O Veneno da Maçã
Pensamentos traidores
Lembre-se de que você é a única pessoa que pode
preencher meu mundo com sol
– Branca de Neve e os sete anões
MERGULHEI NA ÁGUA gelada para tentar
refrescar meus pensamentos, mas não adiantou
muito. Continuava pensando no William e no seu corpo pecaminoso, que nunca seria meu. Encostei-
me a uma das pedras da cascata, fechei meus olhos
e deixei a água massagear meu corpo, não foi
suficiente; na verdade, eu queria as mãos dele em
mim. Impossível, eu sei, pensei.
Quase no fim da tarde, voltei para a margem,
onde tinha deixado minha roupa. Coloquei o
vestido com o corpo ainda molhado, torci os
cabelos para tirar o excesso de água e estava em
busca das minhas sandálias quando me assustei ao
escutar uma voz.
— Não acha perigoso nadar sozinha aqui? —
questionou William aparecendo de repente à minha
frente. Paralisei, sem saber o que fazer. Abri a boca
para responder, mas não consegui; a voz não saía.
Ele ficou me observando por um tempo, na
certa esperando minha resposta. Umedeceu os
lábios com a língua. Seus olhos se tornaram
nublados, e ele se mexeu, impaciente.
— Não, sempre nado aqui — respondi sem
tirar os olhos do seu rosto.
— Sem roupa? — perguntou apontando para o
meu vestido molhado.
— Como sabe que eu estava sem roupa? —
indaguei confusa.
— Seu vestido está molhado somente em
alguns lugares, por isso imaginei que não tinha
entrado na água com ele — explicou depois de
pigarrear para clarear a voz.
— Tem razão, não entrei na água com ele —
respondi desviando meu olhar; era impossível
encará-lo por mais tempo.
— Acho que vou embora, não quero
atrapalhar você — comentou sem jeito, passando as
mãos no cabelo, mas, em vez de se afastar, ele se
aproximou mais de mim.
— Você não atrapalha — disse seduzida pelos
movimentos dos seus lábios.
— Tem certeza? — inquiriu mais perto.
— Tenho — confirmei mexendo os lábios,
mas não consegui emitir qualquer som.
— Você não sai da minha cabeça desde que a
vi no primeiro dia em que cheguei aqui —
confessou subitamente, surpreendendo-me.
— Nem você da minha — acrescentei
sentindo o seu perfume cítrico e forte.
— Não podemos fazer isso — resmungou
franzindo o cenho como se sentisse dor.
— O quê?
— Por favor, não finja que não sente essa linha invisível que está nos puxando desde que nos
conhecemos.
— Não estou fingindo, sei o que estou
sentindo.
— E sabe que é errado?
— Por quê? Você é casado, tem namorada ou
algo parecido?
— Não... quer dizer, sou recém-divorciado e
não quero nenhum tipo de relacionamento agora,
ainda mais com uma garota jovem como você.
— Obrigada pelo aviso, vou manter distância
na próxima vez em que nos encontramos e sugiro
que faça o mesmo. — Bufei irritada. Esbarrei nele
quando passei apressada para sair dali, e meu corpo
traidor se arrepiou ao sentir seus músculos.
Peguei minhas sandálias e corri o máximo que
pude pela trilha de volta para a minha casa. No
caminho, algumas lágrimas desciam pelo meu
rosto. Funguei para as afugentar, mas não as impedi
de saírem. Já tinha sido rejeitada outras vezes. Por
causa dos meus irmãos, os garotos tinham medo de
se aproximar de mim. No entanto, nunca doera
assim. Eu não gostava dos garotos da escola como
gostava do William. Apesar do pouco tempo em
que eu o conhecia, ele conseguira entrar no meu coração de um jeito que eu não conseguia mais tirá-
lo de lá.
— Pena que esse amor não é correspondido —
lamentei de frente para o espelho no meu quarto.
Eu estava uma bagunça, cabelos molhados e
despenteados pelo vento, vestido encharcado e
olhos marejados, parecia uma garotinha indefesa
que perdera o brinquedo favorito. Talvez fosse por
isso que ele não dera bola para mim. Nenhum
homem feito daria.
Se antes era impossível esquecê-lo, depois que
fui rejeitada se tornou bem pior. Tentei esquecer
que ele confessara que estava atraído por mim,
mas, conforme os dias passavam, era só nisso que
eu conseguia pensar. Fiquei tão distraída que não
me lembrava de ajudar nas tarefas de casa, e minha
mãe estava sempre chamando a minha atenção.
