Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira

2. O Brasil de luto pela morte de Oswaldo Cruz

2. O Brasil de luto pela morte de

Oswaldo Cruz

 

O gigante tomba no leito...

Ezequiel Dias

Conforme as notícias estampadas nos jornais da época, Oswaldo Cruz fora vítima de um ataque de uremia.

Sales Guerra, seu amigo e médico, relata que há muito tempo Oswaldo Cruz sofria de uma nefrite que acabou por comprometer, inexoravelmente, sua saúde. Dissimulava ele, porém, a gravidade de sua condição, ocultando de todos, e principalmente da família, os sintomas da doença. Revelara apenas a Sales Guerra que seu pai morrera em conseqüência do mesmo mal.

Os primeiros sintomas começaram a manifestar-se em 1907, quando Oswaldo Cruz encontrava-se em Berlim. Em meio aos trabalhos de preparação da mostra brasileira que ia ser exibida no Congresso Internacional de Higiene, em vias de ser inaugurada naquela cidade, Oswaldo Cruz queixou-se em carta a Sales Guerra de que estava se sentindo “meio esquisitão”, sem saber qual seria o fim da “neurastenia” que o acometia constantemente.

As perturbações foram agravando-se progressivamente. De acordo com seu médico, Oswaldo Cruz sofria de crises de insônia, nostalgia e distúrbios digestivos. Preocupado com as conseqüências disso, ainda em Berlim, Sales Guerra deu-lhe alguns conselhos e tentou convencê-lo a procurar um especialista da Faculdade de Medicina. Como Oswaldo Cruz recusasse, propôs-lhe, então, um período de repouso em um sanatório, onde poderia submeter-se a uma dieta alimentar benéfica à sua saúde. Conta Sales Guerra que Oswaldo Cruz relutava em submeter-se a qualquer tratamento, prometendo-lhe apenas que tomaria certas precauções que o amigo lhe indicara. Em carta que lhe escreveu em outubro de 1907, quando já se achava instalado em Paris, para onde viajara após o Congresso, Oswaldo Cruz tornou a se queixar das perturbações que o afligiam:

(...) o isolamento deu bom resultado, durmo perfeitamente. Mas

os desequilíbrios vasomotores aumentaram. Passo os dias com

as extremidades regeladas e, segundo tuas acertadas

previsões, a dispepsia parece que está instalando-se, digiro

pessimamente, tenho a língua sempre coberta de saburra, com

a impressão dos dentes, etc. etc. Enfim, deixemos de lado a

carcaça, que não merece que se lhe dê atenção (Cruz apud

Guerra, 1940:391).

Como se pode verificar na correspondência mantida por Oswaldo Cruz com Sales Guerra durante suas constantes viagens ao exterior ou pelo Brasil, daquele ano em diante os sintomas não mais o abandonaram, deteriorando-se, inclusive, seu humor,

freqüentemente abalado por crises de depressão 24.

Segundo o cientista Ezequiel Dias, cunhado de Oswaldo Cruz, a doença deixou de ser um segredo para a família em novembro de 1908, quando ele teve uma crise aguda de uremia. Só então consentiu em adotar um regime dietético adequado, suprimindo totalmente o sal de sua alimentação (Dias, 1922:163). Todos perceberam que sua saúde inspirava cuidados permanentes e passaram a vigiá-lo para que não fugisse às precauções necessárias. Quando Oswaldo Cruz viajou para a Amazônia, por exemplo, Sales Guerra encarregou o médico Belisário Pena, que o acompanhava, de controlar sua dieta.

No início de 1911, quando Oswaldo Cruz se preparava para viajar à Alemanha, onde iria participar da Exposição Internacional de Higiene, em Dresden, seu estado de saúde era delicado, como se vê no quadro clínico descrito por Sales Guerra:

Naquela época, o estado de saúde de Oswaldo Cruz se achava

em equilíbrio instável: esclerótico cardio-renal, hipertenso,

albuminúrico, fora acometido de dois ataques de edema

pulmonar, de que ficaram vestígios permanentes na base dos

pulmões: quadro sintomático de prognóstico sombrio (Guerra

apud Fraga, 1972:163).

