Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira

4. O culto à memória

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Agora, encerrado o breve ciclo da sua existência, vai começar a vida

de sua memória. A história lhe fará a justiça de compensadora

eternidade

Clementino Fraga, 1917

Quando morreu, Oswaldo Cruz era um cientista de renome, conhecido em alguns centros científicos europeus e latino-americanos, principalmente graças aos trabalhos de pesquisa desenvolvidos em seu instituto, entre os quais destacava-se a descoberta do Trypanossoma cruzi, por Carlos Chagas, em 1909.

Poucos se atreveriam a questionar a verossimilhança deste fato. Como se viu, os jornais que noticiaram a morte de Oswaldo Cruz confirmam a notoriedade que ele alcançara. No entanto, viu-se, também, que alguns de seus amigos e auxiliares consideraram que o reconhecimento do cientista por parte dos dirigentes do país ficara muito aquém de seus méritos, tal a economia das homenagens que lhe foram prestadas pelo mundo oficial. É patente a insatisfação dos amigos e colaboradores de Oswaldo Cruz, reiterada em várias oportunidades, com o que lhes pareceu uma atitude descortês do governo: não haver decretado o luto oficial por ocasião da morte do cientista.

Sales Guerra, amigo, médico e mais tarde biógrafo de Oswaldo Cruz, generaliza esta avaliação ao afirmar que as homenagens recebidas por Oswaldo Cruz ao longo de sua vida representavam tão-somente “manifestação espasmódicas, passageiras e superficiais”.

Diante desta constatação, alguns amigos mobilizam-se para o que definem como a luta contra o esquecimento de Oswaldo Cruz, que julgam ser uma conseqüência natural do passar do tempo, mais grave em nosso país por força da pouca memória dos brasileiros.

Consideram que o esquecimento de Oswaldo Cruz constituía um crime de lesa-pátria, impondo-se aos seus jovens assistentes “cultuar a sua memória”, pois somente eles eram “capazes de avaliar a profundeza da desgraça que feriu o país” (Neiva, 1917:7).

Belisário Pena, que se considerava um membro do círculo dos discípulos de Oswaldo Cruz, afirmava que esse culto à memória constituía um dever cívico. No trecho a seguir, escrito alguns anos após a morte de Oswaldo Cruz, demonstra a disposição que o animava nesse sentido:

Não houve um só aniversário do seu passamento que não

fosse por mim comemorado, o primeiro com a fundação da Liga

(...) Não houve conferências, que se contam por dezenas, nas

associações científicas, agrícolas, comerciais e industriais, e

preleções populares, às centenas, nas escolas, colégios e

quartéis, cinemas, fábricas e fazendas, e até na praça pública,

nas cidades, vilas e povoados de vários estados, em que não

se incutisse no espírito de meus ouvintes a veneração à

memória de Oswaldo Cruz, o brasileiro que mais contribuiu para

o bem-estar, a prosperidade e felicidade do povo. Esse ano,

estando em viagem de Minas para esta capital, no dia 11 de

fevereiro, data aniversária do seu falecimento, realizei no carro

da Estrada de Ferro Leopoldina, reunidos aí os passageiros de

1ª classe, uma preleção sobre o inolvidável patrício. Nunca

esmoreceu o meu culto de veneração à memória do Grande

Homem, cujo espírito é o farol da minha rota na espinhosa

travessia para o ideal de um Brasil saneado e,

conseqüentemente, povoado, enriquecido e moralizado (Pena,

1922:ix).

Em meu entendimento, o movimento de culto à memória do cientista deu origem ao fenômeno de mitificação de Oswaldo Cruz. Esta ação, a princípio involuntária, decorrente do estado emocional provocado pela morte, evoluiu para um processo em que se pode notar um certo grau de intencionalidade no sentido de construir uma imagem perfeita do cientista, o que o tornou o símbolo da ciência brasileira.

A Liga Pró-Saneamento do Brasil tornou-se um dos mais importantes veículos de difusão dessa ideologia. Desde a sua criação procurou deixar clara a sua filiação: a data de inauguração do movimento fora escolhida em homenagem ao primeiro aniversário da morte de Oswaldo Cruz, designado como o seu patrono. E de sua lavra era o lema adotado: “Não esmorecer, para não desmerecer”.

A Liga justificava sua ação apresentando-se como um movimento que conservava uma linha de continuidade histórica com relação às realizações de Oswaldo Cruz. Em discurso comemorativo do primeiro aniversário da entidade, em fevereiro de 1919, sobressaem estas intenções:

(...) esse era o anelo, era o sonho do Grande Patriota, cujo

espírito é o patrono da Liga Pró-Saneamento do Brasil. Eu lhe

falo, vejo-o neste momento, sinto-o aqui presente com a sua

quase alva e revolta cabeleira de artista protegendo o invólucro

de um cérebro sempre em ebulição a serviço da pátria e da

ciência, satisfeito de se encontrar entre discípulos, hoje

mestres, e auxiliares dedicados, e patriotas, empenhados todos

na grandeza do Brasil, certo de que nem um só dia a sua obra

foi abandonada, confiada que foi a mãos dignas do Mestre; eu o

estou vendo com aquele olhar sonhador e bom, contente das

criaturas que ele formou e educou, e que honram a sua

memória, trabalhando sem outra preocupação que a de

promover a grandeza da pátria amada.

E vendo-o e sentindo-o, entre nós, digo-lhe com sinceridade e

ardor. Descansa Oswaldo! Goza serenamente da paz da alma a

que tens direito pelo muito bem que fizeste à pátria e à

humanidade. Não te dê cuidados à tua obra imperecível, que

será defendida e engrandecida por muitos de seus discípulos

queridos e pelos dedicados auxiliares, que, sem descanso, sem

medir sacrifícios, realizarão o teu sonho; levarão avante a

cruzada do saneamento, e legarão para teus filhos e seus

descendentes um Brasil saneado, povoado, enriquecido e

moralizado (Pena, 1919:230).

