O Veneno da Maçã
Atração
Estavam ligados por alguma força
estranha e poderosa.
– Branca de Neve e o caçador
QUANDO SENTI QUE minhas pernas me
obedeciam novamente, caminhei devagar
atravessando os cômodos em direção ao meu
quarto. Sentei-me na cama e olhei para o espelho enorme que tinha na penteadeira. Parecia coisa de
gente velha, mas eu adoro antiguidades e fiz
questão de decorar meu quarto com elas: um
guarda-roupa antigo de madeira, uma cama com
dossel e a minha penteadeira de madeira rústica. Ao
olhar meu reflexo, arrependi-me de não estar
arrumada quando encontrei o agrônomo gato à
porta da minha casa. Meus cabelos pretos estavam,
como sempre, amarrados num rabo de cavalo, eu
usava um short jeans surrado e uma blusinha
vermelha que tivera dias melhores. Minha pele
estava suada, e meus olhos castanhos me fitavam
decepcionados de volta.
— Como ele ia olhar pra mim desse jeito? —
questionei em voz alta.
Decidi tomar um banho rápido e vestir uma
das minhas melhores roupas. Depois disso, escovei
meus cabelos e, quando apareci na cozinha
procurando pelo nosso convidado, só encontrei
minha mãe.
— Não sabia que ia sair hoje... — comentou
surpresa.
— E não vou, só decidi tomar um banho antes
do almoço — declarei disfarçando meu
nervosismo.
— Então por que colocou sua melhor roupa?
— questionou se virando para esperar minha
resposta.
— Não é a minha melhor roupa; a compramos
no mês passado, e eu já usei muitas vezes esse
vestido jeans.
— Se quer usar roupa nova em casa, não me
importo, mas não minta pra mim — pediu voltando
a olhar a comida no fogão.
— Quantas vezes preciso dizer que essa roupa
não é nova? — Bufei impaciente, e, para meu
alívio, minha mãe não questionou mais uma vez,
decidiu ignorar. Fiquei por ali, ajudando-a com a
comida. Todavia, tomei bastante cuidado para não
sujar meu vestido.
Quando terminei de colocar a mesa, meu pai
apareceu à porta da sala de jantar com o agrônomo
ao seu lado. Olhei com curiosidade para aquele
homem lindo que estava a poucos metros de mim e
suspirei. Isso mesmo, eu suspirei igualzinho
àquelas meninas apaixonadas.
— Querida, esse é o William. Ele veio para
cuidar da praga que está tomando conta da minha
plantação — explicou papai, afastando-se para
deixar o rapaz bem à minha frente. — Essa é minha filha.
— Já nos conhecemos. Não é Branca – ou
Raquel – o seu nome? — indagou estendendo a
mão para me cumprimentar pela segunda vez no
mesmo dia, e senti o mesmo calafrio de antes.
— S-sim — gaguejei nervosa.
— Vamos nos sentar para almoçar? — pediu
meu pai, interrompendo nossa troca de olhares.
— Claro, Seu Alfredo, e espero não atrapalhar
— ele comentou desviando os olhos de mim.
— Não atrapalha em nada, pode ficar à
vontade. Além disso, você é o meu convidado, faço
questão — argumentou papai, servindo-se da
macarronada e do frango frito que mamãe preparara
para nosso almoço.
— A comida está tão cheirosa que eu não
conseguiria recusar seu convite — respondeu
William, empolgado, servindo-se em seguida.
— E não deve, estamos a alguns quilômetros
da cidade e não queremos deixar nosso convidado
ir embora com a barriga vazia — emendou minha
mãe, aparecendo de repente. Meu pai os
apresentou.
— Obrigado, dona Carmem, mas já estou
acostumado a almoçar tarde.
— Não se preocupe com isso, apenas coma —
pediu meu pai.
O rapaz sorriu encabulado e começou a
devorar seu prato de comida. Permanecemos em
silêncio, enquanto o barulho dos talheres batendo
nos pratos de porcelana era o único som no
ambiente.
