Os Demônios Descem do Norte

Delcio Monteiro de Lima · Capítulo 1 de 4 · parte 3/3

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Os Demônios Descem do Norte

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ao analisar as implicações e efeitos dessa situação, o inferno do CELAM observa que a polarização política das seitas repercute fortemente sobre a vida da América Latina e também da Igreja Católica, porque sua influência está mudando a vivência religiosa tanto a nível urbano quanto rural. Tal afirmação pode ser comprovada ao se constatar as inúmeras conversões ao pentecostalismo, Testemunhas de Jeová, Mórmons, entre outras, e observando-se, também, o trabalho incansável de seus missionários. Essa verdadeira migração religiosa demonstra que o povo espera e busca uma solução sacral, ou seja, de natureza religiosa para seus problemas fundamentais. A polarização das seitas afeta profundamente os movimentos de direita e de esquerda e o aspecto religioso é visto envolvido na luta violenta entre a repressão e a guerrilha. Afirma o relatório que a direita religiosa chega a manipular recursos superiores aos da própria Agência Central de Inteligência (CIA) em algumas áreas, como na Guatemala.

De fato, naquele país as seitas religiosas têm sido, para o exército e o governo em sua guerra contra a guerrilha, tão imprescindíveis quanto as armas automáticas e os helicópteros americanos. É praticamente igual à ajuda das seitas e auxílio militar que provém direta ou indiretamente dos Estados Unidos em apoio aos governos militares direitistas e com o objetivo de acabar com o comunismo na Guatemala. Defensores da presença norte-americana na nação guatemalteca importam dinheiro, política, valores e um esquema religioso pré-fabricado pelas seitas fundamentalistas e proclamam, ali, a união do exército, religião e governo na luta contra a guerrilha. As seitas constituem uma eficaz arma contra-revolucionária e são responsáveis pelos massacres e extermínios, justificados com a Bíblia na mão da ditadura e a "pacificação" como obra de Deus.

 

EM NOME DE DEUS

 

O informe do CELAM constatou que a maioria das seitas orienta, seu trabalho de catequese preferencialmente na direção das classes mais necessitadas, as quais procura converter e manter sob sua influência através da assistência social que compreende ajudas efetivas em dinheiro e alimentação. Essa ajuda, com freqüência, representa também prêmio para aqueles que conseguem novos adeptos para as seitas. Do mesmo modo, em países mais pobres é significativa a participação delas nos programas educativos. Cita o caso do Haiti, onde os dirigentes das seitas praticamente apoderam-se das crianças nos berçários e dirigem todo o seu processo educativo até a formação completa, de modo a capacitá-Ias a se tornarem membros, igualmente, dos quadros evangelizadores.

O trabalho de aIiciamento das seitas não se limita a áreas urbanas e envolve os complexos processos migratórios de camponeses até as cidades e as profundas alterações ocorridas nos meios rurais causadas por inúmeros problemas ligados ao desenvolvimento. Para todos os migrantes, incluídos os que são compelidos a se mudar por motivos políticos, as seitas dão esperança, consolo, confiança em si próprios, encontrando, assim, o "sentido da vida". As seitas dedicam um carinho especial às vítimas de perseguições políticas na América Latina.

A problemática das seitas apresenta-se diferente em cada país da América Latina. Assim, por exemplo, se, no Brasil, a preocupação é o vertiginoso crescimento do pentecostalismo, a escalada dos Mórmons é que merece atenção especial no Chile e, na América Central, é a radicalização política dos grupos fundamentalistas que faz a dor-de-cabeça da Igreja Católica. Mas, é interessante notar que, no chamado avanço das seitas, é o pentecostalismo que ocupa, invariavelmente, o primeiro plano, pois somente no Brasil, México, Chile e EI Salvador encontramos 93 por cento dos seus adeptos, que constituem, a seu turno, 60 por cento de todos os evangélicos da América Latina.

Comprovou o informe do CELAM que todas as seitas utilizam os mesmos processos para atrair e doutrinar as pessoas em suas reuniões e assembléias. A música e os cantos populares ocupam lugar de destaque na criação de uma atmosfera de confraternização. Ali todos se consideram à vontade, realizados, alvo de atenção. Recebem dons espirituais, não raro algum "ministério" que dá prestígio e um posto representativo na hierarquia. O canto em coro, a oração coletiva em voz alta, as aclamações, as exclamações e os testemunhos vibrantes de salvação e bênção de Deus completam o clima de exaltação e êxtase.

A maioria das seitas é bem recebida no meio popular porque oferece aos crentes alternativas terapêuticas que resolvem inúmeros problemas de saúde física e psíquica. Exercem esse dom de "cura divina" como missão de caridade, mas também o utilizam como meio de pressão e intimidação, sobretudo sobre as pessoas menos esclarecidas, que são ameaçadas de possessão diabólica e maldição, caso discrepem das normas da seita. Aos convertidos, ao contrário, é dada a possibilidade de três importantes experiências: o arrependimento de uma vida pecaminosa e mundana; a conversão, seguida do ritual do "batismo nas águas", o qual marca a regeneração e a consciência plena de estar salvo em Cristo; a santificação completa, aIcançada através do batismo com o Espírito Santo.

