O Último Magnata

F. Scott Fitzgerald · Capítulo 2 de 2 · parte 6/6

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O Último Magnata

O Último Magnata

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Ah, no começo foi uma bênção. Dos dezesseis aos vinte e um anos, o problema havia sido comida. No dia em que a madrasta a apresentou ao Tribunal, as duas tiveram que comer com um xelim, o mínimo para não desmaiarem de fraqueza. Um pedaço a seis pence, mas a madrasta ficou observando enquanto ela comia. Morreu depois de alguns meses, e ela teria vendido o próprio corpo por aquele xelim, se não estivesse debilitada demais para ir para a rua. Londres pode ser hostil — ah, se pode.

Ela contava com alguém?

Havia os amigos, na Irlanda, que enviavam manteiga. Havia o sopão. Havia as visitas a um tio, que lhe dava uns adiantamentos quando ela estava de estômago cheio, e ela pedia mais e conseguia cinquenta libras para não contar à esposa dele.

“Não dava pra você trabalhar?”, perguntou Stahr.

“Eu trabalhava. Vendia carros. Vendi um, certa vez.”

“Mas não dava pra você ter um emprego normal?”

“É difícil… é diferente. Havia a sensação de que gente como eu tirava os empregos de outras pessoas. Uma mulher me agrediu quanto tentei conseguir uma vaga como arrumadeira num hotel.”

“Mas você tinha passado por um Tribunal?”

“Foi minha madrasta quem fez isso — uma tentativa desesperada. Eu não era ninguém. Meu pai foi abatido pelos Black-and-Tans em 1922. Escreveu um livro chamado Last Blessing. Você já leu?”

“Não leio.”

“Queria que você comprasse os direitos de adaptação. É um bom livrinho. Até hoje recebo os direitos — dez xelins por ano.”

Aí ela conheceu “O Cara”, e eles deram a volta ao mundo. Ela já estivera em todos os lugares sobre os quais Stahr tinha feito filmes, e vivera em cidades de cujo nome ele jamais ouvira falar. Então “O Cara” entrou em decadência, bebendo e dormindo com as empregadas, tentando empurrá-la para os amigos. Estes, todos, tentavam convencê-la a continuar com ele. Diziam que ela o salvara e agora precisava se manter firme por mais tempo, indefinidamente, até o fim. Era seu dever. Fizeram uma enorme pressão. Mas ela havia conhecido O Americano e, por fim, se mandou.

“Você devia ter dado o fora antes.”

“Bem, sabe, era difícil.” Ela hesitou, e acabou decidindo falar. “Sabe, eu estava fugindo de um rei.”

Os parâmetros morais dele, de certa forma, desabaram — ela conseguira sobrepujá-lo. Uma confusão de pensamentos atravessou-lhe a galope a cabeça — um deles, um vago e antigo credo de que toda realeza é doentia.

“Não era o rei da Inglaterra”, ela falou. “Meu rei estava desempregado, como ele mesmo costumava dizer. Tem um monte de reis em Londres.” Ela riu — depois acrescentou, quase desafiadora: “Ele era muito atraente, até começar a beber e aprontar todas”.

“E ele era rei do quê?”

Ela lhe disse — e Stahr visualizou o rosto num velho cinejornal.

“Era um homem muito culto”, ela falou. “Seria capaz de ensinar todo tipo de assunto. Mas não se parecia muito com um rei. Não como você parece. Nenhum deles parecia.”

Dessa vez foi Stahr que riu.

“Você sabe o que eu quero dizer. Todos eles se sentiam antiquados. A maioria tentava com grande esforço se manter atualizada. Um era sindicalista, por exemplo. E outro costumava carregar com ele umas matérias sobre quando fora semifinalista de um torneio de tênis. Vi aqueles recortes uma dúzia de vezes.”

Seguiram rodando, atravessaram Griffith Park e além, passando pela escuridão dos estúdios em Burbank, pelos aeroportos e, no caminho de Pasadena, pelos letreiros de neon dos cabarés à beira da estrada. Em sua cabeça, ele a queria, mas era tarde, e a viagem, por si só, um prazer irresistível. Deram-se as mãos e, a certa altura, ela se aproximou e, em seus braços, disse: “Ah, você é tão gentil. Gosto mesmo de estar com você”. Mas a mente dela estava dividida — aquela não era uma noite dele, como a tarde de domingo havia sido. Estava absorta em si mesma, inflamada de entusiasmo por contar-lhe suas aventuras; ele não pôde evitar de se perguntar se afinal ouviria a história que ela vinha adiando, sobre O Americano.

“Faz quanto tempo que você conhece O Americano?”, ele quis saber.

“Ah, já o conhecia fazia vários meses. A gente costumava se encontrar. A gente se entendia. Ele sempre dizia: ‘Parece que, de agora em diante, são favas contadas’.”

“Então por que você me ligou?”

Ela hesitou.

“Queria te ver mais uma vez. E também — era pra ele chegar hoje, mas ontem à noite veio um telegrama dizendo que demoraria mais uma semana. Queria conversar com um amigo — afinal, você é meu amigo.”

Ele a queria muito, mas uma parte de sua mente se mantinha fria e seguia dizendo: ela quer conferir se estou apaixonado, se quero me casar com ela. Só aí é que vai pensar se despacha ou não esse cara. Não vai considerar a hipótese até que eu tenha me comprometido.

“Você está apaixonada pelo Americano?”, perguntou.

“Ah, estou. Está tudo acertado. Ele salvou minha vida e minha razão. Está percorrendo meio mundo por mim. Por insistência minha.”

“Mas você está apaixonada por ele?”

“Ah, sim. Estou apaixonada.”

Aquele “ah, sim” lhe dizia que ela não estava — lhe dizia para falar sobre seus próprios sentimentos que ela então veria. Tomou-a nos braços e a beijou deliberadamente na boca e a reteve por um bom tempo. Era tão cálido.

“Hoje não”, ela sussurrou.

“Tudo bem.”

Passaram pela ponte dos suicídios, com seu novo e mais elevado alambrado.

“Sei o que é aquilo ali”, ela disse, “mas que idiotice. Os ingleses não se matam quando não conseguem o que querem.”

