Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira
Comentários finais
Uma idéia central defendida neste trabalho é a de que a morte de Oswaldo Cruz foi o acontecimento dramático que propiciou sua heroificação. A morte redimiu todos os pecados, fazendo transcender o homem, libertando-o das contingências humanas que em vida o tornaram uma figura polêmica.
A mitificação de que Oswaldo Cruz foi objeto produziu um fenômeno surpreendente de esvaecimento das dissenções que acompanharam toda a sua trajetória de vida. Construía-se uma imagem idealizada pela omissão dos conflitos e, portanto, retiravam-se as reticências e suspendiam-se os julgamentos negativos suscitados a partir de sua atuação na vida pública.
É plausível imaginar que a abrangência e a universalidade pretendidas pelo discurso mitológico requeriam a transformação de Oswaldo Cruz numa figura consensual, estatuto de que nunca gozou em vida.
Se a princípio a morte gerou manifestações exacerbadas – como se depreende dos discursos fúnebres – e quase catárticas, originado o “culto à memória”, este perdeu o sentido original ao ser apropriado como um instrumento fundamental de organização da Liga Pró-Saneamento. Nesse sentido, deixou de ser um mito na concepção clássica de narrativa gratuita para tornar-se uma construção ideológica representativa da projeção de determinados interesses e aspirações. A partir deste momento pode ser identificado como uma ação voluntária e consciente, reconhecida por todos como um dos deveres dos discípulos, que se vêem investidos da missão de dar continuidade à obra do mestre.
Vale assinalar que embora o mito esteja relacionado à sobrevivência e à continuidade dos higienistas e cientistas cujo destino profissional estivera intimamente ligado ao Instituto de Manguinhos, o processo de construção não pode ser atribuído exclusivamente a estes, cabendo reconhecer o papel decisivo dos agentes de fora do círculo dos discípulos. Afinal, de que adiantaria proclamar os feitos heróicos de Oswaldo Cruz se tal atitude não ressoasse para além dos muros de Manguinhos?
A eficácia ideológica dependia da receptividade dos que não eram próximos e ocupavam uma posição institucional considerada concorrente. O consentimento destes médicos e o aval científico que emprestaram à figura de Oswaldo Cruz petrificaram a ideologia que se construiu em torno dele.
Procurei demonstrar que a morte de Oswaldo Cruz forneceu aos médicos um trunfo que souberam capitalizar eficientemente no sentido de promover a solidarização do grupo e, ao mesmo tempo, impulsionou a projeção de que o movimento sanitarista necessitava. Como compreender a imagem de salvador atribuída a Oswaldo Cruz sem que a relacionemos ao contexto histórico do pós-guerra, marcado por um forte movimento nacionalista que se traduzia pela idéia de construir um projeto de salvação nacional? Como deixar de associar as críticas presentes no ideário da Liga Pró-Saneamento relativas à ausência estatal no campo da saúde à crise do regime oligárquico, velada ou abertamente contestado pelas diferentes correntes nacionalistas?
A Liga Pró-Saneamento apresentava propostas de reformulação do setor estatal no campo da saúde como uma alternativa política de transformação da sociedade no sentido de alcançar o progresso, cujo principal trunfo era a ciência. Esta constituía o fundamento essencial do projeto de nação esboçado pelos médicos e higienistas, sendo-lhe reservada a tarefa de reordenar o Estado e a sociedade.
Entendida como um processo de centralização, a reforma do Estado era tida como uma medida necessária, ante a fragmentação do país em estados autônomos e ao poder das oligarquias locais. Ganha corpo naquele momento a concepção de que a gerência do Estado deveria ter à frente uma burocracia selecionada de acordo com critérios de competência científica e técnica. Ou seja, apenas com a mediação da ciência, em particular da higiene, poderia o Estado sobrepor-se aos interesses particulares e promover a construção nacional.
Deste ponto de vista, o mito de Oswaldo Cruz pode ser comprometido como uma espécie de credenciamento que os médicos precisavam obter para participar do debate sobre a construção da nação, que marcou aquele contexto após a Primeira Guerra Mundial. Creio que podemos até imaginá-lo como um bilhete de ingresso para o mundo da política. Isto é, os médicos e higienistas colocavam-se como atores legítimos na discussão, apresentando-se como candidatos autorizados para liderar o projeto de modernização do país, objeto da luta simbólica e política que se travava entre diferentes setores sociais e facções políticas.
Vale recordar que as imagens que compõem o mito de Oswaldo Cruz e que foram identificadas neste trabalho – a do saneador do Rio de Janeiro e a do fundador da medicina experimental no Brasil – marcam um ponto central: a face pública de Oswaldo Cruz. Esta é uma das chaves para compreender este enigma. A exploração deste aspecto evidencia, conforme procuramos demonstrar no capítulo 4, a estratégia de reconhecimento engendrada pelo movimento sanitarista, que recorre à ideologia da utilidade social da ciência, de cujos benefícios fartos exemplos haviam sido proporcionados por Oswaldo Cruz, de quem se julgavam herdeiros e continuadores da missão salvacionista por ele iniciada.
Nesse sentido, situamos também de forma mais apropriada o exagero verbal que caracteriza os textos consultados. Pode-se argüir se esta forma enfática de expressão não constituía antes um vezo, um gosto, quase uma característica do ambiente intelectual da época; é provável que este fosse o estilo retórico próprio daquele momento. Contudo, creio que o excessivo do discurso não se explica pelo estilo, e encontra um sentido mais adequado na necessidade de legitimação da ciência, tanto mais eloqüente quanto menor o seu espaço de reconhecimento social.
De nosso ponto de vista, o mito de Oswaldo Cruz é um fenômeno ideológico de natureza cientificista, que traduz, no contexto brasileiro, os anseios e os interesses de um grupo científico de ver reconhecida a sua atividade profissional e seu papel social enquanto intelectuais.
Uma auto-imagem para o grupo sanitarista e médico institui-se a partir da definição de ciência como atividade prática produtora de verdades úteis à sociedade, definição que Oswaldo Cruz encarnou segundo o discurso mitológico. Trata-se, enfim, de uma forma de legitimação do discurso científico que precisou apelar ao universo simbólico para obter o convencimento necessário à sua institucionalização.
Nesse sentido, ele pode ser considerado um agente de mediação dos ideais científicos e das aspirações políticas, vez que estabelece de forma direta a identificação entre Oswaldo Cruz e os continuadores de sua obra científica e de sua ação social, de maneira que à imagem ideal de um corresponde a dos outros.
Instaurar sentimentos de identidade e de solidariedade é a função do mito do herói salvador, que deve ser compreendido como “um agente de socialização das almas” (Cf. Girardet, 1987).
É possível entender o movimento de culto à memória como o ponto de partida de um longo processo que extrapolou o tempo e as circunstâncias de seu nascimento. Se Oswaldo Cruz foi utilizado naquele momento pelo movimento sanitarista, daí para a frente passou a encarnar os ideais de todos os cientistas e sanitaristas, mesmo daqueles que não tinham alguma proximidade com suas propostas.
Ao pensarmos na galeria dos heróis que compõem o nosso panteão cívico, podemos avaliar a força desta ideologia que extravasou o tempo e chegou aos nossos dias. Entre tantos políticos e militares que constituem a maioria dos heróis nacionais, Oswaldo Cruz desponta solitariamente nesse panteão como o único representante da ciência brasileira, e não somente da medicina, realizando a façanha de extrapolar os limites estreitos de uma única disciplina.