Como se viu na Introdução, a divulgação de determinadas representações sobre Oswaldo Cruz era parte integrante da doutrinação que a revista Saúde pretendia realizar no sentido de promover a campanha do saneamento rural, proposta central do projeto de reforma da saúde pública. Se a ele referem-se os artigos de colaboradores que escrevem para essa revista, os editoriais, de responsabilidade do conselho redator, são caracteristicamente apelativos, exaltando a figura de Oswaldo Cruz.

Verifica-se uma surpreendente profusão de metáforas e outras figuras de estilo na linguagem dos diversos artigos da revista que exaltavam o papel de Oswaldo Cruz na história do Brasil e no mundo científico ocidental. Assim, referem-se a ele como “o cristo da religião do saneamento”, “o grande brasileiro”, “o salvador”, “o bandeirante”, “aquele que iniciou os alicerces da nova nacionalidade”, “o apóstolo da ciência”, “o fundador de uma nova religião”, entre tantas outras expressões que não raro conferem à ciência uma dimensão religiosa, cujos móveis sagrados deveriam ser classificados superiormente na escala de valores da

sociedade39.

Assim o movimento de culto à memória e à fundação da Liga constituíram uma resposta ao impasse vivido pelos médicos e higienistas que, com a morte de Oswaldo Cruz, perderam a sua maior expressão política e científica. Belisário Pena não somente valia-se do nome de Oswaldo Cruz para legitimar as propostas da Liga, como tentou congregar os discípulos e auxiliares em torno dela, estratégia indispensável para atingir os objetivos que se propunha, de reforma da saúde pública.

Esta solução que, podemos dizer, partiu de fora de Manguinhos, mas contou com a participação ativa de vários membros do Instituto e com a simpatia de todos, foi eficiente no sentido de procurar estabelecer laços de solidariedade entre todos os médicos, jovens assistentes e auxiliares que haviam trabalhado e se formado com Oswaldo Cruz, instituindo-se uma identidade a partir desta relação. A Liga conclamava à união de todos para continuar a missão de sanear o Brasil.

Para os objetivos desta entidade era fundamental obter o apoio da classe médica, em especial do Instituto Oswaldo Cruz, que, até aquele momento, constituíra a referência básica das idéias sanitárias consideradas as mais modernas e condizentes com os avanços internacionais no campo da higiene pública. Oswaldo Cruz e seu grupo lideraram o movimento de reformulação da saúde pública brasileira de acordo com os últimos parâmetros científicos dados pelo desenvolvimento da microbiologia, a qual influía decisivamente sobre a medicina e a higiene.

Além disso, a história já tinha revelado que a desunião entre os médicos representava um fator de fragilidade para as propostas de intervenção social que pudessem esboçar. Assim acontecera em relação às mudanças preconizadas por Oswaldo Cruz em 1903, quando a categoria mostrou-se totalmente fragmentada. Como os governos e os políticos poderiam decidir sobre uma proposta se sobre ela não havia se formado um consenso entre os médicos?

Assim, para a Liga, criar uma identidade de grupo significava fortalecer as suas propostas de mudança. E esta identidade só foi possível graças ao recurso que se fez ao nome de Oswaldo Cruz, passando-se por cima dos conflitos em torno do personagem e contribuindo para a reconstrução de sua biografia como herói fundador da medicina experimental. Procurava-se, no plano ideológico, sedimentar sentimentos de solidariedade através da construção de uma imagem idealizada de Oswaldo Cruz, utilizada como um instrumento para minimizar as dissensões internas ao Instituto de Manguinhos. Nesse sentido, o depoimento de Artur Neiva, na carta em que comunica a Carlos Chagas o rompimento de suas relações, é muito ilustrativo.

(...) independente da sua vontade e de seu desejo agora

manifestado em carta, de me colocar entre os que o hostilizam,

eu estarei a seu lado como força imponderável, é certo, porém,

cumprindo o meu dever para com a memória do Oswaldo,

sempre que você se colocar em condições de honrar a herança

que recebeu (Artur Neiva, carta de 18 de julho de 1917, Arquivo

Artur Neiva).

Deste modo, a idealização de Oswaldo Cruz funcionou como um importante instrumento político de solidarização entre os médicos, na medida em que visava à legitimação de suas propostas promovendo o reconhecimento do Instituto, o qual representava uma referência institucional indispensável aos seus objetivos. Em outras palavras, fir-mar publicamente uma certa imagem de Oswaldo Cruz significava conquistar para o movimento o prestígio e a posição que Manguinhos ocupava na hierarquia de consagração cultural e científica.

Embora se possa identificar o culto à memória de Oswaldo Cruz à Liga Pró-Saneamento, ele ganhou vida própria e sobreviveu a esta entidade, estendendo-se muito além do período de sua vigência (1918-1920). O culto à memória tornou-se um movimento mais amplo e de certa forma difuso de heroificação de Oswaldo Cruz, constituindo um fenômeno observável ao longo do tempo, presente no imaginário social até os dias atuais.

Como declarou Olímpio da Fonseca a um jornal logo após a morte do cientista, “Oswaldo Cruz não morrera, ele deixara apenas de ser mortal”. Continuava a viver através dos seus discípulos e auxiliares, aos quais cabia não apenas a tarefa de dar continuidade à sua obra, mas a de devotar-se à glorificação de seu nome.

O culto à memória de Oswaldo Cruz traduziu-se num eficiente elemento constituinte da identidade sanitarista, e foi incentivado por inúmeras gerações de médicos que deixaram patenteado, em atos e palavras, o seu compromisso de reverenciar aquele que passou a ser considerado o mito de origem do sanitarismo no Brasil. Uma extensa bibliografia – cujo capítulo forte são as biografias, necrológios, panegíricos, textos encomiásticos – produzida a partir da morte de Oswaldo Cruz constitui um conjunto significativo de testemunhos que contribuíram decisivamente para criar a imagem mitificada que se conhece.