Fizeram o retorno na entrada de um hotel e iniciaram o caminho de volta. A noite estava escura, sem lua. A onda de desejo tinha passado e nenhum dos dois falou por um tempo. O papo dela sobre reis o havia transportado, estranhamente e em flashes, a um edulcorado White Way, na Main Street de Erie, Pensilvânia, quando era um menino de quinze anos. Havia um restaurante com lagostas na vitrine, e matinhos verdes e luzes brilhantes numa caverna de conchas, e além, atrás de uma cortina vermelha, o terrivelmente excêntrico e inquietante mistério de pessoas e música de violino. Isso foi logo antes de partir para Nova York. Aquela garota lhe trazia à lembrança peixes frescos no gelo e lagostas na vitrine. Ela era do tipo bonequinha. Minna nunca fora do tipo bonequinha.

Olharam um para o outro, e os olhos dela perguntavam: “Caso com O Americano?”. Stahr não respondeu. Passado um momento, falou: “Vamos a algum lugar no fim de semana.”

Ela ponderou.

“Amanhã, você quer dizer?”

“Amanhã mesmo.”

“Bem, amanhã te respondo”, disse ela.

“Responda hoje à noite. Senão vou ficar preocupado que…”

“Apareça um bilhete no seu carro?”, ela riu. “Não, não vai haver bilhetes no carro. Você já sabe de quase tudo agora.”

“Quase tudo.”

“É… quase. Umas poucas coisinhas.”

Ele precisaria saber que coisinhas eram essas. Ela contaria no dia seguinte. Ele duvidava — queria duvidar — que tivesse havido um emaranhado de relações frívolas: uma fixação a mantivera presa ao Cara, ao rei, obstinadamente e por longo tempo. Três anos de uma posição altamente anômala — um pé no palácio, outro nos bastidores. “Só rindo muito”, ela disse. “Aprendi a rir demais.”

“Ele podia ter casado com você — como aconteceu com a sra. Simpson”, protestou Stahr.

“Ah, ele era casado. E não era um romântico.”

Ela se interrompeu.

“E eu, sou?”

“É”, disse ela, contrariada, como se estivesse descartando um trunfo. “Uma parte sua é. Você é três ou quatro homens diferentes ao mesmo tempo, mas cada um deles um livro aberto. Como todos os americanos.”

“Não comece a confiar nos americanos tão implicitamente”, respondeu ele, sorridente. “Eles podem ser muito transparentes, mas mudam rapidinho.”

Ela pareceu preocupada.

“Mudam, é?”

“Muito rápido, e de maneira radical”, ele disse, “e não há o que os faça voltar ao que eram.”

“Você me assusta. Sempre tive uma grande sensação de segurança com os americanos.”

Ela pareceu tão sozinha que ele pegou sua mão.

“Aonde vamos amanhã?”, falou Stahr. “Que tal irmos às montanhas? Tenho uma pilhas de coisas a fazer amanhã, mas não vou fazer nada. Podemos começar a escalar às quatro da manhã que à tarde chegamos lá.”

“Não tenho muita certeza. Parece que estou um pouquinho confusa. Não me sinto muito mais aquela garota que veio pra Califórnia em busca de uma vida nova.”

Ele poderia ter dito: “Mas isto aqui é uma vida nova”, porque ele sabia que era, sabia que não podia deixá-la ir agora; mas alguma outra coisa pedia que ponderasse um pouco mais como adulto, sem romantismo. E que não dissesse nada a ela até o dia seguinte. Ela, no entanto, continuava a mirá-lo, o olhar passeando da testa ao queixo e então uma vez mais, de cima a baixo, com aquele estranho movimento ondulante e lento da cabeça.

… É sua chance, Stahr. Melhor aproveitar. Ela é sua garota. É ela quem pode salvá-lo, trazê-lo de volta à vida. Vai te colocar sob os cuidados dela e você vai se fortalecer pra poder voltar. Mas pegue-a agora — declare-se e leve-a com você. Nenhum de vocês sabe, mas longe daí, nessa mesma noite, O Americano mudou de planos. Nesse momento mesmo o trem em que viaja atravessa Albuquerque a toda a velocidade; cumpre com precisão o itinerário. O maquinista está no horário. Pela manhã estará aqui.

… O chofer virou morro acima na direção da casa de Kathleen. Parecia fazer calor mesmo na escuridão — qualquer lugar ali perto pelo qual tivesse passado era, para Stahr, uma espécie de lugar encantado: aquela limusine, a casa sendo erguida na praia, as próprias distâncias que os dois haviam percorrido na extensão da cidade. O morro que subiam agora emitia certo brilho, um som contínuo que lhe despertava na alma um estado de prontidão e deleite.

Ao se despedir, ele sentiu novamente que era impossível deixá-la, ainda que por algumas horas. Eram apenas dez anos de diferença entre os dois, mas a loucura que o tomava era a do amor que sente um velho por uma menina. Uma profunda e desesperada urgência de tempo, um relógio no compasso do coração, o que o instou a, contra toda a lógica de sua vida, passando por ela e entrando na casa, dizer: “Isto é pra sempre”.

Kathleen aguardava, ela própria indecisa — uma geada rosada e prateada à espera de derreter com a primavera. Era uma europeia, reverente diante do poder, mas havia nela um poderoso autorrespeito que a impedia de ceder mais do que isso. Não se iludia quanto às considerações que moviam príncipes.

“Vamos às montanhas amanhã”, falou Stahr. Milhares de pessoas dependiam de suas decisões equilibradas — pode acontecer que, de repente, perca força uma característica que por vinte anos definiu alguém.

Na manhã seguinte, um sábado, ele esteve muito ocupado. Às duas, quando voltou do almoço, havia uma pilha de telegramas à espera — um navio da companhia se perdera no Ártico; uma das estrelas do estúdio caíra em desgraça; um roteirista movia um processo de um milhão de dólares. Judeus morriam miseravelmente além-mar. O último telegrama o confrontou: Casei hoje ao meio-dia. Adeus; e, num adendo colado numa etiqueta: Envie sua resposta pela Western Union Telegram.

6

 

 

Eu não sabia de nada disso. Fui para Lake Louise e, quando retornei, nem passei perto do estúdio. Acho que teria tomado o rumo da Costa Leste em meados de agosto — não fosse Stahr me ligar em casa, certo dia.

“Quero que você me ajude com uma coisa, Celia… quero conhecer alguém do Partido Comunista.”

“Quem?”, eu quis saber, um pouco surpresa.

“Qualquer membro do partido.”

“E você não tem um monte deles aí?”

