Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira
3. Como prosseguir sem Oswaldo Cruz?
3. Como prosseguir sem Oswaldo
Cruz?
Em seu discurso pronunciado na solenidade de homenagem à delegação médica argentina que visitou Manguinhos em junho de 1917, Carlos Seidl, diretor da Diretoria Geral de Saúde Pública, apelou para a união e a coesão não apenas dos jovens pesquisadores que trabalhavam com Oswaldo Cruz, “mas de todos quantos amam o progresso científico do país, colocando-se à sombra da frondosa árvore” plantada por Oswaldo Cruz em Manguinhos. Esta atitude representaria o fortalecimento de todos, além de realizar o desejo de Oswaldo Cruz, “arauto da confraternização e solidariedade entre os médicos (Seidl, 1917:323).
Segundo Seidl, Oswaldo Cruz morrera insatisfeito, pois não conseguira sanear todo o Brasil e, mesmo na capital, não pudera resolver vários problemas de higiene. Assim, dever-se-ia continuar a cumprir o seu desejo. Por isso, Seidl convocava, em especial, os discípulos, a quem considerava responsáveis pelo legado científico de Oswaldo Cruz, a unirem-se em torno de Carlos Chagas, herdeiro do seu posto e seu continuador.
Mas, indaga-se Carlos Chagas, como prosseguir sem a presença de quem, mais do que um simples diretor de uma instituição, representava um líder que a todos orientava e dirigia? Chagas exprime os sentimentos que o dominavam então:
Quando regressamos à nossa casa de trabalho, após haver
deixado na paz definitiva de um sepulcro o querido mestre,
trazíamos na alma, com a mágoa infinita de uma saudade, o
desalento de uma incerteza e a previsão de dificuldades nunca
experimentadas (Chagas, 1917:19).
Em diversos pronunciamentos feitos nesse período, sobressai a mesma preocupação com a defesa do patrimônio científico construído por Oswaldo Cruz. Os depoimentos, no entanto, não esclarecem os motivos das incertezas e dificuldades vividas pelo Instituto Oswaldo Cruz.
Aparentemente, a escolha de Carlos Chagas para ocupar o cargo de diretor do Instituto teria apenas oficializado uma situação de fato, que não somente correspondia ao desejo de Oswaldo Cruz, como também decorria de um encaminhamento natural dado pela projeção adquirida por Chagas, autor de uma descoberta científica significativa – a tripanossomíase americana, que acabou batizada com o seu próprio nome: mal de Chagas. Portanto, a sua nomeação parecia garantir o prestígio e a continuidade do Instituto Oswaldo Cruz. Qual era então o problema?
O obstáculo a que não se referem explicitamente os pronunciamentos considerados deveu-se ao acirramento de antigas dissidências no Instituto, agravadas com a morte de Oswaldo Cruz e com a escolha de Chagas para sucedê-lo.
Em que pese o silêncio sobre o assunto, foi possível investigar um pouco mais a fundo esta questão. Para tanto, recorremos aos documentos pessoais de um dos discípulos, o cientista Artur Neiva, e também a alguns depoimentos orais obtidos de antigos pesquisadores do Instituto.
O Arquivo de Artur Neiva contém uma extensa correspondência dirigida a ele por vários membros do Instituto Oswaldo Cruz, cujas peças tratam, entre outros assuntos, dos vários conflitos vividos na instituição desde a sua criação.
O uso destas fontes foi fundamental, pois, como afirma um dos cientistas entrevistados, o fisiologista Mário Viana Dias, o assunto era tabu, e não consta de nenhum documento oficial. Ele próprio, que não vivera o período a que nos referimos, diz ter tomado conhecimento “ouvindo a tradição de Manguinhos, cultivada
oralmente por seus membros” 32.
No inventário de conflitos vividos no Instituto Oswaldo Cruz, um dos episódios marcantes ocorreu em 1910 com a realização de um concurso interno para o preenchimento da vaga de Henrique Rocha Lima, que, após um longo período de afastamento do Instituto para realizar estudos na Alemanha – onde permaneceu até o início dos anos 1920 –, pediu exoneração do cargo de chefe de serviço.
