O Veneno da Maçã
O pecado da maçã
Embora ele esteja longe,
eu encontrarei meu amor algum dia,
o dia em que meus sonhos se tornarão realidade.
– Branca de Neve e os sete anões
NÃO PERCEBI QUE eu corria até meus
joelhos fraquejarem e eu cair na grama macia bem perto da cachoeira. Não chorei, mas não conseguia
respirar direito. Encolhi as pernas e fiquei ali,
tentando voltar a respirar, tentando entender por
que me afetara tanto o que meu irmão dissera. Eu
não tinha nada com o William e nunca teria, por
que insistia em ficar deprimida por causa dele?
Tirei meus sapatos, desabotoei os botões do
meu vestido e caí na água. Ainda estava gelada. Eu
não costumava nadar de manhazinha assim, quando
o sol ainda não tinha esquentado a água, mas
precisava colocar a cabeça no lugar e só consegui
pensar nisso.
Fechei meus olhos, tentei tirar tudo da minha
cabeça. Nada era tão importante agora. Estava tão
distraída que não percebi alguém se aproximando.
Senti o cheiro peculiar de William, sua mão na
minha cintura e abri os olhos.
— O que está fazendo aqui? — perguntei
irritada. Ele tinha entrado na água e estava apenas
de boxer.
— Não consigo mais ficar longe de você —
respondeu fitando meus olhos, aflito.
— Só agora percebeu isso? Pena que é tarde
demais — ralhei, tentando me afastar dele, mas seu
aperto na minha cintura se intensificou, e não consegui me mover.
— Sei disso desde o dia em que a deixei
sozinha embaixo daquela macieira, mas fui
covarde, entendo agora. Me perdoa?
— Perdoar?
— Sim, eu não devia ter fugido. Não suporto
mais olhar pra você e não poder te tocar —
explicou, passando o dedo indicador nos meus
lábios. Estremeci no mesmo segundo.
— Tem certeza de que não vai se arrepender e
sair correndo depois?
— Não vou a lugar nenhum — respondeu,
devorando minha boca logo em seguida. Se eu
soubesse que beijar era tão bom, não teria
demorado tanto para experimentar. Sentir sua boca
na minha era algo sublime. Seu toque no meu
corpo, seus beijos no meu pescoço, nos meus seios
me faziam perder a razão. Eu estava em
desvantagem ali, e ele se aproveitou disso. Só não
seguimos adiante porque estávamos na água e não
tínhamos proteção. Seria algo estúpido para se
fazer. Mesmo no calor do desejo, precisávamos
pensar nas consequências.
Nossa relação finalmente desabrochou.
Naquele dia, tive que disfarçar meus constantes olhares apaixonados na direção dele, meus suspiros
pela casa, caso contrário, minha família perceberia,
e estaríamos perdidos. Mais tarde, à noite, deixei a
porta do meu quarto aberta e recebi uma visita
inesperada à madrugada.
— Não consigo para de pensar em você —
sussurrou William no meu ouvido com a voz rouca
de desejo. Abri meus olhos devagar, ainda
sonolenta, e sorri ao vê-lo em cima de mim.
— O que está fazendo aqui? — indaguei me
sentando na cama. Ele me olhou de cima a baixo e
perguntou confuso:
— Você dorme com a minha camisa?
— Não todas as noites, só quando estou com
saudades de você — respondi, esfregando meus
olhos.
— Você acabou de tirar o resto de sanidade
que ainda tinha em mim — murmurou, jogando-me
na cama. Desabotoou os botões da camisa devagar,
mirou meus seios e os abocanhou, depois foi
descendo explorando meu corpo como ninguém
jamais o fizera. Descobri um prazer com sua boca
que não imaginava que existisse, mas não seguimos
adiante pela segunda vez, não que eu não estivesse
pronta. Estava mole e entregue nos seus braços, só não aconteceu.
Passamos a combinar nossos encontros através
de olhares. A cachoeira e o balanço eram os meus
preferidos.
— Vou embora amanhã. As macieiras estão
bem, não tenho mais desculpas para ficar aqui —
William comentou passando a mão no meu cabelo
com carinho.
Era manhã, e estávamos deitados embaixo do
ipê, minha cabeça apoiada no seu peito nu, depois
que tirei sua camiseta durante um amasso assim
que eu o encontrara me esperando ali.
