desastres, particularmente quando ocorrem no mar (quando o cargueiro Stockholm se chocou com o navio de passageiros Andréa Doria, uma menina que só falava espanhol foi arrancada de sua cabina, no Andréa Doria, pela proa do Stockholm e encaixada com parte da cabina dentro de um anteparo, no casco do Stockholm, perto da cabina de um marinheiro que era a única pessoa do cargueiro que sabia falar espanhol). O Vôo 19, por sua vez, não foi nenhuma exceção quanto ao elemento de coincidência.
O Comandante Wirshing, na ocasião apenas um tenente de serviço como oficial de treinamento na base de Forte Lauderdale, e cujas comunicações serviram de base a grande parte deste livro, lembra-se que houve também um vôo matinal de treinamento naquele mesmo dia e que de certa forma foi igualmente estranho. Este primeiro vôo, por ter sido considerado muito menos sensacional que o outro, foi naturalmente negligenciado pela imprensa na ocasião do desastre. Mas os aparelhos que participaram dele tiveram problemas sérios com as bússolas e, em vez de retornar à base, aterrissaram 80
quilômetros ao norte.
Um pressentimento do desastre pareceu afetar pelo menos dois membros do Vôo 19. Um deles foi o próprio instrutor de vôos. A Ihl5m da tarde ele chegou atrasado para a reunião de instruções antes do vôo e pediu ao oficial de serviço para ser dispensado desta particular missão. Seu pedido não foi acompanhado de nenhuma explicação. Ele simplesmente declarou que não desejava tomar parte na missão. Como nenhum substituto estava disponível, o pedido não foi atendido.
Um segundo caso, que o Tenente Wirshing presenciou pessoalmente, foi muito comentado: programado para o Vôo 19, o cabo Allan Kosnar não se apresentou na hora da decolagem. Ele foi citado pela imprensa por ter dito:
— Não posso explicar porque, mas por alguma estranha razão, eu resolvi não voar naquele dia.
De acordo com o Tenente Wirshing, o cabo, um veterano de Guadalcanal, só tinha, mais quatro meses para servir antes de ser desmobilizado e havia pedido há vários meses para ser desligado das forças de vôo. No dia do vôo o problema tornara a surgir e o Tenente Wirshing dissera a ele para se apresentar ao médico da esquadrinha para pedir a sua retirada do vôo naquele dia. Ele fez isto e a esquadrilha decolou com um tripulante a menos. Quando as primeiras indicações de problemas com o Vôo 19 se tornaram evidentes, o Tenente Wirshing dirigiu-se ao alojamento à procura de voluntários. A primeira pessoa que ele encontrou ali foi o cabo recentemente licenciado, que disse: —.
— Lembra-se que o Senhor me mandou ver o médico da esquadrilha? Eu fui, e ele me desobrigou do vôo. Agora é a minha esquadrilha que se perdeu. Um relatório do momento da decolagem, no entanto, indicava que os aviões haviam saído com as tripulações completas, como se alguém houvesse embarcado no último minuto no lugar do cabo. Isto causou uma chamada de mais de uma hora na base inteira, com vista a descobrir se alguém mais estava faltando. Quando ficou confirmado que não faltava mais ninguém, o mistério adicional das "tripulações completas" tornou-se apenas mais um elemento insolúvel no múltiplo desaparecimento.
Um outro elemento insólito no mistério do Vôo 19 tornou-se público somente 29 anos após o caso quando Art Ford, repórter, escritor e conferencista, que seguira o caso desde 1945, fez uma revelação sensacional em um programa nacional de televisão em 1974. Afirmou que o Tenente Taylor dissera, em seu rádio:
— Não venham atrás de mim... Parece que eles vêm do espaço... Ford afirma que esta informação original lhe foi dada na época do acontecimento por um radioamador, mas que ele não lhe deu muita importância, considerando as dificuldades de um radioperador amador em receber comunicações de um aparelho em vôo, e também devido à
excitação e os boatos que circulavam então.