“Quero dizer um dos líderes — de Nova York.”

O verão anterior, para mim, havia sido só política — eu teria conseguido até um encontro com Harry Bridges naquela época. Mas então meu namorado morreu num acidente de carro depois que voltei para a faculdade, e agora estava afastada dessas coisas. Tinha ouvido falar que um cara da The New Masses andava no pedaço, em algum lugar.

“Você garante imunidade?”, perguntei, brincando.

“Ah, sim”, respondeu Stahr, sério, “não vou prejudicá-lo. Arranje um que fale bem — diga pra trazer com ele um de seus livros.”

Falava como se pretendesse se encontrar com algum membro de seita oculta.

“Você quer loira ou morena?”

“Ah, arranje um cara”, falou ele, mais do que depressa.

Ouvir a voz de Stahr me animou — desde que flagrara o papai, as coisas todas pareciam patinar um pouco. Com Stahr, mudava tudo — mudava o jeito de ver, mudava o próprio ar.

“Não acho que seu pai precise ficar sabendo”, ele disse. “Podemos fingir que o cara é um músico búlgaro ou algo assim?”

“Ah, esse pessoal não anda mais disfarçado.”

Foi mais difícil de arranjar do que eu pensava — as negociações de Stahr com o Sindicato dos Roteiristas, que já duravam mais de um ano, caminhavam para um impasse. Talvez eles temessem ser corrompidos, e me perguntaram qual era a “proposta” de Stahr. Mais tarde, Stahr me contou que havia se preparado para a reunião vendo os filmes da Rússia revolucionária que tinha na filmoteca de casa. Também mandou projetar O gabinete do doutor Caligari e O cão andaluz, de Salvador Dalí, possivelmente porque suspeitava que tivessem alguma coisa a ver com a questão. Os filmes russos o haviam surpreendido ainda nos anos 1920 e, por sugestão de Wylie White, chegara a pedir ao departamento de roteiros que lhe preparasse um “tratamento” de duas páginas baseado no Manifesto comunista.

Mas já não pensava nessa questão. Ele era um racionalista com ideias próprias e independentes do que diziam os livros — e acabara de conseguir superar uns mil anos de domínio judaico até fins do século xviii. Não suportava ver desmoronar tudo isso — prezava a apaixonada lealdade do parvenu a um passado imaginário.

A reunião aconteceu naquela que chamo de “sala do couro processado” — uma de um total de seis montadas para nós, anos atrás, por um decorador da Sloane, e então a expressão ficou na minha cabeça. Aquela era a sala típica de decorador: carpete de pele de angorá da cor do alvorecer, do mais delicado cinza que se possa imaginar — mal se ousava pisar nele; e os lambris prateados e as mesas revestidas de couro e os quadros em tons pastel e as frágeis silhuetas, tudo parecia tão facilmente sujeito a dano que a gente não podia respirar muito alto ali dentro, embora fosse maravilhoso olhar da porta quando, com as janelas abertas, as cortinas silvavam dolentes à brisa. O cômodo era descendente direto da velha sala de visitas americana, somente usada aos domingos. Mas mostrou-se a escolha perfeita, e eu esperava que, acontecesse o que acontecesse, a ocasião lhe daria o caráter próprio a torná-la, dali em diante, parte de nossa casa.

Stahr foi o primeiro a chegar. Estava pálido, nervoso e perturbado — exceto pela voz, que era sempre baixa e respeitosa. Havia um traço pessoal de bravura na maneira como recebia alguém — dirigia-se diretamente à pessoa, removendo qualquer coisa que estivesse no caminho, e a examinava inteira, como se não pudesse se conter. Dei-lhe um beijo, por alguma razão, e o conduzi à sala do couro processado.

“Quando você volta pra faculdade?”, ele quis saber.

Não era a primeira vez que pisávamos nesse terreno fascinante.

“Você gostaria de mim se eu fosse mais baixa?”, perguntei. “Eu podia usar salto baixo e o cabelo lambido.”

“Vamos jantar juntos hoje à noite”, ele sugeriu. “As pessoas vão achar que sou seu pai, mas não ligo.”

“Amo homens mais velhos”, assegurei-lhe. “Se o cara não andar de muletas, pra mim é como qualquer outro namorico.”

“E você já teve muitos assim?”

“O suficiente.”

“As pessoas se apaixonam e desapaixonam o tempo todo, não é mesmo?”

“A cada três anos, mais ou menos, segundo Fanny Brice. Acabei de ler no jornal.”

“Eu me pergunto como conseguem”, falou Stahr. “Sei que é verdade porque vejo. Mas parecem tão seguras todas as vezes. E, então, de repente, não parecem mais tão convencidas. Mas se deixam convencer outra vez.”

“Você anda fazendo filmes demais.”

“Fico imaginando se elas se sentem tão seguras na segunda vez, ou na terceira, ou na quarta”, ele insistiu.

“Mais e mais a cada vez”, respondi. “Mais do que nunca na mais recente.”

Ele ponderou a respeito e pareceu concordar.

“Acho que sim. Mais do que nunca na mais recente.”

Não gostei do jeito como disse aquilo, e súbito vi que, sob a superfície, ele se sentia muito infeliz.

“Foi uma grande chateação”, ele disse. “Vai melhorar quando tiver terminado.”

“Espera aí um minuto! Talvez a indústria do cinema esteja nas mãos erradas.”

Brimmer, o membro do Partido Comunista, foi anunciado, e ao me dirigir a ele escorreguei num daqueles capachos de fios trançados e praticamente fui parar em seus braços.

Era um sujeito bem-apanhado, esse Brimmer — um pouco na linha de Spencer Tracy, mas com um rosto mais marcante, expressando um espectro mais amplo de reações. Não pude evitar de pensar, vendo ele e Stahr sorrirem, apertarem as mãos e se estudarem, que aqueles eram dois dos homens mais ágeis que eu já vira. De imediato se mostraram muito cautelosos da presença um do outro — tão corteses para comigo quanto se poderia desejar, mas suavizando o final das frases quando se voltavam na minha direção.

“O que vocês estão tentando fazer?”, inquiriu Stahr. “Meu pessoal mais jovem está todo contrariado.”

“Isso os mantém alertas, não é?”, disse Brimmer.

“Primeiro deixamos que uns russos inspecionassem nossas instalações”, falou Stahr. “Que as estudassem como modelo, você entendeu. E aí vocês tentam quebrar a unidade que faz com que sejamos esse modelo.”

