Os Demônios Descem do Norte

Delcio Monteiro de Lima · Capítulo 1 de 4 · parte 2/3

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Os Demônios Descem do Norte

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

"Os comunistas talvez tenham perdido o bonde da história. Estão sendo atropelados e ultrapassados pelos fatos de maneira incrivelmente impressionante na América Latina e no Brasil, em particular. No caso das comunidades eclesiais de base, é também o velho hábito do cachimbo: tudo que vem da Igreja é suspeito. E vão, teimosamente, fazendo o jogo da direita. As comunidades eclesiais de base têm, portanto, dois adversários pela frente: a direita e os comunistas." Continuou falando durante longo tempo, no mesmo tom cadenciado, sobre diversas questões internas do comunismo brasileiro que escapam ao interesse do presente estudo, sempre com os olhos semi-cerrados e as mãos metidas no bolso do blusão grosso, enquanto a ventania levantava uma poeira alta do outro lado do calçadão, na praia deserta, naquela tarde de julho de inverno carioca.

Mas, afinal, que são essas comunidades eclesiais de base que tanto incomodam aos comunistas e à direita? As CEB’s, abreviadamente, são pequenos núcleos organizados nos meios rural e urbano, congregando cada um reduzido número de pessoas, na maioria assalariados de baixa renda, unidos pelas mesmas motivações psicossociais, que buscam, através da reflexão no Evangelho, um futuro melhor em comunhão com Cristo. Como veremos adiante, são o mais notável fenômeno religioso e pastoral que sacudiu a Igreja nas três últimas décadas. As primeiras notícias das CEB’s estruturadas na configuração atual vieram, em 1960, de paróquias próximas a Natal, no Rio Grande do Norte, e Volta Redonda, no Estado do Rio. Depois, cobriram praticamente todo o País, sendo hoje, seguramente, mais de 57 mil. Há municípios onde elas são dezenas e um bairro populoso das cercanias de São Paulo tem mais de uma centena. Sua organização não é limitada. Basta que um grupo de pessoas de um lugar decida aglutinar-se em torno de objetivos pastorais comuns, iluminados pelo Evangelho, e terá, então, nascido mais uma CEB. Estima-se que mais de um terço das CEB’s existentes foram formadas por iniciativa de leigos católicos e as outras com articulação partida de religiosos.

Conquanto as CEB’s não distingam o credo de seus participantes, a tendência dominante entre alguns setores do protestantismo é considerá-Ias um retorno a uma etapa historicamente superada no método de conquista de fiéis. Os mais rigorosos encaram-nas mesmo como um recuo à época dos "puxadores de reza" dos lugarejos onde não havia padre. Acreditam que as CEB ’s são a retomada do caminho para criar obstáculos ao crescimento do protestantismo no meio rural, cujo avanço foi defendido pelo Congresso Missionário do Panamá, em 1916. Sem alongar a discussão desse aspecto, a realidade é que as CEB’s parecem, atualmente, o único instrumento de bloqueio à vertiginosa expansão das seitas pentecostalistas no interior do Brasil, sobretudo no meio rural.

Na II Assembléia Geral do Episcopado Latino-americano, realizado em Medellín (Colômbia), em 1968, as CEB’s ocuparam a atenção dos bispos e, na III Assembléia, em Puebla (México), em 1979, foram as vedetes do encontro, juntamente com a Teologia da Libertação. Aí, os prelados já proclamavam que "as comunidades eclesiais de base criam maior inter-relacionamento pessoal, aceitação da Palavra de Deus, revisão de vida e reflexão sobre a realidade à luz do Evangelho" e que "nelas acentua-se o compromisso com a família, com o trabalho, o bairro e a comunidade local". E, ampliando:

 

“A comunidade eclesial de base, enquanto comunidade, integra famílias, adultos e jovens, numa íntima relação interpessoal. Enquanto eclesial, é comunidade de fé, esperança e caridade, celebra a Palavra de Deus e se nutre da Eucaristia, ponto culminante de todos os sacramentos; realiza a Palavra de Deus na vida, através da solidariedade e compromisso com o mandamento novo do Senhor e toma presente e atuante a missão eclesial e a comunhão visível com os legítimos pastores, por intermédio do ministério de coordenadores aprovados. É de base por ser constituída de poucos membros, em forma permanente e à guisa de célula da grande comunidade."

 

Segundo levantamento recente, 65 por cento das CEB ’s estão situadas na área rural, 20 por cento na área urbana e 15 por cento em zonas rururbanas, isto é, localidades periféricas distantes do aglomerado das cidades, mas com atividades econômicas próprias, embora modestas, incipientes. A maior concentração de CEB’s é no Nordeste, Norte e Centro-Oeste, começando a ficar mais esparsas a partir de São Paulo, caminhando para o Sul. As populações do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com efeito, demonstram menor interesse por esse tipo de associativismo religioso. Talvez a explicação seja a formação cultural do povo, forjado, como se sabe, em padrões mais europeus, acostumados mais à tradição de reunirem-se em torno do vigário da paróquia e não de líderes leigos.

As CEB’s, conforme necessidades e recursos de cada uma, desenvolvem atividades profissionalizantes, tais como cursos de corte e costura, manicura, datilografia, marcenaria, culinária etc. Freqüente, também, é a formação de mutirões para a construção de moradias populares, escolas fundamentais, postos médicos etc. Além do trabalho de promoção comunitária, as CEB ’s cuidam, naturalmente, de reflexão do Evangelho, mas com linguagem inteiramente adequada ao nível cultural da população, conscientizando sempre de que a luta contra a situação de pobreza não é uma atitude subversiva e, muito menos, ofensiva a Deus e que o cristão, portanto, tem o dever de insurgir-se contra ela. Tanto os agentes pastorais, quer sejam religiosos ou leigos, como os líderes das CEB’s, evitam, ao máximo, na comunicação verbal, uma linguagem recheada de vocábulos estranhos ao meio social da comunidade eclesial de base. É a simplicidade, a ausência de afetação, que aproxima e une, que coloca todos à vontade nas CEB ’s.