Sales Guerra comenta que, em vão, tentou dissuadir o amigo de viajar: “Morrerei mais cedo se ficar inativo” – foi a resposta de Oswaldo Cruz.

A partir de 1915, as crises de insuficiência renal tornaram-se freqüentes e, numa delas, o quadro sintomático se complicou, com soluços, contraturas dolorosas e perturbações do ritmo respiratório. As crises foram agravadas, na opinião de seu médico, por problemas que ocorriam no Instituto de Manguinhos e que o deixavam extremamente contrariado.

Surgiu, então, a idéia de afastá-lo do Rio de Janeiro, para que pudesse gozar de repouso absoluto. O filho primogênito, Bento Cruz, cogitou da nomeação do pai para a prefeitura de Petrópolis,

que acabava de ser criada 25. Era uma maneira de mantê-lo ocupado com algum tipo de atividade, já que se mostrava contrariado com a idéia de deixar o Rio e, principalmente, o Instituto. Sales Guerra opôs-se, a princípio, mas como não lhe ocorreu outra solução e, percebendo que ela agradava ao amigo, cedeu.

Oswaldo Cruz assumiu a prefeitura de Petrópolis em 18 de agosto de 1916, mas permaneceu pouco tempo no cargo, por causa do agravamento do seu estado de saúde, sendo obrigado a transferi-lo a Leopoldo Bulhões no início de janeiro de 1917. Sales Guerra relata as agruras por que passou o cientista em seus últimos meses de vida:

Veraneávamos em Petrópolis, eu e os meus, naquela quadra de

tristezas, desde fins de dezembro de 1916. Compungia-me,

mas ao mesmo tempo me consolava, passar o dia e boa parte

da noite ao lado do amigo, sofredor estóico, que em breve ia

perder para sempre. De bom grado o fazia, tanto mais quanto

ele não cessava de repetir que minha presença o confortava.

Naquele transe doloroso, como em todas as fases da vida

intensa que levou, não cessei de admirar a beleza de suas

atitudes, a incomparável resignação no sofrimento... e que

sofrimento! À dispnéia constante, com exacerbações ao menor

esforço, que o edema das bases pulmonares e o soluço

mantinham, juntou-se a cegueira quase total, cujo efeito mortal

é, como se sabe, dos mais deprimentes, situação aflitiva que se

prolongou por quarenta dias! (Guerra apud Fraga, 1972:166).

O problema mais aflitivo eram os soluços incessantes que provocavam náuseas e prejudicavam o sono. Nenhuma medida foi capaz de interromper o sofrimento, nem mesmo o método de faradização, último recurso tentado por Sales Guerra e Carlos Chagas, que todas as manhãs subia até Petrópolis para visitar Oswaldo Cruz. Os soluços só cessaram quando ele entrou em coma terminal.

Isso aconteceu na manhã de 11 de fevereiro de 1917. “O gigante tomba no leito para não mais erguer-se”, escreve compungido Ezequiel Dias, que recorda a tristeza que sentiram todos os que velavam a agonia de Oswaldo Cruz:

Num tranqüilo recanto da rua Montecaseros, com frente para a

colina onde se acha o cemitério, demora um solar antigo

situado num jardim florido de hortênsias. Um lustre encarnado,

ao alto da varanda cingida de trepadeiras rubras, ilumina

suavemente as escadarias. No salão de visitas, também

vermelho, tudo é silêncio e escuridão. Naquele mesmo silêncio

triste da rua Montecaseros, ouvem-se as nove badaladas

noturnas do Convento dos Franciscanos. Na ante-sala,

aconchegados como um grupo de aves tímidas ao pressentir

uma tormenta, estão Sales Guerra, Chagas, Pedroso, Belisário

Pena e membros da família. Conversam sobre a crueldade da

agonia que se estira num longo estado comatoso; rememoram-

se benefícios recebidos daquele discreto coração; recapitulam-

se todos os valores da vida prestes a extinguir-se; lamenta-se a

grande desgraça que vai abater o Brasil. E como que a resumir

todos os conceitos, numa concisão admirável, salientava-se

uma frase comovida de Sales Guerra: – Foi o homem mais

perfeito que até hoje tenho conhecido! Era a voz da posteridade

que se antecipava na sua real e nobre glorificação. Dez minutos

depois expirava Oswaldo Cruz (Dias, 1922:164-165).