“Unidade?”, repetiu Brimmer. “O senhor se refere ao que se conhece por Espírito da Companhia?”

“Ah, não, não falo disso”, atalhou Stahr, impaciente. “Parece que o alvo de vocês sou eu. Na semana passada, veio ao meu escritório um roteirista — um bêbado — um sujeito que circula por aí há anos à beira de ser internado — e começou a querer me dizer o que fazer.”

Brimmer sorriu.

“O senhor não me parece alguém a quem se poderia dizer o que fazer, sr. Stahr.”

Ambos gostariam de um chá. Quando voltei à sala, Stahr contava uma história sobre os irmãos Warner e Brimmer ria com ele.

“Vou te contar outra”, disse Stahr. “Balanchine, o bailarino russo, os confundia com os irmãos Ritz. Não sabia diferenciar entre os irmãos que estava treinando e os que pagavam seu salário. Costumava andar por aí comentando: ‘Não consigo fazer esses irmãos Warner acertarem a coreografia’.”

Parecia uma tarde tranquila. Brimmer perguntou a ele por que os produtores não haviam apoiado a liga antinazista.

“Por causa de vocês”, respondeu Stahr. “É a maneira como influenciam os roteiristas. A longo prazo estão perdendo tempo. Roteiristas são como crianças — mesmo em tempos normais, não conseguem se concentrar no trabalho.”

“Eles são como agricultores nessa indústria”, falou Brimmer, simpático. “Plantam a comida, mas não são convidados para o banquete. Têm por vocês, os produtores, o mesmo ressentimento do agricultor pelo sujeito da cidade.”

Eu me perguntava sobre a garota de Stahr — se estaria tudo acabado entre eles. Mais tarde, quando escutei de Kathleen a história toda, as duas paradas debaixo de chuva numa rua deplorável chamada Goldwyn Avenue, deduzi que aquele encontro devia ter ocorrido uma semana depois de ela ter enviado o telegrama. Não teve alternativa a não ser mandá-lo. O homem desembarcou do trem inesperadamente e a levou ao cartório sem a menor sombra de dúvida de que era isso o que ela queria. Eram oito da manhã, e Kathleen ficou tão confusa que sua principal preocupação foi descobrir como fazer chegar um telegrama a Stahr. Em tese, poderia ter parado e dito: “Escute, esqueci de te contar, mas é que conheci um cara”. Mas aquele caminho lhe fora apontado com tal precisão, tal confiança, tal esforço, tal alívio, que, ao delinear-se à sua frente, cortando de forma súbita a outra trajetória possível, ela se viu como num carro trafegando em circuito fechado. Ele a observou enquanto redigia o telegrama, olhando diretamente da posição onde estava, do outro lado da mesa, e ela só pôde esperar que não conseguisse ler de cabeça para baixo…

Quando minha mente voltou à sala, os dois acabavam de destruir os pobres roteiristas — Brimmer tinha chegado ao ponto de admitir que eles eram “instáveis”.

“Não são equipados pra lidar com a autoridade”, disse Stahr. “Não há o que substitua a capacidade de decisão. Às vezes é preciso fingir que se tem, mesmo quando não se tem nenhuma.”

“Já tive essa experiência.”

“É preciso dizer: ‘Tem de ser desse jeito — e de nenhum outro’ — ainda que não se tenha certeza. Isso me acontece uma dúzia de vezes por semana. Situações em que não existem, de fato, razões para o que quer que seja. A gente finge que existem.”

“Todos os líderes já passaram por isso”, falou Brimmer. “Líderes trabalhistas, e líderes militares, certamente.”

“Então precisei tomar uma atitude nessa história do Sindicato. Parece, pra mim, que se trata de uma disputa de poder, e tudo que estou disposto a ceder aos roteiristas é dinheiro.”

“O senhor paga muito pouco a alguns deles. Trinta dólares por semana.”

“Quem é que ganha isso?”, quis saber Stahr, surpreso.

“Os que são commodities, fáceis de repor.”

“Não os meus”, retrucou Stahr.

“Ah, sim”, falou Brimmer. “Dois sujeitos do seu departamento de curtas ganham isso, trinta dólares por semana.”

“Quem?”

“Um se chama Ransome, e o outro, O’Brien.”

Stahr e eu sorrimos ao mesmo tempo.

“Esses não são roteiristas”, disse Stahr. “São primos do pai da Cecilia.”

“Tem outros, em outros estúdios”, falou Brimmer.

Stahr apanhou sua colher de chá e se serviu de um pouco de remédio de um frasco.

“O que é um pelego?”, perguntou de repente.

“Um pelego? É um fura-greve ou um infiltrado.”

“Foi o que pensei”, disse Stahr. “Tenho um roteirista de mil e quinhentos por semana que, a cada vez que entra no refeitório, para atrás da cadeira de um e outro de seus colegas e diz: ‘Pelego!’. Seria engraçado, não fosse o baita susto dos caras.”

Brimmer soltou uma risada.

“Queria ver isso”, falou.

“Você não gostaria de passar um dia comigo lá?”, sugeriu Stahr.

Brimmer riu, realmente achando graça.

“Não, sr. Stahr. Mas não duvido que ficaria impressionado. Ouvi dizer que o senhor é um dos homens que mais trabalham duro, e com maior eficiência, de todo o mundo ocidental. Seria um privilégio observá-lo, mas acho que terei de declinar do convite.”

Stahr olhou para mim.

“Gosto do seu amigo”, disse. “É maluco, mas gosto dele.” Encarou Brimmer de perto: “Nascido do lado de cá?”.

“Ah, sim. Há várias gerações.”

“Muitos deles como você?”

“Meu pai era pastor batista.”

“Quero saber se muitos deles são comunistas. Gostaria de conhecer esse judeuzão que tentou explodir a fábrica da Ford. Como é o nome…”

“Frankensteen?”

“Ele mesmo. Imagino que alguns de vocês acreditam nisso.”

“Vários”, falou Brimmer, seco.

“Você não”, disse Stahr.

Uma sombra de irritação cruzou o rosto de Brimmer.

“Ah, sim”, falou ele.

“Ah, não”, disse Stahr. “Talvez tenha acreditado um dia.”

Brimmer deu de ombros.

“Quem sabe o equilíbrio de forças não esteja mudando?”, falou. “No fundo do seu coração, sr. Stahr, o senhor sabe que estou certo.”