— Você vai ficar aqui enquanto resolvemos a
situação da praga — comunicou papai olhando para
seu convidado.
— Não quero perturbar. Pretendo ir a um hotel
assim que me despedir de vocês — alertou ao
terminar de comer seu macarrão.
— Por favor, não faça isso. Será nosso
convidado pelo tempo que for preciso —
complementou minha mãe, solícita.
— Temos bastante espaço e um quarto de
hóspedes vazio — completou meu pai.
— Ainda não acho certo, mas não quero ser
rude recusando uma oferta tão generosa como essa.
Vou ficar, até porque serão apenas alguns dias.
Assim que resolver o problema da plantação, vou
embora.
— Então está decido — afirmou papai,
voltando para o seu prato de macarrão.
Depois do almoço, minha mãe me pediu para
acompanhar o William até o quarto de hóspedes e
lhe mostrar o restante da casa. Caminhamos lado a
lado pelo corredor até a última porta. Abri-a com
cuidado, depois entrei no quarto e esperei que ele
fizesse o mesmo. Assim que entrou, observou a
cama de casal, a cômoda enorme em um canto, as
mesinhas posicionadas em ambos os lados da cama
e a janela enorme aberta para arejar o cômodo.
— Espero que goste. Se eu puder fazer alguma
coisa para se sentir mais à vontade, pode falar —
ofereci olhando para os seus olhos castanhos, que,
ante a claridade que vinha da janela, notei que
tinham um tom esverdeado. Estremeci.
— Não precisa, o quarto está ótimo —
respondeu deixando sua mala no chão. Olhou em
volta novamente e descansou os olhos em mim. Eu
não sabia o que esperar daquela troca de olhares,
mas estava gostando do flerte e não queria sair dali
tão cedo. No entanto, não podia postergar mais
minha saída.
— Então vou indo. Nos vemos mais tarde. Se
precisar de alguma coisa, é só chamar, o meu
quarto fica ao lado do seu — respondi, ficando
vermelha de vergonha.
Virei as costas para ele e caminhei devagar até
a porta. Senti que ele me observava, mas, apesar da
vontade, não me virei para confirmar minha
suspeita; não saberia o que fazer se ele estivesse me
encarando de volta. Quando cheguei ao meu quarto,
caí na cama e suspirei encantada. Sabia que era
bobagem minha e mais um flerte inocente, pois ele
jamais daria bola para mim, devia achar graça de
mais uma pirralha apaixonada por ele.
Esperei na cama até o horário combinado para
encontrar a Clara no balanço. Saí de fininho para a
minha mãe não perceber e corri assim que me
afastei da casa.
— Você não vai acreditar no que aconteceu —
murmurei me encostando ao tronco do ipê,
deslumbrada.
— O quê? — inquiriu minha amiga, no
balanço.
— Temos um hóspede!
— Não acho que seja uma notícia tão incrível
assim — debochou.
— Pode não ser pra você, que ainda não o viu.
— Refleti por um momento, pensando naquele
corpo, naqueles olhos... enfim, tudo naquele
homem era perfeito.
— Por quê? Ele é bonito?
— Não apenas bonito; ele é o homem mais
lindo que já vi! — completei empolgada.
— Mais bonito que o Guilherme? — indagou
surpresa, saindo do balanço e se sentando ao meu
lado debaixo do ipê. Clara era apaixonada pelo meu
irmão, mesmo sem ele nunca ter dado bola a ela.
— Com certeza! Guilherme é bonito, sei disso,
mas William é encantador, charmoso, seguro, sexy,
tem os olhos mais lindos que já vi na vida —
murmurei, deitando-me no chão e observando as
folhas do ipê balançarem com o vento.
— Parece que ele já ganhou uma admiradora
— comentou minha amiga, deitando-se ao meu
lado.
— Não consigo tirá-lo da minha cabeça desde
que o vi essa manhã.