Em sua maioria estes textos foram escritos, a princípio, por um grupo de médicos contemporâneos de Oswaldo Cruz e mais ligados a ele. Foi, contudo, este discurso reproduzido por gerações de médicos que, ao longo do tempo, empreenderam um eficiente trabalho ideológico, constituindo uma tradição escrita e oral de culto à memória de Oswaldo Cruz que, lado a lado com festividades organizadas com o propósito de marcar a sua presença e eternizá-la, sobreviveu no imaginário nacional.

Acredito que, mesmo sem ter sido exaustivo, o levantamento destes textos possibilitou perceber a existência de um amplo e significativo conjunto de imagens simbólicas sobre Oswaldo Cruz, as quais conformam o que denomino hagiografia oswaldiana, e que é a fonte privilegiada desta análise.

 

A hagiografia oswaldiana

Falar de Oswaldo Cruz não se revela fácil empreendimento...

de há muito está sendo objeto da atenção geral, pertencendo à

raça especial de homens, cuja vida cria bibliotecas.

Carlos Seidl, 1917

“Seria possível uma biografia de Oswaldo Cruz?” indaga a si mesmo o médico baiano Clementino Fraga, que trabalhou com Oswaldo Cruz na Diretoria Geral de Saúde Pública entre os anos de 1903 e 1907, e freqüentou o Curso de Aplicação do Instituto Oswaldo Cruz, considerado o melhor curso da época para aprendizado de técnicas microbiológicas e de bacteriologia.

Muitos anos mais tarde, Clementino Fraga – um clínico que desenvolvera pendores literários – dedicou-se a escrever a biografia de Oswaldo Cruz. Do ponto de vista deste biógrafo, apesar da brevidade de sua vida, a atuação de Oswaldo Cruz como homem público fora fulgurante: encontrara a glória em curto espaço de tempo. A extraordinária ascensão científica e social de Oswaldo Cruz, no entendimento de Fraga, justificava este tipo de obra.

Como pude verificar, tal opinião foi compartilhada por diferentes gerações de médicos, que, a partir dos contemporâneos de Oswaldo Cruz, seguiram-lhes o exemplo, produzindo um amplo conjunto de textos voltados para cantar sua vida em prosa e verso. De fato, uma copiosa literatura foi produzida sobre Oswaldo Cruz, cuja característica essencial é o tom laudatório.

Ao relembrar fatos da vida quotidiana da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro na virada do século, Pedro Nava, em seu livro autobiográfico Baú de Ossos, faz uma observação provocante a respeito dos testemunhos sobre os médicos daquela época: em geral, caracterizam-se por sua parcialidade, já que diversos assuntos considerados como tabu não são revelados, pairando sobre eles um pesado silêncio.

Segundo Nava, a omissão de informações propicia as versões caluniosas que “nunca são escritas, mas que permanecem vivas através da tradição oral, alongando-se no tempo como uma cobra venenosa” (Nava, 1984:251).

Esta forma de encarar a história, afirma Nava, deturpa a vida dos personagens, prejudicando a compreensão do seu verdadeiro significado, e, assim, deveriam as biografias tratar de todos os assuntos, em vez de procurar omitir alguns deles. No texto a seguir, Pedro Nava dá sua opinião a respeito da questão de que nos ocupamos, nomeando o nosso personagem principal:

Se os que têm uma visão bondosa dos fatos se abstêm de

comentá-los, deixam o campo livre para os bichos rastejantes

que babam no tronco das grandes árvores. Se não se toca

nesses assuntos, acabam os homens distorcidos e esvaziados

da substância humana que neles habitou. É o que acontece

com a maioria dos nossos grandes médicos, cujas vidas são

geralmente abordadas por biógrafos com luvas de borracha que

desinfetam tudo que existe de humano para só ensaiar o mito

esterilizado que anula o homem. Onde estais, Miguel Couto,

Oswaldo Cruz e Carlos Chagas? Quem vos poderá conhecer

dentro de roupagens de santo com que vos afublaram e que

tanto vos desfiguram? Esquecem que cada homem só vive e é

grande quando mostrado integralmente. Nos seus acertos e

erros. Nos acertos e erros dos outros sobre sua pessoa (Nava,

1984:251).

Como acertadamente constata Nava, os biógrafos com luvas de borracha anulam o homem para poder criar o mito, o qual é desprovido de seus conteúdos propriamente humanos. Todavia, engana-se o romancista ao sugerir que seria possível descobrir o homem sob o santo, posto que a qualidade da linguagem mítica reside nisto: embaralhar o real e a fantasia a fim de produzir o efeito desejado, isto é, a sacralização do indivíduo.

Por meio dessa operação é possível projetar-se o indivíduo para fora do círculo do tempo, despindo-o da temporalidade que circunscreve a vida humana. Assim, é possível falar de um espírito atemporal, como se os significados a ele atribuídos fossem imemoriais, sem data de origem.

É interessante notar estes efeitos no caso de Oswaldo Cruz, embora o processo de divinização não tenha implicado a perda mas, ao contrário, a construção de uma memória e de uma identidade coletiva: a do sanitarismo identificado com a pesquisa de laboratório no campo das doenças endêmicas, ou como eram conhecidas as doenças nacionais.

Esta é a origem do mito, e nos símbolos a ele associados identifica-se imagens relacionadas à identidade que construiu-se em torno dele. De fato, é possível perceber um certo padrão de símbolos aos quais vincula-se a imagem do cientista. Esta imagética é visivelmente detectada, após algumas leituras, por força até da exaustão com que é repetida.

