O Veneno da Maçã
Epílogo
Alguns anos depois.
NÃO HAVIA SIDO fácil esquecer meu
primeiro amor, ainda não sabia se o esquecera
mesmo depois de anos longe dele. Segui em frente,
fui para a faculdade, conheci novos amigos e tive
alguns namorados. Porém, eu sempre os comparava com o William, e eles sempre perdiam. Voltei
poucas vezes à fazenda durante os anos do curso,
não queria lembrar tudo que passara ali. Na cidade
grande, era mais fácil fingir que nada acontecera.
Mesmo morando na mesma cidade que
William, nunca nos encontráramos durante todo o
tempo em que eu estava ali. Tentei por diversas
vezes procurar por ele, mas não consegui encontrá-
lo. Ele saiu da empresa para a qual trabalhava,
mudou de apartamento, e alguns amigos disseram
que tinha até mudado de país.
Naquela semana, terminei as minhas últimas
provas. Ainda não poderia pegar meu diploma, mas
já me considerava formada. Por isso, eu e minhas
companheiras de apartamento comemoraríamos
naquela noite.
— Nunca vi você tão gata — comentou Lara,
uma das garotas que morava comigo.
— Esta noite é especial, e quero me divertir —
disse empolgada de frente para o espelho, o mesmo
que tinha no meu quarto e fiz questão de trazê-lo
comigo.
— Sério!? — exclamou sem acreditar, pois eu
havia sido quase uma santa durante os anos em que
morávamos juntas. Tinha ido a poucas festas, correra dos bad boys da faculdade, só tivera dois
namorados que mais pareciam meus amigos.
— É sério, cansei de bancar a santinha, vou
ficar com o primeiro cara que aparecer na minha
frente — falei decidida, enquanto ela aplaudia,
rindo.
Era uma festa na casa de um cara que conhecia
um dos nossos amigos da faculdade. Eu não fazia
ideia de quem era. No entanto, a casa era legal,
tinha piscina, estava lotada, havia muita bebida, e
não me importei em saber do resto. Estava me
despedindo da cidade. Em breve voltaria para a
fazenda e queria me despedir com estilo.
Não economizei na bebida, experimentei tudo
e, quase no fim da noite, ainda estava sozinha e
angustiada, procurando um banheiro vazio. Tive
que subir as escadas e procurar no andar de cima,
uma vez que os que tinham embaixo estavam
ocupados, e eu não aguentaria esperar. Entrei na
primeira porta do corredor e suspirei ao constatar
que estava destrancada. Passei direto pela suíte em
busca de um banheiro.
Quando consegui me aliviar, olhei-me no
espelho da pia e sorri. Apesar de meio bêbada, eu
ainda estava bonita. Minha maquiagem continuava intacta, meus cabelos estavam repicados e mais
curtos do que eu costumava usar. O vestido preto
com as costas nuas deixava à mostra um pedaço da
maçã mordida que eu tinha tatuado no quadril.
Sequei minhas mãos e saí do banheiro pronta para
voltar a beber e encontrar um homem atraente para
encerrar a minha noite. Todavia, parei, escorando-
me na porta ao ver aqueles olhos castanho-
esverdeados que eu conhecia tão bem me olhando
preocupado. William estava sentado na cama.
Fechei e abri tantas vezes meus olhos que
fiquei tonta. Não era possível ele aparecer assim na
minha vida, depois de tanto tempo sem nenhum
sinal dele!
— Acho que bebi demais e estou vendo coisas
— murmurei, esfregando os olhos.
— Você não está vendo coisas, sou eu —
afirmou se levantando da cama e caminhando na
minha direção.
— O que você faz aqui? — perguntei
apreensiva. — Vamos, me diga! — implorei
impaciente. Tomei um fôlego que não tinha e olhei
para ele. Nada do que fizera até aquele dia me
preparara para aquele momento. Tantas vezes eu
sonhara em reencontrá-lo, abraçá-lo mais uma vez e sentir seu cheiro gostoso. Porém, quando
finalmente William estava à minha frente, eu não
sabia o que fazer. Observei seus músculos, ainda
maiores do que eu me lembrava, os olhos castanho-
esverdeados, os cabelos pretos mais curtos, o
semblante fechado. Ainda era o mesmo William
que me fazia rolar na cama algumas noites durante
aqueles longos anos.
