O Veneno da Maçã

Cleia Lira · Capítulo 2 de 10

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O Veneno da Maçã

Eu sou livre

Quando o príncipe dos meus sonhos vier a mim,

ele vai sussurrar “eu te amo” e roubar um beijo ou dois.

– Branca de Neve

 

NASCI E CRESCI numa fazenda no sul do

país. Meu pai, Alfredo, tem uma plantação de

maçãs e cultiva a fruta desde bem jovenzinho. A fazenda está na família há anos, nem sei quem

plantou a primeira macieira. Hoje em dia, meu pai é

um dos maiores produtores da região. Sou a caçula

de sete irmãos – isso mesmo, a única mulher no

meio de tanta testosterona.

Papai teve quatro filhos com a primeira

esposa, mas ela morreu cedo, vítima de um câncer

agressivo, e ele ficou com a incumbência de cuidar

dos meninos sozinho. Minha mãe, Carmem, perdeu

o marido ainda jovem, vítima de um ataque

cardíaco, e ficou sozinha com três filhos. Os dois se

conheceram na igreja e, depois de alguns meses,

resolveram morar juntos. Foi uma confusão só. Os

meninos, quase da mesma idade, brigavam feito

cão e gato, mas as coisas foram se acalmando e, no

ano seguinte, eu nasci para apaziguar os ânimos –

pelo menos, é isso que minha mãe conta. Eles

deixaram de implicar uns com os outros e

decidiram cuidar de mim, ou melhor, não largar do

meu pé. Todos me irritam, são pegajosos, mas amo

cada um deles, só não digo muito isso para não se

acostumarem.

Finalmente, mais uma etapa da minha vida iria

começar: no ano seguinte, cursaria veterinária na

capital. Eu nunca tinha saído da fazenda nem da pequena cidade da qual ela faz parte, por isso era

um desafio e uma imensa expectativa morar

sozinha pela primeira vez. Mesmo que eu fosse

dividir o apartamento com outras meninas, ainda

assim era uma grande mudança para mim, e eu

estava contando nos dedos os dias que faltavam

para a minha viagem.

Estava sentada no balanço que meu irmão

mais velho construíra para mim atrás da nossa casa,

no velho ipê, esperando a minha única amiga

aparecer para jogar conversa fora e me distrair.

— Achei que não apareceria mais —

resmunguei quando ela surgiu atrás de mim e

tampou meus olhos com as mãos.

— Minha avó não me deixou sair antes de

ajudá-la com a louça — explicou enquanto se

sentava embaixo da árvore. Clara vinha passar os

finais de semana com a avó, que morava numa

fazenda a pouco mais de um quilometro da minha.

Nós havíamos nos conhecido desde criança, e eu

contava tudo para ela.

— Não é nenhuma novidade ajudar a sua avó,

você só vem para a casa dela por isso. Não entendo

por que enrola tanto — comentei dando de ombros,

observando minha amiga encostada ao grande tronco do ipê, com os cabelos louros e lisos até a

cintura e uma franja insistente que cobria parte dos

seus olhos castanhos. Com o corpo esguio e

franzino, ela nem parecia que tinha 18 anos, assim

como eu.

— Tenho preguiça. — Suspirou, tirando a

franja dos olhos.

— Sei disso, eu também tenho às vezes, mas

tenho que fazer do mesmo jeito, por isso faço o

mais rápido que posso e depois disso estou livre.

— Fala isso porque sua mãe não manda você

fazer um monte de tarefas domésticas.

— Nem sua avó. Vamos mudar de assunto,

que já estou cansada dessa reclamação — pedi

fazendo impulso nos pés para o balanço se mexer.

— Sobre o que quer falar? — questionou

distraída.

— A faculdade — respondi animada,

ganhando impulso no balanço.

— Eu sabia — comentou abrindo um sorriso

maroto.

— Ainda não cansei de falar sobre isso, acho

que nem quando estiver lá, cursando veterinária,

vou me cansar. Não sei como vai aguentar ficar

mais um ano morando com seus pais. Mesmo que não more numa fazenda o tempo todo, como eu, a

cidade ainda é um ovo.

— O que vou fazer? Não passei no curso que

queria, por isso vou ter que esperar mais um ano —

falou resignada.

— Desculpe, amiga, não queria magoar você

— disse arrependida.

— Eu sei disso, não se preocupe. Vou ficar

torcendo por você. Aproveite sua liberdade e me

conte tudo — pediu animada.

— Vou fazer isso, pode ter certeza. A primeira

coisa que vou fazer quando morar sozinha é ir a

uma festa, beber todas e ficar com um estranho —

falei sonhadora.

— Não se empolgue tanto, os garotos da

faculdade não são como os pés-rapados da pequena

escola em que estudamos, além disso, não

conhecem os seus irmãos para se sentir

intimidados, pode ser perigoso ficar bêbada numa

festa.