Periodicamente, a partir da morte de Oswaldo Cruz, um certo número de textos sobre ele foi produzido no gênero biográfico, sejam ensaios de menor fôlego que abordam apenas determinados aspectos da vida profissional, sejam relatos que assumem a forma mais pretensiosa e clássica de biografias que procuram abranger a vida do cientista extensivamente.

Os textos identificados, que encontram-se relacionados ao final deste trabalho, abarcam um período relativamente longo de tempo: os primeiros são de 1917 e o último registro data do ano de 1974.

É significativo que, durante este período, sempre que possível, tenhase comemorado Oswaldo Cruz em associação com uma solenidade nacional, como por exemplo a do centenário da Independência em 1922 e a do sesquicentenário da mesma efeméride em 1972.

A bibliografia sobre Oswaldo Cruz consultada por mim é composta de variadas referências: diversos necrológios, uma biocronologia, cinco biografias e numerosos artigos de feição histórica que pretendem recuperar os feitos de Oswaldo Cruz, destacando-se os que versam sobre o instituto de pesquisas que criou. Do levantamento efetuado consta até mesmo uma revista de história em quadrinhos que narra a campanha de saneamento do Rio de Janeiro.

Registramos ainda alguns títulos publicados no estrangeiro, mais especificamente na Argentina e no Peru, cujas comunidades científicas já havia algum tempo vinham estabelecendo laços de aproximação com os médicos brasileiros. Estes, sempre que possível, referem-se a tais textos como um sinal da consagração de Oswaldo Cruz no plano internacional.

Ante a extensão desta bibliografia, selecionei para análise um con-junto de textos que julgamos os mais significativos. Apesar de não esgotarem o universo possível de referências sobre o assunto, os textos selecionados cristalizam certos elementos cruciais do mito, apropriados e reproduzidos posteriormente: são, pois, clássicos estes textos constantemente referidos pela literatura, acadêmica ou não, dedicada a Oswaldo Cruz.

Alguns critérios orientaram essa escolha de textos. Em primeiro lugar, interferiram decisivamente a constatação da repetição exaustiva de símbolos e imagens e a reprodução literal de fatos e versões que nada acrescentavam ao que já tinha sido dito anteriormente. Em segundo lugar, privilegiaram-se os textos escritos entre 1917 a 1922, que consideramos o período em que despontou o movimento de culto à memória, explicitamente assumido pelos discípulos: é neste período que se constroem e se consolidam elementos fundamentais do mito que, posteriormente, seriam exaustivamente repetidos pela literatura. Em terceiro lugar, optou-se preferencialmente, mas não exaustivamente, pelos textos dos chamados discípulos. Nesse sentido, vale assinalar o livro Oswaldo Cruz no Julgamento dos Contemporâneos, publicado em 1972, que é uma coletânea de artigos publicados no período de 1917 a 1922, referência básica para a elaboração deste trabalho.

É interessante notar que, em diferentes épocas, muitos artigos escritos no período imediatamente posterior à morte de Oswaldo Cruz foram sucessivamente reeditados.

Do ponto de vista do conteúdo, é possível dividir esta literatura em dois grupos: o de ensaios e artigos (incluindo os necrológios publicados nos jornais) e as biografias.

Verificamos que, apesar das diferentes formas de abordar a vida de Oswaldo Cruz, no essencial a interpretação que se dá aos fatos é semelhante. Os artigos e ensaios detêm-se, de modo geral, em certos aspectos da trajetória profissional, destacando as qualidades de cientista, fundador da medicina experimental no Brasil. Por outro lado, exaltam a sua face de higienista competente, a que atribuíram o título de o saneador do Rio de Janeiro e do Brasil.

As biografias têm outro padrão de apresentação dos assuntos, não ficando circunscritas aos temas do grupo anterior, que se parecem com um retrato 3 x 4.

Identificamos cinco biografias e pudemos proceder à leitura de três; as outras duas não foram localizadas.

Além de abordarem aspectos da trajetória profissional de Oswaldo Cruz, as biografias procuram abranger a origem social e a vida familiar. Em que pese o tratamento mais extensivo que as biografias procuram dar à vida de Oswaldo Cruz, este grupo de textos não traz inovações substantivas em relação aos que haviam sido publicados anteriormente, em especial aqueles escritos logo após a morte do biografado. Com uma seleção criteriosa de determinadas passagens e fatos, reproduzem as versões existentes.

O médico e amigo de Oswaldo Cruz, Sales Guerra, apresenta uma explicação convincente para esta questão. Logo na introdução da biografia que escreveu, chama a atenção do leitor para a inevitabilidade da repetição dos fatos em trabalhos deste gênero. Percebe, contudo, uma vantagem na repetição, que é a de “abrir na memória de cada um sulcos mais profundos, onde se aninhará e permanecerá mais tempo a grata lembrança do grande higienista” (Guerra, 1940:24).

Ou seja, o autor assinala um veio importante desta literatura: a sua função pedagógica, de resto intenção explicitamente reconhecida por todos os biógrafos de Oswaldo Cruz. De fato, as biografias têm um profundo conteúdo moralizante, pois entendiam seus autores que a vida de Oswaldo Cruz era “uma fonte de lições e exemplos edificantes”. Sales Guerra justifica o livro que escreveu afirmando que Oswaldo Cruz “foi modelo irradiante de trabalho, de civismo, de bondade, de inteireza de caráter, de abnegação até ao sacrifício” (Guerra, 1940:20).

É interessante notar que, entre os biógrafos, o único que declara explicitamente ter mesclado ficção e realidade é Phocion Serpa, que considera esta forma de abordar o assunto um meio eficaz de atrair o público infanto-juvenil, o qual desejava atingir. Reconhece Phocion Serpa que, apesar de não ter falseado os fatos, “polvilhou a narrativa com um pouco de fantasia, para adorná-la e torná-la mais atraente”. Acredita que o gênero do conto de fadas é muito eficiente para educar as mentes infantis, sendo a fantasia tão necessária à formação dos jovens quanto a verdade (Serpa, 1937).