— Você não pode me deixar aqui — afirmei,
beijando seus lábios.
— Não quero deixar você, mas não sei o que
fazer...
— Me levar com você...?
— Seus pais nunca permitiriam — respondeu
aflito.
— Tenho 18 anos, posso cuidar da minha
vida.
— Claro que pode — explicou, voltando a me beijar —, mas não irão aprovar nosso namoro. Sou
divorciado e 12 anos mais velho que você, não sou
o tipo de namorado que seus pais sonham para a
única filha.
— Eles não podem decidir o que é melhor pra
mim — respondi impaciente.
— Você é muito nova ainda, não sabe o que
quer — disse franzindo o cenho.
— Não subestime meus sentimentos, eu sei
muito bem o que quero! — Bufei irritada.
— O que você quer? — perguntou me
puxando para olhar para ele.
— Eu quero ficar com você — respondi sem
hesitar.
— Também quero ficar com você, não
conseguiria ir embora e a deixar aqui. Mas não
quero estragar sua vida, nem irritar sua família, eles
foram tão gentis comigo. Por isso lutei tanto contra
o que sentia por você. Não é justo enganá-los
assim. Não sou esse tipo de homem, quero me
sentar com seu pai e contar toda a verdade —
desabafou, incomodado.
— Não podemos contar agora. Dentro de
alguns meses, vamos morar na mesma cidade,
podemos nos ver todos os dias e, depois de um tempo, contamos para os meus pais.
— Tem certeza disso?
— Tenho. Agora me beija, que já estou com
saudades — pedi, umedecendo os lábios em
expectativa.
Passamos uma das melhores manhãs da minha
vida. Eu me lembraria para sempre do carinho com
que ele venerava meu corpo, sem pressa, com
cuidado e a paciência que tinha quando me deixava
tocá-lo da mesma forma. Embora eu ainda fosse
virgem, estava descobrindo a sexualidade e cada
vez mais não conseguia ficar afastada dele.
Combinamos um encontro à tarde no pomar.
Passei horas me arrumando e saí escondida para
não mentir mais uma vez para a minha mãe.
Quando cheguei àquele mesmo lugar em que dera
meu primeiro beijo, ele me esperava deitado só de
jeans embaixo de uma das macieiras, sua camisa
esticada ao seu lado, esperando por mim. Sorri
animada ao me deitar perto dele.
— Você está linda — elogiou tirando meu
cabelo da face.
— Obrigada — agradeci, corando
envergonhada.
— Não precisa ficar assim, estou falando a verdade. Você é a garota mais linda que já vi, por
isso não consegui resistir. Estou de quatro por você.
Faria qualquer coisa que você pedisse.
— Qualquer coisa? — indaguei curiosa.
— Sim, por você eu faço qualquer coisa.
— Então me faça sua — pedi sem tirar os
olhos dos seus.
— Aqui, agora? — questionou confuso.
— Sim. Vamos ficar dois meses separados,
não posso esperar mais. Por favor — supliquei.
— Tem certeza?
— Nunca estive tão segura antes — respondi
mantendo seu olhar.
— Você merece mais do que um chão duro
embaixo de uma macieira — contestou,
contrariado.
— Não importa o lugar, só quero você.
William, só você importa pra mim — confessei,
colocando meus braços em volta do seu pescoço.
— Sei disso, querida, porque sinto o mesmo.
Ainda não acho que esse seja o melhor lugar, mas
não consigo ouvir você me implorando para fazer
algo que também desejo e não atender.
Eu sabia que aquele não era o melhor lugar,
mas não podia esperar até a noite no meu quarto, eu precisava ser sua naquele instante. Meu vestido
facilitou muito seu trabalho. Aos poucos fiquei nua
na sua frente. Seus lábios exploraram meu corpo
como sempre faziam, lambendo, sugando os
lugares certos, fazendo-me fechar os olhos com
foça e morder seu ombro para não gritar de prazer.