Nas cartas que Rocha Lima enviou a Neiva, verifica-se uma acirrada crítica a Oswaldo Cruz, com quem rompera uma antiga relação de colaboração e amizade por causa da sua exoneração. Segundo Rocha Lima, Oswaldo Cruz cometera um grave erro na condução do processo de seleção de quem o substituiria na chefia de serviço, que, em sua opinião, fora organizada de modo a permitir a escolha de Carlos Chagas, pois o critério utilizado baseara-se unicamente na publicação de trabalhos.
Esta forma de avaliação foi considerada imoral por Rocha Lima, porque, desde o início, o trabalho no Instituto se organizara sem estabelecer especializações. Os pesquisadores eram alocados fortuitamente para desenvolver pesquisas com temas variados, situação que gerou desigualdades entre eles. Por isso, argumenta Rocha Lima, era impossível distinguir o mérito científico individual, uma vez que o trabalho desenvolvera-se de forma coletiva e “anônimo, sacrificando esterilmente” os esforços individuais.
Reprova ainda Rocha Lima, na seleção, a forma de aferição dos trabalhos em que os pesquisadores conferiam notas uns aos outros, o que considerava um absurdo, pois este procedimento não levava em consideração as limitações de cada um para avaliar uma gama
tão grande de assuntos 33.
Rocha Lima considerava impossível avaliar as diferenças de mérito científico, saber quem era superior ou inferior cientificamente, pois não se pode exigir de “quem se ocupa de sistemática zoológica descubra a cura do câncer ou a quadratura do círculo”. Além disso, “não havia como distinguir a diferença entre quem descobre a filária ou o tripanossoma no sangue, um mosquito ou um jacaré no mato”. Para Rocha Lima, a preferência de Oswaldo Cruz por Carlos Chagas comprometera o processo, pois ele usara de um meio artificial com o propósito de privilegiar aquele pesquisador, prejudicando os que, em sua opinião, haviam prestado serviços relevantes ao Instituto Oswaldo Cruz. No terreno da preferência, Rocha Lima deixa clara a sua opção: Henrique Aragão possuía
méritos superiores aos de Carlos Chagas34.
Rocha Lima declara que sua revolta não era provocada pela escolha de Chagas, mas pelo que lhe pareceu “hipocrisia e jesuitismo” de Oswaldo Cruz, que poderia ter manifestado abertamente a sua preferência, defendendo através de meios justos a sua vontade, que indubitavelmente prevaleceria. Além disso, considera que o mérito científico poderia ter sido utilizado desde que não se impusesse a classificação, devendose incluir na avaliação outros fatores de ordem moral e intelectual.
Na opinião deste pesquisador, a ocupação do cargo de chefe de serviço não necessariamente significava uma indicação futura para a direção do Instituto. Contudo, acredita que foi esta seleção que garantiu a nomeação de Chagas anos mais tarde.
Na avaliação de Rocha Lima, o processo de seleção e o comportamento de Oswaldo Cruz tiveram como conseqüência o aprofundamento de cisões internas. Chega a pôr em dúvida o caráter de Oswaldo Cruz, afirmando que ele procedia de acordo com a máxima “dividir para reinar”, estimulando intencionalmente as disputas e os conflitos entre os pesquisadores, o que criou no Instituto um ambiente de intrigas e maledicências (Rocha Lima, carta 9, de 1912, Arquivo Artur Neiva).
Ao longo desta correspondência, que se estende de 1910 a 1912, Rocha Lima mostra-se profícuo em críticas severas que atingiam pessoalmente o diretor do Instituto. Acusa-o de mesquinho por impedir a projeção e qualquer manifestação de independência por parte dos pesquisadores. Reinava na instituição o sistema do absolutismo e do mistério, caracterizando-se o ambiente como o de uma corte medieval (Rocha Lima, carta 9, 1912, Arquivo Artur Neiva).
