O Veneno da Maçã

Cleia Lira · Capítulo 3 de 10

Páginas do PDF

O Veneno da Maçã

Atração

Estavam ligados por alguma força

estranha e poderosa.

– Branca de Neve e o caçador

 

QUANDO SENTI QUE minhas pernas me

obedeciam novamente, caminhei devagar

atravessando os cômodos em direção ao meu

quarto. Sentei-me na cama e olhei para o espelho enorme que tinha na penteadeira. Parecia coisa de

gente velha, mas eu adoro antiguidades e fiz

questão de decorar meu quarto com elas: um

guarda-roupa antigo de madeira, uma cama com

dossel e a minha penteadeira de madeira rústica. Ao

olhar meu reflexo, arrependi-me de não estar

arrumada quando encontrei o agrônomo gato à

porta da minha casa. Meus cabelos pretos estavam,

como sempre, amarrados num rabo de cavalo, eu

usava um short jeans surrado e uma blusinha

vermelha que tivera dias melhores. Minha pele

estava suada, e meus olhos castanhos me fitavam

decepcionados de volta.

— Como ele ia olhar pra mim desse jeito? —

questionei em voz alta.

Decidi tomar um banho rápido e vestir uma

das minhas melhores roupas. Depois disso, escovei

meus cabelos e, quando apareci na cozinha

procurando pelo nosso convidado, só encontrei

minha mãe.

— Não sabia que ia sair hoje... — comentou

surpresa.

— E não vou, só decidi tomar um banho antes

do almoço — declarei disfarçando meu

nervosismo.

— Então por que colocou sua melhor roupa?

— questionou se virando para esperar minha

resposta.

— Não é a minha melhor roupa; a compramos

no mês passado, e eu já usei muitas vezes esse

vestido jeans.

— Se quer usar roupa nova em casa, não me

importo, mas não minta pra mim — pediu voltando

a olhar a comida no fogão.

— Quantas vezes preciso dizer que essa roupa

não é nova? — Bufei impaciente, e, para meu

alívio, minha mãe não questionou mais uma vez,

decidiu ignorar. Fiquei por ali, ajudando-a com a

comida. Todavia, tomei bastante cuidado para não

sujar meu vestido.

Quando terminei de colocar a mesa, meu pai

apareceu à porta da sala de jantar com o agrônomo

ao seu lado. Olhei com curiosidade para aquele

homem lindo que estava a poucos metros de mim e

suspirei. Isso mesmo, eu suspirei igualzinho

àquelas meninas apaixonadas.

— Querida, esse é o William. Ele veio para

cuidar da praga que está tomando conta da minha

plantação — explicou papai, afastando-se para

deixar o rapaz bem à minha frente. — Essa é minha filha.

— Já nos conhecemos. Não é Branca – ou

Raquel – o seu nome? — indagou estendendo a

mão para me cumprimentar pela segunda vez no

mesmo dia, e senti o mesmo calafrio de antes.

— S-sim — gaguejei nervosa.

— Vamos nos sentar para almoçar? — pediu

meu pai, interrompendo nossa troca de olhares.

— Claro, Seu Alfredo, e espero não atrapalhar

— ele comentou desviando os olhos de mim.

— Não atrapalha em nada, pode ficar à

vontade. Além disso, você é o meu convidado, faço

questão — argumentou papai, servindo-se da

macarronada e do frango frito que mamãe preparara

para nosso almoço.

— A comida está tão cheirosa que eu não

conseguiria recusar seu convite — respondeu

William, empolgado, servindo-se em seguida.

— E não deve, estamos a alguns quilômetros

da cidade e não queremos deixar nosso convidado

ir embora com a barriga vazia — emendou minha

mãe, aparecendo de repente. Meu pai os

apresentou.

— Obrigado, dona Carmem, mas já estou

acostumado a almoçar tarde.

— Não se preocupe com isso, apenas coma —

pediu meu pai.

