O Veneno da Maçã

Cleia Lira · Capítulo 4 de 10

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O Veneno da Maçã

Pensamentos traidores

Lembre-se de que você é a única pessoa que pode

preencher meu mundo com sol

– Branca de Neve e os sete anões

 

MERGULHEI NA ÁGUA gelada para tentar

refrescar meus pensamentos, mas não adiantou

muito. Continuava pensando no William e no seu corpo pecaminoso, que nunca seria meu. Encostei-

me a uma das pedras da cascata, fechei meus olhos

e deixei a água massagear meu corpo, não foi

suficiente; na verdade, eu queria as mãos dele em

mim. Impossível, eu sei, pensei.

Quase no fim da tarde, voltei para a margem,

onde tinha deixado minha roupa. Coloquei o

vestido com o corpo ainda molhado, torci os

cabelos para tirar o excesso de água e estava em

busca das minhas sandálias quando me assustei ao

escutar uma voz.

— Não acha perigoso nadar sozinha aqui? —

questionou William aparecendo de repente à minha

frente. Paralisei, sem saber o que fazer. Abri a boca

para responder, mas não consegui; a voz não saía.

Ele ficou me observando por um tempo, na

certa esperando minha resposta. Umedeceu os

lábios com a língua. Seus olhos se tornaram

nublados, e ele se mexeu, impaciente.

— Não, sempre nado aqui — respondi sem

tirar os olhos do seu rosto.

— Sem roupa? — perguntou apontando para o

meu vestido molhado.

— Como sabe que eu estava sem roupa? —

indaguei confusa.

— Seu vestido está molhado somente em

alguns lugares, por isso imaginei que não tinha

entrado na água com ele — explicou depois de

pigarrear para clarear a voz.

— Tem razão, não entrei na água com ele —

respondi desviando meu olhar; era impossível

encará-lo por mais tempo.

— Acho que vou embora, não quero

atrapalhar você — comentou sem jeito, passando as

mãos no cabelo, mas, em vez de se afastar, ele se

aproximou mais de mim.

— Você não atrapalha — disse seduzida pelos

movimentos dos seus lábios.

— Tem certeza? — inquiriu mais perto.

— Tenho — confirmei mexendo os lábios,

mas não consegui emitir qualquer som.

— Você não sai da minha cabeça desde que a

vi no primeiro dia em que cheguei aqui —

confessou subitamente, surpreendendo-me.

— Nem você da minha — acrescentei

sentindo o seu perfume cítrico e forte.

— Não podemos fazer isso — resmungou

franzindo o cenho como se sentisse dor.

— O quê?

— Por favor, não finja que não sente essa linha invisível que está nos puxando desde que nos

conhecemos.

— Não estou fingindo, sei o que estou

sentindo.

— E sabe que é errado?

— Por quê? Você é casado, tem namorada ou

algo parecido?

— Não... quer dizer, sou recém-divorciado e

não quero nenhum tipo de relacionamento agora,

ainda mais com uma garota jovem como você.

— Obrigada pelo aviso, vou manter distância

na próxima vez em que nos encontramos e sugiro

que faça o mesmo. — Bufei irritada. Esbarrei nele

quando passei apressada para sair dali, e meu corpo

traidor se arrepiou ao sentir seus músculos.

Peguei minhas sandálias e corri o máximo que

pude pela trilha de volta para a minha casa. No

caminho, algumas lágrimas desciam pelo meu

rosto. Funguei para as afugentar, mas não as impedi

de saírem. Já tinha sido rejeitada outras vezes. Por

causa dos meus irmãos, os garotos tinham medo de

se aproximar de mim. No entanto, nunca doera

assim. Eu não gostava dos garotos da escola como

gostava do William. Apesar do pouco tempo em

que eu o conhecia, ele conseguira entrar no meu coração de um jeito que eu não conseguia mais tirá-

lo de lá.

— Pena que esse amor não é correspondido —

lamentei de frente para o espelho no meu quarto.

Eu estava uma bagunça, cabelos molhados e

despenteados pelo vento, vestido encharcado e

olhos marejados, parecia uma garotinha indefesa

que perdera o brinquedo favorito. Talvez fosse por

isso que ele não dera bola para mim. Nenhum

homem feito daria.

Se antes era impossível esquecê-lo, depois que

fui rejeitada se tornou bem pior. Tentei esquecer

que ele confessara que estava atraído por mim,

mas, conforme os dias passavam, era só nisso que

eu conseguia pensar. Fiquei tão distraída que não

me lembrava de ajudar nas tarefas de casa, e minha

mãe estava sempre chamando a minha atenção.

