O Veneno da Maçã

Cleia Lira · Capítulo 6 de 10

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O Veneno da Maçã

O pecado da maçã

Embora ele esteja longe,

eu encontrarei meu amor algum dia,

o dia em que meus sonhos se tornarão realidade.

– Branca de Neve e os sete anões

 

NÃO PERCEBI QUE eu corria até meus

joelhos fraquejarem e eu cair na grama macia bem perto da cachoeira. Não chorei, mas não conseguia

respirar direito. Encolhi as pernas e fiquei ali,

tentando voltar a respirar, tentando entender por

que me afetara tanto o que meu irmão dissera. Eu

não tinha nada com o William e nunca teria, por

que insistia em ficar deprimida por causa dele?

Tirei meus sapatos, desabotoei os botões do

meu vestido e caí na água. Ainda estava gelada. Eu

não costumava nadar de manhazinha assim, quando

o sol ainda não tinha esquentado a água, mas

precisava colocar a cabeça no lugar e só consegui

pensar nisso.

Fechei meus olhos, tentei tirar tudo da minha

cabeça. Nada era tão importante agora. Estava tão

distraída que não percebi alguém se aproximando.

Senti o cheiro peculiar de William, sua mão na

minha cintura e abri os olhos.

— O que está fazendo aqui? — perguntei

irritada. Ele tinha entrado na água e estava apenas

de boxer.

— Não consigo mais ficar longe de você —

respondeu fitando meus olhos, aflito.

— Só agora percebeu isso? Pena que é tarde

demais — ralhei, tentando me afastar dele, mas seu

aperto na minha cintura se intensificou, e não consegui me mover.

— Sei disso desde o dia em que a deixei

sozinha embaixo daquela macieira, mas fui

covarde, entendo agora. Me perdoa?

— Perdoar?

— Sim, eu não devia ter fugido. Não suporto

mais olhar pra você e não poder te tocar —

explicou, passando o dedo indicador nos meus

lábios. Estremeci no mesmo segundo.

— Tem certeza de que não vai se arrepender e

sair correndo depois?

— Não vou a lugar nenhum — respondeu,

devorando minha boca logo em seguida. Se eu

soubesse que beijar era tão bom, não teria

demorado tanto para experimentar. Sentir sua boca

na minha era algo sublime. Seu toque no meu

corpo, seus beijos no meu pescoço, nos meus seios

me faziam perder a razão. Eu estava em

desvantagem ali, e ele se aproveitou disso. Só não

seguimos adiante porque estávamos na água e não

tínhamos proteção. Seria algo estúpido para se

fazer. Mesmo no calor do desejo, precisávamos

pensar nas consequências.

Nossa relação finalmente desabrochou.

Naquele dia, tive que disfarçar meus constantes olhares apaixonados na direção dele, meus suspiros

pela casa, caso contrário, minha família perceberia,

e estaríamos perdidos. Mais tarde, à noite, deixei a

porta do meu quarto aberta e recebi uma visita

inesperada à madrugada.

— Não consigo para de pensar em você —

sussurrou William no meu ouvido com a voz rouca

de desejo. Abri meus olhos devagar, ainda

sonolenta, e sorri ao vê-lo em cima de mim.

— O que está fazendo aqui? — indaguei me

sentando na cama. Ele me olhou de cima a baixo e

perguntou confuso:

— Você dorme com a minha camisa?

— Não todas as noites, só quando estou com

saudades de você — respondi, esfregando meus

olhos.

— Você acabou de tirar o resto de sanidade

que ainda tinha em mim — murmurou, jogando-me

na cama. Desabotoou os botões da camisa devagar,

mirou meus seios e os abocanhou, depois foi

descendo explorando meu corpo como ninguém

jamais o fizera. Descobri um prazer com sua boca

que não imaginava que existisse, mas não seguimos

adiante pela segunda vez, não que eu não estivesse

pronta. Estava mole e entregue nos seus braços, só não aconteceu.

Passamos a combinar nossos encontros através

de olhares. A cachoeira e o balanço eram os meus

preferidos.

 

— Vou embora amanhã. As macieiras estão

bem, não tenho mais desculpas para ficar aqui —

William comentou passando a mão no meu cabelo

com carinho.