O rapaz sorriu encabulado e começou a

devorar seu prato de comida. Permanecemos em

silêncio, enquanto o barulho dos talheres batendo

nos pratos de porcelana era o único som no

ambiente.

— Você vai ficar aqui enquanto resolvemos a

situação da praga — comunicou papai olhando para

seu convidado.

— Não quero perturbar. Pretendo ir a um hotel

assim que me despedir de vocês — alertou ao

terminar de comer seu macarrão.

— Por favor, não faça isso. Será nosso

convidado pelo tempo que for preciso —

complementou minha mãe, solícita.

— Temos bastante espaço e um quarto de

hóspedes vazio — completou meu pai.

— Ainda não acho certo, mas não quero ser

rude recusando uma oferta tão generosa como essa.

Vou ficar, até porque serão apenas alguns dias.

Assim que resolver o problema da plantação, vou

embora.

— Então está decido — afirmou papai,

voltando para o seu prato de macarrão.

Depois do almoço, minha mãe me pediu para

acompanhar o William até o quarto de hóspedes e

lhe mostrar o restante da casa. Caminhamos lado a

lado pelo corredor até a última porta. Abri-a com

cuidado, depois entrei no quarto e esperei que ele

fizesse o mesmo. Assim que entrou, observou a

cama de casal, a cômoda enorme em um canto, as

mesinhas posicionadas em ambos os lados da cama

e a janela enorme aberta para arejar o cômodo.

— Espero que goste. Se eu puder fazer alguma

coisa para se sentir mais à vontade, pode falar —

ofereci olhando para os seus olhos castanhos, que,

ante a claridade que vinha da janela, notei que

tinham um tom esverdeado. Estremeci.

— Não precisa, o quarto está ótimo —

respondeu deixando sua mala no chão. Olhou em

volta novamente e descansou os olhos em mim. Eu

não sabia o que esperar daquela troca de olhares,

mas estava gostando do flerte e não queria sair dali

tão cedo. No entanto, não podia postergar mais

minha saída.

— Então vou indo. Nos vemos mais tarde. Se

precisar de alguma coisa, é só chamar, o meu

quarto fica ao lado do seu — respondi, ficando

vermelha de vergonha.

Virei as costas para ele e caminhei devagar até

a porta. Senti que ele me observava, mas, apesar da

vontade, não me virei para confirmar minha

suspeita; não saberia o que fazer se ele estivesse me

encarando de volta. Quando cheguei ao meu quarto,

caí na cama e suspirei encantada. Sabia que era

bobagem minha e mais um flerte inocente, pois ele

jamais daria bola para mim, devia achar graça de

mais uma pirralha apaixonada por ele.

Esperei na cama até o horário combinado para

encontrar a Clara no balanço. Saí de fininho para a

minha mãe não perceber e corri assim que me

afastei da casa.

— Você não vai acreditar no que aconteceu —

murmurei me encostando ao tronco do ipê,

deslumbrada.

— O quê? — inquiriu minha amiga, no

balanço.

— Temos um hóspede!

— Não acho que seja uma notícia tão incrível

assim — debochou.

— Pode não ser pra você, que ainda não o viu.

— Refleti por um momento, pensando naquele

corpo, naqueles olhos... enfim, tudo naquele

homem era perfeito.

— Por quê? Ele é bonito?

— Não apenas bonito; ele é o homem mais

lindo que já vi! — completei empolgada.

— Mais bonito que o Guilherme? — indagou

surpresa, saindo do balanço e se sentando ao meu

lado debaixo do ipê. Clara era apaixonada pelo meu

irmão, mesmo sem ele nunca ter dado bola a ela.

— Com certeza! Guilherme é bonito, sei disso,

mas William é encantador, charmoso, seguro, sexy,

tem os olhos mais lindos que já vi na vida —

murmurei, deitando-me no chão e observando as

folhas do ipê balançarem com o vento.

— Parece que ele já ganhou uma admiradora

— comentou minha amiga, deitando-se ao meu

lado.