Toda aquela transformação é reforçada incutindo-se na pessoa a necessidade de manutenção de um estilo de religiosidade sectária, através de um comportamento ético isolado do mundo. Procura-se, por esse meio, renovar no convertido o sentimento de haver superado sua condição anterior e propõe-se-Ihe uma moral rigorosa, com algumas proibições mas sem sacrifícios exagerados. As verdades devem ser aceitas sem juízo crítico. O fundamentalismo, na interpretação bíblica, dá origem ao individualismo e repudia todo critério de unificação. O comum, então, é a salvação pessoal, sem intermediários. Nisso, justamente, está centrada toda a intensa atividade de proselitismo das seitas, iniciada, via de regra, com perseverante trabalho de doutrinação individual de porta a porta.

As seitas oferecem proteção e segurança aos convertidos nas diversas situações de crise individual. Têm respostas prontas e objetivas para todas as necessidades imediatas. detendo-se minuciosamente nas questões particulares de cada um. Na interpretação flexível da Bíblia. encontram soluções para os mais complexos problemas existenciais.e saídas relativamente claras e não ambíguas para quaisquer dificuldades do cotidiano. E exercitam isso com extrema convicção, pois consideram-se o único caminho de esperança nesse mundo caótico. os verdadeiros olhos de Deus para conduzir a humanidade aflita e sôfrega de salvação eterna.

Politicamente. as seitas são. em geral, excessivamente submissas à lei. à ordem e às autoridades em todos os níveis. Não criam problemas. É conseqüência do velho medo das perseguições religiosas de outrora em países de maioria católica. quando, a qualquer pretexto ou mesmo sem nenhum pretexto, levantava-se a polícia contra os crentes. Não sendo politizadas, não querendo transformar a sociedade, mas apenas salvar o homem, suas postulações surgem mais dóceis, mais controláveis, portanto, pela situação dominante. Sem consciência revolucionária, as seitas não representam perigo para o status quo, que as manipula à vontade. Por isso. certos governos estão sempre empenhados em infiltrá-Ias em áreas críticas, a fim de contrapor a sua passividade política ao ativismo religioso em favor da solução de questões sociais, como ocorre freqüentemente com a Igreja Católica.

 

UM MAPA REDESENHADO

 

Conquanto o então presidente americano Teodoro Roosevelt, em 1912, percorrendo a Patagônia (Argentina), tenha dito, cheio de mágoa, que “será longa e difícil a absorção desses países pelos Estados Unidos, enquanto forem países católicos". dizer que o incremento à penetração das seitas na América Latina é um projeto ideológico americano pode ser uma assertiva tão fácil e simplista quanto ignorá-Ia. Por mais que se acumulem as evidências que robustecem a suspeita, seria temerário, como já observamos, concluir que haja um plano ordenado e sistemático naquele sentido. Não autoriza o juízo o fato de os Estados Unidos sediarem a totalidade das seitas que de lá desencadeiam o proselitismo sobre a América Latina, podendo também ser coincidência que o grosso do esquema financeiro que sustenta as atividades dos novos grupos religiosos seja da mesma procedência. É preferível adotar uma posição ingênua à primeira vista, do que avançar em acusações carentes de provas, embora os fatos sejam exageradamente auto-evidentes.

Apresenta-se extremamente difícil, quase impossível, redesenhar o mapa religioso da América Latina a partir das primeiras décadas deste século. Fenômenos de um passado recente envolvendo segmentos não-católicos ocorreram com tal intensidade e tamanha rapidez que sequer deram tempo à análise mais profunda ou estatísticas mais exatas para explicá-Ios ou dimensioná-Ios. Um dado, contudo, é incontestável: a Igreja Católica perdeu substância. Se uma quantificação simples não acusa maior diminuição de adeptos, é porque o crescimento populacional cobriu o desfalque. Também as igrejas protestantes tradicionais ou históricas não tiveram a suposta expansão conseqüente da retração do catolicismo. Apenas, como a Igreja Católica, mantiveram ou aumentaram um pouco o número de fiéis em decorrência da elevação da taxa demográfica. A verdade, assim, nesse quadro caracterizado por uma dinâmica de impressionante velocidade é que tem havido um assustador crescimento das seitas e movimentos religiosos exóticos desde o México até o extremo Sul da Argentina.