Não raro este cientista recorre a expressões depreciativas, referindo-se ao Instituto como o lugar onde vigia a “política de odaliscas em torno do sultão”. Numa linguagem por vezes destemperada acusava Oswaldo Cruz de onipotente, chamando-o de rei, todo-poderoso, entre outros qualificativos bastante fortes (Rocha Lima, carta 9, de 1912, Arquivo Artur Neiva).
Rocha Lima acusava Oswaldo Cruz de incitar a discórdia entre os pesquisadores em vez de combater “a tendência à chicana e à politiquice comum nos sul-americanos”. E, por ser extremamente vaidoso, gostava de fazer os outros de capacho, promovendo a adulação em torno de si (Rocha Lima, cartas 1, de 1910, 6 e 7, de 1911, Arquivo Artur Neiva).
Como se pode depreender desta correspondência, o desligamento de Rocha Lima da instituição fora interpretado como um ato de ingratidão de sua parte para com Oswaldo Cruz, o qual deixara-se envolver pela inveja de alguns pesquisadores que procuravam detratá-lo. Sentindose vítima desta situação, denuncia a divisão da instituição em grupos, o que gerava uma atmosfera de desafeto e desconfiança entre os pesquisadores, sendo este o maior problema do Instituto. Entre a mágoa e a raiva, Rocha Lima desabafa numa carta a Artur Neiva:
Eu caí no desagrado, mas estou fora do alcance do rei. Este
tem prazer em apontar o antigo servidor como ingrato: os
demais cortesãos têm uma boa ocasião de mostrar dedicação e
evitar a volta do outro; transformam este em inimigo do rei e do
país e vivem defendendo o rei e a pátria, atacando quem
anteriormente ocupava uma parte das boas graças reais. Isto
explica tudo. É humano, muito humano. Em um instituto
científico do século atual podia isto ser evitado (Rocha Lima,
carta 9, de 1912, Arquivo Artur Neiva).
Havia em Manguinhos um grupo de pesquisadores – entre os quais Rocha Lima cita nominalmente Figueiredo de Vasconcelos e Antônio Cardoso Fontes – que podiam ser considerados como “membros da corte celeste” e apoiavam quase incondicionalmente todas as atitudes de Oswaldo Cruz. Numa carta aos amigos Artur Moses, Artur Neiva e Gomes de Faria, Rocha Lima aconselha-os a terem cautela e arranjarem meios de “resistir passivamente à oligarquia dominante” em Manguinhos. Para Rocha Lima, a sua demissão desmascarava o meio em que viviam, não devendo os amigos confiar em Oswaldo Cruz ou iludir-se com os ideais de ciência professados no Instituto (Rocha Lima, carta 3, de 1910, Arquivo Artur Neiva).
Na entrevista que concedeu ao Programa de História Oral, o cientista Lobato Paraense afirma que houve muita confusão no Instituto.
Considera que “a primeira onda contra Oswaldo Cruz” foi motivada pela produção da vacina contra a peste da manqueira. Segundo o seu depoimento, este foi o primeiro grande desentendimento que envolveu Oswaldo Cruz e deu origem à formação de grupos que entraram em conflito sobre a forma como se deveriam aplicar os lucros auferidos com a comercialização da vacina descoberta por dois pesquisadores, Alcides Godoy e Astrogildo Machado, que cederam a patente ao Instituto.
O conflito instalou-se quando Oswaldo Cruz estabeleceu que os royalties da vacina pertenciam aos descobridores. Houve então o dissídio: um grupo apoiou a decisão tomada por Oswaldo Cruz; outro achava que o lucro deveria ser investido na compra de material para os laboratórios; e uma terceira posição defendia que os lucros fossem distribuídos eqüitativamente entre os
pesquisadores sob a forma de um aumento salarial35. Questionava-se ainda a legitimidade de propriedade de um produto desenvolvido numa instituição pública.
Nesta sucessão de episódios, destaca-se mais um: o caso Moses, que ocorreu entre os anos de 1915 e 1916. Artur Moses ingressou no Instituto e permaneceu por muitos anos interinamente no cargo que ocupava. Tentou resolver a sua situação através de um requerimento ao Congresso Nacional, onde pedia a dispensa de concurso público para se tornar membro efetivo do Instituto Oswaldo Cruz, valendo-se, como argumento, do tempo que trabalhara como interino, e acrescentando à exposição de motivos uma carta de Oswaldo Cruz em que este declarava a sua competência e probidade científica.