As CEB’s procuram valorizar a participação do leigo na Igreja, direcionam o cristão para a vida comunitária e conscientizam-no da realidade social e dos problemas particulares do seu universo existencial. São as CEB’s que avivam o compromisso da Igreja com a salvação do homem e com a instauração de ordem social justa, livre de mazelas econômicas e políticas que o impedem de ser realmente à imagem e à semelhança de Deus.

 

FIDELIDADE À IGREJA

 

Com a retomada do processo democrático no País, era esperado que as CEB’s fizessem uma redefinição de seu papel pois, durante a ditadura militar, a Igreja foi, virtualmente, a única força a contrapor-se ao arbítrio. A pastoral popular deveria esgotar-se com as novas manifestações permitidas de militância política e ideológica. Entretanto, na prática, isso não aconteceu. As agremiações partidárias e demais instituições nominalmente incumbidas da defesa dos pobres e marginalizados pouco acrescentaram à situação anterior e as CEB’s continuaram, então, a preencher aquele vazio no contexto nacional. Evidentemente, muitas pessoas de bons propósitos, mas sem fé e sem religião, que compunham as CEB ’s no período da ditadura militar afastaram-se delas a partir daquele momento, já que não mais necessitavam abrigar-se no único reduto em que era tolerada certa atuação social. Houve como que uma decantação natural. A Igreja sempre foi intransigente no estabelecimento de uma nítida distinção entre as CEB’s e os chamados movimentos populares, normalmente de caráter reivindicativo ou de promoção de aspirações sócio-políticas da grande massa. Não permite que esses sejam confundidos com as CEB’s, as quais está constantemente alertando para a manutenção de suas características de organismos montados pela força explícita da fé. Insiste a CNBB, a propósito:

"A CEB não é um movimento. É nova forma de ser Igreja. É a primeira célula do grande organismo eclesial ou, como diz Medellín, a célula inicial de estruturação eclesial. Como Igreja, a CEB guarda as características fundamentais que Cristo quis dar à comunidade eclesial. A CEB é uma maneira nova de realizar a mesma comunidade eclesial que é o Corpo de Cristo. Por isso mesmo, o ministério ou hierárquico faz parte da CEB. O bispo ou o padre não são de fora, não são meros assessores ou acompanhantes. Sua presença, mesmo não contínua, tem um sentido especial e único, já que, como em qualquer comunidade eclesial, eles tomam presente" o Cristo cabeça."

Dois fatos provam com suficiente vigor a fidelidade da Igreja à intenção de "manter as CEB’s à margem da atividade político partidária. O primeiro, ocorrido em 1982, representado pela injustificada" vitória eleitoral do partido do governo militar - o PDS -em vários Estados do Nordeste onde as CEB’s são notoriamente hegemônicas em termos de formação de opinião. Uma mobilização política, por mais discreta e frouxa que fosse, teria virado facilmente o resultado das urnas em favor das oposições naquelas regiões e o partido do governo militar sairia fragorosamente derrotado. Mas as CEB ’s não se envolveram na disputa e as conseqüências são de todos conhecidas. O outro, mais recente, é a co-optação permanente dos melhores líderes das CEB’s para militâcia no Partido dos Trabalhadores, em cujos quadros encontram o espaço necessário para o exercício de sua vocação política, inibida na comunidade eclesial de base. O PT vai, assim, crescendo às expensas das CEB’s, as quais passam a representar, então, uma espécie de formadora de lideranças para o recrutamento das agremiações partidárias que não Ihes limitam a politização. Seria extremamente fácil às CEB’s conduzir seus membros para a militância política. Bastaria reter em seus quadros as pessoas, como foi explicado, que estão à busca de espaço para exercitar sua vocação, enquanto as desconfianças e frustrações do passado com políticos profissionais encarregar-se-iam do resto. A gigantesca estrutura de que dispõem as CEB’s em todo o País garantiriam, por outro lado, um desempenho sonhado e jamais alcançado por nenhuma agremiação política em tempo algum. As críticas feitas às CEB’s escondem, muitas vezes, críticas à própria Igreja. Os questionamentos levantados à atuação das CEB ’s dirigem-se, na verdade, ao cumprimento da missão social pela Igreja. A CNBB, aliás, já detectou esse tipo de comportamento e fez a advertência:

"Outro significado bem diverso parece ter o interesse de instituições e grupos extra-eclesiais pelas CEB’s. Aí, com freqüência, o que se nota é a total desinformação, o desejo de manipulação, quando não a intenção de fazer das CEB ’s o alvo dos ataques mais gerais à Igreja. Na realidade, o que está em discussão é a missão mesmo da Igreja. O que é repudiado não são as CEB’s em si mesmas e, sim, todo o processo de evangelização voltado para a crítica profética das injustiças e empenhado na construção de uma sociedade mais fraterna. As CEB’s, de maneira simples, mas eficaz, conseguem praticar mais intensamente as exigências da doutrina social da Igreja. Elas tornam visível o compromisso com os pobres. Sua própria existência e atuação é uma denúncia da iniqüidade social que rouba aos pobres sua voz e sua vez. Se as CEB’s sofrem perseguição é por causa da Igreja, do Evangelho, e, assim, elas se constituem herdeiras da bem-aventurança." Realinhando este estudo a seu tema central, veremos que a questão da ajuda externa a seitas religiosas em processo de crescimento entre nós não terá melhor compreensão, contudo, sem uma ótica do quadro de expectativas políticas existentes fora do País quanto à situação brasileira nesse particular. Referimo-nos, objetivamente, à preocupação de alguns círculos com o comprometimento dos católicos da América Latina com as esquerdas e sua incapacidade de participação no anunciado esforço para conter a escalada do comunismo internacional nesta parte do Terceiro Mundo, segundo o Departamento de Estado americano. Este, também, o motivo porque agregou-se a este trabalho uma exposição mais circunstanciada das diretrizes das comunidades eclesiais de base, através das quais a Igreja expressa mais agressivamente sua vocação social. O papel das CEB’s é de extrema importância naquele mosaico. A seguir, portanto, o enfoque do aludido inter-relacionamento externo e seus desdobramentos.