— Moro aqui — respondeu, mostrando suas
coisas no quarto.
— A casa é sua? — questionei, ainda tentando
entender como nos encontráramos depois de tanto
tempo.
— Sim.
— E por que não está lá embaixo se divertindo
como os outros?
— Porque já me diverti o suficiente, queria
ficar sozinho — respondeu fitando meus olhos.
Ao ouvir suas palavras, comecei a sair do seu
quarto, mas ele me impediu antes mesmo de eu
chegar à porta.
— Por favor, não vá agora — sussurrou,
segurando na minha cintura como o fazia na
fazenda. Gelei sob seu toque. Não esperava sentir o
mesmo arrepio.
— Por quê?
— Preciso conversar com você! — respondeu
aflito.
— Não tenho nada pra falar. Não quero
explicações agora; já as quis, mas esperei que você
voltasse por tanto tempo que cansei.
— Você me esperou?
— Claro que esperei, seu idiota! O que
imaginou que eu faria?!
— Não sei, achei que me esqueceria e seguiria
com a sua vida.
— Como se nada tivesse acontecido, do
mesmo jeito que fez? Não sou como você. Não
consegui esquecer o melhor momento da minha
vida — desabafei.
— Nem eu — lamentou, erguendo meu queixo
para eu olhar para ele.
— Não entendo. Não deveria se lamentar,
quando foi você quem causou meu sofrimento.
— Não fui eu. Fui espancado e expulso da
fazenda naquele mesmo dia. Seus irmãos me
jogaram na minha caminhonete e pediram para eu
desaparecer, afirmando que, se eu voltasse, a surra
seria maior. Tive que ir embora contra a minha
vontade e nem consegui me despedir. Quando descobri que você estava na cidade, fui até a sua
faculdade e te observei de longe. Você estava tão
linda e feliz, tinha um cara segurando sua mão, eu
sabia que eram namorados. Não tinha o direito de
bagunçar sua vida como fiz naquele verão. Por isso
vendi meu apartamento, saí do emprego e fui fazer
meu doutorado na Austrália. Voltei este ano para o
Brasil.
— Você está mentindo? — questionei com
lágrimas nos olhos.
— Não, pode perguntar para a sua família;
creio que eles não irão mentir mais — falou
chateado.
— É mentira, é mentira! — gritei, socando seu
peito. Ele não revidou, muito pelo contrário,
deixou-me bater no seu peito até que não aguentei
mais, e eu teria caído no chão se ele não tivesse me
segurado no colo. Encostei minha cabeça no seu
ombro e chorei.
William se sentou na cama e esperou minha
crise passar. Acariciou meu cabelo, segurou minha
mão e esperou até que as lágrimas diminuíssem.
Porém, meus questionamentos não haviam cessado.
— Por quê? Nunca namorei sério ninguém,
jamais senti o que sentia quando estava com você. Eu tentei, juro que tentei, mas não era a mesma
coisa. Essa é a primeira festa a que vou durante os
cinco anos em que estive na faculdade. Não
consegui te esquecer, voltei poucas vezes para a
fazenda, pois minha casa, a cachoeira, o balanço,
tudo me fazia lembrar o que perdi e nunca mais
poderia ter... Eu lutei tanto pra te esquecer, mas era
impossível!
— Eu sinto muito, se soubesse que sofria tanto
quanto eu, teria te procurado mais uma vez.
Durante todos esses anos, achei que você tinha me
esquecido.
— Você ainda gosta de mim? — indaguei
cautelosa, com as mãos no seu rosto.
— Eu te amo, garota.
— Você me ama?
— Claro! Assim como você tentou me
esquecer, eu também tentei. Mas é impossível tirar
você do meu coração. Durante muito tempo, achei
que o veneno da maçã tinha saído das macieiras e
entrado no meu coração. Mas não foi isso que
aconteceu, eu nunca estive envenenado. Sempre
estive perdidamente apaixonado por você.
— E eu por você — respondi sorrindo.
Encarei seu rosto, de que tanto senti falta, encostei minha boca na sua, e nos beijamos como
na primeira vez. Seu gosto era o mesmo, e minhas
pernas tremiam igualmente.
E, com aquele beijo, atravessamos a ponte que
nos separara por tanto tempo. Reatamos os laços
rompidos e nos amamos com a certeza de que nada
mais poderia nos separar.