Sem esboçar nenhuma reação aparente ao encaminhamento de Artur Moses, Oswaldo Cruz, no final do ano de 1915, anunciou a realização de um concurso interno, a que vários candidatos se apresentaram. A vaga disponível anunciada era a que Moses pleiteava. Lançando-se num complicado jogo político, Oswaldo Cruz perdeu a princípio, pois o Congresso aprovou uma lei efetivando Artur Moses sem a exigência de concurso.
Segundo os depoimentos, a situação era bastante difícil, porque a lei fora apresentada sob a forma de emenda na chamada cauda orçamentária, que impedia o veto presidencial. Oswaldo Cruz recusou-se a cumprir a lei, defendendo as normas internas do Instituto que previam a realização de concurso para o preenchimento de vagas. Além disso, ameaçou abandonar a direção caso o ministro e o presidente da República não tomassem o seu partido. A decisão de Oswaldo Cruz foi apoiada por vários pesquisadores que afirmaram que seguiriam a atitude do diretor, demitindo-se da instituição.
Através da correspondência de pesquisadores do Instituto com Artur Neiva – que então trabalhava em Buenos Aires – tem-se a impressão de que Oswaldo Cruz, ao tomar conhecimento do estratagema de Moses junto ao Congresso Nacional, reagiu ardilosamente, anunciando a realização do concurso, o que lhe permitiu dispor de um argumento legal para bloquear as pretensões
do pesquisador36.
O caso ganhou as páginas dos jornais e dividiu a opinião leiga e médica. Segundo a correspondência em que Olímpio da Fonseca põe Artur Neiva a par dos acontecimentos, os jornais defenderam a atitude de Oswaldo Cruz; a maioria da opinião leiga e culta da cidade lhe era favorável. Já a classe médica dividira-se, apesar de a maioria apoiá-lo. Alguns julgavam que a lei devia ser respeitada, mesmo que disso resultasse a demissão do diretor. Não faltou a oposição aberta, que qualificou a atitude de Oswaldo Cruz como perseguição e despotismo de sua parte.
A polêmica encerrou-se sem que Oswaldo Cruz cumprisse a lei, e, tampouco, tivesse que se demitir. E Artur Moses foi nomeado para um cargo em órgão do Ministério da Agricultura, deixando definitivamente o Instituto Oswaldo Cruz.
O episódio, porém, arranhou a imagem da instituição e deixou marcas irremediáveis nas relações internas, já tão fragilizadas. Como avalia Olímpio da Fonseca, o caso expôs publicamente “as lutas e divergências” insuspeitadas até então, provocando má impressão entre a classe médica. Além disso, o Instituto, que sempre se mantivera fora do alcance da intervenção política, passava a ser ameaçada por ela. Outra conseqüência foi o agravamento das dissensões internas, que ecoou por muitos anos
depois 37.
Possivelmente, a profundidade da repercussão interna do fato deveuse ao prestígio de que Artur Moses gozava no meio médico e, em especial, entre os pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz. Em diversos depoimentos há declarações a respeito da seriedade e competência científica que ele revelara desde quando entrara para o Instituto.
De meu ponto de vista, não ficaram esclarecidos os motivos que levaram Oswaldo Cruz a não efetivá-lo no cargo. Consta que não nutria nenhum sentimento de simpatia por aquele pesquisador, e decerto essa predisposição agravou-se a partir do momento em que Artur Moses resolveu enfrentá-lo, recorrendo a meios políticos para ser efetivado no Instituto.
A morte de Oswaldo Cruz em 1917, que encontra as relações internas do Instituto inteiramente deterioradas, contribuiu para aprofundar o clima de intrigas já instalado.