— Você tem razão, vou esquecer a bebida,

mas pretendo ir a muitas festas e dar meu primeiro

beijo! — comentei empolgada. Morar numa

fazenda e estudar em uma escola pequena não me

trouxeram muitas experiências com os garotos, sem contar a vigilância constante dos meus irmãos – era

impossível conseguir fugir deles. Após atingir a

maioridade, passei a ter um pouco mais de folga,

uma vez que os mais novos estavam na faculdade e

tinham deixado a fazenda, enquanto os outros

estavam trabalhando fora. Ainda assim, nessa

época o Gabriel e o Rodrigo ainda moravam com

meus pais – mesmo que ambos já tivessem quase

trinta anos – e me vigiavam o tempo todo.

— Que inveja!

— Não sinta, ainda vai chegar o seu dia de sair

de casa.

Aumentei o ritmo do balanço. Adorava sentir

o vento nas minhas pernas e a sensação de

liberdade que esse balançar me proporcionava.

Ficamos a tarde toda conversando sobre

nossos futuros. Esse era o assunto do momento.

Quando se tem uma vida monótona como a minha,

tudo o que mais se deseja é sair da rotina. No meu

caso, a saída era ir para a faculdade. Já no fim da

tarde, despedi-me da minha amiga e caminhei

devagar em direção a minha casa.

Deslizei meus pés pelo cascalho branco que

indicava o caminho e aos poucos fui avistando

minha casa, único lugar que já chamara de lar. Não era luxuosa, mas eu a adorava. As janelas de

madeira combinavam com a fachada toda pintada

de branco. Apesar de não parecer, era imensa, para

comportar a família enorme que eu tinha, com dez

quartos, uma cozinha moderna e confortável, uma

sala de estar que abrigaria minha família toda e

mais vinte convidados, além da biblioteca, o

escritório do meu pai, uma sala de jantar, uma sala

de TV, vários banheiros e uma varanda que cercava

toda a casa, com bancos, redes e poltronas

confortáveis espalhados pelos quatro cantos.

— Até que enfim resolveu aparecer —

ironizou a minha mãe, secando as mãos no avental

enquanto se virava para me receber.

Entrei pela porta da cozinha, e o cheiro da sua

famosa torta de maçã já tomava conta do ambiente.

Olhei na direção em que vinha o cheiro gostoso e

fiquei com os olhos do tamanho de pires ao

observar as duas tortas esfriando em cima da

enorme mesa de madeira.

— Estava no balanço com a Clara —

justifiquei na esperança de amansar a fera. Minha

mãe era baixinha, magra, com cabelos pretos

parecidos com os meus e grandes olhos castanhos,

mas, por trás de toda essa fragilidade, abrigava uma leoa – nunca a deixe irritada; você se arrependerá

depois. Por isso, eu era cautelosa ao conversar com

ela; não se sabia quando suas garras iriam se

mostrar. Brincadeiras à parte, mamãe era minha

amiga, e conversávamos sobre tudo, até garotos –

os poucos pelos quais me apaixonara durante o

tempo em que frequentara a escola.

— Não demore tanto da próxima vez.

Esqueceu que preciso da sua ajuda para preparar o

jantar? — indagou erguendo as sobrancelhas.

— Não esqueci — resmunguei pegando os

pratos no aparador para arrumar a mesa do jantar.

Essa era a nossa rotina. Não era cansativa, de modo

algum. Porém, era enfadonha, e, a cada dia que

passava, eu estava mais estressada com ela.

Quando terminei meu serviço, fui até a porta

da sala e gritei a plenos pulmões:

— O jantar está na mesa, pessoal! — Não

precisei repetir o convite; no mesmo instante, a

conversa cessou, as cadeiras se arrastaram, e os

passos largos na minha direção ecoaram no

ambiente.

Minutos depois, todos já estavam sentados à

mesa, meu pai à cabeceira, sorrindo como sempre,

usando uma camiseta e um jeans surrado, sua roupa preferida para ficar em casa. Seus poucos cabelos

pretos estavam bem penteados para trás, e seus

olhos verdes se encontravam cansados depois de

um dia todo cuidando da plantação. Sua

barriguinha saliente não o deixava se encostar à

mesa.

Ao lado dele estava meu irmão mais velho,

filho do primeiro casamento do meu pai, Gabriel.

Ele se formara alguns anos antes em administração

e voltara para cuidar da fazenda, era o braço direito

do meu pai. Ainda não tinha se casado, apesar das

garotas da região ficarem encantadas por ele. Meu

irmão era bonito, tinha porte atlético, olhos verdes

e cabelos pretos como os do meu pai. Apesar disso,

não parecia querer se casar tão cedo. Seu principal

interesse era o trabalho.

No lado oposto se sentou meu outro irmão,

Rodrigo, o mais cheinho deles e o único que tinha

uma barriguinha saliente, parecida com a do meu

pai. Mesmo assim, eu o considerava bonito, do seu

jeito, é claro, sempre tão atencioso e educado,

mesmos olhos e cabelos do irmão, com mais alguns

quilinhos de charme, segundo ele. Era o único que

tinha uma namorada, e em breve ficariam noivos.

