O Último Magnata

F. Scott Fitzgerald · Capítulo 2 de 2 · parte 4/6

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O Último Magnata

O Último Magnata

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

“Não acha que é inteligente da minha parte ir até lá de manhã?”, perguntei.

“É. Em se tratando do homem mais ocupado da Califórnia. Ele vai gostar. Por que você não o acordou às quatro da madrugada?”

“Bem por isso. À noite ele já está cansado. Passou o dia inteiro vendo pessoas pela frente, e algumas delas nem de longe desinteressantes. Se chego logo de manhã, os pensamentos dele tomam um rumo diferente.”

“Não gosto disso. É muito descarado.”

“O que você tem a oferecer? E não seja grosseiro.”

“Amo você”, disse ele, sem muita convicção. “E mais do que amo seu dinheiro, o que não é pouco. Quem sabe seu pai não me promova a supervisor?”

“Se quisesse, eu poderia me casar com o rapaz mais popular de Yale hoje mesmo, e ir morar em Southampton.”

Mudei de estação e encontrei duas opções, “Gone” e “Lost” — era um ano de boas canções. A música voltava a melhorar. Quando eu era mais jovem, durante a Depressão, não havia coisas tão animadas, e os melhores momentos tinham ficado nos anos 1920, com Benny Goodman tocando “Blue Heaven” ou Paul Whiteman, com “When Day Is Done”. Tudo o que havia para ouvir eram as orquestras. Mas agora eu gostava de tudo, menos do papai cantando “Little Girl, You’ve Had a Busy Day”, na tentativa de criar um clima sentimental entre pai e filha.

“Lost” e “Gone” não criavam o clima certo, então mudei de estação outra vez e sintonizei “Lovely to Look At”, que era o tipo de letra que me agradava. Olhei para trás enquanto cruzávamos o topo das montanhas mais baixas — o ar tão límpido que dava para ver as folhas das árvores em Sunset Mountain, a três quilômetros de distância. Às vezes a gente é arrebatado — pelo ar, simplesmente, desobstruído, descomplicado.

“Lovely to look at — de-lightful to know-w”, cantei.

“Você pretende cantar para o Stahr?”, quis saber Wylie. “Se for fazer isso, invente um verso dizendo quanto eu seria um bom supervisor.”

“Ah, mas a conversa vai se resumir a Stahr e a mim”, rebati. “Ele vai olhar pra mim e pensar: ‘Nunca tinha reparado nela pra valer’.”

“Essa fala não entrou em nenhum roteiro este ano.”

“… então ele vai dizer ‘Cecilinha’, do mesmo jeito como falou na noite do terremoto. Vai dizer que não tinha percebido que eu já era uma mulher.”

“E você não vai precisar mover uma palha.”

“Vou simplesmente ficar ali, resplandecente. Depois que ele tiver me beijado como quem beija uma criança…”

“Meu roteiro tem tudo isso”, queixou-se Wylie, “e preciso mostrá-lo a Stahr amanhã.”

“… ele então vai se sentar com as mãos no rosto e dizer que jamais havia pensado em mim daquela maneira.”

“Quer dizer que já no beijo vai rolar alguma coisa?”

“Vou estar ali, resplandecente, já te falei. Quantas vezes preciso dizer que estou na flor da idade?”

“Isso está começando a me soar bem picante”, falou Wylie. “Melhor a gente parar por aqui — preciso trabalhar ainda esta manhã.”

“Aí ele diz que parece que desde sempre esteve destinado a ser o que é.”

“Isso é puro cinema. É o sangue de produtor nas suas veias.” Ele fingiu um calafrio. “Odiaria receber uma transfusão desse negócio.”

“Aí ele diz…”

“Já sei as falas dele todas”, disse Wylie. “O que quero saber é quais são as suas.”

“Alguém entra”, continuei.

“E você dá um pulo, levantando-se do sofá enquanto alisa a saia.”

“Está querendo que eu desça aqui mesmo e volte pra casa?”

Estávamos em Beverly Hills, bairro que ia ficando muito bonito então, com seus pinheiros havaianos altos. Hollywood é uma cidade com nítidas divisões, de modo que se pode saber exatamente que classe de pessoas, economicamente falando, mora em cada região, de executivos e diretores aos técnicos, em seus bangalôs, e aos temporários. Aquele era o bairro dos executivos, e uma de suas fatias mais requintadas. Não chegava a ser tão romântico quanto os vilarejos melancólicos da Virginia ou de New Hampshire, mas parecia agradável naquela manhã.

“They asked me how I knew”, ressoava o rádio, “… my love was true.”

Meu coração pegava fogo, embaçando meus olhos e todo o resto, mas eu calculava minhas chances em meio a meio. Caminharia decidida para ele, sem deixar transparecer se iria passar direto ou beijá-lo na boca — e então pararia a uns poucos centímetros e diria “Olá” num tom desconcertantemente desprovido de ênfase.

E foi o que fiz — embora, claro, não tenha sido como esperava: os belos olhos escuros de Stahr olhando direto nos meus, sabedores, eu tinha essa certeza mortal, de tudo que se passava na minha cabeça — e sem se constranger por isso, nem um pouquinho. Acho que fiquei lá uma hora, imóvel, e ele não fez mais do que, com um esgar do canto da boca, colocar as mãos nos bolsos.

“Você vai comigo ao baile hoje à noite?”, perguntei.

“Que baile?”

“Dos roteiristas, no Ambassador.”

“Ah, sim.” Ele refletiu. “Não posso ir com você. Talvez apareça mais tarde. Temos uma pré-estreia em Glendale.”

Tudo muito diferente do que estava planejado. Quando ele se sentou, eu fiz o mesmo e recostei minha cabeça entre os telefones, como se fosse mais um item da escrivaninha, e olhei para ele; e os olhos escuros dele se mantiveram fixos nos meus, por gentileza e nada mais. Os homens geralmente não percebem esses momentos em que uma garota pode ser deles de graça. Consegui apenas que ele tivesse este pensamento: “Por que você não se casa, Celia?”

Talvez mencionasse Robby mais uma vez, tentando me arranjar um par.

“O que eu podia fazer pra que um homem interessante se interesse por mim?”

“Diga a ele que está apaixonada.”

“Fico no pé dele?”

“Sim”, ele disse, com um sorriso.

“Sei lá. Se a coisa não vai, é porque não é pra ser.”