O melhor entendimento das mutações religiosas na América Latina, daqui para a frente, será alcançado certamente se evitarmos, na medida do possível o emprego do termo evangélico ou evangélicos, cujo significado é diferente em cada lugar. No sul do Brasil, por exemplo, é usado especificamente para designar os membros da Igreja Evangélica de Confissão Luterana. No restante do País, a acepção é mais ampla e tanto serve para chamar todos os protestantes, independentemente de igreja ou denominação, como, também, tem a conotação de "crente", pessoa ligada a um movimento pentecostal. Assim, é conveniente então não o empregar, mesmo porque pode ser confundido e não é sinônimo de evangelical ou evangelicals (no plural), termo largamente usado nos Estados Unidos para designar uma corrente espiritual que conta com mais de 70 milhões de adeptos. O evangelismo americano, que não é igreja ou denominação particular, é um modo especial de sentir Jesus e não uma doutrina. É um movimento mais identificado com o "avivamento" que animou os grandes pregadores do século XVIII, notadamente George Whitefield e Jonathan Edwards. Enfatiza o aspecto da conversão pessoal e da salvação eterna, em detrimento da dimensão social e histórica do cristianismo, sendo, pois, contra o ecumenismo. Os evangelicals crescem em importância política a cada dia. O presidente Reagan, aliás, com o intuito de obter-lhes o apoio, implantou na Casa Branca um escritório especial para cuidar dessas relações, a exemplo dos que já funcionavam para as igrejas protestantes tradicionais, os católicos e os judeus.

Voltando ao esboço pretendido, vale lembrar que apenas 30 por cento dos 38 milhões de protestantes da América Latina pertencem a igrejas históricas ou tradicionais. A imensa maioria (70 por cento) já é composta de convertidos às novas seitas, notadamente as pentecostais, as quais reivindicam uma fatia cada vez maior na preferência religiosa nesta parte do continente, onde, como se sabe, 340 milhões seriam católicos. Esses números é que assustam o episcopado latino-americano e eles se tomam mais inquietadores à medida em que se constata que o crescimento dos chamados movimentos religiosos livres ou seitas verifica-se a uma taxa anual superior a 15 por cento. Nesse ritmo, pode-se admitir que somente os pentecostais serão, no Brasil, cerca de 40 milhões antes do término do século XX.

O avanço frenético das novas seitas na América Latina, com efeito, é notado imediatamente a partir da fronteira norte do México. Hoje, em contraposição à modesta expansão das igrejas protestantes históricas, os Mórmons, o Movimento Moderno, a Igreja Apostólica Fé em Cristo, a Ciência Cristã, os Discípulos de Cristo e dezenas de outras seitas pentecostais, todas vindas dos Estados Unidos, intranqüilizam a tranqüila supremacia que a Igreja Católica desfrutava no país até um século atrás. O pentecostalismo mexicano perde em expressão apenas para o chileno e o brasileiro. Tem quase 2 milhões de crentes, boa estrutura, desenvolve intenso trabalho de proselitismo, mantém duas boas publicações regulares, inclusive de larga circulação nacional: "El expositor biblico cristiano" e "Hechos de los apostoles". Mas impressionantes mesmo são os Mórmons, cerca de um milhão no país, cuja perfeita organização dispõe até de um cadastro micro-filmado, com o registro de todos os adeptos no México, arquivado em Salt Lake City, capital espiritual do movimento religioso em todo o mundo. Aqui, começa a ser sentida a presença das instituições chamadas transconfessionais, que são organizações geralmente fundadas por evangelicals não históricos ou tradicionais, quase sempre fundamentalistas, não subordinadas a nenhuma igreja ou denominação religiosa. A transconfessional não visa a coordenar ou promover a ação ou trabalho desenvolvido por várias igrejas, pois, nesse caso, seria chamada interconfessional ou interdenominacional, como a Associação Cristã de Moços, que tem 12 mil sedes em 94 países. Sem a participação de católicos, perdem, também, o caráter ecumênico. As transconfessionais, as faith missions (missões de fé), comumente atuam na área da evangelização, operando ou apoiando missões bíblicas ou executando projetos considerados úteis à fé cristã, sem compromisso denominacional. São mantidas por fundações e por recursos oriundos de grandes corporações empresariais, na maioria multinacionais, e, a seu turno, financiam projetos de outros organismos religiosos ou leigos. As transconfessionais, via de regra, são ligadas a entidades ultraconservadoras e mesmo de direita, portanto, anticomunistas. Velada e subliminarmente empenham-se na aculturação das populações com as quais se relacionam, procurando incutir-Ihes o modo de vida americano, o padrão ocidental cristão e capitalista.

 

APATIA POLÍTICA

 

A comemoração dos 100 anos de protestantismo na Guatemala foi marcada pela festejada verificação de que o seu contingente de adeptos ultrapassava a 25 por cento da população, dos quais 84 por cento são pentecostais. Foi uma constatação animadora, em vista da situação anterior ao período Ríos Montt, que registrava 13,9 por cento de protestantes, com os pentecostais girando em tomo de 50 por cento. Mas, o que realmente aconteceu no país para justificar tamanha virada?

