O Veneno da Maçã

Cleia Lira · Capítulo 5 de 10

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O Veneno da Maçã

Tentação

Se Branca de Neve não tivesse mordido a maçã,

ela não teria beijado o príncipe

– Sandro Kretus

 

ACORDEI NA MANHÃ seguinte com receio

de encarar o William. Ajudei minha mãe com a

mesa do café da manhã e depois tentei escapar da refeição. Porém, não consegui; ela insistiu, e tive de

me sentar à mesa junto com ela, meus irmãos e meu

pai. A conversa estava animada, e quase me

esqueci de que ainda faltava alguém.

— Desculpem a demora, perdi a hora —

comentou William aparecendo na sala de jantar.

— Não se preocupe, começamos a comer

agora — informou mamãe, indicando uma cadeira

para ele.

— Bom dia! — cumprimentou ao se sentar.

— Bom dia! — respondemos em uníssono.

Eu tentei não olhar para ele, mas era difícil.

Cada vez mais, eu acreditava que aquela corda

invisível que ele citara no outro dia existia de

verdade.

— Esse bolo de fubá está maravilhoso —

elogiou, servindo-se de mais um pedaço.

— Minha esposa tem mãos de fada na

cozinha, por isso estou desse jeito — murmurou

papai passando a mão na barriga saliente e tirando

gargalhadas nossas.

— Ainda bem que malho todos os dias para

manter esse tanquinho — declarou Vítor, comendo

sua terceira fatia de bolo. Meu irmão não

descuidava do físico por nada.

Aos poucos a comida foi acabando, e os meus

irmãos foram os primeiros a deixarem a mesa. Meu

pai e William saíram juntos logo depois. Fiquei na

casa para ajudar mamãe. Levei a louça suja para a

pia da cozinha e, quando estava voltando, fui

surpreendida por ela.

— O agrônomo esqueceu o celular —

comentou olhando para o aparelho, que não parava

de vibrar em cima da mesa.

— Podemos deixá-lo aqui e esperar ele voltar

— falei pegando o aparelho e o guardando no

armário de louças.

— Ele vai demorar, e se precisar do telefone?

— indagou preocupada.

— Vamos esperar um pouco; se ele não voltar

logo, podemos mandar alguém levá-lo para ele.

— É um celular caro, filha, não podemos dar

na mão de qualquer pessoa.

— Eu posso levá-lo até as macieiras, mãe —

disse por fim.

— É melhor mesmo — anunciou, saindo da

sala, e só assim consegui respirar aliviada. Eu

enganara a minha mãe e não estava contente com

isso, mas, se ela percebesse que eu queria muito

entregar o telefone para o William, jamais me deixaria ir até o pomar procurá-lo.

Passei a manhã toda ajudando mamãe e,

quando terminei, estava quase na hora do almoço.

Papai apareceu na cozinha de surpresa, dizendo que

William tinha ficado no pomar e não voltaria tão

cedo. Esperei para almoçar com minha família,

esforcei-me para parecer serena enquanto meu pai

se lamentava por causa das pragas que assolavam

sua plantação. No entanto, por dentro, eu estava em

plena ebulição.

— O que vou dizer a ele? — indaguei

retoricamente para o meu reflexo no espelho de

meu quarto, depois de ter me despedido da mamãe

na cozinha. Meu pai havia ido à cidade, e eu estava

livre para encontrar William no lugar onde ficavam

as macieiras.

Coloquei um short jeans e uma blusinha

tomara que caia com botões na frente. Queria vestir

outra roupa, mas não podia me arrumar muito;

minha mãe desconfiaria. Amarrei meus cabelos

num coque frouxo, que soltei no caminho, e ainda

passei um brilho labial que levara no bolso. Estava

tão ansiosa para ficar sozinha com William que

cheguei a correr em alguns trechos do caminho.

Assim que vi as primeiras macieiras despontando no horizonte, algumas carregadas de

maçãs, outras floridas, sorri animada. Agora só

precisava encontrá-lo. Sabia mais ou menos onde

procurá-lo, mas fiquei desanimada ao caminhar

pela plantação e não ver ninguém. Quase desisti,

mas fiquei paralisada ao ver o William deitado sem

camisa embaixo de uma macieira.

— Desculpe atrapalhar seu descanso — falei,

tentando me recuperar daquela visão. Ele estava

com o abdômen definido à mostra, seus braços

fortes apoiados na cabeça. Era uma visão e tanto.

— Não está atrapalhando — afirmou,

levantando-se para ficar de frente para mim.

— Eu só vim entregar o seu celular —

informei, entregando-lhe o aparelho. Ficamos nos

encarando por um tempo. Torci as mãos, nervosa, e

abaixei meu olhar para não continuar olhando para

os gominhos do seu abdômen perfeito.

— Não precisava vir até aqui só pra trazer

meu telefone — comentou colocando o aparelho no

bolso detrás do jeans.

