O Último Magnata

F. Scott Fitzgerald · Capítulo 2 de 2 · parte 3/6

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O Último Magnata

O Último Magnata

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Stahr, em sua configuração atual, distanciara-se desse dom em particular, embora a habilidade não o tivesse abandonado.

O príncipe Agge se acomodou entre Stahr e Mort Fleishacker, o advogado do estúdio, e de frente para Joe Popolos, dono da sala de projeções. Era vagamente avesso a judeus de forma geral, um mal do qual estava tentando se curar. Homem turbulento quando servia na Legião Estrangeira, achava que os judeus prezavam por demais salvar a própria pele. Mas se dispunha a acreditar que talvez fossem diferentes na América, em circunstâncias outras, e certamente tinha Stahr na conta de um homem e tanto em todos os sentidos. Quanto ao resto — para ele, homens de negócios, em sua maioria, eram de uma chatice feroz —, sempre se voltava, em busca de referencial, ao sangue azul que corria em suas veias.

Meu pai — vou chamá-lo de sr. Brady, como o príncipe Agge, ao me contar sobre esse almoço — estava preocupado com um filme e Leanbaum, tendo deixado o encontro mais cedo, aproximou-se para ocupar a cadeira em frente.

“E quanto à ideia daquela produção na América do Sul, Monroe?”, perguntou.

O príncipe Agge notou um lampejo de atenção na direção deles, perceptível a ponto de parecer que uma dúzia de pares de cílios ressoava feito morcegos batendo asas. E de novo silêncio.

“Estamos tocando”, falou Stahr.

“Com o mesmo orçamento?”, quis saber Brady.

Stahr aquiesceu.

“É desproporcional”, disse Brady. “Não vai haver nenhum milagre em tempos difíceis como estes — nenhum Anjos do inferno ou Ben Hur, em que dá pra gastar a fundo perdido e depois recuperar.”

O ataque fora planejado, provavelmente, pois Popolos, o grego, entrou no assunto com uma conversa meio enrolada.

“Não é fácil de adotar, Monroe, a ideia que a gente quer adotar nesta época que mudou. O que podia fazer quando a gente tinha negócio de prosperidade é difícil pensar agora.”

“O que você acha disso, Marcus?”

Todos os olhares seguiram o de Stahr na direção da cabeceira da mesa, mas, como se estivesse de sobreaviso, o sr. Marcus já havia feito sinal a seu garçom particular, atrás dele, de que gostaria de se levantar, e naquele exato momento era erguido pelo rapaz. Olhou para eles parecendo de tal forma impotente que era difícil imaginar que de vez em quando saía para dançar em noitadas com sua namorada canadense.

“Monroe é nosso gênio em matéria de produção”, disse. “Conto com Monroe e confio totalmente nele. Nem cheguei a ver a inundação eu mesmo.”

Houve um momento de silêncio enquanto o velho se retirava.

“Não se consegue um faturamento de dois milhões de dólares neste país, hoje em dia”, falou Brady.

“Não consegue”, concordou Popolos. “Nem pegando pessoal à força e botando lá, não consegue.”

“Provavelmente não”, concedeu Stahr. Fez uma pausa, como que para se certificar de que todos o ouviam. “Acho que podemos contar com um milhão, duzentos e cinquenta mil nas projeções itinerantes. Talvez um milhão e meio, no total. E mais uns duzentos e cinquenta mil no exterior.”

Outro momento de silêncio — desta vez um silêncio perplexo, um pouco confuso. Por sobre o ombro, Stahr pediu ao garçom que contatasse seu escritório pelo telefone.

“Mas e o seu orçamento?”, questionou Fleishacker. “Seu orçamento é de setecentos e cinquenta mil, pelo que sei. E suas previsões não passam disso, não há lucro.”

“Não sou eu quem está prevendo aqueles números”, respondeu Stahr. “Não temos garantia de mais do que um milhão e meio.”

O recinto estava em suspenso a ponto de o príncipe Agge conseguir perceber, a meio caminho do chão, o monte de cinzas que caía de um charuto. Fleishacker, o rosto congelado de espanto, começou a falar, mas um telefone foi entregue a Stahr por cima de seu ombro.

“Do seu escritório, sr. Stahr.”

“Ah, sim — ah, olá, srta. Doolan. Descobri tudo sobre o Zavras. É um daqueles boatos nojentos — aposto um braço… Ah, você conseguiu. Bom… bom. Faça o seguinte: mande-o ir hoje à tarde ao meu oculista — dr. John Kennedy — e diga pra trazer um atestado e tire uma cópia — entendido?”

Desligou — e, com um quê de passional, se voltou à mesa como um todo.

“Algum de vocês chegou a ouvir uma história de que Pete Zavras estava perdendo a visão?”

Um ou outro aquiesceu. Mas a maioria dos presentes ainda estava à espera, respiração suspensa, para saber se Stahr havia se confundido com seus números um minuto antes.

“Pura bobagem. Ele diz que nunca foi a um oculista — e nunca soube por que os estúdios se voltaram contra ele”, continuou Stahr. “Alguém não gostava dele ou falou demais, e Zavras está sem trabalho há mais de um ano.”

Ouviu-se um murmúrio convencional de solidariedade. Stahr assinou o cheque e fez menção de se levantar.

“Desculpe, Monroe”, insistiu Fleishacker, observado por Brady e Popolos. “Sou mais ou menos novo por aqui, e talvez não esteja conseguindo compreender coisas implícitas e explícitas.” Falava rápido, mas as veias em sua testa saltavam de orgulho com a grandiloquência de seu estilo acadêmico. “Entendi direito? Você disse que espera faturar duzentos e cinquenta mil a menos do que é seu orçamento?”

“É um filme de qualidade”, respondeu Stahr, fingindo inocência.

Todos começavam a entender agora, mas ainda sentiam que havia algum truque ali. Stahr pensava, certamente, que o filme faturaria. Ninguém em seu juízo…

“Nos últimos dois anos, não nos arriscamos”, disse ele. “Está na hora de fazermos um filme que dê algum prejuízo. Perder esse dinheiro de bom grado — isso vai nos trazer público novo.”

Alguns ainda estavam pensando que Stahr lançaria algum prognóstico, e favorável, mas ele não deixou dúvidas.

“O filme vai dar prejuízo”, disse, levantando-se, a mandíbula levemente pronunciada e os olhos brilhantes e sorridentes. “Seria um milagre maior ainda do que Anjos do inferno se as cifras empatassem. Mas temos um certo compromisso com o público, conforme tem dito Pat Brady nos jantares da Academia. É bom para a sequência das produções que a gente lance um filme deficitário.”