 

Morreu Oswaldo Cruz!...

Folheando o álbum de recortes de jornais conservado junto ao arquivo pessoal de Oswaldo Cruz, especialmente dedicado ao registro da repercussão de sua morte, é possível perceber como o acontecimento foi vivido por certos setores sociais da época.

As matérias sobre o funeral, reproduzidas neste álbum, mostram que o desaparecimento do cientista foi assinalado com certa pompa pelo chamado mundo oficial. Há inclusive uma disputa entre o governo federal, a prefeitura da cidade do Rio de Janeiro e o estado natal de Oswaldo Cruz, São Paulo: quem enterra o morto?

O governo paulista providenciou para que os funerais corressem por sua conta, oferecimento aceito pela viúva e pela família. Ressentido, o prefeito do Distrito Federal, Amaro Cavalcanti, reivindicou o direito de promover as exéquias por ocasião do sétimo dia do falecimento. A imprensa publicou a carta que o prefeito endereçou à viúva para convencêla a aceitar a oferta: era natural que todo o país acorresse para homenagear a figura universal que era Oswaldo Cruz, mas, afinal, o Rio de Janeiro tinha suas prerrogativas, já que a cidade devia-lhe o saneamento que a libertou da febre amarela. A viúva estava, então, convidada a comparecer na igreja da Candelária à cerimônia que a municipalidade realizaria em 17 de fevereiro.

Observa-se que as matérias e os necrológios publicados pelos jornais obedecem a um certo padrão de apresentação da vida de Oswaldo Cruz. Os fatos selecionados como relevantes pelos articulistas da época dizem respeito às realizações sanitárias de Oswaldo Cruz, em especial à extinção da febre amarela no Rio de Janeiro, conferindo-se destaque, também, à fundação do Instituto de Manguinhos, considerado um marco da medicina experimental no Brasil.

Num dos artigos que pode-se considerar típico, lê-se que a morte reservava “um cenário de apoteose a todos os homens de mérito, como era o caso de Oswaldo Cruz”. As homenagens que ele estava recebendo compensavam todos os sacrifícios e aborrecimentos que tivera em vida, quando ainda não era conhecido como um grande homem. Oswaldo Cruz tivera uma fama ruidosa durante a gestão dos serviços sanitários, mas depois recolhera-se “ao ambiente sossegado, realizando em completo silêncio o seu santo apostolado” científico.

Percorrendo o álbum de recortes, ressalta a recorrência deste tema, abordado em diversas reportagens. Isso não significa, porém, que todos concordassem com a opinião acima reproduzida.

Uma série de artigos criticava a atuação do governo federal, julgando que as homenagens oficiais não estavam à altura do mérito do cientista. Pelo que se pode depreender, a controvérsia girava em torno do luto oficial que não fora decretado pelo governo. Um destes artigos sintetiza o teor das críticas às classes dirigentes que deveriam dar o exemplo ao povo, já que este possuía memória curta. O artigo desanca os políticos, afirmando que se Oswaldo Cruz tivesse sido um deles, “chefe de bando ou quadrilha, desses que disputam os cargos públicos, a sua morte teria uma repercussão mais funda... nas nossas chamadas classes dirigentes”. De acordo com a matéria, só era reconhecido como “grande homem” no Brasil aquele que pertencesse ao mundo da política: “Oswaldo Cruz não poderia nunca ser um grande nome nacional, porque não foi um intendente, nem deputado, nem senador; ele foi apenas o saneador do Rio de Janeiro, o que é realmente muito pouco em um país ou em uma terra essencialmente política como é esta nossa”. A imprensa também era alvo de críticas, por haver demonstrado insensibilidade e tratar o assunto de forma banal:

Os próprios jornais, em sua maioria, não parecem ter

compreendido a extensão do desastre que é para o Brasil a

perda de Oswaldo Cruz. Vejase, por exemplo, como alguns

deles noticiaram o desenlace. Um diz: “Faleceu o dr. Oswaldo

Cruz, prefeito de Petrópolis”. Outro dá ao necrológio o título: “A

morte de Oswaldo Cruz, o diretor do Instituto de Manguinhos”.

E nem todos se lembraram de que quem morreu ontem em

Petrópolis não foi o prefeito dessa cidade, nem o diretor do

Instituto de Manguinhos, mas o saneador do Rio de Janeiro,

isto é, o homem que nestes últimos 10 anos prestou a esta

cidade e ao Brasil o maior dos serviços que se poderia prestar e

que foi a extinção da febre amarela26.

A matéria termina com referências irônicas à questão do luto oficial:

O governo não quis decretar o luto oficial pela morte de

Oswaldo Cruz... fez bem. O luto oficial está tão barateado, tem

sido decretado em homenagens a tanto politiqueiro ambicioso e

nefasto, que seria quase um sacrilégio que mesmo na morte se

comparassem a um homem do valor do grande brasileiro

desaparecido. O luto por Oswaldo Cruz ficou reservado apenas

para o coração do povo.

Esta não é uma opinião isolada. Dela compartilham dois médicos próximos ao cientista, Artur Neiva e Clementino Fraga, que chegaram a se manifestar publicamente. Fraga declarou a um jornal que as homenagens prestadas à memória de Oswaldo Cruz careciam de “vigorosa expressão, de destaque, à altura do mérito singular do grande morto”. Já Neiva, na época diretor da Saúde Pública de São Paulo, num discurso pronunciado na Sociedade de Medicina e Cirurgia daquele estado, em 3 de março de 1917, declara que se via na contingência de confessar que

A nação brasileira não honrou os despojos de uma verdadeira

glória nacional, como estava na obrigação de o fazer. E, a não

ser a definição dada uma vez pelo Sr. Lauro Muller, de que no

Brasil quem estava atrasado era o governo e não o povo, nada

poderá explicar a ausência, por parte do governo nacional, das

homenagens a que tinha direito um homem que tanto honrou a

pátria e a humanidade. No nosso país, onde o governo

decretou funerais nacionais pela morte do comediógrafo Artur

Azevedo, deixa-se baixar à sepultura um vulto da nossa ciência

universalmente respeitado na ausência de honrarias de

exceção que lhe cabiam. Que falta de proporção nas coisas,

como tudo isso contrasta e acabrunha! São Paulo, felizmente,

cumpriu com todo o seu dever (Neiva, 1917:15).

Enquanto os amigos cobravam do governo as homenagens devidas, muitas entidades médicas e órgãos públicos decretaram o luto oficial por vários dias, como verifica-se na leitura dos jornais. No Rio de Janeiro, pelo menos duas instituições públicas adotaram este procedimento: a Diretoria Geral de Saúde Pública e, como não podia deixar de acontecer, o Instituto Oswaldo Cruz.

Note-se, também, que a seleção que orientou a organização do álbum de recortes de jornais conservado junto ao arquivo de Oswaldo Cruz confere uma amplitude ao acontecimento, o que, de certa maneira, contradiz o sentimento do círculo de amigos e parentes do cientista. Ou seja, paralelamente às queixas contra o governo, está exposto neste álbum um quadro bastante diversificado de notícias dando conta de cerimônias realizadas em todo o país e no estrangeiro, com destaque para aquelas promovidas pela comunidade científica. Várias notas registram manifestações de pesar de entidades médicas e sociedades científicas de países latino-americanos como Argentina, Uruguai e Paraguai, bem como a repercussão do episódio na imprensa alemã e francesa, em que se destaca o telegrama de Emile Roux, diretor do Instituto Pasteur de Paris, ao novo diretor do Instituto de Manguinhos, Carlos Chagas.

