O Veneno da Maçã
Tentação
Se Branca de Neve não tivesse mordido a maçã,
ela não teria beijado o príncipe
– Sandro Kretus
ACORDEI NA MANHÃ seguinte com receio
de encarar o William. Ajudei minha mãe com a
mesa do café da manhã e depois tentei escapar da refeição. Porém, não consegui; ela insistiu, e tive de
me sentar à mesa junto com ela, meus irmãos e meu
pai. A conversa estava animada, e quase me
esqueci de que ainda faltava alguém.
— Desculpem a demora, perdi a hora —
comentou William aparecendo na sala de jantar.
— Não se preocupe, começamos a comer
agora — informou mamãe, indicando uma cadeira
para ele.
— Bom dia! — cumprimentou ao se sentar.
— Bom dia! — respondemos em uníssono.
Eu tentei não olhar para ele, mas era difícil.
Cada vez mais, eu acreditava que aquela corda
invisível que ele citara no outro dia existia de
verdade.
— Esse bolo de fubá está maravilhoso —
elogiou, servindo-se de mais um pedaço.
— Minha esposa tem mãos de fada na
cozinha, por isso estou desse jeito — murmurou
papai passando a mão na barriga saliente e tirando
gargalhadas nossas.
— Ainda bem que malho todos os dias para
manter esse tanquinho — declarou Vítor, comendo
sua terceira fatia de bolo. Meu irmão não
descuidava do físico por nada.
Aos poucos a comida foi acabando, e os meus
irmãos foram os primeiros a deixarem a mesa. Meu
pai e William saíram juntos logo depois. Fiquei na
casa para ajudar mamãe. Levei a louça suja para a
pia da cozinha e, quando estava voltando, fui
surpreendida por ela.
— O agrônomo esqueceu o celular —
comentou olhando para o aparelho, que não parava
de vibrar em cima da mesa.
— Podemos deixá-lo aqui e esperar ele voltar
— falei pegando o aparelho e o guardando no
armário de louças.
— Ele vai demorar, e se precisar do telefone?
— indagou preocupada.
— Vamos esperar um pouco; se ele não voltar
logo, podemos mandar alguém levá-lo para ele.
— É um celular caro, filha, não podemos dar
na mão de qualquer pessoa.
— Eu posso levá-lo até as macieiras, mãe —
disse por fim.
— É melhor mesmo — anunciou, saindo da
sala, e só assim consegui respirar aliviada. Eu
enganara a minha mãe e não estava contente com
isso, mas, se ela percebesse que eu queria muito
entregar o telefone para o William, jamais me deixaria ir até o pomar procurá-lo.
Passei a manhã toda ajudando mamãe e,
quando terminei, estava quase na hora do almoço.
Papai apareceu na cozinha de surpresa, dizendo que
William tinha ficado no pomar e não voltaria tão
cedo. Esperei para almoçar com minha família,
esforcei-me para parecer serena enquanto meu pai
se lamentava por causa das pragas que assolavam
sua plantação. No entanto, por dentro, eu estava em
plena ebulição.
— O que vou dizer a ele? — indaguei
retoricamente para o meu reflexo no espelho de
meu quarto, depois de ter me despedido da mamãe
na cozinha. Meu pai havia ido à cidade, e eu estava
livre para encontrar William no lugar onde ficavam
as macieiras.
Coloquei um short jeans e uma blusinha
tomara que caia com botões na frente. Queria vestir
outra roupa, mas não podia me arrumar muito;
minha mãe desconfiaria. Amarrei meus cabelos
num coque frouxo, que soltei no caminho, e ainda
passei um brilho labial que levara no bolso. Estava
tão ansiosa para ficar sozinha com William que
cheguei a correr em alguns trechos do caminho.
Assim que vi as primeiras macieiras despontando no horizonte, algumas carregadas de
maçãs, outras floridas, sorri animada. Agora só
precisava encontrá-lo. Sabia mais ou menos onde
procurá-lo, mas fiquei desanimada ao caminhar
pela plantação e não ver ninguém. Quase desisti,
mas fiquei paralisada ao ver o William deitado sem
camisa embaixo de uma macieira.
— Desculpe atrapalhar seu descanso — falei,
tentando me recuperar daquela visão. Ele estava
com o abdômen definido à mostra, seus braços
fortes apoiados na cabeça. Era uma visão e tanto.
— Não está atrapalhando — afirmou,
levantando-se para ficar de frente para mim.
— Eu só vim entregar o seu celular —
informei, entregando-lhe o aparelho. Ficamos nos
encarando por um tempo. Torci as mãos, nervosa, e
abaixei meu olhar para não continuar olhando para
os gominhos do seu abdômen perfeito.
— Não precisava vir até aqui só pra trazer
meu telefone — comentou colocando o aparelho no
bolso detrás do jeans.
— Achei que você precisava — disse, dando
de ombros.