— O que ele veio fazer na fazenda?
— É agrônomo e veio cuidar da praga nas
maçãs. Meu pai, todo solícito, o convidou para ficar
na nossa casa.
— Seu pai não tem noção do que acabou de
fazer — afirmou com um olhar de desconfiança na
minha direção.
— Não sei, ele é bem mais velho, um homem de verdade e não se parece em nada com os
moleques que conhecemos na escola.
— Você acha que ele é casado?
— Acho que não, verifiquei suas mãos duas
vezes, e nada de alianças.
— Mas ele pode ter uma namorada, não é?
— Pode, sim — resmunguei chateada.
— Não vá com tanta sede ao pote — pediu já
sabendo que era impossível frear meus sentimentos.
Ela me conhecia muito bem. Sempre vivia ao
extremo, e então não seria diferente.
Os dias passaram devagar com a presença do
nosso convidado na minha casa. Tive de disfarçar
meus sentimentos para não alertar meus pais e,
principalmente, meus irmãos, tanto que passei a me
sentar longe dele na mesa de jantar. Se eles
desconfiassem de algo, mandariam o rapaz para um
hotel na mesma hora. Não consegui ficar sozinha
com William depois daquele dia no quarto, por isso
nossa interação era nula.
A praga nas macieiras era mais complicada
que o previsto, e ele precisou ficar mais uma semana. Meu pai que me perdoasse, mas eu
agradeci aos céus por ter mais tempo com William,
mesmo de longe. Enquanto todos ficavam
empolgados com os pratos deliciosos da mamãe, eu
o observava, admirava e alimentava aquele
sentimento estranho que parecia só aumentar. Meu
pai e meus irmãos estavam tão preocupados com a
plantação que não percebiam meus olhares para o
nosso hóspede. Eu pensava que nem ele notava;
com certeza, iria embora sem saber que eu estava
apaixonada por ele. Cheguei a essa conclusão
depois que a Clara apareceu de repente para
almoçar conosco e ficou de boca aberta ao ver
nosso convidado pela primeira vez.
— Se você não estivesse caidinha por ele, eu
pegava — comentou quando corremos ao meu
quarto para fofocar.
Depois que nos despedimos, fiquei horas
pensando nessa frase e cheguei à conclusão de que
ela estava certa. Eu estava apaixonada pelo
William. Não sabia o que fazer com aquele
sentimento, mas ele existia, e eu não podia mais
negar. Tentei parar de observá-lo de longe, talvez
ignorar sua presença, parar de estremecer ao som
da sua voz rouca, mas era impossível. Eu estava perdida, sem qualquer chance de conseguir o que
meu coração tanto ansiava. Não era fácil sofrer
calada. Para completar a situação, Clara voltou para
a casa dos pais na cidade e me deixou sozinha com
meus pensamentos conflituosos e sem ninguém
para desabafar.
A alguns quilômetros da minha casa, tinha
uma cachoeira. Era a coisa mais linda que eu já
tinha visto na vida, e eu sempre ia lá quando queria
pensar. Por isso, certa manhã, depois de fazer
minhas tarefas do dia, caminhei pela trilha, que
conhecia tão bem. Fazia um calor absurdo para
aquela hora do dia, mas não me importei com isso.
Ao escutar o barulho da água deslizando pelas
pedras, aumentei os passos e, já no finalzinho,
corri. Só parei quando fiquei de frente para a água
cristalina. Tirei as sandálias e mergulhei meus pés
na água. O conforto foi imediato. Porém, ainda não
era suficiente. Eu não havia trazido roupa de banho,
e o vestido que eu usava não permitia o uso de
sutiã. Entretanto, o lugar era tranquilo, e ninguém,
além da nossa família, vinha para a cachoeira
naquele horário. Por isso não me preocupei em tirar
o vestido e ficar só de calcinha para entrar na água;
eu fazia isso desde que aprendera a nadar.