Assim, de acordo com esta fonte, verificamos que a morte de Oswaldo Cruz provocou certo impacto pelo menos no meio médico nacional. Os jornais documentam inúmeras manifestações de pesar dirigidas às principais entidades médicas, como a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, a Academia Nacional de Medicina, e o próprio Instituto de Manguinhos. Dentre as instituições e personalidades que enviaram telegramas de condolências, destacamos: a Faculdade de Medicina da Bahia, o Instituto Butantã de São Paulo, o Museu Nacional, a Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, o Instituto Vacinogênico deste estado, a Santa Casa de Misericórdia de Santos, etc.

Por sua vez, o Instituto Oswaldo Cruz preparou uma homenagem especial à memória de seu diretor, instituindo um prêmio anual que consistiria na entrega de uma medalha de ouro ao melhor e ao mais original trabalho apresentado por alunos de seu Curso de Aplicação. Cogitou-se também, no Instituto, publicar um livro sobre o cientista com a colaboração de todos os notáveis da classe médica brasileira.

Além das manifestações do mundo acadêmico, os recortes de jornais testemunham a proliferação de solenidades cívicas e atos públicos em diversas cidades do país que traduziam-se, quase sempre, no batismo de ruas, praças e escolas com o nome de

Oswaldo Cruz 27. É comum, também, encontrarmos entre os recortes os poemas, hinos e canções em saudação à memória de Oswaldo Cruz.

Em meio ao extenso inventário de cunho laudatório que constitui o álbum de recortes de jornais, desperta particular interesse o registro de quatro eventos que ocorreram ao longo do ano de 1917 e no início de 1918.

O primeiro foi o projeto de construção de um monumento a Oswaldo Cruz, que seria custeado com recursos obtidos por meio de uma arrecadação pública de fundos coordenada por uma comissão central da qual faziam parte o presidente da Academia Nacional de Medicina, Miguel Couto, o diretor da Diretoria Geral de Saúde Pública, Carlos Seidl, o diretor da Faculdade de Medicina, Aloísio de Castro, os pesquisadores do Instituto de Manguinhos, Carlos Chagas e Figueiredo de Vasconcelos, os médicos Sales Guerra, Afrânio Peixoto e Rego Lopes. Previa-se, também, a formação de comissões nos estados, que se encarregariam de divulgar a idéia e arrecadar recursos.

A comissão central que chegou, de fato, a se constituir, arrogava a si o direito de “nuclear tudo o que se pudesse fazer para perpetuar a memória de Oswaldo Cruz e glorificar o seu nome”. Nesse sentido, propôs a criação de uma fundação Oswaldo Cruz que teria como objetivo pro-mover estudos científicos no campo da medicina experimental. A ela poderiam filiar-se todos os médicos brasileiros “que quisessem trabalhar de verdade, de acordo com os princípios

deixados por Oswaldo Cruz”28.

Quanto ao monumento, até onde pude investigar, apesar do êxito inicial do empreendimento, tudo indica que ele não se concretizou

na época29.

Outros dois eventos registrados em 1917 consistiram em solenidades que relembravam a importância do cientista no cenário cultural e científico brasileiro.

A primeira foi realizada em maio no Teatro Municipal, por iniciativa da comissão central do monumento. A convite de Miguel Couto, o conselheiro Rui Barbosa proferiu uma conferência sobre Oswaldo Cruz que teve repercussão. Note-se que o discurso de Rui Barbosa passou a ser constantemente referido como um marco significativo do reconhecimento social de Oswaldo Cruz. Indubitavelmente, a importância do evento prende-se ao fato de que um eminente representante das elites políticas e intelectuais da época emprestava seu prestígio ao nome de Oswaldo Cruz. Vale lembrar que, naquele momento, o velho senador da República reapresentava sua candidatura à presidência do país, conferindo à solenidade um acento político.