Conforme a versão oficial, Carlos Chagas fora nomeado para a direção como uma decorrência natural da posição de destaque que ocupava no Instituto em função de sua descoberta científica. Além do mérito, Carlos Chagas gozaria da preferência de Oswaldo Cruz, sendo mencionado em alguns depoimentos como o discípulo bem amado que já tinha sido escolhido para sucedê-lo desde o concurso de 1910 para a vaga de chefe de serviço no lugar de Rocha Lima.
Carlos Chagas Filho sugere que na escolha de Carlos Chagas interferiu o fato de então encontrar-se na presidência da República o mineiro Venceslau Brás, que, entre outros possíveis candidatos, optou por um pesquisador de origem mineira.
Pudemos, contudo, verificar que se este era o partido tomado por Oswaldo Cruz e, afinal, o que prevaleceu, havia outros pontos de vista, e como vimos até aqui, não existia um consenso incondicional a respeito das diretrizes adotadas pela direção. Ao contrário, os relatos sobre a vida institucional sugerem que, diante dos conflitos internos e da formação de oposições esporádicas à condução que imprimia à direção do Instituto, Oswaldo Cruz conseguia manter um equilíbrio frágil baseado em sua autoridade científica, que, ao que parece, era preservada e respeitada por todos.
Quanto à sucessão, pelo menos dois antigos pesquisadores ambicionavam ocupar o cargo de Oswaldo Cruz. Eram eles: Figueiredo de Vasconcelos e Antônio Cardoso Fontes.
Não há qualquer registro que explique com detalhes esta questão. Entretanto, encontramos nos depoimentos orais algumas referências importantes a respeito de uma acirrada disputa que agravou a dissensão já existente.
Comenta-se que a morte de Oswaldo Cruz era prevista, e os embates iniciaram-se muito antes de o fato ocorrer; apenas, enquanto ainda vivo, ele representava um fator de estabilização. O seu desaparecimento selou a cisão interna. Conforme pudemos verificar, os conflitos continuaram envolvendo Carlos Chagas, que atraiu contra si uma forte oposição, resistente a subordinar-se à sua liderança.
O primeiro rompimento de que tivemos conhecimento foi entre Carlos Chagas e Artur Neiva, logo após a morte de Oswaldo Cruz. Depois do período em que trabalhou na Argentina, Artur Neiva fora convidado pelo estado de São Paulo para chefiar a diretoria do serviço sanitário. Assumiu o cargo no final do ano de 1916, sem exonerar-se do Instituto Oswaldo Cruz. Foi nesta posição que Artur Neiva rompeu com Carlos Chagas durante o ano de 1917. No trecho da carta enviada a Carlos Seidl, que reproduzimos a seguir, Artur Neiva explica ao dire-tor da Diretoria Geral de Saúde Pública os motivos do desentendimento:
Ontem recebi uma carta do Chagas, longa e nervosa, e onde o
ilustre diretor do Instituto Oswaldo Cruz rompe comigo as
relações de cordialidade, mantidas há cerca de 20 anos, e isto,
segundo me informa, em conseqüência do meu modo de
pensar a respeito da direção do Instituto, segundo conversa que
mantive com o dr. Carlos Seidl. Mantenho o que disse: sou de
opinião que nenhum diretor de um Instituto congênere ao do
Oswaldo Cruz, em parte nenhuma do mundo, clinica. Como me
compunge falar de Manguinhos! Oxalá que a memória do
Oswaldo inspire os seus discípulos, a fim de que a harmonia
volte ao seio do Instituto, sem o que será impossível sustentar a
tradição gloriosa que o nome de Manguinhos representa (Artur
Neiva, carta de 18 de junho de 1917, Arquivo Artur Neiva).
Não fica muito claro, mas, ao que parece, Carlos Seidl envolvera-se na questão, contando a Carlos Chagas a posição de Artur Neiva. O objetivo da carta é o de inteirar Carlos Seidl de que ele, Artur Neiva, já estava ciente da intriga, e reiterar a sua opinião.
Conforme pudemos verificar na documentação do arquivo pessoal de Artur Neiva, o dissídio com Chagas aprofundou-se devido a outro motivo: ambos disputaram a indicação para a Diretoria Geral de Saúde Pública junto com Rodrigues Alves, eleito para o segundo mandato presidencial em novembro de 1918.