“Eu me casaria com você”, ele respondeu, inesperadamente. “Estou me sentindo sozinho pra caramba. Mas sou um velho, e por demais cansado, pra assumir o que quer que seja.”

Dei a volta na escrivaninha e parei perto dele.

“Me assuma.”

Ele ergueu a vista, surpreso, pela primeira vez compreendendo que eu falava muito sério.

“Ah, não”, disse. Pareceu quase infeliz por um momento. “Sou casado com o cinema. Não tenho muito tempo” — e ele se corrigiu, rápido — “quero dizer, tempo nenhum.”

“Você não conseguiria me amar.”

“Não é isso”, ele falou e — exatamente como sonhei, mas com uma diferença: “Nunca pensei em você dessa maneira, Celia. Te conheço há tanto tempo. Alguém me falou que você ia se casar com Wylie White”.

“E você… nem reagiu.”

“Sim, reagi. Ia falar com você sobre isso. Espere até que ele complete dois anos sem beber.”

“Não estou nem considerando a hipótese, Monroe.”

A conversa havia fugido totalmente do rumo planejado, e, também como nos meus devaneios, alguém entrou — só que eu tinha quase certeza de que obedecendo a um comando oculto de Stahr.

Para sempre vou pensar naquele momento, quando senti a presença da srta. Doolan às minhas costas, bloco de anotações na mão, como o fim da infância, como se ali se encerrasse aquele tempo em que a gente recorta figuras. Estava olhando não para Stahr, à minha frente, mas para uma figura dele que eu recortara repetidas vezes: o olhar que, irradiando uma sofisticada compreensão acerca do interlocutor, logo apontava na direção das amplas sobrancelhas, dardejando seus dez mil planos e complôs; o rosto que envelhecia a partir de dentro, de modo que não havia nele rugas de preocupação ou aflição, apenas um ascetismo subtraído a uma silenciosa batalha autoimposta — ou a alguma doença duradoura. Era mais atraente para mim do que qualquer rapaz corado e bronzeado circulando entre Coronado e Del Monte. Ele era minha figura recortada, como se fotos suas tivessem decorado meu armário na escola. Foi o que eu disse a Wylie White, e, quando uma garota fala ao homem que é seu segundo preferido a respeito do primeiro… é porque está apaixonada.

*

Reparei na moça muito antes de Stahr aparecer no baile. Não era bonita, pois não há moças assim em Los Angeles — uma sozinha até chama atenção, mas pegue uma dúzia delas e já não se diferenciam. Tampouco era uma beldade profissional — do tipo que torna o ar rarefeito a ponto de até os homens saírem do recinto para respirar. Uma moça apenas, com a pele de um dos anjos coadjuvantes de Rafael e um estilo que obrigava a uma segunda inspeção para ver se o que chamou atenção é alguma coisa que ela está usando.

Reparei nela e a esqueci. Estava sentada nos fundos, atrás de umas colunas, numa mesa cujo atrativo era uma estrela de segunda e esquecida, a qual, na esperança de ser notada e conseguir uma ponta, se levantava para dançar com uns sujeitos desalinhados de quando em quando. Eu me lembrei, com vergonha, da minha primeira festa, em que a mamãe me fez dançar vezes sem conta com o mesmo rapaz para me manter sob os holofotes. A atriz de segunda falou com várias das pessoas da nossa mesa, mas, como tínhamos mais o que fazer com nossa encenação de membros da alta sociedade, não conseguiu nada.

Do nosso ponto de vista, parecia que todos ali queriam alguma coisa.

“Espera-se que a gente circule animadamente”, disse Wylie White, “como nos velhos tempos. Quando percebem o propósito, perdem o interesse. Daí toda essa melancolia — a única maneira de esse pessoal manter a autoestima é se portando como personagens de Hemingway. Mas, lá no fundo, sentem pela gente um ódio funesto, e a gente sabe disso.”

Ele tinha razão — eu sabia que desde 1933 os ricos só conseguiam ser felizes sozinhos quando reunidos.

Vi o momento em que, à meia-luz no alto da ampla escada, Stahr entrou e, parado com as mãos nos bolsos, olhou em volta. Era tarde, e as luzes pareciam brilhar menos, embora fossem as mesmas. O espetáculo no tablado tinha terminado, exceto por um sujeito que, com um letreiro, anunciava que à meia-noite, no Hollywood Bowl, Sonja Henie ia patinar em sopa quente. O homem seguia sua dança, e o letreiro às suas costas ia perdendo a graça. Alguns anos antes, haveria por ali uns bêbados. A estrela esquecida parecia estar procurando por eles, esperançosa, por cima do ombro de seu parceiro de pista. Eu a segui com os olhos enquanto retornava à mesa…

… e lá estava Stahr, para minha surpresa, conversando com a outra moça. Sorriam um para o outro como se o mundo estivesse começando ali.

*

Stahr não estava esperando nada daquilo quando parou no alto da escada, minutos antes. A pré-estreia o decepcionara e, depois dela, e ainda bem em frente ao cinema, ele havia se envolvido numa cena com Jacques La Borwitz que agora lamentava. Já se dirigia para onde estava reunido o pessoal de Brady, na festa, quando viu Kathleen sentada sozinha no centro de uma mesa comprida e branca.

A coisa mudou imediatamente. À sua passagem, a caminho de onde estava a moça, as pessoas se encolhiam junto às paredes até parecerem figuras pintadas num mural; a mesa branca se tornou ainda mais comprida, um altar onde a sacerdotisa permanecia só. A vitalidade nele cresceu, e Stahr poderia ter ficado um longo tempo parado, de frente para ela, do outro lado daquela mesa, a olhar e sorrir.

Os donos da mesa iam retornando, rastejantes — Stahr e Kathleen dançavam.

Quando a moça chegou mais perto, as várias visões que eu tivera dela se embaralharam; por um momento, tornou-se irreal. Em geral, o crânio de uma garota a fazia palpável, mas não daquela vez — Stahr seguiu embevecido enquanto cruzavam a pista de dança até a última fronteira, onde, atravessando um espelho, adentraram um outro baile, com outros dançarinos, cujos rostos eram familiares, porém nada mais do que isso. Nesse novo território, ele começou a falar, veloz e urgente.

“Como você se chama?”

“Kathleen Moore.”

“Kathleen Moore”, ele repetiu.

“Não tenho telefone, se é nisso que você está pensando.”

“Quando você vai aparecer lá no estúdio?”