O segundo evento ocorreu em julho de 1917, por ocasião da visita de uma delegação de médicos e estudantes argentinos ao Instituto Oswaldo Cruz, ao qual fez a entrega de uma placa de bronze em reconhecimento ao trabalho do cientista. Segundo os jornais, a solenidade revestiu-se de certa pompa e contou com a participação dos funcionários do Instituto, da Diretoria Geral de Saúde Pública e dos professores da Faculdade de Medicina.

Entende-se que a importância conferida à cerimônia prende-se ao fato de que ela representava o reconhecimento de uma comunidade científica estrangeira considerada importante no contexto americano.

Resta mencionar o último evento registrado pelo já mencionado álbum de recortes de jornais. É interessante notar que, se os anteriores se referem à perda de uma figura notável para o país, este remete para o futuro, enfatizando a continuidade de Oswaldo Cruz através da criação da Liga Pró-Saneamento do Brasil, que ocorreu em fevereiro de 1918. O registro do fato parece significativo na medida em que um álbum destinado a documentar a morte de Oswaldo Cruz finaliza com notícias que, sugestivamente, tratam de sua eternidade.

Em que pese o comprometimento deste material 30, que reflete a evidente intenção de superdimensionar o fato, as matérias nele selecionadas constituem interessante fonte de pesquisa, pois tratam de um tema diretamente relacionado aos propósitos deste trabalho: o reconhecimento social de Oswaldo Cruz.

A primeira impressão que se tem ao entrar em contato com o álbum é de que Oswaldo Cruz recebeu as homenagens que lhe eram devidas. A princípio, parece inquestionável o seu prestígio junto às camadas cultas e aos dirigentes do país. De maneira consensual, os jornais da época inventariam as realizações consideradas mais importantes e supostamente incontroversas. Tudo indica que as desafeições haviam cessado e os inimigos, desaparecido; a morte silenciava todas as malquerenças.

Contudo, se assim fosse, seria inexplicável o comportamento dos amigos e companheiros de trabalho de Oswaldo Cruz, que externaram seu descontentamento em relação à postura assumida, principalmente, pelo governo, sua indiferença e pouco apreço para com os méritos do morto. Como vimos, para eles as homenagens não estiveram à altura do significado de Oswaldo Cruz para o país. O protesto de Artur Neiva contra a não-decretação do luto oficial é um exemplo da atitude assumida pelos amigos e colaboradores de Oswaldo Cruz após sua morte.

É possível que não se tenha configurado uma polêmica pública em torno do assunto. Porém, ao menos para os amigos de Oswaldo Cruz, o problema estava colocado e foi explicitamente denunciado em inúmeras ocasiões. Nas solenidades, seus discursos apelam para uma espécie de consciência coletiva que deveria despertar para a importância do cientista. E aproveitam para falar não somente do valor social da “obra” de Oswaldo Cruz, como também da continuidade, no futuro, do patrimônio científico construído por ele.

Dar continuidade à obra de Oswaldo Cruz significava não apenas manter em funcionamento o Instituto de Manguinhos e dar prosseguimento às pesquisas médicas ali realizadas, como também dar alento à luta pela implementação das medidas sanitárias idealizadas por Oswaldo Cruz desde a reforma dos serviços de saúde de 1903. Para vários higienistas que eram seus partidários teria havido um grave recuo por parte do governo em relação às medidas necessárias para controlar o estado sanitário da capital e do país.

Belisário Pena manifesta claramente uma opinião nesse sentido, criticando a indiferença do governo em relação à morte de Oswaldo Cruz e lamentando que lhe tenha reconhecido apenas “um prestígio relativo e contrafeito”. Além disso, permitia que “a sua grande obra de saneamento fosse deturpada e alterada”. Diante de “tamanha ingratidão”, perguntava o higienista “se tal pátria merecia tal filho e se Deus não havia lhe tirado a vida tão precocemente para ele não ter o desgosto de assistir a destruição de sua obra monumental” (Pena, 1922:13). Como reverter tal situação?