 

II

A IDEOLOGIA DOS DEUSES

 

Os dois terços da população que compõem o multifacetado perfil do protestantismo dos Estados Unidos estão tomados de um misto de excitação patriótica e religiosa com características de uma onda de neo-conservadorismo nunca observada antes dos dois períodos do governo Reagan. Valores tradicionais estão sendo reavivados, ao mesmo tempo em que um revisionismo atinge até os episódios mais traumatizantes da história americana, como a Guerra do Vietnam, vista nos últimos tempos com uma conotação inteiramente diferente para o cidadão comum. Não mais se fala, com efeito, em "guerra suja” e outros qualificativos emocionais despertados pelo fracasso da campanha bélica na distante Indochina e cuja recordação tanto atormenta a memória americana. O estigma de uma intervenção militar desastrada passou a ser considerado como uma cruzada para a defesa dos ideais mais nobres da democracia em perigo.

Agora, articulistas da imprensa e escritores, antigos liberais, enfocam a malograda Guerra do Vietnam sob nova perspectiva histórica e muitos têm dedicado, inclusive, artigos e livros à retratação da condenação anteriormente lançada à política intervencionista na Ásia. Tudo isso bem temperado com a apologia do cristianismo salvador numa conjuntura ameaçada por ideologias esdrúxulas, procedentes de um mundo ateu e materialista. Reagan conseguiu adeptos para sua pregação até entre os seguidores de outros credos, como os judeus, por sinal, os mais fanatizados pela nova ordem.

O terço de católicos da população americana, conquanto não faça resistências ostensivas ao ressurgimento do neo-conservadorismo, permanece desconfiado quanto aos rumos que a nova cruzada toma na direção do fundamentalismo protestante. Reagan manobra para afastar esse receio, estando sempre receptivo, em contrapartida, às sugestões para co-optar os mais influentes líderes católicos com postos-chave no Departamento de Estado, Agência Central de Inteligência (CIA) e Departamento de Imigração, entre outros. No final, todos acabam colaborando. O estilo de Reagan faz muito o gênero americano, tão bem retratado no cinema. É ousado, aventureiro, dado a bravatas e nunca enjeita a luta por uma boa causa. Reagan encarna o modelo que o americano comum admira. Governa os Estados Unidos como se estivesse protagonizando o mocinho de um filme far-west em que o vilão, inevitavelmente, é derrotado. Pode não ser bem aceito pelos acostumados a métodos mais sutis na solução de intrincadas questões internacionais. Pode não agradar a políticos aos quais repugne, por exemplo, ordenar uma expedição punitiva contra a Líbia ou despachar o exército americano para uma batida policial à procura de cocaína na Bolívia. Pode não ter a "finesse" de um estadista. Mas, que é o herói típico preferido pela esmagadora maioria dos cidadãos do país, isso Reagan é de sobra.

A escalada do neo-conservadorismo de Reagan abre seus tentáculos principalmente sobre a juventude, entre a qual, já em 1984, havia conquistado 62 por cento dos votos. Estudos mais recentes apontam, também, que os jovens estudantes dos Estados Unidos convivem melhor com as idéias conservadoras do que seus mestres e que a modificação de atitudes nos lares americanos, particularmente quanto ao comportamento cívico dos pais, confirmam a força dessa tendência. Nessa alteração identificam-se, ainda, preocupantes inclinações quanto ao reconhecimento dos direitos das minorias étnicas, liberdade religiosa e emancipação feminina. A moral calvinista de que o sucesso contempla somente os melhores é presença em tudo, não faltando, todavia, quem afirme ser ela a responsável pela elevação do número de suicídios entre os universitários submetidos a pressões psicológicas em conseqüência da frustração no acompanhamento dos estudos. De fato, os jovens americanos mudaram bastante nos últimos tempos. O neo-conservadorismo vai, aos poucos, minando todos os círculos de opinião dos Estados Unidos. As vozes que, no passado, faziam-lhe oposição, foram silenciadas ou já não são tão fortes. As idéias de Reagan encontram melhor trânsito em importantes veículos de comunicação de âmbito nacional, como "Commentary", "New Republic", "Public Interest" e "Wall Street Journal", para citar alguns. Mas, é na imprensa alternativa, sobretudo a ligada às universidades e aos movimentos estudantis, que reside a sua força extraordinária. Centenas de publicações editadas nessa área, totalizando enormes tiragens, são fartamente subsidiadas por poderosas corporações particulares, as quais, a seu turno, recebem compensadores incentivos governamentais para esse tipo de colaboração com aquelas iniciativas da juventude, pagos diretamente ou através de fundações culturais. As duas mais tradicionais universidades americanasa, Harvard, em Cambridge, Massachusetts, e Vale, em New Haven, no Connecticut, ambas fundadas por congregacionalistas no século XVIII, estão ativamente engajadas nesse esquema.