Porém Ford, continuando suas investigações, recebeu algumas confirmações estranhas na transcrição das mensagens do avião para a torre de controle, inclusive um relatório posterior trazido à tona pela pressão dos pais dos tripulantes desaparecidos. Este relatório, oficial, e mais tarde considerado secreto — parte do qual, afirma Ford, lhe foi permitido examinar — continha pelo menos uma frase — Não venham atrás de mim... — em comum com as fornecidas a ele pelo operador civil de onda curta, mas que, significativamente, jamais foi publicado. Este mistério final, com a sugestão de uma interferência de outros mundos, se repete como um eco em outros desaparecimentos. Apesar de muitos outros navios e embarcações de recreio terem desaparecido na área do Triângulo das Bermudas, antes e depois deste incidente, é digno de nota que o desastre atingiu ao mesmo tempo os Avengers e o Martin Mariner e foi o primeiro no qual se envolveram aviões e em que tantas unidades de resgate participaram de uma busca tão extensa e completa, embora completamente infrutífera, em terra, mar e ar. Este incidente iria gerar, de agora para a frente, buscas intensificadas no caso de aviões desaparecidos, não somente no sentido de tentar o resgate dos possíveis sobreviventes, mesmo depois que o tempo de sobrevivência provável se houvesse esgotado, como também de pesquisar e descobrir o que acontecera com eles. Depois do acontecido com o Vôo 19, desaparecimentos inexplicados de aviões militares, particulares e comerciais começaram a ocorrer com uma regularidade sinistra, somados aos já "normais" desaparecimentos de navios grandes e pequenos que sucediam na região havia muitos anos. Agora, no entanto, com as equipes de resgate de mar e ar, radiocomunicações com as bases, instrumentos de navegação mais sofisticados, e métodos de busca altamente desenvolvidos, cada desaparecimento tem sido investigado com uma meticulosidade consideravelmente mais perfeita.
No dia 3 de julho de 1947, um avião C-54 do Exército dos Estados Unidos com seis tripulantes em vôo de rotina das Bermudas até a Base Aérea do Exército de Morrison, em Palm Beach, desapareceu em algum local entre Bermuda e Palm Beach, quando sua posição transmitida o colocava a 160 quilômetros ao largo das Bermudas. Uma operação de busca, imediata e intensiva, feita pelo Exército, a Marinha e a Guarda Costeira cobriu mais de 100.000
milhas quadradas de mar. No entanto (à exceção de alguns assentos e uma garrafa de oxigênio, que não foram identificadas como sendo do avião perdido), nenhum destroço nem mancha de óleo foram encontrados.
Tal como em outros desaparecimentos posteriores, uma alarmante coincidência foi notada na maioria dos acidentes dentro da área do Triângulo — pareciam acontecer sempre no auge da estação turística e hoteleira, de novembro até fevereiro. Mais estranho ainda foi observar-se que muitas das perdas haviam ocorrido poucas semanas antes ou depois do Natal. Um avião Tudor IV, britânico, de quatro motores, um antigo bombardeiro Lancaster recondicionado para vôos de passageiros, chamado Star Tiger, desapareceu no dia 29
de janeiro de 1948 em vôo dos Açores para as Bermudas. Ele levava seis tripulantes e 25 passageiros, entre eles Sir Arthur Cunningham, um marechal-do-ar da Segunda Guerra Mundial e antigo comandante da Segunda Força Tática da Real Força Aérea. Estava previsto que o Star Tiger aterrissaria no aeroporto Kindley, em Bermuda, às 10h30m da noite, um pouco antes do horário programado para o vôo. O piloto comunicou-se pelo rádio com a torre de controle enviando uma mensagem que incluía as palavras "tempo e desempenho excelentes" e "calculo chegar no horário". A posição do avião foi dada como sendo de 380 milhas a nordeste de Bermuda.
Não houve nenhuma outra comunicação, mas o Star Tiger jamais aterrissou. Nenhum SOS ou mensagem de emergência foi recebida, nem houve qualquer indicação de que a aeronave não estivesse funcionando perfeitamente e sob condições ótimas. Por volta de meia-noite o Star Tiger foi dado como fora do horário e no dia seguinte, 30 de janeiro, iniciou-se uma maciça operação de busca e salvamento. Trinta aviões e 10 navios vasculharam a área durante vários dias sem nenhum sucesso. Algumas caixas e tambores de óleo vazios foram avistados a noroeste das Bermudas no dia 31 de janeiro. Entretanto, caso fossem do Star Tiger, significaria que ele estava voando a centenas de quilômetros fora da rota quando a coisa que o atingiu provocou o desastre. Mas é preciso que se diga: o piloto não anunciara nada de extraordinário com respeito ao rumo ou quanto aos comandos do avião no último contato que mantivera com a torre. Enquanto as buscas continuavam, sem sucesso, diversos radioamadores ao longo da costa do Atlântico e mesmo mais para o interior do país, captaram uma mensagem truncada com as palavras soletradas por números de pontos — como se quem estivesse operando o transmissor não conhecesse o código Morse. Os pontos soletravam "Tiger". Ainda mais fantástico foi o relatório de uma estação da Guarda Costeira na Terra Nova. Quando os ruídos cessaram, alguém parece que enviou uma mensagem verbal — simplesmente pronunciando as letras seguintes: G-A-H-N-P. Eram estas as letras do prefixo do desaparecimento Star Tiger.