“Isso não vai ser possível. De verdade.”

“Por que não? Você é casada?”

“Não.”

“Não é casada?”

“Não, nem nunca fui. Mas um dia serei, quem sabe.”

“Alguém daquela mesa?”

“Não.” Ela riu. “Quanta curiosidade!”

Mas ela estava profundamente envolvida com ele, dissessem o que dissessem um ao outro. Seus olhos o convidavam a uma comunhão romântica de intensidade inacreditável. Como se tivesse se dado conta disso, ela disse, assustada: “Preciso voltar pra lá agora. Minha próxima dança já está prometida.”

“Não quero perder você de vista. Será que podemos almoçar ou jantar juntos?”

“Impossível.” Mas sua expressão, sem que ela pudesse evitar, corrigia a frase: “É possível, quem sabe. A fresta da porta continua aberta, se você for capaz de se esgueirar por ela. Mas rápido — temos pouco tempo”.

“Preciso voltar”, ela disse outra vez, mais alto. Então deixou cair os braços, parou de dançar e olhou para ele com um riso travesso.

“Quando estou com você, não respiro direito”, falou.

Segurando a barra do vestido, virou as costas e atravessou de volta o espelho. Stahr a seguiu até perto da mesa, onde ela parou.

“Obrigada pela dança”, ela disse, “e agora, sério, boa noite.”

E então quase saiu correndo.

Stahr foi até a mesa em que o esperavam e se juntou ao grupo da alta-roda — de Wall Street, Grand Street, Loundon County, Virginia e Odessa, Rússia. Falavam todos, entusiasmados, sobre um cavalo que fizera uma carreira muito veloz, o sr. Marcus o maior entusiasta do tema entre eles. Stahr aventou que os judeus teriam se apoderado do culto a cavalos como algo simbólico — durante anos os cossacos é que andavam montados, e os judeus, a pé. Agora os judeus tinham seus cavalos, o que lhes dava um senso de extraordinário bem-estar e poder. Stahr se sentou e fingiu prestar atenção, chegando a aquiescer quando algo era dito a seu respeito, mas o tempo todo espiando a mesa atrás das colunas. Se tudo não tivesse sido como foi, até mesmo o fato de ele ter ligado o cinto prateado à moça errada, Stahr talvez pensasse que se tratava de alguma elaborada armação. Mas a obscuridade daquilo estava além de qualquer suspeição. E no momento seguinte ele viu que ela lhe escapava novamente — a gesticulação na outra mesa indicava que se despediam. Ela estava indo embora, ele a perdia.

“Lá vai a Cinderela”, disse Wylie White, malicioso. “Favor devolver o sapatinho na Sapataria Regal, 812, South Broadway.”

Stahr a alcançou no comprido saguão do piso de cima, onde mulheres de meia-idade, acomodadas num espaço reservado, isolado por cordas, observavam a entrada do salão de baile.

“Está indo embora por minha causa?”, ele perguntou.

“Já estava indo mesmo.” Mas acrescentou, quase com ressentimento: “Ficaram falando como se eu tivesse dançado com o príncipe de Gales. Todos me olhando. Um dos homens queria desenhar um retrato meu, outro queria me ver amanhã”.

“Isso é tudo o que eu quero”, falou Stahr, suave, “mas quero muito mais do que ele.”

“Como você é insistente”, disse ela, fatigada. “Uma das razões por que vim embora da Inglaterra é que lá os homens sempre queriam impor a vontade deles. Pensei que aqui fosse diferente. Não basta eu dizer que não quero te encontrar?”

“Normalmente, sim”, concordou Stahr. “Por favor, acredite em mim, já estou muito fora do meu normal. Eu me sinto um idiota. Mas preciso que a gente volte a se ver e conversar.”

Ela hesitou.

“Não há razão pra se sentir um idiota”, falou. “Você é um homem bom demais pra se sentir assim. Mas devia enxergar esta situação como ela é.”

“E como ela é?”

“Você se apaixonou por mim — completamente. Você sonha comigo.”

“Tinha te esquecido”, declarou ele, “até o momento em que entrei por aquela porta.”

“Me esqueceu em pensamento, talvez. Mas soube de cara, ao te conhecer, que você é o tipo de homem que gosta de mim…”

Ela se interrompeu. Perto deles, um homem e uma mulher, também convidados da festa, se despediam: “Diga que mandei um oi pra ela — diga que a amo muito”, falou a mulher, “… vocês dois — vocês todos — as crianças”. Stahr não era capaz de dizer coisas assim, coisas que todo mundo dizia. Não conseguiu pensar em nada mais para falar a ela, enquanto caminhavam até o elevador, além de: “Acho que você tem toda razão.”

“Ah, então admite?”

“Não, não é isso”, ele recuou. “É que você tem esse jeito: as coisas que diz, o jeito de andar, sua aparência neste exato minuto…” Notou que ela cedia um pouco, e sua esperança aumentou. “Amanhã é domingo, e em geral trabalho aos domingos, mas, se você tiver curiosidade sobre qualquer coisa em Hollywood, qualquer pessoa que queira conhecer ou encontrar, deixe que eu marque pra você, por favor.”

Estavam parados perto do elevador. A porta se abriu, mas ela não entrou.

“Como você é modesto”, disse. “Só fica falando sobre me mostrar o estúdio, me levar pra lá e pra cá. Você nunca fica sozinho?”

“Amanhã vou estar me sentindo muito sozinho.”

“Ah, pobre rapaz — estou quase chorando por você. Ele tem todas as estrelas do cinema dando em cima e escolhe a mim.”

Stahr sorriu — tinha deixado a guarda aberta àquele ataque.

O elevador chegou novamente. Ela fez sinal ao ascensorista para esperar.

“Sou uma mulher fraca”, falou. “Se aceitar que nos encontremos amanhã, você vai me deixar em paz? Não, não vai. Você vai se comportar ainda pior. Não pode dar boa coisa, só me prejudicar, por isso digo que não, obrigada.”

Ela entrou no elevador. Stahr entrou junto, e os dois sorriram enquanto desciam os dois andares até o saguão, ocupado por lojinhas. Do outro lado, a multidão era contida pela polícia, cabeças e ombros inclinados para a frente, tentando enxergar a passarela. Kathleen estremeceu.

“Eles me pareceram tão estranhos quando cheguei”, disse, “como se estivessem furiosos comigo por não ser famosa.”

“Conheço outra saída.”