De março de 1982 a agosto de 1983, a Guatemala esteve sob a ditadura de Efrain Ríos Montt, um estranho militar graduado pela "Dale Carnegie School" e que subiu diretamente do posto de cabo ao de general e chefe do Estado- Maior do exército guatemalteco, ascensão que teve de permeio uma passagem pelo treinamento americano em contra-revolução no Panamá e a direção do Colégio Interamericano de Defesa, em Washington. Em 1974, apesar da fraude eleitoral, foi fragorosamente derrotado na disputa da presidência da República e seguiu, então, para um período de descanso na Espanha, como diplomata. Quando voltou, em 1978, renunciou ao catolicismo e instalou no país a "Igreja da Palavra de Deus" ou "EI Verbo", uma seita financiada pela missão transconfessional "Gospel Outreach", da Califórnia. E não fez outra coisa a não ser cuidar de assuntos espirituais, construir casas de oração, engajar adeptos, enfim, expandir sua seita, até março de 1982, quando um golpe militar de direita o colocou no poder. A assessoria de governo de Ríos Montt era toda da Igreja do Verbo e sua administração, afora a liberdade aos esquadrões da morte para o extermínio dos adversários, a cruel perseguição e tortura aos opositores nas cidades e aos guerrilheiros nas regiões montanhosas, foi dedicada ao proselitismo religioso. Essa preocupação tomou a feição de fanatismo, atmosfera ampliada pelas alocuções e pelas cadeias de oração para ajudá-Io, comandadas por Pat Robertson, no programa "Clube dos 700", na televisão americana. Foi a época também aproveitada pelos organismos internacionais para se estabelecerem no país, a exemplo de "Campus Crusade for Christ", "Billy Graham Association", "Club 700”, “Youth With a Mission", "Living Word Comunity", "Gospel Outreach of Pennsylvania", "lnternational Love Lift" , "Vision Mundial", “Instituto Linguistico de Verano" e muitos outros que tomaram a Guatemala de assalto e transformaram-na no principal centro de operações para a América Central e região do Caribe.

A queda de Ríos Montt não fez declinar a grande influência ideológica das seitas e de grupos religiosos minoritários na Guatemala, cumprindo-se cada vez mais o seu objetivo principal, qual seja o de manter o povo afastado das práticas políticas, quase sempre de esquerda em um país pobre. A Assembléia de Deus, a Igreja de Deus do Evangelho Completo, a Igreja Príncipe da Paz e a Igreja de Deus Missionária têm centenas de templos abertos ao povo, merecendo destaque, ainda, a atuação dos adventistas, cujo número de fiéis aumentou muito no país ultimamente. Em Honduras, fracassaram praticamente todas as igrejas protestantes históricas que se instalaram no país vindas das ilhas inglesas do Caribe. As que resistiram ao peso do isolamento, que Ihes dificultava a ampliação do quadro de missionários, tiveram, por isso mesmo, penetração de reduzida importância e conseguiram conquistar um insignificante número de adeptos. Agora, sobrevivem virtualmente estagnadas e pouco representam do ponto de vista estatístico. Em compensação, registrou-se um êxito espantoso das seitas novas, cuja presença relativamente recente no país já responde por 6 por cento das religiões não católicas, segundo avaliações atualizadas.

Contribuiu para alterar bruscamente o quadro hondurenho a interferência na questão"religiosa das grandes multinacionais que se dedicam à exploração da indústria de frutas no país, quer financiando grupos já existentes, quer promovendo o ingresso na região de missionários pentecostais e fundamentalistas dos Estados Unidos. Las bananeras, como são conhecidas popularmente a "United Fruit" e a "Standard Fruit Companies", empenharam-se diretamente no estabelecimento das seitas nas vastas áreas que ocupam, inclusive construindo-lhes templos e proporcionando-lhes facilidades que nunca tiveram as igrejas protestantes históricas.

A guerra civil de anos não tem impedido o florescimento do pentecostalismo em El Salvador, estimado em 75 por cento dos protestantes históricos do país em 1965. Na pequena nação centro-americana, aliás, existem as melhores condições psicossociais para o desenvolvimento rápido e permanente dos movimentos religiosos autônomos, quais sejam, o horror às matanças e o medo da dominação comunista. Bastou, então, estimular no povo inculto o sentimento de culpa e de ofensa a Deus por permitir tal situação para que se conseguisse imediatamente o recolhimento à oração e a adoção de uma atitude de neutralidade propícios à criação da atmosfera de apatia política que tanto tem servido à situação dominante. Esse ponto delicado da questão, a propósito, tem sido a bandeira da "Campus Crusade for Christ", uma organização fundamentalista americana, com sede na Califórnia, fundada por BilI Bright, que trabalha em EI Salvador desde 1978. “Não podemos nos dar ao luxo de ceder a arma política à esquerda religiosa. Devemos defender corajosamente os princípios que constituem a América" - afirmou aos salvadorenhos, no verão de 1983, James Watt, membro da Assembléia de Deus e ex-secretário do Interior dos Estados Unidos, num ataque direto à Igreja Católica. E a advertência não ficou apenas em palavras: a “Campus Crusade" incumbiu-se de amealhar milhões de dólares da Pepsi Cola, Hotéis Holliday Inn, Adolph Coors, Mobile Coca Cola para desencadear a vigorosa campanha "Esta é a Vida" pelo cinema, televisão, panfletos e out-doors, destinada a mobilizar o povo contra o conflito e a favor da política do governo, contra a insurreição. As igrejas pentecostais, então, transbordaram de fiéis e a guerrilha foi contida. Era uma espetacular vitória de BilI Bright na luta contra a transformação dos valores culturais latino-americanos e pela consolidação dos movimentos religiosos autônomos na América Central.