— Não é do celular que eu preciso. Na
verdade, eu estava pensando em você — revelou se aproximando de mim. Descansou uma das mãos na
minha cintura, enquanto os dedos da outra
acariciavam meus lábios.
— No que você estava pensando?
— No beijo que não consegui dar ontem à
noite — respondeu, puxando-me para mais perto.
— Você pode dar agora — sussurrei
encarando seus olhos, que mudavam de cor de
acordo com seu humor. Naquele instante, estavam
verdes como as folhas das macieiras.
William encostou seus lábios na minha boca
devagar. Senti sua maciez na minha língua, seus
dentes mordiscando meu lábio. Segurei seu cabelo
e o puxei para aplacar algo que eu não conseguia
nomear. Sua língua explorou minha boca. Eu não
sabia bem o que fazer, por isso agi por instinto e
deixei que ele tomasse a iniciativa.
Aos poucos começamos a nos mover, e,
quando percebi, estava deitada em cima da camisa
dele embaixo da macieira, mesmo lugar em que ele
estivera deitado minutos antes. Suas mãos foram
até as minhas pernas, minha barriga, exploraram
meus seios por cima da blusa. Ele era um homem
faminto, e meu corpo parecia a comida perfeita
para saciar a sua fome.
— Você me deixa louco, sabia? — perguntou,
tomando fôlego.
Suspirei depois de meu primeiro beijo.
— Você não sai da minha cabeça também,
portanto, sei bem o que deve estar sentindo.
— Eu estava pensando em você, sonhando
com seu corpo cheio de gotinhas de água, como eu
vi naquele dia na cachoeira, e de repente você
apareceu. Não consegui me controlar — explicou,
beijando meus lábios mais uma vez.
— Esse é o melhor primeiro beijo de todos! —
comentei empolgada.
— Você nunca tinha beijado ninguém antes de
mim? — inquiriu, seu corpo se tornando mais
tenso, uma expressão séria no rosto.
— Não, meu primeiro beijo foi com você —
respondi feliz.
— O que eu estou fazendo? — indagou
preocupado. Saiu de cima de mim e começou a
andar de um lado para o outro com as mãos na
cabeça.
— Nós nos beijamos, só isso. Não estrague
esse momento, por favor — pedi, tentando
acompanhar aquele vai e vem à minha frente.
— Você é virgem também? — perguntou cauteloso, parando de andar para ouvir a minha
resposta.
— Sou, mas não precisa se desesperar, não
estou me guardando até o casamento. Só não
apareceu o cara certo ainda.
— Você não entende! Tenho 30 anos, sou
divorciado, não posso me envolver com você, tirar
a sua virgindade como se fosse nada e depois partir.
Não quero relacionamentos, estou fugindo deles,
por isso vamos parar por aqui. Não se aproxime
mais de mim — ordenou, afastando-se devagar de
costas, depois se virou e desapareceu entre as
macieiras.
Fiquei ali, imóvel, sem entender nada.
Demorei a chegar a casa. Caminhei devagar,
tentando descobrir o que eu fizera de errado.
Pensei:
Desde quando ser virgem é um pecado? Não
acho que seja, muito menos um aviso de “não se
aproxime”.
Eu estava chateada por ele me ter tratado
daquele jeito. Não era para tanto, mas quem disse
que meu coração tolo entendia? Seria tão simples
se eu não gostasse tanto dele... só precisava
esquecê-lo e pronto.
Ao entrar em casa, só então percebi que tinha
trazido comigo a camisa de William. Fui ao meu
quarto e a deixei sobre a cômoda. Entrei na cozinha
e avistei minha mãe sentada à mesa tomando um
café. Ela me olhou de cima a baixo e sorriu.
— Oi, mãe! Desculpe a demora, estava no
balanço — menti, sem coragem de olhar nos seus
olhos.
— Não tem problema, querida, estava aqui
pensando na vida — respondeu, levando a xícara
até a boca.
— No que estava pensando? — perguntei
interessada. Sentei-me em frente a ela, peguei uma
xícara e me servi do seu café.
— Nada importante, deixa pra lá. E você?
Parece triste... — indagou me observando.
— Estou bem, mãe, só ansiosa com a
faculdade — menti mais uma vez. Eu não
costumava fazer isso. Sempre contava meus
problemas para mamãe, mas agora era diferente, eu
não sabia como me abrir e tinha certeza de que ela
não aprovaria. Além disso, o que eu poderia
contar? Acabara antes mesmo de acontecer...
— Sabe que pode mudar de ideia e ficar na
fazenda se quiser? — questionou achando que meu medo era ficar longe de casa, quando esse era o
menor dos meus problemas. Desde que William
chegara ali, eu não pensava em outra coisa senão
nele. Não devia ser saudável. Ainda bem que não
seguimos adiante... pensei. A quem eu estava
enganando? No fundo, eu queria muito ter vivido
aquela paixão.