Atravessaram um armazém, desceram por uma alameda e saíram na noite clara e fresca da Califórnia, ao lado do estacionamento. Ele se sentia distante do baile agora, ela também.

“Muita gente do cinema costumava morar por aqui”, ele disse. “John Barrymore e Pola Negri, naqueles bangalôs ali. E Connie Talmadge vivia naquele prédio de apartamentos estreito e alto, lá adiante.”

“Alguém ainda mora aqui hoje?”

“Os estúdios se mudaram para a área rural”, ele falou, “para onde antigamente era a área rural. Mas passei uns bons momentos aqui.”

Não mencionou que, dez anos antes, Minna e a mãe dela haviam morado em outro dos apartamentos lá adiante.

“Quantos anos você tem?”, ela quis saber, de repente.

“Perdi as contas — quase trinta e cinco, acho.”

“Na mesa, falaram de você como um menino prodígio.”

“Isso é o que eu vou ser aos sessenta”, ele respondeu, taciturno. “Você vai me encontrar amanhã, não vai?”

“Vou”, ela disse. “Onde?”

De repente não havia um lugar para se encontrarem. Ela não iria a uma festa na casa de alguém, nem para o campo, tampouco nadar, embora tenha hesitado aqui, e a um restaurante conhecido também não. Parecia difícil de agradar, mas ele sabia que era por alguma razão. A seu tempo descobriria qual. Ocorreu-lhe que talvez ela fosse irmã ou filha de alguém famoso, comprometida a manter-se discreta. Sugeriu que ele a fosse buscar e eles poderiam, então, decidir.

“Não vai dar certo”, ela falou. “Que tal aqui? — mesmo lugar.”

Ele concordou com a cabeça — apontando para o arco debaixo do qual se encontravam.

Levou-a até o carro dela, pelo qual não obteria mais do que oitenta dólares no mercado de usados, e isso se encontrasse um comprador generoso, e a observou se afastar num ronco barulhento. Na entrada da festa, um alarido acompanhou a saída de outro favorito do público, e Stahr pensou se voltava até lá para se despedir.

*

Aqui é Celia, retomando em pessoa a narrativa. Stahr finalmente voltou — eram mais ou menos três e meia — e me convidou para dançar.

“Como você está?”, ele quis saber, como se não tivesse me visto de manhã. “Acabei precisando conversar longamente com um cara.”

Ele queria manter segredo também — a coisa era séria.

“Levei-o para dar uma volta de carro”, continuou ele, inocentemente. “Não tinha me dado conta de quanto esta parte de Hollywood está mudada.”

“Mudada?”

“Ah, sim”, ele falou, “completamente. Irreconhecível. Não saberia te dizer muito bem o quê, mas mudou totalmente — tudo. Como se fosse uma cidade nova.” Passado um momento, ele reforçou: “Não tinha ideia de quanto estava mudada”.

“E quem era o cara?”, sondei.

“Um velho amigo”, ele respondeu, vago, “alguém que conheci há muito tempo.”

Eu havia pedido ao Wylie que tentasse discretamente descobrir quem ela era. Ele fora até a mesa e a ex-estrela, animada, o fizera se sentar. Não: ela não sabia quem era a moça — a amiga de uma amiga de alguém — nem o homem que a trouxera sabia bem.

De modo que Stahr e eu dançamos ao som da linda música de Glen Miller — tocava “I’m on a See-Saw”. Estava bom de dançar agora, com bastante espaço na pista. Mas a solidão era maior — maior do que antes de a garota ir embora. Para mim, assim como para Stahr, ela havia levado a noite consigo, carregado com ela a dor da punhalada que eu sentira — deixado o grande salão de baile vazio e sem emoção. Agora já não havia nada, e eu dançava com um homem distraído, que me falava sobre como Los Angeles estava mudada.

*

Na tarde seguinte, eles se encontraram como se fossem estranhos num país estrangeiro. A noite anterior era passado, a garota com quem ele havia dançado não existia mais. Um chapéu de cor indistinta entre o rosa e o azul, com um véu quase imperceptível, atravessou o terraço na direção dele, então parou, sondando-lhe o rosto. Stahr também parecia um estranho para ela, terno marrom e gravata preta que o tornavam um homem mais tangível do que o smoking da festa, ou do que o rosto e a voz na escuridão da noite em que se conheceram.

Ele foi o primeiro dos dois a ter certeza de que estava diante da mesma pessoa: na parte superior, o rosto era o de Minna, luminoso, têmporas delicadas de um castanho cujos reflexos cambiantes compunham o tom suave do cabelo cacheado. Stahr até poderia tê-la envolvido com um braço e puxado para junto dele quase com a intimidade com que se abraça alguém da família — já conhecia, nela, a curva do pescoço, a própria compleição da coluna vertebral, os cantos dos olhos e o jeito de respirar — mesmo a textura das roupas que usava.

“Você ficou a noite toda aqui esperando?”, perguntou ela, a voz sussurrante.

“Nem me mexi do lugar.”

O problema persistia, ainda o mesmo — não tinham aonde ir.

“Queria tomar um chá”, ela sugeriu, “se houver um lugar onde você não seja conhecido.”

“Você falando assim, parece que um de nós tem má reputação.”

“E não é verdade?”, ela riu.

“Vamos até a praia”, convidou Stahr. “Tem um lugar lá onde, certa vez, fui perseguido por uma foca amestrada.”

“Você acha que essa foca poderia nos preparar um chá?”

“Bem — ela é amestrada. Mas não acho que seja capaz de falar — não acho que seja amestrada a esse ponto. Que coisa é essa que você está tentando esconder?”

Passado um momento, ela falou, suave: “Talvez o futuro”, e de um jeito que poderia significar qualquer coisa, ou mesmo coisa nenhuma.

Quando iam saindo, no carro dele, ela apontou para o dela, um calhambeque no estacionamento.

“O que você acha, é seguro?”

“Sei não. Notei uns forasteiros barbudos rondando por aí.”

Kathleen olhou para ele, alarmada.

“Sério?” Viu que ele sorria. “Acredito em tudo o que você diz”, falou. “É esse seu jeito meigo. Não entendo por que as pessoas têm tanto medo de você.” Ela o perscrutou, em aprovação — um pouco apreensiva com a palidez dele, acentuada pela tarde iluminada. “Você trabalha tanto assim? Trabalha mesmo todo domingo?”