A partir de tais declarações, pode-se imaginar o resultado de seu trabalho: mesmo com a advertência de que é uma obra ficcional, o livro é, entre todos os que consultei, o mais exageradamente laudatório e, não é demais dizer, quase delirante.

Apresentam estas biografias um outro aspecto bem relevante para os propósitos deste trabalho, vez que tentam fornecer uma interpretação dos fatos de modo a imputar uma coerência à história de vida ex post factum, como se ela houvesse transcorrido de forma linear e ascencional na direção do sucesso. Assim, a vida de Oswaldo Cruz, na palavra de seus biógrafos, tornou-se uma trajetória perfeita em termos de objetivos, determinação e vitórias pessoais.

Vale assinalar que, apesar de não constituírem as fontes mais importantes sobre a vida de Oswaldo Cruz, suas biografias são consideradas uma versão autorizada dos fatos, sendo constantemente citadas. Porém, como já assinalamos, tivemos a oportunidade de observar que, do ponto de vista do conteúdo, a diferença é muito pequena entre elas e os ensaios e artigos que foram publicados logo após a sua morte.

A idéia geral que transparece das biografias é a de interpretar a vida de Oswaldo Cruz como se fosse dividida em duas fases, cujo critério de distinção é a visibilidade pública. A primeira fase corresponde à vida privada, à família e ao momento inicial de sua profissionalização. Na interpretação dos biógrafos, o período corresponde à preparação para a fase seguinte, em que o biografado sai do anonimato diretamente para o centro do cenário político, a partir de 1903, quando passou a ocupar o cargo de diretor da Diretoria Geral de Saúde Pública e do Instituto de Manguinhos. Muitos fatos da vida de Oswaldo Cruz são pouco esclarecidos, permanecendo uma série de “zonas de sombra” que necessitam de investigação mais apurada, pois nem mesmo as biografias mais extensas fornecem as respostas adequadas.

Para completar as informações que vimos resumindo sobre o con-junto de textos analisados, faz-se necessário acrescentar alguns comentários sobre os autores e as datas das edições de seus trabalhos.

Como já se disse, entre os anos de 1917 e 1922 publicaram-se diversos textos – a maior parte de autoria dos discípulos, como Carlos Chagas, Artur Neiva, Ezequiel Dias, Belisário Pena, Clementino Fraga –, visivelmente escritos sob o impacto da emoção provocada pelo desaparecimento do cientista. Talvez, por isso, constituam o conjunto mais significativo de textos que concorreram para a construção do mito de Oswaldo Cruz, nos quais aparece de forma explícita a convocação ao culto da memória.

Além destes textos, localizamos como referência importante do período um volume da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, publicado em 1922, comemorativo do centenário da Independência do Brasil, em que constam artigos de Carlos Chagas e Ezequiel Dias, escritos em homenagem ao cientista. Neste mesmo ano, Belisário Pena escreve, também em homenagem a Oswaldo Cruz, Impressões de um Discípulo, coletânea que reúne textos publicados desde 1916, quando Belisário Pena afirma ter aderido à idéia do saneamento rural.

Após esta data, as referências mais importantes são as biografias publicadas nos anos 30. A primeira, escrita por Phocion Serpa, é de 1937 e recebeu o sugestivo título de A Vida Gloriosa de Oswaldo Cruz. O autor era membro da Academia Carioca de Letras e funcionário da Saúde Pública. Ainda neste ano veio à luz outra biografia, com o curioso título de O Romance de Oswaldo Cruz, de autoria do médico Gastão Pereira da Silva.

Em 1940, a Editora Vecchi lançou Vida e Obra de Oswaldo Cruz, do médico Sales Guerra, que é considerado o melhor trabalho do gênero. A outra referência identificada foi a biografia intitulada Oswaldo Cruz, Vida e Obra, escrita em 1944 pelo médico Antônio Austregésilo, contemporâneo de Oswaldo Cruz, e publicada pelo Departamento de Imprensa Nacional. O último título levantado desta série biográfica, Vida e Obra de Oswaldo Cruz, do médico baiano Clementino Fraga, que apresentava-se como um dos discípulos de Oswaldo Cruz, foi publicado bem mais tarde, em 1972, pela Editora José Olympio.

Entre os vários textos da década de 50, destacam-se os dos discípulos Henrique Rocha Lima, Henrique Aragão e Olímpio da Fonseca, os dois últimos escritos por ocasião da comemoração do cinqüentenário de fundação do Instituto Oswaldo Cruz, no ano de 1950.

Henrique Aragão publicou, na revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, um artigo em que procurou revelar as qualidades ímpares de Oswaldo Cruz como mestre e chefe de escola. A par do perfil do mestre, Aragão esforça-se por fazer um retrato mais amplo do Instituto durante os anos iniciais, que denomina de heróicos. Assim, recorda alguns episódios, descreve o espaço físico de que dispunha o Instituto e as transformações que este sofreu ao longo do tempo, bem como relata aspectos da convivência entre os técnicos aprendizes e Oswaldo Cruz.

Decerto os discípulos elegem como objeto privilegiado de suas recordações a fase conhecida como heróica, porque a consideram exemplar quanto aos objetivos e funcionamento da instituição, mas também porque a julgam perfeita do ponto de vista das relações pessoais, pautadas na harmonia e solidariedade coletivas.

Certamente a idealização das relações no passado não corresponde exatamente à realidade, como se pôde ver no capítulo 3, mas encontra sentido se iluminada pela ideologia que heroificou Oswaldo Cruz. É parte constituinte do mito reportar-se a um tempo edênico, que corresponde ao período de vida de Oswaldo Cruz, e que não se repetiria após o seu desaparecimento.