Supôs-se que estas várias mensagens fossem falsas, levando-se em consideração especialmente o comportamento lunático e excên-trico de certos indivíduos que acompanham e se divertem com desastres. Entretanto, uma inquietante analogia com o caso do Vôo 19
sugere por si própria que a fraca mensagem recebida em Miami, horas depois do desaparecimento da esquadrilha, que continha as letras do prefixo de um dos aviões, constituía quase uma mensagem final que estivesse sendo enviada ou retransmitida de uma distância muito grande, no tempo e no espaço, e que poderia dar a indicação do local aonde os aviões haviam desaparecido.
Uma Comissão de Inquérito, sob a direção de Lord Macmillan, criada para a investigação da perda do Star Tiger foi escolhida pelo Ministro da Aviação Civil britânico. Suas conclusões foram publicadas oito meses depois do desaparecimento de avião. Afirmavam que aparentemente não existiam bases para supor que o Star Tiger caíra ao mar devido a defeitos mecânicos ou de rádio, falta de combustível, falha no traçado da rota, azares meteorológicos, erros do altímetro, para falar apenas de algumas hipóteses. O desenho e a construção do Tudor IV foram considerados de tal forma, que nas palavras do relatório foi dito que... "nada havia de supor que no desenho do Tudor IV ou na fabricação deste determinado avião Tudor IV, o Star Tiger, tivesse havido erros técnicos ou omissões, julgadas por um padrão de alta qualidade..."
A opinião final da Comissão poderia igualmente ser aplicada em outros desaparecimentos de aeronaves dentro dos limites do Triângulo, tanto antes como depois do Star Tiger:
Pode ser realmente dito que nenhum problema mais estranho foi jornais apresentado para investigação... Diante da completa ausência de qualquer evidência segura quanto à natureza ou quanto às causas do desastre com o Star Tiger, esta corte não foi capaz de mais nada a não ser sugerir possibilidades, nenhuma das quais chegando a atingir o nível das probabilidades. Em todas as atividades que envolvem a cooperação do homem com a máquina, entram dois elementos de caracteres os mais diversos: o elemento indeterminado da equação humana dependente de fatores imperfeitos conhecidos; e o elemento mecânico, sujeito a leis muito diferentes. Pode ocorrer uma falha em cada um deles separadamente ou em ambos em conjunto: Ou alguma causa externa pode sobrepujar tanto o homem quanto a máquina. O
que aconteceu neste caso jamais será desvendado.
Por uma coincidência extraordinária e bastante inquietante ocorrida exatamente 12 dias antes do primeiro aniversário do desaparecimento do Star Tiger, um avião igual, o Star Ariel, que levava 7 tripulantes e 13 passageiros, desapareceu durante um VÔQ entre Bermuda e Jamaica no dia 17 de janeiro de 1949. Seu percurso completo era de Londres a Santiago do Chile, e a parada em Bermuda era no sentido de reabastecer-se de combustível para as 10 horas adicionais de vôo. Quando o Star Ariel deixou as Bermudas às 7h45m da manhã o mar estava calmo e as condições de tempo eram boas. Seu piloto enviou a seguinte mensagem de rotina para Bermuda cerca de 55 minutos após a decolagem:
"Fala o capitão McPhee, de bordo do Ariel com destino a Kingston, Jamaica, saindo das Bermudas. Já atingimos a altitude de cruzeiro. Tempo bom. Chegada a Kingston prevista para dentro do horário... Vou trocar a freqüência do rádio para entrar em comunicação com Kingston."
Nunca houve nenhuma mensagem posterior do Star Ariel. Aquela fora a última.
Quando começaram as buscas ao Star Ariel, havia uma forçatarefa da Marinha dos Estados Unidos em manobras naquela mesma área. Dois porta-aviões enviaram seus aviões para ajudarem os barcos da Guarda Costeira e os aviões da Força Aérea que partiram de vários pontos da costa do Atlântico; aviões ingleses das Bermudas e da Jamaica também foram enviados.
Cruzadores, destróieres, e o encouraçado americano Missouri se uniram aos barcos britânicos e aos navios mercantes que por acaso se encontravam na área. Foi enviado um radiograma a todos os navios que se encontravam nas proximidades:
"APARELHO DAS AEROVIAS BRITÂNICAS E SULAMERICANAS STAR ARIEL QUADRIMOTOR/ G-A-G-R-E SAIU
DE BERMUDA ÀS 1242 GMT 17 DE JANEIRO COM DESTINO A
JAMAICA
RUMO
DOIS