Na primeira hora, esta foi a grande preocupação externada publicamente pelos amigos e companheiros de trabalho, preocupação que traduz uma questão crucial para os contemporâneos. Ou seja, a discussão sobre o reconhecimento de Oswaldo Cruz constituiu a forma através da qual os seus amigos e colaboradores demonstravam sua inquietação em relação ao destino dos que estavam vivos. As manifestações nesse sentido sucedem-se antes mesmo do cadáver descer à sepultura. Um exemplo é o discurso pronunciado por Henrique Autran, representante oficial da Diretoria Geral de Saúde Pública no funeral:

Não sendo o túmulo o aniquilamento dos homens, certo é,

senhores, que o espírito de Oswaldo Cruz viverá na imaginação

dos seus discípulos, a animá-los na senda da ciência que tanto

ele amava, fazendo dela o objetivo de seu viver e a grandeza

de sua crença. Segui companheiros que foram daquela

individualidade excelsa, e nem por sombras deveis esmorecer

no caminho que ele vos indicou, fortalecendo-vos com os seus

exemplos e animando-vos com suas virtudes. Jamais tereis

sobre os ombros responsabilidades maiores, na conservação

daquele exemplo, que proclamará para todo o sempre a

imortalidade de um nome que teve para o Brasil a

recomendação viva do amor ao trabalho. Tenhais sempre nos

vossos corações gravada a imagem daquele que simbolizava o

valor da medicina brasileira e só assim podereis crescer aos

olhos dos vossos companheiros na ciência, hoje enlutados e

irmanados na dor pelo passamento de Oswaldo Cruz, glória do

Brasil (Autran, 1917:59).

Erigido em símbolo da medicina, Oswaldo Cruz tornava-se o guia para a vida dos seus discípulos, que passaram a ser considerados os herdeiros de seu patrimônio científico. A eles caberia a responsabilidade de se conduzirem em acordo com os exemplos que ele dera, perpetuando a sua memória e dando prosseguimento

à sua obra 31. No plano retórico, esta era a preocupação não só do círculo próximo, mas também de membros das instituições médicas, como a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e de órgãos governamentais, como a Diretoria Geral de Saúde Pública.

A julgar pelos discursos, os discípulos investiam-se do que consideravam uma verdadeira missão. São interessantes nesse sentido as palavras que Neiva emprega ao assumir “a responsabilidade terrível” que significava continuar a obra do mestre:

Havemos de empenhar todas as nossas forças em solene

compromisso de honra perante a pátria. A sua luminosa

memória não nos deixará desanimar em meio das tormentas

que teremos de enfrentar (...) e se, por uma fatalidade, nós não

nos mostrarmos dignos de sua herança ou não tivermos a

necessária robustez para mantê-la, então, e é com o coração

nos lábios que vos digo, os fados que me protegem poupem-me

ao cruciante tormento de semelhante dor, cerrando-me os olhos

para sempre antes que eu possa testemunhar tal espetáculo

(Neiva, 1917:15).

Mas se, de um lado, reconhecia-se a legitimidade dos discípulos em gerir a herança deixada por Oswaldo Cruz, e, de outro, os discípulos assumiam esta tarefa, quais eram os motivos de tanta apreensão?

 

24 Na biografia de Oswaldo Cruz escrita por Sales Guerra, este aspecto da personalidade do cientista é ressaltado: a constante depressão. Relata que encontrou, no quarto de hotel onde ele se hospedava em Paris, um desenho em que o cientista havia esboçado a lápide para o seu túmulo e o local onde gostaria de ser enterrado, junto ao mar, na Avenida Niemeyer no Rio de Janeiro, em terreno que pertencia a seu sogro.