Ele satisfez o interesse dela — de forma impessoal, mas não indiferente.

“Nem sempre. Antigamente tínhamos uma casa — tínhamos uma casa com piscina e tal — e o pessoal aparecia aos domingos. Eu costumava jogar tênis e nadar. Não nado mais.”

“Por que não? Faz bem pra você. Pensei que todos os americanos nadassem.”

“Minhas pernas ficaram finas demais — já faz alguns anos, e passei a ter vergonha. Tem outras coisas que eu costumava fazer — um monte de coisas: jogava handebol quando garoto, e às vezes aqui mesmo — tínhamos uma quadra, que foi destruída por uma tempestade.”

“Você tem um bom físico”, ela disse, um elogio formal, querendo dizer apenas que ele era um magro elegante.

Stahr fez que não com a cabeça, rejeitando o comentário.

“O que mais gosto é de trabalhar”, ele disse. “Meu trabalho é muito agradável.”

“Você sempre quis trabalhar com cinema?”

“Não. Quando era mais jovem, queria ser um gerente de escritório — do tipo que sabe onde é o lugar de cada coisa.”

Ela sorriu.

“Engraçado. E hoje você é muito mais do que isso.”

“Não, acabei sendo mesmo um gerente de escritório”, falou Stahr. “É meu dom, se é que tenho algum. Só que, assim que assumi meu posto, descobri que ninguém sabia o lugar de nada. E descobri que era preciso saber por que cada coisa estava onde estava, e se devia ou não ser deixada ali. Começaram a jogar tudo pra mim, e era um ofício dos mais complexos. Logo passei a ter todas as chaves. E eles não se lembrariam mais qual delas abria cada uma das fechaduras, caso eu as devolvesse.”

Pararam num sinal vermelho, e um vendedor de jornais avançou até ele, aos berros: “Mickey Mouse Assassinado! Randolph Hearst declara guerra à China!”.

“Vamos ter de comprar esse jornal”, ela disse.

Quando seguiram adiante, ela endireitou o chapéu e se recompôs. Vendo que ele a observava, sorriu.

Ela estava alerta e calma — virtudes que, naquele momento, eram valiosas. Por toda parte dominava a lassidão — a Califórnia estava cheia de gente fatigada e sem nada a perder. E havia jovens, rapazes e moças, que viviam tensos porque, em espírito, ainda estavam na Costa Leste, enquanto ali travavam, e perdiam, uma batalha contra o clima. Mas o segredo que todos tinham em comum era a dificuldade de manter algum esforço continuado — um segredo que Stahr não conseguia admitir de fato nem para si mesmo. Ele sabia, porém, que pessoas de outros lugares traziam um fluxo de energia nova durante algum tempo.

Os dois agora se tratavam amavelmente. Ela não havia feito um movimento sequer, nem tomado atitude alguma que destoasse de sua beleza, que de algum modo saísse do esquadro. Estava tudo em seu lugar. Ele a avaliava como o faria com a tomada de um filme. E ela não era como uma daquelas filmagens ruins, não era confusa, era clara — segundo o sentido especial que ele dava à palavra, o que implicava equilíbrio, sutileza e proporção, era “agradável”.

Chegaram a Santa Monica, onde se localizavam as mansões de uma dúzia de astros e estrelas, encurraladas em meio a uma superlotação que em breve seria equivalente à de Coney Island. Desceram o morro na direção da vastidão do céu e do mar azuis, contornando a costa até que a praia tivesse novamente se transformado numa faixa amarela que se estreitava e alargava, os banhistas sumindo e reaparecendo em igual proporção.

“Estou construindo uma casa nesta área”, contou Stahr, “bem mais adiante. Nem sei por que estou fazendo isso.”

“Talvez pra mim.”

“Talvez.”

“Acho esplêndido que você esteja construindo uma mansão pra mim sem nem saber como eu era.”

“Não é bem uma mansão. E não tem telhado. Eu não sabia que tipo você ia querer.”

“Não precisamos de telhado. Me disseram que aqui nunca chovia. É como…”

Pela forma repentina como ela se interrompeu, ele soube que se lembrara de alguma coisa.

“É só uma coisa que já passou”, disse ela.

“Que coisa?”, ele quis saber, “outra casa sem telhado?”

“É. Outra casa sem telhado.”

“Você era feliz lá?”

“Eu vivia com um cara”, ela falou, “há muito, muito tempo — tempo demais. Um desses erros terríveis que a gente comete. Continuei a morar com ele por um longo tempo após ter resolvido que não queria mais, mas ele não me deixava ir embora. Até tentava, mas não conseguia deixar. Até que, finalmente, fugi.”

Ele escutava, pesando as palavras dela, mas sem julgá-la. Nenhuma alteração sob o chapéu azul e rosa. Ela tinha uns vinte e cinco anos. Teria sido um desperdício se não amasse e fosse amada.

“Éramos próximos demais”, ela contou. “Talvez devêssemos ter tido filhos — seriam um contrapeso à relação. Mas não dá pra ter filhos quando a casa nem um teto tem.”

Certo, agora ele sabia alguma coisa dela. Não seria mais como na noite anterior, quando, como se estivesse numa reunião de roteiro, ele não parava de se dizer: “Não sabemos nada da moça. Não precisamos saber muito — mas precisamos saber alguma coisa”. Um vago passado se desenhava atrás dela, algo mais tangível do que a cabeça de Shiva ao luar.

Chegaram ao restaurante, lotado de carros em passeio de domingo. Ao desembarcarem, o grito da foca amestrada disparou reminiscências em Stahr. O dono contou que o animal jamais andava no banco de trás do carro, sempre passava para o da frente. O homem, era evidente, criara laços com o animal, embora ainda não admitisse isso para si mesmo.

“Queria ir ver a casa que você está construindo”, disse Kathleen. “Não quero chá — chá é passado.”

Bebeu uma coca em vez disso, e eles então seguiram em frente por mais uns quinze quilômetros sob um sol tão forte que ele precisou apanhar dois pares de óculos escuros num compartimento. Mais uns seis ou sete quilômetros e desceram uma pequena colina, chegando à estrutura da casa de Stahr.

Uma rajada vinda das bandas do sol lançou um borrifo por sobre as pedras e para cima do carro. Uma betoneira, toras de madeira e detritos de construção, uma ferida aberta na paisagem marinha, jaziam à espera de que o domingo acabasse. Eles circularam perto da fachada, onde se erguiam enormes pilastras para sustentar o que viria a ser o terraço.