Em carta a um amigo argentino, Artur Neiva comenta que a administração de Carlos Chagas atraíra a oposição “da velha guarda do Oswaldo, com exceção do Godoy”. Refere-se à disputa entre eles sem mencionar o seu teor, dizendo que este pretendeu mantê-lo afastado da arena, destituindo-o da função de secretário do Congresso de Microbiologia e Higiene, que se realizaria em julho de 1918 no Rio de Janeiro. Caso reagisse, ele, Neiva, criaria uma situação de tensão com o presidente do Congresso, Miguel Couto, o que agradaria Carlos Chagas. Ao final declara não ter se preocupado com o fato, e que estava se “preparando para ganhar a batalha final” (Artur Neiva, carta de 7 de setembro de 1918, Arquivo Artur Neiva).
Como sabemos, o presidente Rodrigues Alves não chegou a tomar posse: morreu em janeiro de 1919, vitimado pela gripe espanhola, epidemia que assolou o Rio de Janeiro durante o segundo semestre de 1918.
Segundo o que relata nesta carta, Artur Neiva havia sido escolhido para dirigir a Diretoria Geral de Saúde Pública, tendo apresentado, inclusive, um projeto de reformulação da saúde pública brasileira (Artur Neiva, carta de 17 de abril de 1919, Arquivo Artur Neiva).
A tragédia não permitiu a ascensão de Artur Neiva, abrindo espaço político para a indicação de Carlos Chagas no novo governo de Epitácio Pessoa. Chagas assumiria logo depois a direção do novo órgão de saúde criado em 1920, o Departamento Nacional de Saúde Pública, que substituiu a Diretoria.
Se até o caso Moses os conflitos permaneciam intramuros, com a morte de Oswaldo Cruz se tornaram públicos. Foi o que aconteceu com Carlos Chagas a partir de então, que enfrentou os seus desafetos em polêmicas públicas como a que ocorreu na Academia Nacional de Medicina.
Figueiredo de Vasconcelos e Henrique Aragão, contando com o apoio do famoso catedrático e higienista Afrânio Peixoto, contestaram a exclusividade da autoria da descoberta científica que Carlos Chagas fizera. Advogaram a tese de que Oswaldo Cruz participara da experiência, devendo, por isso, também ser considerado autor. Assim, postularam a retificação do nome da doença, que deveria chamar-se doença de Cruz-Chagas.
Além disso, colocaram em dúvida o perfil epidemiológico da doença, afirmando que Carlos Chagas superdimensionava a sua extensão no território brasileiro para conferir maior importância à sua descoberta. Conforme estes médicos, a tripanossomíase americana estava circunscrita a uma pequena região do interior de Minas Gerais.
O desenvolvimento posterior de estudos desta doença provou a correção das observações de Carlos Chagas. Na Academia Nacional de Medicina, no entanto, a discussão prolongou-se por alguns anos, de 1919 e 1922, com as opiniões dividindo-se pró e contra Chagas. Este defendeu-se usando até mesmo uma carta do filho de Oswaldo Cruz, Bento Cruz, que, em nome da família, declarou as acusações sem qualquer fundamento. Nesta carta, Bento Cruz afirmava que o pai fora o primeiro a reconhecer a
exclusividade da descoberta que Chagas fizera38.
Chagas acusava os seus detratores de agirem sem nenhum conhecimento do assunto: falavam sem haverem desenvolvido nenhuma experiência empírica que contrariasse as suas conclusões. Tanto ele quanto o seu defensor público na Academia Nacional de Medicina, o médico e, nesse momento, deputado federal pela Bahia, Clementino Fraga, incitam esses detratores a apresentarem provas que refutassem os dados de Carlos Chagas. É evidente que a polêmica era bastante delicada, envolvendo a relação de Carlos Chagas com o seu mestre: punha-se em dúvida o comportamento ético e moral de Carlos Chagas, com a intenção nítida de comprometer a sua probidade e capacidade científica.