Cumprimentou com um movimento de cabeça o príncipe Agge, o qual, enquanto respondia com uma rápida mesura, tentou captar, numa última olhada, o efeito geral do que Stahr tinha acabado de dizer, mas não foi capaz de perceber nada. Os olhares de todos não eram tanto de abatimento, mas fixos num ponto indefinido à distância, logo acima da linha da mesa, as pálpebras piscando ligeiras, e não se ouvia um só cochicho no recinto.

*

Ao saírem do salão privativo, eles atravessaram um canto do refeitório propriamente dito. O príncipe Agge observava tudo com avidez. O ambiente estava animado com personagens do Primeiro Império, ciganos, cidadãos e soldados de suíças paramentados com casacas enfeitadas. Olhando-se de uma pequena distância, eram homens de um século antes, tal como viviam então, e Agge se perguntou que aparência teriam ele e os homens de seu tempo em alguma futura produção de época.

Foi então que avistou Abraham Lincoln, e o que sentia mudou totalmente. Crescera ainda na alvorada do socialismo escandinavo, quando a biografia do presidente americano escrita por Nicolay era muito lida. Tinham-lhe dito que Lincoln era um grande homem que devia ser admirado, e ele, ao contrário, passou a odiá-lo, porque tentavam forçar aquela admiração. Mas agora, vendo-o ali sentado, pernas cruzadas, o rosto amistoso concentrado num jantar de quarenta centavos, sobremesa incluída, envolto em seu xale, como se precisasse se proteger do errático sistema de ventilação — agora o príncipe Agge, enfim em visita à América, tinha a visão do turista que observa a múmia de Lênin no Kremlin. Aquele, então, era Lincoln. Stahr deixara o visitante para trás e se voltava para esperá-lo — mas Agge continuava a olhar.

Aquele, então, ele pensou, era o destino de todos eles.

Lincoln de repente levou um pedaço triangular de torta à boca, engolindo-o, e o príncipe Agge, um pouco assustado, correu para junto de Stahr.

“Espero que a visita esteja sendo como o senhor queria”, disse Stahr, sentindo que o negligenciara. “Vamos ter filmagens dentro de meia hora, e então o senhor poderá ir a quantos sets desejar.”

“Prefiro ter a sua companhia”, falou o príncipe Agge.

“Vou ver se há mensagens para mim”, respondeu Stahr. “Então seguimos juntos.”

O cônsul do Japão o procurava a respeito do lançamento de uma história de espionagem que talvez ferisse suscetibilidades nacionais em seu país. Havia ligações e telegramas. E Robby com mais alguma informação.

“Agora ele lembrou do nome da moça. Tem certeza de que era Smith”, disse a srta. Doolan. “Perguntou se ela queria entrar pra pegar uns sapatos secos e a garota respondeu que não — de modo que não pode nos processar.”

“Pois agora ele lembrou de ‘tudo’, que porcaria — ‘Smith’. Grande ajuda.” Stahr refletiu por um momento: “Peça à companhia telefônica uma lista dos Smiths que solicitaram novas linhas no último mês. Ligue pra todos eles”.

“Certo.”

4

 

 

“Como vai, Monroe?”, disse Red Ridingwood. “Fico feliz que tenha vindo.”

Stahr passou por ele, atravessando o estúdio na direção de um cenário que reproduzia uma sala esplêndida, a ser usada nas filmagens do dia seguinte. O diretor Ridingwood o seguiu e, passado um momento, deu-se conta de que, por mais que andasse ligeiro, Stahr sempre conseguia estar um ou dois passos à frente. Reconheceu aquilo como sinal de descontentamento — ele próprio já usara o mesmo recurso. Tivera um estúdio próprio, algum dia, e ele mesmo havia recorrido àquela encenação toda. Nada do que Stahr pudesse fazer o surpreenderia. Sua tarefa era resolver situações, e Stahr não podia, no fim das contas, passar por cima dele em seu próprio território. Goldwyn certa vez tentara desautorizá-lo, e Ridingwood o induzira a tentar representar um número na frente de cinquenta pessoas — o resultado foi o que esperava: teve sua autoridade restabelecida.

Stahr chegou ao esplêndido cenário e parou.

“Não está bom”, disse Ridingwood. “Falta imaginação. Pouco me importa como vai ser a iluminação…”

“Por que você me chamou pra ver isso?”, perguntou Stahr, parado ao lado do diretor. “Por que não resolveu com o Art?”

“Não pedi que você descesse aqui, Monroe.”

“Você pretendia ser seu próprio supervisor.”

“Desculpe, Monroe”, continuou Ridingwood, paciente, “mas não pedi que você descesse aqui.”

Stahr virou as costas, repentinamente, e caminhou de volta até onde estavam as câmeras. O olhar e a boca aberta de um grupo de visitantes por um momento se desviaram da heroína do filme, seguiram Stahr e, por fim, novamente se voltaram, absortos, à atriz. Eram Cavaleiros de Colombo. Já tinham visto seu anfitrião carregado em procissão, mas aquilo era ter seu sonho transformado em realidade.

Stahr parou junto à cadeira dela. Usava um vestido decotado que deixava ver as marcas claras de uma irritação cutânea no peito e nas costas. Antes do início de cada cena, os locais afetados eram cobertos com um creme, imediatamente removido ao final da filmagem. O cabelo tinha a cor e a viscosidade de sangue coagulado, mas a luz de uma estrela podia, de fato, ser flagrada em seus olhos.

Antes que pudesse abrir a boca, Stahr ouviu às suas costas uma voz solícita: “Ela está radiante. Absolutamente radiante.”

Era um diretor-assistente, e a intenção havia sido a de um delicado elogio. À atriz, para que não tivesse nem o trabalho de se mover, evitando retesar a pele maltratada. A Stahr, por tê-la contratado. E, por extensão, a Ridingwood.

“Tudo certo?”, perguntou Stahr, simpático.

“Ah, tudo bem”, assentiu ela, “não fossem esses p… da imprensa.”

Ele piscou para ela, suave.

“Não vamos deixar que eles cheguem perto de você”, disse.

O nome da moça, naquele momento, havia se tornado sinônimo de “vadia”. Ela, ao que se podia presumir, criara para si a imagem de uma daquelas rainhas que, nos quadrinhos de Tarzan, misteriosamente governam uma nação negra. Tratava o resto do mundo como se fossem os negros. Era um mal necessário, trazida para um único filme.