Passei a não querer jantar na mesa com minha
família. Inventei cólicas como desculpa por duas
noites. Todavia, na terceira não tive escapatória;
tive que ir, e, para o meu azar, sentei-me de frente
para William. Era inevitável levantar meu olhar e
não o ver, não observar o quanto ele ficava mais
bonito a cada dia, ou como ele passou a me olhar
de volta todas as vezes em que olhei na sua direção.
— Alguma ideia do que fazer para acabar com
esses malditos fungos? — perguntou meu pai,
interrompendo nossa troca de olhares.
— Ainda estou pesquisando, Seu Alfredo;
assim que descobrir a outra praga que se uniu ao
oídio, saberei o que fazer — desviou os olhos de
mim para responder ao meu pai.
— Não demore muito, caso contrário, minha
colheita será prejudicada. Estamos a dois meses da
primeira colheita, e duas pragas como essas
afetarão a minha produção de mais de treze mil
macieiras.
— Isso não vai acontecer. Já enviei amostras
para o laboratório; amanhã tenho a confirmação de
que preciso para resolver seu problema.
— Obrigado, sabe que eu tenho pressa —
resmungou papai, mordendo com gosto a carne de
panela que a mamãe preparara para o jantar.
— Sei, vou resolver tudo amanhã e, quem
sabe, partir à noite — respondeu, surpreendendo-
nos.
Meus irmãos, que estavam conversando,
pararam a conversa, e meu pai engoliu a carne com
pressa para falar. Eu fiquei paralisada com o garfo
encostado à boca, sem conseguir comer. Meu estômago se fechou em repulsa àquela informação;
se ele fosse embora dali, eu nunca mais sentiria seu
perfume, admiraria seus lábios, olharia para seu
corpo forte e me sentiria segura, mesmo não
estando no calor dos seus braços.
— Não precisa sair daqui correndo. Resolva
essa praga rápido, porém, não vá embora como se
fosse expulso da minha casa. Fique aqui o tempo
que for preciso — pediu meu pai, preocupado.
— Meu marido está certo, não pode viajar a
noite toda até a capital como se tivesse alguém no
seu encalço — acrescentou minha mãe, abrindo um
sorriso simpático.
— Assim que resolver o problema, posso
voltar para casa no dia seguinte, se preferirem, mas
preciso voltar — explicou William.
— Parem de encher o rapaz, na certa a
namorada dele está esperando seu retorno —
comentou Gabriel, intrometendo-se na conversa
pela primeira vez.
— É isso mesmo, William? — indagou minha
mãe curiosa. Se eu pudesse tampar os ouvidos para
não ouvir sua resposta, eu o faria. No entanto, era
impossível fazer isso sem chamar atenção de todos
à mesa. Por isso ouvi quando ele engoliu em seco e respondeu:
— Algo parecido com isso, dona Carmem.
— Estão vendo? Agora que sabem disso,
deixem o cara em paz e parem de perturbá-lo —
pediu Vitor, tentando encerrar a conversa.
— Eu concordo, e vamos voltar para a
comida, que está esfriando — declarou Rodrigo.
Quando terminamos o jantar, meu pai foi para
a varanda com o William e o Gabriel, enquanto o
resto de nós colocava a sala de jantar e a cozinha
em ordem. Como nos revezamos, terminamos cedo,
e todos, exceto eu, rumaram para a varanda
também. Eu não sabia o que fazer. Podia ir até a
varanda e observar a conversa deles ou me trancar
no quarto e dormir; não fiz nenhuma das duas
coisas, todavia. Saí de fininho pela porta da cozinha
e fui até o meu balanço. As luzes que identificavam
o caminho estavam acesas, e a lua cheia se
encarregava de iluminar o resto.
Sentei-me no balanço, olhei para as estrelas
brilhando no céu e me lembrei da história que
minha avó sempre contava para mim antes de
dormir, o conto de fadas Branca de Neve e os sete
anões. Não importava quantas vezes ela já tinha me
contado essa história, sempre que eu encostava minha cabeça no travesseiro, era ela que eu queria
ouvir. Minha avó morrera alguns anos antes; depois
disso, eu nunca mais quisera ouvir o conto, pois
decidira que ninguém tinha o direito de tomar o
lugar dela na minha vida. O mais legal era que
minha avó contara tantas vezes a história original
que se cansara e passara a inventar outras aventuras
para a Branca de Neve, em que ela derrotava o
caçador, matava feras enormes, defendia
criancinhas do perigo, nadava nas costas de uma
baleia em alto-mar. Enfim, minha avó era criativa,
e sua mente viajava para contar sempre as melhores
histórias. Foi ela que me deu o apelido Branca,
quando eu ainda era uma garotinha.