— Não consigo tirá-lo da minha cabeça desde

que o vi essa manhã.

— O que ele veio fazer na fazenda?

— É agrônomo e veio cuidar da praga nas

maçãs. Meu pai, todo solícito, o convidou para ficar

na nossa casa.

— Seu pai não tem noção do que acabou de

fazer — afirmou com um olhar de desconfiança na

minha direção.

— Não sei, ele é bem mais velho, um homem de verdade e não se parece em nada com os

moleques que conhecemos na escola.

— Você acha que ele é casado?

— Acho que não, verifiquei suas mãos duas

vezes, e nada de alianças.

— Mas ele pode ter uma namorada, não é?

— Pode, sim — resmunguei chateada.

— Não vá com tanta sede ao pote — pediu já

sabendo que era impossível frear meus sentimentos.

Ela me conhecia muito bem. Sempre vivia ao

extremo, e então não seria diferente.

 

Os dias passaram devagar com a presença do

nosso convidado na minha casa. Tive de disfarçar

meus sentimentos para não alertar meus pais e,

principalmente, meus irmãos, tanto que passei a me

sentar longe dele na mesa de jantar. Se eles

desconfiassem de algo, mandariam o rapaz para um

hotel na mesma hora. Não consegui ficar sozinha

com William depois daquele dia no quarto, por isso

nossa interação era nula.

A praga nas macieiras era mais complicada

que o previsto, e ele precisou ficar mais uma semana. Meu pai que me perdoasse, mas eu

agradeci aos céus por ter mais tempo com William,

mesmo de longe. Enquanto todos ficavam

empolgados com os pratos deliciosos da mamãe, eu

o observava, admirava e alimentava aquele

sentimento estranho que parecia só aumentar. Meu

pai e meus irmãos estavam tão preocupados com a

plantação que não percebiam meus olhares para o

nosso hóspede. Eu pensava que nem ele notava;

com certeza, iria embora sem saber que eu estava

apaixonada por ele. Cheguei a essa conclusão

depois que a Clara apareceu de repente para

almoçar conosco e ficou de boca aberta ao ver

nosso convidado pela primeira vez.

— Se você não estivesse caidinha por ele, eu

pegava — comentou quando corremos ao meu

quarto para fofocar.

Depois que nos despedimos, fiquei horas

pensando nessa frase e cheguei à conclusão de que

ela estava certa. Eu estava apaixonada pelo

William. Não sabia o que fazer com aquele

sentimento, mas ele existia, e eu não podia mais

negar. Tentei parar de observá-lo de longe, talvez

ignorar sua presença, parar de estremecer ao som

da sua voz rouca, mas era impossível. Eu estava perdida, sem qualquer chance de conseguir o que

meu coração tanto ansiava. Não era fácil sofrer

calada. Para completar a situação, Clara voltou para

a casa dos pais na cidade e me deixou sozinha com

meus pensamentos conflituosos e sem ninguém

para desabafar.

A alguns quilômetros da minha casa, tinha

uma cachoeira. Era a coisa mais linda que eu já

tinha visto na vida, e eu sempre ia lá quando queria

pensar. Por isso, certa manhã, depois de fazer

minhas tarefas do dia, caminhei pela trilha, que

conhecia tão bem. Fazia um calor absurdo para

aquela hora do dia, mas não me importei com isso.

Ao escutar o barulho da água deslizando pelas

pedras, aumentei os passos e, já no finalzinho,

corri. Só parei quando fiquei de frente para a água

cristalina. Tirei as sandálias e mergulhei meus pés

na água. O conforto foi imediato. Porém, ainda não

era suficiente. Eu não havia trazido roupa de banho,

e o vestido que eu usava não permitia o uso de

sutiã. Entretanto, o lugar era tranquilo, e ninguém,

além da nossa família, vinha para a cachoeira

naquele horário. Por isso não me preocupei em tirar

o vestido e ficar só de calcinha para entrar na água;

eu fazia isso desde que aprendera a nadar.