Ridingwood caminhou junto com Stahr até a porta de saída do estúdio.

“Está tudo bem”, garantiu o diretor. “Ela está numa boa, na medida do possível.”

Ninguém podia escutá-los ali, e Stahr parou de repente, fulminando Red com o olhar.

“O que você anda filmando é um lixo”, disse Stahr. “Sabe o que ela parece fazendo essas cenas? Uma canastrona.”

“Estou tentando tirar dela o seu melhor…”

“Me acompanhe”, falou Stahr, abrupto.

“Acompanhar? Digo ao pessoal pra fazermos uma pausa?”

“Deixe tudo aí como está”, disse Stahr, empurrando a porta com forração que dava para o lado de fora do estúdio.

Carro e motorista o aguardavam ali. Minutos eram coisa preciosa, na maioria dos dias.

“Suba”, disse Stahr.

Red percebia agora que era sério. Entendeu na mesma hora até do que se tratava. A moça o mantinha sob seu domínio desde o primeiro dia, com frieza e sem papas na língua. Ele era do tipo paz e amor, e sem reclamar permitira que ela fizesse um trabalho medíocre.

Stahr adivinhou seus pensamentos.

“Você não consegue controlá-la”, disse. “Falei pra você o que eu queria. Queria uma mulher má — e ela ficou entediante no filme. Receio que tenhamos de parar por aqui, Red.”

“Com o filme?”

“Não. Vou colocar o Harley pra dirigir.”

“Tá certo, Monroe.”

“Desculpe, Red. Tentamos alguma outra coisa uma outra hora.”

O carro encostou em frente ao escritório de Stahr.

“Termino aquela cena?”, quis saber Red.

“Já está sendo terminada”, respondeu Stahr, taciturno. “O Harley ficou lá.”

“Como é que…”

“Ele entrou enquanto saíamos. Pedi que lesse o roteiro na noite passada.”

“Veja bem, Monroe…”

“Estou bem ocupado hoje, Red”, falou Stahr, seco. “Faz três dias que você desistiu de vez.”

Aquilo era uma confusão lastimável, pensou Ridingwood. Ele saía perdendo um pouco, bem pouco — provavelmente não poderia desposar uma terceira mulher agora, como havia planejado. Nem mesmo a satisfação de uma encrenca ele teria — quando alguém se desentendia com Stahr, não saía por aí alardeando isso. Stahr era o maior cliente que havia naquele seu mundo, e sempre — quase sempre — tinha razão.

“E o meu paletó?”, lembrou, de repente. “Deixei em cima de uma cadeira no estúdio.”

“Eu sei”, respondeu Stahr. “Aqui está ele.”

Fazia tanto esforço para ser generoso com o lapso de Ridingwood que tinha esquecido que levava o paletó na mão.

*

A “Sala de Projeção do sr. Stahr” era uma sala de cinema em miniatura com quatro fileiras de poltronas superestofadas. Em frente à primeira fileira, havia mesas compridas equipadas com luminárias de luz suave, campainhas e telefones. Encostado à parede, ficava um piano de armário, esquecido ali desde os primórdios do cinema falado. A sala tinha sido decorada, e as poltronas, recauchutadas havia apenas um ano, mas, pelo uso intensivo, os estragos já voltavam a aparecer.

Era onde Stahr se sentava às duas e meia, e novamente às seis e meia, para assistir ao que tivesse sido rodado no dia. Geralmente a ocasião era de uma tensão atroz — o que veria ali eram faits accomplis — o resultado final de meses de aquisições, planejamento, escrita e reescrita, escolha de elenco, construção de cenários e iluminação, ensaios e filmagens — fruto de insights brilhantes ou de deliberações desesperadas, de letargia, conspiração e suor. Nesse ponto, a tortuosa manobra era encenada, e em suspensão — chegavam relatos da frente de batalha.

Além de Stahr, assistiam às projeções representantes de todos os departamentos técnicos, e ainda os supervisores e diretores de produção dos filmes em avaliação. Os diretores não compareciam — oficialmente, porque seu trabalho estava terminado; na verdade, porque o que tivesse de ser discutido ali diria respeito a dinheiro. Com o tempo, desenvolveu-se a percepção delicada de uma necessária distância.

O pessoal já estava reunido. Stahr chegou e rapidamente ocupou seu lugar, enquanto o murmúrio das conversas foi sumindo. Recostou-se e recolheu o joelho magro para junto de si na poltrona, e as luzes da sala se apagaram. Um fósforo foi riscado na fileira do fundo — e silêncio.

Na tela, uma tropa de soldados franco-canadenses conduzia suas canoas corredeira acima. A cena fora filmada no tanque de um dos estúdios e, ao final de cada tomada, quando se podia ouvir a voz do diretor dizendo “Corta!”, os atores em cena relaxavam, limpando o suor da testa e às vezes soltando risadas hilariantes — e a água do tanque parava de correr e a ilusão cessava. À parte ter escolhido qual das sequências preferia e dito que era “um bom recurso”, Stahr não fez comentários.

A cena seguinte, ainda nas corredeiras, envolvia um diálogo entre a garota canadense (Claudette Colbert) e o courrier du bois (Ronald Colman), ela se dirigindo a ele de uma canoa. Transcorridos alguns metros de rolo, Stahr subitamente falou.

“O tanque foi desmontado?”

“Sim, senhor.”

“Monroe… é que precisavam dele para…”

Stahr cortou a conversa, peremptório.

“Montem de novo agora mesmo. Vamos fazer novamente aquela segunda tomada.”

As luzes se acenderam por um momento. Um dos diretores de produção saiu de sua poltrona e se postou à frente de Stahr.

“Uma cena com tão belas interpretações jogada fora”, ralhou Stahr, em voz baixa. “Sem enquadramento. A câmera ficou numa posição em que só pegava o topo da cabeça da Claudette o tempo todo em que ela estava falando. Era bem isso que queríamos, não? É exatamente o que as pessoas querem ver — o topo da cabeça de uma bela moça. Diga ao Tim que podia ter economizado usando um boneco dela em tamanho natural.”

As luzes voltaram a se apagar. O diretor de produção, para sair do caminho, agachou-se junto à poltrona de Stahr. A cena foi exibida novamente.

“Percebe agora?”, perguntou Stahr. “E tem um risco na imagem — ali, à direita, está vendo? Descubra se é do projetor ou da película.”

Quase no final da tomada, Claudette Colbert lentamente erguia a cabeça, revelando seus formidáveis olhos cristalinos.