— Por que está fugindo de mim? — perguntou
William às minhas costas, segurando as duas
cordas do balanço.
— Não estou fugindo — respondi nervosa.
Não sabia que ele estava ali e não queria sentir a
sua rejeição novamente.
— Parece — afirmou, empurrando o balanço
devagar.
— Mas não é, só estou longe de você, como
me pediu naquele dia na cachoeira.
— Não pedi nada a você naquele dia — resmungou chateado, segurando o balanço mais
perto do seu corpo. Minhas costas ficaram
pressionadas no seu peito. Senti seu cheiro tão
próximo que fechei meus olhos para apreciar o
aroma.
— Disse que não queria ficar comigo —
lembrei-lhe, ainda sentindo as marcas da rejeição
em meu peito.
— Não disse que não queria; falei que não
podia — tentou explicar.
— Qual é a diferença? — inquiri chateada,
querendo correr logo dali.
— Eu quero você, mas não posso ceder a esse
desejo insano que sinto toda vez em que estamos
perto assim — sussurrou no meu ouvido.
— Por que não?
— Sou um homem, enquanto você é uma
adolescente. Fui contratado pelo seu pai. Seus
irmãos cuidam de você como se fossem gaviões
vigiando a comida. Não sabe como foi difícil segui-
la até aqui, tive que inventar tantas desculpas para
dormir mais cedo — explicou com os punhos
cerrados nas cordas do balanço.
— Eu sei disso, mas, se você me quer, nada
deveria te impedir de ficar comigo! — exclamei impaciente.
— É difícil... — murmurou, cheirando meu
pescoço.
— Não acredito que você me queira de
verdade... — sussurrei, em dúvida dos seus
sentimentos.
William soltou as cordas do balanço e segurou
minha cintura por trás. Encostou nossos corpos
ainda mais, de uma maneira que me fez sentir cada
músculo de seu tronco definido pressionado nas
minhas costas e beijou minha nuca.
Eu não queria sentir aquela avalanche de
sentimentos que ele despertara em mim apenas com
seus lábios na minha pele. Era difícil não pedir
mais, não exigir mais e, por fim, não ceder àquele
desejo latente que parecia me queimar aos poucos.
— Parece que eu não quero você agora? —
questionou baixinho no meu ouvido.
— N-não — gaguejei ao responder enquanto
ele girava o balanço para que eu ficasse de frente
para ele.
— Não suporto mais apenas imaginar o gosto
dos seus lábios tão vermelhos e suculentos...
— Prove-os — convidei sem me importar com
mais nada. Sabia que aquilo teria consequência, mas não era isso que me impediria de ser beijada
pela primeira vez.
Ele se posicionou entre as minhas pernas,
segurou meu rosto entre as mãos e se aproximou
mais um pouco.
— Tem certeza? — sussurrou, abaixando-se
para encontrar meus lábios sedentos pelo seu toque.
Havia sido para ele que eu me guardara todo aquele
tempo. Meu primeiro beijo não seria um selinho
com qualquer garoto, só para dizer que beijei, seria
mais do que imaginara e iria lembrar daquele
momento para sempre.
— Branca! — gritou minha mãe,
interrompendo-nos no momento exato em que seus
lábios abocanhariam os meus. Cheguei a sentir o
gosto deles na minha boca, mas era imaginação
minha. No instante em que mamãe se aproximou,
William correu a se esconder atrás do ipê. — O que
está fazendo sozinha aqui a essa hora?! — indagou
brava, com as mãos na cintura.
— Nada, só queria me balançar um pouco —
respondi, frustrada.
— Não pode vir aqui à noite, seus irmãos e
seu pai estão loucos atrás de você — admoestou,
puxando-me para segui-la mesmo contra a minha vontade.
Olhei para trás, tentando ver o William, mas já
estava longe do ipê, e as sombras da noite
encobriam seu corpo. Assim que cheguei a casa,
levei uma bronca dos meus irmãos e do meu pai.
Falaram tanto no meu ouvido que fiquei mais
irritada ainda. Bati a porta do meu quarto e entrei
furiosa, jogando-me na cama. Não chorei dessa
vez, estava muito nervosa para deixar as lágrimas
caírem, nem queria dar essa satisfação a eles.