25 Vale assinalar que, em nenhum dos relatos biográficos consultados, foi encontada qualquer explicação mais detalhada sobre o assunto. Nada se sabe sobre as articulações políticas que viabilizaram a nomeação de Oswaldo Cruz para o cargo. Um dos intermediários foi o cientista de Manguinhos Figueiredo de Vasconcelos, que manteve entendimentos com o governador do estado do Rio, Nilo Peçanha. A criação da prefeitura relacionava-se à estratégia de fortalecimento deste político, recém-empossado governador do estado em seu segundo mandato. Conforme o estudo coordenado por Marieta Ferreira, a eleição de dezembro de 1914 fora tumultuada pela fraude eleitoral que buscara favorecer o candidato governista, Feliciano Sodré. No governo, Nilo Peçanha procurou neutralizar o poder dos grupos oligárquicos adversários através de uma reforma administrativa e financeira, que incluiu a criação da prefeitura de Petrópolis e de outras seis (Ferreira, 1989:211).

26 Arquivo Oswaldo Cruz, Recortes de Jornais, vol. 1917. O recorte transcrito não traz indicação do título da publicação, página e mês.

27 No Rio de Janeiro, por exemplo, o prefeito Amaro Cavalcanti rebatizou como Avenida Oswaldo Cruz a Rua da Ligação, situada entre a praia do Flamengo e a de Botafogo.

28 Arquivo Oswaldo Cruz, Recortes de Jornais, vol. 1917.

29 Encontramos na correspondência do diretor da Saúde Pública (1913-1918), Carlos Seidl, ao presidente da comissão central, Miguel Couto, a prestação de contas do dinheiro que fora arrecadado durante o ano de 1917. Seidl comenta que ficara surpreso com a boa acolhida que a idéia tivera entre as classes empresariais, industriais e comerciantes do país e do exterior, pois conseguira obter a quantia de 7:700$000 (sete mil e setecentos contos de réis). Entretanto, num folheto da Revista Brasileira de História da Medicina publicada em julho de 1956, consta a informação de que o monumento não tinha sido edificado até aquela data. O Dr. Ivolino Vasconcelos, presidente do Instituto de História da Medicina, diz que várias comissões foram organizadas desde a origem da idéia, e declara-se confiante na última comissão instituída por ordem do Ministério da Saúde, em 1954, e presidida por Clementino Fraga. Mas o monumento ainda dependia de um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados que consignava crédito especial de 10 milhões de cruzeiros para sua construção (Vasconcelos, 1956:87-102). Não conseguimos saber se o projeto teve êxito. Localizamos apenas o relato de Lourival Ribeiro que se refere à inauguração de um busto no Ministério da Saúde, em 1977. Conforme o discurso proferido na cerimônia por este médico, cumpria-se ali, finalmente, o vaticínio de Carlos Seid que, em 1918, previra a construção do monumento a Oswaldo Cruz na capital da República. Transcorridos 59 anos, e já transferida a capital do país, as autoridades federais, enfim, esboçavam um gesto de reconhecimento ao cientista (Ribeiro, 1979:125).

30 Não foi possível identificar os responsáveis pela seleção de notícias que constam do álbum, muitos recortes não trazem sequer a referência ao nome e à data do periódico.

31 Vale assinalar que à categoria de discípulos pertenciam, a princípio, apenas os membros de Manguinhos, mais especificamente os médicos que haviam iniciado sua carreira científica sob a orientação de Oswaldo Cruz. Entretanto, pudemos observar que médicos higienistas da Diretoria Geral de Saúde Pública – os quais em algum período trabalharam com Oswaldo Cruz durante sua gestão neste órgão (1903-1909) – auto-classificavam-se desta forma. Do mesmo modo, outros médicos e cientistas que não foram seus contemporâneos também definem-se assim, expressando um sentimento de filiação à tradição científica inaugurada por ele. Deste modo, é possível afirmar que esta expressão de identidade – a condição de discípulo – abriga uma comunidade de idéias que extrapolou seu sentido original para tornar-se uma categoria abrangente, usada para designar todos aqueles que, de alguma forma, passaram pelo Instituto de Manguinhos ou gravitavam em torno dele. Contudo, sempre que possível, procurar-se-á distinguir neste trabalho aqueles que pertenciam ao Instituto dos outros participantes do movimento sanitário que também incluíam-se na categoria de discípulos.