O Veneno da Maçã
Eu sou livre
Quando o príncipe dos meus sonhos vier a mim,
ele vai sussurrar “eu te amo” e roubar um beijo ou dois.
– Branca de Neve
NASCI E CRESCI numa fazenda no sul do
país. Meu pai, Alfredo, tem uma plantação de
maçãs e cultiva a fruta desde bem jovenzinho. A fazenda está na família há anos, nem sei quem
plantou a primeira macieira. Hoje em dia, meu pai é
um dos maiores produtores da região. Sou a caçula
de sete irmãos – isso mesmo, a única mulher no
meio de tanta testosterona.
Papai teve quatro filhos com a primeira
esposa, mas ela morreu cedo, vítima de um câncer
agressivo, e ele ficou com a incumbência de cuidar
dos meninos sozinho. Minha mãe, Carmem, perdeu
o marido ainda jovem, vítima de um ataque
cardíaco, e ficou sozinha com três filhos. Os dois se
conheceram na igreja e, depois de alguns meses,
resolveram morar juntos. Foi uma confusão só. Os
meninos, quase da mesma idade, brigavam feito
cão e gato, mas as coisas foram se acalmando e, no
ano seguinte, eu nasci para apaziguar os ânimos –
pelo menos, é isso que minha mãe conta. Eles
deixaram de implicar uns com os outros e
decidiram cuidar de mim, ou melhor, não largar do
meu pé. Todos me irritam, são pegajosos, mas amo
cada um deles, só não digo muito isso para não se
acostumarem.
Finalmente, mais uma etapa da minha vida iria
começar: no ano seguinte, cursaria veterinária na
capital. Eu nunca tinha saído da fazenda nem da pequena cidade da qual ela faz parte, por isso era
um desafio e uma imensa expectativa morar
sozinha pela primeira vez. Mesmo que eu fosse
dividir o apartamento com outras meninas, ainda
assim era uma grande mudança para mim, e eu
estava contando nos dedos os dias que faltavam
para a minha viagem.
Estava sentada no balanço que meu irmão
mais velho construíra para mim atrás da nossa casa,
no velho ipê, esperando a minha única amiga
aparecer para jogar conversa fora e me distrair.
— Achei que não apareceria mais —
resmunguei quando ela surgiu atrás de mim e
tampou meus olhos com as mãos.
— Minha avó não me deixou sair antes de
ajudá-la com a louça — explicou enquanto se
sentava embaixo da árvore. Clara vinha passar os
finais de semana com a avó, que morava numa
fazenda a pouco mais de um quilometro da minha.
Nós havíamos nos conhecido desde criança, e eu
contava tudo para ela.
— Não é nenhuma novidade ajudar a sua avó,
você só vem para a casa dela por isso. Não entendo
por que enrola tanto — comentei dando de ombros,
observando minha amiga encostada ao grande tronco do ipê, com os cabelos louros e lisos até a
cintura e uma franja insistente que cobria parte dos
seus olhos castanhos. Com o corpo esguio e
franzino, ela nem parecia que tinha 18 anos, assim
como eu.
— Tenho preguiça. — Suspirou, tirando a
franja dos olhos.
— Sei disso, eu também tenho às vezes, mas
tenho que fazer do mesmo jeito, por isso faço o
mais rápido que posso e depois disso estou livre.
— Fala isso porque sua mãe não manda você
fazer um monte de tarefas domésticas.
— Nem sua avó. Vamos mudar de assunto,
que já estou cansada dessa reclamação — pedi
fazendo impulso nos pés para o balanço se mexer.
— Sobre o que quer falar? — questionou
distraída.
— A faculdade — respondi animada,
ganhando impulso no balanço.
— Eu sabia — comentou abrindo um sorriso
maroto.
— Ainda não cansei de falar sobre isso, acho
que nem quando estiver lá, cursando veterinária,
vou me cansar. Não sei como vai aguentar ficar
mais um ano morando com seus pais. Mesmo que não more numa fazenda o tempo todo, como eu, a
cidade ainda é um ovo.
— O que vou fazer? Não passei no curso que
queria, por isso vou ter que esperar mais um ano —
falou resignada.
— Desculpe, amiga, não queria magoar você
— disse arrependida.
— Eu sei disso, não se preocupe. Vou ficar
torcendo por você. Aproveite sua liberdade e me
conte tudo — pediu animada.
— Vou fazer isso, pode ter certeza. A primeira
coisa que vou fazer quando morar sozinha é ir a
uma festa, beber todas e ficar com um estranho —
falei sonhadora.
— Não se empolgue tanto, os garotos da
faculdade não são como os pés-rapados da pequena
escola em que estudamos, além disso, não
conhecem os seus irmãos para se sentir
intimidados, pode ser perigoso ficar bêbada numa
festa.