Aspecto marcante desse revigoramento dos antigos valores ético-políticos americanos é sua estreita cooperação com o fundamentalismo protestante. Crescendo assustadoramente nos Estados Unidos desde o princípio deste século, aquela tendência religiosa soube, a partir do início da década 80, celebrar com o neo-conservadorismo em ascensão uma aliança altamente proveitosa aos interesses recíprocos. Um penetrava nas brechas abertas pelo outro e os dois ocupavam espaços novos em progressão geométrica. O casamento perfeito. A conceituação de fundamentalismo neste estudo é a mesma do Guia Ecumênico aprovado pela CNBB e que o define como uma corrente formada nó seio das igrejas protestantes de reação à interpretação racionalista e liberal da Sagrada Escritura e, em geral, da fé cristã,. Não se trata, porém, de um movimento unificado, mas de inclinações de certos setores que pretendem defender e conservar os elementos fundamentais do cristianismo. Por isso, o fundamentalismo é detectável dentro das mais diversas denominações. Contudo, algumas igrejas, pela sua posição oficial, podem ser consideradas de tendências fundamentalistas. É comparável, na Igreja Católica, ao integrismo. Estabelece, então, o fundamentalismo, resumidamente: infabilidade da Bíblia, virgindade de Maria, ressurreição corporal e segunda vinda de Cristo. A partir do último quartel do século XVII, o fundamentalismo foi parte discreta da história do protestantismo nos Estados Unidos. Consolidou-se, no entanto, em várias denominações religiosas nos 100 anos passados e entrou com o pé direito no século XX. Cada vez mais agressivo, teve um avanço espetacular. Agora, com a televisão como seu principal veículo de proselitismo, cobre o país de costa a costa com numerosos programas impregnados de misticismo e arrebatamento, realizados nas emissoras locais, explorando, de preferência, as apelativas curas milagrosas diante do vídeo. Em vários lugares, domina a audiência nas tardes de domingo, chegando a serem os seus os únicos programas, no mesmo horário, em diversos canais de uma só cidade. É o caso de Los Angeles. O rádio e a televisão nas transmissões patrocinadas por instituições fundamentalistas insistem sempre em juntar o sentimento religioso conservador à ação política de características conservadoras, união, segundo os pregadores, responsável pela manutenção da hegemonia dos Estados Unidos em um mundo perturbado pela falta de fé e pela ausência do amor a Deus. Desde 1607, ano em que a Igreja da Inglaterra (Episcopal) instalou-se de forma permanente em Jamestown, na Virginia, tem sido costume nos Estados Unidos a criação de escola ligada à igreja. Em 1776, essa tradição foi pactuada, inclusive, pelas autoridades da época com o pastor presbiteriano John Witherspoon, único clérigo a assinar a Declaração de Independência. Nas cinco últimas décadas, porém, subiu a perto de um milhão o número de escolas completamente desvinculadas do protestantismo tradicional, enquanto aumentaram as chamadas escolas cristãs, de inspiração fundamentalista. Muitos pais, evidentemente insuflados por pregadores fundamentalistas chegam a bater às portas da justiça, reclamando contra os ensinamentos considerados impróprios, que as escolas públicas e as filiadas ao protestantismo tradicional ministram a seus filhos. Ora, sabendo-se que, nos Estados Unidos, somente as 265 corporações religiosas existentes estão atrás de 325 mil igrejas e que a maioria destas é ligada a uma escola, isto sem falar na rede pública de ensino, torna-se virtualmente impossível avaliar o volume das ações ajuizadas. Aconteceu que, a partir de outubro de 1986, a justiça começou a acolher tais ações. Em Hawkins, no Tennessee, e em Mobile, no Alabama, sentenças judiciais impugnaram a adoção compulsória de livros que continham ofensas às crenças religiosas dos alunos fundamentalistas. Agora, os pais, animados assim pelo êxito inicial de suas discordâncias com as escolas públicas e com as que seguem orientação do protestantismo tradicional, insistirão, naturalmente, em novas ações.

 

REAÇÃO DOS PROTESTANTES

 

Pesquisas criteriosas mostram que, nos últimos 20 anos, houve uma expressiva perda de substância das igrejas de todas as denominações do protestantismo histórico nos Estados Unidos. A queda de influência daquelas igrejas tradicionais entre o povo, incluindo a Igreja Católica, vai de índices que começam em 16 por cento e chegam a 23 por cento e deveu-se, sobretudo, ao seu crescente envolvimento em questões temporais, que as afastam de posições evangelizadoras mais conservadoras. Admite-se, tranqüilamente, que o protestantismo já não vive a fase áurea em que, por exemplo, Jonathan Edwards, considerado o maior teólogo americano de século XVIII, arrebatava multidões de fiéis com o "Grande Despertamento", irradiado da Nova Inglaterra para todas as colônias americanas, quando também houve o aparecimento de sua obra A Vontade Livre, livro-texto do calvinismo da época. De fato, o prestígio do protestantismo histórico nos Estados Unidos está em maré baixa.

Do ponto de vista interno, a perda de vigor do protestantismo tradicional, com simultâneo fortalecimento do fundamentalismo, nunca foi objeto de preocupação mais séria para a vanguarda do pensamento político clássico americano. O avanço da onda conservadora sempre foi crescente e os hiatos liberalizantes no processo de mudança não chegam a comprometer o curso de sua caminhada. É uma característica quase atávica na sociologia do desenvolvimento americano. Assim, quando os fundamentalistas ganham terreno, o mesmo acontece com o neo-conservadorismo, porque, como aduzimos anteriormente, o vínculo do matrimônio entre os dois é de feição indissolúvel.