Era manhã, e estávamos deitados embaixo do

ipê, minha cabeça apoiada no seu peito nu, depois

que tirei sua camiseta durante um amasso assim

que eu o encontrara me esperando ali.

— Você não pode me deixar aqui — afirmei,

beijando seus lábios.

— Não quero deixar você, mas não sei o que

fazer...

— Me levar com você...?

— Seus pais nunca permitiriam — respondeu

aflito.

— Tenho 18 anos, posso cuidar da minha

vida.

— Claro que pode — explicou, voltando a me beijar —, mas não irão aprovar nosso namoro. Sou

divorciado e 12 anos mais velho que você, não sou

o tipo de namorado que seus pais sonham para a

única filha.

— Eles não podem decidir o que é melhor pra

mim — respondi impaciente.

— Você é muito nova ainda, não sabe o que

quer — disse franzindo o cenho.

— Não subestime meus sentimentos, eu sei

muito bem o que quero! — Bufei irritada.

— O que você quer? — perguntou me

puxando para olhar para ele.

— Eu quero ficar com você — respondi sem

hesitar.

— Também quero ficar com você, não

conseguiria ir embora e a deixar aqui. Mas não

quero estragar sua vida, nem irritar sua família, eles

foram tão gentis comigo. Por isso lutei tanto contra

o que sentia por você. Não é justo enganá-los

assim. Não sou esse tipo de homem, quero me

sentar com seu pai e contar toda a verdade —

desabafou, incomodado.

— Não podemos contar agora. Dentro de

alguns meses, vamos morar na mesma cidade,

podemos nos ver todos os dias e, depois de um tempo, contamos para os meus pais.

— Tem certeza disso?

— Tenho. Agora me beija, que já estou com

saudades — pedi, umedecendo os lábios em

expectativa.

Passamos uma das melhores manhãs da minha

vida. Eu me lembraria para sempre do carinho com

que ele venerava meu corpo, sem pressa, com

cuidado e a paciência que tinha quando me deixava

tocá-lo da mesma forma. Embora eu ainda fosse

virgem, estava descobrindo a sexualidade e cada

vez mais não conseguia ficar afastada dele.

Combinamos um encontro à tarde no pomar.

Passei horas me arrumando e saí escondida para

não mentir mais uma vez para a minha mãe.

Quando cheguei àquele mesmo lugar em que dera

meu primeiro beijo, ele me esperava deitado só de

jeans embaixo de uma das macieiras, sua camisa

esticada ao seu lado, esperando por mim. Sorri

animada ao me deitar perto dele.

— Você está linda — elogiou tirando meu

cabelo da face.

— Obrigada — agradeci, corando

envergonhada.

— Não precisa ficar assim, estou falando a verdade. Você é a garota mais linda que já vi, por

isso não consegui resistir. Estou de quatro por você.

Faria qualquer coisa que você pedisse.

— Qualquer coisa? — indaguei curiosa.

— Sim, por você eu faço qualquer coisa.

— Então me faça sua — pedi sem tirar os

olhos dos seus.

— Aqui, agora? — questionou confuso.

— Sim. Vamos ficar dois meses separados,

não posso esperar mais. Por favor — supliquei.

— Tem certeza?

— Nunca estive tão segura antes — respondi

mantendo seu olhar.

— Você merece mais do que um chão duro

embaixo de uma macieira — contestou,

contrariado.

— Não importa o lugar, só quero você.

William, só você importa pra mim — confessei,

colocando meus braços em volta do seu pescoço.

— Sei disso, querida, porque sinto o mesmo.

Ainda não acho que esse seja o melhor lugar, mas

não consigo ouvir você me implorando para fazer

algo que também desejo e não atender.

Eu sabia que aquele não era o melhor lugar,

mas não podia esperar até a noite no meu quarto, eu precisava ser sua naquele instante. Meu vestido

facilitou muito seu trabalho. Aos poucos fiquei nua

na sua frente. Seus lábios exploraram meu corpo

como sempre faziam, lambendo, sugando os

lugares certos, fazendo-me fechar os olhos com

foça e morder seu ombro para não gritar de prazer.