Passei a não querer jantar na mesa com minha

família. Inventei cólicas como desculpa por duas

noites. Todavia, na terceira não tive escapatória;

tive que ir, e, para o meu azar, sentei-me de frente

para William. Era inevitável levantar meu olhar e

não o ver, não observar o quanto ele ficava mais

bonito a cada dia, ou como ele passou a me olhar

de volta todas as vezes em que olhei na sua direção.

— Alguma ideia do que fazer para acabar com

esses malditos fungos? — perguntou meu pai,

interrompendo nossa troca de olhares.

— Ainda estou pesquisando, Seu Alfredo;

assim que descobrir a outra praga que se uniu ao

oídio, saberei o que fazer — desviou os olhos de

mim para responder ao meu pai.

— Não demore muito, caso contrário, minha

colheita será prejudicada. Estamos a dois meses da

primeira colheita, e duas pragas como essas

afetarão a minha produção de mais de treze mil

macieiras.

— Isso não vai acontecer. Já enviei amostras

para o laboratório; amanhã tenho a confirmação de

que preciso para resolver seu problema.

— Obrigado, sabe que eu tenho pressa —

resmungou papai, mordendo com gosto a carne de

panela que a mamãe preparara para o jantar.

— Sei, vou resolver tudo amanhã e, quem

sabe, partir à noite — respondeu, surpreendendo-

nos.

Meus irmãos, que estavam conversando,

pararam a conversa, e meu pai engoliu a carne com

pressa para falar. Eu fiquei paralisada com o garfo

encostado à boca, sem conseguir comer. Meu estômago se fechou em repulsa àquela informação;

se ele fosse embora dali, eu nunca mais sentiria seu

perfume, admiraria seus lábios, olharia para seu

corpo forte e me sentiria segura, mesmo não

estando no calor dos seus braços.

— Não precisa sair daqui correndo. Resolva

essa praga rápido, porém, não vá embora como se

fosse expulso da minha casa. Fique aqui o tempo

que for preciso — pediu meu pai, preocupado.

— Meu marido está certo, não pode viajar a

noite toda até a capital como se tivesse alguém no

seu encalço — acrescentou minha mãe, abrindo um

sorriso simpático.

— Assim que resolver o problema, posso

voltar para casa no dia seguinte, se preferirem, mas

preciso voltar — explicou William.

— Parem de encher o rapaz, na certa a

namorada dele está esperando seu retorno —

comentou Gabriel, intrometendo-se na conversa

pela primeira vez.

— É isso mesmo, William? — indagou minha

mãe curiosa. Se eu pudesse tampar os ouvidos para

não ouvir sua resposta, eu o faria. No entanto, era

impossível fazer isso sem chamar atenção de todos

à mesa. Por isso ouvi quando ele engoliu em seco e respondeu:

— Algo parecido com isso, dona Carmem.

— Estão vendo? Agora que sabem disso,

deixem o cara em paz e parem de perturbá-lo —

pediu Vitor, tentando encerrar a conversa.

— Eu concordo, e vamos voltar para a

comida, que está esfriando — declarou Rodrigo.

Quando terminamos o jantar, meu pai foi para

a varanda com o William e o Gabriel, enquanto o

resto de nós colocava a sala de jantar e a cozinha

em ordem. Como nos revezamos, terminamos cedo,

e todos, exceto eu, rumaram para a varanda

também. Eu não sabia o que fazer. Podia ir até a

varanda e observar a conversa deles ou me trancar

no quarto e dormir; não fiz nenhuma das duas

coisas, todavia. Saí de fininho pela porta da cozinha

e fui até o meu balanço. As luzes que identificavam

o caminho estavam acesas, e a lua cheia se

encarregava de iluminar o resto.

Sentei-me no balanço, olhei para as estrelas

brilhando no céu e me lembrei da história que

minha avó sempre contava para mim antes de

dormir, o conto de fadas Branca de Neve e os sete

anões. Não importava quantas vezes ela já tinha me

contado essa história, sempre que eu encostava minha cabeça no travesseiro, era ela que eu queria

ouvir. Minha avó morrera alguns anos antes; depois

disso, eu nunca mais quisera ouvir o conto, pois

decidira que ninguém tinha o direito de tomar o

lugar dela na minha vida. O mais legal era que

minha avó contara tantas vezes a história original

que se cansara e passara a inventar outras aventuras

para a Branca de Neve, em que ela derrotava o

caçador, matava feras enormes, defendia

criancinhas do perigo, nadava nas costas de uma

baleia em alto-mar. Enfim, minha avó era criativa,

e sua mente viajava para contar sempre as melhores

histórias. Foi ela que me deu o apelido Branca,

quando eu ainda era uma garotinha.