Ela olhou para as frágeis montanhas atrás, sobressaltando-se de leve diante de seu árido esplendor, e Stahr percebeu…

“Não adianta procurar pelo que não está aí”, falou, animado. “Imagine que você está em cima de um daqueles globos com o mapa da Terra — sempre quis ter um quando era menino.”

“Entendi”, disse ela, depois de um momento. “Fazendo isso, você consegue sentir a Terra girar, não é?”

Ele aquiesceu.

“É. Senão seria sempre mañana — à espera da manhã ou da lua.”

Adentraram a estrutura de andaimes. Uma das peças, projetada para ser o salão principal, já tinha até as estantes de livros embutidas, os suportes das cortinas e o alçapão no chão, onde se acomodaria o projetor de filmes. E, para surpresa de Kathleen, o cômodo dava para uma varanda com cadeiras estofadas e uma mesa de pingue-pongue a postos. Uma segunda mesa de pingue-pongue ficava no recém-plantado gramado, logo adiante.

“Na semana passada, trouxe convidados para um almoço pré-inauguração”, ele confessou. “Tinha plantado umas mudas — grama e outras coisinhas. Queria ver como ficaria a atmosfera do lugar.”

Ela riu de repente.

“Isso é grama de verdade?”

“É, sim — é de verdade.”

Adiante da faixa que prenunciava o gramado, a escavação do que seria a piscina, naquele momento tomada por um bando de gaivotas que, ao percebê-los, alçou voo.

“Você vai morar aqui totalmente sozinho?”, ela quis saber. “Não vai trazer nem umas dançarinas?”

“Provavelmente. Costumava fazer planos, mas agora não mais. Pensei que aqui seria um bom lugar pra ler meus roteiros. O estúdio é minha casa de verdade.”

“Foi o que me contaram sobre os homens de negócios americanos.”

Ele notou um toque de crítica no comentário.

“A gente faz aquilo que nasceu pra fazer”, falou, suave. “Mais ou menos uma vez por mês alguém tenta me reformar, me diz que vou ter uma velhice vazia quando não puder mais trabalhar. Mas a coisa não é tão simples.”

O vento engrossava. Era hora de ir, e ele já havia tirado as chaves do carro do bolso e as chacoalhava na mão, absorto. O toque metálico de um telefone gritou de algum lugar, atravessando a tarde ensolarada.

Não tinha vindo de dentro da casa, e os dois agora corriam de lá para cá no jardim, feito crianças brincando de esconde-esconde — até que, finalmente, acorreram ao depósito de ferramentas junto à quadra de tênis. O telefone, aborrecido pela demora, latia ameaçadoramente da parede. Stahr hesitou.

“Deixo essa porcaria tocar?”

“Eu não conseguiria. A menos que tivesse certeza de quem é.”

“Ou é engano, ou alguém tentando me achar.”

Atendeu.

“Alô… Interurbano de onde? Sim, é o sr. Stahr quem está falando.”

Sua atitude mudou perceptivelmente. Ela presenciava o que poucos antes dela haviam visto em uma década: Stahr estava impressionado. Não chegava a ser inédito, porque ele com frequência fingia se impressionar, mas aquilo o fez parecer mais jovem por um momento.

“É o presidente”, ele disse a ela, num tom quase severo.

“Da sua companhia?”

“Não, dos Estados Unidos.”

Tentava agir naturalmente por causa dela, mas sua voz denotava ansiedade.

“Certo, eu aguardo”, respondeu ao telefone, e virando-se para Kathleen: “Já falei com ele outras vezes”.

Ela ficou observando. Ele sorriu de volta e piscou, como prova de que, embora devesse dar toda a atenção àquilo, não a havia esquecido.

“Alô”, disse logo em seguida. Ficou escutando. Então falou novamente: “Alô”. Franziu o cenho.

“Você poderia falar mais alto”, pediu, educado, e então: “Quem?… O que significa isso?”

Ela viu que a expressão do rosto dele era de contrariedade agora.

“Não quero falar com ele”, disse Stahr. “Não!”

Voltou-se para Kathleen: “Acredite se quiser, mas é um orangotango.”

Esperou até que uma longa explicação tivesse terminado; então repetiu: “Não quero falar com ele, Lew. Não tenho nada a dizer que possa interessar a um orangotango.”

Acenou para Kathleen se aproximar e, quando ela chegou ao telefone, ele segurou o aparelho de modo que pudesse escutar uma estranha respiração e um grunhido roufenho do outro lado da linha. Em seguida, uma voz: “Não é armação, Monroe. Ele é capaz de falar e é a cara do McKinley. O senhor Horace Wickersham está aqui comigo, com uma foto do McKinley na mão…”

Stahr ouvia pacientemente.

“Já temos um chimpanzé”, falou, depois de um momento. “Arrancou um pedaço do John Gilbert no ano passado… Tá certo, coloque o bicho na linha de novo.”

Adotou um tom formal, como se falasse a uma criança.

“Alô, orangotango.”

Sua expressão mudou, e ele se virou para Kathleen.

“Ele disse ‘Alô’.”

“Pergunte o nome dele”, sugeriu a moça.

“Alô, orangotango — meu Deus, era só o que me faltava! —, você sabe o seu nome?… Parece que não sabe… Escute, Lew. Não estamos filmando nada parecido com Kink Kong, e O macaco peludo não tem nenhum macaco… Claro que tenho certeza. Sinto muito, Lew, tchau.”

Ficou aborrecido com Lew, pois pensou mesmo que fosse o presidente e por isso tinha mudado sua atitude, agindo de acordo com a suposta ocasião. Sentiu-se um pouco ridículo, mas Kathleen se sensibilizou e passou a gostar mais dele porque, do outro lado da linha, era um orangotango.

*

Tomaram o caminho de volta, ao longo da costa, com o sol atrás deles agora. A casa parecia mais acolhedora quando partiram, como se isso tivesse sido consequência da visita — o brilho áspero do lugar era mais suportável quando não se estava ali só de passagem, como visitantes na superfície resplandecente da Lua. Olhando para trás a partir de uma curva na costa, viram o céu ganhando um tom rosado por detrás da estrutura incompleta, e aquele ponto lá no alto pareceu uma simpática ilha, ao mesmo tempo que prometia horas agradáveis num dia futuro.