Sentei-me e beijei cada gominho do seu

abdômen definido, desci minhas mãos pelo seu

corpo e explorei com a boca os lugares que sabia

que o deixavam louco. Até que ele me virou em

cima da sua camiseta e do meu vestido, que

serviram como lençóis, olhou-me mais uma vez,

como se estivesse esperando mais uma confirmação

minha, e eu o fiz, mexendo meus lábios e

comprovando que não tinha mais volta. Realmente

dessa vez não teve, ele foi até o fim. Senti a dor

aguda, vi a aflição no interior dos seus olhos e

depois descobri o prazer, sim, o prazer de saber que

tinha feito a coisa certa ao esperar aquele momento,

esperar o homem certo, o prazer que seu corpo

colado ao meu me dava.

Ele ainda estava em cima de mim, beijando-

me maravilhado quando ouvi os gritos. De repente,

seu corpo foi puxado de cima do meu, e fiquei

sozinha, tentando me cobrir com as roupas que tinham ficado no chão.

— Não acredito que estava se aproveitando da

minha filha! — gritou meu pai, empurrando

William, que fechava o zíper do jeans e tentava

explicar a situação.

— Você não vai explicar nada! — emendou

Gabriel, indo para cima dele e distribuindo socos e

mais socos no seu rosto. Comecei a gritar, pedi

tanto que parassem, mas ninguém parecia me ouvir.

Coloquei meu vestido de qualquer jeito e fui para

cima do meu irmão para tentar afastá-lo do

William, mas meu pai me impediu e me arrastou de

volta para casa. Eu chorava, esperneava e dizia que

a culpa era minha. No entanto, não adiantava.

Cheguei a casa aos prantos. Minha mãe correu

para me abraçar, e caí chorando nos seus braços.

— Por favor, mãe, não deixe que eles o

matem, a culpa foi minha! Ele não queria! Por

favor, mãe! Por favor, mãe! — implorei

desesperada.

— Ninguém vai matá-lo, minha filha — ela

garantiu, olhando duro para o meu pai, que se

afastou e voltou para o pomar.

Mamãe me levou até o meu quarto e me

ajudou a tomar banho, porque eu estava cheia de terra. Quando vesti meu roupão, ainda tinham

lágrimas nos meus olhos. Ela estava sentada na

minha cama, segurando uma xícara de chá de

camomila. Somente quando bebi todo o líquido

doce e quente fiquei mais calma para contar o que

acontecera. Respirei fundo, tomando coragem.

Teria começado se ela não tivesse me interrompido:

— Não precisa me contar nada, já sabia que

algo assim estava acontecendo com você.

— Como? — indaguei confusa.

— Uma mãe conhece sua filha. Acompanhei

de longe seus olhares admirados toda vez que o via

entrando na sala, na cozinha, em qualquer lugar da

casa. Percebi sua tristeza quando não foi

correspondida e notei sua alegria quando

começaram a se encontrar às escondidas.

— Se sabia de tudo, por que não me disse?

— Não era meu papel interferir. Sabia que seu

pai não aprovaria, queria ajudar você. Porém,

nunca se abriu pra mim.

— Tive medo, fui covarde, mas eu o amo, mãe

— confessei angustiada. Parecia que tinha uma

bola de ferro na minha garganta.

— Oh, minha criança, não sabia que era tão

sério assim. Venha aqui — pediu, abraçando-me. Fiquei ali, aconchegada nos seus braços e

adormeci. Não havia apenas chá naquela xícara.

Minha mãe estava preocupada comigo e me deu um

calmante que me fez dormir a noite toda.

No dia seguinte, William tinha desaparecido.

Não havia nada no quarto de hóspedes, suas roupas

tinham sumido, sua caminhonete não estava na

garagem, e ninguém sabia responder aonde ele

tinha ido. Perguntei à minha mãe, e ela me garantiu

que ele fora embora por vontade própria e com

apenas um olho roxo. Implorei ao meu irmão, mas

ele disse a mesma coisa. Meu pai não falava mais

comigo desde que eu admitira que a culpa daquela

situação era minha e não do William. Meus outros

irmãos se lamentavam por não estar por perto para

distribuir socos no seu rosto como Gabriel o fizera,

e o clima na minha casa ficou insuportável.

Desesperada e sem saber o que fazer, chorei

por horas sentada na varanda da minha casa,

esperando que William aparecesse de repente, mas

foi em vão. Não havia nenhum sinal dele em parte

alguma, a não ser no meu coração partido.