“Era esse o enquadramento que precisávamos ter o tempo inteiro”, falou Stahr. “Ela se saiu muito bem também. Veja se consegue consertar isso até amanhã ou o final da tarde de hoje.”

Pete Zavras não teria cometido um deslize daqueles. Não havia, em toda a indústria, meia dúzia de operadores de câmera em que se pudesse confiar plenamente.

As luzes retornaram; o supervisor e o diretor de produção daquele filme se retiraram.

“Monroe, esse material foi rodado ontem — chegou tarde da noite.”

A sala ficou escura. Na tela, surgiu a cabeça de Shiva, imensa e imperturbável, alheia ao fato de que em algumas horas seria levada por uma inundação. Uma multidão de fiéis se amontoava em torno dela.

“Quando forem repetir essa cena”, falou Stahr, de repente, “coloque umas crianças no alto da cabeça. Melhor checar antes se não é algum tipo de desrespeito, mas acho que não tem problema. Crianças costumam poder qualquer coisa.”

“Sim, Monroe.”

Um cinto prateado com estrelas recortadas… Smith, Jones ou Brown… Questão pessoal — será a mulher do cinto prateado que…?

Outro filme, e o cenário mudara para Nova York, uma história de gângsteres, e Stahr ficou impaciente.

“A cena está uma porcaria”, disse em voz alta, de repente, na escuridão. “Mal escrita, com elenco mal escolhido, nada presta. Aqueles tipos nem são durões. Parecem um bando de guardinhas de porta de escola fantasiados — que diabos aconteceu aí, Lee?”

“A cena foi escrita hoje de manhã no próprio set”, respondeu Lee Kapper. “Burton queria resolver a coisa toda no Estúdio 6…”

“Pois está uma porcaria. E essa aí também. Não serve pra nada filmar um troço desses. Ela própria não acredita no que está dizendo — tampouco o Cary. ‘Eu te amo’ em close — você vai ser escorraçado! E a roupa da moça está muito formal.”

Fez-se um sinal na sala escura, o projetor parou, as luzes se acenderam. A sala ficou em silêncio, todos à espera. O rosto de Stahr estava inexpressivo.

“Quem escreveu a cena?”, quis saber, passado um minuto.

“Wylie White.”

“Ele tem conseguido ficar sóbrio?”

“Certamente.”

Stahr refletia.

“Coloquem uns quatro roteiristas pra trabalhar na cena hoje à noite”, disse. “Vejam lá quem podem conseguir. Sidney Howard ainda está por aí?”

“Apareceu hoje de manhã.”

“Conversem com ele. Expliquem o que estou querendo pra essa sequência. A moça está mortalmente aterrorizada — ela está paralisada. Simples assim. As pessoas não conseguem sentir três emoções ao mesmo tempo. E, Kapper…”

O cenógrafo se inclinou para a frente em sua poltrona na segunda fileira.

“Pois não.”

“Tem alguma coisa com aquele cenário.”

Olhares discretos foram trocados por toda a sala.

“E o que é, Monroe?”

“Me diga você”, respondeu Stahr. “Está muito abarrotado. Não captura o olhar. Parece barato.”

“Não custou pouco.”

“Eu sei que não. Não é nada muito complicado, mas tem alguma coisa. Dê uma olhada hoje à noite. Talvez seja mobília demais — ou do tipo errado. Talvez uma janela ajude. Você não conseguiria forçar a perspectiva um pouco mais na direção daquele corredor?”

“Vou ver o que posso fazer.” Kapper, enquanto conferia o relógio, foi saindo da fileira de poltronas.

“Preciso começar agora mesmo”, falou. “Vou trabalhar durante a noite e damos um jeito no cenário de manhã.”

“Certo. Lee, você pode refilmar essas cenas, não?”

“Acho que sim, Monroe.”

“Eu me responsabilizo. E o material com as cenas de luta?”

“É o próximo.”

Stahr assentiu. Kapper se apressou em direção à saída e a sala voltou a ficar escura. Na tela, quatro homens encenavam uma sensacional briga de socos num galpão. Stahr riu.

“Olha só o Tracy”, falou. “Olha só como vai pra cima daquele cara. Aposto que já entrou em algumas dessas na vida.”

Os homens não paravam de se socar. Sempre a mesma briga. E sempre, ao final, se encaravam sorrindo, às vezes tocando o ombro do oponente num gesto amistoso. O único ali que corria algum perigo era o dublê, um pugilista que, se quisesse, mataria os outros três. O perigo era só que se empolgassem e deixassem de seguir as instruções sobre os golpes. Mesmo assim, o ator mais jovem estava com medo de ser acertado no rosto e, para disfarçar suas piscadas, o diretor havia lançado mão de engenhosos ângulos e interposições.

E então dois homens se esbarravam interminavelmente junto a uma porta, reconheciam-se e seguiam seus caminhos. Encontravam-se, sobressaltavam-se e continuavam a andar.

Em seguida, uma menininha estava lendo debaixo de uma árvore e, acima dela, num dos galhos, um menino também lia. A menina estava entediada e queria conversar com o menino. Ele não lhe dava atenção. O caroço da maçã que comia caiu na cabeça da menina.

Uma voz se manifestou no escuro: “Está muito longo, não está, Monroe?”

“Nem um pouco”, disse Stahr. “Está bom. Tem uma atmosfera agradável.”

“Só achei que se estende demais.”

“Às vezes três metros de rolo podem parecer que demoram demais — noutras, uma cena ocupando vinte vezes isso é muito curta. Quero falar com o montador antes de ele fazer o corte — essa é uma sequência que vai ficar na memória.”

Falava o oráculo. Não havia o que questionar ou discutir. Stahr precisa ter razão sempre — não apenas na maior parte do tempo, mas sempre — sob pena de a estrutura vir abaixo, como se fosse de manteiga e derretesse.

Mais uma hora se passou. Fragmentos de sonhos ornavam a parede da sala, eram analisados, davam lugar a outros — os quais seriam sonhados por multidões, ou então descartados. Com dois testes, um deles para um personagem masculino, outro de uma moça, a sessão se encaminhou para o fim. Em comparação com as tomadas em avaliação, em seu ritmo próprio e tenso, os testes rolavam de maneira suave e acabavam; a audiência relaxou nas poltronas; Stahr escorregou o pé de volta para o chão. Opiniões eram bem-vindas. Um dos técnicos declarou que levaria a moça para casa de bom grado; o resto do pessoal ficou indiferente.

“Alguém arranjou um teste pra essa moça há uns dois anos. Ela deve estar mais rodada — mas não parece que melhorou muito. Já o ator é bom. Não podemos usá-lo no papel do velho príncipe russo em Estepes?”