 

RETALIAÇÕES IDEOLÓGICAS

 

Em meio a uma situação confusa criada pela obstinação do governo sandinista em subordinar os assuntos religiosos a seus interesses políticos, as seitas na Nicarágua, com o pentecostalismo à frente, vão consolidando sua posição em uma nação agitada pela implantação de uma ideologia nova para um povo sofrido. Agora, os movimentos religiosos autônomos são 83 por cento do protestantismo existente no país e as notícias mais recentes dizem que somente a Assembléia de Deus instalou, nos últimos anos, 350 novos locais de oração em Manágua e no interior, isso sem contar os pertencentes à Igreja de Deus, Associação das Igrejas de Cristo e a Igreja Apostólica Fé em Jesus Cristo, que somam, aproximadamente, igual número. A cada dia, também, surgem grupos novos, como "O Caminho da Meia-Noite", "Relâmpagos", "Os Unitários" , "Só Jesus" e " A Luz Verdadeira", todos abrindo seus templos.

A tônica do governo sandinista no campo religioso tem sido a implacável perseguição às populações miskitas, seguidoras do protestantismo tradicional da Igreja Morávia da costa atlântica e resistente à revolução, e à Igreja Católica, cuja hierarquia recusa, igualmente, a aceitar a tutela do governo, não obstante alguns padres ocupem postos de responsabilidade na alta administração do país.

A sustentação de um confronto ideológico com os Estados Unidos tem provocado retaliações do governo sandinista contra alguns grupos religiosos que tomaram posição ostensivamente contrária à revolução. Os membros da Sociedade Bíblica, de orientação fundamentalista, por exemplo, tiveram que fugir para Miami, enquanto a "Campus Crusade" transferiu-se às pressas para a Costa Rica. Em represália, as duas organizações cancelaram o programa pró-sandinista "A Voz do Evangelho na Revolução", transmitido de uma emissora de propriedade dos dois grupos e produzido por pastores de seitas pentecostais simpáticos ao sandinismo. São os mesmos pastores, aliás, que emitiram, através da Assembléia Geral do Comitê Evangélico para Ajuda e Desenvolvimento (CEPAD), um comunicado, em nome de 37 ritos pentecostais, de apoio aos sandinistas e de exortação aos cristãos americanos para intercederem contra "as atitudes intolerantes e arrogantes dos Estados Unidos em relação à Nicarágua". O mesmo CEPAD fazia um trabalho de profundidade em favor da nova ordem instituída na Nicarágua, como mobilizar pessoas que não se dispusessem a empunhar armas, mas colaborar com os sandinistas como médicos, enfermeiros, dentistas, engenheiros e artífices em geral, afora apoio logístico, e só retrocedeu no seu plano quando foi ameaçado pelos contra, a facção remanescente do ditador Somoza que, do exterior, luta para derrubar o governo revolucionário.

As seitas pentecostais, a despeito dos reveses políticos, funcionam a pleno vapor na Nicarágua.

A Costa Rica sempre foi uma espécie de zona franca aberta às religiões, sobretudo pela multiplicidade de organizações transconfessionais dos Estados Unidos que fazem base no país para atuar na América Central e no Caribe, sobretudo as mais antigas, como a "Central American Mission" (CAM) e a "Latin American Mission" (LAM), ambas com sede em San José desde as primeiras décadas deste século. Outras poderosas faith missions, como a "Trans-Word Mission", ali ministram cursos de preparação de missionários para trabalho em várias nações centro-americanas, centralizando também o esquema financeiro de apoio às diversas entidades que operam na região.

Presentemente, 60 por cento dos protestantes costarriquenhos (cerca de 8 por cento da população do país) são pentecostais, sobressaindo-se a Igreja de Deus do Evangelho Completo com, aproximadamente, 250 casas de oração, a Assembléia de Deus, com mais de 200 e a Igreja do Evangelho Quadrangular, também com mais de 200 templos.

O Panamá é o país que tem o maior número de protestantes da América Latina, quase 14 por cento da população. Isso se deve à influência da ocupação americana da Zona do Canal, em 1904, e à imigração de trabalhadores negros das ilhas inglesas do Caribe, já convertidos à fé cristã, durante a época daquela obra. Mas as seitas pentecostais, que já eram 50 por cento dos protestantes do país em 1965, pularam para 71 por cento 20 anos depois, com possibilidade de alcançarem rápido os 90 por cento, devido à imensa força de seu proselitismo.

A Igreja do Evangelho Quadrangular é a mais forte e mantém mais de 300 casas de oração espalhadas pelo país, seguida da Assembléia de Deus.