— Achei que você precisava — disse, dando

de ombros.

— Não é do celular que eu preciso. Na

verdade, eu estava pensando em você — revelou se aproximando de mim. Descansou uma das mãos na

minha cintura, enquanto os dedos da outra

acariciavam meus lábios.

— No que você estava pensando?

— No beijo que não consegui dar ontem à

noite — respondeu, puxando-me para mais perto.

— Você pode dar agora — sussurrei

encarando seus olhos, que mudavam de cor de

acordo com seu humor. Naquele instante, estavam

verdes como as folhas das macieiras.

William encostou seus lábios na minha boca

devagar. Senti sua maciez na minha língua, seus

dentes mordiscando meu lábio. Segurei seu cabelo

e o puxei para aplacar algo que eu não conseguia

nomear. Sua língua explorou minha boca. Eu não

sabia bem o que fazer, por isso agi por instinto e

deixei que ele tomasse a iniciativa.

Aos poucos começamos a nos mover, e,

quando percebi, estava deitada em cima da camisa

dele embaixo da macieira, mesmo lugar em que ele

estivera deitado minutos antes. Suas mãos foram

até as minhas pernas, minha barriga, exploraram

meus seios por cima da blusa. Ele era um homem

faminto, e meu corpo parecia a comida perfeita

para saciar a sua fome.

— Você me deixa louco, sabia? — perguntou,

tomando fôlego.

Suspirei depois de meu primeiro beijo.

— Você não sai da minha cabeça também,

portanto, sei bem o que deve estar sentindo.

— Eu estava pensando em você, sonhando

com seu corpo cheio de gotinhas de água, como eu

vi naquele dia na cachoeira, e de repente você

apareceu. Não consegui me controlar — explicou,

beijando meus lábios mais uma vez.

— Esse é o melhor primeiro beijo de todos! —

comentei empolgada.

— Você nunca tinha beijado ninguém antes de

mim? — inquiriu, seu corpo se tornando mais

tenso, uma expressão séria no rosto.

— Não, meu primeiro beijo foi com você —

respondi feliz.

— O que eu estou fazendo? — indagou

preocupado. Saiu de cima de mim e começou a

andar de um lado para o outro com as mãos na

cabeça.

— Nós nos beijamos, só isso. Não estrague

esse momento, por favor — pedi, tentando

acompanhar aquele vai e vem à minha frente.

— Você é virgem também? — perguntou cauteloso, parando de andar para ouvir a minha

resposta.

— Sou, mas não precisa se desesperar, não

estou me guardando até o casamento. Só não

apareceu o cara certo ainda.

— Você não entende! Tenho 30 anos, sou

divorciado, não posso me envolver com você, tirar

a sua virgindade como se fosse nada e depois partir.

Não quero relacionamentos, estou fugindo deles,

por isso vamos parar por aqui. Não se aproxime

mais de mim — ordenou, afastando-se devagar de

costas, depois se virou e desapareceu entre as

macieiras.

Fiquei ali, imóvel, sem entender nada.

Demorei a chegar a casa. Caminhei devagar,

tentando descobrir o que eu fizera de errado.

Pensei:

Desde quando ser virgem é um pecado? Não

acho que seja, muito menos um aviso de “não se

aproxime”.

Eu estava chateada por ele me ter tratado

daquele jeito. Não era para tanto, mas quem disse

que meu coração tolo entendia? Seria tão simples

se eu não gostasse tanto dele... só precisava

esquecê-lo e pronto.

Ao entrar em casa, só então percebi que tinha

trazido comigo a camisa de William. Fui ao meu

quarto e a deixei sobre a cômoda. Entrei na cozinha

e avistei minha mãe sentada à mesa tomando um

café. Ela me olhou de cima a baixo e sorriu.

— Oi, mãe! Desculpe a demora, estava no

balanço — menti, sem coragem de olhar nos seus

olhos.

— Não tem problema, querida, estava aqui

pensando na vida — respondeu, levando a xícara

até a boca.

— No que estava pensando? — perguntei

interessada. Sentei-me em frente a ela, peguei uma

xícara e me servi do seu café.

— Nada importante, deixa pra lá. E você?

Parece triste... — indagou me observando.

— Estou bem, mãe, só ansiosa com a

faculdade — menti mais uma vez. Eu não

costumava fazer isso. Sempre contava meus

problemas para mamãe, mas agora era diferente, eu

não sabia como me abrir e tinha certeza de que ela

não aprovaria. Além disso, o que eu poderia

contar? Acabara antes mesmo de acontecer...

— Sabe que pode mudar de ideia e ficar na

fazenda se quiser? — questionou achando que meu medo era ficar longe de casa, quando esse era o

menor dos meus problemas. Desde que William

chegara ali, eu não pensava em outra coisa senão

nele. Não devia ser saudável. Ainda bem que não

seguimos adiante... pensei. A quem eu estava

enganando? No fundo, eu queria muito ter vivido

aquela paixão.