“Ele é um velho príncipe russo”, falou o diretor de elenco, “mas tem vergonha disso. É comunista. E o papel de príncipe é o único que não faria.”

“É o único papel que serve pra ele”, disse Stahr.

As luzes se acenderam. Stahr enrolou seu chiclete de volta no invólucro e o colocou no cinzeiro. Voltou-se inquisitivo para sua secretária.

“Filmagens no Estúdio 2”, ela informou.

Deu uma conferida rápida no que estava sendo feito lá: imagens em movimento sendo capturadas contra um fundo de outras imagens em movimento por um dispositivo engenhoso. Tinha uma reunião no escritório de Marcus cujo assunto era se Manon teria um final feliz, e Stahr continuava com a mesma opinião que já havia dado — fazia um século e meio que aquela história dava dinheiro sem final feliz. Estava irredutível — àquela hora da tarde era quando conseguia ser mais persuasivo, e a resistência a sua posição acabou sendo minada na direção de outro tema: cederiam uma dúzia de astros e estrelas para uma campanha em prol dos desabrigados pelo terremoto em Long Beach. Num surto repentino de generosidade, cinco deles já haviam doado, de uma vez, um total de vinte e cinco mil dólares. Tinham sido generosos, mas não como os pobres sabem ser. Aquilo não era caridade.

No escritório, novidades do oculista ao qual enviara Pete Zavras: os olhos do cinegrafista estavam praticamente em perfeito estado. O médico fizera um atestado, uma fotocópia do qual estava sendo entregue a Zavras. Stahr andava de um lado ao outro do escritório, cheio de si, a srta. Doolan a admirá-lo. O príncipe Agge aparecera para agradecer pela visita aos sets naquela tarde e, enquanto conversavam, um supervisor passou o recado cifrado de que uns roteiristas de nome Tarleton “descobriram” e estavam em vias de se demitir.

“São bons roteiristas”, Stahr explicou ao príncipe, “e não temos muitos deles por aqui.”

“Como assim, se você pode contratar quem quiser?”, exclamou o visitante, surpreso.

“Ah, nós os contratamos, mas aí eles chegam e não são bons roteiristas — de modo que precisamos trabalhar com o que temos.”

“Por exemplo?”

“Qualquer um que aceite as condições e tenha a decência de permanecer sóbrio — pegamos todo tipo de gente — poetas desiludidos, dramaturgos iniciantes, moças universitárias — e então os colocamos em duplas pra trabalhar numa ideia e, se a coisa estiver indo muito devagar, acrescentamos mais dois ao mesmo projeto. Já tive até três duplas trabalhando de forma independente numa ideia.”

“E os roteiristas gostam do esquema?”

“Se ficam sabendo, não. Não são gênios — e nenhum deles conseguiria ganhar mais em outro lugar. Mas esses dois, os Tarleton, são um casal da Costa Leste — dramaturgos muito bons. Acabaram de descobrir que não são os únicos trabalhando no enredo e isso os deixou transtornados — mexeu com seu senso de unidade, é essa a palavra que vão usar.”

“Mas como se consegue essa… unidade?”

Stahr hesitou — sua expressão era taciturna, exceto pelos olhos, que faiscavam.

“A unidade sou eu”, disse. “Venha nos visitar outras vezes.”

Recebeu os Tarleton para uma conversa. Disse-lhes que gostava do trabalho deles, olhando para a sra. Tarleton como se fosse capaz de adivinhar qual tinha sido sua contribuição específica no roteiro datilografado. Disse-lhes, em tom ameno, que os tiraria daquele filme para colocá-los em outro, com menos pressão e mais tempo. Conforme já meio que esperava, os dois imploraram para ficar no primeiro projeto, pela perspectiva de aparecerem nos créditos em lugar de destaque, mesmo que dividindo-os com outros. Aquele esquema era uma vergonha — vulgar, comercial, deplorável. Ele mesmo o criara — fato que deixou de mencionar.

Assim que saíram, a srta. Doolan entrou, triunfante.

“Sr. Stahr, a moça do cinto está na linha.”

Stahr passou da sala de visitas ao escritório sozinho, sentou-se atrás da escrivaninha e apanhou o telefone com um tremendo frio na barriga. Não sabia o que queria. Não havia pensado na questão como fizera com o caso de Pete Zavras. De início, a única coisa que desejara saber era se eram “profissionais”, se a moça não seria uma atriz produzida para se parecer com Minna, a exemplo do que certa vez fizera com uma jovem, fantasiando-a de Claudette Colbert para fotografá-la nas poses da original.

“Alô”, ele disse.

“Alô.”

Enquanto procurava a expressão breve de surpresa que recuperasse a sensação da noite anterior, começou a ceder ao terror, e precisou de determinação para espantá-lo.

“Então — foi difícil te achar”, falou. “Smith — e você se mudou recentemente pra cá. Essas eram as únicas informações que tínhamos. Além de um cinto prateado.”

“Ah, sim”, respondeu a voz, ainda desconfortável, insegura. “Eu estava mesmo usando um cinto prateado ontem à noite.”

E agora, para onde ir?

“Quem é você?”, perguntou a voz, com um toque nervoso de dignidade burguesa.

“Eu me chamo Monroe Stahr”, disse ele.

Uma pausa. Era um nome que nunca aparecia na tela, e ela pareceu ter dificuldades para reconhecê-lo.

“Ah, sim — claro. O marido de Minna Davis.”

“Isso.”

Seria uma brincadeira? Com a visão intacta da noite anterior voltando-lhe à mente — aquela pele, irradiando um brilho peculiar, como que fosforescente —, ele se perguntou se aquilo não poderia ser um truque para atingi-lo de alguma forma. Não sendo Minna, mas ainda assim sendo ela. As cortinas, sopradas pelo vento, subitamente invadiram o escritório, os papéis sobre sua mesa murmuraram e a intensa realidade do mundo lá fora o fez sentir, de leve, o coração apertado. Caso pudesse sair dali agora, assim como estava, o que aconteceria se voltasse a encontrá-la — a expressão de velado deslumbramento, a boca prestes a estourar num riso humano, pobre mas imenso.

“Gostaria de encontrá-la. Que tal você vir aqui ao estúdio?”

De novo a hesitação — e então uma recusa direta.

“Ah, acho melhor não. Sinto muito.”

A última frase indicava um tom formal e distante, um beco sem saída. A vaidade mais ordinária e superficial veio em socorro de Stahr, ajudando-o a ser persuasivo em sua urgência.