O artigo escrito por Olímpio da Fonseca, que foi diretor do Instituto de Manguinhos nos anos 50, é dedicado à comemoração do centenário de nascimento do ex-presidente Rodrigues Alves e, como já disse, do cinqüentenário da fundação do Instituto. O autor procura focalizar a importância da relação existente entre Oswaldo Cruz e Rodrigues Alves, que permitiu a ambos realizarem os objetivos que tinham em comum e cujo resultado foi o saneamento e

embelezamento da cidade do Rio de Janeiro40.

Um dos mais antigos pesquisadores do Instituto, Henrique Rocha Lima, escreveu um artigo intitulado “Com Oswaldo Cruz em Manguinhos”, que seria publicado na revista Ciência e Cultura em 1952 e, posteriormente, reproduzido em Oswaldo Cruz Monumenta Histórica. Campanhas e Inquéritos Sanitários, de Edgar Cerqueira Falcão, obra que consultei. O relato, que é um dos menos laudatórios entre os que localizei, nem por isso mostra-se menos emocionado ao recordar a convivência do autor com Oswaldo Cruz em Manguinhos durante os primeiros anos do século XX, cuja evocação procura recuperar os aspectos da experiência vivida pelo grupo pioneiro dos pesquisadores do Instituto em seu aprendizado científico ao lado de Oswaldo Cruz.

Durante a década de 50, identificam-se outras referências bibliográficas, menos importantes do que as mencionadas: trata-se, em geral, de textos eventuais, discursos pronunciados em variadas solenidades institucionais. Vale, porém, mencionar as iniciativas do médico Ivolino de Vasconcelos, presidente do Instituto Brasileiro de História da Medicina, que entre outros textos empenhados em registrar a memória da história da medicina brasileira, publicou, em separata da Revista Brasileira de História da Medicina, no ano de 1956, dois trabalhos dedicados a Oswaldo Cruz: o folheto sobre o monumento a Oswaldo Cruz, já mencionado no capítulo 2 deste trabalho, e um segundo, dedicado a relembrar a importância do famoso clínico Francisco de Castro na vida de Oswaldo Cruz. Atribuiu-se a este clínico a viagem para a especialização em microbiologia que Oswaldo Cruz fez no Instituto Pasteur, seguindo um conselho seu. Consta que Francisco de Castro, por ocasião de uma

visita ao pai de Oswaldo Cruz, o higienista Bento Gonçalves Cruz, tivera uma intuição sobre as habilidades do jovem médico ao vê-lo fazendo experiências num laboratório que mantinha no porão de sua

casa41.

Durante a década de 60, registra-se a Biocronologia, de autoria do médico e escritor Pedro Nava, publicada na revista Brasil Médico em 1962. Nos anos 70, Oswaldo Cruz no Julgamento dos Contemporâneos foi publicado por iniciativa da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Fundação Getúlio Vargas, para comemorar, em 1972, o centenário de nascimento de Oswaldo Cruz. Trata-se de nova publicação de textos reunidos, escritos, em sua maioria, entre os anos de 1917 e 1922, que inclui os artigos de Henrique Aragão e Olímpio da Fonseca, escritos posteriormente, e a conferência de Rui Barbosa sobre Oswaldo Cruz, proferida em junho de 1917, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Resta indicar as publicações da coleção Brasiliensia Documenta. Sob o título de Oswaldo Cruz Monumenta Histórica, Edgar Cerqueira Falcão, médico e também historiador da medicina no Brasil, editou em 1974 uma obra de referência obrigatória sobre Oswaldo Cruz, em dois volumes intitulados: A Incompreensão de uma Época, Oswaldo Cruz e a Caricatura, e A Escola de Manguinhos, Campanhas e Inquéritos Sanitários.

Faz igualmente parte desta coleção o livro de Olímpio da Fonseca, editado também neste mesmo ano, com o título de Escola de Manguinhos. O livro, que pretende ser um relato histórico sobre o Instituto Oswaldo Cruz desde a sua criação, não institui uma abordagem diferente das que já tinham sido propostas, exceto pelas informações a respeito da organização dos laboratórios e das pesquisas que se desenvolveram desde o início de Manguinhos até os anos 50. Inclui, ainda, entre al-guns relatórios de viagens científicas pelo interior do país, de que participou o autor, o relatório da viagem de Oswaldo Cruz à Amazônia em 1910.

A análise que procuramos fazer desta bibliografia demonstra a sua relevância no sentido de perpetuar o nome de Oswaldo Cruz. Pode-se dizer que ela é responsável pela construção e consolidação de representações que alimentaram o imaginário social brasileiro a respeito do cientista. Estes textos constituíram-se num poderoso veículo de difusão, senão de todos, pelo menos de alguns dos símbolos mais importantes e comumente associados à figura de Oswaldo Cruz. Deles trataremos a seguir, procurando, através do discurso dos discípulos, verificar como foram construídos determinados símbolos, tentando desvendá-los e interpretá-los. Nesse sentido, nos detivemos em duas imagens essenciais que sobressaíram deste conjunto. Procuramos defini-las e sintetizá-las em dois perfis que focalizam a face pública de sua vida: o saneador e o cientista.

 

Oswaldo Cruz será o nosso In hoc signo vinces

Oswaldo Cruz será o nosso In hoc signo vinces, resplandecente

e glorioso em que nos encontramos envolvidos pela sua morte.

Artur Neiva, 1917

Como explicar o êxito alcançado por Oswaldo Cruz? Esta indagação central motiva o trabalho dos memorialistas, os quais procuram responder o que julgam ser um fenômeno incomum. Quem, em tão curto espaço de tempo e tão jovem, já proporcionara tamanhos benefícios ao país? Como conseguiu transformar uma tapera – referência à fazenda de Manguinhos onde se instalou o Instituto Soroterápico em 1900 – num palácio das mil e uma noites?