Sob perspectiva externa, o Departamento de Estado americano, independentemente do partido que esteja no poder - republicano ou democrata - não tem maiores ilusões quanto ao que possa representar o protestantismo histórico para seus interesses naquele plano. A prática tem demonstrado que a igreja protestante nos Estados Unidos, não importa qual seja a denominação, pouco ou nada tem contribuído para a implementação das diretrizes americanas fora do país. Outros credos e seitas, ao contrário, têm sido sobremaneira úteis em muitas eventualidades. Aliás, o protestantismo histórico, de modo geral, não se presta muito a manipulações políticas, pelo menos de maior desenvoltura. É arraigadamente burguês, capitalista ocidental e notoriamente anticomunista. Não é de mudanças políticas radicais. Quando muito, pode chegar a formas brandas do socialismo, como em alguns países da Europa. Mas não passa disso. É acomodado, atemporal, conservador. Não cumpre nenhum papel político. O discurso do protestantismo histórico americano, assim, é igual ao de todos os cristãos oriundos da Reforma do século XVII e se caracteriza notadamente pela pregação da extrema obediência à ordem instituída, não representando, por isso, ameaça ou perigo de qualquer natureza para a classe dominante. Entretanto, no Brasil, o quadro apresenta nuanças peculiares. Pode-se afirmar precisamente que o protestantismo histórico entre nós não se enquadra no figurino de passividade tão ao gosto dos especialistas do Departamento de Estado americano, dado, em primeiro lugar, à amistosidade de suas relações com a Igreja Católica. As igrejas protestantes, na maioria, vêem com entusiasmo o ecumenismo de João XXIII e se inclinam igualmente pelas teses sociais defendidas pelos católicos. Naturalmente, a postura social da liderança protestante não pode ser comparada com a da Igreja Católica, cujo clero está permanentemente envolvido com os aspectos morais e éticos das questões temporais. Nem por isso sua atitude tem deixado de surpreender aos que estavam habituados a identificá-Ia com uma posição de indiferença em face dos graves problemas sociais que agitam o País. Conseqüência daquela transformação resultou na união dos protestantes aos católicos para a estruturação do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC), do qual participam a Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Cristã Reformada, Igreja Episcopal, Igreja Evangélica de Confissão Luterana e Igreja Metodista, uma "associação fraterna de cristãos que procuram trabalhar juntos, estar em diálogo e superar as divisões e mal-entendidos que os separam".

A concordância em formar o CONIC significa que a maioria das igrejas protestantes é sensível à discussão sob o prisma religioso das questões temporais da contemporaneidade brasileira e a uma participação mais efetiva no encaminhamento da solução dos mesmos. A Igreja Católica vê como encorajadora essa firmeza de comportamento e, sobretudo, como aval para as posições que tem adotado na defesa de aspectos éticos e morais da problemática do País. Assim, não é a única voz a emitir juízo do valor sobre as propostas em discussão na conjuntura nacional. Tem aliados.

 

Todas as manifestações do CONIC encerram sempre temas de grande alcance social. De Porto Alegre, onde tem sua sede operacional, as mensagens firmadas pelas cinco igrejas que o compõem refletem constantemente a preocupação com questões da maior atualidade:

É necessário mudar. Não podemos continuar na situação atual. Mas é o próprio povo que deve provocar essa mudança. Existe uma virtude fundamental entre nós, que se manifesta muito mais claramente nas camadas populares e que pode ser o grande instrumento de mudança: a solidariedade'. É a partir daí que será possível uma ação consciente em favor da mudança. Todos devem começar por sentir como próprios os problemas que esmagam o irmão. Ou a nação, como um todo, consegue trilhar novos caminhos ou todos acabaremos por afundar no mar de lama que nos circunda. A solidariedade se expressa, de modo coerente, nas diversas formas de organização popular. Neste sentido, as nossas Igrejas têm uma experiência crescente nas comunidades eclesiais de base ou nos diversos grupos de reflexão, círculos bíblicos e movimentos de vários tipos que surgiram durante os últimos anos. Queremos dar uma palavra de incentivo a essas iniciativas e pedimos que, nesses níveis, mais e mais, seja refletida a situação nacional e a responsabilidade dos cristãos, sem distinções denominacionais, sobre ela. Não queremos manipular 'massas' amorfas, mas despertar um povo que reflita. Queremos ajudar o povo para que encontre a coragem de arrependimento e de verdadeira conversão.

As abordagens do CONIC são todas frontais e ousadas, vazadas numa linguagem onde predominam clareza e objetividade. Diz, por exemplo, que, olhando para a situação nacional, reconhecemos que a causa da crise não é só de caráter conjuntural, mas, verdadeiramente, estrutural, tanto no campo econômico quanto no político e no social. Não é só conseqüência de um processo internacional de dominação mas, também, de uma situação nacional injusta, na qual as decisões são tomadas de um modo elitista, sem uma efetiva participação do povo. Nem sequer suas aspirações mais fundamentais, expressas de forma tão modesta alimentação, saúde, moradia, educação, trabalho -, têm sido respeitadas. Observa que nenhuma mudança, porém, acontecerá, caso permaneçam as causas estruturais que provocam a situação atual e que, por isso, não podemos concordar com tentativas de solução que continuem a lançar todo o peso do sacrifício sobre os assalariados, os agricultores e as pequenas empresas, enquanto setores bem conhecidos pela opinião pública continuam a acumular ganhos sobre ganhos e lucro sobre lucro. Lembra, então, que já o Profeta Isaías proferiu, em nome de Deus, a sua ameaça: “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra". E, ainda sobre o polêmico assunto: “Continua até hoje a urgência de uma autêntica Reforma Agrária e uma maior justiça fundiária. A terra se destina a todos. É dádiva do Criador. E não é justo que a maior parte da terra se concentre, às vezes através de incentivos fiscais, nas mãos de poucos que não a utilizam suficientemente para o bem comum, enquanto milhares e milhares de brasileiros. que querem e precisam trabalhar. não têm o chão necessário para garantir a sua subsistência e a da sua família. Igualmente. urge que nossOS índios tenham salvaguardados os seus direitos de seres humanos e garantidas as suas áreas nativas."

 

BOM EXEMPLO

 

O CONIC é a mais fascinante experiência de convivência ecumênica conjugada ao tratamento da problemática brasileira. Este aspecto, aliás, é a razão primeira e principal da sua existência. Caminhando com esperança e a aceitação recíproca das igrejas-membros, o órgão dinamiza nas comunidades eclesiais e no povo em geral a compreensão de que a participação solidária é responsabilidade de todos no enfrentar as grandes questões que estão a desafiar o esforço nacional para a sua superação. O CONIC assim o faz em caráter sistemático, com a publicação de manifestos e declarações que abordam fatos e questões da maior importância da vida do País e dos cristãos brasileiros, promovendo conferências e seminários ecumênicos de âmbito nacional com a participação de todas as entidades eclesiais que atuam em nosso território, bem como de organismos do exterior. É uma atuação que situa o CONIC em confronto direto com os problemas nacionais e internacionais com implicações para o povo e a nação brasileira.