“Gostaria que viesse”, falou. “Tenho uma razão pra isso.”

“Bem… temo que…”

“Será que eu poderia ir até você?”

Nova pausa, não porque ela hesitasse agora, ele sentiu, mas porque tentava concatenar uma resposta.

“Tem uma coisa que você não sabe”, disse ela, finalmente.

“Ah, provavelmente que você é casada”, respondeu ele, impaciente. “Não tem nada a ver com isso. Estou pedindo pra termos um encontro às claras, traga seu marido, se você tem um.”

“É que isso… isso é meio que impossível.”

“Por quê?”

“Eu me sinto uma tola só de estar falando com você, mas sua secretária insistiu — pensei que tivesse deixado cair alguma coisa minha na inundação de ontem à noite e que você tivesse encontrado.”

“Quero muito encontrá-la, por cinco minutos que seja.”

“Quer me contratar pra algum filme?”

“Não era bem essa minha ideia.”

Houve um silêncio tão prolongado que ele pensou tê-la ofendido.

“Onde podemos nos encontrar?”, perguntou ela, inesperadamente.

“Aqui? Ou na sua casa?”

“Não — em algum lugar na rua.”

De repente Stahr não conseguia pensar em lugar nenhum. A casa dele — um restaurante? Onde é que as pessoas se encontram? Em esconderijos, em bares?

“Encontro você em algum lugar às nove”, ela disse.

“Acho que vai ser impossível a essa hora.”

“Então deixa pra lá.”

“Tudo bem, às nove, mas pode ser aqui perto? Tem uma lanchonete em Wilshire…”

*

Eram quinze para as seis. À espera, do lado de fora, havia dois homens que todos os dias, àquela mesma hora, acabavam preteridos, sua reunião era adiada. Aquela era uma hora fatigada — o assunto que os homens vinham tratar não era tão importante que precisasse ser despachado, nem tão insignificante que pudesse ser ignorado. De modo que ele adiou mais uma vez e, sentado imóvel à sua escrivaninha, ficou pensando na Rússia. Não exatamente na Rússia, mas no filme sobre a Rússia que estava prestes a lhe consumir outra infértil meia hora. Ele sabia das muitas histórias sobre a Rússia, isso sem mencionar “a” história, e vinha sustentando um exército de roteiristas e pesquisadores fazia mais de um ano, mas todas as histórias que se apresentavam tinham a pegada errada. Sentia que o enredo podia ser inspirado nos treze estados americanos, e no entanto o resultado insistia em ser outro, em novos termos que davam margem a possibilidades desagradáveis e problemas. Considerava que estava tendo uma atitude muito justa com os russos — não pensava em outra coisa que não fosse um filme simpático ao país, mas o projeto continuava a dar dor de cabeça.

“Sr. Stahr — o sr. Drummon está aí, com o sr. Kirstoff e a sra. Cornhill, a respeito do filme russo.”

“Certo — mande-os entrar.”

Depois disso, entre seis e meia e sete e meia, assistiu ao que havia sido rodado à tarde. Normalmente, não fosse por seu compromisso com a moça, ele passaria o início da noite na sala de projeção ou no estúdio de dublagem, mas, com os transtornos de horário causados pelo terremoto da noite anterior, decidiu ir jantar. Ao retornar ao escritório, encontrou Pete Zavras esperando, o braço numa tipoia.

“Você é o Ésquilo e o Eurípides do cinema”, disse Zavras, espontâneo. “E ainda o Aristófanes e o Menandro.”

Fez uma mesura.

“Quem são esses?”, perguntou Stahr, com um sorriso.

“Meus conterrâneos.”

“Não sabia que você fazia filmes na Grécia.”

“Está brincando comigo, Monroe”, falou Zavras. “O que estou querendo dizer é que você é um cara tão fino quanto eles. Me salvou, totalmente.”

“Você está bem agora?”

“Não foi nada no meu braço. É como se me dessem uns beijinhos aqui. Se esse é o resultado, valeu a pena fazer o que fiz.”

“E como é que você acabou fazendo logo aqui?”

“Diante do oráculo de Delfos”, respondeu Zavras. “Do Édipo que respondeu à charada. Só queria pegar o filho da puta que começou essa história.”

“Você me faz sentir pena de mim mesmo por não ter estudado”, falou Stahr.

“Isso não me serve de nada”, disse Pete. “Um diploma em Salônica e olha só qual foi o meu fim.”

“Ainda não foi.”

“Se quiser ver alguém degolado, a qualquer hora do dia ou da noite”, acrescentou Zavras, “você tem meu telefone.”

Stahr fechou os olhos e os abriu novamente. A silhueta de Zavras perdeu um pouco da nitidez contra a luz do sol. Apoiou-se na mesa atrás de si e, mantendo a normalidade na voz, disse: “Boa sorte, Pete.”

A sala tinha escurecido quase completamente, mas ele conseguiu dar alguns passos, de forma mecânica, até o escritório, entrou e esperou pelo clique da porta se fechando antes de tatear em busca das pílulas. A garrafa d’água se chocou contra a mesa; o copo tilintou. Ele se sentou numa cadeira grande, à espera de que a benzedrina fizesse efeito antes de ir jantar.

*

No caminho de volta do refeitório, Stahr enxergou a mão que acenava para ele de um conversível pequeno. Reconheceu, pelas cabeças vistas de trás, na cabine, um jovem ator e sua namorada, observando-os desaparecer portão afora no crepúsculo de verão. Aos poucos ia perdendo a sensibilidade para essas coisas, a ponto de parecer que Minna havia levado consigo a emoção que lhes era própria; sua capacidade de apreciar o esplendor desaparecia de tal modo que, em breve, o luxo de um eterno luto também iria embora. Associando infantilmente Minna a prazeres materiais, quando chegou ao escritório, mandou buscar seu conversível pela primeira vez naquele ano. A grande limusine parecia carregada de lembranças de reuniões e de sono de puro esgotamento.

Ao deixar o estúdio, ainda estava tenso, mas o carro sem capota trouxe o fim de tarde de verão para perto de Stahr, e ele olhou em volta. Havia a lua no final do bulevar, e uma ilusão boa de que era uma lua diferente a cada noite, a cada ano. Outras luzes cintilavam em Hollywood desde a morte de Minna: nas barracas de rua, limões e toranjas e maçãs verdes resplandeciam seu brilho fosco e oblíquo. Diante dele, piscou a luz violeta de freio do carro à frente e, na esquina seguinte, ele a viu piscar outra vez. Por todo lado, holofotes riscavam o céu. Numa esquina deserta, dois homens misteriosos carregavam um tambor reluzente em trajetória errática nos céus.