— Por que está fugindo de mim? — perguntou

William às minhas costas, segurando as duas

cordas do balanço.

— Não estou fugindo — respondi nervosa.

Não sabia que ele estava ali e não queria sentir a

sua rejeição novamente.

— Parece — afirmou, empurrando o balanço

devagar.

— Mas não é, só estou longe de você, como

me pediu naquele dia na cachoeira.

— Não pedi nada a você naquele dia — resmungou chateado, segurando o balanço mais

perto do seu corpo. Minhas costas ficaram

pressionadas no seu peito. Senti seu cheiro tão

próximo que fechei meus olhos para apreciar o

aroma.

— Disse que não queria ficar comigo —

lembrei-lhe, ainda sentindo as marcas da rejeição

em meu peito.

— Não disse que não queria; falei que não

podia — tentou explicar.

— Qual é a diferença? — inquiri chateada,

querendo correr logo dali.

— Eu quero você, mas não posso ceder a esse

desejo insano que sinto toda vez em que estamos

perto assim — sussurrou no meu ouvido.

— Por que não?

— Sou um homem, enquanto você é uma

adolescente. Fui contratado pelo seu pai. Seus

irmãos cuidam de você como se fossem gaviões

vigiando a comida. Não sabe como foi difícil segui-

la até aqui, tive que inventar tantas desculpas para

dormir mais cedo — explicou com os punhos

cerrados nas cordas do balanço.

— Eu sei disso, mas, se você me quer, nada

deveria te impedir de ficar comigo! — exclamei impaciente.

— É difícil... — murmurou, cheirando meu

pescoço.

— Não acredito que você me queira de

verdade... — sussurrei, em dúvida dos seus

sentimentos.

William soltou as cordas do balanço e segurou

minha cintura por trás. Encostou nossos corpos

ainda mais, de uma maneira que me fez sentir cada

músculo de seu tronco definido pressionado nas

minhas costas e beijou minha nuca.

Eu não queria sentir aquela avalanche de

sentimentos que ele despertara em mim apenas com

seus lábios na minha pele. Era difícil não pedir

mais, não exigir mais e, por fim, não ceder àquele

desejo latente que parecia me queimar aos poucos.

— Parece que eu não quero você agora? —

questionou baixinho no meu ouvido.

— N-não — gaguejei ao responder enquanto

ele girava o balanço para que eu ficasse de frente

para ele.

— Não suporto mais apenas imaginar o gosto

dos seus lábios tão vermelhos e suculentos...

— Prove-os — convidei sem me importar com

mais nada. Sabia que aquilo teria consequência, mas não era isso que me impediria de ser beijada

pela primeira vez.

Ele se posicionou entre as minhas pernas,

segurou meu rosto entre as mãos e se aproximou

mais um pouco.

— Tem certeza? — sussurrou, abaixando-se

para encontrar meus lábios sedentos pelo seu toque.

Havia sido para ele que eu me guardara todo aquele

tempo. Meu primeiro beijo não seria um selinho

com qualquer garoto, só para dizer que beijei, seria

mais do que imaginara e iria lembrar daquele

momento para sempre.

— Branca! — gritou minha mãe,

interrompendo-nos no momento exato em que seus

lábios abocanhariam os meus. Cheguei a sentir o

gosto deles na minha boca, mas era imaginação

minha. No instante em que mamãe se aproximou,

William correu a se esconder atrás do ipê. — O que

está fazendo sozinha aqui a essa hora?! — indagou

brava, com as mãos na cintura.

— Nada, só queria me balançar um pouco —

respondi, frustrada.

— Não pode vir aqui à noite, seus irmãos e

seu pai estão loucos atrás de você — admoestou,

puxando-me para segui-la mesmo contra a minha vontade.

Olhei para trás, tentando ver o William, mas já

estava longe do ipê, e as sombras da noite

encobriam seu corpo. Assim que cheguei a casa,

levei uma bronca dos meus irmãos e do meu pai.

Falaram tanto no meu ouvido que fiquei mais

irritada ainda. Bati a porta do meu quarto e entrei

furiosa, jogando-me na cama. Não chorei dessa

vez, estava muito nervosa para deixar as lágrimas

caírem, nem queria dar essa satisfação a eles.