O CONIC foi pioneiro na mobilização dos diversos setores da opinião pública para a luta pela redemocratização do País, isto durante a fase dura da repressão imposta pelos governos militares. A corrupção administrativa, financeira e econômica, que tanto envergonha os brasileiros, foi, igualmente, denunciada com decisão. Da mesma forma, as conseqüências da dívida externa, o uso abusivo dos agrotóxicos, a depredação da natureza e seus danosos efeitos e o extermínio dos índios estiveram continuamente na pauta de discussões do CONIC, constituindo objeto de enérgicos protestos às autoridades responsáveis. Também a reforma agrária, o conflito no campo, a situação de virtual abandono do pequeno agricultor, a marginalização dos sem-terra, do meeiro, enfim, todos os aspectos ligados à política fundiária, são temas de especial cuidado do CONIC, que procura conscientizar o povo para sua reformulação justa e social, indispensável tanto ao campo quanto à cidade.

O pastor Augusto Ernesto Kunert, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana e vice-presidente do CONIC, conversando com o repórter em Novo Hamburgo, a 40 quilômetros de Porto Alegre, discorreu longamente sobre o alto significado, em termos de convivência ecumênica, para as igrejas-membros, do desempenho daquelas tarefas comuns pelo órgão que as reúne. Salientou que isso torna efetiva a aproximação das mesmas e promove a aceitação mais cristã da responsabilidade de cada uma no estabelecimento da paz, da justiça social e do bem-estar coletivo, inseparáveis da doutrina de Cristo. Observou, assim, que, respeitando as concepções eclesiológicas de cada igreja-membro, o CONIC contribui para um novo relacionamento entre elas e colabora para o maior respeito e reconhecimento mútuo, afastando as antigas rivalidades que tanto angustiavam a cristandade no passado. Esse reconhecimento mútuo permite a compreensão da responsabilidade comum no serviço em favor da pessoa humana e do povo brasileiro. Este serviço - assim o entendem o CONIC e as igrejas-membros - é um ato de amor, um ato de fé em Cristo. O pastor Augusto Ernesto Kunert, voltando às mudanças estruturais exigidas pelo País, faz uma séria advertência e manifesta uma esperança:

"O CONIC defende a tese de que somente uma reforma de base, permitindo uma maior justiça social, é a única possibilidade de evitar-se, a médio prazo, uma comoção social com efeitos terríveis para a nação. O envolvimento do CONIC com essa problemática fundamenta-se, unicamente, no Evangelho do amor e da graça de Jesus Cristo. Do amor e da graça de Jesus Cristo, vem-lhe o mandato da unidade e da missão. Simultaneamente, vem-lhe daí o mandato da co-responsabilidade pela causa pública, pelo bem-estar da pessoa humana e pelo bem-comum do povo, pois o serviço é a resposta obediente da fé no doador do amor e da graça. A tarefa proposta ao CONIC pelo Evangelho, praticada com dedicação, alimenta a convicção de uma vivência ecumênica mais ativa das igrejas e reforça a esperança de uma caminhada comum na busca de soluções para os problemas espirituais dos membros das comunidades eclesiais e de soluções práticas e justas no confuso campo político, moral e sócio-econômico que lançou profundo sofrimento sobre o povo brasileiro." A falta de dados estatísticos relativos à Igreja Católica impede a tentativa de quantificar com exatidão os fiéis das cinco igrejas filiadas ao CONIC. É que, a não ser os precários elementos fornecidos pelo IBGE, não existe nenhuma outra fonte segura para que se proceda a, pelo menos, uma aproximação numérica dos católicos do País. De qualquer maneira, tomando-se como base o Censo de 1980, eles constituiriam 89,1 por cento da população brasileira, ou seja, 115 milhões, arredondadamente, num contingente de 130 milhões de habitantes. Não se discute, evidentemente, o valor e a intensidade da fé desses católicos. A Igreja Evangélica de Confissão Luterana, a Metodista, a Episcopal e a Cristã-Reformada entram com mais de 2 milhões de adeptos, consolidando, assim, a tranqüila maioria que o CONIC representa no panorama religioso do Brasil.

É certo que essa frente ampla de igrejas cristãs poderia ser completa, se dela participassem os batistas, os presbiterianos e outras denominações menos expressivas do protestantismo histórico que atuam no País, elevando, portanto, a pelo menos um milhão a mais o número de fiéis abrigados na mesma união fraterna. Exaustivos esforços, representados por cansativas gestões nesse sentido, foram desenvolvidos pelos animadores da idéia. Mas, em vão. Fortes razões de natureza política entraram em jogo e acabaram sustando o ingresso de algumas igrejas no CONIC. Soube-se, na ocasião, que o centro da mobilização com aquele objetivo estava em Washington, de onde o Departamento de Estado americano comandou as pressões sobre as lideranças de algumas, como a Aliança Batista Mundial, para boicotar a iniciativa, vista como de inspiração católica. Era parte do jogo de bastidores para isolar a Igreja Católica na comunidade cristã da América Latina.