Na lanchonete, uma mulher estava parada junto ao balcão de doces. Era alta, quase tão alta quanto Stahr, e encabulada. Era obviamente uma situação nova para ela e, se Stahr não tivesse os modos que tinha — os mais atenciosos e educados —, ela não levaria aquilo adiante. Cumprimentaram-se e saíram dali sem mais palavras, sem quase se olharem — embora, chegando à calçada, Stahr já soubesse: ela não era nem mais nem menos do que uma bela moça americana — nada que se comparasse à beleza de Minna.

“Pra onde estamos indo?”, ela quis saber. “Pensei que você teria um motorista. Não faz mal — sou boa de briga.”

“Briga?”

“Sei que isso não foi nada gentil.” Ela forçou um sorriso. “Mas é que falam coisas horríveis de gente como você.”

Stahr achou graça da ideia de que fosse alguém assustador — e logo não achou mais.

“Por que você queria me ver?”, perguntou ela ao entrar no carro.

Ele ficou parado, imóvel, do lado de fora, desejando lhe dizer que descesse imediatamente. Mas ela já estava acomodada no carro, e ele sabia ser o principal responsável por aquela situação infeliz — cerrou os dentes e deu a volta para embarcar também. A luz do poste iluminava diretamente o rosto dela, e era difícil acreditar que aquela era a moça da noite anterior. Stahr não via mais semelhança alguma com Minna.

“Vou levar você pra casa”, disse ele. “Onde é?”

“Pra casa?”, espantou-se ela. “Não tem pressa — desculpe se o ofendi.”

“Não. Foi muita gentileza sua ter vindo. Fui um idiota. Ontem à noite, pensei ter enxergado em você uma réplica exata de uma pessoa que conheci. Estava escuro e uma luz ofuscava minha vista.”

Ela ficou ofendida — ele a recriminava por não se parecer com outra pessoa.

“Era só isso então!”, falou. “Que engraçado.”

Rodaram em silêncio durante um minuto.

“Você foi casado com Minna Davis, não foi?”, disse ela, numa centelha de intuição. “Me desculpe por mencionar isso.”

Ele dirigia em velocidade, mas controlando-se para não parecer que corria de propósito.

“Sou um tipo bem diferente de Minna Davis”, ela disse, “se foi isso que você quis dizer. Talvez você estivesse pensando na garota que estava comigo. Ela se parece mais com Minna Davis do que eu.”

Aquilo não o interessava mais. Era acabar logo com o negócio e esquecer.

“Será que não era ela?”, quis saber a moça. “Ela é minha vizinha.”

“Não pode ser”, falou ele. “Lembro do cinto prateado que você estava usando.”

“Era eu mesma com o cinto prateado.”

Estavam a noroeste do Sunset, subindo por um dos cânions, entre as montanhas. Bangalôs iluminados surgiam ao longo da estrada sinuosa, e a eletricidade que lhes dava vida transpirava no ar da noite feito um ruído radiofônico.

“Está vendo aquela última luz, lá no alto? A Kathleen mora lá. Minha casa fica logo do outro lado.”

Passado um momento, ela disse: “Pare aqui”.

“Pensei que você tinha dito que mora do outro lado do morro.”

“Quero dar uma passada na casa da Kathleen.”

“Acho melhor eu…”

“Quero descer aqui”, falou ela, impaciente.

Stahr desembarcou atrás dela. A moça seguiu em direção a uma casinha nova quase totalmente encoberta por um salgueiro e, quase sem pensar, Stahr a acompanhou até os degraus da entrada. Ela tocou a campainha e se voltou para se despedir dele.

“Desculpe por desapontá-lo”, disse.

Era ele quem sentia por ela agora — lamentava por ambos.

“Foi culpa minha. Boa noite.”

Um naco de luz surgiu na porta entreaberta, e uma voz de moça indagou: “Quem é?”. Stahr levantou a vista.

Ali estava ela — rosto e forma e sorriso contra a luz que vinha do interior da casa. Era o rosto de Minna — a pele, irradiando um brilho peculiar, como que fosforescente, a boca, com seu contorno atraente que jamais cobrava consequências — e, sobretudo, aquela graciosidade que assombrou e fascinou toda uma geração.

O coração dele, como na noite anterior, saltou-lhe para fora do peito, só que dessa vez para ali ficar, em disposição amplamente benéfica.

“Ah, Edna, não dá pra entrar aqui”, disse a moça. “Estava fazendo faxina, e a casa está com um cheiro forte de amoníaco.”

Edna começou a rir, uma risada alta e confiante. “Acho que ele queria conhecer você, Kathleen”, falou.

O olhar de Stahr e o de Kathleen se encontraram e se entrelaçaram. Por um instante, os dois fizeram amor como nunca mais ninguém ousou depois deles. Em cada um, o vislumbre do outro foi mais lento do que um abraço, mais urgente do que um chamado.

“Ele me ligou”, explicou Edna. “Parece que pensou que…”

Stahr a interrompeu, dando um passo adiante, para onde havia luz.

“Temi que vocês tivessem sido maltratadas no estúdio, ontem à noite.”

Mas o que ele realmente dissera não se traduzia em palavras. Ela ouviu atenta, sem embaraço. A vida brilhava com força em ambos — Edna parecia distante na escuridão.

“Não nos maltrataram”, disse Kathleen. Uma brisa fria fez balançar a mecha castanha sobre sua fronte. “Não devíamos ter entrado lá.”

“Espero que vocês, ambas”, falou Stahr, “apareçam pra fazer um tour no estúdio.”

“Quem é você? Alguém importante?”

“Ele foi casado com Minna Davis, é produtor”, disse Edna, como se aquilo fosse uma piada muito boa, “e isso que ele está dizendo não é o que me disse agora há pouco. Acho que ele está a fim de você.”

“Cala a boca, Edna”, respondeu Kathleen, brusca.

Como se de repente se desse conta de sua inconveniência, Edna falou: “Me liga, tá bom?”, e seguiu seu rumo em direção à rua. Mas levava consigo o segredo dos dois — tinha visto a centelha acesa entre eles na escuridão.

“Lembro de você”, Kathleen falou para Stahr. “Você nos resgatou da inundação.”