“Não”, respondeu Stahr. “Acho que isso tudo é papo furado.”

“… o senhor pensa consigo mesmo: ‘Ele tem razão’, mas acha que o sistema terá uma sobrevida além da sua.”

“Você não acha, realmente, que vai derrubar o governo.”

“Não, sr. Stahr. Mas achamos que talvez o senhor, sim.”

Estavam se provocando — aquelas cutucadinhas que os homens se dão às vezes. As mulheres também fazem isso; mas elas encampam a batalha, sem perdão. Não é agradável ver homens fazê-lo, porém, pois nunca se sabe o que vem em seguida. Certamente aquilo não melhorava, para mim, as associações tonais da sala, e, saindo por uma das portas altas, conduzi os dois até nosso jardim californiano em tons de amarelo e dourado.

Era pleno verão, mas a água fresca dos aspersores resfolegantes conferia um brilho primaveril ao gramado. Pude perceber que Brimmer admirava aquilo como quem suspira com o olhar — um jeito que esse pessoal tem. Ele se agigantara ali fora — era alguns centímetros mais alto do que eu pensara, os ombros largos. Me lembrava um pouco o Super-Homem, quando tirava os óculos. Para mim, ele era tão atraente quanto homens que na verdade não dão bola para mulheres podem ser. Jogamos uma rodada de pingue-pongue, todos contra todos, e ele tinha habilidade com a raquete. Escutei quando papai entrou em casa cantando aquela porcaria de “Little Girl, You’ve Had a Busy Day”, para em seguida se interromper, como se tivesse se lembrado de que não estávamos mais nos falando. Eram seis e meia — meu carro estava parado na entrada, e sugeri que fôssemos jantar no Trocadero.

Brimmer tinha aquela expressão do padre O’Ney quando, em Nova York, certa vez, dispensou a batina para ir comigo e com papai a um balé russo. Não tinha exatamente de estar ali. Quando Bernie, o fotógrafo, que andava à espreita de algum bom flagrante, veio até nossa mesa, pareceu sentir-se encurralado — Stahr fez Bernie sair dali, e eu gostaria de ter tirado aquela foto.

Então, para meu espanto, Stahr tomou três coquetéis, um depois do outro.

“Agora vejo que você teve uma decepção amorosa”, falei.

“O que te faz pensar isso, Cecilia?”

“Os coquetéis.”

“Ah, eu nunca bebo, Cecilia. Me dá indigestão — nunca fui muito resistente.”

Contei: “… dois… três”.

“Nem percebi. Não consegui sentir o gosto. Achei que alguma coisa não estava certa.”

Uma expressão tola e vidrada passou por seus olhos — então se foi.

“Este é meu primeiro drinque na semana”, comentou Brimmer. “Bebi tudo a que tinha direito na Marinha.”

A mesma expressão voltou aos olhos de Stahr — piscou para mim e, enfatuado, disse: “Esse agitador filho da puta esteve na Marinha.”

Brimmer não soube muito bem como reagir àquilo. Ficou evidente que decidira botar na conta do que estava sendo aquela noite, pois sorriu debilmente, e vi que Stahr sorria também. Eu me senti aliviada ao perceber que estávamos no terreno seguro da grande tradição americana e tentei assumir o rumo da conversa, mas Stahr logo pareceu retomar a forma.

“Tipicamente, minha experiência é a seguinte”, disse, muito sucinta e claramente, dirigindo-se a Brimmer. “O melhor diretor de Hollywood — um cara em cujo trabalho jamais me meto — tem essa mania de sempre dar um jeito de colocar um efeminado em todos os seus filmes, ou algo do tipo. Um negócio ofensivo qualquer. É alguma coisa arraigada no cara, que não consigo mudar. E toda vez a Legião da Decência vem pra cima, e é preciso sacrificar algum filme honesto.”

“Típica encrenca organizacional”, concordou Brimmer.

“Típica”, falou Stahr. “É uma batalha sem fim. E agora esse diretor vem me dizer que tudo bem, porque ele está com o Sindicato dos Diretores e não posso ser um opressor dos pobres. É assim que vocês me criam mais problemas.”

“Isso está um pouco distante da gente”, disse Brimmer com um sorriso. “Não acho que tenhamos muita entrada com os diretores.”

“Os diretores costumavam ser meus chapas”, falou Stahr, orgulhoso.

Era como Eduardo vii se gabando por ter se cercado da nata da sociedade europeia.

“Mas alguns deles nunca me perdoaram”, ele continuou, “por ter trazido diretores de teatro quando começamos com filmes falados. Ficaram escaldados e tiveram de reaprender o ofício, mas nunca me perdoaram, na verdade. Naquela época incorporamos uma porção de novos roteiristas, que achei que eram ótimos sujeitos até todos virarem comunistas.”

Gary Cooper entrou no restaurante e se sentou a um canto com um bando de rapazes, os quais respiravam ao ritmo dele, e davam a impressão de que dependiam dele para viver, e de que por nada sairiam de perto dele. Uma mulher cruzou o salão, e por acaso era Carole Lombard — gostei de ver que Brimmer estava ao menos podendo encher os olhos.

Stahr pediu um uísque com soda, e mais outro, quase imediatamente em seguida. Não comeu nada além de algumas colheradas de sopa e falou todas aquelas coisas horríveis sobre todo mundo ser preguiçoso e tal, e que nada daquilo importava para ele, que tinha montes de dinheiro — era o tipo de conversa que se ouvia sempre que papai e os amigos dele se reuniam. Acho que Stahr se deu conta de que era bem feio ficar falando daquele jeito fora das dependências da companhia — talvez pela primeira vez estivesse ouvindo como soava. Seja como for, calou a boca e tomou uma xícara de café preto. Eu o amava, e o que dissera não havia mudado tal fato, mas odiei que Brimmer levasse dele essa impressão. Queria que visse Stahr como uma espécie de virtuose da tecnologia, e o que Stahr estava fazendo ali era bancar o gestor perverso, de tal modo que classificaria sua própria atuação como lixo, se a assistisse projetada numa tela.

“Sou um produtor”, disse, como que mudando sua atitude anterior. “Gosto de roteiristas — acho que os entendo. Não quero mandar embora ninguém que esteja fazendo seu trabalho.”