 

COMEÇA O ATAQUE

 

A prevenção da política externa dos Estados Unidos contra a Igreja Católica e as tentativas para reduzir-lhe a influência na América Latina são antigas. A bem da verdade, essa prevenção é recíproca e remonta aos tempos em que o colonialismo espanhol, sustentado por aquela, estendia seus domínios à vastidão de terras ao Sul do Rio Nusces e o protestantismo dos imigrantes ingleses expandiam-se para todo o Oeste, a partir das colônias implantadas na Nova Inglaterra. Mas eram adversários cordiais, respeitavam-se. Mais tarde, estoura a guerra México-Estados Unidos (18461848) e os americanos, os vitoriosos, anexam os territórios do Texas, Novo México, Califórnia, Chihuahua, Ceamila e Tamonlipes. A animosidade contra a Igreja Católica, que tomou partido ao lado do México, fica, então, mais patente, alimentada sempre por um antagonismo que ganha, agora, nova dimensão com as disputas ideológicas que dividem o mundo. Nos dias contemporâneos, Estados Unidos e Igreja Católica da América Latina percorrem, curiosamente, o inverso da trajetória política do passado, ou seja, enquanto os Estados Unidos marcham acelerados rumo ao conservadorismo, a Igreja Católica da América Latina alinha-se numa postura mais liberal, mais progressista. Antes, era o contrário. Trocam-se, portanto, as posições, mudam-se os papéis.

As relações entre o governo dos Estados Unidos e a Igreja Católica da América Latina começaram, no entanto, a tomar um caminho irreversível de deterioração, a partir do momento em que o Departamento de Estado americano adotou procedimentos por demais ostensivos na manifestação de sua desconfiança quanto ao que considerava dever de lealdade da liderança dos católicos latinos para com a preservação da democracia nos países onde tem hegemonia. A primeira atitude dessa natureza consistiu no estardalhaço que cercou a divulgação de um documento oficial, vazado em linguagem sinuosa, mas expressando de forma inequívoca a suspeita de um comportamento que não era do agrado americano. É o Relatório Rockefeller, elaborado em agosto de 1969 por uma enorme equipe comandada por Nelson A. Rockefeller, então governador do Estado de Nova York, por solicitação pessoal do presidente Nixon, que o utilizaria como subsídio à formulação do seu plano de governo para a América Latina.

Apresentando o documento à opinião pública americana, Ted Szulc, do jornal "The New York Times", escreve longa "introdução" em que observa que, na análise de Rockefeller sobre a "qualidade de vida na América" , é amplamente visível que as forças tradicionais que suportam o velho status da América Latina Igreja Católica Romana e os militares - estão se voltando na direção de atitudes progressistas. À primeira vista - escreve Szulc -, os Estados Unidos consideram isso um fenômeno positivo. Mas, na prática, esse novo estado de coisas está criando um duro dilema para os americanos, e o Sr. Rockefeller está a par desses acontecimentos. Observa, mais, que a Igreja, como ele (Rockefeller) reconheceu, está incentivando agora reformas positivas. Porém, como mostraram os recentes pronunciamentos dos homens da Igreja na América Latina, o jovem clero, os padres-operários e a política católica ativa de esquerda não estão permitindo aos Estados Unidos verem muito mais erros na vida da América Latina. O típico da Igreja - conclui Szulc - é, então, tornar-se um canal adicional a um nacionalismo intenso e, compulsoriamente, ao anti-americanismo. O Relatório Rockefeller propriamente dito, sempre com a mesma linguagem sinuosa, tem uma ótica original da sociologia da América Latina. O título "A cruz e a espada", por exemplo, começa dizendo que, conquanto ainda não seja largamente reconhecido, o conjunto militar a Igreja Católica encontra-se entre as forças de hoje com o objetivo de alcançar a mutação política e social nas outras repúblicas americanas. Isto é, para ambos, uma nova atribuição. E fato histórico que, há mais de 400 anos, a ação dos militares e da Igreja Católica, agindo em comum com os senhores de terra para garantir a "estabilidade", tem constituído uma das tradições nas Américas. Depois, procura mostrar o oportunismo que representa esse comportamento:

"Poucos imaginam a extensão do contraste que ambas essas instituições estão fazendo com o seu passado. Encontram-se factualmente ganhando a dianteira como forças para a mutação social. econômica e política. No caso da Igreja, trata-se do reconhecimento de uma necessidade de maior aceitação da vontade popular. Quanto aos militares, é o reflexo de uma ampliação das oportunidades para os jovens, a despeito de seus antecedentes familiares.”

O Relatório Rockefeller, a seguir, assinala que os modernos meios de comunicação e a mais disseminada educação têm causado um impulso popular de tremendo impacto na Igreja Católica, tornando-a uma força dedicada à mutação - mesmo revolucionária -, se for necessário. Aí, externa toda a sua desconfiança: "Atualmente, a Igreja pode se encontrar, de certa forma, na mesma situação dos moços - com profundo idealismo, mas, como resultado, em alguns casos, vulnerável à penetração subversiva; pronta para fazer até a revolução, se preciso, para pôr cobro a injustiças, mas não certa nem quanto à finalidade da própria revolução, nem quanto ao sistema governamental através do qual alcançará a justiça almejada."

A inamistosidade não se esgotou, porém, com a ruidosa divulgação do Relatório Rockefeller. Com efeito, em maio de 1980, os americanos voltam à carga contra a Igreja Católica da América Latina, dessa vez publicando um informe produzido pelo grupo de trabalho denominado "Comitê de Santa Fé" para o Conselho Para a Segurança Inter-americana com sede em Washington, intitulado "Uma nova política inter-americana para os anos 80": O Relatório de Santa Fé, como ficou conhecido, no capítulo em que trata da subversão interna, entre outras medidas sugeridas ao governo dos Estados Unidos com a finalidade de conter a expansão comunista na América Latina, recomenda, na Proposição no. 2 - Parte 2 -, que "a formulação da política americana deve isolar-se da propaganda originária da mídia geral e especializada que é inspirada por forças explicitamente hostis aos Estados Unidos". O Relatório de Santa Fé entende que a cobertura da realidade política da América Latina pela mídia americana é inadequada e demonstra ser fortemente tendenciosa, favorecendo patrocinadores da transformação sócio-econômica radical dos países menos desenvolvidos, em conjunto com linhas coletivistas. Segundo o informe, reforma e desenvolvimento são sempre indistintos da revolução comunista e pouca atenção da imprensa é dedicada às diferenças geofísicas e sociológicas peculiares entre a GuatemaIa, por exemplo, e a Costa Rica, ou entre Argentina e Peru. Isso resulta no encorajamento de uma concepção errônea de que as únicas alternativas são oligarquias, regimes autoritários que professam o anti-americanismo e alguma forma de populismo de esquerda ou socialismo. Afirma ainda que ativistas utilizam-se da superficialidade do conhecimento sobre determinados países e dos conceitos errôneos sobre suas reais alternativas políticas e econômicas, alimentando uma corrente constante de desinformação que denigre os amigos e glorifica os inimigos. E aponta o que julga relevante:

"A manipulação da informação através de grupos afiliados à Igreja e outros assim chamados lobbies de direitos humanos tem desempenhado um crescente importante papel na deposição dos governos autoritários, porém pró-Estados Unidos, substituindo-os por ditaduras comunistas ou pré-comunistas, anti-Estados-Unidos, de caráter totalitário."