Ele cursara engenharia civil e trabalhava na prefeitura da cidade vizinha, por isso ainda morava

com os pais.

Bem próximo a ele, sentado despojado na

cadeira, estava Vítor, sem prestar atenção ao que se

passava a sua volta, mesmos olhos verdes e cabelos

pretos. Porém, seu corpo era um diferencial, pois

ele era todo trabalhado pelos anos de prática de

judô, inclusive competia fora do país pela sua

faculdade de educação física, o que o ajudara a

abrir a única academia da cidade, que oferecia,

além da arte marcial, musculação e outras

atividades. Ele não morava mais na fazenda, mas

sempre aparecia para comer.

Meu outro irmão por parte de pai não estava

em casa; Gustavo havia ido cursar agronomia fora

do estado. Era a cópia dos irmãos, exceto por um

detalhe: era o irmão mais carinhoso que eu tinha.

Mamãe se acomodou na outra ponta da mesa,

de frente para papai, e, ao lado dela, meus irmãos

por parte de mãe se sentaram. Eu não fazia

distinção entre eles, mas era nítida a diferença,

sobretudo na aparência física. Enquanto meus

irmãos por parte de pai eram morenos de olhos

verdes, os por parte de mãe eram louros e tinham

olhos azuis, assim como o pai deles.

Marcos, o mais velho deles, tinha quase a

idade de Gabriel, mas era o oposto dele: franzino,

usava óculos e adorava mexer em computadores.

Sua paixão era tanta que se formou na área e foi

trabalhar na capital. Estava em casa para as férias

de final de ano que se aproximavam.

Lucas era o irmão sorridente e feliz; nunca

tinha tempo ruim para ele. Sentado ao lado da

mamãe, puxava conversa o tempo todo e também

estava de férias na fazenda, de seu curso superior

de gastronomia na capital.

Guilherme não estava em casa, quase nunca

aparecia. Era modelo e ator, fazia faculdade de

teatro na capital, viajava o mundo a trabalho nas

férias e competia pelo título de irmão mais bonito

com o Vitor.

Estava tão distraída que nem percebi que todos

já tinham se servido e a conversa dera lugar ao

barulho dos talheres e das travessas sendo passadas

de mão em mão. O aroma gostoso da comida

caseira preparada com carinho pela minha mãe

tomava conta do ambiente.

O ponto alto da noite ficou por conta das tortas

de maçã. Estavam tão suculentas que minha boca

salivou antes mesmo de comer o primeiro pedaço. Devoramos as duas tortas enormes em questão de

minutos, e apenas migalhas sobraram nas travessas

de vidro.

Depois do jantar, nós nos dividimos para tirar

a mesa, lavar, secar e guardar a louça e nos

preparamos para dormir. Deitei-me mais cedo do

que de costume, por isso demorei a pegar no sono.

Fiquei girando de um lado para o outro e só fui

dormir de verdade quase duas horas depois.

Acordei no dia seguinte cansada, mas não

reclamei. Precisei pular da cama e ajudar minha

mãe com os afazeres da casa. Apesar de termos

uma empregada, não era suficiente para cuidar de

uma casa tão grande como aquela.

Estava varrendo a varanda despreocupada.

Meus irmãos já tinham saído de casa, minha mãe

estava na cozinha, a empregada, limpando os

quartos, e meu pai, fazendo uma ligação no

escritório. Por isso eu não esperava o barulho de

um carro cada vez mais perto até que estacionou

bem em frente à minha casa. Encostei a vassoura na

parede, coloquei as mãos na cintura e esperei o

motorista dar a volta e se aproximar. Porém, não

estava preparada para aquilo: um homem alto,

moreno, corpo atlético escondido por trás de uma calça jeans agarrada às suas coxas grossas, uma

camisa xadrez que evidenciava seus músculos,

cabelos pretos jogados de lado e óculos escuros que

escondiam a cor dos seus olhos, mas combinavam

com seu rosto másculo e quadrado.

— Bom dia! — saudou-me, abrindo um

sorriso lindo de comercial de pasta de dente e

tirando os óculos escuros para mostrar lindos olhos

castanhos por trás deles.

— Bom dia — cumprimentei, tentando me

recuperar daquela visão estonteante.

— Sou William, agrônomo que veio cuidar da

praga nas macieiras — explicou estendendo a mão

para me cumprimentar.

— Sou Branca — respondi apertando sua

mão, e meu corpo todo se arrepiou no mesmo

instante.

— Branca de Neve, como no conto de fadas?

— questionou arqueando as sobrancelhas entre

expectativa e deboche.

— Não, é só um apelido, meu nome

verdadeiro é Raquel — expliquei sem graça.

— Bem melhor — resmungou olhando atrás

de mim. Virei-me na direção em que ele olhava e vi

meu pai se aproximando.

Os dois se cumprimentaram e caminharam

juntos para dentro da casa, enquanto permaneci

parada na varanda, com as pernas trêmulas, o

coração batendo freneticamente e as mãos suando.

Que homem é esse?, pensei me escorando na

parede.