“Tampouco queremos que o senhor faça isso”, falou Brimmer, simpático. “Gostaríamos de tê-lo na conta de alguém sempre preocupado.”

Stahr assentiu, de cara fechada.

“Queria só ver você numa sala cheia de colegas meus. Todos eles têm uma dúzia de motivos para querer que o Fitts ponha vocês pra correr da cidade.”

“Agradecemos sua proteção”, disse Brimmer, com certa ironia. “Para ser franco, achamos o senhor um pouco difícil, sr. Stahr — precisamente por ser um patrão paternalista com tamanha influência.”

Stahr parecia um tanto distraído.

“Nunca me considerei”, falou, “mais inteligente que um roteirista. Mas sempre achei que a inteligência deles pertence a mim, porque sabia como usá-los. Como os romanos — ouvi dizer que nunca inventavam nada, mas sabiam usar as coisas. Entende? Não digo que seja o certo. Mas é assim que sempre senti, desde menino.”

Aquilo interessou Brimmer — era a primeira coisa por que se interessava em uma hora.

“O senhor se conhece muito bem, sr. Stahr”, disse.

Acho que queria dar o fora. Estava curioso para ver que tipo de homem era Stahr, e agora pensava que já sabia. Ainda na esperança de que as coisas seriam diferentes, apelei impensadamente que nos acompanhasse no carro até em casa, mas, quando Stahr parou num bar para mais uma bebida, soube que tinha cometido um erro.

Era uma noite suave, inofensiva, imóvel, tomada por carros de fim de semana. A mão de Stahr repousava no encosto do banco, tocando meu cabelo. Súbito desejei que a cena se passasse dez anos antes — quando eu tinha nove anos. Brimmer teria uns dezoito, um estudante batalhando para se formar numa faculdade do Meio-Oeste, e Stahr, uns vinte e cinco, cheio de confiança, exultante, tendo recentemente herdado o mundo inteiro. Teríamos ambos admirado Stahr nessa condição, sem dúvida. E ali estávamos num conflito adulto, para o qual não havia solução pacífica, e mais complicado agora, pela exaustão e pela bebida.

Embicamos na entrada de casa e na direção do jardim, mais uma vez.

“Preciso ir agora”, disse Brimmer. “Tenho de encontrar um pessoal.”

“Não, fique”, falou Stahr. “Não cheguei a dizer o que queria. Vamos jogar pingue-pongue e tomar mais um drinque, e aí dizemos umas verdades um pro outro.”

Brimmer hesitou. Stahr acendeu o holofote e apanhou sua raquete, enquanto eu entrava em casa para pegar uísque — não ousaria desobedecer a ele.

Quando voltei, não estavam jogando, mas Stahr sacava uma caixa inteira de bolinhas novas para Brimmer, que as desviava de lado. Parou quando cheguei, tomando da garrafa e se retirando para uma cadeira justo à sombra do holofote, dali passando a presidir em obscura e perigosa majestade. Estava pálido — de tal modo transparente que quase dava para ver o álcool se misturar com o veneno da exaustão.

“Hora de relaxar num sábado à noite”, falou.

“Você não está relaxando”, eu disse.

Travava uma batalha perdida contra um instinto que tendia à esquizofrenia.

“Vou derrubar o Brimmer”, anunciou, depois de um momento. “Vou cuidar desse negócio pessoalmente.”

“Não pode pagar alguém pra isso?”, perguntou Brimmer.

Fiz sinal para que ficasse quieto.

“Eu mesmo faço meu trabalho sujo”, falou Stahr. “Vou acabar com você e te colocar pra correr.”

Levantou e deu um passo à frente, no que o envolvi com meus braços, agarrando-o.

“Por favor, pare com isso!”, falei. “Ah, você está se comportando tão mal.”

“Esse sujeito está te influenciando”, ele disse, sombrio. “E todos os jovens. Você não sabe o que está fazendo.”

“Por favor, vá embora”, eu disse a Brimmer.

O terno de Stahr era feito de um tecido escorregadio e, de repente, ele me escapou e avançou na direção do outro. Brimmer recuou para trás da mesa. Tinha uma estranha expressão no rosto, e mais tarde pensei que era como se dissesse: “Então é isso? Essa pessoa frágil, meio doente, é quem controla o negócio todo”.

Stahr se aproximou ainda mais, as mãos tomando posição, no alto. Me pareceu que Brimmer o manteve afastado com seu braço esquerdo, por um minuto, depois disso desviei o rosto — não aguentava assistir àquilo.

Quando voltei a olhar, Stahr estava fora do campo de visão, abaixo do nível da mesa, e Brimmer o observava.

“Por favor, vá embora”, falei para Brimmer.

“Está bem.” Ele continuou parado, olhando para Stahr no chão, enquanto eu contornava a mesa. “Sempre quis acertar a dezena de milhar, mas não sabia que seria assim.”

Stahr jazia imóvel.

“Por favor, vá”, falei.

“Desculpe. Posso ajudar a…”

“Não. Vá, por favor. Eu entendo.”

Brimmer olhou de novo, um pouco admirado das profundezas a que se entregara Stahr em seu repouso, algo que ele havia provocado numa fração de segundo. Então se afastou apressadamente pelo gramado, e me ajoelhei junto a Stahr, sacudindo-o. Passado um momento, com uma formidável convulsão, ele acordou e levantou de um salto.

“Cadê ele?”, gritou.

“Quem?”, perguntei, inocentemente.

“Aquele Americano. Por que diabos você tinha de casar com ele, sua tola imbecil?”

“Monroe — ele já foi embora. E não me casei com ninguém.”

Fiz com que se sentasse numa cadeira.

“Já foi faz quase meia hora”, menti.

As bolinhas de pingue-pongue se espalhavam em torno, na grama, feito uma constelação de estrelas. Liguei um dos aspersores e voltei com um lenço úmido, mas não havia sinal de pancada no rosto de Stahr — devia ter sido atingido na lateral da cabeça. Ele se dirigiu para trás de algumas árvores a fim de vomitar, e o ouvi chutando um punhado de terra para cobrir a sujeira. Depois disso, pareceu ficar bem, mas se recusava a entrar em casa até que eu lhe arrumasse algo para bochechar, então apanhei a garrafa de uísque, levei para dentro e trouxe de volta outra, com água para bochecho. Sua famigerada tentativa de bebedeira estava acabada. Já havia saído com calouros de faculdade, mas aquilo, pela total inépcia e falta de espírito boêmio, sem dúvida era digno de um troféu. Tudo de ruim lhe acontecera, mas ficou nisso.

