O Veneno da Maçã

Cleia Lira · Capítulo 7 de 10

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O Veneno da Maçã

Epílogo

Alguns anos depois.

 

NÃO HAVIA SIDO fácil esquecer meu

primeiro amor, ainda não sabia se o esquecera

mesmo depois de anos longe dele. Segui em frente,

fui para a faculdade, conheci novos amigos e tive

alguns namorados. Porém, eu sempre os comparava com o William, e eles sempre perdiam. Voltei

poucas vezes à fazenda durante os anos do curso,

não queria lembrar tudo que passara ali. Na cidade

grande, era mais fácil fingir que nada acontecera.

Mesmo morando na mesma cidade que

William, nunca nos encontráramos durante todo o

tempo em que eu estava ali. Tentei por diversas

vezes procurar por ele, mas não consegui encontrá-

lo. Ele saiu da empresa para a qual trabalhava,

mudou de apartamento, e alguns amigos disseram

que tinha até mudado de país.

Naquela semana, terminei as minhas últimas

provas. Ainda não poderia pegar meu diploma, mas

já me considerava formada. Por isso, eu e minhas

companheiras de apartamento comemoraríamos

naquela noite.

— Nunca vi você tão gata — comentou Lara,

uma das garotas que morava comigo.

— Esta noite é especial, e quero me divertir —

disse empolgada de frente para o espelho, o mesmo

que tinha no meu quarto e fiz questão de trazê-lo

comigo.

— Sério!? — exclamou sem acreditar, pois eu

havia sido quase uma santa durante os anos em que

morávamos juntas. Tinha ido a poucas festas, correra dos bad boys da faculdade, só tivera dois

namorados que mais pareciam meus amigos.

— É sério, cansei de bancar a santinha, vou

ficar com o primeiro cara que aparecer na minha

frente — falei decidida, enquanto ela aplaudia,

rindo.

Era uma festa na casa de um cara que conhecia

um dos nossos amigos da faculdade. Eu não fazia

ideia de quem era. No entanto, a casa era legal,

tinha piscina, estava lotada, havia muita bebida, e

não me importei em saber do resto. Estava me

despedindo da cidade. Em breve voltaria para a

fazenda e queria me despedir com estilo.

Não economizei na bebida, experimentei tudo

e, quase no fim da noite, ainda estava sozinha e

angustiada, procurando um banheiro vazio. Tive

que subir as escadas e procurar no andar de cima,

uma vez que os que tinham embaixo estavam

ocupados, e eu não aguentaria esperar. Entrei na

primeira porta do corredor e suspirei ao constatar

que estava destrancada. Passei direto pela suíte em

busca de um banheiro.

Quando consegui me aliviar, olhei-me no

espelho da pia e sorri. Apesar de meio bêbada, eu

ainda estava bonita. Minha maquiagem continuava intacta, meus cabelos estavam repicados e mais

curtos do que eu costumava usar. O vestido preto

com as costas nuas deixava à mostra um pedaço da

maçã mordida que eu tinha tatuado no quadril.

Sequei minhas mãos e saí do banheiro pronta para

voltar a beber e encontrar um homem atraente para

encerrar a minha noite. Todavia, parei, escorando-

me na porta ao ver aqueles olhos castanho-

esverdeados que eu conhecia tão bem me olhando

preocupado. William estava sentado na cama.

Fechei e abri tantas vezes meus olhos que

fiquei tonta. Não era possível ele aparecer assim na

minha vida, depois de tanto tempo sem nenhum

sinal dele!

— Acho que bebi demais e estou vendo coisas

— murmurei, esfregando os olhos.

— Você não está vendo coisas, sou eu —

afirmou se levantando da cama e caminhando na

minha direção.

— O que você faz aqui? — perguntei

apreensiva. — Vamos, me diga! — implorei

impaciente. Tomei um fôlego que não tinha e olhei

para ele. Nada do que fizera até aquele dia me

preparara para aquele momento. Tantas vezes eu

sonhara em reencontrá-lo, abraçá-lo mais uma vez e sentir seu cheiro gostoso. Porém, quando

finalmente William estava à minha frente, eu não

sabia o que fazer. Observei seus músculos, ainda

maiores do que eu me lembrava, os olhos castanho-

esverdeados, os cabelos pretos mais curtos, o

semblante fechado. Ainda era o mesmo William

que me fazia rolar na cama algumas noites durante

aqueles longos anos.