E agora? A ausência de Edna já era sentida. Estavam sozinhos, e andando sobre uma superfície por demais frágil, considerando o que já se passava entre os dois. Não tinham um ponto em comum. O mundo dele parecia distante — e ela não tinha um, exceto pela cabeça de Shiva, por aquela porta entreaberta.

“Você é irlandesa”, ele disse, tentando inventar um mundo para ela.

A moça aquiesceu.

“Morei em Londres um tempão — não achei que você descobriria.”

Os agressivos faróis verdes de um ônibus passaram voando na rua escura. Os dois permaneceram em silêncio até que tivesse ido embora.

“Sua amiga Edna não gostou de mim”, ele disse. “Acho que por causa da palavra Produtor.”

“Ela também é recém-chegada por aqui. É uma bobinha que não faz nada por mal. Eu é que devia ter medo de você.”

Ela investigou a expressão dele. Pensou, como todo mundo, que parecia cansado — e logo se esqueceu disso, pois ele suscitava a imagem de uma fogueira em noite fria.

“Imagino que as garotas fiquem o tempo todo atrás de você, querendo trabalhar no cinema.”

“Já desistiram”, ele falou.

Estava minimizando — continuavam todas lá, ele sabia, logo atrás da porta, mas fazia tanto tempo que ele estava no negócio que o clamor de suas vozes não era diferente do barulho do trânsito na rua. Mas sua posição majestática persistia: um rei só podia ter uma rainha; Stahr, pelo menos era o que supunham, era capaz de coroar muitas delas.

“Acho que isso pode significar que você se tornou um cínico”, disse ela. “Sua intenção não é me colocar no cinema?”

“Não.”

“Que bom. Não sou atriz. Uma vez, em Londres, um cara chegou pra mim no Carlton perguntando se eu não faria um teste, mas pensei um pouco e, no fim, não fui.”

Estavam de pé, quase imóveis, como se no momento seguinte ele fosse partir e ela, entrar em casa. Stahr riu de repente.

“Sinto como se estivesse te impedindo de fechar a porta com o pé, feito um cobrador.”

Ela riu junto.

“Desculpe não poder te convidar pra entrar. Será que posso ir lá dentro pegar minha jaqueta, então podemos sentar aí fora?”

“Não.” Ele não conseguia entender muito bem por quê, mas achava que era hora de ir embora. Talvez voltasse a vê-la — talvez não. Não achava ruim que fosse assim.

“Você vai aparecer lá no estúdio?”, falou. “Não posso prometer que faço eu mesmo o tour, mas, se aparecer, não deixe de avisar no meu escritório.”

Um cenho franzido, não mais do que a sombra de um fio de cabelo entre os olhos dela.

“Não tenho certeza”, disse. “Mas agradeço muito o convite.”

Stahr sabia que, por alguma razão, ela não apareceria — bastou um instante e havia escapado dele. Ambos sentiam que o momento passara. Ele precisava ir, ainda que não fosse a lugar nenhum, e que saísse de mãos vazias. De um ponto de vista mais prático, vulgar, ele não tinha o telefone dela — nem mesmo sabia seu sobrenome; mas parecia impossível perguntar-lhe essas coisas agora.

Ela o acompanhou até o carro, Stahr se sentindo oprimido por sua beleza radiante, sua novidade inexplorada; mas, ao saírem da sombra, o que havia entre eles era a luz do luar.

“É isso?”, ele perguntou, espontâneo.

Viu pesar no rosto dela — mas também um tremor nos lábios, um sorriso indeciso a encurvá-los, um abrir e fechar de cortinas revelando uma passagem proibida.

“Espero mesmo que a gente volte a se encontrar”, disse ela, quase formal.

“Eu sentiria muito se não acontecesse.”

Ficaram distantes por um momento. Mas, depois de fazer a conversão mais próxima, retornar e vê-la ainda ali, esperando, depois de acenar e partir, ele se sentiu exultante e feliz. Alegrava-o que fosse possível haver beleza neste mundo sem o aval do departamento de escalação de elenco.

Em casa, porém, enquanto o mordomo lhe preparava chá no samovar, sentiu uma curiosa solidão. Era a velha dor que retornava, difícil e deliciosa. Ao abrir o primeiro dos dois roteiros à sua espera naquela noite, e que em breve veria na tela, linha por linha, parou um momento, pensando em Minna. Explicou a ela que aquilo não significava nada, que ninguém jamais seria como ela, que ele sentia muito.

*

Aquele fora um dia de Stahr, tipicamente. Não sei quanto à doença, quando começou etc., pois ele manteve segredo a respeito, mas sei que desmaiou algumas vezes naquele mês porque o papai me contou. O príncipe Agge foi minha fonte sobre o que aconteceu durante o almoço no refeitório, na ocasião em que ele disse aos outros que faria um filme para perder dinheiro — o que não era pouca coisa, considerando os homens com quem conversava e o fato de possuir um grande naco das ações, e sob contrato de repartição de lucros.

Wylie White me contou muita coisa, e acreditei nele por causa de seu sentimento intenso por Stahr, mistura de ciúme e admiração. Quanto a mim, a quem interessar possa, estava completamente apaixonada por ele àquela altura.

5

 

Feliz da vida, fui visitá-lo na semana seguinte. Ou assim pensei; quando Wylie chegou, eu havia colocado um traje esportivo para dar a impressão de que estivera desde cedo ao ar livre, sob o orvalho matinal.

“Vou me jogar debaixo do carro do Stahr hoje”, falei.

“E por que não deste aqui?”, sugeriu ele. “Um dos melhores carros de segunda mão que Mort Fleishaker vendeu na vida.”

“Não entro nessa”, respondi, distante. “Você tem uma esposa na Costa Leste.”

“Ela já faz parte do passado”, devolveu ele. “Você tem um grande trunfo — a consciência do próprio valor. Acha que alguém ia olhar pra você se não fosse a filha de Pat Brady?”

Não nos deixamos afetar por comentários como nossas mães se deixariam. Nada — não há nada que um homem da nossa época diga que signifique muito. Que a gente fique esperta, que estão se casando por dinheiro, ou então nós é que dizemos isso a eles. Tudo ficou mais simples. Será?, era o que nos perguntávamos.

Mas naquele momento, enquanto ligava o rádio e o carro acelerava por Laurel Canyon ao som de “The Thundering Beat of My Heart”, não acreditei que Wylie tivesse razão. Eu tinha um rosto bonito, embora um pouco redondo demais, e uma pele que parecia agradável ao toque, pernas interessantes, além de não precisar usar sutiã. Não era das mais meigas por natureza, mas quem era Wylie para me recriminar por isso?

Continuar: parte 4 de 6