 

SIMULAÇÃO LINGÜÍSTICA

 

A sede é em Huntington Beach, Califórnia, Estados Unidos. Aparentemente, o objetivo da organização, desde 1934, quando foi fundada por William Cameron Townsend, evangelical fundamentalista, é realizar a tradução da Bíblia em línguas e dialetos exóticos, especialmente indígenas, em várias partes do mundo. Mas o disfarce da entidade cultural esconde, na verdade, uma máquina poderosa que desenvolve o trabalho missionário do "Summer Institute of Linguistics Inc.", conhecido na América Latina pelo nome de "Instituto Lingüístico de Verano", organismo operacional da "Wycliffe Bible Translators Inc.". Toda a doutrinação é orientada pelo denominado" International Linguistics Center", associado à Universidade do Texas, em Dallas, que estabelece as diretrizes para as "School for Pioneers". No exterior, tais escolas podem ser encontradas também na França, Inglaterra, Alemanha Ocidental, Austrália, Japão e Coréia. Dados mais atualizados revelam que o grupo conta com cerca de 5 mil ativistas difundindo a Bíblia em quase 900 línguas e dialetos, em mais de 40 países. A penetração de missionários do grupo em regiões distantes e inóspitas, verdadeiras selvas, é de tamanha envergadura que, em 1963, seus dirigentes viram-se compelidos a fundar a "Jungle Aviation and Radio Service" para dar suporte logístico às suas atividades, empregando, então, pilotos, mecânicos, rádio-técnicos e outros funcionários, os quais, cumulativamente, dedicam-se ao proselitismo religioso. Os aviões e helicópteros da empresa têm a abreviatura JAARS pintada na fuselagem e é conhecida das torres controladoras de vôo por essa sigla em todo o mundo.

"O Instituto Linguístico de Verano" dispõe de fartos recursos para aplicação em seus programas na América Latina. Embora não se conheça com precisão o volume das disponibilidades que manipula, as cifras do custeio de operações dão uma idéia aproximada de sua magnitude. Com efeito, apurou-se que, em 1981, por exemplo, foram gastos 35 milhões de dólares na movimentação daquela gigantesca engrenagem em diversos países católicos latinos. O "Verano", em termos de pessoal ativo, é a maior missão religiosa dos Estados Unidos. Em sua órbita de ação, além da América Latina, estão ainda a Indonésia, Austrália, Nova, Zelândia e Filipinas e todo o Sudeste asiático não comunista. Para ampliar o alcance do seu raio de ação, espera incorporar mais 3 mil membros nos próximos 10 anos.

Sérios problemas já ocorreram entre a Igreja Católica e o "Instituto Linguístico de Verano" em algumas nações sul-americanas. Os Bispos de Lima, em certa ocasião, acusaram-no publicamente de usar subterfúgios para forçar a conversão de indígenas da Amazônia peruana. Mas, em 1979, a despeito dos protestos de inúmeros prelados, foi revalidado um acordo permitindo a permanência da entidade no país por 10 anos mais. Também no México, o “Verano" foi proibido oficialmente de funcionar desde 1978. Entretanto, os missionários americanos continuam a exercer livremente a catequese das populações indígenas mexicanas. A situação no Panamá e Equador não é diferente: vetado pelos governos, mas atuando sem ser incomodado, como em Honduras, Bolívia e Suriname.

Na Colômbia, onde Chester Allen Bitterman, missionário do "Verano", foi, após 8 semanas de seqüestro, abandonado morto pelos guerrilheiros do M-19, o governo, em 1974, pressionado pelo "Movimento para a Defesa da Cultura Nacional" , fez uma devassa nas atividades da entidade. A investigação, conduzida pelo inspetor-geral do Exército, general José Carlos Matallana, concluiu que o "Verano" constituía, de fato, grave ameaça à integridade cultural do país, como também à da Venezuela, Peru e Brasil, nações limítrofes. Contudo, um acordo feito pelo governo com a Embaixada americana deixou as coisas exatamente como estavam e irão ficar até 1995, prazo final do ajuste firmado. A mais grave acusação feita à "Wycliffe Bible Translators Inc.", a empresa tradutora de Bíblias para o "Verano", é a de adulterar os textos sagrados destinados às populações indígenas, enxertando-os com noções falsas relativas ao conceito de autoridade e à supremacia de raças, de modo a tornar os aborígenes mais dóceis e obedientes. São distorções grosseiras, apontadas por estudiosos da Bíblia em várias obras distribuídas pelo "Verano". Essa fraude é comumente associada a fantasiosas previsões de tragédias iminentes, tais como terremotos, erupções vulcânicas e vendavais, em terras que se pretendem sejam abandonadas pelos nativos, as quais, a seguir, são compradas a preço vil e tornadas objeto de exploração mineral ou criação de gado em economia de escala por corporações multinacionais.

O "Verano" envolve-se, ainda, em complicadas atividades paralelas à conversão com as Bíblias traduzidas pelo" Wycliffe" . Uma delas é a cooperação com forças militares na repressão à guerrilha, como no Peru, Bolívia e Colômbia. É acusada de fornecer consultores técnicos e guias para facilitar a penetração de tropas em áreas de difícil acesso ocupadas por guerrilheiros, identificando os grupamentos nativos que eventualmente possam colaborar com os insurretos. A isso chama de "pacificação" e as autoridades dos países que se têm beneficiado desse tipo de ajuda são unânimes em elogiar o know how do "Verano" no assunto.