Na Proposição no. 3 - Parte 2 -, é sugerido que "a política externa americana deve começar a opor-se (não reagir contra) à teologia da libertação da forma como é utilizada na América Latina pelo clero da 'Teologia da Libertação', o que é justificado com uma advertência bastante temerária:

"O papel da Igreja na América Latina é vital para o conceito de liberdade política. Infelizmente, forças marxistas-Ieninistas têm-se utilizado da Igreja como arma política contra a propriedade privada e o capitalismo produtivo, infiltrando na comunidade religiosa idéias que são menos cristãs do que comunistas."

 

O REVERSO DA MEDALHA

 

Toda a hierarquia da Igreja Católica da América Latina, ainda sem compreender as infundadas suspeitas manifestadas pelo Relatório Rockefeller, viu com tristeza maior que o Relatório de Santa Fé, 10 anos depois, não só reafirmava, como tornava mais enfáticas as desconfianças americanas. A Igreja Católica considerou profundamente injustas as conclusões a que chegaram os dois documentos encampados pelo governo dos Estados Unidos e lembrou, com energia, qual, mais do que força das armas, tem sido o papel da cruz empunhada pelos católicos latinos na contenção da expansão comunista no continente americano. Não aceitava, absolutamente, ser submetida à investigação ou ver seus atos julgados por grupos de trabalho estranhos à Igreja. Era uma atitude desrespeitosa, insólita mesmo, que repelia com toda a firmeza. A conseqüência desses episódios foi o início de estudos sistematizados pela Igreja Católica, com a finalidade de estabelecer a exata medida do comprometimento de organismos estrangeiros na já notória proliferação de seitas na América Latina e conhecer as implicações de natureza política acarretadas pela invasão dos credos exóticos. Um relatório volumoso, publicado em Bogotá, na Colômbia, a 25 de maio de 1984, sob a responsabilidade do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), baseado em pesquisa por sua Seção de Ecumenismo (SECUM), revelou então que a atividade desenvolvida pelas seitas na América Latina representa um enorme desafio para o trabalho pastoral da Igreja. Isto porque os métodos e as estratégias adotadas pelas mesmas têm sido eficazes para responder a certos aspectos pastorais em relação aos quais a Igreja Católica se descuidou ou não cobriu plenamente. Seu êxito se explica, principalmente, pelo fato de ter uma resposta apropriada para as necessidades de mudança e renovação exigidas pela sociedade latino-americana. O informe do CELAM, intitulado "A realidade do avanço das seitas", responsabilizou as seitas por uma tendência generalizada para apresentar a sociedade como decadente e de atribuir essa crise à Igreja Católica, que estaria, assim, excluída da edificação de uma sociedade nova. A agressão contra a Igreja concentra-se na pessoa do Papa, dos bispos e dos sacerdotes, realçando seus defeitos e apontando-os como agentes do mal, necessitados de conversão. A Igreja, em outras palavras, seria a grande rameira que personificaria todo o mal. Através desse expediente, canalizam-se todos os rancores e ressentimentos contra a Igreja Católica. Assim, como opção única, oferece-se aos católicos a oportunidade de desligarem-se das "complicadas estruturas eclesiais" para ingressar em uma igreja mais "à mão", que lhes fale numa linguagem popular baseada em palavras da Bíblia, diferente da estereotipada e incompreensível como a da sua. Nessa comunidade ideal e com essa mensagem que chega ao coração e à mente encontra-se o novo equilíbrio pessoal, a plenitude, uma grande paz, e se sente de modo palpável trabalhar "apenas a graça divina". Em resposta, o informe do CELAM acusa diretamente os grupos de direita de reagirem contra os esforços de promoção humana e de conscientização social da América Latina, dizendo que eles dão ênfase à "conversão pessoal", sem considerar as "estruturas coletivas" , numa recusa sistemática da realidade objetiva da luta de classes, só esperando um "milagre do Altíssimo para resolver o problema dos explorados". Essa ideologia evidencia apenas o interesse por uma vida fraterno-sectarista que evita encarar os conflitos sócio-políticos. Segundo o CELAM, as seitas que mais claramente manifestam uma política de direita são as pentecostalistas - o grupo mais numeroso na América Latina - e a Igreja da Unificação do Cristianismo Mundial - a seita Moon -, que professa abertamente o anticomunismo. O documento, a seguir, aponta o envolvimento pessoal do presidente dos Estados Unidos: "A expansão das seitas nos últimos decênios, acompanhada de uma extraordinária proliferação denominacional, é uma prova clara de sua penetração e também de sua influência política. Um aspecto notável nessa relação entre os movimentos sectários e a política é o agrupamento em tomo das tendências que surgem no interior dessas organizações evangélicas: uma corrente de esquerda e outra de direita. No caso dos movimentos de direita observa-se um apoio ao trabalho das comunidades evangélicas e agrupamentos internacionais em países do Caribe, Centro e Sul-América. Isto é conseqüente da política norte-americana do Presidente Reagan, que promulga o apoio às campanhas missionárias em beneficio de seu governo."

Continuar: parte 3 de 3