Depois de passarem por Malibu, com seus bangalôs vistosos e barcaças de pesca, estavam de volta à seara humana de carros empilhados congestionando a extensão da rodovia, de praias feito formigueiros sem nenhum padrão, exceto pelas cabeças que, no mar, eram pontos pretos salpicados.

Confortos de cidade eram cada vez mais visíveis — cobertores, esteiras, guarda-sóis, fogareiros, sacolas cheias de roupas —; os prisioneiros haviam posto de lado suas algemas naquela areia. Era seu aquele mar, se Stahr assim o quisesse, ou se soubesse o que fazer com ele — apenas com seu consentimento é que outros molhavam os pés e os dedos nas frias e turbulentas águas do mundo do homem.

Stahr pegou um desvio a partir da estrada do mar, subindo um cânion e contornando uma montanha por outra via, deserta de gente. O morro foi virando a periferia da cidade. Parou para abastecer e estava de pé junto ao carro.

“A gente podia ir jantar”, falou, em tom quase ansioso.

“Você talvez estivesse trabalhando a esta hora.”

“Não — não tinha planejado nada. Não podíamos sair pra jantar?”

Ele sabia que ela tampouco tinha planos — nenhum compromisso à espera ou lugar especial aonde ir.

Ela regateou.

“Que tal se a gente fosse comer alguma coisa naquela lanchonete ali do outro lado da rua?”

Ele deu uma olhada no lugar, avaliando.

“É isso mesmo que você quer?”

“Gosto de comer nessas lanchonetes americanas. Me parecem uma coisa tão esquisita, tão estranha.”

Sentaram-se em banquetas altas para tomar sopa de tomate e comer sanduíches quentes. Era a coisa mais íntima que haviam feito juntos, e ambos sentiram uma espécie perigosa de solidão, e a perceberam um no outro. Compartilharam os cheiros variados do lugar, o amargor, a doçura e o azedume, o mistério da garçonete, que tinha o cabelo tingido apenas na superfície e preto por baixo, e, refeição terminada, a natureza morta de seus pratos vazios — uma casca de batata, um pedaço de picles e um caroço de azeitona.

*

Na rua, sob o crepúsculo, já não parecia esforço nenhum sorrir para ele quando entraram no carro.

“Muito obrigada. Foi uma tarde agradável.”

Não estavam longe da casa dela. Sentiram que o início do trecho mais íngreme e o carro roncando mais alto, em segunda marcha, eram o começo do fim. Os bangalôs na subida do morro tinham as luzes acesas — ele ligou também os faróis. Stahr sentia um peso na boca do estômago.

“Vamos sair outras vezes.”

“Não”, ela respondeu de pronto, como se estivesse esperando por aquilo. “Vou te escrever uma carta. Me desculpe por esse mistério todo — na verdade, faço isso como consideração a você, pois te quero muito bem. Você devia tentar não trabalhar tanto. Precisa se casar de novo.”

“Ah, não é isso que você devia dizer”, ele desabafou em protesto. “Fomos só nós dois hoje. Pode não ter significado nada pra você — pra mim significou muito. Queria ter mais tempo pra te falar sobre isso.”

Mas, se ele ganharia o tempo que queria, teria de ser na casa dela, pois já tinham chegado e, enquanto o carro encostava à entrada, ela fazia que não com a cabeça.

“Preciso ir agora. Na verdade, sou comprometida. Não contei a você.”

“Não é verdade. Mas tudo bem.”

Acompanhou-a até a porta, parando nos degraus que eram seus desde a outra noite, à espera de que ela encontrasse as chaves dentro da bolsa.

“Achou?”

“Achei”, ela disse.

Era a deixa para que ela entrasse, mas queria olhar para ele uma vez mais e, deitando a cabeça para a esquerda, depois para a direita, tentava divisar seu rosto na última claridade do crepúsculo. Inclinou-se demais para a frente, e foi natural que a mão dele terminasse por lhe tocar a parte de trás do braço e o ombro, e que ele a trouxesse para junto da sombra do peito. Ela fechou os olhos, sentindo o serrilhado da chave no punho apertado. Soltou um “ah” num suspiro, e então outro “ah”, enquanto ele a puxava ainda mais para perto e, com o queixo, girava o rosto dela de leve. Ambos sorriam quase imperceptivelmente, e ela tinha o cenho franzido também, quando a minúscula distância entre eles se dissolveu na escuridão.

Quando voltaram a se afastar, ela balançava a cabeça ainda, embora mais de espanto do que tentando negar o que acontecia ali. E era assim que acontecia, então, de repente, culpa sua, mas desde muito antes, em que momento? Acontecia assim, de repente, e a cada instante o fardo de arrancar a si mesma da união dos dois, daquilo, se tornava mais pesado e inimaginável. Ele estava exultante; ela se ressentia e não podia culpá-lo, mas não compartilharia daquele júbilo, pois era uma derrota. Até então era uma derrota. E então ela pensou que, se interrompesse a situação de derrota, abandonando-o ali e entrando em casa, ainda assim não seria uma vitória. Simplesmente não seria nada.

“Isso não foi ideia minha”, disse, “não foi ideia minha mesmo.”

“Posso entrar?”

“Ah, não — não.”

“Então vamos nos enfiar nesse carro e partir pra algum lugar.”

Aliviada, ela se ateve à exata expressão — partir dali imediatamente era uma vitória, ou assim parecia — como se escapasse da cena de um crime. E logo estavam no carro, morro abaixo com a brisa fresca contra o rosto, e aos poucos ela voltou a si. Agora tudo ficava claro, preto no branco.

“Vamos voltar pra sua casa na praia”, ela falou.

“Pra lá?”

“É — voltar pra sua casa. Não vamos falar mais nada. Só quero ir.”

*

De volta à costa, o céu estava cinzento, e em Santa Monica uma súbita pancada de chuva se abateu sobre eles. Stahr parou no acostamento, colocou uma capa de chuva e puxou a capota de lona. “Temos um teto”, disse.

O limpador de para-brisa tiquetaqueava, um som caseiro, como o do relógio do vovô. Taciturnos, carros deixavam as praias úmidas em direção à cidade. Mais adiante, neblina — os acostamentos da estrada, de ambos os lados, desapareceram, e as luzes dos carros na outra pista pareciam estáticas até pouco antes de, num clarão, cruzarem em sentido contrário.