— Você tem razão, vou esquecer a bebida,
mas pretendo ir a muitas festas e dar meu primeiro
beijo! — comentei empolgada. Morar numa
fazenda e estudar em uma escola pequena não me
trouxeram muitas experiências com os garotos, sem contar a vigilância constante dos meus irmãos – era
impossível conseguir fugir deles. Após atingir a
maioridade, passei a ter um pouco mais de folga,
uma vez que os mais novos estavam na faculdade e
tinham deixado a fazenda, enquanto os outros
estavam trabalhando fora. Ainda assim, nessa
época o Gabriel e o Rodrigo ainda moravam com
meus pais – mesmo que ambos já tivessem quase
trinta anos – e me vigiavam o tempo todo.
— Que inveja!
— Não sinta, ainda vai chegar o seu dia de sair
de casa.
Aumentei o ritmo do balanço. Adorava sentir
o vento nas minhas pernas e a sensação de
liberdade que esse balançar me proporcionava.
Ficamos a tarde toda conversando sobre
nossos futuros. Esse era o assunto do momento.
Quando se tem uma vida monótona como a minha,
tudo o que mais se deseja é sair da rotina. No meu
caso, a saída era ir para a faculdade. Já no fim da
tarde, despedi-me da minha amiga e caminhei
devagar em direção a minha casa.
Deslizei meus pés pelo cascalho branco que
indicava o caminho e aos poucos fui avistando
minha casa, único lugar que já chamara de lar. Não era luxuosa, mas eu a adorava. As janelas de
madeira combinavam com a fachada toda pintada
de branco. Apesar de não parecer, era imensa, para
comportar a família enorme que eu tinha, com dez
quartos, uma cozinha moderna e confortável, uma
sala de estar que abrigaria minha família toda e
mais vinte convidados, além da biblioteca, o
escritório do meu pai, uma sala de jantar, uma sala
de TV, vários banheiros e uma varanda que cercava
toda a casa, com bancos, redes e poltronas
confortáveis espalhados pelos quatro cantos.
— Até que enfim resolveu aparecer —
ironizou a minha mãe, secando as mãos no avental
enquanto se virava para me receber.
Entrei pela porta da cozinha, e o cheiro da sua
famosa torta de maçã já tomava conta do ambiente.
Olhei na direção em que vinha o cheiro gostoso e
fiquei com os olhos do tamanho de pires ao
observar as duas tortas esfriando em cima da
enorme mesa de madeira.
— Estava no balanço com a Clara —
justifiquei na esperança de amansar a fera. Minha
mãe era baixinha, magra, com cabelos pretos
parecidos com os meus e grandes olhos castanhos,
mas, por trás de toda essa fragilidade, abrigava uma leoa – nunca a deixe irritada; você se arrependerá
depois. Por isso, eu era cautelosa ao conversar com
ela; não se sabia quando suas garras iriam se
mostrar. Brincadeiras à parte, mamãe era minha
amiga, e conversávamos sobre tudo, até garotos –
os poucos pelos quais me apaixonara durante o
tempo em que frequentara a escola.
— Não demore tanto da próxima vez.
Esqueceu que preciso da sua ajuda para preparar o
jantar? — indagou erguendo as sobrancelhas.
— Não esqueci — resmunguei pegando os
pratos no aparador para arrumar a mesa do jantar.
Essa era a nossa rotina. Não era cansativa, de modo
algum. Porém, era enfadonha, e, a cada dia que
passava, eu estava mais estressada com ela.
Quando terminei meu serviço, fui até a porta
da sala e gritei a plenos pulmões:
— O jantar está na mesa, pessoal! — Não
precisei repetir o convite; no mesmo instante, a
conversa cessou, as cadeiras se arrastaram, e os
passos largos na minha direção ecoaram no
ambiente.
Minutos depois, todos já estavam sentados à
mesa, meu pai à cabeceira, sorrindo como sempre,
usando uma camiseta e um jeans surrado, sua roupa preferida para ficar em casa. Seus poucos cabelos
pretos estavam bem penteados para trás, e seus
olhos verdes se encontravam cansados depois de
um dia todo cuidando da plantação. Sua
barriguinha saliente não o deixava se encostar à
mesa.
Ao lado dele estava meu irmão mais velho,
filho do primeiro casamento do meu pai, Gabriel.
Ele se formara alguns anos antes em administração
e voltara para cuidar da fazenda, era o braço direito
do meu pai. Ainda não tinha se casado, apesar das
garotas da região ficarem encantadas por ele. Meu
irmão era bonito, tinha porte atlético, olhos verdes
e cabelos pretos como os do meu pai. Apesar disso,
não parecia querer se casar tão cedo. Seu principal
interesse era o trabalho.
No lado oposto se sentou meu outro irmão,
Rodrigo, o mais cheinho deles e o único que tinha
uma barriguinha saliente, parecida com a do meu
pai. Mesmo assim, eu o considerava bonito, do seu
jeito, é claro, sempre tão atencioso e educado,
mesmos olhos e cabelos do irmão, com mais alguns
quilinhos de charme, segundo ele. Era o único que
tinha uma namorada, e em breve ficariam noivos.