De forma consensual, os memorialistas explicam o êxito profissional de Oswaldo Cruz pelos seus dons pessoais. A dimensão psicológica é privilegiada pelas análises: busca-se compreender o sucesso da trajetória profissional, relacionando-a a traços de personalidade considerados invulgares.

De uma série quase inumerável de qualidades e atributos sobressaem a modéstia, a integridade do caráter, o espírito de justiça, a generosidade, a austeridade, a disciplina – traços que configuravam, de acordo com estes relatos, o talento pessoal de Oswaldo Cruz, constantemente referidos como características que compunham uma personalidade singular.

Vale ressaltar que nenhum dos relatos e biografias consultados admitem a questão do poder como um elemento importante para explicar o sucesso alcançado por Oswaldo Cruz na vida pública, ou sequer especula sobre se o poder constituía a substância real deste

sucesso42.

Apesar de sua relevância, a temática do poder permanece em plano secundário nesta literatura, sempre subordinada ao plano da personalidade, na qual sublinham-se exaustivamente as qualidades carismáticas reveladas no âmbito profissional, cujo perfil procuram os textos ad nauseam retratar.

Esta série de atributos raros delineiam o que é considerado uma das maiores qualidades de Oswaldo Cruz: a de condutor de homens. Conforme a opinião de Ezequiel Dias, pesquisador do Instituto e cunhado de Oswaldo Cruz, “o mestre parecia haver nascido para mandar e comandar” (Dias, 1972:159).

Ressaltam-se as qualidades de homem de ação, a qual, para Artur Neiva, era algo raro no caráter do brasileiro, “conceito que não possuíam mais do que vinte nomes na história do Brasil desde a Independência” (Neiva, 1972:7).

Nestas análises da personalidade de Oswaldo Cruz, não faltam comentários a respeito de comportamentos tidos como estranhos. Por exemplo, o hábito de Oswaldo Cruz isolar-se por longo tempo em seu gabinete de trabalho e, na penumbra, queimar substâncias, referidas como perfumes ou incensos. Com freqüência, menciona-se o seu caráter místico e sonhador, um idealista com espírito de

poeta, que encontrava-se desviado desta vocação de artista43.

Às peculiaridades da personalidade aliava-se a singularidade do tipo físico, realçada em descrições pormenorizadas. Henrique Aragão relembra como Oswaldo Cruz sobressaía entre aqueles que viajavam no trem da Leopoldina, durante o trajeto para chegar à fazenda de Manguinhos no início do século:

A figura de Oswaldo destacava-se dentre os presentes. Havia

alguma coisa de inconfundível nesse homem ainda jovem mas

precocemente encanecido, e estatura meó, tez clara, o rosto

fino, bigodes pretos com as pontas voltadas para cima, e um

olhar a um tempo suave e penetrante. Vestia-se de preto,

usando longa sobrecasaca e, na sua indumentária, fazia

contraste a alva gravata de fustão cujas pontas, feito o laço,

perdiam-se debaixo do colete. Cobria-lhe a cabeça uma cartola

de abas recurvadas e copa demasiadamente longa para a

moda da época. Cabelos compridos pretos, mesclados de fios

prateados, escapavam-se em mechas indisciplinadas, por baixo

das abas da cartola. Trazia sempre sob o braço volumosa pasta

de couro preto, cheia de papéis e revistas científicas (Aragão,

1972:193).

Para os memorialistas, Oswaldo Cruz destacava-se naturalmente em qualquer ambiente onde se encontrasse. Pergunta um de seus biógrafos: “O que havia em Oswaldo Cruz de singular e estranho? Seria a sua aparência anciã? Seria aquela cabeleira farta, levemente ondeada, pintalgada de fios prateados? Seriam os olhos, a sua face, os seus gestos?” (Serpa, 1937:65).

Conforme este autor, as qualidades superiores de Oswaldo Cruz revelavam-se através do físico, e por isso ele sobressaía na multidão. Produzia-se um fenômeno mítico entre o herói e os seus seguidores, que possuíam a capacidade de percebê-lo como tal. Mesmo antes de ele tornar-se conhecido e demonstrar as suas habilidades extraordinárias, estas eram pressentidas pelo povo. Apesar do físico que atraía a curiosidade alheia, Serpa acredita, no entanto, que a particularidade de Oswaldo Cruz residia em sua personalidade, que “selecionava-o dos demais, pondo-o em evidência”:

A diferença sensível era o homem em si mesmo, com os traços

visíveis de sua inteligência, de seu caráter e, talvez, do seu

destino, estampados já na fronte magnífica. Só as crianças e o

povo possuem esta outra vista misteriosa capaz de distinguir na

multidão os predestinados: heróis, mártires e santos (Serpa,

1937:66).

Apesar do evidente romantismo e idealismo desta interpretação, de certa forma ela sintetiza a opinião prevalecente entre os memorialistas.

Assim, a análise psicológica bastante explorada nesta literatura ganha novo sentido se encarada como parte fundamental da construção idealizada de Oswaldo Cruz. Herói, mártir e santo da ciência, Oswaldo Cruz nascera predestinado a realizar o que realizou: sanear o Brasil e fundar no país a medicina experimental, trabalhando para libertar a nação das doenças que a envergonhavam.

O recurso à idéia da predestinação cumpre uma função importante para a construção do mito. Ela permite que se atribua à história de vida de Oswaldo Cruz uma coerência e um sentido próprios de um modelo. Enquanto tal, é tratada como um símbolo de perfeição que deveria conduzir os atos e comportamentos dos vivos. Como já se viu, em parte desta literatura, os memorialistas descrevem a trajetória de vida de Oswaldo Cruz como o caminho da consagração, feito de sucessivas e progressivas vitórias. Sales Guerra sintetiza admiravelmente esta opinião na passagem a seguir:

Oswaldo Cruz consumiu-se no serviço da pátria: apagou-se aos

44 anos. Sua vida, cheia de exemplos dignificantes, expressão

das mais raras qualidades, redigida à feição, deverá ser a

leitura de cada dia, nas escolas, para suscitar imitadores

daquele incomparável modelo (Guerra, 1929:299).