— Não vou mudar de ideia, ainda quero
estudar na capital — afirmei, voltando dos meus
devaneios.
— Entendo. Estarei aqui; pode voltar quando
precisar de um colo — falou acariciando minha
mão com carinho. Ser a caçula tinha muitos
benefícios, entre eles o colo da mamãe, mas eu não
queria demonstrar fraqueza naquele dia. Eu era
adulta, estava indo para a faculdade, não podia
chorar porque um homem imbecil estava
complicando a minha vida, mesmo que fosse difícil
segurar as lágrimas.
— Vou ao meu quarto tomar um banho e volto
logo — disse, deixando um beijo carinhoso no seu
rosto.
Contudo, não voltei; inventei uma desculpa
qualquer e fiquei deitada na minha cama. Sequer
desci para jantar. Troquei algumas mensagens com a Clarinha, mas não contei sobre o William. Era
doloroso demais dizer a alguém que eu tinha sido
rejeitada. Peguei um livro para ler. No entanto, não
conseguia prestar atenção à história; tive que largá-
lo num canto.
Sentei-me na cama, olhei para o espelho e
murmurei impaciente:
— O que eu faço?
Ele não respondeu; claro que não o faria. Eu
não sabia por que insistia em conversar com o
espelho, não parecia um bom sinal. Entretanto, ele
me acalmava, como se eu pudesse lhe dizer o que
sinto de verdade sem receber nenhum julgamento
por isso, um jeito de exteriorizar meus sentimentos.
Porém, naquela noite, não estava funcionando;
nada parecia funcionar... até que vi a camisa do
William em cima da cômoda. Havia me esquecido
dela.
Levantei-me e a peguei, trouxe-a ao rosto e
senti seu perfume cítrico e forte. Tirei meu pijama e
a vesti, deitei-me novamente e dormi feito uma
pedra.
Abri os olhos no dia seguinte, ainda sentindo
seu cheiro. Olhei para a camisa que usava e me
assustei. Se minha mãe visse aquela peça de roupa em meu corpo, eu estaria encrencada. Corri até o
banheiro, tirei-a, tomei um banho e, quando voltei
ao quarto e me olhei no espelho, estava me
sentindo bem melhor. Escondi a camisa no fundo
da última gaveta da cômoda e fui até a cozinha
ajudar a minha mãe como fazia todas as manhãs.
Conversamos sobre coisas banais, tirei dois
bolos do forno, ajudei com as broas de milho, pães
de queijo e por fim sentei-me à mesa quando todos
começaram a se acomodar para o café da manhã.
Eu percebi quando o William chegou, mas não
olhei para ele, ignorei o fio invisível que nos atraía,
ignorei a vontade que tinha de perguntar por que
ele não podia ficar comigo. Ignorei meu coração
batendo frenético e tomei meu café da manhã. Às
vezes conseguia perceber que ele estava me
olhando, mas não olhava de volta para confirmar.
Durante o dia, foi difícil continuar o
ignorando. Muitas vezes, quando ele não estava
olhando, eu o espiava de longe.
Enfim chegaram os resultados dos testes nas
macieiras, e descobriram que a plantação do meu
pai tinha sido atingida por duas pragas: oídio e a
sarna da maçã. Começaram a pulverizar os pés
afetados, cortaram e queimaram aqueles para os quais não tinha solução. Para todos os efeitos, as
pragas estavam sendo controladas.
Assim se passou uma semana, durante a qual
ignorei completamente o motivo das minhas
insônias constantes. Não conversávamos, sequer
ficávamos sozinhos no mesmo cômodo. Em breve,
nunca mais nos veríamos, uma vez que William
estava com os dias contados na fazenda. Ele
decidiu acompanhar as macieiras por mais uma
semana para verificar se as pragas não voltariam,
como acontecera tantas vezes antes de ele chegar.
Naquela manhã, fiz tudo a que já estava
acostumada. Nem olhei para ele e percebi quando
deixou a sala depois de beber apenas uma xícara de
café.
— Parece que o agrônomo não dormiu bem
essa noite — comentou Gabriel ao ver William
deixando a mesa mais cedo do que costumava fazê-
lo.
— Ele deve estar de saco cheio de ficar nesse
fim de mundo — emendou Vítor.
— Talvez, mas nada justifica deixar as broas
de milho no prato — protestou Rodrigo, guloso
como sempre.
— Deixem o homem em paz, ele trabalhou duro para controlar aquelas pragas, deve estar
cansado, só isso — interferiu meu pai.
— Acho que ele está com saudades de casa —
anunciou minha mãe, surpreendendo-nos.
— Ou está com algum rabo de saia na
fazenda, já ouvi algumas funcionárias da colheita
comentando como ele é bonito — disse Rodrigo.
— Preciso sair, com licença — falei
impaciente; não conseguia ouvir mais uma palavra.