O argumento que procuramos desenvolver, sumariando o passado de conflitos vividos em Manguinhos, é o de que a morte de Oswaldo Cruz acarretou dificuldades para a instituição que não apenas provocaram arranhões em sua imagem mas, sobretudo, colocaram em risco a sua sobrevivência. Até então ela se organizara e se mantivera em torno do prestígio de Oswaldo Cruz. Mesmo que, como afirmam alguns depoimentos, não tivesse mais contado com apoios políticos após a presidência de Rodrigues Alves, ele conseguira conservar o prestígio que alcançara com o saneamento da cidade do Rio de Janeiro.
Segundo versão unânime de seus biógrafos, Oswaldo Cruz capitalizou este prestígio investindo-o no Instituto de Manguinhos desde o início. Há testemunhos de que quando a febre amarela declinou na cidade, por volta de 1905-1906, Oswaldo Cruz desviou verbas do Serviço Especial de Febre Amarela para ampliar as instalações do Instituto, dando origem ao monumento arquitetônico que ainda hoje verificamos.
Como então continuar e administrar um patrimônio científico construído em bases tão personalistas? Como o Instituto Oswaldo Cruz poderia ter assegurados recursos e autonomia administrativa e, mais do que isto, garantir ascendência política e legitimidade científica sobre os rumos da saúde pública, quando até aquele momento esta posição de liderança estava identificada com a imagem de um único homem?
Interna e externamente, tudo se passava como se o desenvolvimento de Manguinhos se devesse à genialidade e ao tino político e administrativo de Oswaldo Cruz. Aliás, o depoimento de Rocha Lima acentua esse aspecto, considerando o personalismo cultivado por Oswaldo Cruz um obstáculo ao florescimento de outras lideranças que porventura viessem a lhe fazer sombra.
Por outro lado, esta história personalizada pode encontrar uma hipótese explicativa na própria forma como Oswaldo Cruz irrompeu na cena pública em 1903, quando na Diretoria Geral de Saúde Pública assumiu posições que tiveram repercussão política grave, cujo ponto culminante foi o conhecido episódio da Revolta da Vacina. Não obstante a oposição, Oswaldo Cruz tornou-se a autoridade máxima, ditando os rumos da saúde pública, sustentado politicamente pelo governo de Rodrigues Alves.
Seja pela personalidade de Oswaldo Cruz, seja pela concorrência de certas circunstâncias que o conduziam ao centralismo, este estilo marcou a história do Instituto. É plausível imaginarmos que uma liderança deste tipo inviabiliza o seu reconhecimento entre os pares – e Rocha Lima menciona a displicência com que Oswaldo Cruz tratava as intrigas e facções, estimulando-as com o seu comportamento omisso, o que, no limite, comprometia a possibilidade de sua sucessão contar com qualquer consenso. Quem poderia reunir as condições para conduzir as articulações necessárias à manutenção de Manguinhos?
Este foi o dilema vivido pelos pesquisadores do Instituto após o desaparecimento de Oswaldo Cruz. A questão que se colocava para este grupo era a de garantir o reconhecimento de sua própria competência intelectual e beneficiar-se do prestígio de que Oswaldo Cruz e, por extensão, Manguinhos, haviam gozado até então. Mas como fazer diante da fragmentação que dilacerava o Instituto e se agravara com a morte de seu fundador, de que é exemplo a polêmica contra Chagas encabeçada por Figueiredo Vasconcelos?
32 As entrevistas utilizadas foram realizadas entre os anos de 1986 e 1989 pelo Programa de História Oral da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz. São elas: Mário Viana Dias, Carlos Chagas Filho e Lobato Paraense.
33 O trecho a seguir expressa a indignação do cientista quanto ao método adotado: “Onde é que se viu a idéia de fazer uma classificação oficial de méritos individuais em um meio de indivíduos destinados a trabalhar juntos? Haverá um meio melhor de produzir desunião e descontentamento? Se ao menos fosse um meio de escolha justo, um meio mais perfeito, mais objetivo, ainda haveria uma desculpa. Mas um processo no qual mesmo com a máxima seriedade é completamente impossível haver eqüidade, pela diversidade de assuntos e pela manifesta incapacidade de uns julgadores em muitos dos assuntos julgados, não tem justificativa alguma.” (Rocha Lima, carta 4, de 1910 (?), Arquivo Artur Neiva).