*

Entramos em casa; o cozinheiro disse que papai, o sr. Marcus e Fleischaker estavam na varanda, então ficamos na “sala do couro processado”. Ambos tentamos sentar aqui e ali, mas parecíamos escorregar dos assentos, de modo que, por fim, me acomodei num tapete felpudo e Stahr, num apoiador de pés ao meu lado.

“Acertei ele?”, Stahr quis saber.

“Ah, sim”, falei. “Em cheio.”

“Não acredito.” Passado um minuto, acrescentou: “Não queria machucá-lo. Só queria dar uma carreira. Acho que ele se assustou e me acertou”.

Se era essa sua interpretação para o que ocorrera, por mim tudo bem.

“Está com raiva dele?”

“Ah, não”, ele disse. “Eu estava bêbado.” Olhou em volta. “Nunca estive aqui antes — quem montou esta sala… alguém do estúdio?”

“Bem, tenho de dar o fora daqui”, falou, daquele seu jeito de sempre, ameno. “Você não está a fim de ir ao rancho de Doug Fairbanks e passar a noite lá?”, perguntou. “Sei que ele adoraria te receber.”

Foi assim que começaram as duas semanas em que ele e eu circulamos juntos. Depois da primeira, Louella já estava anunciando que tínhamos nos casado.

————

O manuscrito acaba aqui. A sinopse do resto da história, que segue abaixo, foi organizada a partir das anotações e esboços de Fitzgerald e do relato de pessoas com as quais o escritor discutiu o livro:

Logo após seu encontro com Brimmer, Stahr faz uma viagem à Costa Leste. Há uma ameaça de corte de salários no estúdio e o executivo viaja a fim de conversar com os acionistas — presumivelmente no intuito de induzi-los a reduzir gastos de alguma outra forma. Stahr e Brady vinham trabalhando em lados opostos fazia tempo, e a luta dos dois pelo controle da empresa está rapidamente chegando a um clímax. Não sabemos o resultado da viagem do ponto de vista dos negócios, mas, tendo ou não um propósito ligado ao trabalho, sabemos que Stahr visita Washington pela primeira vez com a intenção de aproveitar a cidade; e presume-se que o autor pretendesse retornar ao tema introduzido no primeiro capítulo, com a visita dos personagens de Hollywood à casa de Andrew Jackson e a tentativa fracassada de entrarem no local ou mesmo de poderem vê-lo direito: a relação entre a indústria do cinema e os ideais e a tradição dos Estados Unidos. É verão. Washington está sufocante. Stahr pega uma gripe e vagueia pela cidade em estado confuso e febril. Nunca conseguiu conhecer a cidade da forma como gostaria.

Quando se restabelece e volta a Hollywood, o executivo descobre que Brady aproveitou sua ausência para instituir um corte de cinquenta por cento nos salários. O rival convocara uma reunião com os roteiristas e, num discurso lamuriento, informara que os executivos aceitariam cortar os próprios rendimentos se os roteiristas concordassem com a redução de seus salários. E mais, se concordassem, não seria preciso reduzir o pagamento dos estenógrafos e de outros funcionários de baixo escalão. Os roteiristas aceitaram o acordo, mas tinham sido enganados por Brady, que cortara os salários dos estenógrafos da mesma forma. Stahr se revolta e tem uma briga violenta com Brady. Embora não fosse a favor dos sindicatos — por acreditar que qualquer contínuo esforçado podia chegar ao topo por si próprio, como ele fizera —, Stahr, um empregador paternalista à moda antiga, gosta de sentir que as pessoas trabalham felizes para ele e aprecia manter boas relações com os empregados. Stahr discute também com Wylie White, que agora lhe é truculento e hostil, embora o executivo não tivesse sido pessoalmente responsável pelos cortes. Stahr sempre fora paciente com as bebedeiras e as piadas de mau gosto de Wylie no passado, e se ressente de o roteirista não ter por ele o mesmo tipo de lealdade pessoal — que é a única forma de solidariedade que Stahr consegue compreender em suas relações de negócios. “Os comunistas agora o encaram como um conservador — e Wall Street, como um comunista.” Levado pela lógica da situação, Stahr acaba aceitando a proposta, apresentada e aprovada com entusiasmo por Brady, de criar um sindicato na companhia.

Quanto à sua própria posição no estúdio, Stahr vinha desde Washington considerando a hipótese de se demitir. Mas, embora intimamente enfraquecido pela disputa, doente, infeliz e amargurado, ainda assim é difícil se render a Brady. Nesse meio-tempo, começa a sair com Cecilia. A garota, numa conversa com o pai a respeito da evidente atenção que Stahr tem reservado a ela, revela, por descuido, que Stahr está apaixonado por outra pessoa. Brady descobre Kathleen, com quem Stahr está saindo novamente, e tenta chantageá-lo. Stahr, desgostoso com os Brady, rompe abruptamente com Cecilia. Ele conhece há anos uma história de que Brady estivera envolvido na morte do marido de uma mulher por quem ele (Brady) fora apaixonado — ouvira a história da boca da enfermeira da esposa de Brady. Os dois homens se ameaçam sem nenhuma prova concreta de ambos os lados.

Brady, no entanto, tem uma carta na manga. O homem com quem Kathleen se casou — cujo nome é W. Bronson Smith — é um técnico que trabalha no estúdio e tem papel ativo no sindicato. É impossível dizer precisamente como Scott Fitzgerald imaginava encaixar a situação trabalhista de Hollywood nos propósitos de sua história. Mas, na época em que escrevia o livro, várias categorias de técnicos se organizavam para formar a International Alliance of Theatrical Stage Employees [Aliança Internacional dos Técnicos de Teatro e Cinema], e é óbvio que pretendia explorar as práticas de extorsão e gangsterismo da organização, reveladas no caso de William Bioff. Brady procuraria o marido de Kathleen, manobrando-o por meio do ciúme que sentia da esposa. Não sabemos o que Fitzgerald imaginava que os dois pudessem fazer a Stahr. Originalmente, Robinson, o montador (o personagem aparece nas notas), o mataria, mas parece mais provável que uma armadilha fosse preparada para Stahr, de modo que o marido de Kathleen pudesse processá-lo por tentar roubar-lhe a esposa. No esboço que Fitzgerald fez para a história, o tema do capítulo 8 está indicado pelas palavras: “O processo e o preço”. A ideia é explicada pela anotação posterior que Fitzgerald fez de um material que pretendia utilizar, embora seja impossível dizer como pretendia adaptá-lo para que encaixasse na história: “Um dos irmãos de —— é acusado por um funcionário de seduzir sua esposa. É processado por isso. Tentam fazer um acordo, mas o homem por trás do processo é um líder trabalhista e não está disposto a ceder. Também não quer se divorciar. Ele considera apelar para medidas extremas. O preço é que —— se afaste por um ano. O instinto de —— é ficar e enfrentar a situação, mas os outros irmãos se reúnem e obtêm de um médico aquilo que, para ele, é como uma sentença de morte: sua aposentadoria. Tenta convencer a garota a ir com ele, mas teme o Mann Act. Ela se juntará a ele mais adiante para saírem do país”.