Os dois haviam deixado para trás uma parte de si mesmos, e se sentiam leves e livres naquele carro. A neblina se infiltrava por uma fresta, e Kathleen tirou o chapéu rosa e azul de um jeito calmo e lento que o levou a observá-la, tenso, e então ela guardou o acessório sob um pedaço de lona no banco de trás. Depois balançou o cabelo e, ao ver que Stahr ainda olhava, sorriu.

O restaurante da foca amestrada não passava de um ponto de luz na direção do oceano. Stahr baixou o vidro com um rangido e procurava por pontos de referência, mas uns poucos quilômetros adiante a neblina cedeu, e logo à frente deles uma curva da estrada levou à casa. Ali, a lua aparecia por trás das nuvens. Sobre o mar, havia ainda uma luz cambiante.

A casa tinha se recolhido um pouco a seus aspectos mais concretos. A caminho do único cômodo já pronto, cheirando a serragem e madeira molhada, passaram pelas vigas gotejantes de um batente de porta e venceram misteriosos obstáculos que lhes alcançavam a altura da cintura. Quando ele a tomou nos braços, os dois por pouco não conseguiam divisar os olhos um do outro naquela meia escuridão. Ele logo tirou a capa de chuva.

“Espere”, ela disse.

Precisava de um momento. Não via o que aquela relação poderia trazer de positivo e, embora isso não a impedisse de estar feliz e sentir desejo, precisava de um momento para pensar no que era aquilo, para voltar uma hora atrás no tempo e entender como acontecera. Ela esperou em seus braços, movendo a cabeça de um lado para outro levemente, como antes, só que mais lenta, e sem jamais tirar os olhos dos dele. Foi quando descobriu que ele tremia.

Ele se apercebeu no mesmo momento, e seus braços relaxaram. Imediatamente, com voz rouca e provocante, ela lhe falou, ao mesmo tempo que puxava o rosto dele para si. Em seguida, ainda de pé, usando os joelhos e com algum esforço, segurando-o com um dos braços, despiu-se de alguma coisa, que chutou para longe. Ele não tremia mais e a abraçou de novo, enquanto se ajoelhavam juntos e deslizavam para o chão, sobre a capa de chuva.

*

Mais tarde, permaneceram deitados sem dizer nada, e então ele sentiu por ela um amor tão cheio de ternura que a abraçou apertado a ponto de fazer rebentar uma costura do vestido. O pequeno estalo os trouxe de volta à realidade.

“Te ajudo”, ele disse, tomando das mãos dela.

“Espera um pouco. Eu estava pensando numa coisa.”

Ela ficou ali, deitada no escuro, pensando irracionalmente no bebê inteligente e infatigável que teria, mas em seguida deixou que ele a ajudasse a se levantar… Quando voltou ao cômodo, estava iluminado pelo único ponto de luz instalado.

“Um sistema de luz de uma só lâmpada”, ele disse. “Apago?”

“Não. Está bem agradável assim. Quero ver você.”

Sentaram na moldura de madeira da janela, as solas dos sapatos se tocando.

“Você parece distante”, ela disse.

“Você também.”

“Está surpreso?”

“Com o quê?”

“Com o fato de sermos duas pessoas outra vez. Você não pensa — espera — sempre virar uma pessoa só, e aí descobre que ainda são duas?”

“Eu me sinto muito próximo de você.”

“Eu também de você”, ela disse.

“Obrigado.”

“Eu é que agradeço.”

Riram.

“Era o que você queria?”, ela perguntou. “Ontem à noite, quero dizer.”

“Não conscientemente.”

“Fico pensando quando foi que tudo se arranjou”, ela meditou. “Tem um momento em que a gente não precisa, e aí, no momento seguinte, sabe que nada neste mundo será capaz de evitar que aconteça.”

Aquilo denotava alguma experiência e, para sua surpresa, gostou dela ainda mais por isso. Para o temperamento dele, afeito à repetição apaixonada, mas não a recapitular o passado, era certo que as coisas devessem ser assim.

“Sou mesmo uma mulher rodada”, ela disse, seguindo os pensamentos dele. “Acho que é por isso que não me dei bem com a Edna.”

“Quem é Edna?”

“A garota que você pensou que fosse eu. Aquela pra quem você ligou — que mora em frente à minha casa. Ela se mudou pra Santa Barbara.”

“Quer dizer que era uma prostituta?”

“Parece que sim. Foi morar numa dessas, como dizem vocês, casas de tolerância.”

“Engraçado.”

“Se ela fosse inglesa, eu teria descoberto de cara. Mas parecia igual às outras. Só me contou quando estava indo embora.”

Ele a viu ter um calafrio e se levantou para envolvê-la com a capa de chuva. Abriu um armário e uma pilha de travesseiros e esteiras de praia veio ao chão. Havia uma caixa de velas, as quais ele acendeu por todo o cômodo, ligando também o aquecedor elétrico à tomada que antes era usada para a lâmpada.

“Por que Edna teve medo de mim?”, ele quis saber, de repente.

“Por você ser um produtor. Tinha tido uma experiência terrível, ou foi uma amiga dela que teve. E acho, também, que ela era tremendamente idiota.”

“Como foi que a conheceu?”

“Ela apareceu lá em casa. Talvez achasse que eu era da mesma laia. Dava pinta de ser uma pessoa muito agradável. Me falou pra chamá-la de Edna, o tempo todo dizia: ‘Por favor, me chame de Edna’; aí finalmente comecei a chamá-la de Edna e ficamos amigas.”

Ela desceu da moldura da janela, de modo que ele pudesse colocar uns travesseiros para se sentarem e como encosto para ela.

“Que é que eu posso fazer?”, ela disse. “Sou uma parasita.”

“Não, não é.” Ele a envolveu nos braços. “Fique paradinha pra se esquentar.”

Ficaram ali, em silêncio, por um tempo.

“Sei por que você gostou de mim no começo”, ela disse. “Edna me contou.”

“O que foi que ela disse?”

“Que me pareço com… Minna Davis. Várias pessoas já me disseram isso.”

Ele se reclinou, afastando-se, e aquiesceu.

“Aqui”, ela disse, levando as mãos às maçãs do rosto e deformando as bochechas de leve. “Aqui e aqui.”

“Sim”, concordou Stahr. “Foi muito esquisito. Você se parece mais com o que ela era realmente do que com a Minna das telas.”

Ela se levantou, mudando de assunto com essa atitude, como se tivesse receio de falar daquilo.

Continuar: parte 5 de 6