Um general boliviano exilado nos Estados Unidos, falando a propósito dessa colaboração, afirmou que, como membro do aparato de repressão de seu país, tinha posição de comando no combate à guerrilha chefiada por Teoponte e pôde constatar, na ocasião, a eficiência do "Verano" nesse campo. Explicou que os missionários forneceram às tropas mapas da área de operação dos guerrilheiros de uma precisão incrível. Os militares receberam, inclusive, todos os dados sobre a composição étnica da população nativa e localização de fontes de produção, acompanhados de informações muito exatas sobre os grupos indígenas que apoiavam os guerrilheiros.

Ideologicamente, as equipes missionárias do “Verano" são visceralmente anticomunistas. Sua doutrinação estabelece mesmo uma ligação entre a ação diabólica de Satanás e o comunismo ateu e materialista. A pregação religiosa faz-se paralelamente ao proselitismo político, usando os estudos lingüísticos apenas para mistificar os dois objetivos. Em verdade, o trabalho do "Verano" é sectário e nada tem de científico, servindo tão somente para confundir e descaracterizar línguas, culturas e crenças dos povos indígenas, onde quer que seja desenvolvida. Carecem, todavia, de comprovação as acusações de que a entidade seja subvencionada pela Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. Embora as evidências sejam fartas, nada se provou de concreto até agora, conquanto necessitem também de explicação a enorme desproporção entre o dinheiro gasto pelo "Verano" para sustentar a sua gigantesca máquina e os modestos recursos obtidos com a simples venda da Bíblia em dialetos estranhos.

 

É importante observar a atuação desse tipo de organização pois, no Brasil, como veremos adiante, sua presença é marcante.

QUESTÃO DE PRESTÍGIO

 

Na América do Sul, não considerando o Brasil, objeto de estudo em separado, os grupos pentecostais crescem, em conjunto, a uma taxa anual de 14 por cento. Para melhor situar essa espantosa proliferação, parece-nos suficiente revelar que, no Chile, o pentecostalismo dispõe de quase 3 mil casas de oração e mais de 700 na Venezuela. De outra parte, sustentados pela Assembléia de Deus brasileira, centenas de missionários trabalham em evangelização, nos últimos anos, na Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia, Venezuela, Colômbia e Equador. A seita Testemunhas de Jeová tem muita penetração no Uruguai e Argentina, o mesmo acontecendo com a Associação do Espírito Santo para a Unificação do Cristianismo Mundial, a seita Moon, que montou em Montevidéu um verdadeiro império econômico, gerindo um banco, um jornal, uma editora, um hotel de turismo e a exploração do jogo permitida no país, de lá espalhando-se para o Paraguai, Bolívia, Chile e Brasil.

Os grupos pentecostais já conquistaram 15 por cento da população chilena, mas são os Mórmons, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que, a partir dos anos 80, começaram a disseminar-se com extraordinária rapidez, colocando-se em um bem posicionado terceiro lugar na preferência religiosa dos chilenos. Entretanto, quaisquer que sejam os desdobramentos do impasse institucional do país, os registros históricos não podem deixar de consignar, ao se analisar o problema das seitas, a luta travada nos bastidores da política da nação andina intimamente relacionada às suas mutações religiosas de maior atualidade. Na verdade, a Igreja Católica, há muito tempo, esforçou-se para estabelecer no Chile um amplo diálogo nacional que culminasse na volta do país à normalidade institucional, encerrando o terrível ciclo de violência, terrorismo e torturas. Mas, infelizmente, a pretendida solução negociada ficou prejudicada pela radicalização dos grupos em antagonismo e pelos interesses contrariados com a redemocratização. Muita coisa entrou em jogo. Envolveu principalmente, no meio católico, uma corrente poderosa, cuja força política vai até à interferência nas sucessões do Vaticano e que nunca esteve disposta a abrir mão do poder em benefício da almejada pacificação chilena.

A "Opus Dei" (Obra de Deus) é uma prelazia pessoal do Papa de âmbito internacional e uma ordem religiosa, segundo decretos de João Paulo II de novembro de 1982, que congrega em todo o mundo mais de 1 mil e 300 sacerdotes e cerca de 73 mil leigos, entre os quais banqueiros, homens de negócios e militares, pertencentes a, aproximadamente, 87 nacionalidades. Fundada na Espanha em 1928 por monsenhor Josemaría Escrivá de Balaguer, foi dirigida por ele até sua morte, a 25 de junho de 1975, quando foi sucedido por monsenhor Alvaro del Portillo. Somente em 1947 sua sede foi mudada de Madrid para Roma, mas o espírito da ordem continua a ser genuinamente espanhol. A partir de 1935, a "Opus Dei" começou a expandir-se na França e, desde então, nunca parou de crescer, incluindo em sua órbita Portugal, Inglaterra, Itália, Irlanda, Estados Unidos e México. Um novo programa determinou, em 1950, a continuidade do esquema de expansão, já agora com a instalação de sedes da prelazia na Holanda, Alemanha, Argentina, Canadá, Venezuela, Japão, Filipinas, Nigéria, Austrália, Quênia, Zaire, Costa do Marfim, Hong Kong e Brasil. A ordem goza inequívoco prestígio junto ao Vaticano, sob o pontificado de João Paulo II, desbancando os jesuítas de mais de quatro séculos na assessoria política da Santa Sé. Aliás, o relacionamento da "Opus Dei" com o Papa é antigo. Começou quando o cardeal Wojtyla ainda era arcebispo de Cracóvia, na Polônia, tendo publicado, inclusive, a coletânea dos seus discursos, contribuindo, assim, para melhorar sua imagem perante o colegiado que escolheria o sucessor de João Paulo I.