De qualquer forma, Stahr deveria ser salvo pela intervenção do operador de câmera Pete Zavras, de quem se tornou amigo no começo da história, quando Zavras estava em baixa com os estúdios.

Nesse meio-tempo, Stahr fica seriamente adoentado. Ele e Kathleen “tinham aproveitado oportunidades e tanto”. Conseguiram mesmo dar uma última “escapada”, durante uma sufocante onda de calor no início de setembro. O autor indica em seus primeiros rascunhos que Kathleen tinha “origem muito humilde” — seu pai fora capitão de um barco pesqueiro. Em outro momento, diz que Stahr encontrava dificuldades em aceitá-la como parte permanente de sua vida porque ela “é pobre, sem graça, e tem um verniz de classe média que não se encaixa com a grandiosidade que Stahr espera da vida”. É possível que o conflito trabalhista no qual o marido de Kathleen se envolvera tivesse papel importante para afastá-la de Stahr. O executivo é levado de volta ao passado por Brady e, ao mesmo tempo, pelos sindicatos. O racha entre os donos da indústria cinematográfica, de um lado, e os vários grupos de empregados, de outro, se agrava e tira espaço dos verdadeiros individualistas, como Stahr, cujo sucesso é resultado de conquistas pessoais e cuja carreira sempre fora investida de certo glamour também próprio. Stahr sempre se considerou diretamente responsável por todas as pessoas com quem trabalhava, e queria mesmo derrotar pessoalmente seus inimigos. Em Hollywood, ele é “o último magnata”.

Stahr não tinha medo, como vemos na reunião do capítulo 3, de investir em filmes impopulares que trouxessem alguma satisfação artística. Tinha o interesse de um artesão no mundo do cinema, e era natural querer que os filmes fossem cada vez melhores. Mas estava de mãos amarradas desde o corte de salários e tinha parado de produzir filmes. Estava prevista uma segunda série de cenas mostrando Stahr em uma reunião de roteiro, na projeção de copiões e nos sets de filmagem, para contrastar com as séries similares dos capítulos 3 e 4, mostrando a mudança que ocorrera em sua atitude e em seu status.

Ele precisa, no entanto, se manter firme na disputa com Brady — e sabe que o rival não vai desistir por nada. Stahr teme, evidentemente, que Brady mande alguém matá-lo e decide recorrer aos métodos do outro, contratando uma pessoa para assassinar o rival. Para fazer o serviço, vai direto aos gângsteres, ao que tudo indica. Não fica claro como o assassinato será realizado, mas, de modo a estar ausente quando o fato ocorrer, Stahr arranja uma viagem a Nova York. Vê Kathleen pela última vez no aeroporto e também encontra Cecilia, que está voltando para a faculdade em um voo diferente. No avião, sente-se desgostoso pelo curso que as coisas tomaram e se dá conta de que se deixou rebaixar ao nível de brutalidade de Brady. Decide voltar atrás e pretende comunicar sua decisão tão logo o avião desça no próximo aeroporto. Mas o avião cai antes de chegar à próxima parada. Stahr morre e o assassino faz seu trabalho. O agourento suicídio de Schwartz no capítulo de abertura é completado pela morte de Stahr. A mensagem que Schwartz tentara enviar a Stahr pretendia avisá-lo de que Brady queria tirá-lo da companhia.

*

O funeral de Stahr, que seria descrito em detalhes, seria uma orgia do servilismo e da hipocrisia de Hollywood. Todo mundo chora copiosamente, ou conspicuamente reprime a emoção, sempre com um olho nas pessoas que interessam. Cecilia imagina que, se Stahr pudesse estar presente, diria apenas: “Escória!”. O velho ator que interpretava caubóis, Johnny Swanson, mencionado no início do capítulo 2 quando se encontrava em situação difícil e por quem Cecilia pretendia interceder ao visitar o escritório do pai, acaba convidado para o enterro por engano — confundiram seu nome com o de outra pessoa — e lhe pedem que leve uma das alças do caixão, junto dos amigos mais importantes e íntimos do produtor. Johnny participa de toda a cerimônia, espantado, e descobre mais tarde, com estupor, que sua boa sorte foi gloriosamente restabelecida. A partir de então, recebe cada vez mais convites para trabalhar em filmes.

Nesse meio-tempo, uma visão final de Fleishacker, o ambicioso advogado da empresa, desprovido de consciência ou mente criativa, deveria mostrá-lo como a imagem do futuro imediato do cinema. Haveria, ainda, uma passagem no final com Cecilia e Fleishacker. Ele, que se formou na Universidade de Nova York, tentava casar com Cecilia e, para impressioná-la, procurava manter um diálogo “intelectual”.

Cecilia, na esteira de sua ligação com Stahr, tivera um caso com um homem a quem não amava — provavelmente Wylie White, que está atrás dela desde o início e representa o oposto de Stahr. Como resultado das mortes de Stahr e de seu pai, Cecilia desaba completamente. Contrai tuberculose e, ficamos sabendo pela primeira vez, escreve a história em um sanatório.

Haveria uma imagem final de Kathleen parada do lado de fora do estúdio. Ela presumivelmente teria se separado, após seu marido conspirar contra Stahr. Um dos principais motivos por que Stahr se sentia atraído por ela era o fato de não ter ligação com o universo de Hollywood, e agora Kathleen sabe que jamais fará parte dele. Estará, para sempre, do lado de fora — uma situação que também comporta certa dose de tragédia.

Você terminou O Último Magnata

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