Ele cursara engenharia civil e trabalhava na prefeitura da cidade vizinha, por isso ainda morava
com os pais.
Bem próximo a ele, sentado despojado na
cadeira, estava Vítor, sem prestar atenção ao que se
passava a sua volta, mesmos olhos verdes e cabelos
pretos. Porém, seu corpo era um diferencial, pois
ele era todo trabalhado pelos anos de prática de
judô, inclusive competia fora do país pela sua
faculdade de educação física, o que o ajudara a
abrir a única academia da cidade, que oferecia,
além da arte marcial, musculação e outras
atividades. Ele não morava mais na fazenda, mas
sempre aparecia para comer.
Meu outro irmão por parte de pai não estava
em casa; Gustavo havia ido cursar agronomia fora
do estado. Era a cópia dos irmãos, exceto por um
detalhe: era o irmão mais carinhoso que eu tinha.
Mamãe se acomodou na outra ponta da mesa,
de frente para papai, e, ao lado dela, meus irmãos
por parte de mãe se sentaram. Eu não fazia
distinção entre eles, mas era nítida a diferença,
sobretudo na aparência física. Enquanto meus
irmãos por parte de pai eram morenos de olhos
verdes, os por parte de mãe eram louros e tinham
olhos azuis, assim como o pai deles.
Marcos, o mais velho deles, tinha quase a
idade de Gabriel, mas era o oposto dele: franzino,
usava óculos e adorava mexer em computadores.
Sua paixão era tanta que se formou na área e foi
trabalhar na capital. Estava em casa para as férias
de final de ano que se aproximavam.
Lucas era o irmão sorridente e feliz; nunca
tinha tempo ruim para ele. Sentado ao lado da
mamãe, puxava conversa o tempo todo e também
estava de férias na fazenda, de seu curso superior
de gastronomia na capital.
Guilherme não estava em casa, quase nunca
aparecia. Era modelo e ator, fazia faculdade de
teatro na capital, viajava o mundo a trabalho nas
férias e competia pelo título de irmão mais bonito
com o Vitor.
Estava tão distraída que nem percebi que todos
já tinham se servido e a conversa dera lugar ao
barulho dos talheres e das travessas sendo passadas
de mão em mão. O aroma gostoso da comida
caseira preparada com carinho pela minha mãe
tomava conta do ambiente.
O ponto alto da noite ficou por conta das tortas
de maçã. Estavam tão suculentas que minha boca
salivou antes mesmo de comer o primeiro pedaço. Devoramos as duas tortas enormes em questão de
minutos, e apenas migalhas sobraram nas travessas
de vidro.
Depois do jantar, nós nos dividimos para tirar
a mesa, lavar, secar e guardar a louça e nos
preparamos para dormir. Deitei-me mais cedo do
que de costume, por isso demorei a pegar no sono.
Fiquei girando de um lado para o outro e só fui
dormir de verdade quase duas horas depois.
Acordei no dia seguinte cansada, mas não
reclamei. Precisei pular da cama e ajudar minha
mãe com os afazeres da casa. Apesar de termos
uma empregada, não era suficiente para cuidar de
uma casa tão grande como aquela.
Estava varrendo a varanda despreocupada.
Meus irmãos já tinham saído de casa, minha mãe
estava na cozinha, a empregada, limpando os
quartos, e meu pai, fazendo uma ligação no
escritório. Por isso eu não esperava o barulho de
um carro cada vez mais perto até que estacionou
bem em frente à minha casa. Encostei a vassoura na
parede, coloquei as mãos na cintura e esperei o
motorista dar a volta e se aproximar. Porém, não
estava preparada para aquilo: um homem alto,
moreno, corpo atlético escondido por trás de uma calça jeans agarrada às suas coxas grossas, uma
camisa xadrez que evidenciava seus músculos,
cabelos pretos jogados de lado e óculos escuros que
escondiam a cor dos seus olhos, mas combinavam
com seu rosto másculo e quadrado.
— Bom dia! — saudou-me, abrindo um
sorriso lindo de comercial de pasta de dente e
tirando os óculos escuros para mostrar lindos olhos
castanhos por trás deles.
— Bom dia — cumprimentei, tentando me
recuperar daquela visão estonteante.
— Sou William, agrônomo que veio cuidar da
praga nas macieiras — explicou estendendo a mão
para me cumprimentar.
— Sou Branca — respondi apertando sua
mão, e meu corpo todo se arrepiou no mesmo
instante.
— Branca de Neve, como no conto de fadas?
— questionou arqueando as sobrancelhas entre
expectativa e deboche.
— Não, é só um apelido, meu nome
verdadeiro é Raquel — expliquei sem graça.
— Bem melhor — resmungou olhando atrás
de mim. Virei-me na direção em que ele olhava e vi
meu pai se aproximando.
Os dois se cumprimentaram e caminharam
juntos para dentro da casa, enquanto permaneci
parada na varanda, com as pernas trêmulas, o
coração batendo freneticamente e as mãos suando.
Que homem é esse?, pensei me escorando na
parede.