Os adversários chamam a "Opus Dei" de "Máfia Sagrada", certamente numa alusão crítica ao fato de estarem incluídas em seus estatutos de constituição cláusulas que proíbem seus membros de se desligarem da ordem após a iniciação e de revelar os nomes de outros membros ou admitirem sua condição de filiados. Os comunistas responsabilizam-na pela promoção, na Espanha, de uma verdadeira Inquisição contra os marxistas, maçons e liberais durante a ditadura Franco, período em que também assumiu a direção de várias universidades e chegou mesmo a controlar metade do governo falangista. A nível mundial, acusam-na de uma posição favorável a todos os governos totalitários de direita e de ser um prolongamento da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos, onde os católicos latinos pertencentes à ordem dividiriam com os europeus-orientais a vanguarda do serviço clandestino da CIA. Todavia, o que mais incomoda os inimigos da "Opus Dei" parece ser a ingerência que teria sobre 52 estações de rádio e de televisão, 36 agências noticiosas e 12 companhias filmadoras, bem como centenas de publicações em todo o mundo. Sem dúvida, um imenso potencial de fogo na área de comunicação.

No Chile, a "Opus Dei" complicou-se bastante numa novelesca seqüência de acontecimentos desde a queda do socialista Salvador Allende, protagonizada pelos militares leais a Pinochet, os tecnocratas do Instituto Geral de Estudos (IGS) que dominaram o governo, a polícia secreta DINA, a Igreja Católica, a CIA e o Departamento de Estado americano. Os lances mais emocionantes desse enredo foram vividos com o assassinato, nos Estados Unidos, dos exilados Orlando Letelier e Ronni Moffitt, executados por ex-agentes da CIA, com a autoria intelectual da DINA, e que a imprensa americana, com apoio de provas colhidas pelo FBI, procurou atribuir aos militares chegados a Pinochet, com o propósito claro de desacreditá-Ios ainda mais perante a opinião pública mundial. Nessa trama, ficou evidenciado o esforço dos tecnocratas do IGS, quase todos filiados à "Opus Dei", em incriminar a DINA que, em contra-ataque fulminante, neutralizou de plano pelo menos três personalidades pertencentes à ordem: Herman Cubillos, ministro das Relações Exteriores, foi assassinado; o presidente do jornal "EI Mercúrio", encontrado morto em circunstâncias misteriosas; e o editor do mesmo matutino recebeu uma carta-bomba pelo correio.

A “Opus Dei", orientadora do grupo do IGS que dominou o governo, naturalmente nunca admitiu nenhum movimento que pudesse desestabilizar e afastar Pinochet do poder, objetivo, aliás, implícito no diálogo nacional proposto pela Igreja Católica. Para a ordem, o ditador sempre foi a única garantia efetiva contra a dominação comunista do país, já esboçada no governo Allende. Enquanto isso, Pinochet, em represália à oposição da Igreja Católica, encorajou por todos os meios a disseminação das seitas no Chile. Escancarou-o, praticamente, aos pentecostais e Mórmons. Facilitou, por exemplo, o ingresso de missionários estrangeiros, concedeu-Ihes isenções tributárias em todos os empreendimentos e financiamentos, até, para a construção de templos. Em compensação, os pentecostais e Mórmons mantiveram seus crentes afastados da contestação a Pinochet. Assim, a penetração dos movimentos religiosos autônomos no Chile teve muito a ver com a grave crise vivida pela nação andina, como dissemos, essencialmente de natureza política. Finalmente, a preocupação com o crescimento das seitas na América Latina, ao contrário do que se possa supor, não é exclusiva da Igreja Católica. Também as igrejas protestantes históricas, em várias oportunidades, já manifestaram suas apreensões a respeito. O Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI), órgão que congrega as igrejas protestantes do continente, na "Carta do México", assinalou o fenômeno, com uma acusação incisiva:

“Devemos destacar, dolorosamente, o papel que desempenham alguns grupos que a si mesmos chamam de evangélicos, que surgem como seitas nos Estados Unidos, nutridos por dólares e interesses que nada têm a ver com a mensagem libertadora de Jesus Cristo e vêm penetrando em nosso continente, confundindo as pessoas humildes com a sua teologia evasiva, criando ressentimentos e suspeitas em relação do povo de Deus e exacerbando a ânsia de prestígio e poder de alguns líderes evangélicos que se têm prestado para destrutivas manipulações." O CLAI é considerado esquerdista por governos e instituições conservadoras, sobretudo dos Estados Unidos.