34 Relembrando o desempenho de Aragão, Rocha Lima aproveita para reforçar a importância do trabalho coletivo no desenvolvimento de Manguinhos “(...) há maior imoralidade do que anular o valor do trabalho insano e anônimo de quem como o Aragão em época de organização do Instituto, durante a transformação da fábrica de soro em um Instituto científico, sacrificou um esforço colossal nessa obra? Em 1903, quando o Oswaldo deixou o Instituto, só havia ali quem soubesse preparar o soro e contar glóbulos de sangue. Era toda a ciência do Instituto (...). Terá Oswaldo o poder milagroso de sozinho, vindo durante algumas horas conversar e ver obras do Instituto, transformar a fábrica de soro em um meio científico de primeira ordem? Ou para isso contribuiu eficazmente um pequeno grupo de indivíduos dedicados e trabalhadores, que, em vez de se encaixarem em uma especialidade e procurarem publicar o máximo de trabalhos possível como nos Institutos já organizados, despenderam todo o esforço em desenvolver o núcleo científico do Instituto em todos os sentidos” (Rocha Lima, carta 4, de 1910 (?), Arquivo Artur Neiva).
35 A propriedade da vacina consta de relatório do Instituto Oswaldo Cruz, datado de 14 de fevereiro de 1912, em que Oswaldo Cruz elogia o desprendimento e o altruísmo do Dr. Godoy por ter este aberto mão, em favor do Instituto, dos proventos que podia auferir com a venda de seu invento. Segundo este relatório, Alcides Godoy impôs a condição de que o produto das vendas fosse aplicado diretamente em benefício do Instituto, favorecendo a aquisição de livros e a publicação da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (Relatório do Instituto Oswaldo Cruz, 1911). Segundo Benchimol (1990), a doença era muito comum em vários estados brasileiros e na América do Sul. A vacina foi desenvolvida a partir de uma solicitação feita a Oswaldo Cruz por produtores mineiros. Ezequiel Dias e Rocha Lima incumbiram-se dos primeiros estudos, e, a partir de 1905, Alcides Godoy tornou-se o único responsável.
36 Arquivo Arthur Neiva. Cartas de Souza Araújo, Aristides Marques da Cunha e Olímpio da Fonseca, datadas respectivamente de 20 de janeiro de 1916, 18 de outubro de 1916 e 22 de janeiro de 1916.
37 O depoimento de Aristides Marques da Cunha em carta a Artur Neiva fornece um mapa dos alinhamentos em relação ao caso Moses: “Em primeiro lugar, o Chagas se mostrou desde logo solidário com Oswaldo (...) o Ezequiel também. O Vasconcelos mostrou-se também muito favorável ao Oswaldo. O Aragão é que acompanhou o Moses e portou-se infamemente, pedindo no dia 31 ao Dr. Oswaldo que não deixasse o Instituto e, mais tarde, comparando a perda que sofreria o Instituto, caso o Dr. Oswaldo o deixasse, com a que teve com a saída do Rocha Lima. O Travassos e o Dutra também se mostraram favoráveis ao Moses e escreveram cartas que foram lidas na Câmara, declarando que não entrariam no concurso. O Lutz está afastado do Instituto e não me consta que tenha se manifestado a respeito do caso. O Guerreiro, o Machado, o Torres e eu (...) fomos contra a nomeação do Moses e pedimos a abertura de concurso: sempre nos mantivemos a favor do Dr. Oswaldo” (Cunha, carta 90, de 18 de janeiro de 1916, Arquivo Artur Neiva). A posição favorável de Cunha a Oswaldo Cruz, provavelmente, está relacionada ao fato de que ele tinha interesse pessoal no caso, pois era um dos que apresentaram-se para fazer o concurso.
38 Os registros dessa polêmica encontraram-se nos Anais da Academia Nacional de Medicina. A carta de Bento Cruz foi lida na sessão de 23 de novembro de 1923 e é datada de 19 de dezembro de 1922.