Na biografia que escreveu, Clementino Fraga observa que a idealização presente nestas interpretações concorre para a desumanização de Oswaldo Cruz. Em sua opinião, a interpretação de que ele era um predestinado, “com mandato nominal para vir ao mundo”, compromete o seu mérito pessoal, menosprezando os estudos e esforços que empreendeu como cientista. Afirma que a análise de sua história de vida não autoriza nenhuma ilação deste tipo, porquanto nada há nela de excepcional, nem mesmo o seu interesse pela microbiologia, fato normal para um estudante de medicina que atingira a vida profissional em plena era pasteuriana. Tampouco a sua indicação para a Diretoria Geral de Saúde Pública constituiu um fato extraordinário, podendo ser encarada como uma circunstância ocasional e feliz que “conjugava um jovem profissional com os interesses patrióticos de um governo disposto a gastar e que dispunha de cofres cheios” (Fraga, 1972:5).

Porém, como verifica-se, estes comentários não redundaram numa postura diferente de Fraga diante de seu biografado; ele mantém o mesmo tom laudatório dos demais. E mais que isto, percebe-se que, em seu trabalho, inúmeros trechos reproduzem literalmente passagens e interpretações de outros textos que lhe serviram de referência, principalmente a biografia escrita por Sales Guerra.

Vista pela lente das idealizações, a trajetória de vida de Oswaldo Cruz transformou-se numa grande epopéia, como afirma Henrique Autran, funcionário da Diretoria Geral de Saúde Pública, e que se considerava discípulo. Tratado como um herói, Oswaldo Cruz foi alçado ao panteão nacional brasileiro, onde deveria figurar em lugar destacado.

Um exemplo característico desta opinião é Belisário Pena, para quem em tempo algum houve na história “outro brasileiro que se igualasse a Oswaldo Cruz”, e que chegou a propor que se construísse, na capital do país, uma estátua de ouro maciço em tamanho natural, e outras estátuas em cada praça de cada cidade ou vila do Brasil. Segundo este higienista, os brasileiros deveriam homenagear Oswaldo Cruz tendo em casa a sua efígie (Pena, 1922:13).

Como discernir, na vida de um herói, entre fantasia e realidade? De nossa parte procuramos compreender, através do discurso dos memorialistas, as representações que contribuíram para tornar Oswaldo Cruz um mito da ciência brasileira. Nesse sentido, verificamos duas imagens essenciais: a do saneador e a do cientista, fundador da medicina experimental. Delas, trataremos a seguir.

 

O saneador do Rio de Janeiro

“Quem é esse Oswaldo Cruz, Dr. Seabra?” perguntou o presidente Rodrigues Alves ao ministro da Justiça, J. J. Seabra, que lhe apresentava o nome do cientista para ocupar a Diretoria Geral de Saúde Pública. O episódio é narrado por Sales Guerra, responsável pela indicação de Oswaldo Cruz ao ministro, de quem era médico particular.

Se na esfera governamental o cientista era um estranho, no meio médico, de acordo com o relato de Sales Guerra, acontecia o mesmo. Poucos o conheciam e tinham referência do seu consultório na Travessa de São Francisco, onde clinicava na especialidade de doenças geniturinárias e, simultaneamente, montara um laboratório de análises clínicas.

Sales Guerra assinala que havia sido convidado para ocupar o cargo, mas declinara do convite argumentando não possuir especialização neste campo. Além disso, confessou ao ministro que não possuía vocação para ser funcionário público e que não abandonaria a clínica privada. Nesta oportunidade, comentou com o ministro a respeito da campanha sanitária contra a febre amarela que acabara de se realizar em Cuba, utilizando o método novo de combater mosquitos considerados os transmissores da doença. Assim, aproveitou para falar de Oswaldo Cruz, dizendo que conhecia um médico brasileiro que interessava-se pelo assunto e acompanhara a campanha dos médicos norte-americanos em Cuba.

Conforme a versão de Sales Guerra, esta é a história da nomeação de Oswaldo Cruz para a Diretoria Geral de Saúde Pública, onde tomou posse no dia 23 de março de 1903. Segundo Sales Guerra, Oswaldo Cruz não tomou conhecimento da articulação feita em torno de seu nome até o momento em que foi levado à presença do ministro, que quis conhecê-lo.

A narrativa que resumimos é exemplar de como a trajetória de vida de Oswaldo Cruz foi tratada pelos memorialistas. Nesta situação, assim como em outros episódios, muitos pontos ficaram obscurecidos pelo argumento central, que acentua o caráter fortuito da nomeação de Oswaldo Cruz. O relato silencia, por exemplo, sobre a existência de outros possíveis candidatos e sequer esclarece se houve algum tipo de apoio político para além da indicação de Sales Guerra ao ministro. Sabe-se apenas, através de Sales Guerra, que o presidente da República consultara o filho, Oscar Rodrigues Alves, médico recém-formado, sobre Oswaldo Cruz, de quem recebeu as melhores recomendações.

Da mesma forma, não encontra-se qualquer comentário a respeito da exoneração de Nuno de Andrade, que então ocupava a direção da Diretoria Geral de Saúde Pública. Afinal, tratava-se de um médico de prestígio, professor catedrático da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e presidente da Academia Nacional de Medicina. Era de se esperar que o episódio merecesse dos biógrafos um tratamento mais aprofundado. Afinal, em pouco tempo Oswaldo Cruz conseguiu deslocar de postos importantes no aparelho governamental de saúde não apenas Nuno de Andrade, mas também, um pouco antes, em dezembro de 1902, o diretor do Instituto Soroterápico Federal e diretor do Instituto Vacínico Municipal, Barão de Pedro Afonso.

Continuar: parte 2 de 3