Sentei-me e beijei cada gominho do seu
abdômen definido, desci minhas mãos pelo seu
corpo e explorei com a boca os lugares que sabia
que o deixavam louco. Até que ele me virou em
cima da sua camiseta e do meu vestido, que
serviram como lençóis, olhou-me mais uma vez,
como se estivesse esperando mais uma confirmação
minha, e eu o fiz, mexendo meus lábios e
comprovando que não tinha mais volta. Realmente
dessa vez não teve, ele foi até o fim. Senti a dor
aguda, vi a aflição no interior dos seus olhos e
depois descobri o prazer, sim, o prazer de saber que
tinha feito a coisa certa ao esperar aquele momento,
esperar o homem certo, o prazer que seu corpo
colado ao meu me dava.
Ele ainda estava em cima de mim, beijando-
me maravilhado quando ouvi os gritos. De repente,
seu corpo foi puxado de cima do meu, e fiquei
sozinha, tentando me cobrir com as roupas que tinham ficado no chão.
— Não acredito que estava se aproveitando da
minha filha! — gritou meu pai, empurrando
William, que fechava o zíper do jeans e tentava
explicar a situação.
— Você não vai explicar nada! — emendou
Gabriel, indo para cima dele e distribuindo socos e
mais socos no seu rosto. Comecei a gritar, pedi
tanto que parassem, mas ninguém parecia me ouvir.
Coloquei meu vestido de qualquer jeito e fui para
cima do meu irmão para tentar afastá-lo do
William, mas meu pai me impediu e me arrastou de
volta para casa. Eu chorava, esperneava e dizia que
a culpa era minha. No entanto, não adiantava.
Cheguei a casa aos prantos. Minha mãe correu
para me abraçar, e caí chorando nos seus braços.
— Por favor, mãe, não deixe que eles o
matem, a culpa foi minha! Ele não queria! Por
favor, mãe! Por favor, mãe! — implorei
desesperada.
— Ninguém vai matá-lo, minha filha — ela
garantiu, olhando duro para o meu pai, que se
afastou e voltou para o pomar.
Mamãe me levou até o meu quarto e me
ajudou a tomar banho, porque eu estava cheia de terra. Quando vesti meu roupão, ainda tinham
lágrimas nos meus olhos. Ela estava sentada na
minha cama, segurando uma xícara de chá de
camomila. Somente quando bebi todo o líquido
doce e quente fiquei mais calma para contar o que
acontecera. Respirei fundo, tomando coragem.
Teria começado se ela não tivesse me interrompido:
— Não precisa me contar nada, já sabia que
algo assim estava acontecendo com você.
— Como? — indaguei confusa.
— Uma mãe conhece sua filha. Acompanhei
de longe seus olhares admirados toda vez que o via
entrando na sala, na cozinha, em qualquer lugar da
casa. Percebi sua tristeza quando não foi
correspondida e notei sua alegria quando
começaram a se encontrar às escondidas.
— Se sabia de tudo, por que não me disse?
— Não era meu papel interferir. Sabia que seu
pai não aprovaria, queria ajudar você. Porém,
nunca se abriu pra mim.
— Tive medo, fui covarde, mas eu o amo, mãe
— confessei angustiada. Parecia que tinha uma
bola de ferro na minha garganta.
— Oh, minha criança, não sabia que era tão
sério assim. Venha aqui — pediu, abraçando-me. Fiquei ali, aconchegada nos seus braços e
adormeci. Não havia apenas chá naquela xícara.
Minha mãe estava preocupada comigo e me deu um
calmante que me fez dormir a noite toda.
No dia seguinte, William tinha desaparecido.
Não havia nada no quarto de hóspedes, suas roupas
tinham sumido, sua caminhonete não estava na
garagem, e ninguém sabia responder aonde ele
tinha ido. Perguntei à minha mãe, e ela me garantiu
que ele fora embora por vontade própria e com
apenas um olho roxo. Implorei ao meu irmão, mas
ele disse a mesma coisa. Meu pai não falava mais
comigo desde que eu admitira que a culpa daquela
situação era minha e não do William. Meus outros
irmãos se lamentavam por não estar por perto para
distribuir socos no seu rosto como Gabriel o fizera,
e o clima na minha casa ficou insuportável.
Desesperada e sem saber o que fazer, chorei
por horas sentada na varanda da minha casa,
esperando que William aparecesse de repente, mas
foi em vão. Não havia nenhum sinal dele em parte
alguma, a não ser no meu coração partido.