— Não vou mudar de ideia, ainda quero

estudar na capital — afirmei, voltando dos meus

devaneios.

— Entendo. Estarei aqui; pode voltar quando

precisar de um colo — falou acariciando minha

mão com carinho. Ser a caçula tinha muitos

benefícios, entre eles o colo da mamãe, mas eu não

queria demonstrar fraqueza naquele dia. Eu era

adulta, estava indo para a faculdade, não podia

chorar porque um homem imbecil estava

complicando a minha vida, mesmo que fosse difícil

segurar as lágrimas.

— Vou ao meu quarto tomar um banho e volto

logo — disse, deixando um beijo carinhoso no seu

rosto.

Contudo, não voltei; inventei uma desculpa

qualquer e fiquei deitada na minha cama. Sequer

desci para jantar. Troquei algumas mensagens com a Clarinha, mas não contei sobre o William. Era

doloroso demais dizer a alguém que eu tinha sido

rejeitada. Peguei um livro para ler. No entanto, não

conseguia prestar atenção à história; tive que largá-

lo num canto.

Sentei-me na cama, olhei para o espelho e

murmurei impaciente:

— O que eu faço?

Ele não respondeu; claro que não o faria. Eu

não sabia por que insistia em conversar com o

espelho, não parecia um bom sinal. Entretanto, ele

me acalmava, como se eu pudesse lhe dizer o que

sinto de verdade sem receber nenhum julgamento

por isso, um jeito de exteriorizar meus sentimentos.

Porém, naquela noite, não estava funcionando;

nada parecia funcionar... até que vi a camisa do

William em cima da cômoda. Havia me esquecido

dela.

Levantei-me e a peguei, trouxe-a ao rosto e

senti seu perfume cítrico e forte. Tirei meu pijama e

a vesti, deitei-me novamente e dormi feito uma

pedra.

Abri os olhos no dia seguinte, ainda sentindo

seu cheiro. Olhei para a camisa que usava e me

assustei. Se minha mãe visse aquela peça de roupa em meu corpo, eu estaria encrencada. Corri até o

banheiro, tirei-a, tomei um banho e, quando voltei

ao quarto e me olhei no espelho, estava me

sentindo bem melhor. Escondi a camisa no fundo

da última gaveta da cômoda e fui até a cozinha

ajudar a minha mãe como fazia todas as manhãs.

Conversamos sobre coisas banais, tirei dois

bolos do forno, ajudei com as broas de milho, pães

de queijo e por fim sentei-me à mesa quando todos

começaram a se acomodar para o café da manhã.

Eu percebi quando o William chegou, mas não

olhei para ele, ignorei o fio invisível que nos atraía,

ignorei a vontade que tinha de perguntar por que

ele não podia ficar comigo. Ignorei meu coração

batendo frenético e tomei meu café da manhã. Às

vezes conseguia perceber que ele estava me

olhando, mas não olhava de volta para confirmar.

Durante o dia, foi difícil continuar o

ignorando. Muitas vezes, quando ele não estava

olhando, eu o espiava de longe.

Enfim chegaram os resultados dos testes nas

macieiras, e descobriram que a plantação do meu

pai tinha sido atingida por duas pragas: oídio e a

sarna da maçã. Começaram a pulverizar os pés

afetados, cortaram e queimaram aqueles para os quais não tinha solução. Para todos os efeitos, as

pragas estavam sendo controladas.

Assim se passou uma semana, durante a qual

ignorei completamente o motivo das minhas

insônias constantes. Não conversávamos, sequer

ficávamos sozinhos no mesmo cômodo. Em breve,

nunca mais nos veríamos, uma vez que William

estava com os dias contados na fazenda. Ele

decidiu acompanhar as macieiras por mais uma

semana para verificar se as pragas não voltariam,

como acontecera tantas vezes antes de ele chegar.

Naquela manhã, fiz tudo a que já estava

acostumada. Nem olhei para ele e percebi quando

deixou a sala depois de beber apenas uma xícara de

café.

— Parece que o agrônomo não dormiu bem

essa noite — comentou Gabriel ao ver William

deixando a mesa mais cedo do que costumava fazê-

lo.

— Ele deve estar de saco cheio de ficar nesse

fim de mundo — emendou Vítor.

— Talvez, mas nada justifica deixar as broas

de milho no prato — protestou Rodrigo, guloso

como sempre.

— Deixem o homem em paz, ele trabalhou duro para controlar aquelas pragas, deve estar

cansado, só isso — interferiu meu pai.

— Acho que ele está com saudades de casa —

anunciou minha mãe, surpreendendo-nos.

— Ou está com algum rabo de saia na

fazenda, já ouvi algumas funcionárias da colheita

comentando como ele é bonito — disse Rodrigo.

— Preciso sair, com licença — falei

impaciente; não conseguia ouvir mais uma palavra.