— Moro aqui — respondeu, mostrando suas

coisas no quarto.

— A casa é sua? — questionei, ainda tentando

entender como nos encontráramos depois de tanto

tempo.

— Sim.

— E por que não está lá embaixo se divertindo

como os outros?

— Porque já me diverti o suficiente, queria

ficar sozinho — respondeu fitando meus olhos.

Ao ouvir suas palavras, comecei a sair do seu

quarto, mas ele me impediu antes mesmo de eu

chegar à porta.

— Por favor, não vá agora — sussurrou,

segurando na minha cintura como o fazia na

fazenda. Gelei sob seu toque. Não esperava sentir o

mesmo arrepio.

— Por quê?

— Preciso conversar com você! — respondeu

aflito.

— Não tenho nada pra falar. Não quero

explicações agora; já as quis, mas esperei que você

voltasse por tanto tempo que cansei.

— Você me esperou?

— Claro que esperei, seu idiota! O que

imaginou que eu faria?!

— Não sei, achei que me esqueceria e seguiria

com a sua vida.

— Como se nada tivesse acontecido, do

mesmo jeito que fez? Não sou como você. Não

consegui esquecer o melhor momento da minha

vida — desabafei.

— Nem eu — lamentou, erguendo meu queixo

para eu olhar para ele.

— Não entendo. Não deveria se lamentar,

quando foi você quem causou meu sofrimento.

— Não fui eu. Fui espancado e expulso da

fazenda naquele mesmo dia. Seus irmãos me

jogaram na minha caminhonete e pediram para eu

desaparecer, afirmando que, se eu voltasse, a surra

seria maior. Tive que ir embora contra a minha

vontade e nem consegui me despedir. Quando descobri que você estava na cidade, fui até a sua

faculdade e te observei de longe. Você estava tão

linda e feliz, tinha um cara segurando sua mão, eu

sabia que eram namorados. Não tinha o direito de

bagunçar sua vida como fiz naquele verão. Por isso

vendi meu apartamento, saí do emprego e fui fazer

meu doutorado na Austrália. Voltei este ano para o

Brasil.

— Você está mentindo? — questionei com

lágrimas nos olhos.

— Não, pode perguntar para a sua família;

creio que eles não irão mentir mais — falou

chateado.

— É mentira, é mentira! — gritei, socando seu

peito. Ele não revidou, muito pelo contrário,

deixou-me bater no seu peito até que não aguentei

mais, e eu teria caído no chão se ele não tivesse me

segurado no colo. Encostei minha cabeça no seu

ombro e chorei.

William se sentou na cama e esperou minha

crise passar. Acariciou meu cabelo, segurou minha

mão e esperou até que as lágrimas diminuíssem.

Porém, meus questionamentos não haviam cessado.

— Por quê? Nunca namorei sério ninguém,

jamais senti o que sentia quando estava com você. Eu tentei, juro que tentei, mas não era a mesma

coisa. Essa é a primeira festa a que vou durante os

cinco anos em que estive na faculdade. Não

consegui te esquecer, voltei poucas vezes para a

fazenda, pois minha casa, a cachoeira, o balanço,

tudo me fazia lembrar o que perdi e nunca mais

poderia ter... Eu lutei tanto pra te esquecer, mas era

impossível!

— Eu sinto muito, se soubesse que sofria tanto

quanto eu, teria te procurado mais uma vez.

Durante todos esses anos, achei que você tinha me

esquecido.

— Você ainda gosta de mim? — indaguei

cautelosa, com as mãos no seu rosto.

— Eu te amo, garota.

— Você me ama?

— Claro! Assim como você tentou me

esquecer, eu também tentei. Mas é impossível tirar

você do meu coração. Durante muito tempo, achei

que o veneno da maçã tinha saído das macieiras e

entrado no meu coração. Mas não foi isso que

aconteceu, eu nunca estive envenenado. Sempre

estive perdidamente apaixonado por você.

— E eu por você — respondi sorrindo.

Encarei seu rosto, de que tanto senti falta, encostei minha boca na sua, e nos beijamos como

na primeira vez. Seu gosto era o mesmo, e minhas

pernas tremiam igualmente.

E, com aquele beijo, atravessamos a ponte que

nos separara por tanto tempo. Reatamos os laços

rompidos e nos amamos com a certeza de que nada

mais poderia nos separar.